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A herança discreta do cotidiano: Assentos de origem

por Revista Amarello
Amarello e Cristiano Ross lançam seleção de mobiliários que recupera a herança dos imigrantes no país

Móveis atravessam décadas sem fazer muito alarde, silenciosamente. Permanecem ali enquanto o entorno muda, acumulando riscos, pequenas assimetrias, manchas de sol, marcas de mãos. Um banco de madeira, por exemplo, guarda bem mais que o sentar. Guarda um modo de viver, marcas de convivência e uma relação muito específica entre pessoas, território e matéria.

A exposição Assentos de origem, realizada pela Amarello em parceria com o antiquário Cristiano Ross, apresenta bancos, mochos e banquetas produzidos por imigrantes alemães e italianos no Sul do Brasil. Expandindo o que seria uma pesquisa linear, a seleção nasceu dos encontros que Ross acumulou ao longo dos anos em sítios, serrarias, casas antigas, depósitos e pequenas cidades do interior sulista. São peças feitas em cedro, cabriúva, canjerana e outras madeiras que carregam, numa só, a memória de técnicas europeias e a adaptação inevitável à paisagem brasileira.

Esses objetos não nasceram para estar em galerias, foram concebidos para o uso diário: ordenhar, cozinhar, esperar, conversar, alcançar uma prateleira alta, descansar depois do trabalho. Muitas dessas peças surgiram em oficinas improvisadas, em pequenas propriedades rurais, construídas por pessoas que precisavam transformar escassez em permanência. As madeiras disponíveis eram outras, mais densas e duras, exigindo adaptações constantes das técnicas trazidas da Europa. O desenho, portanto, vinha menos de uma ideia de estilo e mais da necessidade e da intimidade com a matéria.

Talvez por isso os assentos reunidos na exposição revelem uma beleza difícil de separar da experiência, da praticidade. Em algumas peças aparecem construções mais rígidas e encaixes precisos, associados à tradição alemã. Em outras, percebe-se uma relação mais intuitiva com a madeira, com soluções improvisadas e menos rígidas, frequentemente ligadas à imigração italiana. Nenhuma delas parece interessada em perfeição estética. O valor está na permanência de um objeto que seguiu útil durante décadas.

A imigração europeia no Sul do Brasil costuma ser lembrada pela arquitetura, pela culinária ou pelas festas populares. Os móveis do cotidiano, no entanto, acabam sendo esquecidos quando a conversa é sobre legado, talvez porque pertençam a uma escala mais íntima da cultura. O que pode acabar passando batido, e que guarda a maior beleza, é que um banco não monumentaliza a história, ele participa dela de maneira discreta. Nessas peças cabe muita humanidade. Elas condensam hábitos, repertórios técnicos e relações familiares. Um assento carrega a altura de uma mesa, a postura de quem trabalha, o tamanho de uma cozinha, a lógica de uma casa construída coletivamente. 

Ao longo do tempo, essas linguagens deixaram de pertencer integralmente à Europa. Misturadas ao cotidiano rural brasileiro, às madeiras locais e às necessidades práticas daquele território, acabaram formando uma produção híbrida, impossível de separar completamente entre herança e transformação.

Também chama atenção a inteligência prática presente na seleção. Há soluções estruturais sofisticadas escondidas sob aparente simplicidade. São objetos produzidos sem preocupação formal com o design, mas capazes de resolver problemas de maneira sofisticada, econômica e durável. Existe uma relação direta entre necessidade, estrutura e forma. 

Algumas peças encontradas por Cristiano Ross sobreviveram porque continuaram úteis durante décadas e, portanto, carregam consertos improvisados, deformações e desgastes que revelam uma espécie de biografia material. Às vezes, um reparo antigo diz mais sobre o valor daquele objeto do que sua construção original. 

Reunir esses assentos dentro da Amarello é deslocar o olhar sobre o design brasileiro. Em vez de partir de autores consagrados ou da ideia de peça assinada, aproxima as pessoas de uma produção anônima, construída por comunidades de imigrantes que moldaram sua identidade entre tradição e adaptação. O que se sobressai não é apenas a influência europeia preservada no Brasil, mas algo transformado pela matéria local, pelo trabalho rural e pelas circunstâncias de um novo território.

Assentos de origem deixa claro que a cultura também se preserva através das coisas simples. Um mocho gasto pelo tempo pode contar muito sobre pertencimento, deslocamento e continuidade. Há memórias que não foram escritas em documentos ou fotografias. Permaneceram na madeira, nos encaixes, na altura dos assentos, na insistência de peças que seguiram existindo, porque alguém continuou encontrando utilidade e beleza nelas.

Assentos de Origem
Amarello e Cristiano Ross
A partir do dia 28 de maio na Amarello, Loja & Café
Rua Dr. Melo Alves, 780, em São Paulo.

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