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#55Imagem BrasilAmarello Visita

Amarello Visita: Serra da Capivara

por Gustavo Freixeda

Fotos de Mariana Tassinari.
Colaboração de André Strauss, Maria Antonielli e Tininha Llanos.

A Serra da Capivara impressiona pela vastidão da caatinga, pelos extensos paredões de arenito e pela densidade de sítios com pinturas rupestres. O relevo é marcado por desfiladeiros estreitos, escarpas que se elevam abruptamente sobre o chão pedregoso e cânions que se abrem em cortes profundos na paisagem semiárida. A depender da estação, o verde da vegetação contrasta com o amarelo-terroso do solo, ou então o cenário assume cores mais secas e homogêneas, moldadas pela incidência do sol. É inevitável não extrair do cenário uma impressão de permanência.

Essa impressão é a nascente de muitos debates que, de um jeito ou de outro, também formam o solo da Serra. A paisagem parece imutável, mas as interpretações sobre o passado que ela abriga estão longe de ser. Há em tudo isso um teor político que quase coloca a beleza natural e a relevância de sua história num segundo plano. Parece improvável, tamanha é a vastidão diante dos olhos de quem vê, mas é verdade. O silêncio que reverbera pela paisagem de algum modo parece ecoar perguntas fundamentais: quem fomos? Quem pensamos que somos? Quem pensam que somos?

Antes que o Brasil fosse nomeado, cartografado ou imaginado como projeto de nação, homens e mulheres já habitavam o que hoje é o sudeste do Piauí. Ali, longe dos eixos históricos de validação científica e cultural, está um dos mais contundentes arquivos da presença humana no planeta.

André Strauss, arqueólogo e professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, conduziu pesquisas na Serra da Capivara. De acordo com ele, a Serra “ganhou proeminência no debate sobre o povoamento da América devido à proposta de Niède Guidon e colaboradores de que ali havia evidência comprovando a presença humana na América desde 100 mil anos atrás. Uma hipótese que contrasta muito com as hipóteses amplamente aceitas sobre o tema”.

Em vales de arenito, paredões avermelhados e abrigos naturais da caatinga, há registros de gestos cotidianos, rituais, disputas, afetos e crenças. Os paredões chegam a dezenas de metros de altura, formando grandes blocos inclinados. Em alguns trechos, passarelas de madeira conduzem a poucos centímetros das figuras pintadas há milênios. O vermelho ferruginoso da rocha contrasta com os traços em ocre, branco e negro que representam cenas de caça, dança e conflito. Essas imagens, gravadas e pintadas, atravessaram o tempo até serem reencontradas em um país que ainda reluta em se reconhecer nelas. A Serra da Capivara antecede, portanto, o Brasil histórico e, ao fazê-lo, tensiona a imagem que o país construiu sobre si mesmo e a forma como é percebido pelo mundo.

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O Parque Nacional da Serra da Capivara reúne a maior concentração de sítios arqueológicos com pinturas rupestres das Américas e, possivelmente, do mundo. São mais de mil sítios catalogados, centenas deles preparados para visitação, distribuídos por uma área que ultrapassa 130 mil hectares entre municípios marcados historicamente pela escassez de políticas públicas, infraestrutura e visibilidade. Reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1991, a região se tornou referência internacional para a arqueologia, ao mesmo tempo em que permaneceu à margem do imaginário dominante sobre ciência, desenvolvimento e centralidade cultural.

Esse deslocamento entre importância objetiva e reconhecimento simbólico acompanha a trajetória de Niède Guidon, arqueóloga franco-brasileira que dedicou mais de cinco décadas à defesa da Serra da Capivara. Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, formada em História e especializada em arqueologia pré-histórica na Sorbonne, Guidon chegou à região no final dos anos 1960 e nunca mais saiu. Sua atuação conta com uma extensa lista de feitos, tais como: coordenou escavações que desafiaram consensos científicos consolidados, articulou a criação de um parque nacional, fundou uma instituição de pesquisa, mobilizou recursos internacionais, enfrentou disputas políticas e transformou profundamente a realidade social do entorno. Vale citar que um dos aspectos mais emblemáticos desse processo foi o protagonismo feminino incentivado por ela, entregando às mulheres as funções estratégicas na gestão e na proteção do parque, tornando-as guardiãs dos sítios arqueológicos e referências comunitárias. Esse movimento também redesenhou relações de poder no cotidiano local, ampliando o acesso das mulheres à renda e à autonomia. Sendo assim, as conquistas de Guidon são muitas, e sua importância é inegável, mas as controvérsias acompanharam e marcaram a sua trajetória. “Niède Guidon”, comenta Strauss, “teve um papel importante no estabelecimento institucional da arqueologia no Brasil, bem como na divulgação da arqueologia para o público amplo. Ao mesmo tempo, ela teve um papel negativo ao difundir hipóteses desprovidas de validade científica para o grande público, como a ideia de que os primeiros humanos a chegar na América teriam vindo navegando da África 100 mil anos atrás”.

A polêmica em torno de Guidon ganhou dimensão internacional em 1986, quando ela publicou na revista Nature, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo, um artigo apresentando datações por carbono-14 que indicavam presença humana no sítio Boqueirão da Pedra Furada, uma imensa galeria a céu aberto na Serra da Capivara, há cerca de 32 mil anos. O resultado contrariava o modelo dominante da época, segundo o qual os primeiros habitantes das Américas teriam sido o chamado povo de Clóvis, que viveu há aproximadamente 13 mil anos no atual território dos Estados Unidos. A proposta desafiava o consenso ao sugerir uma ocupação muito mais antiga do continente. No sítio piauiense, a equipe de Guidon encontrou vestígios de fogueiras e artefatos líticos associados a camadas datadas em dezenas de milhares de anos. Se confirmadas, o que até hoje é um ponto de discussão, essas evidências obrigariam uma revisão profunda da cronologia do povoamento americano.

De acordo com Strauss, esses trabalhos geraram controvérsia por três motivos: “Um, porque a ampla evidência arqueológica não indica presença humana na América anterior ao último máximo glacial (portanto, se a interpretação de Niède Guidon e colaboradores sobre as evidências encontradas na Serra da Capivara estiverem corretas, eles demonstram que a ocupação do continente é cerca de cinco vezes mais antiga do que se assume); dois, porque a natureza da evidência apresentada era inconclusiva (estava no limite dos métodos, abrindo espaço para dúvidas); e três, porque a qualidade dos trabalhos analisando e descrevendo os achados era de baixa qualidade (aumentando o espaço para o ceticismo generalizado)”. Ou seja, se estivessem corretas, as datações não apenas recuavam em dezenas de milhares de anos a presença humana nas Américas como também desafiavam métodos, cronologias e consensos consolidados na arqueologia do continente.

A celeuma foi instaurada imediatamente. Como não havia ossos humanos nas camadas mais antigas, críticos argumentaram que os vestígios eram indiretos e poderiam ter origem natural. As supostas fogueiras poderiam ser resultado de incêndios espontâneos, e as ferramentas de pedra se tratariam de fragmentos desprendidos da falésia e modificados por processos geológicos ao longo do tempo. O debate extrapolou o caso específico da Serra da Capivara. Para muitos pesquisadores, aceitar datas tão recuadas implicaria repensar rotas migratórias, capacidades tecnológicas e o próprio processo de dispersão do Homo sapiens pelo planeta.

Em 2003, Guidon ampliou ainda mais a controvérsia ao propor que o sítio poderia ter sido ocupado há cerca de 100 mil anos, hipótese considerada ainda mais improvável pela maioria dos arqueólogos, já que nesse período o Homo sapiens começava a se expandir para fora da África.

O antigo consenso do modelo Clóvis foi enfraquecido por novas evidências de ocupações anteriores a 13 mil anos em outras regiões do continente. Ainda assim, as datas mais remotas defendidas por Guidon seguem em pauta. Os debates em torno da Serra da Capivara viraram um dos capítulos mais marcantes da arqueologia americana, especialmente por expor as tensões entre paradigmas consolidados e descobertas que desafiam o centro da ciência.

A Serra da Capivara passou, então, a simbolizar um Brasil que interpela o eurocentrismo que historicamente orienta narrativas sobre as origens da humanidade e também a centralidade acadêmica dos Estados Unidos na definição de agendas, métodos e consensos científicos. A disputa, ao fim e ao cabo, ultrapassava a cronologia para expor as assimetrias de poder que moldam quem formula as perguntas, quem valida as respostas e quem é reconhecido como produtor legítimo de conhecimento. Durante décadas, as hipóteses formuladas a partir do parque brasileiro enfrentaram contestação, sobretudo de centros acadêmicos norte-americanos, ainda ancorados em modelos explicativos formulados na metade do século 20. A dificuldade de aceitar que um dos mais antigos registros da presença humana nas Américas esteja localizado fora da Europa ou dos Estados Unidos joga luz sobre a assimetria persistente no reconhecimento da ciência produzida no Sul Global.

No entanto, Maria Antonielli, estudante de Arqueologia e Preservação Patrimonial na Universidade Federal do Vale do São Francisco, acredita que “a Serra da Capivara continuará sendo referência mundial. Hoje existem datações seguras de 50 mil anos de ocupação humana, resultado de pesquisas consolidadas. Isso coloca o parque em outro patamar. Estudar ali é ter consciência de que estamos trabalhando em um território central para a história da humanidade”.

Esse embate entre centro e periferia, visibilidade e apagamento, passa tanto pelo debate científico quanto pela própria história do parque. Quando Niède Guidon chegou à região, encontrou uma população marcada pela pobreza extrema, ausência de serviços básicos e exploração predatória do território. A preservação do patrimônio arqueológico não poderia ser pensada de forma dissociada das condições de vida da população local. A criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, foi apenas o primeiro passo de um projeto mais amplo, que costurava ciência, conservação ambiental e desenvolvimento social.

Para viabilizar essa integração, Guidon criou, em 1986, a Fundação Museu do Homem Americano, responsável pela gestão do parque em parceria com o poder público. A atuação da fundação extrapolou o campo da pesquisa arqueológica e passou a investir também em educação, saúde, capacitação profissional e geração de renda. “Estudar arqueologia no campus Serra da Capivara”, conta Maria, “muda completamente a sua formação. Desde o primeiro período, nós entramos no Parque Nacional, vemos as pinturas rupestres de perto e entendemos que aquilo não é só conteúdo de livro. Quando chegamos aos períodos de escavação, cavamos dentro do próprio parque. A arqueologia ali nunca foi interrompida. Todos os anos surgem novos vestígios, como coprólitos, ossos, sementes. A formação é prática, sensorial. É diferente de aprender apenas na teoria. Uma arqueologia feita com os pés na areia é outra coisa, né?”.

Escolas de tempo integral foram implantadas, postos de saúde construídos, projetos culturais e produtivos estimulados. O turismo, a apicultura e a produção artesanal se consolidaram como alternativas econômicas, reduzindo a migração e criando uma relação mais sustentável entre comunidade e território. Para quem estuda e vive ali, essa transformação não é abstrata. Nesse sentido, Maria observa que a Serra ultrapassa a dimensão científica e se torna uma experiência concreta: “Mesmo com as dificuldades de acesso, conhecer a Serra vale muito a pena. Estar frente a frente com as pinturas, caminhar pelas trilhas, sentir o calor do semiárido, vestir uma bota e percorrer aquele território é uma experiência transformadora”. Ela lembra ainda que o impacto também é visível na circulação de pessoas: “Recebemos visitantes do Brasil inteiro e também do exterior, da América do Norte, do Japão, da América do Sul. Isso mostra a dimensão do que existe ali”.

E se a estudante representa a geração formada dentro do projeto educacional impulsionado por Niède, Tininha Llanos, que trabalha e vive na região, tendo acompanhado a arqueóloga por anos, encarna a memória dessa transformação. Diretora da área turística e testemunha direta da atuação de Guidon, ela acompanhou de perto o surgimento das iniciativas que redesenharam a região. “A doutora iniciou uma trajetória de projetos voltados para o desenvolvimento da nossa região quando criou escolas de período integral com ensino de artes e cultura nas comunidades em torno do Parque Nacional da Serra da Capivara.” Essas escolas, as chamadas “escolas da doutora”, como recorda Tininha, ofereciam mais do que ensino formal. “Elas garantiam alimentação balanceada e saudável para as crianças dessas comunidades, além de atividades culturais que ampliavam horizontes.”

Ao refletir sobre as transformações ocorridas na região desde o início dos projetos liderados por Niède, Tininha não aponta primeiro para obras ou números, mas para algo mais profundo. “O que mais mudou foi o sentimento de pertencimento a uma comunidade, a um território. Esse sentimento acabou sendo reforçado. Ele foi fortalecido com os projetos de educação, culturais, patrimoniais, com a inclusão de pessoas nativas nas pesquisas e nas escavações. Quando os filhos das comunidades que foram retiradas de dentro do Parque, como o Olho d’Água e a comunidade Zabelê, passam a buscar salvaguardar a memória de seus ancestrais, isso muda tudo.”

Iniciativas como o Museu Zabelê e o Instituto Olho d’Água não surgem por acaso, mas como desdobramento direto desse processo de valorização. “Esses projetos”, comenta Tininha, “mostram que as próprias comunidades começaram a assumir a responsabilidade de preservar suas histórias. Proteger sítios arqueológicos é tão importante quanto proteger memória, identidade e raiz.”

Entre avanços simbólicos e fragilidades estruturais, a Serra da Capivara é, ao mesmo tempo, conquista e desafio permanentes. Segundo Tininha, “o que permanece igual é a falta de subsídios para a pesquisa arqueológica” e para projetos de inclusão da comunidade do entorno no acesso ao parque. Hoje, afirma, não existem programas que garantam esse apoio de forma contínua e, embora muito tenha sido conquistado, ainda se depende de “esforços quase heroicos para manter muita coisa funcionando”.

A imagem de Niède Guidon é, portanto, indissociável da Serra da Capivara. Figura centralizadora, muitas vezes descrita como “dura”, “intransigente” ou até “megalomaníaca”, ela encarnou a própria ideia de resistência em um país historicamente marcado pela descontinuidade de políticas públicas e pela fragilidade institucional. A sobrevivência do parque, em diversos momentos, dependeu mais de sua capacidade de articulação e insistência do que de um compromisso estrutural do Estado brasileiro. A intransigência, ainda bem, teve utilidade.

A Serra da Capivara permaneceu e permanece como um espelho incômodo do Brasil. Um país que abriga um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do planeta, mas que frequentemente falha em garantir sua manutenção. Que produz ciência de ponta, reconhecida internacionalmente, mas reluta em valorizá-la internamente. Que guarda imagens fundadoras de sua própria história, mas hesita em incorporá-las ao imaginário coletivo.

As pinturas rupestres da Serra retratam partos, danças, confrontos, jogos, gestos de afeto e organização social complexa. Revelam uma humanidade plural, criativa e simbólica, distante da ideia de primitivismo que durante muito tempo marcou a leitura da pré-história americana. Com isso, ela dialoga diretamente com a ideia de imagem do Brasil, evidenciando a distância entre o país que existe — múltiplo, antigo e sofisticado em suas expressões culturais — e o país que costuma ser projetado, interna e externamente, como jovem, periférico, incompleto, eternamente emergente. Se o centro da história for o sertão do Piauí, as hierarquias simbólicas que aguentem outra cartografia do conhecimento.

O legado de Niède Guidon, que faleceu em 2025, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, é inseparável dessa provocação. A ciência não é neutra nem descolada do território em que se insere; ela depende de escolhas políticas, disputas narrativas e persistência individual. Mais do que sugerir outros caminhos para pensar a história do povoamento das Américas, Guidon ajudou a escrever outra possibilidade de Brasil: a de um país capaz de reconhecer valor onde antes se via apenas vazio, de produzir conhecimento relevante a partir de suas margens e de compreender que sua imagem no mundo passa, necessariamente, pelo modo como cuida de sua própria memória.

As polêmicas em torno da Serra da Capivara hoje são, em essência, as mesmas levantadas desde a década de 1980: há ou não evidências sólidas de presença humana no local há cerca de 100 mil anos? Embora, no Brasil, o tema muitas vezes seja tratado como resolvido, no cenário internacional a situação é diferente. Uma parte significativa da comunidade científica mantém forte ceticismo quanto à natureza antrópica — isto é, produzida por humanos — dos depósitos pleistocênicos encontrados na Serra. A controvérsia, portanto, não diz respeito apenas às datas, mas à interpretação dos vestígios e à robustez das evidências apresentadas.

Como diz Strauss, “Niède Guidon é uma espécie de novo Santos Dumont, trazendo um ufanismo nacionalista aos debates arqueológicos sobre o povoamento da América”. A analogia sugere que, mais do que uma disputa científica, o que está em jogo é também a narrativa sobre quem pode reivindicar protagonismo na história das origens. No local, o Brasil não é promessa nem projeto futuro. Ele já aconteceu, há dezenas de milhares de anos, inscrito em pedra. O desafio atual é aprender a olhar para essas imagens, e para nós mesmos, com a mesma atenção que elas exigem para atravessar o tempo.

Quem somos quando deixamos de repetir imagens importadas e passamos a encarar aquilo que está sob o nosso próprio chão?

As perguntas seguem ecoando.

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