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Fotos de Tiago Lima.
#55Imagem BrasilMúsica

Conversa Polivox: Lívia Mattos

por Pérola Mathias

A trajetória de Lívia Mattos foge aos caminhos mais previsíveis da música brasileira. Sanfoneira, compositora e instrumentista, ela construiu seu trabalho a partir do cruzamento entre música, circo e formação em sociologia — três campos que atravessam sua maneira de pensar som, repertório e cena. Essa combinação aparece tanto em suas pesquisas quanto em projetos performáticos, como A sanfonástica Mulher Lona, além de orientar sua investigação acadêmica sobre música no circo. 

Paralelamente a essa dimensão de pesquisa e experimentação cênica, Lívia desenvolveu uma trajetória consistente como musicista. Durante anos, integrou a banda de Chico César, circulando por diferentes contextos musicais dentro e fora do Brasil, até consolidar uma carreira autoral — que, na verdade, já vinha de bem antes. 

Na música, seus três discos — Vinha da ida (2017), Apneia (2022) e Verve (2025) — formam uma trilogia marcada pela experimentação sonora. Os trabalhos alternam canção e música instrumental, exploram formações distintas e imprevisíveis, compassos que fogem à regra e uma poesia que dialoga com referências da cultura popular e com pesquisas realizadas em viagens e residências artísticas pelo mundo. Em 2020, Lívia ganhou o Festival da Canção – Ano Aldir Blanc com a música Apneia, além do Prêmio Funarte RespirArte e do Prêmio Jorge Portugal, da Bahia. 

Nesta entrevista, tento revisitar com Lívia seu percurso de vida, música e arte, além de falar sobre como Verve sintetiza muitas dessas investigações. 

Pérola Mathias — Você lançou seu terceiro disco em agosto de 2025, sendo que o primeiro saiu em 2017 e o segundo em 2022, então são quase dez anos. Mas você já tinha uma carreira solo por ter projetos que vão além da música, especificamente da composição. Fala um pouco dessa sua trajetória e da virada para a questão autoral. 
 
Lívia Mattos — Na verdade, até eu começar a gravar o Vinha da ida, em 2016, foram oito anos de maturação. O primeiro show autoral que eu fiz foi no Sesc Pompeia, naquele projeto maravilhoso que retornou agora, o Prata da Casa. Era a Patrícia Palumbo a curadora. Dei uma sorte, porque nessa época eu tinha ido gravar um Vozes do Brasil com ela, acompanhando o Chico César, tocando triângulo, estava chegando em São Paulo. Nesse dia, eu dei uma demo para a Patrícia. 

Mas, antes disso, em Salvador, minha primeira banda foi uma banda autoral que se chamava Feira Moderna, que era só forró. Depois eu entrei numa banda de forró de mulheres, em que eu fiquei três anos. E eu comecei a compor desde que comecei a tocar. Então essa coisa da composição sempre veio na verve do início da minha relação com o instrumento. E eu compunha coisas fora do forró. 

No circo, no Picolino, eu já atuava como artista dentro da companhia. Considero que minha carreira profissional começou nos meus 18 anos, no dia do meu aniversário, 27 de setembro, que foi o meu primeiro espetáculo com a companhia. Essa coisa que falam que autodidata é quem aprende sozinho, eu acho que é quem aprende com muita gente. Eu fui aprendendo com muita gente, nas bandas que eu toquei, no circo, nos forrós, no baile da vida, até eu começar a tomar aula mesmo, que foi já em São Paulo.  

Em 2008, eu saí dessa banda de forró, acabei um namoro e teve um acidente no circo. Foi um negócio bem pesado. E eu estava cursando Sociologia. Era um ritmo maluco em Salvador, estudando Hegel, Marx, trapézio, sanfona. E aí eu falei: cara, preciso olhar minha vida de fora para decidir o que eu vou fazer, porque eu sou muito perfeccionista para ficar fazendo circo e música, que são duas coisas que exigem diariamente do meu tempo, do meu corpo. E a sociologia, essa outra parte, sempre foi uma formação de vida.  

Aí vim pra São Paulo pra passar um mês e fiquei dois anos, porque, no primeiro mês, as coisas foram acontecendo. No primeiro dia, eu conheci Chico César, que é um cara muito importante na minha carreira. Encontrei o Oswaldinho do Acordeon e ele falou: o que é que você precisa? E eu não estava pedindo nada pra ele. Aí ele: você tem gravação do seu trabalho? Eu falei que não. Ele falou: você compõe? Eu falei: eu componho. Aí ele falou: então vamos gravar uma demo. 

O Oswaldinho foi o meu primeiro padrinho, me levou pro estúdio sem me cobrar nada, com os músicos dele, gravou comigo as minhas músicas.  

Então foi aí: no dia em que eu fui tocar esse Vozes do Brasil com o Chico César, eu levei a demo e dei pra Patrícia. Dali a poucos meses, ela me chamou pra fazer o Prata da Casa. E aí eu fiquei na dúvida: o que eu faço com mais segurança é o forró, mas o que eu quero fazer, na verdade, é chegar no Sudeste e conseguir ter um lugar de liberdade com o instrumento, que eu penso muito além do forró. E o embrião, então, do Vinha da ida começou fonograficamente aí.  

Depois eu voltei pra Salvador, em 2010, pra terminar a faculdade. Até então, eu tinha muita crise entre o circo e a música. Quando decidi que era o circo, só aparecia trabalho com música. Quando eu decidi que era música, só aparecia trabalho com circo. E foi indo nesse fluxo, até que, quando eu voltei para a sociologia, eu juntei as paixões.  

Acho que essa parte da história você não conhecia, né? De como foi chegar no primeiro disco, que é um disco de canção, um disco mais fácil. Esse agora, o Verve, eu acho que ele chega no equilíbrio entre os dois, porque o Apneia é pra poucas pessoas. 
 
O Vinha da ida tem muito da sua história, né? Da sua história não só na música, mas pessoal, e é muito solar mesmo. O Apneia já dá uma quebra, mas também tem a ver não só com a pesquisa musical, tem aquele momento tenso que a gente vivia, em 2022, de eleição, e acho que fala um pouco dessa falta de ar em geral, da pandemia. Já o Verve tem uma força solar, mas eu acho que ele traz uma felicidade que não é leve como o Vinha da ida. 
 
Eu concordo, ele é profundo na alegria, né? Eu brinco que Apneia é um disco mais denso, mas, quando a alegria aparecia ali, em músicas como Galego, é como a samambaia que rompe o cimento no meio da rua. Porque o Apneia foi um disco totalmente sem concessão. Foi o disco, dos três, mais fácil de definir o repertório, porque era só o que cabia dentro daquele sentimento. Os outros dois são mais abertos. 

Aí o Verve é como se fosse o equilíbrio de temperatura, mesmo, das duas coisas. Ele tem uma densidade, inclusive musical, na elaboração, na sonoridade, na experimentação, na temperatura. E esse híbrido entre instrumental e canção é uma escolha super difícil de fazer, porque você não ganha prêmio de nada, os programadores não sabem onde te encaixam. De escolha mercadológica, é a pior possível. 

Agora eu posso fazer um disco só de instrumental, só de canção, de novo, ou um disco de forró, ou um disco infantil da sanfonástica, eu posso fazer milhões de coisas, porque eu construí uma fonografia que me representa em muitos lugares. Por isso que eu chamo de trilogia. E eu acho que eu vou continuar ela, na real.  

Como é que você chegou nesse léxico, nessa palavra, “verve”, como conceito e título? Dá para entender, obviamente, mas eu queria ouvir de você. E porque, quando eu estava preparando a entrevista, lembrei disso: nosso professor de política [na Universidade Federal da Bahia], Paulo Fábio, sempre falava da verve política, quase como a ciência como vocação. 
 
Eu não lembrava dessa palavra dentro do contexto acadêmico. Eu lembrava mais no sentido poético. Já usava no meu léxico também, que tem a ver com isso, essa função criativa, de vocação também, do fazer para o que veio. Tem a ver com tesão, né? Estou aqui pra fazer com todo gosto, inteirona nisso. E aí não foi uma palavra que chegou no início, não foi um projeto que foi escrito com esse nome. 

O que fazia sentido, para mim, era esse desenvolvimento de linguagem, estética, sonora, com trio de sanfona, tuba e bateria, num lugar que é quase que essa construção de uma ilha, de você entrar e imergir.  

A sanfona é um som que satura, diferente de um violão, um piano, que você pode ouvir duas, três horas. A sanfona, ela é um médiozão que cansa. Eu sou sanfoneira, sei que cansa. Então, eu queria provocar outras paisagens, outras funções. 
 
Não só esse, né? Porque eu acho que você nunca teve uma formação, digamos, convencional de banda.  
 
Eu sou a inquieta da sonoridade. Como a sanfona é um instrumento muito emblemático, estereotipado dentro de determinados gêneros, de músicas de fronteira, ele é sempre estigmatizado. A minha busca é por propor uma outra leitura dele, mesmo. E é isso que me faz criar um tipo de composição meio diferente. Por isso que minhas músicas têm muito compasso diferente também, para quebrar ritmicamente o 2×4, o 4×4, que é o brazuca tradicional. 
 
E tem uma coisa interessante também: você é uma pessoa da música que sempre está em lugares diferentes da música. Você faz muitas residências, o que não é uma coisa tão comum pra músico de canção, de música popular. E suas residências também nunca são, sei lá, Inglaterra, Paris, você vai pra Costa do Marfim, por exemplo. Tem uma que você fez, que eu não consigo lembrar o nome, há muitos anos, que era um monte de gente do mundo todo. 
 
A One Beat. Essa foi uma alavanca pra mim, no sentido criativo. Eram 25 músicos de 17 países diferentes. Foi no ano do Vinha da ida e foi uma crise, porque era no mês que estava previsto o lançamento do disco. E eu falei: como é que eu vou passar cinco semanas fora? Esperei tanto pra lançar meu primeiro disco, imagina, e eu não vou estar aqui no lançamento do meu primeiro disco pra fazer ele acontecer, com a Natura Musical?  

Eu mandei uma mensagem pra minha amiga, falei: ó, fui selecionada, mas não vou, porque eu estou lançando meu disco. Ela falou: não, você vai, vai mudar a sua vida. Aí eu comecei a descobrir outros músicos que estão há muito tempo escrevendo essa parada que nunca tinham sido selecionados. Fui conversar com o Chico César e saí assim: disco eu vou lançar vários, esse é o primeiro, agora essa residência, quando é que eu vou fazer de novo uma parada dessa?  

E eu comecei a compor diferente, porque eu vi muitas formas diferentes de música numa imersão que me atiçou muito, eu fiquei muito instigada por aqueles músicos da Indonésia, de Taiwan, do Quênia, da Jordânia, do Quirguistão, do Cazaquistão, da Bielorrússia… Eu fiquei louca com aquilo. É muito doido, o mundo é muito grande. 
 
E aí vai aparecendo nos discos… No Apneia tem a faixa Tuk tuk, que eu achei que era para a Índia, mas é para o Egito e tem tudo a ver com a história da música da Bahia. Tem as participações também, no Apneia, que eu acho que você termina com um coco. E no Verve termina com frevo, né? Gente, pra onde ela vai no próximo? Qual vai ser a última música do próximo? 
 
Que é um frevo baiano, né? Um frevo bem de guitarra baiana, né? Você enxerga ali a guitarra de Armandinho, né?  

Exatamente. Armandinho, que está no disco anterior.  

A gente achou um timbre na sanfona que ficava igual a guitarra baiana.  

Mas e as outras participações de Verve? Fala um pouco dessas referências de uma maneira geral. 

Eu sou de uma cidade portuária, litorânea, que é do suor, do salitre, que é uma cidade molhada, salobra, né? Salgada do mar, do suor, da festa, e muito aberta à chegada, desde a colorização, aberta no bom e no mau sentido, nesses trânsitos.  

Então, eu comecei a minha carreira artística num circo que tem uma linguagem antropofágica, uma linguagem tropicalista. O que me fez entrar num circo foi um espetáculo que era em cima da obra de Glauber Rocha, que tinha todas as linguagens, cinema, teatro, poesia, dança, circo, tudo. Uma banda de oito músicos que tocava de Villa-Lobos a música de cultura popular de feiras e rock ‘n’ roll. Minha construção de artista começou no Circo Picolino, e o circo em si é gregário. Por isso que o meu trabalho também tem tanta preocupação visual, na parte estética, porque eu venho desse lugar que penso em tudo mesmo. 

Uma coisa que eu gosto de fazer em todos os álbuns, por exemplo, é botar a cor de cada música. Para eu poder definir que cor vai ser a capa, como vai ser a iluminação do show, com que cenário, eu boto a cor. Às vezes, é mais de uma cor ali naquela música e tal. A construção da identidade visual vem junto com a composição, vem junto com as gravações do disco. 

A sanfona proporciona essa autonomia de você poder viajar muito. Viajei muito sozinha até conseguir, como hoje, viajar com o meu grupo. E, tocando com o Chico César, fui fazendo minha pesquisa de circo. Eu ia tocar com o Chico, sei lá, no interior do Piauí, ficava mais três dias para procurar um circo, entrevistar a galera. 

Caucaia, que está nesse disco Verve, veio daí. Eu estava sem sanfona, fui entrevistar a galera do circo lá do lado de Fortaleza, e tava toda inspirada. Veio a música toda na cabeça e eu tava sem sanfona, porque eu não fui de sanfoneira, fui entrevistar, estava felizona que não estava carregando peso, aí fiquei tristona porque estava sem o meu instrumento pra criar, gravei no celular. Só quando cheguei em São Paulo de novo que fui terminar. Como a música veio da voz, fez todo o sentido chamar uma cantora para participar. E a Varijashree Venugopal é indiana, ela usa o sargam, que é esse modo de você cantar as notas, né? É uma tradição milenar. O forró é um jovenzinho, uma jovem criança, perto do sargam indiano. Já a Senny Camara, senegalesa, traz a cora, que é um instrumento muito masculino, como a sanfona também é masculina. Ela está em Ndoukahakro, música que eu fiz na Costa do Marfim. O Verve tem esses encontros, que vêm desses lugares.  

Para você, como é equilibrar o risco, a experimentação e ainda, de alguma forma, ter essa base cancional que você traz? 
 
Acho que é porque tudo me representa. Eu tenho essas duas vertentes que acho que estão nos três discos. Tirando o instrumental, que só está nos dois últimos, mas eu toco como instrumentista também no primeiro, então também tem o lugar da instrumentista, da cancionista. 

Eu acho que até pro show dá um descanso, porque você vem de uma coisa instrumental, aí você canta, aí você não cansa da voz, não cansa do instrumental, eu acho que dá uma dinâmica. 

Eu gosto muito de começar pelo estranhamento. Eu gosto quando a pessoa chega no meu show, por exemplo, e vai esperando uma sanfoneira nordestina. Ou quando eu estou fora do Brasil: sanfoneira brasileira, vai tocar forró, ou aquele ritmo lá do Brasil que parece com salsa… Tem várias leituras assim. Eu não tenho essa coisa da vanguarda, da burguesa que não quer comunicar. Eu sou do circo, eu gosto de agradar. Eu gosto de comunicar, mas eu gosto de propor, também. 

A coisa que eu mais gosto não é tocar fora do Brasil, é tocar no interior, chegar com esse som e fazer num lugar em que a galera não tem tanto acesso a coisas diferentes. Você vê como a galera compra. É aquela história do Gil, né? O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe.  

Quando eu fiz esse show do Prata da Casa, foi a primeira vez que eu toquei num lugar em que eu não via o público, porque a luz vinha forte, e no circo, no forró, nos contextos de Salvador, você enxerga todo mundo. Eu subi no palco e fiquei perdidaça, porque eu aprendi a ser artista no olho no olho. Como é que faz pra enxergar as pessoas? 
 
É verdade, o circo depende muito da reação, né? 
 
Muito, muito. É a escuta performática, né? É pensar o verbo como verbo ativo, e não passivo. 
 
 

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