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#12LiberdadeArtigo

Quando deixei de te amar

por Helena Cunha Di Ciero

Quando finalmente deixei de te amar, podia sair à vontade na rua, sem o medo de te encontrar. Caminhava tranquila, sem temer ser pega de surpresa. Os carros não eram mais iguais ao seu.

Eu já não era mais prisioneira de tudo que me lembrava você. As músicas não eram mais marcas da nossa história, ou me davam recados malucos do destino. Simplesmente tocavam, enchendo meu dia com uma nova melodia. Já não me atingiam como flechas em forma de notas musicais. Tocavam – sem me tocar – como era boa essa sensação de ter finalmente mudado de estação.

Meu telefone voltou a ser só um aparelho e não mais o portador das notícias do dia. Antes, se você ligasse até o sol me aquecia diferente. E se não ligava, nem a beleza das flores me afetava. Nada que não fosse você me interessava.

Agora, já não tinha medo do meu coração paralisar quando te visse – ele já estava em um ritmo mais delicado, menos frenético, menos assustado. Ele era meu novamente e apenas era um órgão dentro de mim, para ajudar meu sangue a circular. Um órgão do qual já nem me lembrava tanto. Dizem que só nos lembramos de alguma parte do corpo se temos dor (por exemplo, o ouvido: só lembramos de sua existência quando incomoda.) Então, meu músculo cardíaco já não doía, estava forte, pronto para uma nova caminhada. O oxigênio era meu, não mais era nosso. Já não vivia para você, naquele sufoco.

As horas também já não eram mais suas. E confesso que, agora, pouco importava se o relógio marcava horário igual. Já não me preocupava se eu estava em seus pensamentos. Você não morava mais em mim, e isso me trazia uma leveza absurda. Eu era grata por tudo que vivemos, sem dor. Sem desejo de revanche ou autopiedade.

No meu peito já não havia mais espaço para vingança. No espelho eu já não treinava conversas imaginárias. Você pôde enfim partir. Eu aceitei, depois de muita luta.

A vencedora no caso era eu. Já podia vislumbrar um futuro, contemplar o presente. Meus olhos não visitavam mais as lembranças. Simples assim. Eu parti.

Com o mesmo coração que entrei. Agora mais rica com tudo que vivemos. E o fato de você ter mudado minha vida me deu a chance de estar pronta para amar outra vez. Deixar de te amar foi azul.

Foi um novo horizonte que surgiu. Agora só meu.

Que alívio.

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