
Transforma o acolhimento em imagem: entrevista com Gui Mohallem
Você ouviu “Welcome Home” pela primeira vez nesse santuário em 2009 e, anos depois, transformou essa experiência em um dos trabalhos mais importantes da sua trajetória. O que aquela frase significava para você naquele momento e o que ela passou a significar depois de quinze anos de convivência com esse lugar e com as pessoas que o habitam?
Gui Mohallem: Eu me lembro exatamente da primeira pessoa que me disse isso, e confesso que levei alguns anos pra entender e introjetar. Fazer o meu primeiro livro foi parte desse processo. Welcome home é uma frase de acolhimento radical, que se fala pra todo mundo que chega no Santuário pela primeira vez. É uma tecnologia comunitária para a criação de um espaço seguro. Hoje, faço questão de ser a pessoa que diz pra cada pessoa novata, Welcome Home. Você está aqui no seu espaço. Você está em segurança agora.
Em muitos contextos, a ideia de “lar” está associada à família, à origem ou ao lugar onde nascemos. Para muitas pessoas LGBT+, no entanto, a construção desse lar passa por outros caminhos. O que esse projeto te ensinou sobre as formas que o pertencimento pode assumir?
GM: Muitas LGBTs cresceram sem qualquer pertencimento, seja na escola, seja na prática religiosa, seja no seio da família. Encontrar um espaço de acolhimento radical te dá a dimensão do tamanho do buraco que as LGBT tem que conviver. Ao mesmo tempo, viver isso, mesmo que num ambiente de exceção, muda alguma coisa dentro da gente. Faz imaginar outras formas de existir, de se relacionar, de construir comunidade. E isso acaba ajudando a enfrentar o mundo de fora..
Você acredita que a necessidade de encontrar abrigo, literal e metaforicamente, continua sendo uma experiência central para pessoas LGBT+ ou ela assumiu novas formas ao longo dos últimos anos?
GM: Abrigo ainda é uma questão fundamental para LGBT+. Mesmo com os direitos conquistados e os avanços na última década no Brasil em questões de visibilidade e representatividade, LGBT+ continuam sendo expulsas de suas casa ainda jovens, enfrentam mais desemprego, estão super representadas em populações de alta vulnerabilidade como as pessoas em situação de rua.
Ao mesmo tempo, hoje também existem novas formas de pertencimento. Quando vemos pessoas como nós ocupando espaços de poder, de criação e de imaginação coletiva, entendemos que não estamos à margem da sociedade. Estamos ajudando a construí-la.
Existe algo que você aprendeu sobre si mesmo ao acompanhar essa comunidade por tanto tempo? Algo que talvez não tivesse descoberto se o projeto tivesse durado apenas alguns meses ou alguns anos?
GM: Cada visita ao Santuário traz lições muito profundas. A gente fala que a montanha te dá sempre o que você precisa, raramente o que você quer. A idéia de entender a relação com o outro como uma relação entre sujeito-sujeito, em oposição a relação sujeito-objeto é uma das mudanças de paradigma mais potentes que eu já vivi. Essa ideia eu já tinha lido no livro Radically Gay, do Harry Hay, um dos fundadores dessa comunidade, antes da minha primeira ida. Mas viver ela no corpo e no gesto leva prática e leva tempo, porque é contra tudo que a gente aprende aqui do lado de fora.
Quinze anos separam Welcome Home de IGYH. Quando você voltou a fotografar esse universo, sentiu que estava reencontrando algo familiar ou percebeu que estava diante de um lugar completamente diferente daquele que havia conhecido? O que mudou mais nesse intervalo: as pessoas retratadas, o contexto político e social ao redor delas ou a maneira como você olha para elas?
GM: Acho que as três coisas. Entendo que voltar é um verbo impossível, porque a gente se transforma no tempo, então a gente nunca é a mesma pessoa quando vai de novo para um lugar conhecido. Pensa que isso acontece com as outras pessoas e também com o próprio espaço. Então cada ida pro santuário é uma nova ida, uma ida de novo. Nunca uma volta. Quando eu retomei as idas pro Santuário depois de uma longa pausa, encontrei uma comunidade atravessada pelos novos contextos político, do aumento das vulnerabilidades pós-covid e tensões raciais afloradas por George Floyd e agora o genocídio em Gaza. E esses novos contextos afetam diretamente o convívio e a vida material daquela comunidade. Do lado de cá, eu também não era mais a mesma pessoa que tinha fotografado Welcome Home.
Você frequenta esse santuário há mais de quinze anos. Em algum momento deixou de se sentir um observador para se tornar parte da história que estava registrando? Existe uma responsabilidade diferente quando se fotografa uma comunidade da qual você também compartilha experiências e afetos?
GM: Eu acho que essa é a maior diferença entre o Welcome Home a o •IGYH•. Na abertura do arouche, no dia 6, a gente teve a honra de uma pesosa que me ajudou a montar minha primeira barraca em 2009 e que acompanha as reflexões desse trabalho há quase 20 anos. Ele disse que “em welcome home ele me via como uma criança olhando por uma janela de uma casa, querendo entrar, e que em •IGYH•, eu já estou dentro.
O trabalho parece lidar muito com a ideia de presença. Não apenas estar em um lugar, mas ser visto, reconhecido e acolhido. Você acredita que existe algo na fotografia capaz de produzir esse reconhecimento?
GM: Absolutamente. Muita gente me fala disso depois de se ver retratada. A fotografia tem essa capacidade de devolver uma imagem de nós mesmas que às vezes o mundo insiste em negar. Tanto em Welcome Home quanto em •IGYH• isso acontece muito. Mesmo antes de qualquer intervenção física, pessoas trans são reconhecidas pelo público da forma como se reconhecem. E existe algo muito bonito nisso. Ser visto como você é.
Pela primeira vez essas imagens ocupam o espaço público brasileiro, e não uma galeria. O que muda quando o trabalho encontra pessoas que não escolheram visitá-lo, mas simplesmente cruzam com ele no caminho de casa ou do trabalho?
GM: Tem um gesto que é dessacralizar o trabalho de arte, trazer ele pro espaço do cotidiano que me interessa demais. Quem se sente do direito de entrar numa galeria? Será que as pessoas que frequentam o Largo do Arouche se sentiriam confortáveis num cubo branco? O único lugar que este trabalho já foi exposto foi no próprio Santuário, ano passado. Levei 24 imagens impressas em tecido, do mesmo tamanho dessas que estão no Arouche, e pendurei entre as árvores da floresta, bem perto de onde a galera circula mais. E foi muito lindo ver como as pessoas reagiam ao trabalho, ao mesmo tempo que mantinham suas atividades normalmente. Do mesmo modo, mesmo estando ocupando a alameda toda, elas convivem com as atividades de quem usa o espaço. Outro dia, a galera tava jogando vôlei embaixo das fotos. Eu pirei.
O Largo do Arouche também é um território marcado por encontros, afetos, disputas e pertencimentos LGBT+. O que te interessou nessa conversa entre um santuário queer norte-americano e um espaço tão simbólico para a comunidade em São Paulo?
GM: A Arouche é um espaço que eu frequento bastante, meu bar preferido fica ali, o Trabuco. É um espaço histórico de resistência e ocupação LGBT. Um espaço que sofre inúmeras pressões por gentrificação e de expulsão das nossas de lá. Essa exposição é uma oferenda pra esse espaço, imagens de descanso em um ambiente de tanta luta, mas também onde a vida se reafirma a cada pessoa que insiste em ocupar e se expressar como se identifica. Quando imaginava essa exposição aqui, eu só pensava no Arouche.
Em um momento em que discursos de exclusão e pertencimento voltam a ocupar o centro dos debates públicos em diferentes partes do mundo, o que essa exposição tem a dizer sobre a importância de construir comunidades?
GM: Costumo pensar comunidade menos como pertencimento e mais como infraestrutura. Quem segura sua mão quando você cai? Quem te dá abrigo? Quem celebra sua existência? Quem te ajuda a continuar? Essas imagens falam de pessoas que construíram esse tipo de infraestrutura umas para as outras.
O texto de Marcos Visnadi sugere a existência de um “santuário maior, transcontinental”. Você acredita que existe uma espécie de geografia afetiva queer, formada por lugares que, mesmo distantes entre si, compartilham valores, códigos e formas de acolhimento?
GM: Sim. Acho que existe uma geografia queer que nem sempre aparece nos mapas. Ela é feita de bares, praças, centros comunitários, pistas de dança, casas de amigas, ocupações, esquinas e florestas. Lugares muito diferentes entre si, mas atravessados por formas parecidas de acolhimento, cuidado e reconhecimento. Quando visito os trabalhos do filósofo Dénètem Touam Bona, fico pensando que talvez esses lugares funcionem como os territórios que ele descreve em A Arte da Fuga. Comunidades que não compartilham necessariamente a mesma origem, a mesma classe, ou a mesma história, mas que constroem um “nós” a partir da experiência comum de ter precisado inventar formas de existir apesar do mundo.
O Santuário e o Arouche são exemplos disso. À primeira vista eles não poderiam ser mais diferentes: um está escondido numa floresta do sul dos Estados Unidos e o outro no centro de São Paulo. Mas os dois existem porque pessoas LGBT+ decidiram ocupar um território e transformá-lo em espaço de vida, de cultura, de cuidado e de liberdade.
Talvez seja isso que Marcos chama de um santuário transcontinental. Não uma geografia física, mas uma rede de lugares onde a gente aprende que não está só. Lugares onde, por alguns instantes, é possível respirar mais fundo e baixar a guarda.
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