
Aprender de coração: as lições de Corita Kent para um mundo saturado de distrações
Os livros sobre criatividade que se apresentam como manuais viraram um clichê da atualidade. Eles se vendem com aquela promessa de desbloquear potencial, organizar processos, multiplicar ideias e mais tantos outros milagres que são mais complexos que sistemáticas que podem ser facilmente reproduzidas. Aprender de coração: práticas para libertar o espírito criativo, de Corita Kent, segue uma direção que, por sua singeleza, acaba fazendo mais sentido. O livro fala de algo mais elementar, anterior à produção em si: ele propõe que aprendamos a olhar.

Publicado originalmente em 1992, a obra reúne exercícios, relatos, reflexões e referências que nasceram da experiência pedagógica de Corita Kent, artista, educadora e ex-freira norte-americana conhecida por transformar palavras, imagens da cultura popular e observação cotidiana em arte. Transitando entre formatos, é uma mistura de caderno de exercícios, manifesto educacional e coleção de anotações de campo. Não há uma teoria central sendo defendida nem um método fechado a ser seguido. O que há é esse convite insistente à atenção — e isso, em meio a tantos manuais charlatões e em um tempo em que nossa atenção é cada vez mais disputada pelos gadgets que nos circundam, é um alívio.
A chamada ao olhar atencioso aparece logo nas primeiras páginas, quando Corita propõe uma tarefa a priori banal: observar as sombras de um cômodo durante vários dias. O mais importante do exercício é se dedicar a ele tempo suficiente para perceber que aquilo que parecia conhecido está longe de se esgotar. A observação prolongada revela nuances de forma, cor e movimento que passariam despercebidas numa passagem apressada. A lição se repete ao longo do livro sob diferentes formas, como olhar uma árvore durante uma hora, comparar duas folhas da mesma planta e desenhar um objeto sem tirar os olhos dele.

Ou seja, o que Corita quer com isso é deslocar o foco para a percepção. O que ela nos diz é: antes de inventar algo novo, é preciso aprender a ver aquilo que já está diante de nós.
Corita estabelece uma distinção recorrente entre olhar e enxergar. Olhar é receber impressões. Enxergar é estabelecer relações. É perceber padrões, diferenças, conexões, compreender que duas flores aparentemente iguais nunca são realmente iguais. É notar que as rachaduras do asfalto, uma garrafa esquecida sobre a mesa ou um canto de parede podem conter tanta riqueza visual quanto uma paisagem considerada extraordinária.
Em dado momento, Corita descreve dois possíveis pontos de partida para um desenho: uma imagem de Shiva e um simples frasco de tinta usado e sujo. O objeto carregado de simbolismo e tradição não recebe privilégio algum. O frasco, com suas manchas secas, seus respingos e seus acidentes visuais, pode ser uma fonte igualmente fértil. O valor da fonte não está na importância cultural do objeto, mas na qualidade da atenção dedicada a ele.

Essa ideia se desdobra numa das teses mais interessantes do livro: tudo pode ser fonte. Livros, mercados, conversas, erros de interpretação, embalagens de produtos, filmes, nuvens, placas de rua. A criatividade não surge de uma busca frenética por inspiração, mas da capacidade de transformar encontros cotidianos em matéria-prima. Corita parece desconfiar da figura do criador isolado esperando um lampejo genial. Antecedendo a tendência da produção da atualidade, a criatividade aparece como consequência de uma prática de atenção acessível a qualquer pessoa. O extraordinário não está escondido em lugares remotos; está disperso pelo cotidiano, aguardando alguém disposto a diminuir o ritmo.
Embora o livro seja associado à educação artística, suas reflexões ultrapassam esse campo. Corita trata o aprendizado menos como transmissão de conhecimento e mais como criação de condições para que alguém descubra por si mesmo novas formas de perceber. Em diversos momentos, relata experiências inspiradas pelo designer Charles Eames, uma de suas principais influências. O objetivo não é fornecer respostas prontas, mas formular perguntas capazes de alterar o modo como alguém enxerga um problema.
E ler Aprender de coração em 2026 é uma experiência curiosa, considerando alguns aspectos do mundo em que vivemos. Nunca houve tantas imagens circulando, tantas ferramentas para produzi-las e tantas formas de transformar referências em conteúdo. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil sustentar a atenção sobre uma única coisa por tempo suficiente para realmente conhecê-la. Hoje a inteligência artificial torna a criação cada vez mais instantânea, mas, de acordo com as ideias de Corita, a criatividade não começa na expressão. Começa na percepção, e por isso o livro é tão atual. Quando máquinas podem gerar infinitas variações de uma imagem, o diferencial humano passa a residir menos na capacidade de produzir e mais na capacidade de notar. O olhar continua sendo uma tecnologia insubstituível.
A questão se torna especialmente relevante quando boa parte da nossa experiência visual é mediada por telas. As redes sociais oferecem um fluxo contínuo de imagens, referências e tendências, mas a abundância nem sempre se traduz em percepção mais profunda. Na verdade, quanto mais imagens consumimos, maior pode ser a tentação de apenas reconhecê-las. Reconhecer é diferente de ver, significa identificar rapidamente algo que já conhecemos; ver exige permanecer tempo suficiente para que algo revele aspectos que ainda não percebíamos.

A inteligência artificial pode combinar referências, reorganizar informações e acelerar processos. Mas Corita investiga o encontro singular entre uma pessoa e aquilo que ela observa. A criatividade não deveria nascer nem da abundância e nem da ausência de ferramentas, mas da maneira como nos relacionamos com elas e com o mundo que elas ajudam a revelar.
Aprender de coração altera a escala pela qual observamos o mundo. Depois de algumas páginas, uma sombra já não parece apenas uma sombra, uma garrafa deixa de ser apenas uma garrafa e uma caminhada ao mercado deixa de ser apenas um deslocamento.
A criatividade pode começar no instante em que paramos de procurar algo extraordinário e passamos a observar, com mais cuidado, aquilo que já estava presente.
Assine: IMPRESSO + DIGITAL
São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.
Assine a revista