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Re-antropofagia, de Denilson Baniwa (2018).
#55Imagem BrasilCulturaSem editoria

O olhar de dentro e o olhar de fora: perspectivas sobre quem somos

por Thiago Thiago de Melo

Nos idos de 2016, fiz um show no Brooklyn, em Nova Iorque, apresentando músicas do meu primeiro álbum solo, Amazonia underground (Blacksalt Records, 2017), para um público heterogêneo de brasileiros, americanos, latinos, europeus e asiáticos. No fim dele, fui abordado por um casal de japoneses que estava ali depois de terem buscado na internet por programas culturais que tivessem como tema a natureza e o meio ambiente. Disse-me o casal que gostou muito do som, mas que lamentava não entender as letras, que julgavam, com razão, ser elemento importante das minhas canções. Minha resposta imediata foi dizer que não se preocupassem, pois, ironicamente, no Brasil, as minhas letras também não eram totalmente compreendidas pelo público que ia aos meus shows, sobretudo na região Sudeste — em cidades grandes do Norte, como Manaus, Macapá e Belém, e de pequeno e médio porte, como Parintins, Borba e Barreirinha, por outro lado, havia menos “ruído” na comunicação. Eles ficaram espantados com isso e, desde então, reflito constantemente sobre essa questão. Afinal, se escrevo e canto em português, a compreensão deveria ser razoável, não?  

Desde pequenino fazendo a travessia entre o Rio de Janeiro e o rio Amazonas, cedo percebi que palavras como pirarucu, tucandeira, pirarara, curuminzada, inajá, cunhatã, urucum, igapó, tuxaua e tipiti, entre uma infinidade de outras (muitas das quais presentes no meu cancioneiro), eram tão naturalmente identificadas no repertório vocabular de caboclos, quilombolas, ribeirinhos e indígenas do Amazonas quanto estranhas aos habitantes das grandes cidades brasileiras das regiões Sul e Sudeste. Que língua vasta e complexa o português! Como é rica a contribuição das línguas indígenas para o português falado no Brasil! O pensamento indígena provoca uma reflexão aguda sobre quem somos, os brasileiros, como se isso implicasse um desconhecimento, uma alienação, um descolamento da realidade: o brasileiro tem dificuldade em se reconhecer indígena (embora, no exterior, seja muitas vezes identificado como tal, até de modo pejorativo). Não sabemos as palavras porque não sabemos as histórias, porque não vivemos as culturas, sobreviventes de um projeto de apagamento. A ficha cai em algum momento: as elites e as classes médias urbanas, formadas em universidades e orgulhosas de falarem inglês, são praticamente analfabetas dos muitos brasis que fazem o Brasil. 

Será que o casal de japoneses no Brooklyn imaginava um Brasil consciente de sua rica natureza e biodiversidade, e por isso se espantou? Será que o feitio que fazia do nosso país era indígena? Não saberei, apenas especulo. O certo é que essa situação me chamou a atenção para a imagem que projetamos sobre nós mesmos no exterior e também aqui dentro de nosso país. Sendo um compositor e cantador brasileiro, a relação entre cantar e contar é, para mim, um gesto político, forma pela qual posso, através da arte, (in)formar o público sobre as possibilidades de nossas línguas nos (re)ligarem aos muitos territórios que compõem o território nacional.  

A relação entre a língua portuguesa e o território brasileiro remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento literário sobre nosso país. Em 1500, mal acabaram os marinheiros lusitanos de bradar “terra à vista”, o capitão da frota logo tratou de dar nome ao que estava diante dos olhos: ali, o Monte Pascoal; essa, a Terra de Vera Cruz. Interessante notar que os primeiros habitantes daqui foram identificados pelo escrivão português como “pardos”, “avermelhados”. As línguas têm esse poder de nomear, de fazer existir. A imagem do que depois seria chamado de Brasil foi, tão logo aqui chegaram os estrangeiros, sendo construída por esse olhar “de fora”, marcado por alteridade radical. Não deixo de imaginar a dita “primeira missa”, proferida por frei Henrique e relatada por Pero Vaz como momento de prazer e devoção por parte de todos os presentes diante da bandeira de Cristo e da leitura do Evangelho. Se essa carta pudesse ser reescrita, se o enunciador fosse indígena, o que diria desse primeiro contato com os europeus? Sabemos apenas a perspectiva alienígena, dos que vieram de fora. Há, nesse ponto, uma violência simbólica, uma imposição ideológica, típicas do eurocentrismo e seu projeto colonizador mercantilista, como se essa visão parcial daquele instante representasse a totalidade de um momento tão complexo. 

Hoje em dia, num cenário global multifacetado e polifônico, com todas as vozes falando ao mesmo tempo — claro que umas mais alto do que outras, muitas vezes silenciadas —, temos a chance de olhar para essas situações de modo crítico, tensionando a relação entre o modo como somos vistos no exterior e a forma como projetamos nosso retrato para nós mesmos. Nesse sentido, um paralelo interessante é o que encontramos no relato do paraense Daniel Munduruku, um dos mais prolíficos escritores indígenas contemporâneos, quando ele narra, em seu livro Histórias de índio, que até ingressar na escola, em uma cidade grande, recém-saído de sua aldeia, ele nunca tinha sido chamado de índio nem nunca tinha ouvido essa palavra. São momentos assim que nos fazem constatar o descompasso, muitas vezes violento, entre como nos vemos e como somos identificados pelos outros. 

O modernismo brasileiro, cujo marco é a Semana de Arte Moderna de 1922, caracteriza-se pela busca de uma identidade nacional através de postura antropofágica, remetendo ao canibalismo de vários povos indígenas. Nesse processo deglutidor, seriam incorporadas desde as vanguardas europeias até as tradições populares e folclóricas do Brasil, dando forma a uma arte e a uma cultura brasileira autêntica. As inspirações indígenas dos modernistas não abriram espaço, contudo, para a presença de artistas dos povos originários nas publicações e exposições da época. Artistas indígenas da contemporaneidade são os que melhor têm exposto essa contradição: Denilson Baniwa, artista plástico amazonense com muitas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior, por exemplo, é o autor da obra Re-antropofagia, trabalho que confronta a apropriação do mito de Makunaimã feita por Mário de Andrade em sua obra seminal. Ao retomar essa figura, Baniwa propõe um movimento de “re-antropofagia” das cosmogonias indígenas, desestabilizando os preconceitos e as narrativas folclóricas construídas pela elite modernista do Brasil. O “re” do título, segundo Baniwa, significa “revolta”, “revisão”, “reviravolta”, “reconhecimento”. 

Tais movimentos dentro da arte brasileira são interessantíssimos para nossa imagem como país, pois indicam uma mudança fundamental: se, para os modernistas, os indígenas deveriam ser recuperados em algum lugar de nosso passado, para artistas como Denilson Baniwa e Jaider Esbell (outro exemplo luminoso nesse sentido, os indígenas estão vivos — apesar do projeto colonizador e seu propósito de apagamento —, produzindo arte, pensamento, resistindo ou simplesmente vivendo no presente, contribuindo, assim, para a construção do mundo em que vivemos. 

Torço para que saibamos melhor sobre as línguas, as culturas e os povos indígenas; para que a imagem que os brasileiros fazem do Brasil seja cada vez mais orgulhosamente indígena. Temos que conhecer para nos aproximar, criar vínculos e reconhecer raízes. Nesse sentido, cantar tem sido para mim um modo de voltar a ser árvore, bicho, floresta. É o que eu respondo quando me perguntam, provocativamente, se minha intenção é que ninguém entenda minhas letras quando escrevo, por exemplo: 

Tempo virou 
Vento varreu a capoeira 
Na capivara caipora 
Se enfeitou 
Perto da pirambeira 
A tucandeira 
Curumim, leso, se encantou 
Por feiticeira
(A voz dos ancestrais, canção de Thiago Thiago de Mello e Diogo Sili).

É o contrário, eu digo: quero que um grande número de pessoas entenda. Ou se sensibilize, se identifique. Fará um bem enorme para a saúde geral do mundo o reconhecimento dos brasileiros e dos estrangeiros de que o Brasil é, sobretudo e antes de mais nada, um país indígena. Segundo o escritor Alberto Mussa, ao falar sobre nossa ancestralidade, “há 15 mil anos somos brasileiros e não sabemos nada do Brasil”. Já está, portanto, mais do que na hora. Como salienta a poeta e pesquisadora macuxi Trudruá Dorrico, “é tempo de retomada”.  

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