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Erika Fatland, autora de Navegações. Reprodução
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Quando os impérios sobrevivem ao próprio fim: entrevista com Erika Fatland

por Revista Amarello

Ao longo de Navegadores: uma viagem através do Império perdido de Portugal, a escritora e antropóloga norueguesa Erika Fatland combina reportagem, história e literatura de viagem para investigar os vestígios deixados pelo império português em diferentes partes do mundo. Seu interesse não está na reconstrução das navegações em si, mas nas marcas que elas deixaram: nas línguas, nas fronteiras, nas memórias e nas desigualdades que atravessam o presente.

Nesta conversa, a autora reflete sobre os mitos que cercam a expansão portuguesa, a permanência das estruturas coloniais, o papel da linguagem na construção das identidades nacionais e os desafios de narrar uma história frequentemente preservada pelo olhar dos conquistadores.

Em Navegadores, você mostra como os impérios sobrevivem muito depois de seu colapso político, seja por meio da língua, das fronteiras, da arquitetura ou até do imaginário coletivo. Você acredita que o colonialismo é algo que o mundo contemporâneo realmente superou ou apenas algo que mudou de forma?

Erika Fatland: Basta olhar para a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia para perceber que o colonialismo continua vivo. Então a resposta é sim e não. Hoje, ele muitas vezes assume outras formas, mais sutis, frequentemente de natureza econômica. Ao mesmo tempo, o legado colonial permanece e continua influenciando as antigas colônias por meio da língua, da cultura e também das estruturas políticas herdadas.

Em Ceuta, a imagem de adolescentes africanos sonhando com a Europa espelha as ambições dos navegadores portugueses que, séculos antes, sonhavam com a África. Essa inversão revela a permanência das desigualdades no imaginário global?

E.F.: De certa forma, existe um paralelo. Os exploradores portugueses sonhavam com ouro e riqueza rápida. Esses são sonhos que sempre levaram os seres humanos a se deslocar. Mas, evidentemente, o mundo de hoje é diferente, e os sonhos desses jovens são muito mais inocentes do que os dos exploradores do século XV. As ambições portuguesas logo se transformaram em um projeto de dominação e monopólio comercial, enquanto os migrantes africanos estão simplesmente em busca de um futuro melhor para si e para suas famílias.

Também achei que Ceuta era um lugar adequado para abrir o livro porque representa o ponto de partida literal dessa história: a expansão portuguesa começou com a conquista da cidade, em 1415. Além disso, Ceuta continua sendo um lugar carregado de significado, uma pequena porção da Europa em solo africano.

Seu retrato de Henrique, o Navegador, evita a visão heroica que costuma cercá-lo. O que mais lhe interessa no processo pelo qual nações transformam figuras históricas em símbolos?

E.F.: Henrique, o Navegador, é um caso fascinante. Sabemos relativamente pouco sobre ele e nem sequer temos certeza de sua aparência, embora existam inúmeras estátuas em sua homenagem. Ainda assim, sabemos muito mais sobre Henrique do que sobre a maioria das pessoas do século XV. O problema é que boa parte da historiografia se apoiou no relato de seu cronista, Zurara, que está longe de ser uma fonte imparcial. Afinal, ele foi contratado pelo próprio infante para escrever sua biografia. Seus textos são repletos de adjetivos elogiosos, enquanto episódios menos favoráveis recebem pouca ou nenhuma atenção.

A famosa história da escola de navegação de Sagres provavelmente não passa de um mito. Não existe qualquer evidência de que ela tenha existido. Até mesmo o apelido “o Navegador”, atribuído a ele por historiadores alemães no século XIX, é enganoso. Henrique jamais navegou para além de Ceuta. E, ainda assim, foi uma figura histórica decisiva. Sem Henrique, é difícil imaginar Vasco da Gama ou mesmo a existência de um império português. Foi ele quem financiou as primeiras expedições e quem garantiu junto ao Vaticano o acordo que concedeu a Portugal o monopólio sobre a costa africana ainda desconhecida dos europeus.

Por isso, sempre me interessa olhar para além do mito: entender o que ele revela, o que procura esconder e, principalmente, para que serve. Talvez o mais fascinante seja perceber como, com o tempo, o mito acaba sendo aceito como fato histórico.

Navegadores questiona repetidamente a ideia de “descoberta”, lembrando que esses lugares já eram habitados muito antes da chegada dos europeus. Quão importante foi para você desafiar o vocabulário tradicionalmente usado para narrar a expansão colonial?

E.F.: Esse tipo de linguagem sempre me incomodou. Os livros de história estão cheios de homens supostamente heroicos que atravessam oceanos e montanhas para “descobrir” lugares onde já viviam outras pessoas. E, não raro, esses lugares acabam recebendo o nome de quem chegou por último.

O exemplo mais evidente é o chamado “descobrimento” do Brasil, em 1500. Quando a frota de Cabral chegou, aquele território já era habitado por milhões de pessoas, com suas próprias línguas, redes de comércio e cosmologias. Ainda assim, a data continua sendo ensinada como o momento em que o Brasil começou. Chamar isso de descoberta é olhar para a história por uma única perspectiva e tornar invisíveis todos aqueles que já estavam ali. Felizmente, isso vem mudando aos poucos. Mas esse vocabulário é resistente. Ele está inscrito nos mapas, nos livros didáticos e nas narrativas que as nações constroem sobre sua própria origem. E uma linguagem que moldou a forma como as pessoas enxergam o mundo durante cinco séculos não desaparece facilmente.

Em muitos dos lugares que você visita, o português permanece ao mesmo tempo como herança colonial e instrumento de identidade nacional. Isso lhe parece uma contradição?

E.F.: A história e o mundo são feitos de contradições, e essa é uma das que considero mais bonitas. Sim, o português chegou como a língua do conquistador. Mas, ao longo de cinco séculos, foi apropriado pelos próprios povos colonizados e transformado em algo inteiramente seu. O português falado no Brasil não é o português de Lisboa. Tem sua própria musicalidade, seu próprio vocabulário e uma tradição literária própria. Os brasileiros o utilizam como uma marca inequívoca de sua identidade, e não como um símbolo de quem os governou no passado.

Em Angola e Moçambique, a situação é diferente. Ali, o português tornou-se uma ferramenta prática de unidade nacional, a língua compartilhada entre dezenas de grupos étnicos e o idioma em que a independência foi proclamada. Por isso, herança colonial e identidade nacional não são necessariamente forças opostas. Um povo pode se apropriar da língua do colonizador e transformá-la em instrumento de expressão própria. Talvez essa seja uma das formas mais discretas e profundas de descolonização.

Em que momento, durante a pesquisa de Navegadores, você sentiu que os próprios arquivos eram incompletos ou enviesados, que a história havia sido preservada principalmente pelo olhar dos conquistadores?

E.F.: Esse é um problema evidente. Muitas vezes dispomos apenas dos relatos dos exploradores e conquistadores, enquanto aqueles que foram “descobertos” permanecem em silêncio. Muitos desses povos não possuíam tradição escrita e, quando possuíam, seus registros frequentemente se perderam. Graças à carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, sabemos bastante sobre o primeiro encontro entre os portugueses e os habitantes locais no Brasil. Mas jamais saberemos como aqueles povos vivenciaram essa mesma experiência.

O livro sugere que a memória é desigual: algumas feridas coloniais permanecem dolorosamente visíveis, enquanto outras foram absorvidas pelo cotidiano. Na sua opinião, quais fatores determinam se uma sociedade vai lembrar ou normalizar seu passado colonial?

E.F.: É uma questão complexa. Muitas das antigas colônias portuguesas passaram diretamente das guerras de libertação para longos e dolorosos conflitos civis. Em alguns casos, como em Angola, essa experiência acabou obscurecendo tudo o que veio antes. É a guerra civil que as pessoas lembram, porque foi ela que produziu as feridas mais recentes. A questão é saber se realmente é possível separar as guerras de independência e o domínio colonial do caos e da violência que vieram depois. Memórias nacionais e traumas coletivos também são política — e, portanto, história. A forma como essa história é administrada torna-se, por sua vez, uma questão política.

Além disso, nem tudo pode ser facilmente traduzido em palavras ou números. Sem o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, tanto Angola quanto o Brasil seriam países completamente diferentes dos que são hoje.

Muitos países europeus ainda têm dificuldade de confrontar os aspectos mais sombrios de seus impérios. Por que você acha que a nostalgia colonial continua tão presente na Europa contemporânea?

E.F.: Portugal é um caso particular. Países como Reino Unido e Holanda já começaram a enfrentar de maneira mais direta o seu passado colonial. Em Portugal, esse processo mal começou. Ainda se fala com orgulho da Era dos Descobrimentos, e praticamente toda cidade tem uma Rua Vasco da Gama ou uma Rua Infante Dom Henrique. Há estátuas de reis e exploradores por toda parte. Ao mesmo tempo, até hoje não existe um único monumento dedicado ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas em Lisboa ou em Belém, apesar de Portugal ter sido responsável por cerca de metade de todo esse comércio humano. A maioria dos portugueses com quem conversei sequer sabe disso, porque não aprende sobre o tema na escola.

Muitos ainda acreditam que os portugueses foram “bons colonizadores”: mais gentis, menos racistas e mais inclinados à miscigenação do que outras potências europeias. Essa ideia tem até um nome, lusotropicalismo, e, curiosamente, nasceu no Brasil. Ela surgiu a partir da obra do sociólogo Gilberto Freyre, cujo clássico Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, apresentou a colonização portuguesa como algo singularmente íntimo e benigno. A ditadura de Salazar apropriou-se dessa teoria a partir da década de 1950 e a transformou em ideologia de Estado, utilizando-a para justificar sua recusa em abandonar as colônias. Segundo essa visão, Portugal não oprimia; acolhia. A ironia é que esse mesmo mito, sob outra forma, sobreviveu do outro lado do Atlântico na ideia brasileira de “democracia racial”. Ambas as narrativas são reconfortantes. E ambas tornam mais difícil enxergar a violência com clareza.

Durante a viagem, você encontrou pessoas que viam o colonialismo português com nostalgia, e não com ressentimento? Como lidou com perspectivas moralmente tão complexas?

E.F.: Sim, e isso não é nem incomum nem surpreendente. Encontrei exatamente o mesmo fenômeno nas antigas repúblicas soviéticas, inclusive entre pessoas que viveram ao lado dos campos de testes nucleares do Cazaquistão. A explicação é mais humana do que política. As pessoas tendem a lembrar sua juventude com carinho e a colori-la com tons mais luminosos, independentemente do regime sob o qual viveram.

Em Navegadores, o oceano parece quase um personagem, conectando e separando mundos ao mesmo tempo. O que o mar passou a representar para você depois dessa jornada? E, de certa forma, isso se relaciona ao fato de que seus livros frequentemente se detêm em portos, litorais e fronteiras. Você vê esses lugares como espaços simbólicos onde a história se torna mais visível?

E.F.: Durante a pesquisa para o livro, passei dois meses viajando em navios cargueiros de transporte de automóveis, contornando a África e seguindo até o Japão, praticamente refazendo parte das rotas portuguesas. Era uma embarcação moderna e enorme, muito diferente dos navios à vela dos exploradores, mas o mar continua sendo o mesmo. O céu estrelado continua sendo o mesmo. Isso me deu uma percepção concreta da imensidão dos oceanos e da solidão que existe em meio a eles.

Os portugueses abriram os oceanos ao mundo, e nada voltou a ser como antes. As rotas terrestres da Seda perderam importância, enquanto os mares se tornaram as principais vias do comércio global. E continuam sendo até hoje. Talvez seja justamente por isso que portos, litorais e fronteiras me interessem tanto. São lugares onde essas grandes transformações históricas se tornam visíveis.

Depois de passar anos seguindo as rotas do império português, qual você considera ser seu legado mais duradouro: a língua, o capitalismo, as migrações, a violência, a mistura cultural ou algo diferente?

E.F.: É muito difícil apontar apenas um. De certa forma, todos eles. Hoje, o português é uma das grandes línguas do mundo. A globalização e o capitalismo que caracterizam nossa época começaram com o império português. Os portugueses transformaram a demografia de continentes inteiros por meio do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. A população das Américas foi radicalmente alterada após a chegada dos europeus; cerca de 90% dos povos indígenas morreram em decorrência das doenças trazidas pelos colonizadores.

Seus livros costumam transitar entre encontros humanos muito íntimos e grandes processos geopolíticos. Como você decide quando uma história pessoal é capaz de iluminar algo maior sobre o mundo?

E.F.: Sempre procuro histórias individuais que ajudem a revelar questões geopolíticas e processos históricos mais amplos, seja por meio de testemunhas, seja por meio de antigos relatos de viagem. A história é vivida por uma pessoa de cada vez; uma guerra é vivida por aqueles que precisam atravessá-la. A história se torna mais próxima quando está ligada à experiência concreta de alguém, em vez de permanecer apenas como uma sucessão de nomes, números e estatísticas.

Por exemplo, na Guiné-Bissau conheci homens que haviam recebido treinamento antiaéreo na Crimeia e depois retornaram ao país para derrubar os primeiros aviões de guerra portugueses. Ali, a geopolítica e a história mundial se condensavam na trajetória de uma única pessoa.

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