
A matéria do tempo e a geologia do desejo: o pincel-bisturi de Maurício Adinolfi
Pintar, para Maurício Adinolfi, é uma operação de força física, resistência mecânica e arqueologia tátil. A criação visual contemporânea pode estar migrando para superfícies luminosas, efêmeras e desprovidas de massa, mas a produção do artista paulistano prefere a poética que existe por trás do atrito. Suas pinturas se dão no peso da gravidade, na viscosidade da tinta a óleo, na rigidez bruta dos blocos de madeira maciça e na rugosidade do linho encorpado. Na exposição A Carne da Pedra, essa investigação ganha sua expressão mais densa. Nela, Adinolfi escava a Antiguidade com as próprias mãos, sem a distância respeitosa da citação erudita, arrancando do passado uma matéria que continua quente.

Graduado em Filosofia e mantendo um vínculo afetivo direto com o território e a paisagem do sul da Itália, Adinolfi constrói sua linguagem no ponto de fricção entre a densidade do pensamento conceitual e a crueza da matéria física. Essa relação já se manifestava em trabalhos anteriores, a exemplo da mostra Cão em liberdade (2023), na qual o artista articulava um vocabulário plástico focado na colisão das formas. Ali, a justeza geométrica e o silêncio contido dos recipientes do cotidiano conviviam no mesmo plano que a vibração elétrica de objetos banais, como latas amassadas, fósforos, restos de crustáceos e figuras com contornos grotescos. Ao colocar esses elementos em atrito através de composições com grande densidade de tinta, o pintor deixava explícita a sua antipatia à lógica do “cubo branco” — aquele modelo de galeria asséptico, neutro e de paredes impecavelmente limpas. No lugar desse acabamento mais polido, ele preferia ancorar o trabalho no ruído, na contaminação e no entulho visual da vida ordinária.
A partir da sua pesquisa mais recente, seu trabalho ganha um novo fôlego ao olhar para Pompeia. Soterrada pelo Vesúvio em 79 d.C., a cidade acabou guardando sob metros de cinza e pedra justamente o que o tempo teria destruído. Em condições normais, a umidade, as reformas urbanas, os saques e a própria exposição ao sol teriam apagado os afrescos e esfarelado as paredes das residências romanas. No entanto, o soterramento funcionou como uma estufa e, quando os arqueólogos finalmente abriram os casarões da elite, a exemplo da Casa dos Vettii e da Casa del Centenario, encontraram as paredes originais praticamente intactas, cobertas de mosaicos e pinturas murais tomadas por um erotismo direto, focado no prazer e no culto à fertilidade.
Adinolfi puxa desse universo tanto uma temática quanto um jeito de fazer. Em vez de usar pedrinhas de verdade — as chamadas “tesselas”, que os romanos cortavam e encaixavam lado a lado nos mosaicos —, o artista faz esse mesmo trabalho com tinta a óleo. A técnica consiste em depositar a tinta em camadas curtas e espessas, assentando a massa ponto a ponto sobre a tela. É uma construção paciente, como se cada marca de pincel fosse um pedaço de rocha colocado ali. O resultado é uma superfície cheia de relevo e textura, fazendo com que as figuras ganhem corpo e quase saiam do quadro.
Quando se olha para os corpos desse universo tão magnético, não há nada de acabamento certinho ou beleza neoclássica. O gesto ali é de revelação bruta, de rasgar a casca da imagem e escancarar a musculatura, os tecidos e a ossatura que carregamos sob a pele. É uma arqueologia da própria anatomia, com o pincel atuando quase como um bisturi. A carne existe no próprio corpo da tinta, com peso, relevo e presença física.

Nas variações da série Casal de Pompeia, dá para notar uma melancolia subterrânea na repetição obsessiva dos corpos entrelaçados. O erotismo presente celebra o prazer, mas, ao mesmo tempo, expõe a erosão lenta dos afetos e a impermanência dos encontros. A tinta sobre a madeira sofre o mesmo desgaste que consumiu as ruínas romanas ao longo dos milênios. E, com algumas inserções deliberadas de anacronismo, como a personagem de salto alto nos pés, a ilusão do tempo linear se rompe. Assim, os séculos se dobram sobre si mesmos, mostrando que as grandes pulsões humanas sobre o corpo, a fome, o sexo e a finitude permanecem assustadoramente iguais.

A pintura de Maurício Adinolfi exige a presença física de quem vê, a lentidão do olhar e o atrito direto dos sentidos. Em seu ateliê, onde a matéria se acumula e o tempo se sedimenta camada por camada, o ato de pintar se reafirma como um ofício de resistência contra a imaterialidade da vida moderna.
Diante do choque entre o peso da rocha e a temperatura do corpo, fica claro que o desejo e a ruína são feitos da mesma substância e que a pedra, transformada na tela, camada por camada, ainda guarda o poder de sangrar.
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