
China: admirada na economia, incompreendida na política
“O que fazer para que a China seja melhor compreendida pelos demais países?” Essa foi a pergunta feita a mim pelo vice-presidente do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais da Escola do Partido, Fan Jishe, durante o Fórum de Think Tanks sobre Governança Nacional nos Países em Desenvolvimento, evento realizado em Beijing em 2026. Ela reflete uma preocupação genuína e válida diante do desconhecimento generalizado sobre o sistema político chinês, bem como a ressurgência da mentalidade de Guerra Fria, reeditada pelos Estados Unidos e adotada por líderes de extrema-direita de alguns países.

Apesar desses dois fatos, todos querem fazer negócios com os chineses. Empresas como BYD, Great Wall Motors, Xiaomi, Huawei, Shein, para citar apenas as mais conhecidas, estão no Brasil, gerando empregos e parcerias de todo tipo. Diante desse novo cenário, há um consenso de que a China alcançou êxitos econômicos, científicos, tecnológicos, ambientais e sociais inigualáveis. Mas há um fato que intriga. Quando se afirma que esses resultados não podem ser dissociados do sistema de governança liderado pelo Partido Comunista da China, um silêncio constrangedor se instala, como se fosse possível admirar os frutos e ignorar a árvore que os produziu. Às vezes, alguém rompe esse silêncio: “Ah! Mas na China é mais fácil, porque basta o Partido querer para que as coisas aconteçam”. E, assim, um sistema político complexo, formado por instituições estatais, mecanismos de consulta pública, planejamento, avaliação de quadros, experiências locais, supervisões horizontais e verticais e sucessivas reformas é resumido a uma simples ordem administrativa e a uma caricatura.
O debate ocidental sobre sistemas políticos foi comprimido pela oposição entre democracia e autoritarismo. A democracia eleitoral passou a funcionar como medida universal de legitimidade, sem levar em conta as diferenças existentes entre as democracias. Dessa perspectiva, a pergunta sobre como o Estado chinês formula objetivos de longo prazo, seleciona e elege dirigentes, testa políticas, corrige erros e produz bens públicos fica subordinada a um veredito proferido antes da investigação. Não se trata de negar a importância da questão democrática, nem de sustentar que a China deva ser poupada de críticas. Trata-se de recusar que um único conceito monopolize toda a análise política e imponha uma censura velada a qualquer outra discussão sobre formas alternativas de governança. Essa censura tem conseguido, inclusive, impedir a discussão sobre uma das características centrais no estudo do sistema chinês: a de ser uma república popular.
Se olharmos para os movimentos políticos que levaram à queda da dinastia Qing, em 1912, veremos que a questão republicana era o contraponto ao sistema imperial. No entanto, analistas ocidentais ignoram o caráter republicano da China e concentram-se quase exclusivamente no debate sobre democracia. A omissão empobrece a compreensão do país, pois produz um deslocamento seletivo em relação a uma dimensão relevante do ponto de vista histórico e diz respeito à finalidade do poder, à qualidade do governo, ao interesse público e à responsabilidade dos governantes. Também impede de perceber que a tradição chinesa formulou uma reflexão sofisticada sobre mérito, dever público, harmonia social, educação moral e bem-estar do povo que converge para princípios republicanos que vêm sendo desenvolvidos sobretudo desde 1949, com a fundação da República Popular da China, sob a liderança de Mao Tsé-Tung (Mao Zedong), em substituição à República da China, fundada em 1912 pelo Partido Nacionalista.
A República Popular da China é republicana não apenas porque assim se denomina. Há, em sua experiência política, a centralidade da coisa pública e a busca de objetivos coletivos. Em vez de reduzir a política à competição periódica pelo voto, sua governança exige que o poder público demonstre capacidade de ouvir constantemente a população, de promover desenvolvimento abrangente para todos, de preservar a estabilidade social e a soberania nacional.
Em 2021, o governo publicou o livro branco China: Democracia que Funciona, no qual apresenta o conceito de “democracia popular de processo integral”. O documento sustenta que cada país deve desenvolver formas democráticas adequadas à sua história e às suas condições; e que a democracia não pode ser um ornamento, devendo produzir resultados. A proposta procura combinar procedimento e substância, democracia direta e indireta, eleição, consulta, tomada de decisão, administração e supervisão. Com esse documento, a China torna público o seu entendimento sobre “democracia”. No contexto deste debate a China define-se como “socialista com características chinesas”. Este é um aspecto importante, porque destaca a sua singularidade. No 20º Congresso Nacional do Partido, realizado em outubro de 2022, o presidente Xi Jinping consagrou o que ficou conhecido como as Duas Integrações. Ele reafirmou que a adaptação do marxismo exige integrá-lo, primeiro, às realidades concretas da China e, depois, à excelente cultura tradicional chinesa. A primeira integração impede que o marxismo seja aplicado como uma fórmula estrangeira e abstrata. A segunda impede que a modernização seja confundida com a ocidentalização ou com uma ruptura completa em relação à história civilizacional do país. As Duas Integrações fornecem, portanto, uma chave para entender por que a mentalidade da Guerra Fria não é compatível com a China. O sistema chinês não é a mera aplicação de uma doutrina marxista nem a mera restauração de um passado confuciano. É uma construção histórica que procura articular revolução e continuidade, socialismo e civilização milenar. A boa tradição cultural chinesa não concebe o governo como mera arena para a agregação de interesses privados. E isso antecede qualquer teoria moderna. Na perspectiva confucionista, governar implica cultivar virtudes, escolher pessoas capazes, assegurar meios de vida ao povo e preservar uma ordem estável que permita a convivência. A tradição de exames para ingresso no serviço público e a antiga noção de que a autoridade perde legitimidade quando abandona o bem-estar coletivo não são princípios que nascem com a república moderna, eles integram um repertório antigo do qual a China contemporânea continua a retirar sentidos para sua república popular.
Há, naturalmente, uma responsabilidade nesse desencontro de percepções entre o que a China pensa de seu sistema político e como o mundo tenta interpretá-lo. Muitos conceitos chegam ao exterior como fórmulas prontas, sem a história intelectual que lhes confere densidade. Retomo, enfim, a pergunta do fórum: o que fazer para que a China seja melhor compreendida? O primeiro passo é ampliar o vocabulário. A democracia é uma questão incontornável, mas não é a única. República, socialismo chinês, mérito, consulta, planejamento, capacidade estatal e bem comum também pertencem ao campo da política. O segundo é estudar as Duas Integrações, pois isso revela como o país interpreta a relação entre o marxismo e sua continuidade civilizacional. O terceiro é abandonar tanto a idealização quanto a demonização do país.
Por fim, é preciso estudar a China sob uma perspectiva comparada, não para importar seu modelo de governança, mas para compreendê-lo a partir de uma metodologia de base. Como comparar a China, que é um estado unitário, com o Brasil, que é uma federação? Os processos de formação das sociedades são muito distintos. Contudo, isso não impossibilita um diálogo a partir da análise de experiências concretas. Exemplo: a implementação de projetos-piloto para testar políticas públicas antes de nacionalizá-las é uma prática da governança chinesa que merece nossa atenção.
O sistema de cooperação multipartidária e de consulta merece um estudo mais atento. Os comitês de bairro nas cidades e os de vilas nas zonas rurais, cujos membros são escolhidos pela própria comunidade, discutem e decidem questões cotidianas que impactam diretamente a população local. Há, cada vez mais, amplo uso de mecanismos tecnológicos para que a população possa se manifestar sobre as medidas implementadas pela administração. Nos órgãos do poder do Estado, há a preocupação de garantir que os diversos segmentos da sociedade estejam representados. No Poder Legislativo chinês, a proporção de mulheres deputadas vem crescendo acima de 1% desde 2008, chegando a 26,5% em 2023. A título de comparação, na eleição brasileira de 2022, foram eleitas 91 deputadas (17,7% do total de 513 assentos da Câmara dos Deputados) e 13 senadoras (16% do total de 81 assentos do Senado Federal).
Quanto à representação das minorias étnicas, há iniciativas que merecem estudo comparativo. A China tem oficialmente 56 grupos étnicos. A etnia Han representa mais de 90% da população. Em razão disso, a lei busca assegurar que, nas áreas autônomas étnicas, os grupos minoritários possam exercer certos direitos de autonomia administrativa. Na China, os grupos étnicos minoritários têm o direito de usar suas próprias línguas faladas e escritas, inclusive em processos judiciais. Esse exemplo poderia inspirar o Brasil a garantir aos povos originários o direito de usar seus próprios idiomas quando recorrerem à Justiça. Isto é republicano.
Aliás, no quesito “república”, a centralidade das emendas parlamentares no orçamento público brasileiro e seus débeis mecanismos de fiscalização, os penduricalhos nos vencimentos dos magistrados e da elite do funcionalismo público, a autonomia do Banco Central que se converteu em isolamento político e poder excessivo de uma burocracia não eleita, a pensão vitalícia para descendentes adultos e capazes de militares são exemplos de situações no Brasil que contrastam com a cultura republicana da China.
À medida que avança, a China se prepara para novos desafios e também para intensificar sua cooperação com o mundo; e o mundo, por sua vez, precisa de uma China estável, economicamente forte e pacífica. O diálogo com a China pode nos abrir mais horizontes de cooperação e de caminhos para o nosso próprio país. Uma ordem internacional efetivamente plural deve também admitir diferentes trajetórias políticas e tradições de pensamento. Levar a sério a dimensão republicana da China e as Duas Integrações não encerra o debate sobre democracia. Mas são conceitos indispensáveis para entender as razões pelas quais a China tem sido bem-sucedida em seu processo de desenvolvimento e, talvez, seja justamente isso que mais incomode aqueles que preferem uma China economicamente admirável, mas politicamente impensável.
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