Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre
#13Qual é o seu legado?CulturaLiteratura

Um bilhão de saudades

por Vanessa Agricola

Arqueologia da perda, de Daisy Xavier

Faz dois anos que ele se foi. Dois anos que penso nele todos os dias. Vejo alguém comer geleia, lembro dele tomando café da manhã. Comia sempre uma torrada com geleia de laranja, e pra beber um chá inglês. Se alguém fala da França, lembro dele me mostrando Paris. A gente tomando sopa de cebola no restaurantezinho que ele adorava, ali de frente para a Notre Dame, conversando sobre a vida, tomando vinho da casa, ele me dizendo que eu estava linda com aquela jaqueta. Dali saímos a caminhar pela Champs-Élysées, ele avistou um casaco de pele preto, dizendo que era minha cara. Me fez vestir o casaco, perguntou o preço, se não fosse minha sensatez teria comprado. “É muito caro isso, Gorducho”. Sempre teve essa mania de me comprar tudo, como que para me dizer eu te amo, eu já sabia. Mas ele todos os dias queria me dar uma prova, ou num presente, ou num olhar de admiração e carinho que nunca ninguém além dele me deu.

Quando nos sentávamos juntos para jantar, em casa mesmo ou em um restaurante, eu e ele costumávamos nos cutucar embaixo da mesa, por causa de um comentário da minha mãe ou dos irmãos; éramos cúmplices nas nossas opiniões sobre eles. Éramos comparsas. Bastava uma troca de olhares, uma piscadinha, a tão famosa cotovelada que ele costumava dar, era quase um afago, que acabava com a gente rindo junto, da minha mãe, ou dos irmãos, ou de um assunto.

Minha mãe sempre dizia que não podíamos ser mais parecidos. E quando ela ficava de mau humor, ou com ele ou comigo, nós dois ríamos. Sem ele minhas piadas ficaram de mau gosto. Só ele era tão irônico. Também não faço mais churrasco, porque me lembra dele tanto que me dá vontade de vomitar. Não tomo mais vinho com Fanta, não escuto mais tango, nem Shakira. Foi ele que me fez gostar dela. E de Simon and Garfunkel. E de Van Morrison. E de reality shows de culinária. Tarefas impossíveis, tipo preparar um banquete com entrada, prato principal e sobremesa em menos de uma hora o faziam delirar. E eu deitada em seu colo me divertia, de tanto ver esses programas aprendi a cozinhar. Também por ficar com ele na cozinha, enquanto ele fazia seu macarrão com linguiça tão gostoso… Era um mestre-cuca, meu Gorducho. Um campeão de golf, um gênio da matemática, um homem generoso desses que te preparam o jantar tomando um vinho e ouvindo música.

Sabe qual a minha maior tristeza? Vê-lo moribundo, delirando sobre a minha herança. “Nessinha se va a quedar con la casa de Punta”. Me doeu a vergonha que ele sentiu por não ter podido me deixar nada. E por que eu não te disse que o melhor que a gente deixa é a saudade? Será que eu não sabia? Ou não queria acreditar que daquela vez você iria mesmo embora? Que o dia que a gente brigou seria o nosso último dia. Ah, adonde estás ahora? Daí você me escuta? Será que você me lê? O melhor que a gente deixa é a saudade.

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 04 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Casa de Campo

#12 Liberdade Cultura

por Luis Lópes Navarro Conteúdo exclusivo para assinantes

O ícone que o mundo esperava: Elizabeth Taylor e a mística da Serpenti

Design

por Revista Amarello

Puérpera e as dimensões do feminino

Arte

por Revista Amarello

Era um garoto, que como eu, amava educação

#10 Futuro Cultura

por Carla Mayumi Conteúdo exclusivo para assinantes

O Álibi Infantil

#33 Infância Cultura

por Rodrigo de Lemos

Vice is broke ou o obituário do jornalismo de propaganda

Cinema

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Cosmologias bucoanais: narrativas nanopolíticas

#48 Erótica Cultura

por Felipe Ribeiro

A verdade das máscaras e a ilusão da vida

#38 O Rosto Arte

por Gustavo Mouro Conteúdo exclusivo para assinantes

Corpo em Transe

#5 Transe Crônica

por Nuria Basker Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Nati Canto

#53 Mitos Amarello Visita

por Tálisson Melo Conteúdo exclusivo para assinantes

Na capa: Antonio Sobral

#24 Pausa Arte

Capa de Silvana Mendes

#37 Futuros Possíveis Arte

por Silvana Mendes

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.