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Afetocolagens: desconstrução de visualidades negativas em corpos negros

por Silvana Mendes

Afetocolagens é uma série de colagens digitais a partir da apropriação de imagens de domínio público. Neste processo, interfere-se no contexto inicial, desconstruindo visualidades estereotipadas de pessoas negras na fotografia, ressignificando esses corpos ou trazendo uma identidade que lhes foi negada. A pesquisa surge a partir da inquietude com fotografias de escravizados feitas pelo fotógrafo alemão Alberto Henschell. Nelas, encontramos imagens sem identificação como nome ou idade, parecendo, assim, a criação de um catálogo de pessoas/objetos. A “negra pernambucana’’ me faz pensar em quantas mulheres negras pernambucanas têm suas especificidades, e, com o tempo, começo a perceber e me questionar como essa objetificação se reflete até hoje, qual a responsabilidade da fotografia em criar essa semiótica racista e quantas vezes se é dito que “todo negro se parece”, que toda mulher negra é igual. Isso se dá pela repetição de um padrão do que é ser negro, justificando, assim, o genocídio da população negra e as injustiças cometidas contra ela – como quando nos deparamos com a prisão de um negro porque ele se parece com o verdadeiro culpado, porque “preto é tudo igual”. Essa investigação imagética e fotográfica embasa a construção das colagens decoloniais, principalmente pela necessidade de discutirmos as consequências diretas e indiretas das visualidades racistas.

Escrito poético surgido no processo criativo da colagem digital Nossa Senhora Comparecida:

Queria saber o nome dela;
ela nasceu de algum ventre;
sua mãe quem era?
Qual era a comida preferida dela?
Quantos anos ela tinha quando morreu?
Acho que ela não tinha filhos, ou será que teve vários descendentes, ela? Será que ela se chamava Vitória?
Acho que ela era vaidosa… 
Será que ela gostava de música, ou será que ela não lembrava o nome?
Ela tinha nome, nasceu em algum lugar, alguém chorou sua partida e, mesmo sem saber de onde você veio, eu sei que alguém esperou você chegar.
Quem quer que ela seja e onde quer que ela esteja, agora eu só quero que ela saiba que me importo com quem ela era.

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