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Resgate

por Nelson D

Fui encontrado numa rua de Manaus, ainda bebê, com mais ou menos 4 meses de vida. O pessoal do orfanato informou mais detalhadamente aos meus pais adotivos que fui encontrado num estacionamento público e que provavelmente fiquei lá por dois dias até que alguém me encontrasse. Sempre disseram aos meus pais que provavelmente pertencia à uma etnia indígena, mencionando até o nome por causa dos meus traços. Depois do divórcio dos meus pais, essas informações se tornaram mais caóticas. Minha mãe esqueceu o nome da etnia indígena mencionada e meu pai nem lembrava desse detalhe. 

Com 25 anos de idade, decidi voltar ao Brasil; uma decisão movida por muitas motivações. Uma delas foi resgatar meu passado e conhecer mais sobre minha origem. Nos primeiros anos, só consegui visitar Manaus e meu orfanato, nada mais. Nunca tive informações ou pistas sobre a identidade dos meus pais biológicos. Provavelmente me abandonaram naquele estacionamento com a esperança de eu ser adotado e ter um futuro melhor. Não julgo essas pessoas; meus pais adotivos são os melhores pais que eu poderia ter. Mas sempre senti essa necessidade de saber de qual lugar vinha minha aparência, de onde vem esse rosto, essa pele, esse cabelo… Meus pais nunca me esconderam o fato de ser adotado (também porque eles são brancos e eu não) e nunca esconderam essa ligação com os povos indígenas; ligação que nunca foi totalmente clara naquela época. Eu sabia que era parecido com os habitantes de Manaus. 

Nos primeiros anos em que estava no Brasil, já seguia no processo de resgate, mas de resgatar minha identidade brasileira primeiro. Viajei por algumas cidades e decidi morar e trabalhar em São Paulo. Nesse tempo, me dei conta de quais lugares os povos indígenas ocupavam na sociedade brasileira e de qual invisibilidade eles sofriam. A necessidade de me aprofundar num segundo resgate ficou mais forte: eu não era somente brasileiro, mas também indígena, embora tivesse algo que internamente me bloqueasse. Indígena é só aquela pessoa que as mídias e a sociedade mostram? São só aquelas pessoas que moram na aldeia e que cresceram dentro da própria cultura? Essas dúvidas frearam muito meu entusiasmo, e cultivei um pequeno conflito interno. Será que, por ter sido criado na Itália, não sou mais indígena? Será que outros indígenas não irão me aceitar como indígena? 

Eu tinha caído numa armadilha psicológica bem presente na sociedade brasileira, que em diferentes camadas contribuiu para um processo de etnocídio – isso até conhecer outros indígenas. Conheci Katu Mirim, indígena urbana Bororé; Renata Tupinambá; Juão Nÿn, de Rio Grande do Norte; Kae Guajajara e muitos outros. Além de me aceitarem e me reconhecerem, me orientaram mais sobre identidade indígena e as lutas que os povos indígenas estão enfrentando: o genocídio do qual eu já era consciente se manifestava em diferentes contextos e formas. Entendi que era importante continuar a pesquisa sobre minha origem, assim como entendi que é importante mostrar para a sociedade que existe uma pluralidade da existência indígena e que a diáspora indígena é uma realidade da qual eu era a prova. Comecei a me aprofundar mais sobre os diferentes povos do Brasil e decidi aprender Nheengatù, um idioma muito falado na Amazônia, especialmente perto do rio Tapajós. Esse idioma tem a fama de ter sido imposto pelos jesuítas durante o período da colonização para facilitar a comunicação naquela região. Porém, há muitos indígenas que sustentam a teoria de que essa língua sempre existiu como idioma genérico e que ter sido imposta pelos colonizadores não a desqualifica. Não sabendo ainda qual minha etnia, optei por começar a estudar esse idioma que me proporcionou muitos conhecimentos sobre culturas e uma leitura da realidade dos povos indígenas. 

Demorei um pouco até decidir fazer um teste de DNA. Além de confirmar minha identidade indígena, esse teste me conectou com primos de quarto grau com os quais meu DNA está mais relacionado. Todos indígenas da Amazônia e do Mato Grosso. Consegui entrar em contato com alguns deles, e atualmente continuo essa correspondência. Essa viagem de resgate também trouxe algumas realidades amargas. Percebi o nível de perigo em qual vários povos indígenas se encontram, e que muitos deles não estão completamente alinhados entre si sobre várias questões. Uma dessas é a questão da identidade. Para alguns, mesmo carregando os traços somáticos, é importante ter sido criado dentro da cultura de um povo e ser reconhecido por ele; outros reconhecem os casos em que indígenas foram obrigados a deixar as aldeias e crescer em contextos urbanos longe do próprio povo e da própria cultura. De um lado, entendo que essa seletividade e desconfiança venha de vários casos em que pessoas sem nenhuma relação se apropriam da identidade e entram num esquema que eu chamaria de “indígena por conveniência”. Do outro, vejo que isso cria muitas fraturas entre pessoas que lutam do mesmo lado e pertencem à mesma terra. 

Pessoalmente, sinto a necessidade de reforçar mais trocas de diálogos e vivências, pois não podemos permitir, nesse momento difícil, a criação de mais bolhas sociais e ideológicas. Eu sinto a necessidade de expor minha identidade não só por motivações pessoais, mas porque é um ato que contribui na construção da base por uma luta de sobrevivência étnica e humana. Os indígenas existem e continuarão a existir, preservando culturas e criando outras, expressando antigas formas de vivências e inventando novas, falando diferentes idiomas, vestindo diferentes roupas e seguindo diferentes estratégias. Meu resgate anda junto com o compromisso de participar de processos, com o objetivo de construir perspectivas melhores, seja para os povos indígenas, seja para todo o povo brasileiro. Gostaria que a sociedade entendesse que ser indígena é fazer parte de um universo mais complexo do que se pode pensar, e que esse universo preserva sabedorias e visões de vida que são as reais riquezas dessa terra.

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