Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre
Obras de Aislan Pankararu fotografadas por Estúdio em Obra.
#47Futuro AncestralArtes Visuais

Aislan Pankararu e o mistério: ondas fractais em plena força

por Rodrigo Villela

A flecha artística de Aislan me atingiu em meados de 2021, pelo Instagram: impactado com a produção incansável e inédita desse jovem artista, entrei em contato: “Olá, boa tarde, tudo bem? Sou curador e gostaria de conhecer mais sobre seu trabalho.” A partir daí, seguiram-se incontáveis mensagens, uma conversa por videochamada e um convite que fiz para o então estudante de medicina da Universidade de Brasília (UnB), prestes a se formar: fazer parte da residência artística que eu estava organizando no Kaaysá, na Praia de Boiçucanga, em São Paulo. Dez dias depois, lá estava Aislan. Dada sua habilidade pictórica, em desenho sobre kraft, transposta à tela pela primeira vez, o então médico se formou artista, e com ele aprendi inúmeras relações entre ciências biomédicas e arte, entre universos ínfimos e a visualidade de suas obras, eivada pelos padrões e ritmos das células e moléculas — algo que, para o homem branco, geralmente são apenas elementos constitutivos da matéria observados pelo microscópio, mas que, para Aislan, são representações da sua maior ancestralidade. Isso sem falar em propriedades curativas, atribuídas por ele tanto à medicina como à arte. Rebelde e contestador, Aislan soube trilhar seu caminho com autonomia e liberdade, e digo isso como quem o viu “saindo do ovo da cobra”, como ele mesmo afirma. Hoje ele é representado pela Galatea Galeria, onde realizou sua primeira mostra individual, em novembro de 2023, com curadoria de Lisette Lagnado. O artista de 33 anos também tem um trabalho que integra a mostra Histórias indígenas, no Museu de Arte de São Paulo, o Masp.

Todo esse enorme preâmbulo para falar do que importa: a produção de Aislan. Por sorte, já tomei ayuahuasca algumas vezes (uma delas com um maldito xamã Hanilkui, deixa ele), mas digo isso porque a aproximação com a ayuahuasca me parece fundamental pra entender a onda de fractais inexplicáveis em movimento orgânico, contíguo, infinito. E como pessoa branca, distanciada dessa realidade, uspiano de formação eurocêntrica, olho com deslumbre para essa força pulsante calcada na planta e na organicidade celular. Num tempo cada vez mais dissonante, com pandemias que parecem só começar, degelo de calotas polares, enfim, o caos, ter contato com uma produção artística que problematiza o conhecido a partir do elemento celular mais elementar e do encantamento provocado por ele me parece um vislumbramento instigante e necessário — quase da ordem da “miração”. Daí a força de Aislan, que, com cosmovisão, transforma tempos, movimentos e traços — e pontos (ele é obcecado por bolinhas). Eis que o médico-artista-curandeiro nos receita uma medicina que pode causar rebuliço. Incontrolável. E se soma a isso seu questionamento quanto a uma visão indígena exclusivamente amazônica, dado que ele vem e fala da caatinga. Tudo isso nos faz rever de onde falamos e também indagar sobre a multiplicidade de visões e cosmogonias presentes apenas no território chamado Brasil.

Com isso, torna-se urgente dizer: nada de se ater à beleza por si. O belo no trabalho de Aislan convida à luta — resta encontrar qual luta transformadora é essa. Assim como ele descobre o mundo através do fazer, primeiro pintando em posca sobre papel kraft, agora em telas de linho, em couro, bordado em voal ou ainda em escultura. Isso deixa claro que o suporte não realiza, só informa, mas o problema que ele alcança segue se mostrando inalcançável, e a elaboração sobre o fazer segue sendo a posteriori, dada a urgência de realizar e de se apresentar. O que ele alcança, porém, segue, de certa forma, inalcançável, porque é mistério é dessa ordem micro-macrocósmica ligada ao funcionamento de tudo. Mesmo para Aislan, a elaboração sobre o que faz parece ser a posteriori, dada a urgência daquilo que pressente e manifesta.

Alheio a rótulos, livre e contundente, Aislan nos apresenta, por meio de seus trabalhos, um cosmo complexo, muito mais ligado ao sentir do que à racionalização. Entretanto, se trata de um sentir conectado a algo imenso. Aislan apresenta em seu trabalho um tipo de junção de firmamentos, conhecimentos, sensações — algo que para nós tem também o efeito de um universo de perguntas em aberto.

Essa falta de resposta em sua produção, uma progressiva elipse, paradoxalmente produz conexões inesperadas em todos os suportes e as técnicas que utiliza. Esse paradoxo de seu trabalho, esse inesperado, esses delicados momentos de espanto que nos oferece e que talvez ele próprio não entende completamente são a impressionante e crescente força de sua produção: a força de um mistério.

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 04 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Sobre o consumo

#52 Satisfação Filosofia

por João Quartim Moraes Conteúdo exclusivo para assinantes

Adentrar a mata, sair da caverna

#53 Mitos Sociedade

por Thiago Thiago de Melo Conteúdo exclusivo para assinantes

O futuro dos museus está dentro de nossas casas

#29 Arquivo Cultura

por Guilherme Abud Conteúdo exclusivo para assinantes

A Criança e os Reis

#33 Infância Arte

por Alvaro Seixas

Nós e eles: como pensar o direito dos animais?

Cultura

por Leticia Pinheiro Lima

Por uma vida mais ordinária

#13 Qual é o seu legado? Cultura

por Helena Cunha Di Ciero Conteúdo exclusivo para assinantes

Falso brilhante

#17 Fé Cultura

por Hermés Galvão Conteúdo exclusivo para assinantes

Pode a pessoa negra ser feliz? Um ensaio com e contra a psicanálise

#52 Satisfação Cultura

por Érico Andrade Conteúdo exclusivo para assinantes

Três irmãs em conluio

#28 O Feminino Cultura

por Marcelo Consentino Conteúdo exclusivo para assinantes

“Deságue” e as figuras mitológicas do Brasil

Cinema

por Revista Amarello

O outro, nossa grande carência

#51 O Homem: Amarello 15 anos Sociedade

por Nicolau da Rocha Cavalcanti Conteúdo exclusivo para assinantes

Cuidado com a língua

#41 Fagulha Cultura

por Rafael Julião

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.