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#55Imagem BrasilCultura

Ritual de iniciação

por Trudruá Dorrico

Desfiando algodão e fazendo rede, de Carmézia Emiliano, artista de etnia macuxi. Reprodução

Eu me chamo Trudruá Dorrico, sou indígena makuxi, povo que ancestralmente ocupa a terra que hoje se divide entre os países Brasil, Guiana e Venezuela.  

O povo makuxi possui o tronco linguístico Karib. O nome de nossa língua é o mesmo do povo. Temos costumes como o de dançar a parixara, comer damorida, vestir saia de palha. E viver o presente e todas as suas tecnologias: estudar, aprender outras línguas, fazer intercâmbio, dialogar com outros mundos, viajar.  

Cena 1: meus pais  

Eu estou morando em Paris.  

Mas, antes de contar essa história, vou fazer um brevíssimo relato de migração.  

Meus pais, em decorrência do garimpo, mudaram-se da Guiana para o Brasil, e de Roraima para Rondônia, onde eu nasci, em Guajará-Mirim, na década de 1990. Cresci num distrito chamado Abunã, uma comunidade ribeirinha instalada às margens do rio Madeira. Pode-se dizer que era bem dentro da Amazônia.  

Sou filha de mãe macuxi da Guiana e pai quéchua do Peru. A geopolítica sempre atravessou, portanto, minha vida. Minha mãe é falante da língua macuxi, inglês e português; meu pai, quéchua, espanhol e português. No tempo deste texto, eles se divorciaram há muitos anos. Apesar disso, foi suficiente para, até os nove anos, eu estar cercada de línguas e culturas diversas. Essa pluralidade nunca foi, para mim, uma barreira; pelo contrário, foi um jeito de aprender a viver com culturas e línguas diversas.  

Com a separação dos meus pais, minha mãe nos levou, eu e meus irmãos, para Roraima, Boa Vista, com as tias, e para Bonfim com meu avô e minha tia-avó. Bonfim faz fronteira com Lethem, Guiana. Esse é um Brasil que muitos brasileiros de outras regiões nunca nem ouviram falar. Em Abunã, se cruzássemos o rio, chegávamos ao território boliviano. Muitos soldados de lá inclusive desciam para o nosso distrito para comprar pão e mantimentos. Antes não tinha ponte, hoje tem, mas também era uma balsa fluvial que a gente pegava para atravessar o rio Tacutu, chegar ao Lethem e fazer compras, pois Lethem é um centro comercial a céu aberto, é região de livre comércio. Guajará-Mirim, onde nasci, também tinha fronteira internacional: com Guayaramerín, na Bolívia.  

Estou mostrando todas as fronteiras que fazem parte da minha história para exprimir que eu sempre vivi entre fronteiras geopolíticas. Hoje, viver na França me lembra de todos esses lugares em que cresci e passei a maior parte de minha vida. Contudo, viver em outro continente me faz pensar em algumas coisas.  

Cena 2: eu  

A primeira vez que vim a Paris foi no ano de 2023. Vim fazer uma residência artística de três meses no Cité Internationale des Arts a convite do Theatro Municipal de São Paulo. Aqui escrevi o livro Tempo de retomada, que, mais tarde, em 2025, seria tema do Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Quando cheguei aqui, não sabia falar uma palavra em francês, e achava que a língua francesa se chamava françois.  

Não saber a língua francesa me colocou num lugar de criança novamente, e eu acho que voltar ao estado de ser criança é muito bom. Tipo quando a gente anda num bairro pela primeira vez e se perde, ou quando algo te faz lembrar da sensação que você sentiu nos seus primeiros anos de vida, como ter feito capoeira me lembrou que eu brincava de rodar até cair de tontura. Enfim, me senti nesse estado, de tudo novo, tudo escrito numa outra língua, acordando com outra arquitetura, com muitas nacionalidades indo e vindo na cidade mais visitada do mundo.  

Me perguntei: o que eu, indígena, faço aqui, nesta cidade de arte que não me entende? Ao mesmo tempo que consegui curar a fadiga mental decorrente do doutorado e da pandemia, comecei a me desesperar e pôr em cheque minha capacidade intelectual de aprender outros códigos neste país. Estudar é sempre minha direção, eu acredito na minha intuição pesquisadora, então fui estudar a língua no ano seguinte para poder me fazer compreender.  

E aí outras questões se impuseram a mim, como anunciar minha nacionalidade. Porque eu não sou só brasileira, eu sou macuxi-brasileira. Eu nunca tinha comprado uma blusa do Brasil e ainda não tenho uma bandeira, apesar de querer comprar, nunca tinha tido vontade de gritar que amo o meu país, que samba e carnaval nem são as festas mais populares de nossa região. Eu gostaria de gritar, ser patriota, mas como posso amar um país que só agora está começando um relacionamento com os povos indígenas?  

24 de fevereiro de 2026. Abro o Instagram e vejo uma enxurrada de postagens sobre a vitória da mobilização indígena — cito aqui a da parenta Alessandra Munduruku, mas tem muitas outras — contra o Decreto nº 12.600/2025, que abria caminhos para a privatização dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira, cuja maior interessada é a empresa Cargill, que, por sinal, é francesa e multinacional do agronegócio. A minha apreensão é sobre a velocidade com que se faz um decreto, sobre como o preço para desabilitá-lo custa a vida dos meus parentes. São evidentes a alegria e os sinais da permanente luta e vigilância contra a ameaça dos rios. A vitória é do rio e dos parentes que se mobilizaram por 32 dias frente à ameaça iminente da empresa privada e da conivência do Estado brasileiro. 

O ano de 2025 foi marcado pelo pacto cultural Brasil e França, com atividades culturais brasileiras na França e francesas no Brasil. Esse intercâmbio cultural teve forte repercussão aqui. Em ruas, restaurantes e academias, vi várias pessoas com a blusa do Brasil. As atividades que fui ver nas margens do Sena tinham um público considerável de brasileiros e gente de outras nacionalidades.  

O que, no entanto, mais aqueceu meu coração foi a parte da pesquisa. Estudantes indígenas oriundos do Programa Guatá, voltado exclusivamente para mestrandos e doutorandos indígenas das universidades Unicamp, UnB, UFMG, UFSCAR, UEA e UFRR. Eu participei, a convite de estudantes e professores envolvidos no programa, de seminários e conferências, e foi muito bom ver a demarcação da produção de conhecimento. Cada estudante indígena acaba exibindo um Brasil que a França não conhece. 

Cena 3: permanência 

Todas as vezes que eu falo que sou brasileira, percebo uma simpatia, mesmo que ela não tenha sido apresentada de primeira. É muito difícil julgar um país a partir de experiências singulares, e eu só posso falar a partir das minhas poucas vivências dos trânsitos Brasil-França que fiz de 2023 a 2026.  

Falando como macuxi, eu queria não ter esse ressentimento com o Brasil. Talvez eu fosse mais corajosa, mais sorridente, mais leve a qualquer manifestação cultural, e não reticente. Quando, Brasil, você vai nos amar de verdade?  

Culturalmente falando, Caramelo, cinema, Amazônia, Havaianas, brigadeiro, mousse de maracujá têm me confortado nesse continente do lado de cá. E o fato de o Brasil estar na moda.  

Aprender a língua francesa é uma ferramenta para apresentar um outro Brasil aos franceses, o Brasil Macuxi.  

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