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Obra de Arthur Luiz Piza. Direitos reservados à Fundação Piza.
#56O que está acontecendo?CulturaSociedade

Do rio Andirá ao Rio de Janeiro: Oropouche, racismo e crise climática

por Thiago Thiago de Melo

A região amazônica é feita pelo subir e descer das águas dos rios. Todo ano é assim, há muito tempo. As águas são as donas de tudo. Dão a vida, os frutos, abrem e fecham caminhos. Mais de 1700 rios compõem a paisagem daquele lugar. Tem mais rios na Amazônia do que na Europa. É o início de tudo, mas, sobretudo, o meio onde a vida acontece. Água gera vida, e os rios voadores — eita, tem água até no céu! — ajudam a umedecer outras partes do país. A água é generosa.

No estado do Amazonas, o maior do Brasil, e mais especificamente no Baixo Amazonas, costuma dizer o senso comum ribeirinho que existem duas estações do ano: o verão, de junho a novembro, e o inverno, de dezembro a junho. O inverno é quando chove mais: dias brancos, nublados. O verão é quando seca. Às vezes, são meses sem chuva nesse período da vazante. No final do ano, as águas começam a subir, e é sempre um deslumbre ver as mudanças da natureza. Não é apenas a paisagem que se transforma. É a quantidade e os tipos de peixes e frutas, os insetos, a folhagem das árvores. Muda-se a dieta, mudam-se os hábitos, os sons, a temperatura. No verão forte, muitos rios, furos e igarapés secam a ponto de virarem estradas de terra ocupadas não mais por embarcações, mas por motos, bicicletas, carros, triciclos e caminhonetes. As cheias, noutro extremo do ano, trazem à tona os igapós, a floresta alagada, lagos e lagoas.

O Andirá é o rio pelo qual tenho mais afeto no mundo. Rio dos meus antepassados — pai, avô, bisavós e, possivelmente, tataravós, ou até mesmo antes deles gente sangue do meu sangue estava por lá. Mas é também rio onde hoje se banham minhas filhas, dando continuidade a essa história ancestral que tanto me (co)move, me dá assunto e sentido. Conheci o Andirá aos seis meses de idade, quando cheguei acompanhado de minha mãe e meu pai, moradores da cidade de Barreirinha, no Amazonas. Esse rio é tão rico! Território sateré-mawé, e onde se encontra a maior população quilombola do estado. (Uma vez ouvi de Maria Amélia dos Santos Castro, importante liderança quilombola da comunidade de Santa Tereza do Matupiri, que o Amazonas não é apenas indígena ou caboclo: “o Amazonas é negro”, ela me disse, entre o orgulho e a indignação.)

Na segunda quinzena de junho, o rio começa a baixar. Em setembro e outubro é o auge da seca, com muitas praias abertas pela estiagem, como a da Safadeza e a do Caturetê. Em janeiro de 2024, fui a Manaus para o lançamento do meu livro Uma varanda no meio do rio, publicado pela editora Impressões de Minas, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, com a presença de gente querida da minha infância em Barreirinha e de muitos artistas: Djedah, Célio Cruz, Zeca Torres (Torrinho), João Paulo Ribeiro, Celdo Braga, Alcides Alexandre e Paulinho Assunção. Em seguida, viajamos de imersão, uma turma grande, à região de Freguesia do Andirá. Fomos visitar a Casa da Poesia, último refúgio que meu pai, o poeta Thiago de Mello — que chamava o Amazonas de “pátria d’água” —, manteve no interior da floresta.

Depois de 24 horas de barco saindo de Manaus, atracamos no pequeno porto de Freguesia. Havia capim por toda a margem daquele pequenino distrito, atrapalhando o atracar de pequenas embarcações, que não conseguiam chegar à terra firme. Os ribeirinhos chamam esse mato de barranco. As praias e toda a margem estavam ocupadas por essa vegetação densa e muitas vezes catinguenta, a ponto de curumins e cunhantãs não conseguirem tomar banho. Estranhei; na verdade, lamentei. Em mais de 40 anos indo e vindo por aquelas águas, nunca tinha visto tal situação. O verão tinha sido de lascar, me diziam, e corria o surto de uma febre que estava pegando muita gente, de idosos a crianças. Pessoas da comunidade usavam máscaras e passavam álcool em gel nas mãos, como se estivessem se protegendo de algo contagioso como a covid-19. Os mais velhos ainda não tinham visto enfermidade como aquela.

Margens tomadas por vegetação, população com febre e uma quantidade fora do comum de maruim, esse minúsculo mosquito, tão gitinho que quase não conseguimos enxergar. “É o clima no mundo que está mudando”, comentavam. Os dias eram vividos com a intensidade que o lugar exige, espécie de êxtase causado pela mistura de Amazônia, poesia, utopia, arte, cultura, farinha de mandioca, música, caldo de jaraqui, mapará assado de brasa e pimenta murupi. Até que, depois de uma semana, senti os primeiros sintomas ao cair da tarde. O crepúsculo trouxe febre, moleza, dores no corpo. Tomei analgésico e fui ao posto de saúde. O médico, jovem vindo de Goiás, me mostrou em seu celular uma matéria sobre a febre de Oropouche, de que eu nunca tinha ouvido falar, e sentenciou: “é isso que você tem”. Em Freguesia, ninguém sabia o que era essa moléstia que parece uma dengue. Uma semana depois, os sintomas voltaram, mas diferentes: febre baixa, dor de cabeça. Anjinha, minha amiga, sábia das plantas, me puxou com óleos de copaíba e de andiroba. Dias depois, já em Manaus, fui a um hospital que é referência no combate a doenças infecciosas e parasitárias. Não testavam para Oropouche, mas deu negativo para malária. Voltei ao Rio de Janeiro e não demorou a surgir a terceira leva de sintomas, dessa vez com sinusite e febre. Senti-me um pugilista que vinha apanhando round após round há semanas. Para evitar o nocaute, procurei a Fiocruz, referência brasileira no mundo no campo da saúde pública e da ciência. Foi confirmada a febre de Oropouche. Passei a ser monitorado pela Secretaria Estadual de Saúde. Os jornais e as TVs anunciavam: “o primeiro caso de Oropouche no Rio de Janeiro é de um homem de 42 anos com histórico de viagens para o Amazonas”.

Mais do que febre e mal-estar, me doeram casos de racismo e xenofobia que vivenciei na ocasião. No bairro em que moro no Rio, um conhecido me abordou com odiosa indagação: “Mas o que você vai fazer na Amazônia? Só tem índio por lá!” Ao que prontamente respondi: “Você se refere aos povos indígenas, certo?” Vi que ele ficou embaraçado com o próprio preconceito de relacionar os povos originários a algo infra-humano. Não comigo. Mas o pior foi o que vivi em um hospital renomado na Zona Sul carioca, quando o experiente médico que me examinava cravou: “Você está com alguma doença que pegou no Norte do país, só vem coisa ruim de lá”. No momento, eu estava tão debilitado que só consegui pedir por mais respeito.

A ignorância amamenta o preconceito. A educação é um caminho para diminuir o racismo. Fiquei a pensar porque contraí febre de Oropouche. Claro que não foi por causa dos povos indígenas, como também é inadmissível culpar a região Norte, como sugeriram a mim alguns membros da classe média carioca.

A estiagem no Amazonas no segundo semestre de 2023 foi das mais brutais da história. O nível dos rios baixou como nunca desde que começaram as medições, no início do século 20. O extremo calor na região levou ao aumento da temperatura das águas e, com isso, à mortandade de botos e peixes. Universidades brasileiras apontaram que tanto o calor quanto a seca refletem mudanças climáticas. Cientistas da World Weather Attribution (WWA) indicaram que o clima transformado pela ação humana foi causador dessa que foi a pior seca na região amazônica em mais de meio século. Queimadas e desmatamentos deformam a paisagem. Mesmo um fenômeno como o El Niño, que afeta a quantidade de chuva na região, é menos decisivo para a situação do que a ganância e a irresponsabilidade do ser humano.

No início do século, a teoria do Antropoceno se popularizou com o trabalho de Paul Crutzen e Eugene Stoermer. Vigorou, com isso, a noção de que entramos numa nova era geológica, marcada pelo aumento da temperatura média do planeta, resultado da atividade humana. Do ponto de vista político, é um alerta para pressionar os poderosos do mundo. Por outro lado, pesquisadores como Jason Moore e Donna Haraway criticaram o conceito de Antropoceno por ser vago, vazio, abstrato demais — por isso, confortável —, não conseguindo dar conta de explicações sociais e históricas da crise climática. Ao estabelecer uma crítica genérica à humanidade como causadora principal do aquecimento global, o Antropoceno turvaria a percepção de motivos fundamentais dessa crise, desconsiderando relações assimétricas de poder, raça e classe. Ou seja, o problema não seria a humanidade em si, mas a violência do sistema capitalista, que se alimentou de colonialismo, industrialização e objetificação/mercadologização da natureza. É nesse sentido que Moore fala em Capitaloceno, compreendendo o capitalismo não simplesmente como sistema econômico, mas como forma desintegrada de viver a natureza: um modelo violento de exploração e acumulação.

O que vivi em janeiro de 2024 em Freguesia do Andirá — margens tomadas pelo capim dos barrancos, trazidos pela cheia dos rios após forte estiagem — foi uma paisagem natural afetada pela ação humana e o desejo secular de aumento de lucro. A quantidade de maruim era avassaladoramente maior que em anos anteriores. Contrair a febre de Oropouche no Andirá foi sinal de que as mudanças climáticas não estão longe de nós. Fora o prejuízo, financeiro e espiritual, para milhares de famílias ribeirinhas impostas a essa situação, ela faz aumentar a chance de a floresta amazônica ter seu poder de equilibrar o clima no Brasil (e no mundo) enfraquecido. Não posso deixar — não podemos deixar — que os rios tenham seu curso interrompido, que as águas não sejam geradoras da vida. O que está acontecendo? Tudo está junto e em movimento. Fazer circular os conhecimentos, se aproximar, conhecer e quiçá amar, são formas de cuidarmos da Amazônia, que tanto cuida de nós.

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