
O devir-negro do mundo algorítmico: necropolítica, engenharia molecular e a resposta do pensamento radical negro
Responder à pergunta “O que está acontecendo?” exige, antes de tudo, compreender como as mutações do capitalismo tardio e o avanço da extrema-direita e do conservadorismo reeditam velhas violências coloniais sob novas roupagens tecnológicas. O ponto de partida está nas formulações de Achille Mbembe em A crítica da razão negra, ao conceituar o “devir-negro do mundo”. Mbembe identifica um momento histórico em que as dinâmicas de predação, o desapossamento da autodeterminação e a transformação de seres humanos em coisas descartáveis deixam de ser uma exclusividade reservada aos corpos de origem africana durante o capitalismo mercantil e a escravidão colonial. Na contemporaneidade, a fusão entre o capital neoliberal e as big techs institucionalizou a datificação da vida e a conversão das existências em códigos digitais como padrão global. Pela primeira vez na história humana, a condição de vulnerabilidade e descartabilidade se generaliza. Paralelamente, o filósofo camaronês nos alerta para o risco iminente de a medicina e as técnicas genéticas abandonarem a função de normalizar organismos destruídos pela doença para assumirem uma engenharia molecular voltada ao controle de qualidade das populações e ao afastamento de raças tidas como “indesejáveis”. Longe de pertencerem apenas ao passado colonial ou ao terreno da ficção científica, a raça e o racismo ganham um futuro sofisticado e perigoso, operando como tecnologias biopolíticas de seleção, vigilância e exclusão.
O que estamos testemunhando, nesse cenário de avanço neofascista e de hegemonia das corporações de tecnologia, é uma ofensiva direta e coordenada contra direitos conquistados nas esferas de raça, gênero, classe e sexualidade. O neoliberalismo mais predatório aliou-se ao reacionarismo político para transformar as plataformas digitais e os ecossistemas de informação nas novas Companhias das Índias Ocidentais. Os algoritmos de recomendação, o reconhecimento facial, o policiamento preditivo e a mineração de dados nada mais são do que a continuidade da razão colonial, reatualizando o racismo estrutural em formato de código-fonte. A meu ver, ao se discutir a matriz de dominação e as imagens de controle conceituadas por Patricia Hill Collins, nota-se que a estrutura de poder organiza e administra a opressão através de domínios estruturais, disciplinares e hegemônicos. A mídia corporativa e os fluxos algorítmicos atalham a subjetividade para desumanizar o Outro, erigindo estereótipos que naturalizam a violência e o genocídio da população negra. Contra essa engrenagem de controle, temos o olhar opositor teorizado por bell hooks, que ensina que o ato de olhar pode ser politizado como resistência crítica para desmantelar as representações hegemônicas. Para a população negra e subalternizada, contudo, o apocalipse não é uma ameaça ao futuro ou um pesadelo distante: como nos ensinou a pesquisadora afrocêntrica Marimba Ani, o apocalipse já aconteceu com o advento da maafa — termo em swahili para a “grande tragédia”, identificando os séculos de sofrimento de pessoas de herança africana através da escravidão, do imperialismo e do colonialismo. A atual conjuntura de avanço da extrema-direita e do fascismo social é apenas a sofisticação da necropolítica e da gestão da morte, na qual a tecnologia das big techs serve para capturar e clausurar as duas matrizes fundamentais do possível: o tempo e o futuro.
Frente a essa tentativa de aprisionamento do tempo e de redução dos seres humanos a métricas descartáveis, o pensamento radical negro e o afrofuturismo surgem não como modismos mercadológicos, tendências passageiras ou escapismos da ficção científica, mas como uma resposta político-epistêmica e uma ferramenta profunda de desalienação. O afrofuturismo consolida-se como um movimento estético, filosófico e político que cruza ficção especulativa, recuperação histórica, crítica social e tecnologia a partir de perspectivas afrodiaspóricas e do continente africano. Como nos lembra Kodwo Eshun, a existência negra e a ficção científica compartilham uma mesma essência, pois a sensação de alienação, o estranhamento e a experiência traumática da abdução alienígena já foram vivenciados pelos africanos sequestrados em navios e lançados em terras estranhas sob extrema hostilidade racial. O afrofuturismo opera, assim, como um distúrbio temporal e um exercício de revisão histórica: desconstrói a máxima eurocêntrica e hegeliana de uma África “sem história” ao resgatar as ciências e astronomias ancestrais — como os saberes keméticos ou a astronomia do povo Dogon — para projetar futuros alternativos, em que a negritude é protagonista e soberana.
Em oposição ao tempo linear do progresso ocidental, o afrofuturismo contrapõe o tempo espiralar e a sabedoria do sankofa, ideograma akan que ensina que o futuro é ancestral, e que voltar atrás para buscar o que ficou esquecido não é retrocesso, mas a única forma de construir o presente e projetar o amanhã. Da mesma forma, contra a vigilância óptica e o ocularcentrismo do capital, contrapomos uma cosmopercepção centrada no som e na audição. Para desorganizar a narrativa dominante, Eshun elabora o conceito de ficção sônica (sonic fiction), demonstrando que o som e a música não são meros entretenimentos, mas embalagens conceituais, motores de subjetividade e plataformas especulativas capazes de criar realidades paralelas e projetar futuros diaspóricos através da manipulação do áudio, dos encartes, das timbragens e dos ritmos de África e suas diásporas. A ficção sônica funciona como uma tecnologia secreta negra que hackeia a linha do tempo colonial e gera distúrbios na narrativa dos vencedores. Essa especulação vibracional conecta-se diretamente ao sistema de pensamento da MythScience (ou Astro Black Mythology) estruturado pelo jazzista pioneiro Sun Ra. Nela, o mito e a ciência não aparecem separados conforme a lógica cartesiana eurocêntrica, mas fundem-se em um campo de conhecimento que reúne egiptologia, astronomia, cosmologias africanas e especulação tecnológica para desafiar o academicismo ocidental. Ao intitular seus músicos como “cientistas do tom” (tone scientists), Sun Ra demonstrava que a música e as vibrações sonoras são ferramentas capazes de transportar comunidades inteiras para além das limitações históricas impostas pelo racismo, operando no “outro lado do tempo” e alterando a própria realidade corpórea e espacial. É essa conjunção — da ficção sônica de Eshun com a MythScience de Sun Ra — que fundamenta a música negra como um arquivo vivo e como uma frequência grave capaz de atravessar o corpo, induzir ao transe, promover a cura psíquica e reconstruir o senso de comunidade frente ao adoecimento provocado pelo racismo.
Como proposta e esperança para a construção de tempos menos sombrios e mais justos, o pensamento radical negro nos ensina que a verdadeira tecnologia não reside unicamente no silício ou nos servidores do Norte Global. A tecnologia está na ginga do corpo que dança, na oralidade que preserva a memória, nas rezas das benzedeiras, na sacralidade das plantas, na roda e no espaço da encruzilhada regido por Exu, o orixá que dinamiza os fluxos, a comunicação e a transformação dos caminhos. Para além das resistências pontuais, o pensamento radical negro aponta para horizontes propositivos de emancipação coletiva, dialogando com a categoria político-cultural da Amefricanidade formulada por Lélia Gonzalez — que reconhece a matriz africana como pilar formador e civilizatório das Américas — e com a práxis do Quilombismo de Abdias do Nascimento, que propõe a reinvenção de modelos de sociedade pautados no comunitarismo, na solidariedade e na soberania dos povos subalternizados. Responder ao assalto do conservadorismo, da extrema-direita e do capitalismo digital exige descolonizar as mentes e reivindicar a imaginação radical como prática antirracista diária. Se o capitalismo tentou impor o “devir-negro do mundo” para transformar a humanidade em mercadoria solúvel e descartável, a negritude contrapõe a essa engenharia da morte a sua capacidade histórica e ancestral de inventar a vida e construir novos mundos. É na afirmação das nossas escrevivências, no fortalecimento do aquilombamento e no abraço à dimensão comunitária que retiramos do capital o poder de ditar o fim da história, garantindo que os nossos futuros possíveis continuem a ser germinados, imaginados e vividos no aqui e no agora.
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