
O Grande Salto Adiante: a China decidiu não ficar para trás
Há mais de duas décadas, a China passou a ser parte importante da minha vida pessoal e profissional. Morei lá por dois anos, e desde então voltei mais de uma dezena de vezes. Sempre visito várias províncias, revejo pessoas e lugares, acompanho a evolução de costumes, economia, novos lançamentos da literatura, enfim, o que passar na minha frente. E, no entanto, posso afirmar: não conheço a China, porque cada vez que chego encontro um país diferente. Apenas reconhecer que nunca a humanidade viu um caso de ascensão social nessa escala de grandeza e nesse curto espaço de tempo não parece traduzir o que se passa lá. Em menos de cinquenta anos, a China passou de nação ocupada e humilhada por potências estrangeiras, esfomeada por motivos externos e pelas políticas desastradas de Mao Tsé-Tung, que também destruiu o sistema educacional, à segunda economia do mundo, ou à primeira, se considerarmos o purchasing power parity (PPP), o poder de compra da população.
Esse salto pode ser contado por anedotas do dia a dia. Em janeiro de 2005, quando instalei a primeira sede da Globo na Ásia, precisei abrir uma conta no Banco da China. Foi uma experiência selvagem. Para chegar ao guichê, tive de avançar por uma multidão alheia aos conceitos de fila ou gentileza. Já no guichê, depois de uma hora, ainda era empurrada por mãos que se multiplicavam para enfiar papéis pela aberturinha no vidro. Passados dois anos, minha visita para encerrar a conta foi numa agência nova, com distribuição de senhas e sofás para esperar ser chamada. Em 2018, pela primeira vez fiz uma viagem inteira pela China sem tocar em dinheiro de papel. Todos os pagamentos feitos com telefone e códigos QR, de hotéis e passagens de avião a frutas da barraquinha na esquina.
Em 2005, levei uma mala de dinheiro para comprar um carro. A economia chinesa não conhecia nem cheque, nem cartão de crédito. Escolhemos uma camionete de marca local, cópia não muito precisa de uma japonesa. Nosso motorista chinês protestava — “Chinese car no good. Buy Audi”. Meses depois, quando precisamos trocar o pneu, descobrimos que o macaco era de carro pequeno, não alcançava a estrutura da camionete. Quando questionada, a concessionária mandou um funcionário com a solução: um toco para botar embaixo do macaco. Hoje essa é uma das montadoras chinesas que estão revolucionando o mercado automobilístico do Brasil com elétricos e híbridos com alta tecnologia embarcada e baixo custo.
Nada disso me surpreende. Eu vi a China seguir cada passo de uma estratégia para chegar aqui. A mesma de Japão, Coreia e outros asiáticos: abertura para estrangeiros com mão de obra barata, alto investimento em infraestrutura e educação. Planejamento e metas. Quem levou o chão de fábrica para a China encontrou trabalhadores com no mínimo nove anos de estudo, capazes de aprender rápido e dispostos a enfrentar extensas jornadas. Eles não tinham o direito de reclamar ou protestar, mas seus salários baixos garantiam comida na mesa da família, que geralmente ficava no campo do outro lado do país.
No começo dos anos 2000, o país era um imenso canteiro de obras, com cidades sendo botadas abaixo e reerguidas com avenidas, praças, viadutos e arranha-céus. Alguma arquitetura de gosto duvidoso, mas também obras-primas de arquitetos como I. M. Pei, Norman Foster e Zaha Hadid, que fazem da China um mostruário da arquitetura da virada do século XXI, da mesma maneira como a reforma Haussmann faz de Paris o mostruário da virada do fim do século XIX.
Aí veio a infraestrutura. A cada semana um novo porto proclamando ser o maior do mundo, uma nova linha de trem, outra central nuclear ou um parque industrial com tudo integrado: no mesmo pátio, várias empresas de determinado setor e os fornecedores de peças, insumo e logística. Todos juntos numa concorrência selvagem que derruba preços e incentiva a inovação. A infraestrutura não negligenciou a educação. Vi campi universitários sendo erguidos no meio do nada, nos modelos de Stanford, Harvard, Cambridge e Oxford. Professores dessas instituições sendo contratados para desenhar e ministrar os cursos. Empresas sendo incentivadas a montar departamentos de pesquisa e desenvolvimento tocados por engenheiros chineses.
Em 2004, visitei Chongqing, então uma imensa cidade de encostas íngremes à beira do Yangtzé que parecia uma vila amazônica turbinada — prédios velhos, escadarias sem fim (em Chongqing, você não anda de bicicleta, ela anda em você, diz o ditado local). Posta abaixo e reerguida, é a cidade mais futurista do mundo, ainda mais que Xangai. Naquele mesmo ano, levei dois dias por estradas estreitas de mão dupla seguindo o rio para ir de Chongqing até Yichang, onde estava sendo construída a usina hidrelétrica de Três Gargantas, que tirou de Itaipu o título de maior do mundo (agora há duas maiores, ambas na China). Em 2018, fiz o mesmo trajeto em quatro horas de trem-bala. Ele é a nova paisagem da China. O primeiro trecho foi inaugurado em 2008, com 100 km ligando Pequim, a capital, à cidade portuária de Tianjin. Hoje são 50 mil quilômetros de linhas de trem-bala cortando o país.
Em 2010, ouvi de uma fonte do governo chinês: “Perdemos a revolução industrial, a revolução das comunicações e tantas outras, mas vamos liderar as próximas revoluções, a começar pela energia limpa”. Hoje o país domina 90% do mercado de energia solar e 70% da energia eólica mundial; uma montadora chinesa de carros elétricos passou a Tesla e é a maior do mundo — na China, há mais de cem delas lutando ferozmente para alcançar esse lugar; a China lidera a produção e o desenvolvimento de baterias e sistemas inteligentes para administrar as energias de fontes intermitentes com as firmes. Há 20 anos, a China produzia o equivalente a metade da energia dos Estados Unidos; hoje, é o dobro. É o primeiro electrostate, em oposição aos petrostates. E a eletrificação da economia pode ser sentida no silêncio das ruas, onde predominam veículos elétricos, nas viagens pelos 50 mil quilômetros de trilhos de trens-bala, nos parques industriais que trocam caldeiras a carvão por parques solares. Tudo o que pode ser tocado por eletricidade já o é ou será em breve. Mesmo o petróleo, se usado para gerar energia, é mais eficiente do que para tocar motores a combustão.
Nos costumes, quem esperava ver a democracia brotar do desenvolvimento econômico testemunhou o contrário. Um endurecimento do Estado de vigilância e um controle que invade a vida privada como nos tempos da fome. A queda brutal da natalidade não se revolveu com a revogação da dolorosa política do filho único. E os direitos das mulheres sofrem as consequências. Em seu Enfrentando o dragão, Leta Hong Fincher relata como líderes de movimentos feministas são presas e tratadas como inimigas do Estado e jovens universitárias são coagidas a abandonar universidade e carreira para ter filhos para a pátria.
Na nova fronteira da economia, a inteligência artificial, a China está desenvolvendo modelos tão eficientes quanto e com menos gasto de energia do que os americanos. Essa disputa ainda está acontecendo, e não sabemos como será o desfecho, mas sabemos que a China não se acanha em mostrar que quer ser de novo o centro do mundo. O avanço autoritário no Ocidente facilita o trânsito chinês no marketing internacional. O enfraquecimento democrático deste lado do planeta poupa ao partido comunista a necessidade de explicar a falta de liberdades individuais, a censura à imprensa, a perseguição aos dissidentes e tantas outras agressões aos direitos humanos. E a rapidez com que a China alcança objetivos, se é boa para seus cidadãos, pode se tornar uma ameaça aos países que têm nela seu principal parceiro comercial. Ano passado, o governo chinês disse que quer reduzir drasticamente sua dependência da importação de grãos em 20 anos. O Brasil precisa se preparar rápido, porque a história recente mostra que as metas chinesas costumam ser alcançadas bem antes dos prazos.
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