Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair
  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre
#4ColonialismoCrônica

Para felicidade geral, digo que fico

por Adriana Calabró

A construção que abriga a Casa Watanabe, na cidade de Registro, tem mais de 100 anos. Como uma autêntica remanescente da típica lojinha de “Secos e Molhados”, tem tudo para oferecer: armadilhas, iscas, bolsas, panelas, objetos de prata, artigos de papelaria, doces, cachaça, artigos típicos da região e muito mais. A frente do negócio está o Seu Watanabe, 82 anos, um senhor de origem japonesa que, com seu jeito polido e uma simpatia ao mesmo tempo tímida e encantadora, atende os clientes. A paciência oriental monta as traquitanas, explica os ingredientes, separa os objetos, embala cuidadosamente as compras. Nesse movimento, em que a venda também é puro artesanato, ele não está só: o filho e a esposa, dona Conceição, dão o suporte na loja, a única que permanece aberta em uma ensolarada tarde de domingo. Seu Watanabe, que mora na casa que fica bem atrás do estabelecimento com o seu nome, é uma espécie de versão de carne e osso do Museu Histórico da Colônia Japonesa que fica quase em frente. Em uma das inúmeras histórias guardadas em seu arquivo mental, ele conta que seu tio foi um dos responsáveis pela carta que requisitava formalmente ao presidente Getúlio Vargas que a comunidade japonesa pudesse permanecer na região durante a Segunda Grande Guerra. Por ser uma área com fácil saída para o mar, era considerada estratégica pelo governo e não poderia abrigar o “inimigo”. Inimigo? Os ancestrais de Seu Watanabe e de Dona Conceição? Difícil imaginar. Bem, mas o importante é que graças a essa movimentação – um verdadeiro Dia do Fico Nipônico -, Getúlio voltou atrás em sua decisão e concedeu o direito de permanência à colônia que está até hoje estabelecida na região. Por toda a parte, é possível observar vestígios da cultura e da história de um povo que, com olhinhos puxados e atentos, deu sua contribuição para a cultura de Registro e de todo o estado de São Paulo. Além do já mencionado Museu, edifício do começo do século XX que funcionava como um misto de engenho e armazém e que abriga desde fotos antigas de navios até um impressionante acervo de Tomie Ohtake, a cidade traz outras pérolas. Entre elas, estão o Templo Budista, que fica a apenas 2 quilômetros do centro, e o Bunkyo, sede da Associação Cultural Nipo-Brasileira, construído com arquitetura típica japonesa e onde há aulas de ikebana, tai chi chuan , origami e língua japonesa. É possível fazer uma autêntica massagem terapêutica por lá também. E por falar em tradições, vale lembrar que Seu Watanabe e dona Conceição se casaram de acordo com um dos mais arraigados preceitos da cultura de seu país de origem. Foi há 57 anos que um Naka Udo, ou seja, um padrinho que apresenta jovens “casadoiros”, escolheu um para o outro. Olhando para os dois senhores, lindos, afetivos e muito dedicados um ao outro, não há como não pensar na sorte que tiveram. A mesma boa fortuna não se apresentou para aqueles que trabalham no mercado, também próximo da lojinha e logo ao lado do rio. Quem explica é o Benedito, 74 anos, 11 filhos, ex-pescador e atual comerciante de peixes: “Antes não havia a estrada, então tudo era feito por embarcação, lancha, vapor. Tudo acontecia aqui no rio. Depois que a estrada chegou, a cidade ficou em torno dela, lá para cima”. Realmente o edifício malcuidado parece mais uma sombra do que já foi no passado. Nada que faça o seu Benedito, que é descendente de índios, mas tem o mesmo jeito tranqüilo do Seu Watanabe, perder a esperança. “Meus clientes fixos não compram em outro lugar”. Pelo jeito mais um brasileiro que, apesar de tudo, diz que fica.

Adriana Calabró é escritora e jornalista.

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Warazu: a visão do branco

#51 O Homem: Amarello 15 anos Cultura

por Kaká Werá Conteúdo exclusivo para assinantes

Dreamers

#2 Nu

por Felipe Morozini Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello 55 — Imagem Brasil

#55 Imagem Brasil Editorial

por Tomás Biagi Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

A demolição da existência moral: a criação de si como obra de arte

#40 Demolição

por Luiz Fuganti Conteúdo exclusivo para assinantes

Freio de Mão

#7 O que é para sempre?

por Rose Klabin

A distopia como representação do real no cinema brasileiro atual

#41 Fagulha

por Daniel Feix Conteúdo exclusivo para assinantes

O poder da voz

#37 Futuros Possíveis

por Gean Ramos Pankararu

Como nasce uma tragédia? A crise Yanomami e a relação do Brasil com os indígenas

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Portfólio: Marcelo Gandhi

#12 Liberdade

por Gabriel Brito Nunes

O ovo que vê

#35 Presente

por Rodrigo Braga Conteúdo exclusivo para assinantes

O talento é o transe

#5 Transe

por Carlos Andreazza Conteúdo exclusivo para assinantes

Que Mário?

#28 O Feminino

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.