#22DuploCulturaLiteratura

Sobre ping-pong, Poussin, geleiras, etc.

por Eduardo Andrade de Carvalho

Talvez com uma exceção, não existe nenhuma atividade mais agradável que duas pessoas possam fazer juntas do que conversar. E conversar inutilmente. Assim como jogar ping-pong, contemplar um Poussin ou passar alguns dias andando pela península Kenai, no Alasca, os maiores prazeres da vida são – e também provavelmente com a mesma exceção – inúteis.

A conversa obrigatória entre duas pessoas, a comunicação útil, necessária, que a vida urbana exige, pode muitas vezes não ser desagradável – mas é outro tipo de conversa. Prática, objetiva, ela geralmente precisa resolver um problema, chegar a uma solução: do balcão de uma lanchonete em que pedimos um misto-quente a um debate acadêmico sobre Mallarmé, são comunicações em busca de um acordo. E, portanto, elas não podem ser suficientemente soltas para variar sem compromisso entre assuntos como a técnica de saque mais eficiente em ping-pong, as cores em Poussin ou as opções de cabine para dormir entre glaciares em Kenai. A conversa mais agradável não está em busca de um acordo.

E, por isso – porque não está presa em um tema e não tem um objetivo –, o único compromisso dessa conversa informal é com ela mesma: quer dizer, com o prazer que ela pode oferecer aos seus interlocutores. Aristóteles incluiu seus comentários sobre as qualidades da conversação na Ética a Nicômaco, no livro dedicado às virtudes morais, e compara três disposições de espírito possíveis numa conversa: o do bufão, que quer fazer piada a todo custo e em todos os momentos, e acaba ridículo e cansativo; o espírito equilibrado da pessoa inteligente, sensível, que fala e ouve nas horas adequadas, que é a postura recomendada; e, por último, reserva poucas linhas para o bárbaro, duro, excessivamente sério: “que é inútil a qualquer tipo de convívio social porque ele não contribuiu em nada e se ofende com tudo, enquanto o relaxamento e a diversão parecem ser parte necessária da nossa vida”.

É isso que Giovanni della Casa também adverte em seu tratado sobre costumes, Galateo, de 1558 (publicado no Brasil pela Martins Fontes): que, “se os pecados graves prejudicam mais, os leves aborrecem mais, ou aborrecem ao menos com maior frequência”. E conclui que “as pessoas odeiam tanto ou mais os homens desagradáveis ou aborrecidos do que os maldosos”. Em seus conselhos de modos a evitar numa conversa, aliás, aparentemente alguns defeitos das pessoas com quem della Casa convivia eram os mesmos com os quais esbarramos hoje, descontada a tecnologia: “igualmente fazem mal aqueles que, de tempos em tempos, tiram uma carta do bolso e a leem”. Porque a conversa ideal pode (deve, na verdade) ser leve, solta, quase distraída – mas totalmente distraída ela não existe.

Porque “é necessário observar tudo o que se passa no coração e no espírito das pessoas com quem se conversa”, como sugeriu Antoine Gombaud, em 1667, em seu Discurso sobre a conversação (também publicado pela Martins Fontes na antologia A arte de conversar – Morellet e outros, organizada por Alcir Pécora). Gombaud recomenda que a conversa se inspire na forma como elas devem acontecer nos céus: “pura, livre, honesta, e no mais das vezes jovial”. Isso inclui evitar, continua, tudo que seja sombrio e triste, mas também “o riso excessivo não lhe assenta bem” – a piada mecânica e o desespero por agradar são tão condenáveis quanto o tédio e a aspereza. E não se deve esquecer nunca de preferir “a simplicidade do que a perfeição das coisas”. Porque não existe a conversa perfeita – e é o esforço em persegui-la, em discursos calculados e pedantes, que forma tipos como o do Conselheiro Acácio.

Às vezes – até normalmente, na verdade –, é mais fácil aprender com os defeitos do que com as virtudes das coisas que observamos. É mais fácil reconhecer o que evitar do que exatamente o que ou como alguma coisa deve ser feita. Provavelmente por isso Johnathan Swift, quando escreveu Hints Towards an Essay on Conversation, em 1713, não listou as qualidades que a conversa ideal exige, mas os erros que comprometem esse prazer “tão útil e inocente”: como, além da distração e do pedantismo, os defeitos de falar demais, se dar muita importância, excluir mulheres, interromper os outros e o da eloquência (“grandes oradores raramente são agradáveis numa conversa privada”).

“Eu preferiria que meu filho aprendesse a falar nas tavernas do que nas escolas de eloquência”, escreveu Montaigne, que tinha horror a formalismos, jargões, pompas e todos os vícios que afastam ou disfarçam o que se fala do que se está sendo dito realmente: “fora dessa comédia, eles (acadêmicos pedantes) nada fazem que não seja comum e vulgar”. Na abertura do seu ensaio sobre o assunto, Da arte de conversar, de 1587, Montaigne diz que, “sendo pouco ensinado pelos bons exemplos, sirvo-me dos maus, cuja aula é habitual”. Mas, com seus Ensaios, talvez ele tenha inaugurado um estilo literário muito parecido com a conversa perfeita, e oferecido, em outra passagem, uma pista do tipo de conversa que acontece nos céus: “O mundo não é mais do que uma escola de busca. Ganha não quem transpassar mas sim quem fizer as corridas mais belas”.

E a corrida mais bela inclui, imagino, uma partida de ping-pong, um quadro de Poussin e uma passagem pelo Alasca – acompanhados, de preferência, pelas duas coisas mais agradáveis que duas pessoas possam fazer em dupla.