Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre
A Grande Muralha da China. Foto de Robert Nyman. Unsplash.
Sociedade

O século dos engenheiros? China e o novo velho mundo

por Revista Amarello
Livro analisa o pensamento dominante nos países para apresentar uma investigação sobre como diferentes formas de governar moldam economias, cidades e futuros.

Em Breakneck – China’s Quest to Engineer the Future, Dan Wang propõe uma chave de leitura simples (e, por isso, provocadora) para compreender a China contemporânea e por contraste entender também os Estados Unidos. 

O ponto de partida é: observar os países a partir de seus tipos dominantes de elite e de racionalidade política, isto é, engenheiros e advogados. De um lado, a China como um “Estado engenheiro”, obcecado por construir, escalar e acelerar; do outro, os Estados Unidos como uma “sociedade de advogados”, marcada por procedimentos, disputas jurídicas e vetos sucessivos. A interessante proposta de análise faz com que esse seja mais do que um ensaio comparativo entre duas superpotências, entre o “capitalismo” e o “socialismo”, mas, de fato, uma investigação sobre como diferentes formas de governar moldam economias, cidades, subjetividades e, talvez acima de tudo, futuros possíveis.

Wang escreve a partir de uma posição singular, o que dá à abordagem a especificidade para torná-la original. É canadense de origem chinesa e tem passagem por universidades americanas e pelo mercado financeiro, e vive em cidades chinesas há anos. Com relação a Pequim, evita tanto a demonização fácil quanto o deslumbramento acrítico diante de seus feitos materiais. Tem-se, então, um retrato ambivalente: um país capaz de tirar centenas de milhões da pobreza e, ao mesmo tempo, impor políticas de controle social de escala quase inimaginável. É como se progresso e violência caminhassem lado a lado, impulsionados por uma mesma lógica de eficiência técnica.

Um dos conceitos centrais do livro, o desse “Estado engenheiro”, ajuda a entender a contradição. Desde as reformas de Deng Xiaoping, líder da República Popular da China entre 1978 e 1992, o país foi governado majoritariamente por pessoas com formação técnica, muitas delas engenheiras. Essa elite compartilha uma visão de mundo que trata problemas sociais como desafios de projeto, algo a ser resolvido com planejamento, metas claras e execução rápida. Falta moradia? Constrói-se em massa. Falta infraestrutura? Pontes, trens e barragens surgem em ritmo vertiginoso. Há um vírus constituindo uma ameaça? Isolam-se cidades inteiras. Há “gente demais”? Limita-se o número de filhos. 

Condensada em slogans numéricos, como “um filho” ou “zero Covid”, essa clareza de objetivos revela tanto a força quanto o perigo dessa mentalidade.

Ao longo do livro, Wang demonstra como essa obsessão por construir moldou a paisagem chinesa. Províncias pobres como Guizhou, isoladas por montanhas e historicamente marginalizadas, tornaram-se vitrines de obras monumentais: estradas suspensas, pontes gigantescas, trens de alta velocidade. A infraestrutura funciona não apenas como motor econômico, mas como instrumento de legitimidade política. 

Para milhões de pessoas que viram suas condições materiais melhorarem em poucas décadas, o concreto e o aço são provas visíveis de que o país avança. A sensação de progresso físico, argumenta o autor, gera orgulho e adesão, algo cada vez mais raro em sociedades onde quase nada novo parece ser construído.

Mas Breakneck insiste em olhar também para o que fica fora do enquadramento triunfal. A mesma lógica que permite erguer cidades em tempo recorde é capaz de arruinar vidas com rapidez semelhante. Wang descreve como políticas desenhadas de cima para baixo produzem efeitos brutais quando erram o cálculo. O colapso demográfico provocado pela política do filho único, o trauma coletivo dos lockdowns prolongados e a destruição súbita de setores econômicos inteiros após decisões regulatórias abruptas são exemplos. Em um sistema com poucos canais de contestação, erros acabam não sendo corrigidos gradualmente e se impõem como uma realidade incontornável.

E, claro, a comparação com os Estados Unidos reforça o argumento. Enquanto a China constrói em excesso, os EUA parecem incapazes de construir o suficiente. Projetos de infraestrutura se arrastam por décadas, travados por processos legais, disputas ambientais, interesses locais e uma cultura política que privilegia o procedimento em detrimento do resultado. Wang, assim, constitui o contraponto, num ataque duplo que não absolve a sociedade de advogados. Muito embora reconheça o valor das proteções legais e dos freios institucionais, ele aponta como essa lógica acabou produzindo paralisia, desigualdade e um sentimento generalizado de impotência coletiva.

O que faz a leitura valer é que o livro não se limita a um diagnóstico binário. Há, por trás da divisão proposta, uma pergunta mais profunda: é possível conciliar velocidade com direitos, construção com participação, eficiência com humanidade? Ao mostrar os excessos do Estado engenheiro e as disfunções da sociedade de advogados, o autor sugere que nenhuma das duas oferece, isoladamente, um modelo desejável. A China paga um preço alto por sua capacidade de agir sem ouvir; os Estados Unidos pagam outro por sua dificuldade crônica de agir.

No pano de fundo dessa análise está a disputa geopolítica que deve definir o século XXI. A capacidade chinesa de produzir em escala (infraestrutura, bens industriais, tecnologia) é um feito econômico e um trunfo estratégico. Ao mesmo tempo, a centralização extrema do poder e a supressão de dissenso fragilizam a resiliência do sistema. Wang evita previsões fáceis sobre vencedores e perdedores. Seu interesse está menos em declarar um campeão e mais em alertar para os riscos de trajetórias que parecem, cada uma à sua maneira, levadas ao limite.

Escolhas políticas disfarçadas de decisões técnicas podem levar ao fracasso. Para a China. Para os Estados Unidos. Para o mundo. 

Ao tratar sociedades como sistemas a serem otimizados, governos podem ganhar velocidade, mas perdem sensibilidade. Ao priorizar processos e salvaguardas, podem proteger indivíduos, mas sacrificam a capacidade de transformação coletiva. Entre engenheiros e advogados, o futuro não será apenas construído. O futuro será disputado, interpretado e, de um jeito ou de outro, contestado.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 04 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Amarello Visita: Arte Ocupa Mossoró

#45 Imaginação Radical Arte

Rituais em brasileiro: como nasce um perfume?

Design

por Revista Amarello

A Distant Land

#33 Infância Arte

por Mateus Acioli

O Nascimento do Homem-Todo

#36 O Masculino Artigo

por Vicente Góes Conteúdo exclusivo para assinantes

Beleza é poder

#14 Beleza Cultura

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

Portfólio: Felipe Cohen

#16 Renascimento Artigo

Benedito Ruy Barbosa é raiz

#54 Encanto Cultura

por Isabel de Castro Conteúdo exclusivo para assinantes

Portfólio: Os desenhos urbanos de Bruna Canepa

#25 Espaço Arte

por Angelo Bucci Conteúdo exclusivo para assinantes

Se você pode sonhar, pode fazer

#13 Qual é o seu legado? Arte

por Jair Peres Conteúdo exclusivo para assinantes

A ópera e o boi: Fitzgerald, Fitzcarraldo e Lindolfo Monteverde

#4 Colonialismo História

por Fernando Falcon Conteúdo exclusivo para assinantes

Terra

# Terra: Especial 10 anos Cultura

por Sofia Nestrovski

O canto do cisne

#27 Perspectivas Cultura

por André Tassinari Conteúdo exclusivo para assinantes

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.