Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair
  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre
“Deserto vermelho” (1964), de Michelangelo Antonioni.
Sociedade

Epidemia de solidão: por quanto tempo ficaremos sozinhos?

por Revista Amarello

Muito embora o contato entre as pessoas esteja cada vez mais amplo, com um oceano a nada mais que um celular de distância, e por mais que as cidades estejam cada vez mais habitadas, com multidões saindo da China à Índia, passando por São Paulo, estamos — paradoxalmente — mais solitários que nunca. 

Em pleno século XXI, ao presenciar a onipresença da imagem em uma globalização que possibilita ligações de vídeo instantâneas com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, a solidão é, sim, um fenômeno em ascensão, algo que tem afetado cada vez mais pessoas em todo o mundo. Quando pensamos em solidão, claro, não estamos falando apenas da ausência de companhia pura e simples, mas de um sentimento profundo de isolamento e desconexão, que acomete com violência (ainda que os “alvos” estejam rodeados por pessoas). Dura, e inquestionável, realidade: é possível nos sentirmos sozinhos e desamparados nos mais populoso dos contextos. 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 20% da população mundial sofre de solidão crônica, e esse número tende a crescer. No Brasil, uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2021 apontou que 45% dos brasileiros se sentem sozinhos.

Nos últimos anos, a pauta veio ainda mais à tona com a crise da Covid, que agravou a situação. Segundo a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, durante a pandemia, 1 em cada 4 adultos relatou se sentir solitário com frequência. Entre os idosos, esse número foi maior, chegando a 43%. A diminuição do contato social, forçada pela necessidade de quarentena, combinada ao aumento natural da ansiedade e do estresse, podem ter contribuído para os aumentos nos números. E a coisa toda, como hoje em dia sabemos bem, se estende a implicações para lá de sérias: estudos indicam que a solidão crônica pode aumentar o risco de doenças cardíacas, diabetes, depressão e ansiedade, para não falar de quedas acentuadas na qualidade do sono. Essa somatória de fatores implica em um impacto na longevidade, podendo aumentar o de morte prematura em 26%.

“Agir é mais importante que nunca”
— Diana Barran, Ministra da Solidão do Reino Unido

Recentemente, o Reino Unido e o Japão criaram ministérios dedicados à solidão, reconhecendo a crescente epidemia em todo o mundo. O Ministério da Solidão do Reino Unido foi criado antes da pandemia, em 2018, com o objetivo de coordenar os esforços governamentais e de organizações voluntárias para combater a altamente disseminada sensação de desamparado nos países britânicos. De acordo com a Cruz Vermelha local, mais de 9 milhões de pessoas no Reino Unido se sentem solitárias. O ministério, portanto, colabora com organizações de caridade, grupos comunitários e empresas para elaborar programas e iniciativas. Foi criado também o Dia da Amizade (30 de julho) para incentivar as pessoas a se conectarem com outras e combater quaisquer sentimentos de desconexão que possam estar sentindo. 

No Japão, a solidão é ainda mais pronunciada, com a sociedade japonesa apresentando uma alta taxa de isolamento social, especialmente de pessoas que optam por não casar ou ter filhos — por se tratar de uma cultura bem tradicionalista e rígida, aqueles que optam por seguir caminhos alternativos tendem a se distanciar, e serem distanciados, pela sociedade. Em resposta a isso e ao aumento da preocupação com o bem-estar social imposto pela pandemia, o governo japonês criou o Ministério da Solidão em fevereiro de 2021. O ministério trabalha em estreita colaboração com a comunidade local para identificar as pessoas que estão em risco de solidão e isolamento social, fornecendo-lhes o apoio necessário. Também exploram a possibilidade de criar um aplicativo que possa ajudar as pessoas a se conectar com outras pessoas que têm interesses semelhantes, criando uma rede de apoio e amizade.

Por que agora? A solidão, é bem verdade, sempre esteve aí. Agora, ao menos, fala-se mais abertamente sobre ela, assim como outras questões importantes antes não abordadas, como depressão, ansiedade e tantas outras. Esse tipo de tabu vem sendo vencido aos poucos. Coordenar esforços do governo, de organizações voluntárias e de empresas, criar programas e iniciativas, tudo isso representa um ótimo passo. Os Ministérios da Solidão do Reino Unido e do Japão, que poderiam existir desde sempre, são sintomáticos — demorou, mas, ao menos em algumas partes do mundo, chegou-se lá e, finalmente, como quem chega atrasado mas é abraçado no limiar da porta, reconhece-se: esta, afinal, é uma pauta de saúde pública.

A solidão nas grandes cidades é um tema tão comum quanto complexo. A um só tempo, as cidades concentram um número imenso de pessoas em um espaço limitado, o que pode parecer propício à construção de relacionamentos e convivência social, mas também bafejam sobre si mesmas uma neblina solitária, já que esse mesmo ambiente, de tão impessoal que pode ser, é capaz de gerar um sentimento de isolamento.

Uma das razões para isso é a falta de conexão emocional com as pessoas que estão ao nosso redor. Em meio à agitação do dia a dia, muitas vezes não há tempo para conversar ou interagir com os outros, o que pode resultar em um sentimento de desconexão. Além disso, a vida na cidade muitas vezes é marcada pela competitividade e individualismo, o que dificulta a construção de laços afetivos.

Para combater a solidão nas grandes cidades, é preciso investir em iniciativas que incentivem a interação entre as pessoas, como espaços públicos de convivência, festivais e eventos culturais, e até mesmo aplicativos e redes sociais que conectem pessoas com interesses em comum. É um desafio que precisa ser enfrentado com medidas concretas, tanto por parte das autoridades quanto pela sociedade em geral. O importante é reconhecer que esse sentimento pode ocorrer em qualquer lugar, e buscar formas de criar laços afetivos e sociais que ajudem a superá-lo.

Na edição Amarello Solidão, o urbanista Anthony Ling, ao falar sobre a solidão na cidade, escreveu o seguinte:

“O que já foi um símbolo da liberdade se tornou o do isolamento, e o que era para ser planejado se tornou um caos — ou pelo menos provou que com o caos não se brinca. A cidade nos deu uma privacidade muito além do que se esperava, pois a morte dos encontros é a morte da própria cidade”.

Essa contradição, de um excesso que deságua na separação, é similar à causada pela hiperconectividade. O aumento da conectividade por meio da tecnologia pode ajudar a combater a solidão ao fornecer oportunidades para as pessoas se conectarem com outras pessoas e se envolverem em comunidades virtuais. As mídias sociais, por exemplo, são um meio de as pessoas manterem contato com amigos e familiares que estão distantes e permitir que elas se conectem com pessoas com interesses semelhantes em todo o mundo. No entanto, apresentando o outro gume, a hiperconectividade também tem o poder de trabalhar em prol da solidão, porque a conexão digital pode substituir as interações face a face, importantes para o desenvolvimento de relacionamentos significativos e a construção de uma sensação de comunidade. Um ambiente que suscita a constante comparação com os outros pode fazer florescer uma forte sensação de inadequação.

“Nenhum homem é uma ilha. Todos precisamos de ajuda de vez em quando.” 
 — Um Homem Chamado Ove (2015)

Imagem do filme “Um homem chamado Ove” (2015), de Hannes Holm. Divulgação.

O romance do escritor Fredrik Backman, publicado em 2012, foi adaptado para os cinemas primeiro em 2015. A produção sueca foi bem recebida pelo público e pela crítica, ganhando, inclusive, duas indicações ao Oscar, nas categorias de Filme Estrangeiro e Maquiagem. Agora, em versão hollywoodiana, ganha nova adaptação, chamada O pior vizinho do mundo, com Tom Hanks no papel principal. 

Qual é a história e o que ela tem a ver? Ove — ou Otto, como é chamado sob a batuta de Hanks — é um homem de 59 anos, mal-humorado e viúvo, que segue uma rotina rígida de hábitos solitários. Depois de ser demitido do lugar em que trabalhou por mais de 40 anos, ele usa o tempo livre recém-adquirido para visitar o túmulo da falecida esposa e mergulhar de cabeça em tentativas de suicídios, sempre interrompidas pelos vizinhos. Por essas e outras, ele não se dá bem com os condôminos com os quais vive por falta de escolha. Um dia, claro, sua rotina é interrompida quando novos vizinhos se mudam para a casa ao lado. A família, composta por um jovem casal iraniano e seus filhos, chacoalha a vida do homem ranzinza. Paulatinamente, uma amizade genuína se desabrocha entre eles. Com alguns flashbacks, a história mostra o passado de Ove, quando ele mesmo estava na época em que o casal agora está, e descobrimos assim os motivos que o levaram a se tornar o homem fechado que é. 

No choque entre as gerações, revivendo a dor lancinante de suas memórias e ainda tendo que lidar com o presente cada vez mais distante do passado, o protagonista reconhece, talvez pela primeira vez, a solitude. Sua redenção, ao fim, chega a partir dos outros.

A fórmula não é exatamente nova, nem a do livro nem a do filme, mas, com um bom espírito que espertamente jamais deixa de reconhecer o peso carregado por Ove, ela leva adiante uma mensagem importante: é difícil vencer a resistência que um ciclo impõe, em especial o da solidão, mas, quando há um caminho para fora da ilha própria, achar abrigo em sóis compartilhados é uma vitória. 

“How long will I be alone?”

O australiano Nick Cave — que, além de cantor, é escritor, roteirista, ceramista e muito mais, apesar de, hoje em dia, gostar de pensar em si mesmo, acima de tudo, como um pai e um marido — é responsável por uma das melhores paragens de toda a internet: a newsletter Red Hand Files. Lá, responde perguntas de fãs do mundo inteiro, com honestidade e sensibilidade acachapantes. Cada resposta, um verdadeiro sopro de empatia e esperança. Em 2019, uma fã polonesa trouxe a questão: por quanto tempo ficarei sozinha? A indagação ficou com Cave por alguns meses até que ele voltasse em definitivo à ela.

A resposta na íntegra merece ser lida. Por qualquer um. Aqui, o final dela:

“Como passei muito tempo viajando sozinho nesta turnê, me ocorreu que sua pergunta não precisava ser respondida, mas simplesmente reconhecida; que estender a mão para você, como você estendeu a mão para mim, poderia ser a resposta e, talvez, um remédio —para te dizer que você não está sozinha, nós estamos aqui, e que nós, uma multidão, estamos pensando em você.”

Na saída da ilha deserta, há uma placa que diz, em letras garrafais: Reconhecer.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 04 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Sem presença na internet você não existe?

#44 O que me falta

por Manuela Bernadino

Um bilhão de saudades

#13 Qual é o seu legado?

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

Uma experiência coronária da filosofia africana: amor, futuro e ancestralidade

#47 Futuro Ancestral Sociedade

por Katiúscia Ribeiro Conteúdo exclusivo para assinantes

Querem me envelhecer de qualquer maneira

#10 Futuro

por Hermés Galvão Conteúdo exclusivo para assinantes

Repaisagem

#10 Futuro

por Guilherme Wisnik Conteúdo exclusivo para assinantes

Filhos na crise climática: escolha moral ou salto de fé?

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Feira: coleção Orgasmo

Aprender a escolher: curadoria e o excesso de informação

Cultura

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Eu tenho medo de chuva: desastre natural ou racismo ambiental?

#42 Água

por Pâmela Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Família — Amarello 50

Revista

Pintura Íntima

#8 Amor

por Hermés Galvão Conteúdo exclusivo para assinantes

500.000 a.C.

#3 Medo

por Leticia Pinheiro Lima Conteúdo exclusivo para assinantes

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.