
Fotografia e fogo nos racistas
Groove, suingue, balanço… Requebra o quadril, balança a trança, agarra a cintura, exibe a tattoo, beija na boca. A expansão do corpo que dança é amor e é vingança. Os bailes funk do Rio de Janeiro são, há pelo menos três décadas, uma das expressões mais libertárias, um dos poucos gestos que afrontam, de forma corajosa e libertina, a luta de classes perversa e feroz que se infiltrou na sociedade brasileira desde a chegada dos navios repletos de africanos escravizados ao litoral brasileiro.


Mas isso tudo só foi possível saber porque Vincent Rosenblatt, fotógrafo brasileiro acidentalmente nascido na França, nos deu a ver flashes da espontaneidade genuína, da pulsão de vida, da rebeldia e da alegria, como se estivéssemos alucinadamente colocados no meio de um salão pendurado no morro, mas sem pedir socorro.
Rosenblatt, antes de mirar suas lentes para essa explosão de vida e consciência política que transpira nos bailes funk, criou a oficina de fotografia Olhares do morro, entre 2002 e 2008, na comunidade de Santa Marta. Foram muitos os jovens e adolescentes que aprenderam o ofício da fotografia e passaram a representar seus territórios, criando uma visão livre dos vícios e preconceitos da representação comumente observada nos veículos de comunicação.

Olhares do morro ajudou a criar consciência e autoestima. Foi dessa forma que “o francês”, como Rosenblatt é chamado nos bailes e morros, foi adquirindo legitimidade para acessar e representar as quebradas, os lares, os encontros, as festas. Nesse ponto, o fotógrafo torna-se também um exemplo muito bem delineado de como o “lugar de fala” é algo que pode, de fato, ser conquistado. Nesse mundo de radicalismos, em que cada vez mais somos levados a pensar como algoritmos, sem nuances e meios-tons, a atitude de Rosenblatt, que assume o papel de um antropólogo errante, é a prova cabal de que convivência, cumplicidade, parceria e afeto podem unir opostos, conciliar conflitos e, por fim, bailarem juntos no chão quente da pista.
Funkear é preciso! E é mais que preciso funkear a contrapelo do moralismo e dos preconceitos que cercam toda e qualquer manifestação cultural e social que envolve pessoas racializadas e menos privilegiadas política e economicamente.
É mais que preciso funkear para afirmar existências dentro de uma política de Estado historicamente construída para marginalizar e excluir a maior parcela da sociedade brasileira. Flash: segundo o Atlas da Violência no Brasil de 2023, 96 pessoas negras são assassinadas diariamente neste país, e 76% das vítimas de homicídio são negras.


Groove… A madrugada avança, o corpo dança, “o francês” faz de sua câmera um instrumento de captação de delírios, sonhos ultracoloridos, desejos explícitos, expansão dos sentidos: odores, sabores, o toque na pele suada, arrepios, respirações ofegantes, visões extasiantes. A sensualidade extrema é também um manancial político. Corpos aviltados pela falta de oportunidades na educação, na saúde, no trabalho, na vida encontram, nos bailes funk, a possibilidade de atravessarem um portal onde podem ser e estar no mundo em plenitude. O funk, dessa forma, é uma insurreição social, estética e territorial que emerge das periferias e desafia estruturas de poder, moralidade e representação. É isso que MC Smith proclama, desde o Morro do Alemão, na letra de seu hit Vida bandida:
Nossa vida é bandida
E o nosso jogo é bruto
Hoje somos festa,
Amanhã seremos luto
Caveirão não me assusta!
Nós não foge do conflito
Nós também somos blindados
No sangue de Jesus Cristo

Colocando fotografias nas trincheiras para que a festa não se torne luto, Rosenblatt nos leva a espiar esse mundo que resiste entre sons sincopados e letras furiosas por um caleidoscópio mágico. Suas fotografias têm o poder de romper a superfície e nos arremessar para dentro, por entre as fissuras, na espessura das cenas. Sua lente chega perto, muito perto, dos corpos, dança junto, colada, pertencendo a esse universo. Fotografia de mão dupla que dá ao outro a possibilidade de se autorrepresentar.
Flash: uma deusa ébano, de cabelos louros, infinitos e encaracolados, carrega um sol em raios fúlgidos no colo — onde amor e mágoas coexistem — e, sobre ele, a deusa ordena: fogo nos racistas! A fotografia de Rosenblatt é esse fogo que faz o racismo arder em chamas.
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