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Fotos de Gleeson Paulino. Todos os direitos reservados.
#56O que está acontecendo?Amarello Visita

Amarello Visita: Refúgio Alto

por Gustavo Freixeda
Fotos de Gleeson Paulino

À medida que a estrada de terra deixa para trás o asfalto que liga São Paulo às alturas de Camanducaia, a paisagem vai gradativamente mudando de densidade e escala. A 1.500 metros de altitude, em pleno coração da Serra da Mantiqueira, a bruma constante que cobre o vale do rio Jaguari atua como um divisor de águas na geografia da montanha, propondo um ritmo mais lento aos sentidos e ao corpo de quem se aproxima. Suspenso no topo do vale, entre nascentes e trechos de mata nativa que se espalham por 405 mil metros quadrados de relevo acentuado, está o Refúgio Alto, as terras de uma futura comunidade de vida e subsistência, onde o morar vai se dividir entre o aconchego sombreado do vale e o sopro aberto do horizonte.

A relação direta com o território define uma proposta que entrelaça arquitetura, terra e criação. Em oposição ao ritmo acelerado e ao consumo das metrópoles, esse refúgio — que aqui assume, por direito, a maiúscula de Refúgio — busca a autossuficiência organizando o cotidiano a partir do solo. Nessa dinâmica integrada, a produção do próprio alimento caminha lado a lado com o uso tátil da matéria-prima local: a argila das grotas, a madeira de manejo e as plantas tintoriais darão forma às casas, aos utensílios diários e ao trabalho prático nos ateliês.

Katja Taubert, cofundadora do Refúgio Alto, conta que, “como todos os projetos, este também começou com um sonho. Uma imaginação de como viver em abundância de coisas gostosas, de ideias e respostas utópicas para os desafios e problemas que identificamos nas nossas próprias vidas e nas sociedades urbanas e rurais.” E Gabriel Lima, cofundador do Instituto Alto (uma organização que está dedicada à cultura, pesquisa e à regeneração ambiental com sede no vale oposto do Refúgio Alto), completa, destacando a importância central do conceito de eco-criativo, que “parte da premissa de que a cultura e o meio ambiente são duas esferas essenciais e conectadas da nossa existência.” Para ele, “antes do mundo não humano das máquinas e das inteligências artificiais, existe o mundo não humano dos animais e das plantas; por isso, busca encontrar nesses sistemas os modelos e exemplos de convívio e organização coletiva.”

Na cidade, o ritmo acelerado fragmenta os laços coletivos e nos desconecta dos processos mais elementares da terra, como plantar o que se come, acompanhar o ciclo das chuvas e se responsabilizar pelo próprio lixo. Quando o solo vira apenas mercadoria ou reserva financeira, o sentido do morar como gesto de pertencimento, cuidado e permanência se esvazia. Em contraposição a essa lógica, o Refúgio desenha uma topografia em que a privacidade das casas e a vida comunitária se sustentam em equilíbrio.

Tal desenho se traduz em cerca de 50 áreas privadas distribuídas pelas encostas, em metragens que variam de dois mil metros quadrados a dois hectares. A prioridade, no entanto, pertence à maior parte dos 40,5 hectares que são dedicados à conservação da mata, ao plantio agroflorestal compartilhado, às trilhas para caminhada e aos espaços de encontro. É assim que o projeto se organiza como um bairro rural comunitário, gerido por uma Associação de Moradores e balizado por um regimento socioambiental construído para abrigar quem deseja entrelaçar as tarefas diárias aos ritmos vivos da floresta.

Tirar uma ideia dessas do papel, claro, exigiu a elaboração de uma estrutura jurídica que salvaguardasse o propósito inicial do lugar, como conta Katja: “O nosso maior desafio foi entender como criar regras que deem a maior liberdade possível para as pessoas ocuparem o solo, mas que, ao mesmo tempo, garantam de forma sustentável os interesses da flora, da fauna, das fontes de água e o bem-estar de toda a vizinhança.”

As regras que guiam cada intervenção no terreno partem de uma premissa de integração e baixo impacto. Assim, as casas ocupam no máximo 4% do solo e não ultrapassam a altura oito metros, erguidas com materiais de baixo impacto e sem grandes cortes na montanha. Em vez de muros, a divisão entre os lotes deve ser feita por plantas, preservando o fluxo da vida silvestre pelo vale. E na infraestrutura, a lógica é a mesma: o abastecimento de água respeita as nascentes sem perfurar poços profundos, o esgoto passa por filtros biológicos no próprio terreno e a mobilidade interna prioriza caminhadas, bicicletas e cavalos, deixando os carros apenas para o deslocamento essencial.

Esse rigor sobre o solo reflete diretamente a forma como o projeto concebe a criação e o seu impacto na montanha. “Existe um paradoxo em propor a ação humana para reparar os estragos da própria ação humana”, reflete Gabriel, ponderando sobre a nossa presença na Terra. “Mas a cultura é, em sua essência, o vínculo que tecemos com a natureza ao longo de milênios. Acredito que usar essa sensibilidade, aliada à ciência moderna, para criar intervenções que favoreçam os sistemas vivos seja o nosso único caminho possível.”

Recortada por cristas, fendas sombreadas e nascentes transparentes da bacia do rio Jaguari, a terra expõe as cicatrizes dos ciclos históricos da Mantiqueira, marcados pelo pasto e pela monocultura de pinus e eucalipto. Mas o projeto quer inverter essa lógica, apostando na presença humana como vetor de cura: as antigas áreas de plantio exótico dão lugar a sistemas agroflorestais, pomares com espécies nativas e corredores ecológicos que devolvem a passagem segura a jacus, tucanos, jaguatiricas e polinizadores.

“Existem intervenções que imitam os processos da terra”, detalha Katja. “As técnicas da permacultura, por exemplo, podem melhorar a biodiversidade, a qualidade do solo e a retenção de água, às vezes usando maquinário bruto para redesenhar a paisagem e criar assentamentos autossustentáveis. Ao introduzir insumos que a natureza levaria anos para produzir, como composto e nutrientes provenientes de manejo animal, a gente consegue imitar os processos naturais de construção de solo, criando condições mais favoráveis para que a floresta se regenere mais rápido.” 

Toda essa engenharia de manejo se completa quando vira vivência. À medida que a floresta ganha espaço e respiro, quem habita a montanha descobre um novo modo de estar no mundo. Para o fotógrafo Gleeson Paulino, também um dos idealizadores do Refúgio Alto, o ar da montanha atua como um convite para reajustar a escuta e os sentidos. “Tenho observado muito essa relação entre a cidade e o Refúgio. Lá, por estarmos em uma altitude mais alta e cercados pela natureza, existe um silêncio muito profundo. Os únicos sons são os pássaros, as árvores, o riacho. Isso muda completamente o ritmo do corpo”, relata ele. “Você dorme melhor, acorda com mais disposição, faz o café sem pressa, anda descalço no gramado, toma banho de cachoeira. E começa a prestar atenção em coisas muito simples: um inseto que você nunca viu, uma planta, uma espécie diferente. Aos poucos, isso vai te aterrando.”

Aos olhos de quem costuma estar imerso nas dinâmicas aceleradas da metrópole, o impacto mais evidente dessa vivência está na mudança da própria escala temporal. “Um fim de semana lá às vezes parece uma semana inteira, porque você está realmente presente”, diz o fotógrafo. “Na cidade, somos atravessados por tantos estímulos e tantas distrações que os dias simplesmente passam. Na natureza também existem distrações, mas são distrações que te trazem de volta para o presente. No fim, acho que o Refúgio é muito sobre isso: desacelerar o suficiente para voltar a perceber o tempo, o corpo e aquilo que está ao nosso redor.”

Mas algo fundamental do projeto é que a busca por esse respiro não significa isolamento. O bairro rural se insere na dinâmica da Mantiqueira de forma porosa, mantendo uma troca constante com o cotidiano de Camanducaia e de vilas vizinhas, como o Bom Jardim e o distrito de Monte Verde. A iniciativa privilegia o comércio local para o abastecimento, contrata profissionais da região e mantém um diálogo fluido com a rede educacional e cultural do entorno.

“O Refúgio Alto”, destaca Katja, “mantém laços amigáveis e respeitosos com os seus colaboradores e suas parceiras. O conhecimento e a sabedoria local são essenciais para a realização de projetos de plantio e de construção”. Essa troca com a comunidade vizinha dialoga diretamente com a atuação do Instituto Alto, que, a partir da sua reserva contígua e de sua sede em São Paulo, desenvolve iniciativas voltadas às gerações mais jovens, construídas em conjunto com a comunidade para enfrentar desafios sociais e ambientais do território. “A maioria das pessoas que trabalham com a gente carrega décadas de conhecimento ancestral sobre esse território. Nós tentamos sempre refletir e complementar esse saber com o conhecimento que trazemos; juntamos os dois e aprendemos um com o outro”, completa.

Essa troca se desdobra no Instituto Alto de Ecocriação e Cultura, localizado em uma reserva vizinha. Ele foi projetado como parque cultural e espaço de investigação voltado às artes, aos ofícios manuais e à agroecologia, e conecta a produção artística das capitais ao saber tradicional da montanha. Um dos projetos que está sendo desenvolvidos pelo Instituto Alto é O que a natureza guarda, que consiste na restauração ecológica de seis hectares com foco em diversidade ecossistêmica, diversidade de espécies e diversidade genética intraespecífica. A iniciativa prevê o plantio de dez mil árvores compostas de 150 a 200 espécies nativas, com a funcionalidade de ampliar a biodiversidade e apoiar a cadeia de restauração com bancos vivos de sementes.

A partir dessa matriz viva, artistas e cientistas colaboram em intervenções integradas à sucessão ecológica e à infraestrutura técnica e biológica de restauro do território. Essas criações conectam-se à arquitetura natural das espécies, interligando-se aos seus atributos de tons, texturas e aromas, assim como a outros organismos vivos. O modelo tradicional costuma sofrer com a baixa variabilidade de espécies e de diversidade genética intraespecífica, gerando áreas frágeis e vulneráveis às mudanças do clima. Então, para que a terra realmente renasça de forma forte e duradoura, é preciso ir além do plantio simples e abraçar a riqueza dos processos naturais de conexão e sucessão ecológica. 

“Existe um desejo muito forte de pertencer a alguma coisa”, pontua Gleeson Paulino, refletindo sobre como a vocação do lugar responde a uma busca coletiva por desaceleração e presença. “Muita gente fantasia sair da cidade e viver no campo, mas o isolamento total nem sempre se sustenta. Quando você transforma essa transição em uma experiência coletiva, a perspectiva muda. Você não está simplesmente fugindo da metrópole, está construindo outra forma de estar junto.”

Os ateliês e o trabalho comunitário são justamente os instrumentos que ancoram essa vivência no solo. “Me interessa muito pensar nisso através da arte: pessoas com sensibilidades e práticas diferentes, compartilhando espaço, conhecimento e experiências, criando unicamente umas com as outras e também em relação com a terra”, sintetiza ele, enxergando o vale menos como uma ideia abstrata e mais como ponto de convergência. “O que mais me surpreende é perceber que esse desejo já existe em muita gente. De alguma forma, o Refúgio está apenas criando um lugar para ele acontecer.”

A dispersão do mundo contemporâneo transformou a capacidade de contemplar em um ato de resistência. Habitar a montanha exige um aprendizado contíguo, no qual a vida em comunidade depende de manter a atenção viva no outro, no saber e na informação — laços que, desgastados, alimentam o adoecimento do nosso tempo. É esse cultivo diário que fundamenta o projeto: “Implementar isso como um modo de vida”, pontua Gabriel, “sobretudo de vida em coletividade, é talvez uma das poucas contribuições que estão ao alcance de todos e que podem gerar um impacto maior do que imaginamos”.

O Refúgio Alto vive o presente, mas mira o tempo dilatado, aquele cujos frutos mais maduros virão nas próximas décadas. Os sistemas agroflorestais que hoje ganham volume vão transformar a paisagem e a oferta de alimentos nos anos vindouros, enquanto as crianças que correm pelas trilhas do vale e frequentam os ateliês desenvolvem um vínculo intuitivo com a terra e o fazer manual. É essa sobreposição de ritmos que aproxima o cotidiano da floresta. 

“Vislumbro o Refúgio Alto, em dez anos, como uma vizinhança viva, com várias casas prontas, famílias vivendo e trabalhando de lá, crianças se aventurando no ambiente”, projeta Katja. A imagem encontra seu complemento na visão de Gabriel, que estende esse olhar para a própria terra: “Pensar em uma década ou duas é alinhar-se ao tempo de restauro de uma floresta e da transmissão de conhecimento entre gerações. A vivência compartilhada compõe um grande mosaico que espelha a essência da cultura e da natureza, fazendo disso um projeto coletivo”.

Diante de um horizonte em que a silhueta das araucárias corta a névoa do fim de tarde, o Refúgio Alto contorna as incertezas do nosso tempo com uma sabedoria ancestral: a de que é possível habitar a montanha com reverência, fundindo arquitetura, terra, arte e comunidade em um modo de vida que já começou.

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