
Saberes inespecíficos
Tudo o que se vê, desde o próprio corpo às roupas que se veste, do mobiliário em que se acomoda ao espaço em que se abriga, das ruas por onde se anda pela cidade em que se habita, o parque e as árvores, as matas e os rios, as montanhas e os lagos, a praia e o mar, o céu e as estrelas, tudo o que os olhos veem foi nomeado, significa, tudo está impregnado de valores culturais para constituir o campo simbólico que o fazer arquitetônico mobiliza como fonte para elaborar suas proposições. Ao mesmo tempo, esse campo é também o palco onde ela opera, interage e transforma. Nada de novo. É assim que acontece na relação do corpo com o meio. Trivial como a luz do sol que vaza uma janela para curar as dores de alguém; como o luar se derramando sobre um casal que caminha à noite pela praia. E, talvez, justo porque o simbólico transcende o limite físico, ele é percebido como intangível, como algo indestrutível, mais ou menos como toda jura de amor almeja ser eterna. O valor simbólico de uma casa, uma cidade, um país ou um planeta, ainda que nos imponha o compromisso de preservar, de algum modo resiste, mesmo depois da coisa em si reduzida a pó. Não desaparece nem de olhos fechados. Eterno, ainda que só dure por um dia. E, pela mesmíssima razão, ainda que pareça oposta, uma casa inteiramente preservada não significará a mesma coisa no instante seguinte. Pois o campo simbólico, como obra em andamento, é dinâmico. As imagens, que lhe dão presença mais sólida, estão feitas de uma matéria curiosa: fortes o suficiente para se fixar em cada um de nós como se fosse para sempre e, opostamente, de tal modo dinâmicas que não se deixam capturar. Você fecha os olhos para tentar delineá-las, em vão. Mesmo se pudéssemos, como fazem os artistas, elas já não seriam as mesmas no minuto seguinte. Mais ou menos como se, a cada foto, o modelo deixasse de existir, um modelo impossível de ser clicado duas vezes em sequência. O campo simbólico, incontornável, é, para a arquitetura, um saber inespecífico. Ainda que nos forme desde a origem, não faz parte, de modo objetivo, do corpo de disciplinas que educa um arquiteto.
A provocação deste texto, pensar sobre o que vem por aí, dirigida para essa atividade cujo dia a dia é o projeto — ou os planos de ação que preparam o que virá — parece causar uma reação de oposição, como se, para respondê-la, fosse preciso fincar os pés e os olhos no agora e inconformar-se com o que a foto da cidade de São Paulo, por exemplo, nos mostra: rios mortos e outros enterrados vivos; o nome dos lugares e suas histórias apagados sob o substantivo comum excludente de periferia; a oposição absurda entre ambiente natural e construído; a degradação da noção de espaço público; a desigualdade no acesso ao saneamento, à água e aos serviços públicos; a predominância, ainda, do transporte individual; o excesso de propriedades contra a escassez de moradias; as diversas formas de violência que a existência da cidade impõe e o absurdo número de vidas que ela cobra a cada dia; as desigualdades sociais tão estruturais. Com quantos saberes e ações se enfrenta isso? A arquitetura, que se afeta enormemente diante do quadro, é para lá de insuficiente para formular uma resposta. As obras que ela propõe registram, mais do que poderiam transformar, as relações sociais que estruturam a cena urbana. O empenho da arquitetura é o mesmo para todas as atividades humanas, aquelas que se aliam num mesmo projeto civilizatório. Nesse sentido, inclusive, parece possível transformar muito sem construir nada; bastaria, por exemplo, desmantelar os absurdos construídos para segregar ou excluir. Seria como desenhar mais com a borracha do que com o lápis. É inegável que o cenário presente desespera. Soma-se a isso a consciência sobre a crise ambiental, as evidências das mudanças climáticas e sua hegemonia inescapável no diário. Os novos saberes nesse campo permitem contabilizar o custo ambiental da atividade da construção, que disputa a liderança na emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Dilemas éticos. A gente lê o jornal e prende o fôlego, sente culpa até por respirar, tenta sequestrar no próprio corpo o maior causador do efeito estufa. Basta estar vivo para causar tempestades e vendavais, secas severas e enchentes devastadoras. Enfim, temos clara noção de que o fim do mundo humano é uma obra em construção, como se fosse uma espécie de anti-projeto da própria espécie. Obviamente a ameaça é real. Mas vale notar que entre os conceitos de espécie e de humano há uma distância sideral. Algo similar separa construção de arquitetura. Manfredo Tafuri — o célebre professor de arquitetura em Veneza — sintetizava o propósito da obra inteira de León Battista Alberti — expoente arquiteto do Renascimento italiano, cinco séculos antes da noção de meio ambiente — numa única frase: a função da arquitetura, para Alberti, seria a de colocar limite à loucura humana. A arquitetura tem um propósito primordial do qual nunca se afastou: construir abrigo para o homem. A casa e todas as suas extensões e desdobramentos. Sofisticou-se em soluções para enfrentar as condições climáticas mais adversas, foi o recurso que permitiu o assentamento das culturas humanas em todo o planeta, nos mais diversos biomas. Enfim, se aquela ameaça destruidora se consumar, será apesar da arquitetura e nunca através ou nem mesmo por erro dela. Em outras palavras, será porque a batalha empreendida desde Alberti, e por todo e qualquer arquiteto depois dele, terá sido vencida pela insistência insana de não observar limites.
Dentro dos saberes específicos, a arquitetura tem, como se diz, uma nova agenda, informada sobretudo pela urgência das questões ambientais. Isso se faz ver tanto no universo acadêmico, com jovens arquitetos nitidamente comprometidos, quanto no profissional, pela transformação de práticas, indústrias e a inclusão de novas normativas coordenadas no intuito de mitigar o impacto ambiental e energético da atividade. Ao menos na parcela que atua inserida na esfera formal, os novos preceitos predominam. Num país como o Brasil, o maior desafio é conciliar as novas agendas — em geral pensadas em contextos sociais muito diferentes do brasileiro — com o compromisso de superar as desigualdades. Há uma clara resistência, por exemplo, em se relacionar emissão de dióxido de carbono com circulação de dólares, embora haja uma direta correspondência entre as duas coisas. Ou entre quanto um sujeito gasta por dia e quantos quilos de gás ele lança na atmosfera, ou quantos litros de água, ou gasolina, ou eletricidade consome. Quantos metros quadrados uma pessoa ocupa para viver tornou-se uma questão relevante quando se mede o custo ambiental do que está construído na cidade. A clareza de que os recursos naturais têm limite induz à resposta óbvia, porém oculta pelo preconceito: é preciso aprender com os que vivem com pouco. É por aí que se irão tecer as chaves das superações estruturais mais profundas.
Inespecificamente, a gente tem a impressão de que a abrangência da consciência ambiental, quando estabelece relações de causa e efeito entre os eventos climáticos afastados no espaço e no tempo, quando expõe a interdependência de biomas que antes não se viam relacionados, traz uma forma de entender o mundo que ressoa algo da percepção estética, ciência inaugural do humanismo desde Alberti, que costumava abordar todo o universo em interrelação direta. Uma forma de olhar que foi enfraquecida sob a hegemonia da abordagem técnico-científica, um efeito colateral inescapável do avanço de campos de conhecimento abertos pelas especializações, que, isoladas ao extremo, tendem a explodir a unidade do conjunto. Afasta-se da forma de ver guiada por critérios de beleza. Talvez por aí, pela inesperada ressonância entre meio ambiente e estética, a gente poderá ver, com os únicos olhos que temos, informados pela cultura, o que não éramos capazes de ver antes. Olhar, por exemplo, a Amazônia sem que lhe sobressaia uma ideia de selva. Ao contrário, ver que ela hoje representa uma “natureza antropizada”, pois, por mais de onze mil anos, como se vê em milhares de registros arqueológicos, todos apenas recentemente descobertos, ela vem sendo cultivada pelos povos do lugar. É por isso que hoje se diz que a Amazônia é mais um jardim que uma floresta. Sabe-se que ali o solo fértil (terra preta), a água potável e o ar mais respirável são também, em muito boa medida, herança cultural. Ao nos depararmos com as evidências e a monumentalidade de tal obra humana, diante dela, a ambição mais elevada do dito mundo desenvolvido — e que se traduz em desacelerar os desmatamentos e reduzir o ritmo do envenenamento ambiental — soa mesquinha. É preciso subir a régua.
De volta aos pés fincados no agora da cidade de São Paulo, é um alento perceber que a expressão selva de pedra se esvaziou de sentido. Isso dá na gente uma esperança de que construção e natureza possam não ser vistos em oposição e de que a consciência das questões ambientais tenha ampliado o campo simbólico pela ação dos jovens, dos artistas e dos estudiosos para construir alguma forma de resistência ao desastre e para abrir uma fresta de possibilidade de futuro. Eis a razão de ser da arquitetura.
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