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Tempestade de Neve: Aníbal e o seu Exército a atravessar os Alpes, de J.M.W Turner (1812)
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Por que o fim do mundo virou fetiche visual?

por Revista Amarello

Modelos que afundam na lama sob holofotes; jaquetas com uma profusão de bolsos, como se fossem prontas para carregar um mundo inteiro; vestidos costurados a partir de retalhos que já viveram outras vidas. Dá para citar inúmeras características estilísticas atuais que tomam de empréstimo uma sensação de que algo sombrio nos espera. Nos desfiles recentes, ou mesmo na publicidade e em séries de sucesso, a estética do apocalipse foi além da metáfora para se tornar material de consumo. Para além da teatralidade comum às passarelas, a coisa toda acaba sendo um modo de traduzir o sentimento coletivo de incerteza, ansiedade climática, desconfiança institucional e a sensação de que o futuro já não é algo garantido.

Em 2022, em Paris, aconteceu o desfile polêmico (indício de que assim foi: Kanye West fez parte) da Balenciaga que transformou o catwalk em um “mud show”. Um anfiteatro de barro no qual peças acabaram manchadas, soltas, destruídas como roupas que já tinham passado por um acontecimento. O desfile dominou as discussões por milhões de razões, mas, acima de tudo, foi um marco para uma representação estética que vinha se manifestando com certa força e que, ali, ganhou novas escalas. A lama e as marcas das botas funcionaram como sinalizadores de uma ideia: as roupas carregam histórias de sobrevivência, desgaste e catástrofe. 

E a Balenciaga não ficou sozinha nessa. A moda contemporânea tem repetidamente convocado imagens de sobrevivência com estampas que lembram manchas de óleo, máscaras e capuzes que remetem a uma ideia de proteção, costuras de reaproveitamento que assumem o lixo como matéria-prima e tantas outras abordagens. Para a estilista francesa Marine Serre, a linguagem pós-apocalíptica dialoga com a ideia de que “o apocalipse já está aí” e com o reaproveitamento como gesto estético e político. Em suas entrevistas, Serre fala abertamente de regeneração e da necessidade de um “design de sobrevivência”. Não à toa, ela mesma fez coleções ambientadas como cenas de um mundo em colapso. 

Há, ao menos, três vetores que se cruzam por trás dessa abordagem estética. 

Primeiramente, é necessário pensar na crise ambiental e na ansiedade coletiva que ela gera. Mudanças climáticas, incêndios, enchentes e imagens de destruição ambiental transformaram o imaginário apocalíptico em um materialmente crível, cada vez mais presente na nossa rotina. Faz sentido, então, pensarmos em peças técnicas, capas, botas e materiais impermeáveis, pois eles traduzem, em linguagem têxtil, o preparo para extremos, e não só como utilitarismo, mas como endosso sensorial da ideia de que o planeta mudou de regime. 

As narrativas distópicas também aparecem como um fator relevante. Não são de hoje, claro, mas atualmente elas parecem mais inevitáveis, circundando cenários realmente possíveis, mesmo quando lidam com figuras como zumbis. Séries, filmes e videogames (de “The Last of Us” às franquias distópicas) popularizaram ainda mais roupas gastas, utilitárias e simbólicas da “sobrevivência”. Os figurinistas dessas produções trabalham a autenticidade do gasto, do sujo, do remendado. Quando o figurino vira referência de consumo, passa a haver uma tradução rápida do imaginário apocalíptico para o guarda-roupa cotidiano. 

E, no meio disso tudo, vem a estética política, que recusa o brilho e a perfeição tão proclamados em outros momentos. Há um movimento que rejeita a superfície impecável do luxo, do showroom, é a “anti-beleza” que celebra o gasto, o diário e o gasto visível. O revival do punk, do grunge e da estética “destroyed” repagina a nostalgia, sendo uma posição moral contra o consumo ostentatório. O “ugly fashion” e a escolha por materiais visivelmente usados pedem outra ética estética, a do remendo, da resistência e da recusa. 

Há uma ironia dupla aqui: o apocalipse como fetiche é, ao mesmo tempo, advertência e comércio. Consciência políticoambiental e consciência de mercado. Como observa boa parte da crítica cultural, a moda antecipa e, ao mesmo tempo, domestica a sensação de fim, fazendo da ansiedade um desejo. Uma peça “apocalíptica” pode ser tanto manifesto estético quanto produto aspiracional: a jaqueta que declara “eu estou pronto” vira sinal de autenticidade e, imediatamente, mercadoria.

Susan Sontag, nos anos 60, já havia mostrado como as estéticas podem se alimentar do exagero. Seu célebre ensaio, Notas sobre Camp, trazia uma visão relevante à época que foi ganhando ainda mais força com a passagem dos anos. Quando ela reflete sobre “camp”, expressão para “esotérico” que foi muito forte nas rebarbas dos movimentos sociais que antecederam a Guerra do Vietnã, poderia muito bem estar refletindo sobre a estética do apocalipse: “Falar de Camp equivale a uma traição”, escreve. “Se a traição é justificável, é pela edificação que proporciona ou pela dignidade do conflito que resolve. No meu caso, argumento com o objetivo da auto-edificação e do estímulo de um agudo conflito em minha própria sensibilidade. Sinto-me fortemente atraída pelo Camp e quase tão fortemente agredida.” 

Há no ensaio tantas outras frases indeléveis. Uma delas é “O Camp vê tudo entre aspas.” É uma citação que permanece uma lâmina útil para entender como o feio, o exagerado e o teatral ganham valor simbólico quando representados como “performance” do real. E, nesse âmbito, é relevante também nos lembrarmos da fadiga informacional da atualidade. Se a vida social nos excessos digitais provoca esgotamento, a moda pode oferecer uma linguagem material para esse cansaço — um traje de guerra contra a sobrecarga. 

As capas com bolsos, molas, cadarços e costuras que soam utilitárias, os tecidos que parecem já trazidos de outro lugar; botas pesadas, isso não necessariamente é novo. O que muda é o signo: o desgaste vira mérito, o remendo vira história, a sujeira vira autenticidade. E, justamente por isso, as marcas que fazem dessa narrativa sua assinatura obtêm exposição, e vendas, ao mesmo tempo em que instalam uma estética de crise.

No Brasil, o diálogo existe em versões próprias. Jovens criadores, como Tom Martins e Jal Vieira, vêm explorando reaproveitamento, referências à resistência e narrativas de crise, muitas vezes em diálogo explícito com movimentos sociais e memória regional. Nomes que frequentam os calendários de SPFW e shows independentes trabalham com reconstrução de denim, upcycling e referências a movimentos de rua, modos de produzir uma estética que é ao mesmo tempo crítica e prática do desapego ao consumo rápido. A presença de desfiles que trazem discursos sobre colapso climático e crise humanitária já foi notada em temporadas recentes. 

É sintomática a resposta de Jal Vieira sobre seu processo criativo: “Tento sempre me questionar sobre o que tem me gritado naquele momento. Um processo de escuta interna mesmo. E isso serve não apenas para as coleções: carrego em toda situação.Eu sempre me questiono: estou me sentindo bem quanto a isso? O que tem me incomodado?” Já faz tempo que o incômodo paira no ar, nos noticiários e nas redes sociais.

Vestir o colapso talvez seja uma forma de enfrentamento simbólico. Colocar sobre o corpo uma roupa que parece preparada para sobreviver é uma maneira de criar um sentido de controle, de autoequipamento emocional. E, ao transformar ruína em imagem, damos forma a um medo e transformamos o medo em algo nosso, não algo imposto a nós.

A moda, então, faz aquilo que sempre fez: converte estado de espírito em linguagem visual. Queremos sobreviver. E nos vestiremos de acordo com esse desejo.

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