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Fotos de acervo Charly Braun. Todos os direitos reservados.
CinemaSociedade

Onde há ódio, houve amor: o Caçador de Marajás

por Revista Amarello
Drama brasileiro à moda vitoriana, a rixa entre dois irmãos que se tornou escândalo nacional.

Uma família abastada. De um lado, um legado em um conglomerado de mídia; do outro, um legado no mundo político. Dois irmãos próximos, unha e carne, que, em algum momento, por motivos que só fazem sentido a eles, começam a se distanciar. O caçula a priori se dá melhor, tocando o negócio da família; o mais novo, numa manobra que ninguém dava muita bola, se lança na política, virando primeiro prefeito, depois governador e então, para a surpresa de todos, presidente. Numa batalha de egos, tudo cai pelas tabelas e, no torvelinho dessa rixa juvenil, num ato de vingança, um escândalo de corrupção é escancarado. O caçula é destituído da empresa, tachado de louco, e o mais velho renuncia à presidência para evitar a aprovação da impugnação de seu mandato. Cabe ao país lidar com as consequências.

A história contada em O Caçador de Marajás, nova série documental da Globoplay, é uma trama que conhecemos, mas o compilado visto nesses 7 episódios apresenta um nível de detalhamento antes alcançado somente em livros. Com imagens de arquivo e depoimentos tanto de jornalistas quanto personagens da história, o diretor e roteirista Charly Braun reconta às minúcias a ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, que em uma toada foi de playboy a Presidente da República e de dirigente máximo da nação a inimigo número um da população.

Figuras emblemáticas não faltam a esse enredo. E suas descrições podem ser lidas tais quais àquelas descrições-encarte que aparecem antes de uma peça teatral: Pedro Collor, o ressentido irmão caçula de Fernando; Thereza Collor, esposa de Pedro, a cunhada por quem Fernando tinha uma queda; Leda Collor de Mello, a mãe que, no fogo cruzado, tomou o partido do filho presidente; e, claro, PC Farias, também conhecido como “Paulinho Gasolina”, tesoureiro da campanha de Collor e, de acordo com as acusações públicas de Pedro, “testa de ferro” do irmão.

Pode parecer óbvio, mas nem todo relato histórico como esse se dá ao trabalho de apresentar contextualizações de maneira hábil. Em muitas produções, a vontade de ir ao ponto às vezes parece mais forte do que a vontade de estabelecer as bases para que se chegue, de fato, ao ponto — o que seria de O.J.: Made in America sem isso? Felizmente, não é o caso aqui. Temos tudo que precisamos para nos situar e viver intensamente as idas e vindas dessas pessoas.

Para ajudar na reconstrução, nada melhor do que nomes como Mario Sergio Conti, Dora Kramer, Jô Soares, Monica Waldvogel, Eduardo Bueno, Boris Casoy, Joyce Pascowitch e tantos outros, envolvidos diretamente ou indiretamente. Mas, além de jornalistas, há depoimentos que temperam ainda mais o andamento da narrativa, como Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. O Caçador de Marajás sabe lidar com as duas frentes que caracterizam esse capítulo da história brasileira, a íntima e a pública, e os sete episódios passam num piscar de olhos.

Foram anos de pesquisa para chegar nesse nível de concisão e precisão. Mas não deixa de ser curioso que, apesar do tempo, o resultado parece ter sido feito para o momento presente, uma vez que a história de Collor fala de um país que constantemente decide seus governantes pela imagem, que ainda vence (ou cai) pela mídia, e que continua preso ao mesmo ciclo de amor e ódio por seus personagens públicos.

Fernando Collor renunciou ao cargo em 1992, há mais de 30 anos. Desde então, tivemos seis mandatos (um em andamento), um impeachment e uma tentativa de golpe de Estado. Tudo que circundou o governo de Collor pode parecer um caldo dos anos 90, mero fruto de seu tempo. No fundo, porém, o drama também chega para sinalizar um diagnóstico, o qual precisamos saber se estamos — ou não — preparados para encarar.

Confira nossa conversa com o diretor e roteirista Charly Braun.

Conte um pouco de onde veio o interesse e a disposição em abordar essa história, e como foi o processo, pessoal e criativo, de trazê-la à tona.

A saga da era Collor traz uma série de ineditismos históricos, é cheia de singularidades e recheada de personagens riquíssimos, motivo pelo qual há muitos anos eu namorava a ideia de transformá-la numa série documental. Via nesta história todos os elementos dramatúrgicos e cinematográficos das grandes tramas de ficção — diria até que este seria um caso clássico onde a realidade “supera” a ficção. Com o tensionamento do clima político do país a partir das manifestações de 2013, que perdura até hoje, me veio a vontade de me debruçar a fundo nos acontecimentos que marcaram o início pleno da redemocratização do país, com a eleição de um presidente pelo voto direto depois de quase trinta anos. Pareceu-me que para entender melhor onde estamos como país, e para onde queremos (ou devemos) ir, seria importante compreender melhor de onde viemos. E que a era Collor, ademais, nos dá uma distância temporal quase ideal para suscitar esta reflexão. Distante o suficiente para arrefecer as paixões da época ao mesmo tempo em que encontram-se ecos de tudo que ali ocorreu nos dias atuais. Basta lembrar que o rival de Collor no segundo turno das eleições de 1989 foi o presidente Lula, e entre as centenas de deputados que votaram por sua queda estão nomes como Geraldo Alckmin e Bolsonaro.

Finalmente, por uma casualidade da vida, ainda criança fui testemunha do drama da família Collor que eu, incrédulo, via reverberar na vida do país. Minha mãe era amiga de infância da esposa de Leopoldo Collor, o primogênito dos Collor e personagem importante em sua eleição. Por este motivo, eu era amigo dos filhos do casal, cuja casa eu frequentava, e onde vi e vivi episódios desta saga que mistura Shakespeare e Dias Gomes, com pitadas de Nelson Rodrigues. Naturalmente, essas lembranças ficaram gravadas em minha memória, pela natureza extraordinária dos fatos, o que torna toda a saga algo mais pessoal. 

O processo de feitura começou com uma pesquisa extensa e bastante escrita, até que fosse acolhido pela Globoplay, primeiro para desenvolver os roteiros e depois para a produção. Vou descobrindo a “cara” da obra durante o processo, encontrando os caminhos narrativos e construindo uma linguagem própria para a obra, para a história que quero contar. Isso se dá em grande parte na montagem, especialmente no caso de um documentário.

Linda Micales com Leda Collor durante as filmagens.
Eduardo Bueno e o diretor Charly Braun.

Um dos pontos que mais impressiona na série é perceber, talvez como nunca antes, o tamanho da tragédia familiar protagonizada por Fernando e Pedro, esses Caim e Abel tropicais. Não só porque tem todos os elementos narrativos para deixar qualquer um fascinado, mas também porque nos leva a pensar: como é possível que uma história tão pessoal seja, ao mesmo tempo, a história de um país? Como foi lidar com essas duas dimensões, a íntima e a histórica?

Por ter uma relação pessoal com parte da família, foi particularmente difícil. Não podia nem queria “poupar” nada, nem ninguém — ao mesmo tempo, qualquer sujeito ou personagem que se retrate merece respeito. Isto posto, esta justaposição entre público e privado é o que torna esta história tão singular, de modo que era importantíssimo que fosse investigado e colocado, dentro dos limites da ética do cinema documental.

Nessa mesma seara, podemos tomar como ponto de partida uma figura que é quase novelesca: o publicitário, o estrategista, o tesoureiro, o homem que sabia demais, PC Farias. Como equilibrar o mito e o fato ao contar a história desse personagem que, aliás, segue até hoje um tanto nebulosa?

PC é daqueles personagens únicos, lembra um pouco (para dar uma referência contemporânea) um Daniel Vorcaro da vida. Mas era mais folhetinesco, com seu bigodão, seu gosto por gravatas Hermès. Era um homem razoavelmente culto, fora seminarista, disk-jockey, vendedor de carros usados… Esses elementos quase ficcionais o tornam um personagem rico, e acho que o equilíbrio vêm justamente de não temer mostrar esse lado quase caricato. Ao mesmo tempo, deixar em aberto os tantos mistérios que ele contém. PC Farias merece uma série só pra ele.

Na construção do roteiro você já imaginava o acesso que teria às imagens de arquivo ou isso veio posteriormente, como um complemento? Quanto tempo de edição foi necessário para encaixar esse movimento de trama, registro histórico e convidados?

Como diz meu pai, “tudo hoje em dia está no youtube”. Exageros à parte, muito da minha pesquisa se deu buscando o que existia de arquivos em vídeo desta época. Muitos deles já estavam presentes no roteiro, mas a pesquisa acabou trazendo novos e riquíssimos elementos que estavam fora do meu radar, como por exemplo os programas do “Casseta e Planeta”, programa humorístico sensacional que teve sua estreia justamente durante o final do governo Collor. Este vasto material de arquivo, somado a centenas de horas de entrevistas, demandou um tempo de edição significativo. No total passamos mais de um ano na ilha de montagem, o que, pensando friamente, não chega a ser tanto!

Entrevista com Gilmar Mendes.

“Onde há ódio, já houve amor”. A frase dita por Luiz Estevão parece atravessar toda a história, tanto a da família Collor quanto a do país. Você diria que ela também se aplica ao modo como o Brasil vive a política?

A política brasileira sempre foi bastante regida por estes elementos, ódio e amor. De alguma maneira carrega uma violência intrínseca que pode ser vista à luz da nossa história, nosso passado escravagista e violento. É sintomática que Lula consegue ganhar uma eleição apenas quando vira “Lulinha paz e amor”. Para o bem e para o mal, o brasileiro tem uma maneira muito apaixonada e intensa de ver o mundo e as coisas. Isso pode ser ruim, às vezes. Collor se elege encarnando a figura do “salvador da pátria”. Enquanto nós, como sociedade, não deixarmos de lado essa crença na figura de um salvador, seguiremos dando passos para frente e para trás.

Como a série assinala, naquele momento havia medo de que o impeachment significasse a volta dos militares. Olhando para o Brasil recente, essa insegurança democrática era passageira ou estrutural?

É curioso pensar que após quase uma década de luta pela volta da democracia, conquistada plenamente com a eleição de Collor, ainda houvesse tanto medo de que o impeachment significaria a volta da ditadura. É interessante notar também — e este assunto não houve espaço para aprofundar na série — que Collor, com seu jeito meio autoritário, acabou por diminuir o poder dos militares dentro das estruturas de governo. Ele extinguiu o Serviço Nacional de Informações (SNI) em março de 1990, logo no início de seu mandato, cumprindo uma promessa de campanha e consolidando o poder civil. A medida visava desmantelar a estrutura de inteligência da ditadura e reduzir a influência militar. Centenas de funcionários (arapongas) foram demitidos, deixando o governo inicialmente sem um instrumento de inteligência interna. A ação foi vista como um passo importante, embora inicial, para o controle civil sobre os militares, em contraponto ao governo Sarney, tutelado pelos militares. Mas, como vimos no período 2018-2022, os militares persistem de certa forma como quase um quarto poder.

O Plano Collor e o impeachment marcaram uma geração e, de certa forma, moldaram a desconfiança que o brasileiro tem da política até hoje. Ao revisitar esses episódios, você sente que o que acontece na política é inevitavelmente o que acontece na vida das pessoas, fazendo inclusive com que traumas econômicos, como o confisco, possam virar traumas afetivos?

Sem dúvida, acredito que sim. Não há saída para as questões coletivas, para as grandes questões que temos que enfrentar, fora da política. E aí mora o perigo nestes momentos de “anti-política”.

Percebe-se que Collor foi produto de um Brasil que estava aprendendo a lidar com a própria imagem, com o marketing político e com a TV. Como você enxerga o papel da mídia nessa construção e desconstrução do mito?

A TV exercia um papel crucial na vida do país na década de 80. Havia mais lares com aparelhos de TV do que com geladeiras. O recorde de audiência na TV se dá nesta época, com a novela Roque Santeiro chegando a 80 pontos na audiência. Collor soube posicionar-se bem, soube usar o veículo da televisão a seu favor. Sua juventude e beleza ajudaram, bem como seus trejeitos fortes, firmes. A imprensa de modo geral — e aí destaco os veículos impressos, como a VEJA — tinha enorme influência. Foram um pouco omissos durante a eleição, mas foram estes mesmos veículos que acabaram investigando os escândalos da era Collor a fundo, sendo decisivos para a sua queda.

Luiz Romero Farias, irmão de PC Farias.

A TV era o grande palco da época. Se Collor tivesse à disposição o Instagram, o TikTok e os podcasts, você acha que teria se reinventado ou se queimado mais rápido? Essa tragédia romanesca da história brasileira teria espaço pra se desenrolar hoje, num mundo hiperconectado e onde a imagem é ainda mais vigiada?

Com certeza poderíamos ter algo parecido. Um fato curioso: Collor, durante o final de seu mandato como senador, nos anos 2019-2022, ressurge como uma figura “engraçadinha” no Twitter, fazendo piadas e dialogando com humor e sarcasmo com seus seguidores.

A série termina com a queda, mas há uma sensação de ciclo que se repete na política nacional. Os letreiros finais, ainda que sutis, apontam para isso. Você vê ecos dessa história nos líderes que vieram depois?

Acho que o povo brasileiro ainda cai nas armadilhas do político que se vende como “outsider”, como antipolítico. Há muitos paralelos nas eleições de Collor e Bolsonaro.

Contar uma história cujo personagem principal está vivo torna tudo mais fácil ou mais difícil? Foi considerado incluir depoimentos atuais do próprio Collor?

Creio que seja mais difícil. Começamos a filmar logo que Collor foi condenado pelo STF. Isso acabou fazendo com que uma série de entrevistados desistisse de dar seus depoimentos, pois não queriam estar associados a um condenado. Collor foi procurado para dar depoimento inúmeras vezes, mas sequer respondeu à produção.

Depois de tantos anos acompanhando essa história e suas figuras, o que foi mais forte ao ver tudo pronto: a sensação de conclusão ou a de que ainda há algo em aberto?

Para mim fica uma sensação de conclusão. Collor é um personagem histórico importante, além de ser um personagem muito peculiar. Me parecia inacreditável que não houvesse ainda um registro relevante sobre a era Collor. Eu queria muito fazer e fiz. E acho que ficou muito bom!

Foto: Senado Federal. Reprodução.

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