
Demarcar a luta: a construção da imagem-ação no ativismo indígena
No cotidiano do ativismo indígena, convencionou-se o uso da expressão “demarcar telas” como um modo de convocação para a produção imagética, audiovisual e textual em uma perspectiva indígena, articulada pela pluralidade das culturas, assim como pelas experiências partilhadas entre os povos indígenas no Brasil. A expressão, com um sentido mais imediato ligado a essa presença material e simbólica nas variadas telas que marcam nossa experiência cotidiana, adquire uma amplitude de demarcação da luta, ocupação e construção do nosso ambiente tecnocomunicativo contemporâneo.
Como jornalista, pesquisador e ativista indígena, me interessei por essa expressão desde que iniciei as pesquisas para a minha tese de doutorado, intitulada Fluxos ativistas e territórios, realizada na Universidade Federal da Bahia e defendida em 2025. Esse interesse por aprofundar essa compreensão foi motivado pelas minhas experiências em edições do Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena do Brasil, em que a afirmação “demarcar telas”, conectada ao imperativo “demarcar territórios” como agenda central do movimento indígena, tornou-se cada vez mais frequente entre comunicadores e ativistas que fazem a cobertura do evento, ampliando-se para o cotidiano de produções comunicacionais e artísticas indígenas.
Em uma discussão transmitida no Canal Brasil, Ailton Krenak sintetizou alguns dos múltiplos sentidos da expressão “demarcar telas”:
“Quando a gente fala em demarcar tela, é exatamente um diálogo com o audiovisual. A tela é a arte, é o cinema, é o horizonte das artes plásticas no sentido mais amplo. Tem havido uma presença significativa em Bienal, em mostras interessantes, elas já conseguem circular fora do Brasil. Assim como o audiovisual, que tem sido apreciado de maneira curiosa, interessada, pelos festivais e mostras internacionais de cinema. (…) A gente tem realizadores dos povos originários que já estão na estrada nos últimos dez, quinze anos, como representantes de uma narrativa onde o audiovisual ganha novos contornos. Nós não estamos simplesmente replicando o universo do cinema, nós não estamos fazendo uma réplica disso, nós estamos inovando na linguagem”.
A expressão articula uma percepção coletiva e partilhada na comunicação e no ativismo indígena de que a luta pelo território exige uma disputa cultural, social e política constituída no presente e que coloque em relevo o respeito aos territórios ancestrais e às culturas indígenas. Ao mesmo tempo, isso quer dizer que uma imagem redutora e racista reiterada historicamente no país, que atrela os povos indígenas ao passado e concebe as culturas de maneira fossilizada, deve ser combatida, mostrando que a cultura e a comunicação indígena não são apenas vivas, mas também indissociáveis do território.
Na área da comunicação, o pesquisador de cinema André Brasil destaca que, na produção audiovisual indígena, frequentemente as formas de vida e de imagem estão entrelaçadas. De maneira mais ampla, ele chama a atenção de que a “(…) relação entre formas de vida e imagem — em suas continuidades e descontinuidades — está no centro da produção contemporânea, seja na mídia ou no cinema”.
Partindo desse importante reconhecimento, é preciso aprofundar, na discussão sobre a comunicação em perspectiva indígena, a própria concepção de diferença entre vida e imagem, mesmo que entendida de maneira interconectada. Esse movimento reflexivo é necessário, em um primeiro plano, porque a construção da imagem dos povos indígenas pelos europeus configurou e reiterou relações de poder na história brasileira. Em uma segunda dimensão, ela é uma precondição para o movimento fundamental de rearticular a premissa eurocêntrica de separação entre vida e imagem, que é baseada em uma naturalização das culturas colonizadoras.
A proposta de demarcação das telas, enquanto prática ativista, mobiliza precisamente a dimensão do território indissociável da vida, evidenciando-se como forma cultural e comunicativa, na qual a tela é imagem e, simultaneamente, ação. A relação entre imagem e vida, nesse sentido, não se refere a uma relação de externalidade, cujo referente material de representação estaria restrito ao âmbito material do espaço. O
território, para os povos indígenas, é pertencimento. Não é externo à vida, tampouco se reduz a posse, soberania, recurso, patrimônio material.
A demarcação da tela é, desse modo, uma forma de “manejo do mundo”, nos termos do antropólogo Gersem Baniwa, inclusive em relação às lógicas instrumentais e deterministas tecnológicas da comunicação como inovação. Conforme explica Baniwa, a ideia de manejo do mundo se contrapõe “à concepção do homem globalizado quando concebe a educação como necessidade instrumental para domínio, exploração, manipulação, subjugação e destruição da natureza, do mundo e da vida”, ressaltando o fato de que “as principais forças representativas e reativas da natureza não sofrem controle e domínio da ciência e tecnologias atuais, a exemplo dos raios, trovões, tempestades, furacões, secas, enchentes etc.”.
Como forma cultural e comunicativa, demarcar telas materializa uma imagem-ação que afirma que o território e a vida são indissociáveis, mas também a comunicação, central no “manejo do mundo”. Essa leitura confronta e, ao mesmo tempo, possibilita superar perspectivas universalistas que, em uma pretensão de neutralidade explicativa para o domínio, reiteram visões baseadas na separação entre cultura e natureza.
Essa concepção do território se relaciona à compreensão dos povos indígenas sobre o ideal da própria vida. Para Gersem Baniwa, defender a vida não deve se confundir com “viver mais” ou “viver melhor”, nem em um sentido de acumulação, nem enquanto expectativa individual, pois não deve existir hierarquia no âmbito da vida. Essa maneira de perceber a existência “significa de forma simplificada viver em harmonia com os familiares, os membros da comunidade e com a natureza, o que só é possível com a prática das virtudes de solidariedade, reciprocidade e partilha de tudo o que por mérito se possa alcançar”.
Demarcar telas estabelece que os termos das articulações de imagens, audiovisuais e textos na constituição do ativismo indígena envolvem dimensões de engajamento e de linguagem que não são aquelas dominantes nas perspectivas utilitaristas, instrumentais
e capitalistas. As formas comunicativas, articuladas pela demarcação das telas, não são externas à vida, mas constituidoras da luta indígena, o que exige rearticular o modo como a comunicação contemporânea ainda é compreendida, a partir de pressupostos etnocêntricos e de universalidade.
Enquanto imagem-ação, demarcar telas é uma forma cultural, comunicativa e política. Articula desde ações políticas convencionadas às oficinas e aos eventos artísticos, conectando festivais de cinema, protestos de rua, transmissões ao vivo, encontros do movimento indígena e discussões públicas, além de postagens, compartilhamentos, comentários, cards e diversos outros formatos que permeiam os usos de plataformas de redes sociais. Permite evidenciar que a comunicação e o território estão, de maneira constitutiva, conectados, nas perspectivas indígenas, o que exige repensar os sentidos de ambos, geralmente apartados. Demarcar território, agenda central do movimento indígena desde a sua formação, atualmente implica demarcar telas, pois é necessário disputar afetos, afirmar culturas e amplificar lutas. Demarcar as telas, portanto, significa demarcar a luta.
Referências
BRASIL, André. Performance: entre o vivido e o imaginado. In: PICADO, B.; MENDONÇA, C. M.; CARDOSO, J. (org.). Experiência estética e performance. Salvador: EDUFBA, 2014.
FARIAS, Daniel Oliveira de. Fluxos ativistas e territórios: afetos e repertórios na configuração comunicacional de ativismos políticos no Brasil. 2025. Tese (Doutorado) — Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025.
BANIWA, Gersem. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: Mec/Secad, 2006.
BANIWA, Gersem. Desafios no caminho da descolonização indígena. Novos Olhares Sociais, v. 2, n. 1, p. 41-50, maio 2019. Disponível em: https://www3.ufrb.edu.br/ojs/index.php/novosolharessociais/article/view/463/21.
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