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Foto de Gleeson Paulino no Refúgio Alto. Todos os direitos reservados.
#56O que está acontecendo?EducaçãoSociedade

Da Gamelinha ao Solimões: as batalhas de poesia no contexto amazônico

por Emerson Alcalde

Casas de alvenaria sem reboco, música animada ao longe, luzes amarelas iluminando algumas cabeças. Desci do barco e fui ver de perto. Muitas motos passavam por mim. Ninguém usava capacete: dois, três na garupa, jovens, senhoras e crianças. Entrei no bar. Tocava um arrocha, ou algo parecido. Estava cheio, em sua maioria homens. Riam, bebiam, dançavam. Voltei para o barco e fui alertado a tomar cuidado. A maioria, disseram-me, era de garimpeiros. A cidade era perigosa.

Eu estava em Coari, no Amazonas. Depois de dois dias navegando a partir de Manaus, começava ali a expedição literária Amazônia das Palavras, na qual eu participaria como oficineiro de slam.

Acostumado ao ambiente urbano e periférico de São Paulo, eu não sabia exatamente o que encontraria na Amazônia. Trazia comigo, como quase todo mundo que chega de longe, algumas imagens prévias da floresta, dos rios e das comunidades ribeirinhas. Mas também carregava quase duas décadas trabalhando com poesia, cultura e educação na periferia. Era a partir desse lugar que eu iria olhar para aquelas escolas.

Foram dezoito dias navegando pelo Amazonas, passando por Coari, Codajás, Anori, Manacapuru, Iranduba, Anamã e Manaus. Sete cidades, sete escolas públicas e muitas turmas de estudantes. Fui para ensinar poesia falada e voltei com o olhar deslocado sobre minha própria prática artística e pedagógica — e, de alguma maneira, sobre o país.

Não pretendo dar respostas definitivas, muito menos fazer uma análise sociológica da Amazônia. O que posso fazer é contar o que vi a partir do lugar de onde venho: um artista, educador e poeta que vive e trabalha na periferia de São Paulo e que atravessou o Rio Negro e o Solimões para descobrir que a distância entre a Zona Leste e a Amazônia pode ser muito maior e muito menor do que imaginava.

Na primeira escola, em Coari, cerca de quarenta estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 1º ano do ensino médio me esperavam. A primeira coisa que me impressionou foi a timidez.

Para iniciar a oficina, propus que cada um dissesse seu nome em voz alta, acompanhado de um gesto que o representasse. Eu costumava fazer esse exercício nas oficinas de jogos teatrais e quase sempre funcionava. Começava tímido, mas logo virava uma pequena euforia coletiva. Ali, eles mal pronunciavam o próprio nome. Precisei perguntar um por um e, mesmo assim, falavam apenas para mim, em um volume quase inaudível. O gesto nem chegou a acontecer. Eu estava acostumado a entrar em uma sala de periferia e precisar administrar o excesso de vozes. Ali, meu primeiro desafio seria justamente fazer aquelas vozes aparecerem.

Ao me apresentar, falei de onde vinha: Cangaíba, na Zona Leste. Perguntei se conheciam MC Daleste. Alguns conheciam. Contei que ele também havia morado no meu bairro e declamei Somos todos Daleste, poema que fiz em sua homenagem. Depois emendei com Cavalo de Troia, do MC Kevin. Aos poucos, a atmosfera mudou. Algumas referências atravessavam os quase quatro mil quilômetros que separavam a Zona Leste do Amazonas.

Propus, então, um exercício de escrita que chamo de dadaísta. Cada estudante escreveu uma palavra; recolhi todas, recortei e coloquei em um saco. Fui sorteando até chegar a dez, anotando-as na lousa. A maioria estava relacionada ao universo bíblico: fé, Deus e outras palavras do mesmo campo. Fiz um poema de improviso, articulando as dez palavras, para mostrar que era possível construir sentido mesmo quando elas pareciam não ter relação. Eles gostaram. Pedi que escrevessem seus próprios poemas. Quando chegou a hora de compartilhar, ninguém quis ir à frente. Li todos.

A viagem pelo rio também desmontava algumas imagens que eu trazia. À noite, o trânsito era intenso. Muitas embarcações passavam diante de nós. Parecia uma avenida, só que, em vez de carros, eram barcos. Havia festas, com dezenas de embarcações atracadas, música alta e luzes coloridas. Outros barcos levavam passageiros, redes, malas, alimentos, mercadorias e até carros. Passavam lanchas e embarcações de serviços públicos e privados.

Quando uma embarcação grande passava, nosso barco balançava. Deitado no beliche, às vezes imaginava se aquilo poderia virar. Ao mesmo tempo, pequenas canoas motorizadas atravessavam o rio levando famílias inteiras, inclusive crianças de colo. Não vi coletes salva-vidas. Nosso barco, muito mais confortável que os de linha, carregava cerca de quarenta pessoas entre oficineiros e equipes de produção. Vivíamos praticamente dentro dele: comíamos, dormíamos, conversávamos e planejávamos as atividades até chegar à próxima escola.

Quando contei que faria a viagem, amigos me alertaram sobre jacarés, cobras e onças. Percebi que esse também era o imaginário que muitos brasileiros carregavam sobre a Amazônia: floresta, animais selvagens e comunidades isoladas. Pouco se fala das cidades.

Nas que conheci, quase ninguém andava a pé. A moto era o principal transporte em terra; o barco, na água. Muito concreto, comércio e poucas árvores para amenizar o calor. Eram mais urbanas do que eu imaginava. Mas Anamã foi uma exceção. Conhecida como a Veneza do Amazonas, é marcada pelas palafitas. Casas, comércio e serviços públicos estão elevados sobre a água. Quando chegamos, a maré estava baixa. Em determinados períodos, quando o nível sobe, o barco deixa de ser apenas transporte e passa a ser uma extensão da rua. Para ir de casa ao mercado, é preciso navegar. Por isso, quase não havia carros. Foi também ali que percebi uma mudança na relação com os estudantes. Vieram perguntas, curiosidade e maior disponibilidade para participar. As vozes, antes quase inaudíveis, começavam a ecoar no espaço.

Comecei ainda a perceber a força das batalhas de rima. Mesmo em cidades pequenas e distantes dos grandes centros, muitos estudantes conheciam MCs como Xamuel e Jhony MC. assim como os vídeos da Batalha da Aldeia, realizada em Barueri, na Grande São Paulo.

Em uma das cidades, sentei em um bar à beira do rio com Thiago Thiago de Mello, oficineiro de música, e Michael Sullivan, o Pirata, integrante da produção. Fazia muito calor. Pirata resolveu pular na água. Thiago foi atrás. Eu também me joguei.

Só depois descobrimos que havia muitos jacarés naquela parte do rio.

Por sorte, não encontramos nenhum. 

Enquanto navegávamos, comecei a perceber outra coisa: durante quilômetros de rio, a floresta aparecia principalmente como uma borda. O terreno plano fazia com que nossos olhos alcançassem apenas a superfície das árvores. Estávamos dentro da Amazônia, mas víamos apenas uma espécie de moldura dela. Em uma conversa, aliás, a produtora Fernanda Kopanakis me disse algo que ficou comigo: “A Amazônia é como o inconsciente. A gente não alcança o profundo”.

Talvez seja isso. A partir do barco, eu conseguia ver as margens, as casas, os portos, as palafitas e as embarcações. Mas havia sempre alguma coisa além do meu campo de visão.

Em Manacapuru, já mais próximo de Manaus, a paisagem começava a se aproximar ainda mais de uma realidade urbana. A Escola Estadual José Seffair ficava no bairro periférico Terra Preta, justamente onde nosso barco estava ancorado.

No início da oficina, alguns estudantes no fundo da sala conversavam e demonstravam pouco interesse. Comecei a falar sobre batalhas de rima. A resposta veio rapidamente: gostavam muito. Mostrei fotos que tinha no celular ao lado de nomes conhecidos da cena, como Magrão e Bob 13. Eles se aproximaram, ficaram empolgados e começaram até a fotografar as imagens.

Realizei o exercício dadaísta. Entre as palavras sorteadas estavam confiança, paixão, fé, Neymar, amor, saudade e esperança. Fiz um improviso articulando todas elas e, dessa vez, vieram aplausos. Era uma pequena conquista.

Propus, então, que escrevessem poemas e participassem da dinâmica do slam. A primeira estudante a se voluntariar apresentou um texto forte sobre racismo. No final, Taissa, indígena da comunidade Kambeba, apresentou um poema sobre o orgulho de pertencer ao seu povo. A turma aplaudiu entusiasmada. Ela venceu.

“Eu não quero pena nem favor, muito menos esmola
Quero que me veja como gente, como história.”

Era a quinta cidade da expedição. Até então, nenhum poema havia colocado de maneira tão direta a identidade indígena no centro da cena. 

Na última cidade, Manaus, encontrei uma realidade mais próxima à minha. Os estudantes falavam bastante, interagiam e demonstravam menos vergonha de ir à frente. Surgiram poemas fortes, marcados por ritmo, rimas e referências às batalhas.

Durante uma apresentação, um aluno fez uma homenagem a Mineiro MC. Fiquei emocionado. Ao final, contei aos que não o conheciam quem havia sido aquele jovem. Falamos sobre sua obra e sua trajetória. A poesia havia criado uma oportunidade para falar também sobre memória, perda e aquilo que permanece quando alguém parte.

Ao longo das sete cidades, percebi que havia visto apenas uma superfície. Encontrei muitas coisas semelhantes à minha realidade e outras completamente diferentes. Sem folclorizar a Amazônia, encontrei uma região real, com suas belezas, contradições, urbanidades e floresta; com jovens conectados ao mundo e comunidades que ainda dependem do rio para quase tudo; com motos, celulares e Starlink, mas também com barcos, palafitas e longas distâncias.

Saí do rio Gamelinha, que corta a Vila Guilhermina, onde acontece o slam do qual faço parte, e cheguei ao Rio Solimões. Dois rios muito diferentes, separados por milhares de quilômetros, mas que acabaram ligados pela poesia.

Ainda não sei exatamente o que está acontecendo em nenhum desses lugares. Como poeta, posso apenas olhar, escutar e transformar aquilo que encontro em palavra.

Percebi que o sentido de ensinar
é construído no navegar
entre as palafitas dos paranãs
numa pedagogia ancestral e aldeã.

Palafitas dos Paranãs, de Emerson Alcalde.

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