
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a
não ter outra vista que não a das janelas ao redor.
A gente se acostuma a não abrir de todo as cortinas, e, à medida
que se acostuma, esquece o sol, o ar, a amplidão.
A gente se acostuma à poluição, à luz artificial de ligeiro
tremor, ao choque que os olhos levam com a luz natural.
A gente se acostuma às bactérias da água potável, à morte lenta
dos rios, à contaminação da água do mar.
A gente se acostuma à violência, e, aceitando a violência, que
haja número para os mortos. E, aceitando os números, aceita não haver a paz.
Mariana Colasanti
Cássia e Nando cantaram, lá pelo começo dos anos dois mil, mas ninguém ouviu. Crianças fazem skincare. Adultos brincam com bonecas reborn como se fossem filhos. Carros blindados dividem o asfalto com pessoas vasculhando o lixo em busca de comida. Nos cruzamentos, crianças descalças pedindo trocados correm contra o cronômetro do farol. Os muros das casas ficam cada vez mais altos. Estamos sendo filmados o tempo todo e chamamos isso de segurança.
O susto virou hábito. A palavra que interessa aqui não é inversão nem decadência: é habituação. O mundo não ficou de ponta-cabeça de repente. Ficamos, aos poucos, sem o órgão que reconhecia o avesso como tal.
Antes, a guerra era manchete; agora é rotina, e a rotina tem esse jeito de engolir tudo sem mastigar. Casas que parecem prisões. Praças vazias porque tememos o próprio bairro. Isso deveria ser revoltante, mas algo em nós se resignou. Nos acostumamos, simplesmente.
Para onde foi aquilo que deixamos de sentir? Porque é grande demais para ter desaparecido. Afeto não desaparece, desloca-se. Se não vira indignação, torna-se sintoma. E esse inventário dos absurdos contemporâneos vai deixando de ser uma lista e começa a ser o diagnóstico de algo terrivelmente fora do lugar.
Multimilionários constroem bunkers com estoques de comida para quando a catástrofe ambiental chegar. Enquanto isso, passeamos distraídos, de cabeça baixa, enterrados como avestruzes em nossos telefones. O céu do futuro se acinzenta, e vamos caminhando sem sonhos e sem projetos, conformados, alimentados pela desilusão.
Não comemos glúten nem lactose, e vemos adolescentes pedindo por Mounjaro. A restrição e o controle surgem como anestesia para o medo do descontrole do mundo. O bunker do ricaço e a dieta restritiva do resto de nós são parentes: estoques contra a catástrofe, um em silo, o outro em corpo. Nossos heróis morreram de overdose.
Crianças zumbis brincam com tablets, adultos querem aparentar cada vez menos idade e adolescentes acumulam ódio por não conseguirem ser jovens, competindo com os próprios pais, sonhando com um lugar de proteção que ninguém mais oferece, porque todo mundo está ocupado demais tentando parecer vinte anos mais novo.
Enquanto isso, os mais velhos comemoram nas redes o próprio rosto sem nenhuma ruga, como quem vence um argumento contra o tempo, tomam hormônios para ter o corpo que tinham aos vinte e se enganam chamando isso de longevidade. Ninguém mais envelhece, todo mundo se otimiza. Compramos suplementos para dormir porque trocamos a noite pela tela, e depois compramos outro aplicativo para medir a qualidade do sono que perdemos para a ansiedade.
Há quem pague por companhia artificial e conte isso como se fosse alívio. Um namoro que não erra, que não cansa e que não vai embora, porque nunca esteve lá. Conexões narcísicas que dão menos trabalho, pois são o espelho daquilo que necessito.
Há os que choram o luto em vídeo de quinze segundos, com música ao fundo, editado para render mais visualizações. A dor vira conteúdo, ao invés de virar elaboração: a foto do enterro postada é sofrimento contemplado, visualizado. Aplaudimos a coragem de compartilhar, sem perguntar o que sobra de silêncio para quem perdeu alguém depois que a postagem sai do ar.
Nos habituamos a delegar a uma máquina todas as nossas dúvidas. Estamos entornando a poesia no chão, robóticos, automatizados, perguntando à tela o que antes perguntávamos ao tempo. Já não conseguimos sustentar a dúvida sem checar, sem consultar. Se toda pergunta tem resposta a um clique, ela deixa de ser trabalho psíquico e vira apenas desconforto a ser eliminado. E, sem dúvida sustentada, não há revolta possível, porque a revolta precisa de incômodo e tempo de elaboração, elementos trocados por velocidade.
Não nos conformamos por covardia. Nos conformamos porque encontramos substitutos eficientes para tentar distrair o afeto que doeria demais sentir por inteiro. Cada tela, cada dieta, cada procedimento, cada muro mais alto é uma pequena sedação bem-sucedida. E sedação bem-sucedida parece adaptação.
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