Quando ouvi Luís Capucho, uma das coisas que logo me chamou a atenção foi que suas canções se pareciam muito umas com as outras. Ele estava dentro de um paradigma que não era o da profusão de cores e ritmos da MPB; parecia fazer em toda sua obra uma única canção contínua, à maneira de um Bob Dylan. As letras eram narrativas como seus livros. Ouvindo “Poema maldito”, por exemplo, aprendi que na canção que conta histórias é melhor que não se varie tanto os acordes para que não se perca o fio da meada — já conduzido com melodias sinuosas e frequentemente próximas da fala. Luís descreve objetos e situações com uma aspereza deslumbrante; quando cantados, porém, se abrem em um mundo de fantasia e delicadezas, com luz e paleta de cor próprias. A criação desse universo mágico passa pelos temas obsessivos, pelo modo (como foi dito) perturbadoramente direto de narrar, por uma visão de mundo rica de subjetividade, mas também pela materialidade de sua voz crua e de seu violão de movimentos limitados — as cordas soltas dos acordes inventados por ele soam erradas aos ouvidos educados —, ambas restrições motoras que lhe foram impingidas pelo coma. Dessa forma, os gatinhos de Pedro, a cadeira que Valfredo lhe deu, sua mãe, os vizinhos de trás, o vale onde mora (bichos, lugares, pessoas, situações ordinárias do cotidiano) se tornam encantados na voz de Luís. Na origem, o afeto agudo do artista com as pessoas e as coisas ao seu redor.
Ao fim da entrevista, em frente ao prédio onde mora em Niterói, Luís apontou, na outra calçada, uma igreja evangélica, ao lado dela, uma batista, e, mais à frente, um centro espírita. Os cultos, disse, aconteciam todos ao mesmo tempo e sempre com música; isso fazia com que ali circulasse uma forte energia espiritual. A amendoeira ao nosso lado, explicou, subia daquele modo, linda, se abrindo em copa larga e com tal inclinação para a rua, por causa disso.
1-
Quando eu saí sequelado do coma, eu estava tão apático, acho que chocado e, também, depois de alguns anos, eu pude ver que aquele um mês de nada, que foi o coma, tinha como que me zerado, entende? Me deixou vazio, sem nada dentro. Então eu reagia a coisas que estivessem acontecendo ali, na hora, em torno da maca, mas eu não tinha mais estofo, nenhum movimento interior, nenhuma vida. Tinha acabado tudo: tédio, melancolia, saudade, angústia, essas coisas que são os sentimentos da gente e que nos tiram do aqui e agora. Isso, radicalmente, durou cerca de um ano, mais ou menos. E muito aos poucos minha vida interior foi se reestabelecendo.
Mas teve duas coisas, naquela época, que me deixaram abalado quando se esclareceram para mim. A primeira foi ainda no hospital, quando me disseram que eu estava com HIV. O meu estômago reagiu na hora, como um molusco que se fecha. Eu senti ele se encolhendo rápido e se petrificando. Foi uma coisa doida. Aí eu chorei muito, e ele se normalizou.
A outra coisa foi quando eu, já em casa, coloquei a fita do Antigo [disco gravado por Luís antes do coma] para ouvir. Eu fiquei chorando um tempão, porque eu sabia que não ia conseguir fazer mais aquilo, daquele jeito. Mas, aí, sem que parecesse para mim mesmo que eu tivesse tomado uma decisão, os anos foram passando, e fui reaprendendo o violão e voltando a musicar letras.
Então, de certa forma, eu não ouvi minha voz nova pela primeira vez, porque ela foi se formando aos poucos. Eu acho também que, com o tempo passando, minha voz continua se tornando nova; é um processo de modificação, talvez, de recuperação, que não acaba nunca. Também estou ficando mais velho, então a voz vai se tornando outra. Mas o que aconteceu naquele dia, no quarto, há pouco saído do hospital, foi que eu ouvi a minha voz antiga pela primeira vez.
Sobre a voz nova, eu saquei mesmo quando comecei a conseguir uns acordes no violão e tentei fazer música. Eu vi que o violão espancado, sem conseguir o dedilhado, e a voz quase monocórdia me abriam a possibilidade de fazer uma música que eu não conseguiria fazer do jeito antigo. Isso me abriu um horizonte, um caminho, que não era o caminho por onde eu vinha me conduzindo, e aí alguns amigos começaram a me dizer que esse jeito novo tinha mais a ver com os meus temas e começaram a gostar mais. Outros não gostaram e pararam de querer me ouvir. Quer dizer, só veio falar comigo quem começou a gostar mais. Quem não curtiu, não me disse nada, mas a gente saca, né?
Demorei um tempo para introjetar minha voz mais lenta e mais grave como sendo minha. Mas logo que as novas músicas começaram a sair e fui entendendo que havia um prazer, um gosto, nelas, uma estética, fui me acomodando à voz sem pensar e fui gostando.
2-
Só a morte vai fazer eu ficar no aqui e agora. O coma foi um pouco isso. Mas, depois que fui restabelecendo meu estofo, não estou mais aqui nem agora. Não consigo parar.
Às vezes, aqui comigo, entro numa de que as coisas estão paradas para mim, que não avanço, que não saio do lugar. Mas não é verdade isso. Até fico buscando uma posição imaginária, um ponto de partida, porque nos é ensinado que é legal você ter um marco, um lugar que você tenha de apoio, um lugar de onde sair, mas não tenho. Não sei quando nem onde estou. Estou perdido. Mesmo que desde 1967 eu tenha preenchido os cabeçalhos dos cadernos escolares com as datas dos dias, isso não foi suficiente para me situar. De onde eu olho, não tenho um panorama. Minha visão é muito dentro de minha bolha. Eu dizia isso na narrativa do Cinema Orly. Não sou um narrador onisciente. Não sei de nada, sou um ignorantão.
O Gilberto Gil tem aquela música que diz que o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Eu não fico no melhor lugar. Mas, como já disse, tenho tentado descobrir um lugar de apoio, um momento de apoio. Talvez, sem que eu tivesse me dado conta, minha plataforma, o edifício de onde eu pulo, meu trampolim, sejam as músicas e os livros. Meu patrimônio e meu matrimônio. Meu terreno de ilusão, de mágica. Meu aqui e agora.
3-
Bom, eu acho que a vida tem uma natureza mágica. Que as palavras têm uma natureza mágica. Eu me sinto meio doido com isso, acho que ter um corpo é uma coisa mágica.
Comecei a sentir a magia nas coisas depois que fiquei adolescente e que comecei com o desejo sexual, que é um lance tão forte, sem controle. Antes, quando eu era criança, era como se eu vivesse na lua, com a cabeça sempre nas nuvens, e não via mágica, que é um lance que você começa a ver se você vibra mais tenso e fundo, onde as coisas são mais pesadas e fortes. Aí você pensa, caramba, como é que isso apareceu aqui, forte e grande assim? Da onde isso veio? O que é isso? E tal.
Acho que fazer música e fazer literatura e pintar As Vizinhas de Trás [série de retratos pintados por Luís], que parecem ser coisas de criança, de você poder brincar com as cores, com as palavras e com os acordes do violão, têm a ver com esse mundo da magia, mais forte e denso, pesado, e que, ao ser transposto para a linguagem artística, pode parecer leve, de criança. Brincando assim de fazer arte, as coisas parecem ir perdendo o sentido, se esfumaçando, se espalhando, sumindo como mágica.
4 –
Eu, na verdade, não sei a importância das coisas. Não sei se elas são, extraordinariamente, por acaso. Ou se tem uma finalidade no fato de as coisas existirem. Então, de qualquer modo, acho que seria importante que a gente pudesse ter a vida que a gente quer, ter a possibilidade disso. O Guilherme Arantes colocou numa música que nem tudo é exatamente como a gente quer. Mas é bom, importante, que tenhamos o desejo como possibilidade, que tenhamos como possibilidade as coisas que a gente quer. É importante que a gente possa transformar as coisas do mundo naquilo que a gente quer.
5 –
Acho que a beleza deve ser uma coisa grandiosa, insuportável para o sentimento da gente. Acho que ela faz com que não a suportemos; é algo transbordante e que não cabe na gente. Na verdade, a beleza é um horror, sabe? Algo de que a gente não consegue dar conta.
Sobre minha música ser bonita, acho que é parte da beleza do mundo, sim. E começo a gostar mais delas quando as pessoas gostam também. É parte do mundo mais ordinário, do mundo suportável, e pode num primeiro momento não cair no agrado dos ouvidos mais destreinados na audição delas. Eu mesmo as acharia sem graça, sem beleza, se as ouvisse com a idade de 10 anos. E não sei se gostar quer dizer que são bonitas. Acho que sim. Eu gosto das minhas músicas. E acho que a beleza delas está no caminho melódico, que está a um grau ou uns graus de distância do caminho natural da entoação da fala, se eu falasse suas letras. Acho que o tanto que eu consigo me distanciar da fala, e o tanto que consigo frisar de sentido para as palavras que canto, sem deixar que ele esvoace e se perca na melodia, é o tanto de beleza ou gosto que consigo na minha música.
Eu estou falando da minha música, como e quando ela aparece e se forma para mim. Porque, se eu for imaginá-la executada com outros instrumentos que não apenas minha voz e violão, aí entram outras belezas. Porque se pode inventar outras formas de resolver suas voltas, entende?
6 –
Talvez, principalmente, tenha sido apenas uma mudança de canal, uma mudança na forma como se tornou possível sair o jorro. Depois, eu fui vendo o que era possível ou como eu gostaria de conduzir o lance todo nessa nova forma. Com o passar dos anos, meu corpo vai se readaptando com o uso, a voz vai achando outra vez o jeito antigo de sair. Porque meu corpo não se modificou em nada. Minhas cordas vocais e minha língua e boca não sofreram nenhuma alteração. O lance todo aconteceu nos comandos; é um lance neurológico, então, aos poucos, as sinapses vão se refazendo e permitindo os movimentos que perdi para cantar e tocar.
E continuo cantando minhas músicas do mesmo jeito que antes, sem interpretação. Porque eu acho que a interpretação tem a ver com uma intenção. Então você pode cantar com essa ou aquela intenção. E isso faz uma interpretação ser diferente da outra. Algo como você atuar nas músicas. E eu não canto como um ator. Eu canto de verdade, sou eu mesmo, sem interpretar. E meu modo interior de cantar é igual. No início, parecia sempre uma coisa dramática demais, por conta do esforço, da potência com que eu tinha de mandar a voz. Parecia interpretação, mas não era.
Sobre a composição propriamente, meu violão também vem se modificando. Eu consigo dedilhar outra vez. A mão esquerda é mais sequelada, e não consigo ainda fazer de novo as pestanas com perfeição. Aí eu faço as posições sem as pestanas e aproveito as cordas soltas, vejo como elas funcionam assim. No fim, eu aproveito tanto na voz como no violão o som que vai saindo, para compor. Como eu disse noutra pergunta, o caminho que eu tenho de fazer é diferente, mas a nascente é a mesma.
Eu acho que, se você tem muito recurso técnico, você fica mais crítico, fica indeciso por qual jeito vai fazer, qual caminho vai tomar. E, se você está limitado, sem muita opção, aí a música, quando está para nascer, vem arrebentando tudo, como um vulcão. Um lance sem delicadeza, meio punk. Daí meu primeiro disco, o Lua Singela, ter agradado mais ao pessoal do rock and roll.
Não vou me livrar dessa marca que ganhei com o coma, porque registrei isso no meu primeiro disco e no meu primeiro livro. Talvez, por conta dos meus temas, do conjunto todo da minha expressão artística e, principalmente, do meu clima pouco beligerante e tudo, eu não consiga público que me mantenha produzindo e no mercado. E, aí, serei para sempre um artista da margem. Mas, vocês sabem, no fluxo de um rio, as águas todas são um corpo só e não têm volta. Tudo vai para o mar.