Skip to content
Revista Amarello
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Entrar
  • Newsletter
  • Sair
  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram

Busca

  • Loja
  • Assine
  • Encontre

willian

Televisão

Fugir não basta: Lucas Paraizo e Luisa Lima falam sobre Os Outros

por Revista Amarello

Os Outros, série da Globloplay. Reprodução.

Ao longo dos episódios, a série Os Outros vem ampliando seus cenários e complexificando suas dinâmicas de convivência e conflito. Na terceira temporada, a produção da Globoplay deixa o ambiente urbano e se desloca para o campo, aprofundando ainda mais suas tensões dramáticas. Nesta entrevista, o roteirista Lucas Paraizo e a diretora Luisa Lima falam sobre as mudanças de percurso, as escolhas narrativas e os desafios de transformar diferentes espaços em matéria de investigação sobre as relações humanas. A dupla também comenta o processo criativo e a construção de uma série que busca constantemente se reinventar.

Luisa Lima e Lucas Paraizo. Foto de Fernando Young.

Ao longo das temporadas, Os Outros vem mudando de ambiente e de dinâmica, e agora chega ao campo. Queria que vocês falassem um pouco sobre as diferenças entre as temporadas e o que a terceira tem de diferente em relação às anteriores.

Lucas Paraizo: Eu acho que Os Outros sempre foi um projeto que, de alguma maneira, traduzia o desejo de fazer uma coisa que a gente também não sabia exatamente o que era, e que a gente materializou num tema que é a intolerância, num cenário que trouxesse a questão da vizinhança, da relação social, estrutural, urbana. A ideia era trabalhar muito a dinâmica de escalada.

Luisa Lima: E a dinâmica de inversão de expectativas. O Lucas tinha imbuída na primeira temporada, depois de ter feito muitas temporadas de Sob Pressão, essa compreensão que a gente considera muito importante para as séries, dessa construção da fissura, do desejo de ver o próximo episódio, daquele gancho irresistível, que você fica quase como tomado por aquela obra, que é feita de tantas partes, porque ela realmente se realiza no conjunto dessas partes. Por isso que você vê um e pensa que precisa ver mais. É um todo dividido em 12 partes, né? Na primeira temporada, isso já veio como mandatório na construção da arquitetura narrativa. E aí tem também a parte da dramaturgia, que conversa com as séries internacionais daquele momento, mas também com o cinema sul-coreano, especialmente quando a gente viu Parasita.

Ele já tinha começado a escrever e falava que queria que as pessoas não soubessem o que estavam sentindo. Queria mostrar esse absurdo, que uma hora dá vontade de rir e é trágico, mas ao mesmo tempo é melodrama, e a pessoa fica nervosa. A gente queria muito criar essa sensação no espectador, de ele ter um sentimento no mínimo ambíguo, no mínimo equivalente. Eu tenho pena, mas também tenho raiva. Eu acho graça, mas estou rindo da tragédia do outro. Eu me vejo, tenho uma identificação. Quando o Lucas me convidou, me apropriei disso, porque eu tinha que dar pedal para essa narrativa. Porque, narrativamente, o texto é primoroso, é uma construção em todos os aspectos. Mas o texto é o texto, a gente tem que transformar o texto em matéria: são os atores, são os cenários, os ambientes, é o campo, é o condomínio. O que é gravar uma série dentro do condomínio da Barra? A gente sempre quis trabalhar em condomínios que ficam em lugares meio ermos, como um “deserto” dentro do Rio de Janeiro, que tem no meio do condomínio, em que aquelas pessoas vivem naquele microcosmo de uma realidade idealizada e vão descobrindo que, na verdade, aquilo é uma prisão. E que elas estão ocupando o espaço público da pior forma possível, com uma intolerância a dois passos da casa. Então, adianta essa idealização de comunidade, de sociedade?

A gente sempre quis fazer uma série que fosse entretenimento, mas também que conversasse com a sociedade, que expressasse o nosso sentimento diante do mundo que a gente vive, a partir também de experimentação formal. A televisão é esse lugar de laboratório, de experiência, de repetição industrial, mas também com capacidade de trazer outras coisas para dentro, conversar com o cinema, com a dança, com tudo, fazer disso um grande campo de avanço formal. Então Os Outros vem com essas características. Na segunda temporada, o Lucas já queria mudar de ambiente.

LP: Eu já tinha ficado sete anos com o Sob Pressão dentro de um hospital. Eu escrevi outros cenários não só por isso, obviamente, mas eu acho que Os Outros, a cada cenário em que você coloca essa temática, dá uma nova perspectiva de onde essa intolerância está se infiltrando.

LL: Ela não está localizada, ela faz parte de um Brasilzão.

Tem algo muito forte ali que é a vida comum. Tudo aquilo pode acontecer com quem está assistindo. A tragédia e a banalidade quase se confundem.

LP: É verdade. A gente nunca deixou de querer dialogar, comunicar, provocar debate, mas, ao mesmo tempo, ter propósito, reflexão. 

LL: A gente gosta de dizer que é cria da televisão, que sempre foi um lugar de muita produção e também de proposição de linguagem. É onde a gente cresceu, construiu histórias, parcerias. A gente adora se comunicar, quer conversar com as pessoas, quer que pessoas de todo lugar do país, de qualquer classe social, gostem do que a gente faz. E também tem uma responsabilidade social, a gente se sente parte dessa construção. Ao mesmo tempo, a televisão é esse celeiro de experimentação, de conquistar espaços entre linguagens.

E aí, na segunda temporada, a gente foi para um condomínio de bilionários, para falar de outros agentes sociais, onde essa dinâmica da intolerância, da falta de escuta, escala em ações violentas que chegam a um lugar quase distópico. A Barra virou um pouco esse campo de estudo para a gente, quase antropológico, de observar esses agentes sociais, entender o que está acontecendo. E aí vêm novas camadas, como a milícia, a religião…

LP: Os Outros sempre provoca a gente a olhar de outro jeito. As pessoas não são uma coisa só. A gente parte do estereótipo porque ele é reconhecível rapidamente, mas ele some rápido também. Você acha que entendeu alguém, coloca numa caixinha, mas depois vê que não é bem isso.

LL: No fundo, são pessoas vivendo dilemas humanos dentro de um contexto de exigências cada vez mais difíceis, numa sociedade capitalista, neoliberal, com polarização, desigualdade, violência, internet gerando insatisfação, redução do espaço público… tudo isso está em jogo. E a gente experiencia isso nas relações: mãe e filho, marido e mulher, vizinhos.

LP: E aí chegamos na terceira temporada, que eu acho que isso está no Roberto [personagem do Lázaro Ramos]. De você achar que ele é uma coisa e vai descobrindo que ele é outra. Você sente muita pena dele no primeiro episódio e no segundo você fala “pera aí…” 

LL: Na terceira, existe uma relação mais de autocrítica. Os personagens começam a olhar para si mesmos, refletir sobre suas ações, consequências, o que estão vivendo. É uma temporada mais existencial, quando vai para a estrada, essa ideia de partir com a vida possível, de se reinventar, de se reconectar. Como é possível viver? O que eu preciso para viver?

E tem também esse estereótipo do campo, essa idealização de que ir para lá resolveria tudo, como se os problemas ficassem para trás. Mas a fuga tem limite: o caos está no celular, está nas outras pessoas. E esse jogo entre o desejo de escapar e o que nos acompanha parece até mais intenso hoje em dia. Isso influenciou a escolha ou vocês encaram essa ida para o campo como um movimento natural da série?

LP: A gente conceitua muito o trabalho, mas também experimenta. Uma coisa vai puxando a outra. A gente pensou em vários cenários, como periferia, estrada, presídio, até que o campo veio a partir de uma história real de um amigo. Um casal que foi morar no interior, buscando esse sonho da vida calma no campo, e viveu um episódio violento que envolvia caseiros, uma disputa interna que chegou dentro da casa deles praticamente. Isso se misturou com um livro que eu estava lendo da Olga Tokarczuk, que fala muito de uma mulher que gosta mais dos animais do que das pessoas. E aí você vai juntando uma inspiração daqui, uma inspiração dali. A gente gosta muito do Tarkovsky, dos irmãos Coen, do Malick… Tem um filme que se chama As Bestas, do Rodrigo Sorogoyen, que dialoga muito. 

LL: Outro filme que foi determinante foi o Straw Dogs, do Sam Peckinpah. Na largada, também, com a demissão do Lázaro, a gente bebe muito do Ken Loach também. Os personagens no fim dão pedal para falar das relações familiares, da psicanálise, da alma humana, que é contraditória, incerta, que não cabe em nenhuma certeza. A gente coloca tudo ali: as incertezas, os sonhos, o desejo de um mundo com mais respeito, mais conversa. A gente gosta de conversar, muito. E quer que as pessoas entendam que estamos falando de todos nós, sem conclusão moral. É investigação. Um trabalho de investigação da humanidade. 

Com cada temporada, novos personagens vão aparecendo. Como que essas novas chegadas contribuem umas com as outras? Como que isso se dá no set, com os atores? A dinâmica muda muito de uma para a outra?

LL: Olha, eles viram uma academia. Viram quase uma turma de teatro. Porque também tem o fator dos filhos, tem sempre os mais jovens, e as produções, em geral, envolvem coisas difíceis. Então existe um acolhimento entre eles, porque precisam também colocar a agressividade para fora, fazer cenas com muita intensidade, e ao mesmo tempo manter o jogo. Se não tiver jogo, ainda mais com o tipo de cena que o Lucas propõe… Ele junta muito os atores. Tem cena com quase todo o elenco junto. Uma coisa começa, entra outro, entra outro, e vira uma espiral de personagens e de acontecimentos. E todos eles, no fundo, estão apontando para a mesma coisa. Todos estão servindo para a gente contar essa história.

E os atores são muito generosos em Os Outros. Eles percebem esse poliprotagonismo como a raiz e gostam muito disso. Chega um Lázaro Ramos, que é um ator extraordinário, conhecidíssimo, junto com atores que já são muito reconhecidos pelo grande público, e outros que vêm de outros lugares do audiovisual, às vezes com menos notoriedade, mas extremamente talentosos. E essa troca fica muito rica. A Adriana, por exemplo, adorou contracenar com a Docy Moreira, a Domingas, porque cada uma tinha algo a oferecer na sua diferença. A Docy vem de uma trajetória teatral muito sólida, extensa, respeitada, sobretudo no teatro mineiro. Então essa mistura é o que a gente quer, são provocações diferentes, e funciona muito bem. É muito colaborativo. Ninguém faz audiovisual sozinho. É a estrutura do audiovisual. A ponto de os atores participarem ativamente. Sugerirem coisas, ajustarem falas. Esse diálogo é constante. Mesmo um ator como o Lázaro entra nesse jogo de igual para igual. Ele vinha de muitas comédias e tinha o desejo de revisitar um lugar mais dramático, mais profundo, e a gente também queria isso. 

O papel do Roberto foi escrito para ele? Os personagens, no geral, são escritos com alguém em mente?

LP: Cada vez menos, sabia? Porque também é bom a gente ser surpreendido. Tem personagens que, às vezes, sim, mas é raro. Aconteceu com o Wando, interpretado pelo Milhem Cortaz. Foi escrito pra ele desde o começo. Mas é bom que a escalação traga uma camada que talvez você não estivesse esperado, como o Eduardo Sterblitch. Eu jamais teria pensado “vou escrever para o Eduardo Sterblitch o personagem do Sérgio.”

LL: A gente sabia o que não queria, mas não sabia exatamente o que queria. Quando surgiu o nome, ficou claro: é ele. O personagem ganhou uma profundidade enorme. As pessoas se apaixonam pelo Sérgio, e ele é um miliciano. A gente não estava querendo passar pano, mas é trazer ali um ser humano com suas complexidades.

Vocês falaram de serem crias da TV. Pegando isso como gancho, como vocês veem o momento do audiovisual brasileiro, especialmente com o streaming?

LL: Sempre teve, de alguma forma, espaço para experimentação. Sempre teve vanguarda. Teve O Tempo e o Vento, o Grande Sertão: Veredas, Anos Rebeldes. Acho que há espaço para tudo isso na televisão. O streaming surge como um braço novo, uma espécie de simbiose entre TV e cinema, dentro de um mercado contemporâneo. Ele amplia possibilidades, abre espaço para explorar outras linguagens, inclusive internacionalmente. Mas não substitui, soma.

LP: Ao mesmo tempo, existe a questão da velocidade. Hoje a atenção é disputada o tempo inteiro. A gente dialoga com isso, mas também cria pausas. 

LL: Os Outros trabalha com diferentes formas de sentir os personagens: às vezes você está dentro, sentindo junto, às vezes olha de fora, com mais distanciamento. Isso muda o tempo todo. Uma hora você está com um personagem, depois com outro. Isso desorganiza, desmonta preconceitos, faz você sentir coisas diferentes.

LP: Mas dá muito trabalho. É intenso. Existe uma disposição de não saber por um tempo, testar caminhos, conviver com a dúvida. Dormir com isso. É angustiante, mas necessário. 

Quais as perspectivas para uma quarta temporada?

LP: A gente sempre se faz essa pergunta, né? A ideia sempre foi algo próximo de uma antologia. Cada temporada com um espaço, um recorte. Na terceira, a gente responde uma provocação: até onde você iria para defender seu filho? E ao mesmo tempo deixa aberto. É um campo de estudo, que possibilita um futuro.

LL: E, na prática, sair do condomínio e ir para o campo também mudou tudo. Teve estrada, deslocamento, logística diferente. A equipe viveu isso diretamente. Foi puxado, mas muito rico. No fim, é isso: dá muito trabalho, mas é um trabalho feito com muita alegria. Sempre vai ser. E isso é fundamental.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Dedo em riste, mas na estica: os 50 anos da Chic Show

Cinema

por Revista Amarello

Aurora

#32 Travessia

por Helena Cunha Di Ciero

Deba e a natureza cortante do desejo

Cinema

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Extacity

#10 Futuro

por Marko Brajovic Conteúdo exclusivo para assinantes

Mero detalhe

#15 Tempo

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

O mal-estar no feminismo

#28 O Feminino

por Juliana de Albuquerque Conteúdo exclusivo para assinantes

A Morte

#5 Transe

por Ana Bagiani Conteúdo exclusivo para assinantes

A ilusão nossa de cada dia

#30 Ilusão

por Juliana de Albuquerque Conteúdo exclusivo para assinantes

O Recado de Orthon

#31 O Estrangeiro

por Vanessa Agricola

O paradoxo do financiamento do cinema brasileiro

#55 Imagem Brasil Cultura

por Letícia Pasuch Conteúdo exclusivo para assinantes

Existir na retina: viver o olhar (opositor)

#52 Satisfação Sociedade

por Rafael de Queiroz Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Bate-bolas

#49 Sonho Amarello Visita

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Lázaro Ramos é Roberto, na série Os Outros.
Imagem: Reprodução.
Televisão

Entre o incômodo e o que prende o olhar: Os outros e as tensões do convívio

por Revista Amarello
Em sua terceira temporada, série desafia os limites das relações humanas em novas camadas.

Os Outros retorna para sua terceira temporada na Globoplay ampliando não só o território físico, mas também o campo de observação sobre o comportamento humano. Com uma leva de quatro episódios lançados por semana (nos dias 9, 16 e 23 de abril), o novo ciclo se desdobra em 12 capítulos que acompanham esse deslocamento, ao mesmo tempo geográfico e emocional. Depois de duas temporadas ancoradas em espaços marcados por controle, como condomínios, fronteiras bem delimitadas e regras tácitas de convivência, a série agora se move de maneira mais radical. E, nesse movimento, revela com ainda mais força aquilo que no fundo a gente sabe, mas prefere não falar em voz alta: uma fuga nunca é completa e a mudança que te distancia de uma realidade te aproxima de outra — e elas talvez não sejam tão diferentes assim.

Criada por Lucas Paraizo e com direção artística de Luisa Lima, Os Outros dialoga tanto com a tradição da televisão quanto com a sofisticação formal das séries contemporâneas, ocupando um espaço que, muito embora sempre tenha existido na televisão brasileira, vem aumentando. Desde sua estreia, a série se molda a partir de um incômodo persistente: conviver com outras pessoas não é fácil. Não como ideia abstrata, apenas evocando o chavão de Sartre que diz que “o inferno são os outros”, mas como experiência cotidiana, palpável para todos nós. Conflitos com o vizinho, ruídos aparentemente banais, olhares atravessados, tudo se acumula até formar um tecido de tensões que, em algum momento, se rompe. 

Nessa tapeçaria que Os Outros nos apresenta, nada é simples e fácil de ler. Os personagens não se organizam em categorias estáveis, tampouco oferecem respostas binárias. O protagonismo não garante moralidade, o maniqueísmo se dissolve, e o que à primeira vista parece uma coisa, em seguida já é outra. É um movimento contínuo de deslocamento: quem parecia ocupar um lugar passa a habitar outro, e o espectador é constantemente convidado a rever suas próprias certezas. É esse o grande prazer, e horror, que a série oferece desde o primeiro momento.

Há momentos em que a narrativa parece suspender sua progressão para observar, com maior atenção, os gestos mínimos, os silêncios, as hesitações, como aprofundamento. É a construção de uma ambiguidade afetiva. Mesmo Cibele, personagem de Adriana Esteves que está conosco desde a primeira temporada, nunca é a mesma, podendo fazer algo que nos pega de calça curta. A graça é saber que não podemos esperar sempre a mesma coisa dela, com a empatia convivendo com a irritação e o reconhecimento com o estranhamento. A experiência exige um envolvimento ativo, quase como se a série pedisse às pessoas não apenas que acompanhem, mas que se impliquem.

Na terceira temporada, esse jogo ganha novas camadas. No clichê, a saída do ambiente urbano mais fechado em direção a paisagens abertas significa respiro, uma possibilidade de reorganização, uma fuga idílica. Mas, n’Os Outros, as coisas não são bem assim. O que se expande não é a liberdade, mas a reverberação dos conflitos. Longe dos muros, eles não desaparecem, apenas encontram outras formas de se manifestar. O que antes tratava de se imiscuir pelas rachaduras de um prédio agora se infiltra pelo silêncio ensurdecedor do campo. O “respiro” acaba em hiperventilação, embalada pelo som contínuo dos grilos.

Para todo desejo de recomeço sempre há a impossibilidade de se desvincular completamente daquilo que se é. A idealização da fuga, tão presente no imaginário contemporâneo — sair da cidade, desacelerar, reconfigurar a vida —, não se concretiza e fica claro que o deslocamento físico não apaga as estruturas internas, nem dissolve as contradições presentes nos personagens.

A temporada, assim, se inclina para um registro mais introspectivo. Se antes o conflito se organizava sobretudo nas relações externas, agora ele se infiltra com mais ardência no interior dos próprios personagens. E o novo elenco vem para comprovar e viver isso com intensidade. Nessa temporada, vemos caras novas como Lázaro Ramos, fugindo de sua simpatia galanteadora habitual, além de Carol Duarte, Docy Moreira, Antonio Haddad — isso para não mencionar uma Cibele com um visual totalmente diferente, agora de cabelo curto. 

Tem algo de sintomático no fato de tantas séries hoje apostarem em estruturas próximas da antologia, como Os Outros. Menos compromisso com a continuidade de uma história única, mais liberdade para mudar o eixo, trocar o cenário, reposicionar os conflitos. A série de Lucas Paraizo se coloca aí, mas sem fazer disso um truque de formato. A cada temporada, o que muda é o território e, com ele, o tipo de fricção que emerge. O que sustenta a série é a convivência que falha, a escuta que não acontece, a sensação de que qualquer equilíbrio é sempre provisório.

E a mudança de contexto não suaviza nada. O conflito não desaparece quando o cenário se abre; ele só ganha outra escala, outro ritmo, às vezes até outra linguagem. Lucas e Luisa citam algumas referências que ajudaram a moldar o tom dos novos episódios. As Bestas, filme de Rodrigo Sorogoyen, por exemplo, também parte de um deslocamento, com gente “de fora” tentando habitar um espaço que nunca é completamente seu. Já Parasita, de Bong Joon-ho, também citado por eles, parece ressoar na maneira como a série embaralha as emoções do espectador, recusando qualquer leitura confortável. E Straw Dogs, aquele de 1971 de Sam Peckinpah, com um Dustin Hoffman na flor da idade, é um manual para a escalada que desemboca no trágico, algo recorrente na série, observando como pequenas hostilidades vão ganhando corpo até não caberem mais em silêncio.

Assim como nesses filmes, há um interesse em observar o momento em que a convivência deixa de ser possível ou quando ela revela que nunca foi tão estável quanto parecia. A violência, nesses casos, não surge como exceção, mas como continuidade de pequenas fissuras que vão se acumulando. O que une essas obras é menos a violência em si e mais o momento anterior a ela, quando a convivência começa a falhar, o desconforto ainda é pequeno o suficiente para ser ignorado, mas já grande o bastante para não desaparecer.

Ao mudar de cenário a cada temporada, a convivência com os outros segue sendo o gatilho, como se dissesse que não importa muito onde você está, pois, em algum momento, a fricção aparece. E, quando aparece, dificilmente é inédita.

Os Outros usa a ficção como um espaço de investigação, de tensionamento da realidade, de exposição de suas fraturas. Em um tempo marcado por polarizações e simplificações, essa escolha ganha um peso particular. Entre muros que já não contêm e caminhos que não garantem saída, a série segue a série segue sobre essa ponte instável onde convivência, conflito e identidade se entrelaçam. E, na instabilidade, encontra sua força: ao recusar atalhos, ela insiste em permanecer naquilo que é mais difícil, e mais revelador, de sustentar. E nós, atraídos pela queda que se anuncia, não conseguimos tirar os olhos da tela.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Conversa Polivox com Julia Mestre

#56 O que está acontecendo? Música

por Pérola Mathias Conteúdo exclusivo para assinantes

A moda como a radicalidade da identidade

#36 O Masculino

por Bianca Coutinho Dias

Originalidade da Arte Mineira

#39 Yes, nós somos barrocos

por Lourival Gomes Machado

Dois e dois são dois: Dom Filó e Helena Theodoro

#46 Tempo Vivido Sem editoria

por Revista Amarello

Desvelar o abjeto, escancarar o abominoso: a desagradável contemporaneidade de Álbum de Família

#50 Família Cultura

por Mariana Ferraz Conteúdo exclusivo para assinantes

Arjan Martins e a sociedade do espetáculo

#33 Infância

Dois e dois são dois: Bruno Cosentino e Filipe Catto

#38 O Rosto

Três irmãs em conluio

#28 O Feminino

por Marcelo Consentino Conteúdo exclusivo para assinantes

O mito do signo solar

#53 Mitos Cultura

por Angélica Ferroni Conteúdo exclusivo para assinantes

Pontes sobre abismos

#32 Travessia

por Aline Motta

Escurecendo o chocolate: raça, exotismo e escravidão

#4 Colonialismo

Libertação através da imagem

#36 O Masculino

por Willian Silveira Conteúdo exclusivo para assinantes

Altarpiece, Número. 1, Grupo X, de Hilma af Klint (1907).
Sociedade

Astrologia em um mundo que busca sentido além da razão

por Revista Amarello
Em tempos de incerteza e respostas rápidas, cresce o desejo por narrativas que ajudem a interpretar o invisível.

Governos em crise, mudanças climáticas aceleradas, guerras transmitidas em tempo real, um sem-fim de notícias desanimadores, tudo isso significa o quê? No mínimo, que há um desmoronamento sistemático das instituições em andamento. A busca por sentido, então, vira uma peleja diária e, no afã de alternativas plausíveis, essa busca ganha novas traduções simbólicas. 

Uma delas é a astrologia, que há alguns anos deixou de ser para o ideário popular apenas um passatempo em colunas de jornal para se tornar linguagem de pertencimento, ferramenta emocional e até estética cultural. Nos signos e nas casas astrais, existe uma gramática possível para lidar com o caos, sendo um compilado atraente de códigos afetivos, mapas de pertencimento e linguagens de autoconhecimento. 

Você já ouviu a expressão “jovem mística”. Todos nós ouvimos. Ela nasceu como uma espécie de meme nos anos 2010, primeiro em páginas de humor do Facebook e depois consolidada no Twitter e no Instagram. Estava na mesma seara do também meme “vender minha arte na praia, das coisas que a natureza dá”. 

De início, era uma caricatura: a menina urbana, de classe média, que se interessa por astrologia, tarô, cristais, numerologia, rituais de lua cheia e frases de autoajuda com estética cósmica. O termo, no entanto, rapidamente ultrapassou a sátira e virou um marcador geracional. Signos, cristais e arquétipos saíram do campo da chacota e são hoje códigos emocionais e identitários.

Nas redes sociais, esse movimento se expande em memes, posts virais e aplicativos que misturam linguagem de software com simbologia ancestral. O Co–Star, por exemplo, já ultrapassou 20 milhões de usuários, oferecendo horóscopos personalizados a partir de inteligência artificial. O Astrolink e o Personare, no Brasil, transformaram o serviço em nicho econômico de alto crescimento. Há ainda cosméticos personalizados por signo, roupas inspiradas em mapas celestes e playlists astrais no Spotify. 

Por que tudo isso? A astrologia, assim como tarô, oráculos e cristais, apresenta relatos diante do caos que, diferente de tantos outros, são compreensíveis. Podem até fugir da lógica mais racional e científica, mas é algo que joga sobre as coisas um véu positivo de misticismo. O esoterismo, antes marginal, agora vai a todo vapor. Basta abrir o Instagram ou o TikTok: o feed é atravessado por memes astrológicos que misturam humor e confissão, revelando que rir do próprio caos é também uma forma de enfrentá-lo.

Comunidades queer, negras e feministas transformaram o esoterismo em território de cura, reinvenção e abrigo. Não se trata de um gesto inaugural, já acontecia antes desse movimento, mas dá continuidade a uma tradição subterrânea que, ao longo do tempo, encontrou maneiras de sobreviver à margem. A caricatura da jovem mística, nascida entre memes e ironias digitais, ganha outra camada quando ressignificada em contextos periféricos e dissidentes: ali, astrologia, tarô, rituais de proteção e benzimentos se apresentam como alternativas concretas diante de religiões tradicionais que, tantas vezes, foram mais espaços de exclusão do que de acolhimento. 

Atualizadas, essas práticas se convertem em contra-discurso, recuperando imaginários de pertencimento e inventando novas gramáticas de espiritualidade onde antes havia silenciamento.

A trajetória da jovem mística, de um jeito ou de outro, é representante de uma geração e de uma mudança de mentalidade. Da caricatura ao marco geracional, do meme ao mercado, da marginalidade à estética dominante, o esoterismo contemporâneo se tornou um espaço paradoxal: lugar de refúgio e de consumo, de resistência e de branding, de política e de mercadoria. No fundo, talvez seja esse o segredo de sua permanência. O esoterismo contemporâneo não se opõe frontalmente ao mundo capitalista, mas se infiltra nele, criando fissuras simbólicas. E, mesmo convertido em produto, ainda guarda uma centelha de insubordinação. 

Entre algoritmos e crises, ainda buscamos mapas, cartas e sinais que nos digam que não estamos à deriva. É o “retorno ao sagrado”, como a filosofia conta, um movimento típico de épocas de crise, em que mitos e símbolos se reorganizam como mecanismos de compreensão social. 

No colapso da racionalidade moderna, qualquer mapa que ofereça uma narrativa — mesmo que desenhada nas estrelas — já cumpre sua função de nos manter de pé.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Amarello Visita: Henrique Oliveira

#5 Transe

Os outros

#22 Duplo

por Ananda Rubinstein Conteúdo exclusivo para assinantes

O olhar do figurino: figuras

#39 Yes, nós somos barrocos

por Emilia Duncan

Qué ficar bunitu?

#4 Colonialismo

por Paulo Nazareh Conteúdo exclusivo para assinantes

A família, voz de escuta

#50 Família Artes Visuais

por Diogo Bolota Conteúdo exclusivo para assinantes

Os 10 anos do Festival Novas Frequências

por Pérola Mathias

Fantasia de violência

#53 Mitos Literatura

por Renata Corrêa Conteúdo exclusivo para assinantes

EPM: leve ansiedade e pânico

#3 Medo

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

O presente que nos habita

#35 Presente

por Marisa Giannecchini Conteúdo exclusivo para assinantes

Ventos da Dior

#20 Desejo

por Lou Braga Conteúdo exclusivo para assinantes

Bicho-papão

#7 O que é para sempre?

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

Por que duvido da minha masculinidade

#36 O Masculino

por Eugênio Bucci Conteúdo exclusivo para assinantes

Room by the sea, de Edward Hopper (1951)
Sociedade

Você não está cansado à toa: o trabalho e os limites da saúde 2.0

por Revista Amarello
Antes invisível, a saúde mental ganha espaço na agenda de normas e práticas do trabalho.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, já conhecida como “nova NR-1” e oficializada em agosto de 2024, marca uma inflexão que ultrapassa o vocabulário técnico da Saúde e Segurança do Trabalho. Pela primeira vez, os riscos psicossociais passam a integrar formalmente o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), exigindo que empresas identifiquem, avaliem e mitiguem fatores como estresse, assédio, sobrecarga e dinâmicas organizacionais que afetam a saúde mental. A partir de maio de 2026, essa exigência deixa de ser recomendação e passa a ser obrigação para empresas de todos os portes que possuam funcionários sob regime CLT.

Muitas, aliás, estão correndo atrás do prejuízo, buscando soluções para se adequarem às novas exigências. Resposta regulatória? Ou sintoma de algo maior em curso — aquele famoso “sinal dos tempos”?

Em termos normativos, a alteração amplia o escopo de cuidado das empresas; já em termos históricos, ela reposiciona o próprio entendimento do que constitui risco no trabalho. Quando a NR-1 surgiu, em 1978, o Brasil passava por um ciclo de industrialização em que os perigos eram, em grande medida, “tangíveis”. Os riscos eram relacionados a máquinas desprotegidas, ambientes insalubres, exposição a agentes físicos e químicos. O corpo era o ponto de impacto mais evidente, e a regulação se estruturou para proteger essa dimensão visível.

Quase cinquenta anos depois, em muitos setores, o trabalho se tornou imaterial, mediado por telas, plataformas e fluxos contínuos de informação. Não é que o risco físico desapareceu, e nem que está reservado a funções específicas, mas os riscos agora são vistos de maneira ampliada. Pensar em cuidado atualmente passa por camadas menos perceptíveis, mais difíceis de delimitar, frequentemente internalizadas. A exaustão, então, deixou de ser apenas física e ganhou leituras emocionais, cognitivas, relacionais.

Como observa a psicóloga Thais Andrade, “o trabalho é não apenas central como também essencial na vida de grande parte das pessoas”. Mais do que garantir sustento, ele também organiza identidade, reconhecimento e pertencimento. Quando essa centralidade se intensifica sem contrapesos, o impacto deixa de ser apenas produtivo, torna-se existencial. Não é preciso de muita conta para chegar à óbvia conclusão de que o trabalho impacta nossa saúde mental.

A linguagem, vale dizer, também se transformou. O principal deles, num contexto corporativo, é o famigerado burnout, mas “esgotamento”, “fadiga mental” e “ansiedade” deixaram de circular apenas em contextos clínicos e passaram a integrar o repertório cotidiano. Nomear esses estados foi, em si, um movimento cultural. Durante muito tempo, o sofrimento psíquico associado ao trabalho foi interpretado como falha individual: falta de preparo, fragilidade, incapacidade de lidar com pressão. A consolidação de conceitos como burnout, especialmente após sua inclusão na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), ajudou a deslocar essa leitura, reconhecendo a relação direta entre organização do trabalho e adoecimento.

No Brasil, cerca de 30% das pessoas ocupadas apresentam sintomas de burnout, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho. O país ocupa uma das primeiras posições no ranking global. Entre 2019 e 2023, os afastamentos associados à síndrome cresceram mais de 130%. Há estimativas que apontam que dezenas de milhões de trabalhadores convivem com níveis elevados de estresse, e uma parcela significativa evolui para quadros mais severos, com impacto direto na capacidade de trabalhar e na qualidade de vida.

Os sinais, muitas vezes, aparecem antes dos números. “Dificuldade para dormir, cansaço constante, exaustão emocional, irritabilidade, dores de cabeça e dificuldade de concentração” são alguns dos sintomas mais comuns, descreve Andrade. “A mente nos prega peças e o corpo grita por socorro”.

Esses dados, embora sejam um reflexo do estado geral da saúde mental no trabalho atual, exigem uma leitura cuidadosa. O aumento dos diagnósticos e dos afastamentos pode refletir tanto uma intensificação real das condições que produzem adoecimento quanto uma maior capacidade de identificação. Antes, isso era diluído em categorias genéricas, como cansaço, desmotivação e indisposição. Hoje, encontra parâmetros mais definidos, respaldo institucional e reconhecimento social. Medir altera o fenômeno medido. Tornar visível muda a forma como ele se manifesta.

Essa dupla dimensão, praticamente uma simbiose entre crescimento e visibilidade, é central para compreender o momento atual. A NR-1, claro, não surge apenas como resposta a uma crise, mas como parte de um processo mais amplo de reorganização do olhar sobre o trabalho. Ao incluir riscos psicossociais no PGR, a norma desloca a atenção do evento pontual para a experiência contínua. Evitar acidentes segue sendo indispensável, claro, mas compreender rotinas, metas, relações e culturas organizacionais é igualmente importante, pois tudo isso produz desgaste ao longo do tempo.

Nesse movimento, existe uma mudança de escala, com o risco deixando de ser exclusivamente localizado, como uma máquina específica ou um ambiente determinado. O risco passa a ser sistêmico. Está na forma como o trabalho é distribuído, nas expectativas de desempenho, na clareza (ou ausência) de papéis, na qualidade das interações. Está também na relação com o tempo: jornadas que se estendem, fronteiras borradas entre vida profissional e pessoal, a sensação de disponibilidade permanente.

Há cenas que sintetizam esse cenário. Andrade relembra uma imagem recorrente: pessoas trabalhando à beira de uma piscina, laptop apoiado, como se o lazer pudesse coexistir sem conflito com a produtividade. “À primeira vista, parece liberdade. Mais profundamente, pode ser a expressão de uma sobrecarga ou de uma desconexão com outros momentos importantes da vida.”

O avanço de modelos de gestão baseados em metas intensivas, indicadores contínuos e alta competitividade contribuiu para esse cenário. A digitalização, por sua vez, ampliou a capacidade de conexão e, com ela, a dificuldade de desconexão. O trabalho se infiltra em notificações, mensagens fora de hora, demandas que atravessam fusos e finais de semana. A lógica da performance constante cria um ambiente em que o descanso precisa ser justificado, e não o excesso.

O burnout deixa de ser uma exceção e passa a funcionar como um indicador. Um sinal de que algo, na engrenagem, opera em níveis difíceis de sustentar. Seus sintomas, como exaustão extrema, distanciamento emocional e sensação de ineficácia, não surgem de uma hora para a outra. São construídos ao longo do tempo, muitas vezes naturalizados até se tornarem incontornáveis.

A resposta das organizações a esse cenário ainda é heterogênea. Há empresas que avançam na construção de políticas estruturadas de saúde mental, incorporando indicadores, canais de escuta, programas de apoio psicológico e revisões de carga de trabalho. Outras permanecem em estágios iniciais, adotando medidas pontuais que aliviam sintomas sem alterar as condições que os produzem. Estudos indicam que uma parcela reduzida das empresas investe em prevenção primária — aquela que atua diretamente sobre os fatores de risco, e não apenas sobre suas consequências.

A atualização da NR-1 tende a tensionar esse quadro. Ao transformar a gestão de riscos psicossociais em exigência legal, cria-se um incentivo concreto para que o tema deixe de ocupar apenas o campo do discurso e passe a integrar a prática organizacional. Isso implica desenvolver ferramentas, metodologias e competências capazes de lidar com dimensões menos objetivas. Avaliar cultura, clima, relações de poder, percepção de justiça, equilíbrio de demandas, elementos que não se registram com facilidade, mas que definem a experiência de trabalho.

Existe, porém, um ponto de atenção. A formalização de um tema complexo sempre carrega o risco de simplificação. Existe a possibilidade de que a saúde mental seja incorporada como mais um item a ser cumprido, com diagnósticos superficiais e intervenções padronizadas. O desafio está em evitar que o processo se reduza a relatórios e indicadores que pouco dialogam com a realidade vivida pelas pessoas.

“Correr não adianta, precisamos de pausas”, afirma a psicóloga. “É nessa brecha que podemos encontrar caminhos mais saudáveis.” A frase, simples, aponta para um dos limites mais difíceis de implementar: o da desaceleração em um sistema que premia o oposto.

Isso exige uma mudança que não é apenas técnica, mas cultural. Envolve revisar modelos de gestão, repensar expectativas de produtividade, abrir espaço para participação efetiva dos trabalhadores nas decisões que impactam seu cotidiano. Envolve também reconhecer que saúde mental não se sustenta apenas com iniciativas de cuidado individual, como terapias ou benefícios, mas depende de condições estruturais que permitam que o trabalho seja exercido de forma sustentável.

Ao incorporar o sofrimento psíquico ao campo regulatório, o que se afirma é que ele não é um desvio, nem uma exceção. É parte da realidade do trabalho contemporâneo. E, como tal, precisa ser considerado, medido e transformado.

Talvez seja possível olhar para essa atualização como um ponto de inflexão discreto. Não necessariamente um momento de ruptura, mas de reorganização lenta. Como se o mundo do trabalho, após décadas orientado por métricas de eficiência e desempenho, começasse a reconhecer que há custos que não aparecem imediatamente nas planilhas, mas que se acumulam nos corpos e nas mentes.

O reconhecimento parece tardio, mas também inevitável. Quando o sofrimento encontra linguagem, ele deixa de ser apenas experiência individual e passa a compor uma narrativa coletiva. A NR-1, nesse sentido, não inaugura o tema da saúde mental no trabalho. Ela o legitima dentro de uma estrutura que, por muito tempo, operou à margem dele.

E talvez, como sugere Andrade, isso também exija reaprender algo básico: “colocar limites também é sinal de afeto”. No contexto organizacional, esse afeto se traduz em políticas, ritmos e decisões que reconhecem o humano como medida e não como variável de ajuste.

Sua força está aí. Não apenas na capacidade de obrigar mudanças, mas na de reorganizar o que pode ser dito, medido e transformado. Em um cenário onde o trabalho ocupa uma parte tão significativa da vida, reconhecer seus impactos, visíveis e invisíveis, também é uma forma de redesenhar seus limites.

A atualização da NR-1 fala de uma transição. De um modelo que tratava o desgaste como consequência inevitável para outro que começa a encará-lo como variável a ser gerida. Entre um e outro, há tensões, resistências e adaptações em curso. Mas, sobretudo, ressoam as batidas da construção de um novo tipo de pergunta: não apenas quanto se produz, mas em que condições essa produção acontece — e a que custo.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Eu tenho medo de chuva: desastre natural ou racismo ambiental?

#42 Água

por Pâmela Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Como nasce uma tragédia? A crise Yanomami e a relação do Brasil com os indígenas

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Corpo em evidência

#9 Obsessão

por Hermés Galvão

Sobre o que não se pode falar

#20 Desejo

por Leandro Oliveira Conteúdo exclusivo para assinantes

A verdade das máscaras e a ilusão da vida

#38 O Rosto

por Gustavo Mouro Conteúdo exclusivo para assinantes

Curto-circuito

#31 O Estrangeiro

por Roberto Vietri Conteúdo exclusivo para assinantes

Insurreição perante a aniquilação: fagulhas de um novo tempo

#41 Fagulha

por Aldones Nino Conteúdo exclusivo para assinantes

Um cafezinho com Alberto Renault

Design

por Tomás Biagi Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Bárbaro e nosso

#26 Delírio Tropical

por Guilherme Abud Conteúdo exclusivo para assinantes

América

#21 Solidão

por Willian Silveira Conteúdo exclusivo para assinantes

Alguns dias depois do Donald Trump ser eleito

#26 Delírio Tropical

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

Dois e dois são dois: Suze Piza e Lindener Pareto

#43 Miragem
Foto de Wisnu Widjojo para Unsplash.
Sociedade

O Brasil pós-religioso existe? Afastamento e aproximação da espiritualidade

por Revista Amarello
Em períodos de incerteza, as religiões se transformam e passam a ocupar o espaço do Estado.

Nos últimos anos, uma transformação tem se desenhado no panorama religioso brasileiro e ela vem sendo cada vez mais sentida no dia a dia: o número de brasileiros que se declaram “sem religião” cresce de forma consistente. Segundo levantamento do Datafolha de 2024, 10% dos brasileiros disseram não ter religião — em SP, uma capital considerada progressista, o número chega a 25%. Em 2010, de acordo com o Censo do IBGE, esse número era de 8% dos brasileiros. Embora o IBGE ainda não tenha divulgado os dados completos do Censo Demográfico dos anos 2020 (o último é de 2010), tudo indica que essa tendência de crescimento se confirmará, acompanhada também da expansão do número de evangélicos e de adeptos a outras formas de religiões. Estaríamos, enfim, vivendo um processo de secularização no Brasil? Ou, na verdade, estamos substituindo as religiões tradicionais por novas espiritualidades? 

A configuração atual do campo religioso brasileiro, marcada por fluidez, pluralidade e reconfigurações simbólicas, sugere que a resposta não é simples e que o fenômeno exige uma análise mais profunda e multifacetada.

A ideia de que o Brasil caminha rumo a um país “pós-religioso”, à semelhança do que ocorre em partes da Europa, é tentadora. No entanto, ela pode obscurecer o que está de fato em curso: uma transformação qualitativa e não necessariamente o enfraquecimento da religião. O fenômeno é, ao mesmo tempo, estatístico, cultural e político.

Na década de 1970, o país era majoritariamente católico: cerca de 92% da população se declarava fiel à Igreja Católica, segundo o IBGE. Hoje, esse número caiu para quase a metade. Em contrapartida, o número de evangélicos cresceu vertiginosamente. Estudos estimam que, até 2032, os evangélicos possam ultrapassar os católicos como grupo religioso majoritário no país.

Contudo, a ascensão dos evangélicos não é o único dado relevante. Outros grupos, como o espiritismo kardecista, o candomblé, a umbanda, as crenças esotéricas e práticas como o reiki, o yoga e o xamanismo também têm conquistado adeptos, especialmente entre jovens urbanos de classe média e alta. Há ainda os que se definem como “espiritualizados” sem vínculo institucional, fenômeno que desafia as categorias tradicionais de religiosidade e põe em xeque a oposição simples entre religioso e secular.

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, o sociólogo Roberto Dutra afirma que “as igrejas pentecostais formam quadros e lideranças com enraizamento social em um ritmo e capilaridade que não se vê em nenhum partido, sindicato ou movimento social.” Sua análise aponta para o fato de que o crescimento evangélico não se limita ao campo da fé pessoal, mas constitui uma nova forma de mobilização social, especialmente entre as camadas populares. Essa capilaridade faz com que a religião funcione também como estrutura de apoio material, emocional e político. Em um país com altos índices de desigualdade, insegurança alimentar e desemprego, a igreja muitas vezes ocupa o lugar do Estado.

A pesquisadora Lívia Reis vai na mesma direção ao comentar, em entrevista à Revista Casa Comum, que “as pessoas vão à igreja para buscar paz, já que vivemos em um sistema neoliberal que exige muito de nós. […] E há o discurso de valorização do ser humano nas igrejas, porque elas se adaptam ao mundo e ao contexto cruel vivido em determinado momento.” Essa afirmação joga luz sobre um aspecto essencial da permanência e reinvenção da religião no Brasil contemporâneo: longe de desaparecer, ela se transforma para responder às demandas subjetivas e sociais do presente.

A secularização, entendida como a progressiva separação entre religião e esfera pública, é um fenômeno típico das sociedades modernas ocidentais, mas nem sempre se manifesta da mesma maneira. No Brasil, há indícios de que a fé continua exercendo papel central na vida cotidiana, mesmo entre os que não se vinculam a uma religião específica.

O campo religioso brasileiro não está em retração, mas em reorganização. A religião não desaparece: ela muda de linguagem, de institucionalidade, de estética e de presença na esfera pública. Em vez de uma ruptura com o sagrado, o que se observa é um hibridismo crescente — uma espiritualidade fluida, muitas vezes personalizada, moldada por experiências subjetivas e por influências culturais globais.

Esse novo perfil religioso desafia os próprios centros de pesquisa, que tradicionalmente perguntam sobre filiação institucional. Mas como medir quem acredita em Deus, ora diariamente, pratica meditação, mas não pertence a nenhuma igreja? O sociólogo francês Danièle Hervieu-Léger chamou esse fenômeno de “bricolagem religiosa”: um arranjo individualizado de crenças e práticas.

Rodrigo Toniol, da Folha de São Paulo, escreveu: “Esqueça os estereótipos. Os ‘sem religião’ não são ateus revoltados ou jovens sem fé. Trata-se de um grupo cada vez maior, que tem redefinido a relação com o sagrado. Eles questionam as instituições, subvertem a lógica das comunidades de fé e desafiam o dogmatismo institucional.”

O Brasil, portanto, não vive exatamente um “pós-religioso”, mas sim um “trans-religioso”: o que está em jogo é a transição de um modelo institucional de religiosidade para um campo mais fluido, híbrido, múltiplo. A religiosidade se reconfigura em resposta às dinâmicas da vida moderna — e esse processo está longe de se esgotar.

A secularização, se há, é parcial e ambígua. Em vez de um afastamento do sagrado, talvez estejamos diante de um novo modo de nos aproximarmos dele.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Arq erotica

#48 Erótica Arquitetura

por Jaime Solares Conteúdo exclusivo para assinantes

Portfólio: Bruno Moreschi

#23 Educação

por Marta Ramos-yzquierdo Conteúdo exclusivo para assinantes

Erotismo, matriarcado e axé: uma conversa com Mãe Flávia Pinto

#48 Erótica Sociedade

por Priscila Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Canto Sagrado

#54 Encanto Editorial

por Gean Ramos Pankararu Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Ricardo Salem

#7 O que é para sempre?

O capital está morto

# Terra: Especial 10 anos

por Léo Coutinho

Ítaca

#51 O Homem: Amarello 15 anos Literatura

por Alberto Tassinari Conteúdo exclusivo para assinantes

Liberdade e o que dois tipos opostos de viajantes aprendem sobre ela ao visitarem a África

#12 Liberdade

por Bruno Pesca Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Henrique Oliveira

#5 Transe

Encanto e prestígio dos jardins italianos

#54 Encanto Cultura

por Silvana Maria Rosso Conteúdo exclusivo para assinantes

o corpo radiante

#48 Erótica Cultura

por Bruno Cosentino

Uma pureza displicente

#16 Renascimento

por Eduardo Andrade de Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Room in New York, de Edward Hopper (1932).
Sociedade

Quem é mais feliz nos afetos contemporâneos?

por Revista Amarello
Mudanças nas dinâmicas de gênero e expectativas amorosas redefinem a ideia de felicidade nas relações amorosas.

Durante décadas, a ciência dos relacionamentos olhou quase exclusivamente para casais. Amar, dividir a vida, construir um “nós” parecia ser o ponto de chegada natural e, por consequência, o principal lugar onde a felicidade deveria ser medida. A solteirice ficou nas bordas do debate, tratada mais como ausência do que como estado em si. Mas os dados recentes começam a deslocar esse centro de gravidade. E, quando uma análise mais demorada é feita, uma diferença salta aos olhos: homens e mulheres não vivem os vínculos, nem a falta deles, da mesma maneira.

Um amplo estudo conduzido pela University of Toronto Faculty of Arts & Science, com quase seis mil pessoas adultas, ajuda a desenhar esse mapa. Ao observar indicadores como satisfação com a vida, satisfação com o status relacional, satisfação sexual e desejo por um parceiro, os pesquisadores chegaram a um resultado que confronta estereótipos persistentes: mulheres solteiras, em média, são mais satisfeitas e menos angustiadas com a própria condição do que homens solteiros. Elas relatam mais bem-estar, menos urgência afetiva e maior conforto com a ideia de permanecer sozinhas, ao menos por um tempo.

Isso não significa que a vida de solteira seja, por definição, um território de felicidade feminina. O que os dados sugerem é algo mais complexo: para muitas mulheres, estar solteira pode ser menos custoso emocionalmente do que estar em certos tipos de relacionamento. A explicação passa menos por uma suposta “natureza” feminina e mais pela arquitetura social que organiza expectativas, papéis e investimentos emocionais.

Nos relacionamentos heteronormativos, mulheres ainda tendem a assumir uma parcela maior do trabalho invisível. São elas que, com frequência, escutam mais, organizam mais, lembram datas, percebem climas, amortecem conflitos. Esse investimento constante, nem sempre reconhecido, ajuda a explicar por que muitas relatam queda de satisfação pessoal e sexual ao longo do tempo em relações estáveis. Estar em um relacionamento pode significar dividir a vida, mas não necessariamente dividir o peso.

Para os homens, o movimento costuma ser inverso. Em relações estáveis, eles tendem a se beneficiar de redes de cuidado que não construíram sozinhos. O apoio emocional, a organização da vida doméstica e até a mediação com o mundo externo frequentemente passam pela parceira. Não por acaso, homens casados costumam apresentar melhores indicadores de saúde física e mental do que homens solteiros. O relacionamento funciona, muitas vezes, como uma infraestrutura emocional terceirizada.

Quando essa estrutura não existe, o vazio aparece com mais força. O mesmo estudo mostra que homens solteiros relatam maior desejo por um parceiro e maior desconforto com a solteirice. Parte disso se explica pela forma como a masculinidade tradicional foi construída: homens são incentivados a ser autossuficientes, racionais, pouco expressivos emocionalmente. Criam menos redes de apoio íntimo fora do par romântico. Assim, quando o relacionamento falta, falta quase tudo.

Mulheres, por outro lado, tendem a manter laços afetivos mais diversos: amizades profundas, redes familiares ativas, trocas emocionais que não dependem exclusivamente de um parceiro. A solteirice, nesse caso, não significa isolamento, pode significar autonomia, reorganização de prioridades, espaço para si. Não é raro que venha acompanhada de maior satisfação sexual, já que o prazer deixa de ser mediado pelas expectativas e negociações de uma relação estável.

Isso, claro, não elimina as pressões sociais. Mulheres ainda enfrentam cobranças intensas relacionadas a casamento e maternidade, especialmente a partir de certa idade. Mas os dados indicam que muitas aprenderam a negociar essas expectativas com mais distância crítica. O ideal romântico segue existindo, mas já não ocupa sozinho o centro da experiência feminina.

Entre os homens, a pressão é outra: ser desejável, escolhido, validado. A vida de solteiro masculina ainda carrega menos estigma social, mas pode vir acompanhada de uma sensação de falha íntima, especialmente quando o desejo por parceria é alto e não correspondido. Em casos extremos, essa frustração pode se transformar em ressentimento, fenômeno que pesquisadores começam a observar com atenção, inclusive pelo vínculo com comunidades misóginas online.

Nada disso é absoluto. Idade, etnia, contexto cultural e orientação sexual atravessam essas experiências de maneiras decisivas. Homens solteiros mais velhos, por exemplo, tendem a relatar maior bem-estar do que os mais jovens. Mulheres negras solteiras, em alguns contextos, expressam maior desejo por parceria do que mulheres brancas. A solteirice não é uma categoria homogênea, e qualquer conclusão precisa respeitar essa diversidade.

Ainda assim, o panorama geral aponta para relacionamentos que, como estão organizados hoje, parecem oferecer mais benefícios emocionais aos homens do que às mulheres. E a solteirice, por sua vez, pode ser um espaço de respiro feminino, não por ausência de amor, mas por excesso de carga quando ele se institucionaliza.

Talvez a pergunta mais honesta não seja quem é mais feliz dentro ou fora dos relacionamentos. Talvez seja outra: que tipo de vínculo estamos chamando de amor? Um que redistribui cuidado, escuta e responsabilidade ou um que apenas muda o peso de lugar?

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


A Esfera Imaginal de Alex Červený

#36 O Masculino

por Rodrigo Petronio Conteúdo exclusivo para assinantes

Encanto e prestígio dos jardins italianos

#54 Encanto Cultura

por Silvana Maria Rosso Conteúdo exclusivo para assinantes

Filhos na crise climática: escolha moral ou salto de fé?

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

O único silêncio

#11 Silêncio

por Eduardo Andrade de Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Sister Rosetta Tharpe: A mãe do rock contra tudo e todos

por Revista Amarello

Libertação através da imagem

#36 O Masculino

por Willian Silveira Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Luana Vitra em Pulmão da mina

#47 Futuro Ancestral Amarello Visita

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Arjan Martins e a sociedade do espetáculo

#33 Infância

Escutar e sentir: Supersônica e o fascinante mundo dos audiolivros

Literatura

por Revista Amarello

Entre a kitanda e o samba: mulheres negras, sementes e reinvenções

#41 Fagulha

por Pâmela Carvalho

Livro das escalas

#23 Educação

por Ana Luiza Dias Batista Conteúdo exclusivo para assinantes

Ritual de iniciação

#55 Imagem Brasil Cultura

por Trudruá Dorrico Conteúdo exclusivo para assinantes

Vista de uma rua, de Anita Malfatti. Década de 1930.
ArquiteturaCulturaSociedade

Cidades, arquitetura e os passeios de Eduardo Andrade de Carvalho

por Revista Amarello

Volta e meia, o espaço urbano volta ao centro das conversas. Num panorama cada vez mais constante de desastres climáticos e colapso sociopolítico mundo afora, debates sobre adensamento, mobilidade, muros, calçadas e o papel do espaço público ganham força. Com timing preciso, Pequenas Tentações chega como um livro que, no auge de sua aparente singeleza, parte do detalhe para pensar o todo: da observação atenta da vida cotidiana somos levados ao desenho mais amplo das cidades e das escolhas que moldam nossa experiência urbana.

Pequenas Tentações, de Eduardo Andrade de Carvalho. Editora Bei.

O livro reúne uma seleção de ensaios de Eduardo Andrade de Carvalho, autor que habita a fronteira entre o pensamento crítico e a prática concreta. Incorporador de profissão e ensaísta por vocação, Carvalho transita entre literatura, arquitetura e urbanismo com a naturalidade de quem enxerga a cidade como uma experiência humanística.

O volume é organizado em três partes — Cidades, Arquitetura e Outros passeios — e cada uma delas revela uma faceta do olhar do autor sobre o ambiente construído. Seus textos, publicados originalmente em jornais e revistas ao longo de mais de uma década, compõem um mosaico da vida contemporânea no Brasil. São Paulo está no centro, mas a interpretação se expande para além da pauliceia. O país é observado a partir da rua: a calçada como espaço democrático; os muros como símbolos de segregação; o condomínio-clube como antítese da vida urbana; e, em contraste, exemplos estrangeiros que ilustram alternativas possíveis para cidades mais caminháveis, mais civilizadas, mais divertidas.

Em Cidades, o urbanismo é tratado como campo de encontros, recuperando a vocação da rua como espaço de convivência. Calçadas bem cuidadas, lembra o autor em homenagem a Jane Jacobs, são o primeiro passo para bairros vivos e seguros. Ainda que estejamos falando de metrópoles, é um conjunto que serve de elogio à vida miúda: ao café de esquina, à mercearia, ao xadrez na praça, ao saxofonista inesperado que atravessa o caminho de um adolescente voltando da escola. Carvalho foge um pouco da tese e encontra abrigo na narrativa, o que de maneira alguma lhe tira rigor, mas, de todas as maneiras possíveis, lhe acrescenta humanidade.

A segunda parte, Arquitetura, amplia a lupa e discute a qualidade dos projetos que moldam cidades. Como podem as fachadas que tentam “parecer modernas” não enfrentar o que é essencial, como a boa implantação, o cuidado com o térreo, a coerência entre materiais e proporções? O autor traz à tona, também, a necessidade de recuperar princípios clássicos — utilidade, beleza e solidez, na lição de Vitrúvio — sem cair na caricatura estética que dominou o mercado imobiliário nas últimas décadas. 

A terceira parte, Outros passeios, mostra o ensaísta que existia antes mesmo do incorporador. São textos que tratam de música, literatura e memória familiar, sempre com o mesmo senso de clareza e curiosidade intelectual. O ensaio sobre as suítes de Bach — que narra a redescoberta da obra, a busca por interpretações historicamente informadas e a relação do violoncelista Dimos Goudaroulis com o repertório — mostra o alcance da escrita. Ritmo, humor, precisão histórica e uma sensibilidade para traduzir complexidades artísticas em linguagem acessível. Está tudo ali.

Juntos, esses textos reverberam uma visão que enxerga a cidade como ecossistema vivo, traduzido em referências que vão dos livros de Conrad aos filmes de Bergman. O estilo que costura o livro é marcado por uma informalidade que não deixa de acenar à tradição dos grandes ensaístas.

Pequenas Tentações fala do prazer de caminhar sem pressa, da capacidade da arquitetura de moldar nossa imaginação, das escolhas diárias que fazem com que uma cidade seja acolhedora ou hostil. Atualmente, os debates parecem ter duas características: jamais se esgotar e seguir sem qualquer solução. Resoluções, claro, nunca são simples, mas é exaustivo entrar em redemoinhos que não têm intenção de se dissipar. Pois aqui há um suspiro aliviado que, ao contrário do resto do mundo, nos diz para voltar a olhar o entorno com atenção. Ufa.

Quem sabe assim as pequenas tentações da vida urbana, aquelas que tornam um sábado à tarde inesquecível, não desapareçam atrás de muros cada vez mais altos.

Confira nossa conversa com Eduardo Andrade de Carvalho.

Ao reunir textos escritos ao longo de tantos anos, que cidade você percebe que emerge como personagem do livro? Essa cidade ainda coincide com a que você vê hoje ou ela se transformou e, no processo, você se transformou junto com ela?

Acho que a cidade que aparece no livro — São Paulo — é uma cidade que precisa de ajuda. Ela é difícil, dura, complexa — que pode ser também, como qualquer cidade, muito interessante e às vezes divertida. É uma cidade que precisa de apoio e de carinho. Que foi, em muitos lugares e momentos, maltratada, esquecida, roubada. E que — como uma pessoa — precisa de atenção. Porque o que importa está — estamos — ali: as pessoas. A cidade é o espaço delas. É o nosso espaço. O livro, se quiser, é um convite para conversarmos sobre isso — sobre como estamos construindo e lidando com o espaço da nossa cidade — das nossas cidades.

Eduardo Andrade de Carvalho. Foto de Renato Parada.

Vendo esses ensaios lado a lado, surge uma espécie de eixo conceitual que talvez não estivesse explícito quando foram escritos. Que espinha dorsal você identifica neste conjunto agora, ao revisitar o que você escreveu em momentos distintos?

O livro está divido em três partes: Cidades, Arquitetura e Outros passeios. Ele segue, nesse sentido, do que é grande, macro, para assuntos mais particulares, íntimos — das cidades para, usando o último ensaio como exemplo, uma história da biblioteca do meu avô. Cidades como o Rio de Janeiro, Caruaru e São Paulo estão presentes nessa última história, e influenciaram meu avô; e percebo hoje, cada vez mais claramente, como a biblioteca dele — dos meus avós, aliás — me influenciaram em muitos aspectos sem eu perceber. Talvez ter reunido esses artigos num livro tenha sido um esforço inconsciente meu para homenagear o livro como objeto.

Sua escrita parece sempre pertencer a dois mundos, o do olhar técnico do incorporador e o da sensibilidade do ensaísta. Como esses papéis conversam, ou entram em conflito, na sua vida diária e na sua forma de interpretar a cidade?

Durante seis meses, eu estudei Administração de Empresas na FGV de dia e História na USP à noite. No intervalo de uma aula sobre a relação das navegações dos espanhóis para a América com Dom Quixote, fui conversar com o professor. Comentei que fazia os dois cursos. Ele apontou para o fundo da sala, sorrindo: “a sua cabeça deve estar girando mais do que aquele ventilador, né?”. Não entendi. Não estava. Eu gostava daquilo, de frequentar ambientes e ideias diferentes. Nos acostumamos a separar o trabalho, digamos, prático da reflexão sobre ele. Nos acostumamos a catalogar pessoas como intelectuais, executivas, etc., normalmente de forma pejorativa. Não deveríamos. É difícil definir onde a reflexão termina e a execução começa; o que me interessa é a combinação entre essas duas experiências. Meu outro avô, fazendeiro, lia Faulkner à noite. Ter lido o que ele leu provavelmente fez dele uma pessoa melhor, um fazendeiro melhor. Fui jubilado por falta do curso de História da USP, aliás — por causa das greves daquele ano, 2000, tivemos aula em julho, e eu estava viajando por Cuba.

O livro tem uma proposta interessante de reparar no micro, no detalhe, naquilo que normalmente é ignorado no caos urbano. Por que esse gesto de atenção é tão decisivo para pensar cidades?

Porque é o que percebemos ou, pelo menos, é o que eu consigo perceber com mais clareza. Não sou teórico ou técnico. Não sei olhar para a cidade de outra forma — de uma forma conceitual, ideológica. Escrevo sobre o que sinto, sobre o que vejo, sobre o que encosto — ou sobre o que esbarro ou tropeço. Tudo, se quiser, é detalhe.

Muros, condomínios-clube e enclausuramentos aparecem como antagonistas recorrentes no seu pensamento. Em que momento isso se tornou uma questão para você e, sobretudo, o que ela revela sobre o modo como vivemos as cidades brasileiras?

Eu cresci em casas no Jardim Paulistano e em Alto de Pinheiros. Eu andava à pé e de bicicleta na rua, criança. Ia para a escola na Vila Nova Conceição e para o Clube no Morumby de carro. De repente, aos 15 anos, repeti o primeiro colegial (eu só pensava em jogar tênis) e fui estudar no Objetivo da Paulista. Comecei a andar de ônibus, de metrô, à pé, e por lugares que conhecia pouco. Uma outra cidade se revelou para mim. Eu gostei. Depois frequentei cursinhos na Consolação e fui estudar na FGV, ao lado da Paulista, para onde eu ia e voltava a pé, porque aí morava nos Jardins. Frequentei bastante a Avenida Paulista e tenho um carinho especial por ela. Me ensinou muito. Não tem muros na Avenida Paulista. Não têm condomínios-clube. Tem o MASP, o Conjunto Nacional, o Instituto Moreira Salles, etc. Aquilo é uma aula do que poderíamos fazer — aliás, do que fomos capazes e somos capazes de fazer.

Agora, eu acho que comecei a perceber a gravidade desses projetos fechados conversando com amigos arquitetos, como Lourenço Gimenes (FGMF) e o Cesar Shundi (SIAA). Me lembro também de um texto na Folha do Fernando Serapião sobre um projeto imobiliário em São Paulo, em que falava da relação dele com o entorno. Foram algumas amizades e o interesse pelo jornalismo que me estimularam a prestar mais atenção nisso. Acho que é um assunto gravíssimo e menos debatido publicamente do que deveria. Moramos numa cidade para estarmos perto, juntos — e estamos construindo cidades que nos distanciam, que nos separam, que nos isolam. É uma aberração. É uma calamidade. Temos que  fazer cidades que nos façam melhores. Estamos construindo espaços que nos fazem piores — mais fechados, mais mesquinhos, mais medrosos. Não deveríamos. Para mudar, precisamos reconhecer isso.

Música, literatura e memória aparecem como campos que irrigam seu olhar urbano. De que maneira esses universos influenciam sua percepção da cidade e alimentam sua escrita?

Tudo me interessa — não só esses assuntos mais, como dizer?, culturais. Tento me expor a coisas e a ideias diferentes. E aí, quando escrevo, certas ligações aparecem espontaneamente. Gosto quando isso acontece. Gosto de ler textos assim e talvez tenha sido influenciado por eles. Temos uma tradição, aliás, no Brasil, de escritores, de cronistas que fazem isso de forma encantadora. Me lembro sempre do Franklin de Oliveira, pouco lido hoje, que tem um ensaio chamado “Sobre cachimbos, rosas, amar, etc. Sobretudo etc.”. Ele vai ligando no texto uma  coisa que aparentemente não tem nada a ver com a outra: “todo cachimbo é uma rosa incendiada”. Temos no Brasil grandes estilistas esquecidos. Uma coincidência curiosa, aliás, que o Isay Weinfeld, arquiteto, esteja abrindo agora uma exposição do seu trabalho — não só como  arquiteto — chamada “Etcétera”. É um ótimo nome.

Você trata de temas técnicos de forma leve, sem criar barreiras para quem não é da área. Por que é tão importante democratizar esse debate e incluir mais pessoas na conversa sobre arquitetura e urbanismo?

Porque todo mundo é influenciado por isso. Você pode não gostar de cinema e não ir ao cinema. Mas um prédio — um prédio praticamente te obriga a vê-lo. Ele se impõe sobre a calçada, sobre você. Se ele for ruim, grosso, ele praticamente te empurra, te espeta. Não há como escapar. E ele fica ali assim fazendo isso por décadas — como um gigante mal educado e impune. Precisamos considerar outras opções, outros caminhos para verticalizar ou — dependendo do lugar — não verticalizar. Eles existem.

No debate público, a arquitetura costuma ser reduzida à estética. Você, porém, insiste que ela é uma questão de civilidade. O que ainda impede que esse entendimento mais profundo da arquitetura se torne dominante?

É claro que uma obra arquitetônica pode e deve ser julgada pelo seu aspecto estético. Mas deve ser também — especialmente no caso de grandes obras — julgadas pelo impacto do seu desenho no espaço urbano. Aquele projeto fez bem para as pessoas que frequentam aquele lugar? Fez mal? Como elas se sentem quando frequentam ou passam por ele: com medo, com pressa, irritadas? Ou tranquilas, curiosas, animadas? Existe aí uma questão ética — e um projeto precisa ser avaliado nesse sentido também. Muitas vezes, escondemos o julgamento com certo cinismo: com frases como “mas é o que o cliente quer”, como uma forma de transferir a responsabilidade pra uma figura difusa, distante, e que não tomou decisões diretamente para que o prédio seja como é. Ninguém acha que as calçadas de São Paulo são boas. Ninguém gosta de morar numa cidade cujos espaços públicos são escuros, vazios e perigosos. Há consenso sobre muita coisa.

Desde os primeiros textos até hoje, muita coisa mudou em São Paulo e no debate urbano brasileiro. Como você enxerga essa evolução? Alguma das suas batalhas urbanas se transformou, ganhou novos contornos ou perdeu sentido?

Acho que o debate sobre a cidade hoje é mais intenso, mais vivo — sem dúvida. Ele acontece em mais lugares, com mais frequência. Mas acho que poderíamos tentar ser mais precisos nas discussões também. Talvez esteja na hora de menos batalhas, menos disputas, menos brigas. E de uma postura mais moderada, mais racional, em busca de consenso e ação. No que podemos concordar? O que podemos fazer? Como? Alguns pontos talvez sejam óbvios para todos os lados. É preciso trabalhar também para encontrar esses consensos. E construir o futuro das nossas cidades inspirados por eles.Tem gente muito boa trabalhando nisso pelo Brasil. Como pudermos, precisamos ajudá-las.

Depois de organizar esse conjunto, que novas perguntas surgiram para você, seja sobre cidade, arquitetura ou até mesmo sobre o próprio ato de escrever?

Tenho pensando nisso: quais são os consensos que estão espalhados por aí — escondidos entre disputas aparentes? Como colocá-los em prática — transformá-los em ação? Em quais cidades deveríamos nos inspirar para resolvermos os problemas das cidades brasileiras— Paris ou Medellin? Qual é a relação do espaço rural com o urbano? Estou trabalhando com isso. É um outro assunto — com muita relação com o espaço urbano, claro, e não menos interessante.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Dura lex?

#12 Liberdade

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

Itcoisa: Lama negra de Araxá

#38 O Rosto

por Raphael Nasralla

Síndrome de Stendhal

#14 Beleza

por Leticia Pinheiro Lima Conteúdo exclusivo para assinantes

O Rosto

#38 O Rosto

por Matilde Campilho

Ne Cli-fi

#25 Espaço

por Rose Klabin

Morada do ausente

#42 Água

por Marcelo Ferreira de Oliveira Conteúdo exclusivo para assinantes

Miríades, miragens, metamorfoses: uma história concisa do teatro de grupo no Brasil

#43 Miragem

por Mariana Ferraz

Lembranças de São Clemente

#5 Transe

por J.P.M. Conteúdo exclusivo para assinantes

As cicatrizes do imperador

#18 Romance

por Alberto Rocha Barros Conteúdo exclusivo para assinantes

Entre afetos e sonhos: entrevista com Fabio de Souza

#49 Sonho Design

por Pâmela Carvalho

Juliana Linhares e seu Nordeste Ficção

por Revista Amarello

Filhos na crise climática: escolha moral ou salto de fé?

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Fotos de acervo Charly Braun. Todos os direitos reservados.
CinemaSociedade

Onde há ódio, houve amor: o Caçador de Marajás

por Revista Amarello
Drama brasileiro à moda vitoriana, a rixa entre dois irmãos que se tornou escândalo nacional.

Uma família abastada. De um lado, um legado em um conglomerado de mídia; do outro, um legado no mundo político. Dois irmãos próximos, unha e carne, que, em algum momento, por motivos que só fazem sentido a eles, começam a se distanciar. O caçula a priori se dá melhor, tocando o negócio da família; o mais novo, numa manobra que ninguém dava muita bola, se lança na política, virando primeiro prefeito, depois governador e então, para a surpresa de todos, presidente. Numa batalha de egos, tudo cai pelas tabelas e, no torvelinho dessa rixa juvenil, num ato de vingança, um escândalo de corrupção é escancarado. O caçula é destituído da empresa, tachado de louco, e o mais velho renuncia à presidência para evitar a aprovação da impugnação de seu mandato. Cabe ao país lidar com as consequências.

A história contada em O Caçador de Marajás, nova série documental da Globoplay, é uma trama que conhecemos, mas o compilado visto nesses 7 episódios apresenta um nível de detalhamento antes alcançado somente em livros. Com imagens de arquivo e depoimentos tanto de jornalistas quanto personagens da história, o diretor e roteirista Charly Braun reconta às minúcias a ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, que em uma toada foi de playboy a Presidente da República e de dirigente máximo da nação a inimigo número um da população.

Figuras emblemáticas não faltam a esse enredo. E suas descrições podem ser lidas tais quais àquelas descrições-encarte que aparecem antes de uma peça teatral: Pedro Collor, o ressentido irmão caçula de Fernando; Thereza Collor, esposa de Pedro, a cunhada por quem Fernando tinha uma queda; Leda Collor de Mello, a mãe que, no fogo cruzado, tomou o partido do filho presidente; e, claro, PC Farias, também conhecido como “Paulinho Gasolina”, tesoureiro da campanha de Collor e, de acordo com as acusações públicas de Pedro, “testa de ferro” do irmão.

Pode parecer óbvio, mas nem todo relato histórico como esse se dá ao trabalho de apresentar contextualizações de maneira hábil. Em muitas produções, a vontade de ir ao ponto às vezes parece mais forte do que a vontade de estabelecer as bases para que se chegue, de fato, ao ponto — o que seria de O.J.: Made in America sem isso? Felizmente, não é o caso aqui. Temos tudo que precisamos para nos situar e viver intensamente as idas e vindas dessas pessoas.

Para ajudar na reconstrução, nada melhor do que nomes como Mario Sergio Conti, Dora Kramer, Jô Soares, Monica Waldvogel, Eduardo Bueno, Boris Casoy, Joyce Pascowitch e tantos outros, envolvidos diretamente ou indiretamente. Mas, além de jornalistas, há depoimentos que temperam ainda mais o andamento da narrativa, como Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. O Caçador de Marajás sabe lidar com as duas frentes que caracterizam esse capítulo da história brasileira, a íntima e a pública, e os sete episódios passam num piscar de olhos.

Foram anos de pesquisa para chegar nesse nível de concisão e precisão. Mas não deixa de ser curioso que, apesar do tempo, o resultado parece ter sido feito para o momento presente, uma vez que a história de Collor fala de um país que constantemente decide seus governantes pela imagem, que ainda vence (ou cai) pela mídia, e que continua preso ao mesmo ciclo de amor e ódio por seus personagens públicos.

Fernando Collor renunciou ao cargo em 1992, há mais de 30 anos. Desde então, tivemos seis mandatos (um em andamento), um impeachment e uma tentativa de golpe de Estado. Tudo que circundou o governo de Collor pode parecer um caldo dos anos 90, mero fruto de seu tempo. No fundo, porém, o drama também chega para sinalizar um diagnóstico, o qual precisamos saber se estamos — ou não — preparados para encarar.

Confira nossa conversa com o diretor e roteirista Charly Braun.

Conte um pouco de onde veio o interesse e a disposição em abordar essa história, e como foi o processo, pessoal e criativo, de trazê-la à tona.

A saga da era Collor traz uma série de ineditismos históricos, é cheia de singularidades e recheada de personagens riquíssimos, motivo pelo qual há muitos anos eu namorava a ideia de transformá-la numa série documental. Via nesta história todos os elementos dramatúrgicos e cinematográficos das grandes tramas de ficção — diria até que este seria um caso clássico onde a realidade “supera” a ficção. Com o tensionamento do clima político do país a partir das manifestações de 2013, que perdura até hoje, me veio a vontade de me debruçar a fundo nos acontecimentos que marcaram o início pleno da redemocratização do país, com a eleição de um presidente pelo voto direto depois de quase trinta anos. Pareceu-me que para entender melhor onde estamos como país, e para onde queremos (ou devemos) ir, seria importante compreender melhor de onde viemos. E que a era Collor, ademais, nos dá uma distância temporal quase ideal para suscitar esta reflexão. Distante o suficiente para arrefecer as paixões da época ao mesmo tempo em que encontram-se ecos de tudo que ali ocorreu nos dias atuais. Basta lembrar que o rival de Collor no segundo turno das eleições de 1989 foi o presidente Lula, e entre as centenas de deputados que votaram por sua queda estão nomes como Geraldo Alckmin e Bolsonaro.

Finalmente, por uma casualidade da vida, ainda criança fui testemunha do drama da família Collor que eu, incrédulo, via reverberar na vida do país. Minha mãe era amiga de infância da esposa de Leopoldo Collor, o primogênito dos Collor e personagem importante em sua eleição. Por este motivo, eu era amigo dos filhos do casal, cuja casa eu frequentava, e onde vi e vivi episódios desta saga que mistura Shakespeare e Dias Gomes, com pitadas de Nelson Rodrigues. Naturalmente, essas lembranças ficaram gravadas em minha memória, pela natureza extraordinária dos fatos, o que torna toda a saga algo mais pessoal. 

O processo de feitura começou com uma pesquisa extensa e bastante escrita, até que fosse acolhido pela Globoplay, primeiro para desenvolver os roteiros e depois para a produção. Vou descobrindo a “cara” da obra durante o processo, encontrando os caminhos narrativos e construindo uma linguagem própria para a obra, para a história que quero contar. Isso se dá em grande parte na montagem, especialmente no caso de um documentário.

Linda Micales com Leda Collor durante as filmagens.
Eduardo Bueno e o diretor Charly Braun.

Um dos pontos que mais impressiona na série é perceber, talvez como nunca antes, o tamanho da tragédia familiar protagonizada por Fernando e Pedro, esses Caim e Abel tropicais. Não só porque tem todos os elementos narrativos para deixar qualquer um fascinado, mas também porque nos leva a pensar: como é possível que uma história tão pessoal seja, ao mesmo tempo, a história de um país? Como foi lidar com essas duas dimensões, a íntima e a histórica?

Por ter uma relação pessoal com parte da família, foi particularmente difícil. Não podia nem queria “poupar” nada, nem ninguém — ao mesmo tempo, qualquer sujeito ou personagem que se retrate merece respeito. Isto posto, esta justaposição entre público e privado é o que torna esta história tão singular, de modo que era importantíssimo que fosse investigado e colocado, dentro dos limites da ética do cinema documental.

Nessa mesma seara, podemos tomar como ponto de partida uma figura que é quase novelesca: o publicitário, o estrategista, o tesoureiro, o homem que sabia demais, PC Farias. Como equilibrar o mito e o fato ao contar a história desse personagem que, aliás, segue até hoje um tanto nebulosa?

PC é daqueles personagens únicos, lembra um pouco (para dar uma referência contemporânea) um Daniel Vorcaro da vida. Mas era mais folhetinesco, com seu bigodão, seu gosto por gravatas Hermès. Era um homem razoavelmente culto, fora seminarista, disk-jockey, vendedor de carros usados… Esses elementos quase ficcionais o tornam um personagem rico, e acho que o equilíbrio vêm justamente de não temer mostrar esse lado quase caricato. Ao mesmo tempo, deixar em aberto os tantos mistérios que ele contém. PC Farias merece uma série só pra ele.

Na construção do roteiro você já imaginava o acesso que teria às imagens de arquivo ou isso veio posteriormente, como um complemento? Quanto tempo de edição foi necessário para encaixar esse movimento de trama, registro histórico e convidados?

Como diz meu pai, “tudo hoje em dia está no youtube”. Exageros à parte, muito da minha pesquisa se deu buscando o que existia de arquivos em vídeo desta época. Muitos deles já estavam presentes no roteiro, mas a pesquisa acabou trazendo novos e riquíssimos elementos que estavam fora do meu radar, como por exemplo os programas do “Casseta e Planeta”, programa humorístico sensacional que teve sua estreia justamente durante o final do governo Collor. Este vasto material de arquivo, somado a centenas de horas de entrevistas, demandou um tempo de edição significativo. No total passamos mais de um ano na ilha de montagem, o que, pensando friamente, não chega a ser tanto!

Entrevista com Gilmar Mendes.

“Onde há ódio, já houve amor”. A frase dita por Luiz Estevão parece atravessar toda a história, tanto a da família Collor quanto a do país. Você diria que ela também se aplica ao modo como o Brasil vive a política?

A política brasileira sempre foi bastante regida por estes elementos, ódio e amor. De alguma maneira carrega uma violência intrínseca que pode ser vista à luz da nossa história, nosso passado escravagista e violento. É sintomática que Lula consegue ganhar uma eleição apenas quando vira “Lulinha paz e amor”. Para o bem e para o mal, o brasileiro tem uma maneira muito apaixonada e intensa de ver o mundo e as coisas. Isso pode ser ruim, às vezes. Collor se elege encarnando a figura do “salvador da pátria”. Enquanto nós, como sociedade, não deixarmos de lado essa crença na figura de um salvador, seguiremos dando passos para frente e para trás.

Como a série assinala, naquele momento havia medo de que o impeachment significasse a volta dos militares. Olhando para o Brasil recente, essa insegurança democrática era passageira ou estrutural?

É curioso pensar que após quase uma década de luta pela volta da democracia, conquistada plenamente com a eleição de Collor, ainda houvesse tanto medo de que o impeachment significaria a volta da ditadura. É interessante notar também — e este assunto não houve espaço para aprofundar na série — que Collor, com seu jeito meio autoritário, acabou por diminuir o poder dos militares dentro das estruturas de governo. Ele extinguiu o Serviço Nacional de Informações (SNI) em março de 1990, logo no início de seu mandato, cumprindo uma promessa de campanha e consolidando o poder civil. A medida visava desmantelar a estrutura de inteligência da ditadura e reduzir a influência militar. Centenas de funcionários (arapongas) foram demitidos, deixando o governo inicialmente sem um instrumento de inteligência interna. A ação foi vista como um passo importante, embora inicial, para o controle civil sobre os militares, em contraponto ao governo Sarney, tutelado pelos militares. Mas, como vimos no período 2018-2022, os militares persistem de certa forma como quase um quarto poder.

O Plano Collor e o impeachment marcaram uma geração e, de certa forma, moldaram a desconfiança que o brasileiro tem da política até hoje. Ao revisitar esses episódios, você sente que o que acontece na política é inevitavelmente o que acontece na vida das pessoas, fazendo inclusive com que traumas econômicos, como o confisco, possam virar traumas afetivos?

Sem dúvida, acredito que sim. Não há saída para as questões coletivas, para as grandes questões que temos que enfrentar, fora da política. E aí mora o perigo nestes momentos de “anti-política”.

Percebe-se que Collor foi produto de um Brasil que estava aprendendo a lidar com a própria imagem, com o marketing político e com a TV. Como você enxerga o papel da mídia nessa construção e desconstrução do mito?

A TV exercia um papel crucial na vida do país na década de 80. Havia mais lares com aparelhos de TV do que com geladeiras. O recorde de audiência na TV se dá nesta época, com a novela Roque Santeiro chegando a 80 pontos na audiência. Collor soube posicionar-se bem, soube usar o veículo da televisão a seu favor. Sua juventude e beleza ajudaram, bem como seus trejeitos fortes, firmes. A imprensa de modo geral — e aí destaco os veículos impressos, como a VEJA — tinha enorme influência. Foram um pouco omissos durante a eleição, mas foram estes mesmos veículos que acabaram investigando os escândalos da era Collor a fundo, sendo decisivos para a sua queda.

Luiz Romero Farias, irmão de PC Farias.

A TV era o grande palco da época. Se Collor tivesse à disposição o Instagram, o TikTok e os podcasts, você acha que teria se reinventado ou se queimado mais rápido? Essa tragédia romanesca da história brasileira teria espaço pra se desenrolar hoje, num mundo hiperconectado e onde a imagem é ainda mais vigiada?

Com certeza poderíamos ter algo parecido. Um fato curioso: Collor, durante o final de seu mandato como senador, nos anos 2019-2022, ressurge como uma figura “engraçadinha” no Twitter, fazendo piadas e dialogando com humor e sarcasmo com seus seguidores.

A série termina com a queda, mas há uma sensação de ciclo que se repete na política nacional. Os letreiros finais, ainda que sutis, apontam para isso. Você vê ecos dessa história nos líderes que vieram depois?

Acho que o povo brasileiro ainda cai nas armadilhas do político que se vende como “outsider”, como antipolítico. Há muitos paralelos nas eleições de Collor e Bolsonaro.

Contar uma história cujo personagem principal está vivo torna tudo mais fácil ou mais difícil? Foi considerado incluir depoimentos atuais do próprio Collor?

Creio que seja mais difícil. Começamos a filmar logo que Collor foi condenado pelo STF. Isso acabou fazendo com que uma série de entrevistados desistisse de dar seus depoimentos, pois não queriam estar associados a um condenado. Collor foi procurado para dar depoimento inúmeras vezes, mas sequer respondeu à produção.

Depois de tantos anos acompanhando essa história e suas figuras, o que foi mais forte ao ver tudo pronto: a sensação de conclusão ou a de que ainda há algo em aberto?

Para mim fica uma sensação de conclusão. Collor é um personagem histórico importante, além de ser um personagem muito peculiar. Me parecia inacreditável que não houvesse ainda um registro relevante sobre a era Collor. Eu queria muito fazer e fiz. E acho que ficou muito bom!

Foto: Senado Federal. Reprodução.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Por que amamos as celebridades?

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

To be an island

#21 Solidão

por Thais Graciotti Conteúdo exclusivo para assinantes

A chama do silêncio: os objetos são o refúgio

Design

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Controle remoto

#6 Verde

por Camila Fremder Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Yentl e Peèle

#24 Pausa

por mA.tO

Sujar de tinta: Mulambö e a arte de mergulhar no cotidiano

por Luísa Kiefer

Sobre a capa

#35 Presente

por Marcelo Amorim

Conversa com David Baker

#15 Tempo

por Eduardo Andrade de Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Cuidado com a língua

#41 Fagulha

por Rafael Julião

Corpo campo

#23 Educação Cultura

por Poli Pieratti Conteúdo exclusivo para assinantes

O Polochon de Lina Bo Bardi

Os povos indígenas: a educação indígena como saída para as crises atuais

#51 O Homem: Amarello 15 anos Cultura

por João Paulo Lima Barreto Conteúdo exclusivo para assinantes

Conteúdo oferecido por FARM Rio
Foto de Marcus Sabah em Realengo para o editorial Bate-Bola FARM Rio. Todos os direitos reservados aos autores.
CulturaDesign

Anatomia de uma roupa: Carnaval Carioca – Universo dos Bate-bolas por FARM Rio

por Revista Amarello

O Carnaval não precisa somente de sambódromo, camarote ou transmissão ao vivo para existir. Ele acontece onde houver gente disposta a celebrar. A criatividade brasileira sempre encontra um jeito de ocupar ruas, avenidas, vielas ou qualquer espaço capaz de abrigar energia, brilho e inventividade. E, nesse oceano de glitter e fervo, talvez ninguém encarne com tanta intensidade a vocação nacional para a folia quanto os bate-bolas.

“Para mim, o que os bate-bolas fazem é uma das coisas mais lindas que existem no mundo. Cada detalhe das fantasias conta uma história e eles fazem isso de forma sofisticadíssima, em muitas camadas. Isso é muito rico e é o extremo do que a gente faz na roupa casual. Por outro lado, até os dias de hoje, os bate-bolas são muito estigmatizados e colocados como uma cultura de violência. Mostrar o quanto essa cultura é coletiva, de família, de educação e de comunidade é fundamental.”

— Daniela Moritz,
Head de Direção Criativa da FARM Rio

Fotos de Marcus Sabah para o editorial Bate-Bola.

Símbolos da cultura popular carioca, oficialmente Patrimônio Cultural local desde 2012, os bate-bolas tomam de empréstimo as ruas do subúrbio do Rio de Janeiro com fantasias e máscaras vibrantes para manter viva uma tradição que atravessa gerações e se confunde com a história da própria cidade. Meses antes de aparecerem no desfile informal das ruas, essas fantasias começam a ser planejadas nos quintais da Zona Norte e da Zona Oeste do Rio. É ali, longe dos grandes palcos e da “programação oficial” de trios elétricos, que são pensados os temas, os desenhos dos figurinos e a organização das turmas. Esses grupos não se resumem apenas à imagem impactante do personagem mascarado que corre, dança e performa. Ele faz parte de um processo, de uma comunidade, de uma herança, de um conjunto de técnicas que não para de se reinventar. “É um trabalho”, comenta Daniela, “que acontece o ano inteiro e ensina muito para a comunidade.”

Os bate-bolas deixam claro que sistemas culturais complexos também se expressam por meio do vestir. E, em um país tão vasto e diverso como o Brasil, essas manifestações se multiplicam e assumem formas distintas, carregando histórias, símbolos e modos de vida. A FARM Rio entende isso muito bem e, sensível ao que pulsa para além dos holofotes, tem uma unidade criativa dedicada a projetos especiais e coleções-cápsula com foco cultural. 

“Dentro da FARM, temos uma unidade criativa que se propõe a falar da cultura brasileira com mais profundidade, com parcerias, vivências, pesquisas e imersões. Esse núcleo possibilita que a gente hoje tenha mais estrutura para convidar os protagonistas dessas histórias a contá-las junto com a gente. As coleções começam a ser desenvolvidas cerca de um ano e meio antes do lançamento e não seguem o calendário comercial da moda. Existe um comitê cultural, composto por pessoas de diversos times, que se reúne semanalmente para entender quais são as necessidades mais latentes para contarmos essas histórias. É uma troca amparada durante todo o processo de criação das coleções, da narrativa até a chegada no cliente final.”

— Domitila de Paulo,
Consultora de Comunicação e Marketing

O núcleo acolhe a complexidade de um país multifacetado e exuberante em suas muitas formas de existir, dedicando-se a investigações culturais aprofundadas. Como explica Daniela Moritz, “o grande barato de fazer moda é olhar para o Brasil”, especialmente quando existe “um tempo diferenciado para essa troca de saberes”. É como se as roupas deixassem de ser apenas objeto de desejo e passassem a operar também como linguagem e reflexão. “A gente olha pra roupa não apenas como um desejo estético, mas como um produtor de conhecimento da riqueza que a gente tem no Brasil.”

Nos últimos anos, por meio dessa célula criativa, a marca expandiu sua identidade carioca ao estabelecer diálogos com diferentes territórios e agentes culturais, como as indígenas Yawanawa e o artista e carnavalesco Alberto Pitta. Com a internacionalização, o olhar também se voltou para a América Latina, dando origem ao movimento Buena Gente. Em 2026, a marca assumiu o tema “As Cariocas” e naturalmente concentrou seu foco inventivo na cidade do Rio de Janeiro e nos movimentos culturais locais.

Chegar aos bate-bolas, portanto, foi questão de tempo. A unidade assumiu o desafio de olhar para além da superfície da festa e investigar as camadas sociais, históricas e simbólicas que sustentam a tradição do subúrbio carioca. Se pensar a anatomia de uma roupa significa desmontar o objeto final para compreender suas tramas invisíveis, no caso da fantasia de bate-bola isso envolve observar volumes, técnicas de costura, escolha de tecidos, composição cromática, iconografia, mas também compreender a tessitura social que permite que ela exista hoje e ontem. 

“Os bate-bolas”, conta Daniela, “sempre encantaram muito a Katia [Barros, fundadora e diretora criativa da FARM] e a mim também, e fazia muito sentido trazer esta homenagem neste ano. O encantamento levou à curiosidade e à pesquisa. O primeiro passo foi chamar o pesquisador Luiz Antonio Simas, a Rafaela Pinah, nossa parceira de muitos projetos, que vive de perto essa manifestação, e a Luiza Sousa, que tinha acabado de lançar um mini documentário sobre os bate-bolas para a Revista Amarello, para uma espécie de letramento de todo o time da unidade criativa. O Simas fez uma associação que me marcou muito relacionando o movimento bate-bola com a morte do indivíduo em prol de um corpo coletivo. Ao mesmo tempo que é meio denso, eu também acho lindo, porque diz muito sobre o nosso trabalho. A gente faz as coisas a muitas mãos e ama ser coletivo, colaborativo. E essa também é a beleza dos bate-bolas: passa de geração em geração, você trabalha o ano inteiro pra ter o momento de celebração coletiva no carnaval.” 

A pesquisa levou a equipe a Realengo, na Zona Oeste do Rio, bairro onde se concentra uma das tradições mais fortes do movimento. Entre aviamentos, brinquedos e rolos de tecido, encontraram o armarinho Peter Pan. O proprietário, Seu Hélio, é figura central na história. Por iniciativa própria, ele se tornou um guardião da memória dos bate-bolas, reunindo registros, fantasias e relatos ao longo dos anos. Esse gesto, feito de forma independente e movido por nada mais que compromisso afetivo, tem sido fundamental para preservar e fortalecer a tradição desses grupos.

Seu Hélio e Dona Gena do armarinho Peter Pan. Márcio e Gabriel Santos cabeças da turma Chapeleiro Louco. Gabriela Oliveira e Cristiano Plácido carnavalescos. 

Muito embora existam há décadas, os bate-bolas nem sempre tiveram a atenção midiática que mereciam. Porém, sempre houve quem lhes desse o devido valor, como Seu Hélio, que enxergou a beleza desses grupos. Se os jornais não tinham interesse em tirar fotos dos cortejos, tudo bem, Hélio tiraria. 

“Quando olhamos para o Seu Hélio, entendemos que a existência dele e do armarinho Peter Pan eram uma resistência cultural dos bate-bolas, ainda que ele nunca tenha sido um bate-bola de fato. Ali existe um registro de muitos anos, um acervo de uma pessoa apaixonada por essa cultura que possibilitou que a gente construísse um visual que representasse também o nosso encantamento.” 

— Zuri Kennedy, 
Especialista em cultura e narrativas

Há mais de trinta anos, o comerciante fotografa as turmas que passam por sua porta antes de sair às ruas. Cada fotografia carrega nomes, histórias, mudanças de geração, transformações estéticas. Observando as imagens, percebe-se a evolução das silhuetas, a intensificação das cores, a incorporação de novas referências visuais. Ao mesmo tempo, há permanências, como o volume exagerado, o brilho, a dramaticidade. “O acervo de fotografias dele”, comenta Daniela, “foi uma super inspiração para a gente. Para a construção da coleção, a visita ao armarinho foi crucial e mudou muita coisa do que eu estava imaginando.”

Registro do processo criativo. Foto FARM Rio.

A mensagem estava posta: o bate-bola não pode ser reduzido à estética. Ele é estrutura social, economia local, cadeia produtiva que envolve bairros inteiros. É tempo investido coletivamente, ao longo de meses, em torno de um projeto comum. 

Foi justamente essa dimensão que chamou a atenção de Domitila durante o processo. Para ela, além do impacto visual dos bate-bolas, “a camada da coletividade” merece destaque. “O ‘fazer junto’”, afirma, “faz parte da felicidade, da autoestima, da comunhão familiar. E é muito importante o reconhecimento dos artistas responsáveis pela permanência de uma das linguagens culturais mais potentes do Brasil, que é o carnaval. Por vezes, a gente olha muito para o encantamento, a beleza, mas eu acho que a camada do coletivo é uma das mais bonitas. É onde as pessoas se veem e se reconhecem. A camada da construção de autoestima que o carnaval traz, no território do Rio de Janeiro, é uma das coisas mais bonitas de ser observada.”

A equipe se aproximou também da Turma do Chapeleiro Louco, acompanhando suas dinâmicas. Ativo desde 1989, o grupo abriu as portas de casa para a FARM, revelou etapas essenciais do processo de criação das fantasias e foi fundamental para o nascimento da peça alegórica que veio simbolizar a coleção. O nome do grupo, inspirado no personagem excêntrico de Alice no País das Maravilhas, vem a calhar: há um componente teatral e imaginativo evidente na concepção dessas indumentárias. Como, então, transformar essa densidade em linguagem de moda? Como traduzir exuberância sem caricatura? Como preservar a potência simbólica ao deslocar o contexto? 

Registro do croqui da peça alegórica.
Peça alegórica fantasia de Bate-bola. Foto Marcus Sabah.

Rafaela Pinah, que participou da pesquisa, ajudou a traçar caminhos.

“Sou cria de Realengo, bairro que, na minha opinião, é a capital dos bate-bolas. Dentro das suas características estéticas, o bairro mudou esse percurso do clown ou do clóvis europeu para beber muito da Folia de Reis, do Babá Egun, da La Ursa do Recife… Foi incrível fazer parte dessa pesquisa, dividir minha vivência e apresentar os criadores dessa cultura, os verdadeiros estilistas que trabalham nisso o ano inteiro. Acho que a FARM teve um cuidado muito grande de ouvir essas pessoas e estar no território. Levar os meninos pra dentro do universo da FARM e apresentar pro time da FARM quem são os cabeças de turma, como os temas são desenvolvidos, foi uma conexão verdadeira. Existe um lugar similar de construção de identidade que foi muito genuíno.”

— Rafaela Pinah,
Pesquisa, direção criativa e styling para o editorial Bate-Bola da Farm

Se as fantasias originais se caracterizam por volumes amplos, mangas infladas, balonês dramáticos, a coleção precisaria incorporar essa lógica formal. Mas não fazendo uma cópia literal. A tradução exigiu estudo técnico: tecidos capazes de sustentar forma, construção interna que garantisse volume, acabamentos precisos que mantivessem sofisticação.

No processo de criação, Daniela Moritz partiu da forma como as fantasias transitam entre referências diversas, especialmente personagens do imaginário popular. “As fantasias dos bate-bolas sempre falam de personagens do universo infantil ao mesmo tempo que passeiam por outros universos”, explica. Esse trânsito entre repertórios guiou a criação das estampas, que buscaram estabelecer um diálogo entre essa tradição e o próprio DNA da marca. “Fomos atrás dos personagens da nossa raiz, do DNA da FARM, como o tucano e a arara, que tinham que estar representados, assim como Realengo e outros ícones do Rio.” 

Detalhes da coleção.

Em vez de reproduzir diretamente a estética das turmas, optou por traduzir suas camadas históricas por meio da cor e da linguagem gráfica. “Na coleção, as representações das gerações ficam mais evidentes na cartela de cor. As estampas em preto e branco representam as referências do carnaval antigo, como clóvis e pierrot, e as mega coloridas representam o contemporâneo”, afirma a designer. Assim, o preto e branco funciona como memória, enquanto a explosão cromática incorpora a energia atual das ruas, muitas vezes marcada por uma estética próxima ao cartoon e pela mistura intensa de símbolos. 

O resultado é a coleção Carnaval Carioca: O universo fantástico dos bate-bolas.

“Essa é uma cultura extremamente marginalizada”, conta Rafaela Pinah, “e quando a FARM, uma marca global, vem de um lugar tão positivo fazendo essa campanha e apresentando esse universo tão rico pro mundo é muito prazeroso. Depois do lançamento, umas 10  turmas procuraram o escritório Coolhunter Favela para entender como esse encontro aconteceu. Teve uma mãe que me falou ‘eu não sabia que meu filho era um artista’. Então, ver pessoas que consomem a marca vendo os bate-bolas por outro viés prova que é possível a gente falar das culturas e dos feitos que estão desse lado do túnel, o lado que o Cristo está de costas. Essa coleção abarca todos os que são bate-boleiros e têm a vivência dos bate-bolas.”

Vestir uma peça inspirada nesse universo é inscrever no corpo uma narrativa coletiva. A moda, nesse contexto, opera como mediadora entre mundos, conectando o subúrbio ao circuito ampliado, aproxima tradição e contemporaneidade, coloca o fazer artesanal em diálogo com o sistema industrial. A anatomia dessas roupas revela, então, camadas sobrepostas: desenho, corte, costura, matéria-prima, além de escuta, pesquisa, deslocamento e responsabilidade cultural.

“A FARM sempre teve um olhar muito genuíno para o Brasil”, finaliza Zuri Kenedy. “De uns anos pra cá, tivemos uma virada de chave de olhar para os movimentos brasileiros por um viés de inspiração, mas decidimos ir além: queremos que essas histórias sejam contadas a partir das pessoas que as escreveram. O carnaval é a máxima potência do fazer manual e também da história do Rio, que é uma verdade para a FARM. Nosso interesse é celebrar quem continua perpetuando uma cultura. Quando buscamos os bate-bolas, quisemos nos conectar com quem fazia tudo de forma manual. Construir legado a partir dos fazeres genuínos do Brasil é o nosso jeito de contribuir para que uma cultura se mantenha viva.”

Lançada como parte de um movimento maior de exaltação da cultura carioca, a coleção carrega consigo o tempo do preparo, o gesto coletivo e o saber acumulado, honrando a cadeia de relações que permitiu que cada uma dessas peças existisse.

O que se veste é uma história compartilhada.

Descubra a coleção Carnaval Carioca: O universo fantástico dos bate-bolas

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


O exílio é uma insônia constante

por Revista Amarello

Qué ficar bunitu?

#4 Colonialismo

por Paulo Nazareh Conteúdo exclusivo para assinantes

Dois e dois são dois: Renato Noguera e Nêgo Bispo

#40 Demolição

Culto à juventude: qual é o lugar dos anos na sociedade?

Sociedade

Filhos na crise climática: escolha moral ou salto de fé?

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Se você pode sonhar, pode fazer

#13 Qual é o seu legado?

por Jair Peres Conteúdo exclusivo para assinantes

Transformações aceleradas

#32 Travessia

por Vanessa Agricola

Casa de Campo

#12 Liberdade

por Luis Lópes Navarro Conteúdo exclusivo para assinantes

A vez do peru

#12 Liberdade

por Juliana Cunha Conteúdo exclusivo para assinantes

Arte viva e em mutação: a alquimia de Nati Canto

#52 Satisfação Artes Visuais

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Como nasce uma tragédia? A crise Yanomami e a relação do Brasil com os indígenas

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Tenho, logo sou?

#44 O que me falta Cultura

por Camila Yahn Conteúdo exclusivo para assinantes

Mestre Sidão.
#54EncantoCulturaEducação

Aprender a escutar: uma conversa com Mestre Sidão e Eronides Andrade

por Gean Ramos Pankararu

Mestre Sidão é uma figura rara, dono de um conhecimento múltiplo e místico. Artesão, cantador, rezador e filho do povo entre serras Pankararu. Estamos em lugar reservado, cercados de serras e de medicinas tradicionais da caatinga. Sidão fuma seu campiô. Quando encerramos, é porque a hora determina. O que é falado é ouvido. Esperamos não ter ofendido a espiritualidade. Respeito e gratidão. Obrigado mesmo. 

Seu nome completo e idade? 

Aparecido Nascimento Sá. Tenho 47 anos. Nome artístico: Sidão Pankararu. 

O que é encantado pra você? 

É um ser que a gente não vê, mas a gente tem a fé de que, naquele canto, a gente consegue sentir sua presença, mas ele se apresenta em algum lugar. Às vezes tem um pássaro que chega bem perto, a pessoa consegue sentir aquela força, e a gente entende que são eles que estão por perto, através do vento e de várias formas. 

Você lembra de alguma passagem da sua vida sem os encantos, sem os Encantados? 

Lembro. Desde criança, meu pai me levava para tradição, mas não tinha aquela aproximação com eles, a gente não podia estar muito próximo, tinha que estar meio distante. Os mais velhos, naquele tempo, eram mais rígidos, era muito cuidado. A gente não podia nem assobiar fora de hora, não podia assobiar de noite. Às vezes não podia nem sussurrar os toantes deles. A relação com eles me foi chegando mais próximo dos treze anos. De lá pra cá, a gente vem observando, né? Cada local que a gente vai, cada toante que é cantado, a gente vai observando. Durante esse tempo todinho, foi sendo mais forte a relação com os Encantados. 

No seu dia a dia, como é a sua relação com eles? 

A minha relação é que pra mim eles estão em todas as partes. A minha relação é de amor, de respeito, de ser humilde. Porque, pra mim, eles estão em todas as partes. Todo dia, toda hora. 

Você hoje toma uma decisão sem estar lembrando deles? 

Não. Hoje até pra amanhecer o dia, ou anoitecer, não fico sem falar ou sem agradecer a Deus, primeiramente, e a eles. Tudo eu converso com eles, peço permissão.  

Hoje não dá pra fazer qualquer coisa e não pedir permissão e orientação, que eles me mostrem, porque isso é o que me faz ser forte, isso que me faz ser um seguidor, uma pessoa forte da tradição. É através dessa forma que eles me mostram. 

Qual é a forma mais forte de sentir a presença deles? 

O silêncio. Tá concentrado. Tá nas matas. 

E sua relação com o canto? 

Em relação ao canto, posso dizer que a gente ouve os mais velhos cantar as toadas, aí a gente chama nossos cantos de toante. E a gente ouve os mais velhos e aprende a cantar, mas muitos vêm do divino, muitos vêm na mente. Às vezes, a gente canta e outros escutam e perguntam com quem a gente aprendeu, quem ouviu cantar, mas muitas vezes os cantos chegam na hora. Acho que essa conexão com eles é algo divino mesmo. 

Os Encantados fazem parte da sua relação familiar? 

Sim, com certeza. As minhas filhas, a minha esposa, a minha netinha… Todas são da tradição e eles fazem parte do dia a dia. Tanto na tradição como na concentração, no respeito. 

Você considera que é um sacrifício viver essa relação? 

Sacrifício, não, isso é uma devolução, vou dizer assim. Uma missão com muito amor, muito respeito. Não tenho nem como não agradecer. 

Você é cantador de terreiro, rezador. O que fez você escolher seguir essa missão? 

Sou cantador de terreiro de tradição, sou rezador de Ramo. O que me levou a querer seguir foi minha mãe, que me ensinou. Ela era rezadeira, meu pai também, e eu pedi a eles que me ensinassem. De todos os meus irmãos, só eu aprendi, e graças a Deus tem dado certo, abaixo de Deus e da Força Encantada. 

Fale sobre os remédios e as ervas. 

A gente prepara os remédios, uma mesinha com as ervas medicinais aqui, das folhas, das flores, da raiz, da casca, da semente. Esse preparo é passado pelos nossos Encantados, tem relação direta com eles. Isso é passado de geração em geração, do meu bisavô, meu avô, do meu pai, do meu tio-avô. 

Você relaciona sua arte com os Encantados? 

Cada peça esculpida é uma forma de agradecer, cada peça que faço é como eles se apresentam pra mim. Vejo eles ali, seja numa madeira, numa pedra, no chão, numa árvore. Às vezes até nas folhas. Às vezes eu nem mostro para o povo o que eu estou vendo, acredito que eles me mostram algo que é para só eu ver. Tudo que eu esculpo é minha relação com os Encantados e com meu dia a dia. 

Qual é a importância da natureza, da caatinga? 

Tem que preservar mais. Sem a natureza a gente não vive, as frutas para os bichinhos, as ervas medicinais… E tem que saber o dia de tirar, a lua, o tempo da lua, a posição. A natureza é viva. A gente tem que cuidar e preservar. Eu me sinto muito bem na mata. O silêncio é bom. O cheiro é bom. A caatinga é desprezada, mas é o bioma mais originário do país. 

E a medicina tradicional da caatinga? 

Tudo vem da caatinga. Da minha parte, nunca veio de fora. Só o mel está em falta, por causa da devastação. O mel da uruçu, da papaterra, da mandaçaia, do arapuá, da abelha branca, da abelha-mosquito, da italiana… Tudo isso era remédio, era xarope para as crianças. Hoje tá difícil. Se as abelhas se afastam, é sinal ruim. Os pássaros e as caças também não tem mais. Quando alguns aparecem, é um sinal, uma mensagem. Meu pai dizia que tinha pássaro que só aparecia no tempo das trovoadas, das chuvas. Nunca mais eu vi, e isso é a resposta de como está o fator climático, a devastação provoca tudo isso. 

Qual é a sua maior preocupação hoje? 

Que fique pior do que já está. 

O que é ser Pankararu? 

É ser guerreiro, ser forte, respeitar os Encantados, a natureza, os pássaros. 

Se você pudesse mandar uma mensagem para a humanidade, qual seria? 

Que tivesse mais respeito, mais amor, que cuidassem mais. Tem alguns que fazem sua parte, estão entendendo sua missão. Cada um tem seu valor. Tem muita gente que não precisa de mais nada, e mesmo assim tem muita ganância. O planeta está sofrendo. Eu lembro que meu pai plantava um litro de feijão e tirava dez sacos. Hoje planta dez litros e não tira nem um saco. Isso é uma resposta, cada vez mais tá diminuindo. 

Você acredita no ser humano? 

Não. Eu acredito em Deus. Acredito na força encantada. E eu acredito que alguns seres humanos têm consciência e outros não estão nem aí. E a conta chega pra todo mundo, como dizem nossos Encantados, a chicotada vem para todo mundo. Para quem não fez e quem fez. 

E os sonhos com a espiritualidade? 

Minha relação com sonhos, posso dizer, é de que são uma mensagem. Às vezes vem pra mim, às vezes vem pro meu irmão, pra minha filha, pra minha esposa. A espiritualidade está nesses recados. 

Você se imagina mantendo essa relação no futuro? 

Sim. Nunca me mudou o pensamento. Não nego meu natural. Agradeço muito a Deus e a eles. Enquanto houver vida, minha fé e meu agradecimento aos meus encantos e meu pensamento não mudam. 

Quem se afasta, nós ou eles? 

As duas partes, mas, quando a missão é divina, mesmo se afastando, eles ficam perto. 

E um mundo sem os Encantados? 

Não. Não sei nem como seria. Para mim, eles são os filhos que Deus pôs no mundo para trazer a mensagem Dele pra Terra e pra humanidade. 

Eronides Ramos Andrade.

Seu nome completo e função?

Eronides Ramos Andrade. Vice Presidente do Instituto Aió Conexões Pankararu, Educador ambiental.

Quais trabalhos você desempenha dentro do território?

Supervisão dos serviços de Saneamento ambiental, recuperação de área degradada, viveirista de plantas nativas da caatinga

Qual a importância desse trabalho para a manutenção do território?

Manutenção das boas práticas de cultivo e extrativos dos elementos sagrados da natureza através da informação e da educação ambiental sobre os processos e utilização da matéria prima como elemento sagrado. Croa, imbuzeiro, licurizeiro, coité, Jurema, abelhas com e sem ferrão.

Seu trabalho tem relação com os encantados?

Diretamente e indiretamente, pois promover um bem está ambiental é cuidar e zelar pelo encanto. A casa dos encantado é simbolizada por elementos que manuseamos diariamente, as plantas, os remédios, os processos de tratamento e cura por força do sagrado.

Na cosmovisão Indígena qual a forma de cuidar do meio ambiente?

Observar os sinais da natureza, respeitar todas as potencialidades, enxergar como força absoluta de coexistência. Sem esses elementos não haverá garantias de manutenção longa, como, por exemplo, sem as abelhas, os estudos comprovam que não há multiplicação das plantas, produção dos frutos. Não haverá vida.

Qual a importância da biodiversidade caatinga e como é importante para os encantos?

Entender que a biodiversidade da caatinga é única, e nela habita os corpos físicos e os espíritos que movem toda força ancestral dos espaços sagrados que compreendem as nações dos diversos espaços e Etnias.

Precisamos observar o comportamento das maiores organizações que são as formigas e as abelhas, que exercem funções individuais diariamente. Ações individuais que se complementam, e isso é um sinal de que a natureza está nos ensinando como devemos fazer, mas ignoramos os ensinamentos da natureza sagrada para acompanhar práticas herdada da colonização adoecida pela ganância do capitalismo. Seria razoável observar e respeitar os espaço sagrados como elementos que nutrem nossos corpos, nossa mente, nosso espírito. A Mãe Terra nos faz sonhar e nos transporta para um estado de conexão com forças sagradas. Terra, ar, água e fogo.

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Amarello Visita: Anália Moraes e Fernanda Pompermayer

#50 Família Amarello Visita

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Oficina

#23 Educação

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

Ao longo dos séculos

#27 Perspectivas

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

Portfólio: Os desenhos urbanos de Bruna Canepa

#25 Espaço

por Angelo Bucci Conteúdo exclusivo para assinantes

Culto à juventude: qual é o lugar dos anos na sociedade?

Sociedade

Dentro de casa, fora de casa

#24 Pausa

por Leandro Ishioka Conteúdo exclusivo para assinantes

Caminhos para o autoamor

#44 O que me falta

por Janaína Portella

Futuros Possíveis

#37 Futuros Possíveis

por Zé Manoel

Criança ou quando a água do tobogã acaba

por Marina Lattuca

Pagu

#2 Nu

por Roberta Ferraz Conteúdo exclusivo para assinantes

o ponto

#51 O Homem: Amarello 15 anos Literatura

por Bruno Cosentino Conteúdo exclusivo para assinantes

Já escutou?

por Janluska

Foto de Nahuel Maretich. Unsplash.
CinemaCultura

Streaming e o futuro do audiovisual brasileiro

por Revista Amarello
Projeto de lei debate a dimensão estratégica do audiovisual nacional para o futuro do país.

Em tramitação no Congresso desde 2022, o Projeto de Lei nº 2.331, conhecido como “PL do Streaming”, voltou ao centro do debate público nos últimos meses ao expor tensões antigas e mal resolvidas do setor audiovisual brasileiro. A proposta, que busca regulamentar a atuação das plataformas de streaming no país, visa instituir uma nova modalidade da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) e estabelece cotas mínimas de conteúdo nacional nos catálogos digitais. Embora exista um consenso amplo sobre a necessidade de regulação, o desenho final do projeto tem provocado reações divergentes e, em alguns casos, até ruidosas.

O estopim mais recente da controvérsia foi a manifestação pública do ator Wagner Moura, mais sob os holofotes que nunca, que classificou o projeto como “bizarro” e alertou o governo federal para o que considera uma oportunidade desperdiçada de fortalecer a soberania cultural do país. A fala viralizou, dividiu opiniões nas redes sociais e escancarou um racha que já vinha se desenhando entre artistas, produtoras independentes, sindicatos, plataformas e agentes públicos.

A celeuma se dá muito em parte pela arquitetura da taxação proposta. O texto aprovado na Câmara prevê uma alíquota de 4% sobre o faturamento bruto de plataformas fechadas, como Netflix, Prime Video, Globoplay e Disney+, e de 0,8% para plataformas abertas, como YouTube e TikTok. O Governo Federal, por sua vez, defende uma alíquota unificada de 3%. Os recursos arrecadados alimentariam o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), responsável por financiar produções nacionais.

Para críticos do projeto, como Moura, o percentual é insuficiente diante da dimensão do mercado brasileiro, hoje um dos mais relevantes para as grandes plataformas globais.Em 2024, a Netflix somava cerca de 25 milhões de usuários no país e, por incrível que pareça, hoje já não é o maior streaming do Brasil, já que, no ano passado, a Prime Video ultrapassou esse número. Esses dois casos ajudam a dimensionar o peso econômico do Brasil na estratégia das maiores empresas do setor. O texto também abre a possibilidade de que até 60% do valor devido seja investido diretamente pelas próprias plataformas em produções nacionais escolhidas por elas, incluindo conteúdos originais. Na avaliação de entidades e produtores independentes, esse mecanismo esvazia o papel do fundo público e reforça a concentração de poder nas mãos das big techs do audiovisual.

A produção independente, historicamente responsável por oxigenar o setor, diversificar narrativas e ampliar o acesso a recursos fora dos grandes conglomerados, se vê ameaçada. E não é à toa. Ao permitir que plataformas invistam em seus próprios projetos, críticos argumentam que o PL corre o risco de institucionalizar uma lógica de fomento que favorece quem já controla a distribuição, o financiamento e a visibilidade das obras.

Por outro lado, sindicatos como o Sicav e o Siaesp defendem o texto aprovado como um avanço inédito. Em carta pública, as entidades afirmam que a regulação chega com pelo menos uma década de atraso e que, mesmo com limitações, representa uma correção necessária de um desequilíbrio estrutural. Para esses grupos, as plataformas exploraram o mercado brasileiro por anos sem qualquer contribuição obrigatória, enquanto o modelo tradicional de financiamento do audiovisual foi sendo erodido. Segundo estimativas apresentadas pelos sindicatos, a aprovação do PL poderia gerar até R$1,5 bilhão por ano para o setor, com pelo menos R$600 milhões destinados diretamente ao FSA.

A comparação internacional parece inevitável ao debate. Na Europa, ao menos 17 países já adotam mecanismos semelhantes, com alíquotas que variam de 0,5% a 25%, dependendo do tamanho do mercado e do modelo regulatório. França, Itália e Dinamarca figuram entre os países com maiores percentuais, combinando taxação direta com cotas robustas de conteúdo local. Na França, por exemplo, plataformas podem investir diretamente até 75% do valor devido; na Itália, esse percentual chega a 100%. Defensores do PL brasileiro usam esses exemplos para argumentar que o modelo proposto não foge aos padrões internacionais.

Críticos, porém, apontam que exige cautela. As cotas europeias frequentemente se referem a conteúdo “europeu”, um conceito mais amplo que envolve dezenas de países, enquanto o Brasil trabalha com uma cota exclusiva de obras nacionais. Outro ponto levantado é que o Conselho Superior de Cinema já recomendou, no passado, uma alíquota de 12% para o mercado brasileiro, valor considerado mais compatível com sua relevância global.

A polêmica também revelou fissuras políticas e institucionais. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, tem defendido a regulamentação, mas ressalta que o ministério não é responsável pela redação final do texto. Nos bastidores, acusações cruzadas, áudios vazados e disputas de narrativa expuseram um campo cultural longe de falar em uníssono — um contraste com a imagem de consenso que muitas vezes se tenta projetar em debates sobre políticas públicas para a cultura. Após a repercussão do vídeo do ator indicado ao Oscar, passaram a circular nas redes áudios atribuídos à empresária Paula Lavigne, nos quais ela sugere motivações políticas por trás da manifestação de Wagner Moura. A Associação Paulista de Cineastas (Apaci) reagiu publicamente, saiu em defesa dos citados e classificou o material como difamatório, apontando uma tentativa de deslegitimar o debate sobre a regulação do audiovisual.

Nesse caldo que seguirá borbulhando por um bom tempo, o anúncio do Tela Brasil, streaming público do Governo Federal, adiciona uma nova camada ao debate. Prevista para ser lançada no primeiro trimestre de 2026, a plataforma nasce como um serviço gratuito de vídeo sob demanda dedicado exclusivamente à exibição de produções audiovisuais brasileiras. Concebida pelo Ministério da Cultura em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a iniciativa se propõe a funcionar como uma vitrine pública permanente do cinema e da produção seriada nacional, reunindo cerca de 555 obras entre curtas, médias e longas-metragens, além de documentários, animações e séries.

O sucesso recente de filmes como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui ajuda a explicar a repercussão positiva em torno do anúncio da plataforma, que foi interpretada pelo próprio Ministério da Cultura como um sinal do “orgulho e do desejo da sociedade brasileira de acessar sua Cultura”. O acesso será feito por meio de login vinculado à conta gov.br, estratégia que reforça a integração com outras políticas públicas digitais e amplia o alcance do serviço, embora, ao menos inicialmente, o aplicativo esteja disponível apenas para dispositivos Android.

Mais do que um streaming estatal, o Tela Brasil é apresentado pelo governo como um instrumento de política cultural estruturante. Segundo a Secretaria do Audiovisual, trata-se de uma iniciativa que “oferecerá gratuitamente à população conteúdos audiovisuais brasileiros” e que busca “reafirmar a cidadania cultural, mobilizar a expressão simbólica da população e potencializar o mercado audiovisual por meio da formação de público e da geração de demanda”. 

Inserido no debate sobre o PL do Streaming, o Tela Brasil revela um movimento complementar da atuação do Estado no campo audiovisual. Enquanto a regulação das plataformas privadas busca equilibrar a exploração econômica do mercado brasileiro, o streaming público aponta para a outra ponta da cadeia: a difusão, o acesso e a preservação da memória audiovisual. Ao lado da discussão sobre alíquotas, cotas e fundos setoriais, a existência de uma plataforma pública reforça a ideia de que o fortalecimento do audiovisual não depende apenas de arrecadação, mas também da construção de circuitos de circulação capazes de formar público, reduzir desigualdades de acesso e ampliar o espaço para obras que dificilmente encontrariam visibilidade no ambiente dominado por algoritmos globais.

Se o PL do Streaming ainda expõe impasses sobre quem controla os recursos e quais interesses prevalecem na relação entre Estado, mercado e cultura, o Tela Brasil funciona como um gesto político claro de afirmar que o audiovisual brasileiro é também um bem público. 

A tecitura toda dos eventos traz à baila perguntas centrais: quanto vale o mercado do streaming no Brasil e que papel a cultura ocupa no projeto de país que se pretende construir? Apesar das divergências, há um ponto de convergência difícil de ignorar: o vácuo regulatório é insustentável. O Brasil abriga o maior mercado audiovisual da América Latina e segue operando, no ambiente digital, sem diretrizes nacionais claras que equilibrem interesse público, diversidade cultural e inovação econômica. O PL do Streaming, com todas as suas imperfeições, surge como uma resposta tardia, talvez falha, a uma transformação profunda no modo como se produz, distribui e consome audiovisual.

Que futuro vem aí? Um em que a cultura é tratada apenas como ativo de mercado, ou um em que o Estado exerça um papel estratégico na preservação da diversidade, da autonomia criativa e da soberania simbólica? A regulamentação é inevitável. O desafio está em decidir se ela servirá apenas para organizar o jogo ou se será capaz de redefinir suas regras.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


O Naufrágio

#32 Travessia

por Thais Graciotti

China: admirada na economia, incompreendida na política

#56 O que está acontecendo? Sociedade

por Evandro Menezes de Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

A chama do silêncio: os objetos são o refúgio

Design

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

1915 Bloodshed and Oppulence

#1 Mudança

por Antonio Biagi Conteúdo exclusivo para assinantes

Para o raio que o parta

#12 Liberdade

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

Serei sua: o amor e a ideia de posse

Cultura

por Poli Pieratti

A Estética da Gambiarra

#26 Delírio Tropical

por Melina Dalboni Conteúdo exclusivo para assinantes

Capa de Silvana Mendes

#37 Futuros Possíveis

por Silvana Mendes

Martyrs: terra, ar, fogo e água

#16 Renascimento

por Bill Viola Conteúdo exclusivo para assinantes

O devir-negro do mundo algorítmico: necropolítica, engenharia molecular e a resposta do pensamento radical negro

#56 O que está acontecendo? Sociedade

por Rafael de Queiroz Conteúdo exclusivo para assinantes

Ócio criativo sem limites

#24 Pausa

por Jair Peres Conteúdo exclusivo para assinantes

Os 10 anos da Lei de Cotas

#41 Fagulha
A Grande Muralha da China. Foto de Robert Nyman. Unsplash.
Sociedade

O século dos engenheiros? China e o novo velho mundo

por Revista Amarello
Livro analisa o pensamento dominante nos países para apresentar uma investigação sobre como diferentes formas de governar moldam economias, cidades e futuros.

Em Breakneck – China’s Quest to Engineer the Future, Dan Wang propõe uma chave de leitura simples (e, por isso, provocadora) para compreender a China contemporânea e por contraste entender também os Estados Unidos. 

O ponto de partida é: observar os países a partir de seus tipos dominantes de elite e de racionalidade política, isto é, engenheiros e advogados. De um lado, a China como um “Estado engenheiro”, obcecado por construir, escalar e acelerar; do outro, os Estados Unidos como uma “sociedade de advogados”, marcada por procedimentos, disputas jurídicas e vetos sucessivos. A interessante proposta de análise faz com que esse seja mais do que um ensaio comparativo entre duas superpotências, entre o “capitalismo” e o “socialismo”, mas, de fato, uma investigação sobre como diferentes formas de governar moldam economias, cidades, subjetividades e, talvez acima de tudo, futuros possíveis.

Wang escreve a partir de uma posição singular, o que dá à abordagem a especificidade para torná-la original. É canadense de origem chinesa e tem passagem por universidades americanas e pelo mercado financeiro, e vive em cidades chinesas há anos. Com relação a Pequim, evita tanto a demonização fácil quanto o deslumbramento acrítico diante de seus feitos materiais. Tem-se, então, um retrato ambivalente: um país capaz de tirar centenas de milhões da pobreza e, ao mesmo tempo, impor políticas de controle social de escala quase inimaginável. É como se progresso e violência caminhassem lado a lado, impulsionados por uma mesma lógica de eficiência técnica.

Um dos conceitos centrais do livro, o desse “Estado engenheiro”, ajuda a entender a contradição. Desde as reformas de Deng Xiaoping, líder da República Popular da China entre 1978 e 1992, o país foi governado majoritariamente por pessoas com formação técnica, muitas delas engenheiras. Essa elite compartilha uma visão de mundo que trata problemas sociais como desafios de projeto, algo a ser resolvido com planejamento, metas claras e execução rápida. Falta moradia? Constrói-se em massa. Falta infraestrutura? Pontes, trens e barragens surgem em ritmo vertiginoso. Há um vírus constituindo uma ameaça? Isolam-se cidades inteiras. Há “gente demais”? Limita-se o número de filhos. 

Condensada em slogans numéricos, como “um filho” ou “zero Covid”, essa clareza de objetivos revela tanto a força quanto o perigo dessa mentalidade.

Ao longo do livro, Wang demonstra como essa obsessão por construir moldou a paisagem chinesa. Províncias pobres como Guizhou, isoladas por montanhas e historicamente marginalizadas, tornaram-se vitrines de obras monumentais: estradas suspensas, pontes gigantescas, trens de alta velocidade. A infraestrutura funciona não apenas como motor econômico, mas como instrumento de legitimidade política. 

Para milhões de pessoas que viram suas condições materiais melhorarem em poucas décadas, o concreto e o aço são provas visíveis de que o país avança. A sensação de progresso físico, argumenta o autor, gera orgulho e adesão, algo cada vez mais raro em sociedades onde quase nada novo parece ser construído.

Mas Breakneck insiste em olhar também para o que fica fora do enquadramento triunfal. A mesma lógica que permite erguer cidades em tempo recorde é capaz de arruinar vidas com rapidez semelhante. Wang descreve como políticas desenhadas de cima para baixo produzem efeitos brutais quando erram o cálculo. O colapso demográfico provocado pela política do filho único, o trauma coletivo dos lockdowns prolongados e a destruição súbita de setores econômicos inteiros após decisões regulatórias abruptas são exemplos. Em um sistema com poucos canais de contestação, erros acabam não sendo corrigidos gradualmente e se impõem como uma realidade incontornável.

E, claro, a comparação com os Estados Unidos reforça o argumento. Enquanto a China constrói em excesso, os EUA parecem incapazes de construir o suficiente. Projetos de infraestrutura se arrastam por décadas, travados por processos legais, disputas ambientais, interesses locais e uma cultura política que privilegia o procedimento em detrimento do resultado. Wang, assim, constitui o contraponto, num ataque duplo que não absolve a sociedade de advogados. Muito embora reconheça o valor das proteções legais e dos freios institucionais, ele aponta como essa lógica acabou produzindo paralisia, desigualdade e um sentimento generalizado de impotência coletiva.

O que faz a leitura valer é que o livro não se limita a um diagnóstico binário. Há, por trás da divisão proposta, uma pergunta mais profunda: é possível conciliar velocidade com direitos, construção com participação, eficiência com humanidade? Ao mostrar os excessos do Estado engenheiro e as disfunções da sociedade de advogados, o autor sugere que nenhuma das duas oferece, isoladamente, um modelo desejável. A China paga um preço alto por sua capacidade de agir sem ouvir; os Estados Unidos pagam outro por sua dificuldade crônica de agir.

No pano de fundo dessa análise está a disputa geopolítica que deve definir o século XXI. A capacidade chinesa de produzir em escala (infraestrutura, bens industriais, tecnologia) é um feito econômico e um trunfo estratégico. Ao mesmo tempo, a centralização extrema do poder e a supressão de dissenso fragilizam a resiliência do sistema. Wang evita previsões fáceis sobre vencedores e perdedores. Seu interesse está menos em declarar um campeão e mais em alertar para os riscos de trajetórias que parecem, cada uma à sua maneira, levadas ao limite.

Escolhas políticas disfarçadas de decisões técnicas podem levar ao fracasso. Para a China. Para os Estados Unidos. Para o mundo. 

Ao tratar sociedades como sistemas a serem otimizados, governos podem ganhar velocidade, mas perdem sensibilidade. Ao priorizar processos e salvaguardas, podem proteger indivíduos, mas sacrificam a capacidade de transformação coletiva. Entre engenheiros e advogados, o futuro não será apenas construído. O futuro será disputado, interpretado e, de um jeito ou de outro, contestado.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Sobre o consumo

#52 Satisfação Filosofia

por João Quartim Moraes Conteúdo exclusivo para assinantes

Abui

#14 Beleza

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

O Nascimento do Homem-Todo

#36 O Masculino

por Vicente Góes Conteúdo exclusivo para assinantes

Todos estão surdos?

#33 Infância

por Helena Cunha Di Ciero

A Diasporadical Triology como contraimagem do Brasil “pra inglês ver”

#55 Imagem Brasil Cultura

por Rafael de Queiroz Conteúdo exclusivo para assinantes

Teatro Anatômico da Terra

#25 Espaço

por Camila Sposati Conteúdo exclusivo para assinantes

Memória e tecnologia: a música indígena contemporânea

#37 Futuros Possíveis

por Renata Tupinambá

Azul e vermelho

#2 Nu

por Léo Coutinho Conteúdo exclusivo para assinantes

Quem tem tempo para o tempo?

por Revista Amarello

Eu tenho medo de chuva: desastre natural ou racismo ambiental?

#42 Água

por Pâmela Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

O coelho fora da cartola: o mágico Murilo Rubião

#54 Encanto Cultura

por Rafael Julião Conteúdo exclusivo para assinantes

Nunca – parar

#9 Obsessão

por Guilherme Nehemy Conteúdo exclusivo para assinantes

Cultura

The New Yorker faz 100 anos apostando na inteligência dos leitores

por Revista Amarello
Dedicada a contar boas histórias sem abrir mão dos fatos, a publicação tornou-se figura central na formação do pensamento de gerações.

The New Yorker: 100 anos de história, documentário que chegou recentemente à plataforma Netflix, poderia muito bem ser uma mera investigação episódica sobre uma importante instituição centenária. Se na mídia a quilometragem vale o triplo (se não o quádruplo), com tanto tempo assim de existência não faltariam relatos para rechear uma hora e meia de exibição. Mas, na verdade, o filme se faz valer por outro propósito, o de observar de perto, acompanhar a vivência daquele lugar e reunir a partir daí fragmentos de um organismo complexo que atravessou um século de transformações profundas sem perder inteiramente sua forma.

O mais esperado seria fazer a clássica viagem temporal pela história da revista, e isso, claro, faz parte do documentário narrado por Julianne Moore, mas o diretor Marshall Curry (que ganhou o Oscar pelo curta The Neighbors’ Window) busca, além da costumeira linha temporal, trazer o espírito da revista a partir do processo de produção da edição de comemoração aos 100 anos, o que é fundamental para que se compreenda como e por que ela sobrevive até hoje. Ficamos, assim, com um panorama histórico-espiritual que, ao final, responde à pergunta central, “como é que algo assim ainda é possível?”

Fundada em 1925 por Harold Ross, a The New Yorker veio ao mundo como uma revista de humor urbano, voltada a um público “sofisticado” e cosmopolita. Não havia, em sua origem, a ambição de se tornar um pilar do jornalismo mundial. Ainda assim, ao longo das décadas, a publicação foi ganhando espaço e influência, crescendo e se transformando à medida que o mundo exigia novas respostas aos acontecimentos dos EUA e do mundo. As respostas renovadas vieram, mas isso não ocorreu por rupturas bruscas e sim por um processo gradual de amadurecimento editorial. Quando os grandes eventos do século XX (guerras, escândalos, movimentos sociais, crises econômicas, etc.) impuseram um papel ainda mais importante à imprensa, a The New Yorker respondeu com responsabilidade, profundidade, tempo e rigor, atributos cada vez mais raros no mundo digital.

O ponto de virada simbólico dessa trajetória foi a publicação sobre o bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki, escrita por John Hersey, em 1946. Ao dedicar uma edição inteira a um único texto, a revista desafiou os limites do formato jornalístico e afirmou, com todas as letras, que certos acontecimentos exigem respiro, espaço e atenção maiores. 

A partir dali, a The New Yorker se consolidaria como um veículo que não corria atrás da notícia, mas que se detinha sobre ela. O mesmo se repetiria com os textos de Rachel Carson sobre os impactos ambientais dos pesticidas, com os ensaios de James Baldwin sobre raça e identidade nos Estados Unidos, e com os capítulos de A Sangue Frio, de Truman Capote, obra que redefiniu os limites entre literatura e reportagem e obrigou a revista a institucionalizar um rigor ainda maior na checagem de fatos (William Shawn, editor-chefe que contratou Capote e que lhe deu carta-branca para escrever sobre os assassinatos da família Clutter, diz ter se arrependido de publicar capítulos do livro, pois muito do que o autor escreveu foi posteriormente tido como invenções literárias).

Sim, o documentário revisita esses momentos, mas evita fazê-lo como uma exaltação de glórias passadas. São evidências de uma lógica editorial consistente, marcos de uma trajetória que segue acontecendo sob os mesmos pretextos. O que une esses episódios é a recusa em reduzir temas complexos a manchetes bombásticas. Essa escolha, que no passado ajudou a moldar o jornalismo moderno, hoje se coloca em tensão direta com o funcionamento do ecossistema midiático contemporâneo.

Acompanhando a produção da edição de centenário, Curry oferece ao espectador um retrato do funcionamento cotidiano, e atual, da revista. O centro gravitacional desse processo é David Remnick, editor desde 1998, figura que sintetiza a ideia de continuidade e integridade jornalística. Remnick aparece como alguém comprometido com um método, com uma visão da profissão. Não há no filme a encenação da urgência típica das redações retratadas no cinema. Há o nervosismo de produzir matérias interessantes e não deixar que nenhum detalhe passe batido, mas sem o ritmo tresloucado que seria de se imaginar. O ambiente parece saudável até demais, o suficiente para que levantemos a sobrancelha. Mas, deixando o cinismo de lado, o que se vê é um ambiente desacelerado, em que textos circulam, são debatidos, reescritos e exaustivamente verificados. Quem diria, não?

Conhecendo o mundo em que vivemos, tomado pelo capitalismo irrefreável, não é necessária uma grande conta para concluir que tal característica é, num só tempo, a maior força e o maior risco da The New Yorker. 

A revista existe em um ambiente saturado por fake news, desinformação organizada e discursos que minam a credibilidade da imprensa profissional. Por incrível que pareça, o ato de checar um fato, ouvir múltiplas fontes e contextualizar informações parece ter se tornado um gesto de resistência.

Esse cenário não produz apenas ruído, produz erros concretos, muitos deles cometidos por veículos tradicionais pressionados a operar sob o reinado da instantaneidade. Nos últimos anos, não faltaram exemplos de reportagens publicadas sem a aferição adequada, corrigidas horas ou dias depois, quando o dano já estava feito. O caso da revista Rolling Stone, que em 2014 publicou uma denúncia falsa de estupro coletivo em uma universidade americana, tornou-se um marco negativo no jornalismo contemporâneo e maculou uma reputação consolidada. Se não por má-fé, então pela combinação entre urgência narrativa, confiança excessiva em uma única fonte e falhas graves de checagem.

Em 2019, a cobertura inicial da CNN de um episódio envolvendo estudantes da Covington Catholic High School mostrou como vídeos fragmentados, amplificados por redes sociais, podem levar até grandes redações a conclusões precipitadas, depois revistas publicamente. O caso é interessante, porque mostra como a manipulação inadequada do audiovisual, tão típica das redes sociais, pode criar falsas verdades.

O jornalismo, empurrado para competir com timelines, algoritmos e fluxos incessantes de informação, passou a errar muitas vezes por falta de tempo, por excesso de informação que chega ao pé da porta. As redes sociais, embora ampliem o acesso à informação, também fragmentaram o debate público. Opiniões circulam desvinculadas de fatos, narrativas concorrentes disputam versões da realidade e a autoridade jornalística passou a ser questionada não apenas por erros reais, mas por campanhas deliberadas de deslegitimação. 

O documentário, é verdade, não se aprofunda diretamente nesses embates, mas eles se fazem presente como um pano de fundo inevitável, como um espectro que está sobre os ombros de todos os repórteres e, em especial, sobre os ombros de Remnick.

A reação da The New Yorker a esse ambiente foi a adaptação cautelosa. Algumas coisas podem mudar, mas há uma espinha dorsal que jamais deixará de exercer a função de sustentar um modo de fazer jornalismo. A revista se tornou uma marca multimídia, expandiu sua presença digital, produziu podcasts, vídeos e reportagens online. Fez tudo isso. Ainda assim, preservou o compromisso com a notícia, não importando que demore para apurar, para corrigir, para entender o seu impacto. 

O documentário dedica atenção especial aos rituais internos da publicação, como a reunião semanal de cartoons (o filme lembra, aliás, que edições mais antigas continham teor racista em algumas de suas tirinhas), a elaboração das capas, o trabalho quase invisível do departamento de checagem e a liberdade concedida a repórteres para investigar histórias sem um formato pré-definido. Esses processos são testemunhos de uma crença na inteligência do leitor e na relevância da forma. Ao longo de cem anos, a revista raramente se reinventou por ruptura. Preferiu ajustar, incorporar e expandir sem abrir mão de sua identidade.

The New Yorker: 100 anos de história coloca em perspectiva o que se perde quando o jornalismo abdica da profundidade, da precisão e da responsabilidade com a linguagem. A revista não sobrevive apesar de ir contra o fluxo do seu tempo, sobrevive justamente por causa disso, mantendo-se como uma referência do que o jornalismo foi e do que ele ainda pode ser. 

Em um século de transformações radicais, a permanência da The New Yorker não é um acidente. É uma escolha, renovada a cada edição.

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Uma Nova História da Humanidade

Inteligência artificial e preconceito real

#48 Erótica Literatura

por Leticia Pinheiro Lima

Amor imenso

#8 Amor

por Tomás Biagi Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

A margem do rio

#45 Imaginação Radical

por Beto Oliveira

O devir-negro do mundo algorítmico: necropolítica, engenharia molecular e a resposta do pensamento radical negro

#56 O que está acontecendo? Sociedade

por Rafael de Queiroz Conteúdo exclusivo para assinantes

Um bilhão de saudades

#13 Qual é o seu legado?

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

A lenda da Iara: entre o feminino, o mítico e o colonial

#53 Mitos Cultura

por Leticia Pinheiro Lima Conteúdo exclusivo para assinantes

Da Gamelinha ao Solimões: as batalhas de poesia no contexto amazônico

#56 O que está acontecendo? Educação

por Emerson Alcalde Conteúdo exclusivo para assinantes

Eu tenho medo de chuva: desastre natural ou racismo ambiental?

#42 Água

por Pâmela Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Reaprender a olhar: os museus na batalha pela atenção

Sociedade

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Originalidade da Arte Mineira

#39 Yes, nós somos barrocos

por Lourival Gomes Machado

Disfarçando as evidências

#55 Imagem Brasil Literatura

por Helena Cunha Di Ciero Conteúdo exclusivo para assinantes

L’Enfer au Brésil, de Gabriel Pessagno.
#54EncantoArtes Visuais

Na capa: Gabriel Pessagno

Gabriel Pessagno (Campinas, SP) estudou Artes Visuais na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Fashion Design no Istituto Marangoni Milano, profissionalizou-se em Bordado de Alta-Costura na École Lesage Paris e em Joalheria de Bancada no Atelier Flávio Franco. Esteve em exposição individual na Galeria Fibra, intitulada Brasil Colônia, e em coletiva na Galeria 18, chamada Sine Qua Non. Uma de suas obras esteve no projeto do Estúdio Rain para o Salon des Noveaux Ensembliers, em Paris, em 2025. 

A obra L’Enfer au Brésil é um bordado com linhas de algodão sobre linho branco e tem um tamanho aproximado de 80×75 centímetros. Após longa observação e estudo sobre gravuras européias dos séculos XV e XVI, em especial as francesas, pode-se ter uma percepção do quê os europeus cristãos enxergavam nesse novo mundo que viria a se tornar o Brasil. Um território de caos, uma terra sem leis, sem Deus, lar de criaturas monstruosas e demônios perturbadores que reinavam em confusão. Essa confusão foi o motor para uma ideia, a de reorganizar esses símbolos, de retirá-los de seu contexto num novo espaço em branco e expor suas características mais pujantes. A obra toca em aspectos mitológicos, no fantástico, navega em lenda e em certa perturbação, certo incômodo. Assim como a natureza, não é boa ou ruim, mas feroz e implacável, movendo-se independente de nossas vontades e nossos sonhos. 

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Geração tombamento: afrofuturismo e pluralidade estéticas como ferramentas de descolonização de corpos negros

#37 Futuros Possíveis

por Priscila Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Editores convidados: Yentl e Peèle

#24 Pausa

A importância do Rio São Francisco

#37 Futuros Possíveis

por Ingrede Alves Dantas

Erotismo Sagrado

#48 Erótica Artes Visuais

por Alvaro Seixas

Irresponsabilidade coletiva? Como a diferença entre gerações está cada vez maior

#46 Tempo Vivido Sociedade

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Votos

#7 O que é para sempre?

por Carlos Andreazza Conteúdo exclusivo para assinantes

Amarello Visita: Luana Vitra em Pulmão da mina

#47 Futuro Ancestral Amarello Visita

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Miríades, miragens, metamorfoses: uma história concisa do teatro de grupo no Brasil

#43 Miragem

por Mariana Ferraz

Na capa

#40 Demolição

por Revista Amarello

A matéria do tempo e a geologia do desejo: o pincel-bisturi de Maurício Adinolfi

#56 O que está acontecendo? Artes Visuais

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Uma conversa com Nlaisa Luciano

#40 Demolição

por Pâmela Carvalho

A Morte

#5 Transe

por Ana Bagiani Conteúdo exclusivo para assinantes

Palácio Borromeo, em Isola Bella, no Piemonte.
#54EncantoCulturaDesign

Encanto e prestígio dos jardins italianos

por Silvana Maria Rosso
Expressão de beleza, cultura e domínio desde a Antiguidade, a arte da jardinagem tem o poder de despertar emoções e sentidos.

“Maravilha, memória, nostalgia, estranhamento e comunhão com outros seres vivos são sentimentos que um jardim pode evocar”, observa Sara Protasoni, professora de Arquitetura da Paisagem do Politécnico de Milão. Desde o Jardim do Éden, símbolo da harmonia entre o homem e a natureza, os jardins carregam a promessa de perfeição e encantamento, despertando os nossos sentidos – visão, olfato, tato e audição. Consagração da capacidade humana de criar beleza e testemunho da relação entre arte, fé e autoridade, o jardim italiano nos convida, ainda hoje, a experimentar diferentes sensações.  

Canopus, na Vila Adriana, em Tivoli. Foto Stefano Calistri/Pixabay.

Das origens à harmonia renascentista 

Surgido com a sedentarização humana como espaço de proteção e cultivo, com o tempo, o jardim evoluiu, tornando-se um local espiritual, artístico e de expressão de poder, cultura e domínio sobre a natureza. Já na Antiguidade, Roma se destacava por seus jardins imperiais, como os da Vila Adriana, em Tivoli, erguida pelo imperador Adriano no século II d.C. Inspirada em suas viagens e nas arquiteturas do Império, a vila é um complexo de 40 hectares, hoje ruínas, que une arte, natureza e técnica.  

Construída num planalto dos montes Tiburtinos, aproveitava recursos de pedra e água, essenciais para fontes, lagos e termas. Reunia palácios, teatros e jardins que expressavam o esplendor e a autoridade de Roma. A disposição das construções, adaptada ao relevo, revela equilíbrio entre funcionalidade e beleza. Entre seus principais conjuntos estão o terraço da Academia, o vale do Canopo, o complexo Pintado e o complexo Nordeste, com o Teatro Marítimo e o Palácio Imperial — símbolos do gênio criador e cosmopolita de Adriano.  

“Durante a Idade Média, o saber dos jardins sobreviveu nos conventos e mosteiros, onde os claustros constituíam um elemento fundamental da estrutura arquitetônica”, afirma o paisagista e historiador Filippo Pizzoni. Comuns nos ambientes religiosos, entre os séculos XII e XIV, surgiram os hortus conclusus — jardins murados dedicados ao cultivo de ervas e flores, verdadeiros microcosmos espirituais que antecipavam a síntese renascentista entre razão, natureza e fé. 
Com o Renascimento, “o jardim italiano tornou-se modelo para toda a Europa”, assinala Pizzoni. Buscando harmonia entre geometria e paisagem, refletia o espírito humanista e o desejo de ordem universal, consolidando-se como instrumento de ostentação nobre.  

“Criar jardins exuberantes e inovadores era uma forma de demonstrar poder, cultura e sofisticação”, explica Protasoni. As famílias nobres competiam em exuberância vegetal, simetria e monumentalidade, transformando seus domínios em teatros de prestígio, onde o luxo e o gosto revelavam hierarquia e autoridade. Também os Estados Papais seguiram essa tendência, investindo em parques e jardins como afirmação política e espiritual. 

Os Medici: poder e cultura na paisagem 

Poderosa dinastia de banqueiros, a família Medici governou Florença entre 1434 e 1737, conduzindo a transição da república ao principado e moldando profundamente a cultura do Renascimento. Figuras como Cosimo, o Velho, e Lourenço, o Magnífico, usaram o mecenato como instrumento de poder e prestígio, apoiando artistas como Michelangelo e Botticelli e promovendo o Humanismo e a redescoberta dos clássicos. 

As Vilas Mediceias, trinta e seis espalhadas pela Toscana, foram centros de experimentação artística e científica. Quatorze delas integram, desde 2013, a lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Entre as mais emblemáticas está a Vila Medici em Fiesole (1451–1457), construída para Giovanni, filho de Cosimo, o Velho, e descrita por Giorgio Galletti, professor da Universidade de Florença, como “a primeira vila com jardim renascentista”. Rompendo com o modelo fortificado medieval, nela se integrou residência e paisagem, criando espaços de lazer e contemplação inspirados nos princípios de Leon Battista Alberti. Sob Lourenço, o Magnífico, os jardins de Fiesole tornaram-se um polo humanista, frequentado por pensadores como Marsílio Ficino e Pico della Mirandola. 

Também pertencente aos Medici, o Jardim de Boboli, parte do Palácio Pitti, em Florença, é hoje um dos locais mais visitados da Itália. Após a compra do palácio por Eleonora de Toledo, esposa de Cosimo I, em 1549, Niccolò Tribolo projetou o jardim, erguido sobre uma colina triangular junto ao Forte Belvedere. Sua composição unia rigor geométrico e teatralidade, símbolos do ideal renascentista. Com a morte de Tribolo, Vasari, Ammannati e Buontalenti ampliaram o projeto, que alcançou mais de 30 hectares, mesclando equilíbrio clássico e exuberância barroca. 

O eixo principal sobe até o anfiteatro, transformado entre 1630 e 1634 por Giulio e Alfonso Parigi em um monumental espaço cênico, onde, em 1637, ocorreu a coroação de Vittoria della Rovere — marco da função política e cerimonial do jardim. Entre suas obras-primas, estão a Gruta de Madama (1553–1555) e a Gruta Grande de Buontalenti (1583–1593), adornadas com esculturas, jogos d’água e formações calcárias que expressam o domínio artístico sobre a natureza. 

Nos séculos seguintes, novas adições ampliaram seu esplendor: o Viottolone, avenida ladeada por estátuas que conduz ao Isolotto coroado pela escultura Oceano, de Giambologna; e o obelisco egípcio de Heliópolis, instalado no anfiteatro em 1790, símbolo da união entre o antigo e o moderno. Sob Cosimo III, em 1677, foi criado um zoológico com espécies exóticas — leões, leopardos, aves e até um hipopótamo chamado Pippo —, reflexo do fascínio renascentista pelo conhecimento e da ambição dos Medici de dominar e classificar a natureza. 

Anfiteatro do Jardim de Boboli. Foto: Gabinetto Fotografico/ Le Galleria Degli Uffizi.

Da ciência à alquimia: jardim como laboratório  

No século XVI, os citrinos — frutas como laranjas, limões e cidras — tornaram-se símbolo de prestígio, poder e saber. Cultivá-los e exibi-los em jardins aristocráticos era demonstração de riqueza e refinamento, mas também de erudição científica e curiosidade natural. Essas plantas exóticas, originárias do Oriente, fascinavam pela fragrância, pela beleza e pelas propriedades medicinais. 

Valorizados na farmacopeia renascentista, os citrinos eram considerados essenciais para preservar a saúde: suas cascas e flores eram usadas em elixires e perfumes, e seu suco — rico em vitamina C — ajudava na prevenção de doenças como o escorbuto. O aroma das flores de laranjeira, associado à pureza e à fertilidade, também lhes conferia um valor simbólico, tornando-as presença constante em celebrações de casamento e em representações artísticas de abundância e renovação. 

Na Toscana, o cultivo dessas plantas sensíveis ao frio levou ao desenvolvimento de um tipo específico de arquitetura: a limonaia, edifício projetado para proteger as árvores durante o inverno. A Limonaia Grande de Boboli, construída no antigo local do zoológico entre 1777 e 1778 por Zanobi del Rosso, é um exemplo notável desse engenho técnico e estético. O edifício ainda abriga mais de 500 vasos e cerca de 90 variedades de cítricos, muitos deles raros, cultivados em grandes vasos de terracota. O cuidado minucioso com o transporte e a manutenção das plantas exigiam jardineiros especializados e recursos significativos, tornando a limonaia não apenas um espaço funcional, mas também um símbolo de poder, ciência e harmonia entre natureza e arte. 

O Jardim de Boboli também reflete o interesse dos Medici pela filosofia hermética e pela alquimia. Cosimo I e Eleonora de Toledo idealizaram um percurso simbólico em que a natureza espelhava a jornada espiritual da alma. Em 1618, a Vasca dell’Isola recebeu esculturas de Vênus e Citera, tornando-se a Isola delle Delizie. Como afirma Sandro Scaffardi, “o jardim alquímico é substancialmente um lugar do espírito, onde a linguagem da natureza é a linguagem da alma”. 

Vila Medici, em Fiesole. Foto Sailko

Isola Bella e o Barroco em plenitude 

Uma das joias do paisagismo europeu, Isola Bella, no Lago Maggiore, no Piemonte, representa a síntese barroca do poder e da arte. Pertencente à família Borromeo — nobre linhagem toscana estabelecida em Milão no século XIV —, a ilha foi transformada por Carlo III Borromeo, em 1632, em um esplêndido refúgio dedicado à esposa Isabella D’Adda. 

Sob a direção de Angelo Crivelli e Carlo Fontana, ergueu-se o Palácio Borromeo, uma das mais expressivas obras do barroco italiano. Os jardins, concluídos por Carlo IV e inaugurados em 1671, formam dez terraços sobre o lago que evocam uma nau triunfal — o palácio como proa, os jardins como popa. O percurso passa pelo Átrio de Diana, pelo Piano della Canfora, com sua monumental árvore de cânfora de 1820, e culmina no Teatro Massimo, estrutura adornada com estátuas, obeliscos e grutas.
 
Outros espaços, como o Giardino Quadro e o Giardino Triangular, completam o cenário no qual arte, natureza e arquitetura se unem em teatralidade e simetria. Isola Bella permanece como uma das mais encantadoras expressões do barroco europeu e um símbolo duradouro do legado Borromeo — a celebração do poder humano em harmonia com o mundo natural. 

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Amarello Visita: Aromaria

#48 Erótica Amarello Visita

por Gustavo Freixeda Conteúdo exclusivo para assinantes

Procurando Jesus

#17 Fé

por Jonathas de Andrade Conteúdo exclusivo para assinantes

Querem me envelhecer de qualquer maneira

#10 Futuro

por Hermés Galvão Conteúdo exclusivo para assinantes

Madureira, território barroco: escolas de samba e lugar de fala

#39 Yes, nós somos barrocos

por Mauro Sérgio Farias Conteúdo exclusivo para assinantes

Redescobrimento

#23 Educação

por Mico Toledo Conteúdo exclusivo para assinantes

Impermanências

#46 Tempo Vivido Sociedade

por Thais Fonseca de Andrade Conteúdo exclusivo para assinantes

Occupy São Paulo

#12 Liberdade

por André Tassinari Conteúdo exclusivo para assinantes

Nunca fui tão boa em esperar quanto te esperei

#35 Presente

por Carolina Cherubini Conteúdo exclusivo para assinantes

Assim nasceu a humanidade

#51 O Homem: Amarello 15 anos Cultura

por Leticia Pinheiro Lima Conteúdo exclusivo para assinantes

Gabriela Hasbun e a fotografia que atravessa mundos

Economia circular: mudar a moda para mudar o mundo

Moda

por Revista Amarello

Castro Maya, William Morris e uma qualidade

#10 Futuro

por Eduardo Andrade de Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

#54EncantoArteArtes Visuais

Chico da Silva: texturas do impossível em cores que sonham o mundo

por Revista Amarello

(Exclusivo Amarello 54 edição digital)

Chico da Silva (1910-1985) nasceu entre rios e floresta, onde o tempo tem a lentidão da seiva. Da infância no Acre ao vento salgado de Fortaleza, atravessou o Brasil carregando um repertório de vivências e visões que passava despercebido a quem nele batia o olho. O que desenhava nas paredes caiadas das casas de pescadores não era o mundo, mas aquilo que o mundo escondia. O carvão das fogueiras, os tijolos partidos, as folhas e os pigmentos improvisados foram seus primeiros pincéis. Como entidades vivas, fizeram brotar das paredes criaturas ancestrais: peixes alados, pássaros vigilantes, serpentes e dragões que pareciam ter emergido das águas turvas da memória amazônica.  

Foi um acaso, ou o destino disfarçado de acaso, que fez com que Jean-Pierre Chabloz (1910-1984), artista e crítico suíço exilado no Ceará, se deparasse com aqueles trabalhos espalhados em muros e acabasse se deslumbrando com aquelas figuras desenhadas aqui e acolá. A partir desse encontro, Chico ganhou tinta, papel e novos horizontes. O estrangeiro reconheceu no pintor de Alto Tejo a expressão de uma inteligência pictórica original, movida por algo que escolas de arte não conseguem ensinar: a necessidade de transformar a experiência da vida em pintura, de fazer do mundo um símbolo. 

Nas guaches de Chico, as linhas têm movimento e o tempo se dobra; as cores vibram, respiram, se multiplicam em teias minuciosas de linhas e tramas. Cada peixe parece conter um universo, cada olho é também uma estrela. Suas criaturas nascem de um território onde a lenda e o sonho são tão verdadeiros quanto o corpo da paisagem. A selva, o mar e o céu se confundem, e é nessa confusão boa que reside a força de sua pintura. 

Para Chabloz, Chico reinventava a própria ideia de pintura. O suíço via em seus quadros uma alquimia de símbolos, uma tentativa de reorganizar o caos do mundo pela cor. Neles cabiam a infância e o mito, o rito e o delírio, a psicologia e a poesia. A exuberância que observava o real não para reproduzi-lo, mas para redefini-lo. 

Nos anos seguintes, suas obras circularam por capitais brasileiras e europeias, em exposições que o colocaram ao lado dos grandes nomes da arte moderna. De Fortaleza a Lausanne, de Paris à Bienal de Veneza, Chico da Silva mostrou que a imaginação também é uma forma de conhecimento. Seu universo, forjado fora das academias, dialoga com o surreal e o simbólico, com o sagrado e o cotidiano. É uma arte popular cuja popularidade não simplifica, e sim complexifica, partindo do local para alcançar o universal. 

Durante um tempo, o sucesso comercial e o interesse da crítica fizeram de Chico uma figura de destaque. Depois, vieram os esquecimentos, aquelas cruéis curvas da vida que não fazem sentido e têm como destino os silêncios da história. Mas sua pintura nunca deixou de brilhar. Suas criaturas continuam a nos observar, como se guardassem o segredo de um Brasil mais antigo e mais vasto do que aquele que cabe nos livros e na atualidade. 

Hoje, seu nome retorna com força. O resgate contemporâneo reconhece em Chico da Silva alguém que abriu caminhos para modos de ver e apresentou ao mundo um devir artístico que não se subordinava ao cânone. Sua obra desafia as fronteiras entre arte erudita e popular, entre natureza e cultura, entre homem e mito. A história da arte do país também se escreve nas marés de Fortaleza, nos pigmentos improvisados de um pintor autodidata e nas narrativas orais que sobrevivem entre o delírio e o desenho. 

Ver um quadro de Chico da Silva é sentir a possibilidade do impossível e se conectar com sua textura e suas cores. É perceber que, entre o delírio e a realidade, existe uma terceira margem, a da imaginação, na qual Chico construiu sua morada definitiva. 

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Mayara Magri conquista o Royal Ballet

por Revista Amarello

O que significa consciência de classe no Brasil?

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

White noise

#11 Silêncio

por Silas Martí Conteúdo exclusivo para assinantes

Entrevista com The Decaptator

#1 Mudança

por Rose Klabin Conteúdo exclusivo para assinantes

O Relógio

#5 Transe

por Alessandra Modiano Conteúdo exclusivo para assinantes

A redescoberta do corpo, da natureza e do futuro em Banzeiro Òkòtó

#40 Demolição

por Priscila Carvalho Conteúdo exclusivo para assinantes

Por uma Educação de Alma Brasileira

#26 Delírio Tropical

Je vais te dire un secret

#11 Silêncio

por Hermés Galvão Conteúdo exclusivo para assinantes

Rudy Ricciotti: reescrevendo o real

por Revista Amarello

A dançarina

#48 Erótica Literatura

por Thais Nunes

Sobre o consumo

#52 Satisfação Filosofia

por João Quartim Moraes Conteúdo exclusivo para assinantes

Dois e dois são dois: Dom Filó e Helena Theodoro

#46 Tempo Vivido Sem editoria

por Revista Amarello

Capa de Gabriel Pessagno
#54EncantoEditorial

Amarello 54 — Encanto

por Tomás Biagi Carvalho
Com capa do artista Gabriel Pessagno e o cantor, compositor e líder indígena Gean Pankararu como editor convidado, a Amarello Encanto perpassa um caminho de maravilhamento da cosmologia dos povos originárias até a prática da beleza do cotidiano.

Garanta a sua Amarello Encanto aqui

A morte da minha avó Dea me ensinou muito sobre a vida. Eu costumo me apaixonar pela pessoa quando ela morre. Não me sai da cabeça. Foi assim com o Senna, com a Preta Gil, com o Paulo Gustavo. E com a minha avó, obviamente, não foi diferente. Nunca tinha beijado um cadáver, estado tão perto de um, com tanto carinho e afeto. Minhas primeiras experiências com a morte são de quando eu era muito jovem, e foram muito traumáticas.

Da minha avó, eu já tinha me despedido quando ela parou de lembrar de mim, mas, no dia do velório, eu chorei copiosamente, como nunca havia chorado antes. Fiquei exausto, surpreso. Chorei principalmente pela minha mãe, que estava se despedindo da mãe dela, e chorei também por um tempo bom, que a gente acha que nunca vai passar e, quando vê, acaba. Foi a despedida de uma época, de uma idade.

Como estudei em colégio de freiras católicas, religião foi sempre uma coisa imposta pra mim. Eu rezava à noite, morrendo de medo, pra pedir alguma coisa pra Deus — força, uma viagem, um favor —, sempre acreditando que um dia tudo iria dar certo, no dia da redenção. Desconfiado, com uma pulga atrás da orelha. Um dia, em um voo curto para o Rio de Janeiro, quando comecei a rezar para o avião não cair, eu pensei: “Para com isso, eu não acredito em nada disso. Esse avião não vai cair”. Foi a maior libertação que eu tive na minha vida. Penso que ter um pai cético ajudou muito também.

Depois desse episódio e da morte da minha avó, aprendi sobre o encanto do aqui e do agora. Da única coisa que nós temos, nosso cotidiano. O encanto de tomar um leite batido com mamão, comer arroz com limão e sal, transar com alguém novo, comer babaganuche puro, nadar no mar com medo de tubarão, de tomar um banho quente-quente, de encontrar um livro que nos capte, de estar com os meus amigos em casa, dormir com o cachorro. De estar no dia, e essa virou a minha religião, no que eu acredito. Sempre com graça e humor.

E, sobretudo, para mim é uma honra fazer esta edição e ter o Gean Pankararu como nosso editor convidado. O Gean mora em uma terra mágica, no Médio São Francisco, e umas das coisas mais legais que fiz nos últimos anos, foi ir ao festival de música que ele organiza todos os anos por lá. Ali, pude sentir minimamente o poder de estar abraçado pela natureza, quando, indo participar do ritual sagrado de seu povo, escutei seus cânticos vindos do mato, de dentro de uma roça. 

— Tomás Biagi Carvalho

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Biointeração Contra Colonialista: a renascença afro-pindorâmica que pertence às cosmunidades

#47 Futuro Ancestral Cultura

por Mona Lima

Dois e dois são dois: Dom Filó e Helena Theodoro

#46 Tempo Vivido Sem editoria

por Revista Amarello

Nume

#17 Fé

Na capa: Antonio Sobral

#24 Pausa

Entre a presença do jogo e a distância da tela

#54 Encanto Cultura

por Lucas Pugliesi Conteúdo exclusivo para assinantes

Conversa Polivox: Luiza Lian

#54 Encanto Música

por Pérola Mathias Conteúdo exclusivo para assinantes

Arte viva e em mutação: a alquimia de Nati Canto

#52 Satisfação Artes Visuais

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Resgate

#37 Futuros Possíveis

por Nelson D

Dom Pedro, Brasil e suas contradições

Portfólio: Ricardo Alcaide

#15 Tempo

por Becky Beasley Conteúdo exclusivo para assinantes

Mirar retomada

#43 Miragem

por Jéssica Hipólito

O design pode realmente mudar o mundo?

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

guerra (WWII) + porn + Noguchi + Ticiano (detalhe), de Deyson Gilbert (2025).
#54EncantoSociedade

O brilho das telas e o apagar da infância: uma conversa com Cristiano Nabuco

por Gustavo Freixeda
“Por trás desses joguinhos, existem mecanismos de persuasão que fazem você passar mais tempo do que gostaria, acionando sistemas dopaminérgicos do cérebro, quase como se fossem substâncias ilícitas.”

Pensar em infância é pensar em sonhos, em encantamento, num mundo cheio de mistérios, pronto para ser explorado e reinventado — ao menos para quem teve o privilégio de não ter nascido nos últimos quinze ou vinte anos. Afinal, ser criança e adolescente hoje em dia significa não conhecer a vida sem celulares e redes sociais. Ainda que o digital seja um símbolo de progresso, ele também representa um fardo enorme na vida emocional das pessoas, em especial a de quem ainda está se formando como indivíduo. Se não houver algum tipo de resistência, um esforço hercúleo por parte dos pais (que em breve serão, em sua grande maioria, também de gerações que não conseguem sequer conceber o mundo sem celular), sai-se do útero já como partícipe da loucura virtual da atualidade.  

Foi-se o tempo em que o lúdico, o faz de conta e o tédio eram ferramentas de aprendizado, e em que a criança se fazia no brincar, quando aprendia a imaginar, a experimentar, a se colocar no lugar do outro.  

A presença constante de telas, que nos últimos anos se agravou de maneira alarmante, redefiniu a experiência infantil. Se a vida adulta, sabemos, já se vê em estado de alerta, que dirá então a vida das crianças que não conhecem outra existência? A televisão já foi tida como um problema. O videogame também. As brincadeiras mais típicas da infância foram perdendo espaço, é verdade, e isso não é de hoje. Mas nada é tão nocivo quanto a confluência de celular, tablet, lógica on demand, redes sociais.  

O que acontece quando a infância deixa de ser um laboratório de possibilidades e se transforma em um espaço de consumo contínuo de estímulos digitais e doses dopamínicas? Que tipo de adulto surge de crianças que conseguem o que querem a todo instante, instrumentalizando o mundo a ponto de restringi-lo ao que dá prazer, mas apequena? Sem o embate de ideias, a colisão de novas perspectivas e o confronto, não há como crescer. É da tensão que ampliamos o mundo e nossa percepção.  

Para não simplesmente ecoar o discurso do “na minha época era melhor”, conversamos com Cristiano Nabuco, doutor em Psicologia e com pós-doutorado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, que há décadas se dedica a estudar os efeitos da tecnologia sobre o desenvolvimento infantil.  

Qual é o papel do sonhar e do lúdico na infância? 

Cristiano Nabuco: Sonhar tem uma importância enorme, porque, no momento em que somos inocentes e ainda não temos uma noção clara da vida, começamos a arquitetar nosso futuro. Lembro que, quando eu era pequeno, queria ser bombeiro. De alguma forma, aquilo capturava minhas ambições. Isso se reflete em grande parte das histórias infantis, que alimentam nosso imaginário coletivo: a princesa que recebe o beijo do príncipe, a intervenção divina, o pote de ouro no final do arco-íris. Elas passam a ideia de que, a partir dos nossos esforços, um dia podemos alcançar a felicidade. Essa fase inicial é fundamental, pois nos ajuda a desenvolver novas camadas de entendimento da vida a partir da realidade que temos. 

O que se perde quando o lúdico é substituído por estímulos contínuos? 

As telas cooptaram a infância, levando a criança para um mundo adulto que antes ela só podia explorar de forma lúdica. Antes, brincar nesse mundo adulto era experimentar jogos e atividades com liberdade. Hoje, por trás desses joguinhos, existem mecanismos de persuasão que fazem você passar mais tempo do que gostaria, acionando sistemas dopaminérgicos do cérebro, quase como se fossem substâncias ilícitas. Temos hoje uma expectativa de vida maior, e alguns chegam a dizer que a adolescência se estende até os 30 anos. Cronologicamente isso até faz sentido, mas emocionalmente estamos vivendo o que eu chamaria de “morte da infância”. A criança perdeu a ingenuidade necessária, a estimulação da vida subjetiva, o contato com histórias contadas, o “era uma vez” lido pelos pais. Hoje, cada um está com o celular na mão, e a infância como conhecíamos deixa de existir. 

Imagino que sejam muitos, mas há algum estudo que você traria para a discussão? 

Tem uma pesquisa do francês Michel Desmurget, autor do livro A fábrica de cretinos digitais. Logo no início do livro, ele traz um exemplo muito interessante: numa pesquisa que acompanhou crianças de zero a 24 meses, aquelas que passaram apenas 50 minutos por dia em dispositivos eletrônicos, ao final de dois anos, deixaram de ouvir cerca de 850 mil palavras. Por quê? Porque estavam interagindo com telas que oferecem respostas repetitivas, muitas vezes frustrantes, mas de um modo que engaja a criança a continuar tentando. No fundo, o que acontece é uma escalada de tarefas que não contribui para o desenvolvimento real da criança. 

Antes se dizia que “as crianças de hoje só veem televisão”; depois, “as crianças só jogam videogame”. Agora, fala-se o mesmo sobre celulares e tablets. O que mudou? 

Antes, assistir televisão era uma experiência coletiva e com limites. Havia horários, supervisão e, muitas vezes, você precisava ver programas que não gostava. Hoje, tudo mudou. Você entra no quarto, pega o celular e vive em uma bolha personalizada, só vê o que interessa a você, e as plataformas devolvem aquilo que você mais gosta. O estímulo constante ativa regiões do cérebro ligadas à dopamina, como o núcleo accumbens e o córtex orbitofrontal, associadas ao prazer e à recompensa, enquanto outras áreas, responsáveis por criatividade, raciocínio lógico e abstração, ficam menos engajadas. 

Se você tem uma planta em uma janela e ela cresce apenas para o lado que recebe luz, as demais partes ficam subdesenvolvidas. Da mesma forma, o cérebro da criança habituada a respostas rápidas e estímulos constantes cresce apenas nas áreas ligadas à gratificação imediata, enquanto outras regiões não se desenvolvem plenamente. O resultado é uma geração impaciente, com pouca tolerância, menos habilidade emocional e dificuldade em lidar com frustração ou discordância. Isso se reflete até em comportamentos sociais, como na política: quem pensa diferente não é apenas discordante, é inimigo. Também afeta a vida profissional, pois essas pessoas têm dificuldade em permanecer em empregos que exigem resiliência e negociação. 

É uma equação multifatorial, mas as telas são um player importante, e cumprem um papel muito prejudicial. Ao final, fica a reflexão: evoluímos ou involuímos? 

Que transformações já conseguimos observar na forma como as crianças sentem, sonham e se relacionam com o mundo? 

Peço desculpas por parecer o portador das más notícias, mas o que estamos vivendo hoje é uma infância que praticamente deixou de existir. Crianças com atraso no desenvolvimento da linguagem, por exemplo: quanto mais tempo de tela até os dois anos, pior a linguagem aos três; quanto mais tela até os três, menor a capacidade de empatia aos quatro; e quanto mais tela aos quatro, mais comprometida a habilidade de se relacionar aos cinco. 

O futuro, então, não é muito animador. 

Hoje existe uma legião de jovens que, mesmo chegando à faculdade, não conseguem seguir adiante. Falta autocontrole, falta habilidade de se relacionar, falta manejo emocional. Muitos desistem entre o primeiro e o segundo ano, e acabam sendo julgados como se fosse falta de vontade, mas o problema é mais profundo: eles foram condicionados a buscar apenas o prazer imediato, o estímulo rápido. Atendo um rapaz assim. Está no terceiro semestre agora, lutando muito para continuar. Ele me disse: “Eu não sabia que estudar era assim. Na verdade, eu nunca estudei de verdade.” E é alguém que fez um ótimo colégio. Expliquei que ele tinha passado a vida treinando tiros de 100 metros. Só que a vida não é uma corrida curta, é uma maratona. É preciso aprender a controlar o ritmo, saber dosar esforço e fôlego. Ele respondeu: “Mas eu não sei fazer isso.” E esse é o ponto: muitos jovens não sabem. 

Claro que não é com todo mundo, mas quem já tem alguma vulnerabilidade, uma estrutura familiar mais frouxa ou pouca orientação de alguém mais velho, acaba sendo engolido por esse sistema. E o vício se instala. Os chineses têm um nome para isso: “heroína digital”. 

E a dependência a essa heroína causa uma estreiteza de mundo. 

Hoje a gente vive num mundo de infinitas opções, e as pesquisas mostram que, quanto mais escolhas existem, mais confuso o indivíduo se torna. É por isso que, de certa forma, as redes sociais acabam ajudando as pessoas a tornar o mundo mais inteligível. Tudo se resume a um binarismo simples: gosto ou não gosto, amo ou odeio. Antes era diferente. Eu podia ouvir você dizer que gosta de determinado candidato e responder: “Olha, eu entendo, mas veja por esse outro lado”, e a conversa seguia. Hoje, não. Ninguém entra mais numa conversa para ouvir o outro ou repensar a própria opinião. As pessoas entram para defender o seu candidato, a sua verdade. Não há mais espaço para analisar o que o outro realmente tem a dizer. 

Há movimentos para mudar isso? Qual é o panorama mundial e nacional? 

O que temos visto, nos últimos 20 anos, é que alguns países começam a exercer controles. A Austrália, por exemplo, proibiu redes sociais para jovens com menos de 16 anos. Grécia, França e Estados Unidos também têm avançado nesse sentido. Aos poucos, alguns lugares começam a ganhar voz. Participei, no Governo Federal passado, da elaboração de uma cartilha sobre o tema. Hoje falam da chamada lei Felca, mas estamos trabalhando nesse projeto há muito tempo, há pelo menos três anos, e ainda há muito a ser feito. O problema é: onde está a saúde mental nessa discussão? Não basta restringir publicidade para crianças ou apenas reduzir impactos isolados se as próprias empresas que criaram os problemas não assumirem responsabilidades. Não é justo que problemas criados por elas sejam deixados para a sociedade civil resolver. Esse é um tema que precisa ser discutido amplamente, porque a maioria das pessoas não tem noção da gravidade da situação. A velocidade das mudanças não acompanha as respostas necessárias. Eventualmente chegaremos lá, claro, mas, até isso acontecer, fica um rastro de destruição. 

E não dá para simplesmente jogar as redes sociais fora. 

Elas têm o seu lado bom. Servem para divulgar ideias, conectar pessoas, ampliar o círculo de relacionamentos. Também dão espaço para que minorias sejam ouvidas, representadas — e isso é muito importante. Mas o problema é que essas mesmas redes usam mecanismos de vício. E, com o tempo, as pessoas perdem o controle. O que estamos fazendo com esse uso? A sensação que dá é que estamos diante de uma grande epidemia de saúde mental. 

O que fazer para melhorar, sem demonizar a tecnologia?  

Não existe uma resposta única. O que existe é a necessidade de equilibrar a rotina. Hoje, o brasileiro passa, em média, dez horas e quinze minutos por dia em frente às telas digitais. Isso equivale a 150 dias por ano. E o que isso faz? Faz com que boa parte das nossas experiências venha de um mundo sem controle. A chance de a gente se alinhar a esse ritmo, sem nem perceber, é enorme. Então, por onde começar? Jogando fora o celular? Claro que não. Mas podemos conversar. “Filho, filha, agora é hora de jantar. Vamos deixar os telefones de lado e conversar? Como foi o dia de vocês?” Uma refeição em família por semana já funciona como um fator protetivo da saúde mental. Por que tanta gente escapa para as telas? Porque lá encontra o que não encontra fora: atenção, estímulo, companhia. Então, o que fazer? Trazer isso para o real. “O que vocês estão vendo? Me mostra.” Esse tipo de troca constrói vínculo. 

Claro, nem sempre é simples. Muitas famílias vivem jornadas duplas ou triplas de trabalho. Nessas condições, é difícil criar esse tempo de convivência. Às vezes, é até mais seguro deixar o filho no computador do que na rua. Mas, ainda assim, a conversa, o olhar, o mínimo de presença… Isso já faz diferença. 

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Seria o mundo sustentável a última das utopias?

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

Os pontos luminosos da educação brasileira

#23 Educação

por Caio Dib Conteúdo exclusivo para assinantes

Conversa Polivox: Bruno Cosentino

#36 O Masculino

por Mariana Quadros Conteúdo exclusivo para assinantes

A magia da multiplicação

#23 Educação

por Marina Klink Conteúdo exclusivo para assinantes

Dois e dois são dois: MC Martina e Acauam Oliveira

#39 Yes, nós somos barrocos

por Revista Amarello

Estoicismo demais, empatia de menos: por que homens leem menos ficção?

Cultura

por Revista Amarello Conteúdo exclusivo para assinantes

A transição narrativa: do eurocentrismo à pluralidade

#55 Imagem Brasil Cultura

por Silvana Maria Rosso Conteúdo exclusivo para assinantes

A arte cíclade

#14 Beleza

por Alberto Rocha Barros Conteúdo exclusivo para assinantes

Nossos futuros possíveis moram na incerteza do vislumbre de uma imaginação radical

#56 O que está acontecendo? Sociedade

por Giovanna Carneiro Conteúdo exclusivo para assinantes

Sem história para ninar gente grande: o despertar da ancestralidade na educação

#47 Futuro Ancestral Educação

por João Paulo Ignacio Conteúdo exclusivo para assinantes

Dois e dois são dois: Andressa Núbia e Jean Azuos

#45 Imaginação Radical

Entrevista com The Decaptator

#1 Mudança

por Rose Klabin Conteúdo exclusivo para assinantes

#54EncantoCultura

Os ribeirinhos e as lições da floresta

por Thiago Thiago de Melo

Obra de Chico da Silva, Sem título. Final da década de 1960.

Cresci ouvindo uma história que, desde menino, me acompanha e me norteia. Um jovem senhor ribeirinho, nas matas que beiram o rio Andirá, no interior do estado do Amazonas, caçava com seu genro. Depois de terem capturado porcos-do-mato, que seriam alimento para sua família pelos dias seguintes, se preparavam para voltar à casa quando, de repente, ficaram desorientados. Não achavam o caminho, tão habitual para ambos, sobretudo para o mais velho, experiente caçador. Este, após idas e vindas inúteis, andando em círculos, o dia escurecendo, resolveu pedir ao curupira — esse ser encantado da floresta — que lhes mostrasse a trilha a percorrer: “Pare com isso, curupira, nos deixe andar. Amanhã volto aqui e trago a cuia com cachaça e o tabaco para você. Vamos, nos mostre o caminho”. O genro, incrédulo, acompanhava sem grandes esperanças, com a caça sobre os ombros. Em pouco tempo, estavam novamente na rota para a beira, onde sua canoa os aguardava. “Foi o bicho, foi o curupira quem malinou de nós e depois nos livrou”, sentenciaram sem titubear. 

Desde cedo, intuí que os ribeirinhos têm crenças e saberes tão distintos daqueles dos cidadãos urbanos do Brasil. Essa gente que vive em comunhão com a floresta, às margens dos rios e das cidades, tem muito a ensinar sobre a invenção de um país que honra e respeita a natureza. Mas, afinal, o que queremos dizer quando denominamos essa população “povos da floresta”? Quantos “brasis” existem no Brasil? Onde estão os grupos de seres humanos que recorrem ao mistério para atingirem seus objetivos práticos? Essas indagações passam por minha cabeça quando viajo pelo interior da Amazônia, quando navego o rio Madeira ou o Paraná da Eva, o furo do Pucu ou a cabeceira do Itapecuru. Nessas circunstâncias, torna-se claro que o capitalismo não conseguiu varrer do mapa todos os povos que vivem em contato permanente com as águas e que creem — certezas inacreditáveis — no sobrenatural como parte fundamental do dia a dia. Suas cosmovisões resistem ao avanço da lógica ocidental que transforma tempo em dinheiro. 

Tais pensamentos dobram de tamanho quando reflito sobre o que Max Weber escreveu em seu clássico texto A ciência como vocação. Há mais de cem anos, o sociólogo alemão afirmou que uma das consequências mais poderosas da super racionalização moderna seria o desencantamento do mundo, ou seja, a vitória do cálculo e da burocracia sobre a magia e os espíritos. O que os seres humanos que vivem no reino poderoso das águas, em convívio com as plantas e com os animais, pensariam a respeito da intelectualização do mundo?  

Nas últimas décadas, assistimos, no Brasil — e, por que não dizer, no planeta? — a uma crescente e admirável valorização do pensamento indígena. A Constituição Brasileira de 1988 deu amparo legal ao reconhecimento das terras e dos saberes dos povos originários. Na região da Amazônia Legal reside a maior parte dos povos indígenas do país — quase um milhão de indivíduos habitam nos seus nove estados: Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Mato Grosso e do Maranhão. É uma área de mais de cinco milhões de quilômetros quadrados. Mais da metade do território nacional. Muitas nações indígenas vivem ali há milênios e são falantes de centenas de línguas, o que torna o Brasil, por esse prisma, um país — além de belo e complexo — diverso e plurilinguístico.  

O Decreto nº 6040, instituído em 2007, reconhece a existência de mais de vinte segmentos conhecidos como povos e comunidades tradicionais. São caboclos, catingueiros, extrativistas, ilhéus, pantaneiros, ciganos, raizeiros, ribeirinhos, seringueiros que têm modos próprios de organização social e estão em contato permanente, ancestral e visceral com seus territórios. A conservação de nossa riquíssima biodiversidade passa necessariamente pelas maneiras como esses grupos mantêm-se vivos, cultural e socialmente. 

Penso nos ribeirinhos da Amazônia e na sua contribuição para a manutenção de práticas milenares de ser e estar no mundo. Não há número exato dessa população, mas, podemos dizer, o Brasil é ribeirinho. Os beiradões da Amazônia são abrigos, lares para milhares de famílias — pessoas que vivem às margens de rios, lagos, lagoas, riachos, igarapés e igapós e dependem das águas para sua sobrevivência. Não são os homens, mas as águas as donas de tudo. Todo ano elas sobem e descem, fazendo com que essas pessoas permanentemente criem e recriem modos de subsistência: as casas, as plantações, a alimentação, a caça, o trabalho na roça e na pesca são adaptados às mudanças causadas pelas cheias e pelas vazantes. A paisagem muda radicalmente. Por isso, as habitações geralmente são construídas sobre palafitas e o deslocamento é feito usando cascos, canoas, rabetas, voadeiras e barcos maiores. 

Em muitas localidades não há luz elétrica. Embora essa questão esteja mais estável do que há décadas, ainda assim muitas vezes passam-se dias e noites sem eletricidade, sem ventilador, geladeira, televisão ou internet. O paradoxo grita: esses grupos humanos são fundamentais para a conservação da biodiversidade e, ainda assim, marginalizados, do ponto de vista da cidadania e dos avanços do progresso técnico e material. 

Em minhas andanças pela Amazônia, na maior parte das minhas vivências e estadias naquele território verde, estive com os ribeirinhos. Fui criado e educado por homens e mulheres desse grupo, e minha socialização primária se constituiu de brincadeiras em casas e quintais de populações ribeirinhas. Na Amazônia Legal, existem quase 800 municípios. Um deles, o de Barreirinha, no interior do estado do Amazonas, tem uma população de 30 mil habitantes. A cidade, fundada em 1881, é banhada por dois grandes e importantes rios da região: o Paraná do Ramos, de água barrenta, é um afluente do rio Amazonas e corre na frente da sede do município. Na parte de trás da cidade está o rio Andirá, onde habitam indígenas do povo Sateré-mawé e onde está a maior população quilombola do estado amazonense. No entanto, a maioria dos ribeirinhos de Barreirinha não se declara indígena ou quilombola. 

No interior desse município, no distrito de Freguesia do Andirá, vivem aproximadamente cinco mil pessoas. É uma área de terra firme. Não alaga, como as terras da várzea, o que lhes garante certa estabilidade diante do movimento das águas. Mesmo assim, a vida de toda a gente é movida pelos períodos de seca e de cheia. Não há hospitais, e apenas um posto de saúde. Duas escolas públicas atendem estudantes da educação infantil até o ensino médio; não há universidade. Há mais de uma dezena de igrejas, católicas ou evangélicas. Muitos comércios atendem a população com produtos de necessidade básica. Diversas famílias cultivam, em seus roçados, mandioca, café, guaraná e outros frutos. Dessas plantações vêm sua subsistência. A internet 4G chegou há alguns anos. Praticamente toda semana falta luz, às vezes durante dias.  

Ali nasceu e vive Marcelina dos Santos, a dona Anjinha, de 75 anos. Ela é uma sábia das plantas. Aprendeu muito com sua mãe, dona Coló, falecida em 2023 com quase cem anos de idade. De seus onze irmãos, Anjinha foi a que mais absorveu os conhecimentos sobre os cuidados do corpo com folhas, óleos e raízes. Um dia, numa manhã luminosa em seu barracão, perguntei se ela se considerava indígena. Como se minha pergunta não fizesse muito sentido, me disse: “Aqui todo mundo é índio: meio índio ou muito índio”. Mesmo assim, Freguesia do Andirá não é oficialmente considerada área indígena. 

É um lugar de muito sincretismo cultural: tem a festa dos marujos, celebração católica afroindígena, com danças e batuques; as pastorinhas, que saem às ruas celebrando o Dia de Reis; os times de futebol e seus campeonatos; as famílias que fazem a farinha e o guaraná; os evangélicos. Muita gente tem telefone celular e está ligada na internet. Se algum doente precisa de tratamento especializado, vai a Barreirinha. Se o caso for grave, a Parintins, ou até mesmo a Manaus, distante 24 horas de barco. 

Nesse lugar, existe um brasil no Brasil. Dona Anjinha aprendeu com sua mãe a fazer o banho de cheiro. Utiliza folhas e ervas da região: girão, vindicá, hortelãzinho, chama, mucuracaá. O banho, de purificação, de cura, é de abrir caminhos, tirar quebranto. Quando alguém está muito panema, sem sorte na caça ou no amor, o banho resolve. Ou quando for caso de febre e mal olhado. Dona Anjinha diz que é assim desde os antigos. Ela sabe, naquela imensidão de árvores centenárias, a quais recorrer. Não aprendeu isso com os livros. Também não foi médico que lhe ensinou. Sua mãe, médium, recebia espíritos. Dona Coló, filha dos saterés, era devotíssima de São Benedito, o santo preto protetor dos ribeirinhos e padroeiro de Freguesia.  

Após o preparo de um banho de cheiro, num fim de tarde em que se ouvia a algazarra de andorinhas na beira do rio Andirá, ali debaixo das mangueiras, perguntei a Anjinha quanto poderia lhe pagar por aquela dádiva que me oferecia. Sua resposta — lição da floresta — me mostrou uma vez mais a contribuição da cosmovisão ribeirinha e indígena para a saúde geral: “O que eu faço não custa dinheiro”. Que saibamos incorporar em nossas vidas outras formas de nos relacionarmos e de estarmos no mundo, menos dependentes dos mercados financeiros e mais conscientes de que a natureza veio antes e permanecerá depois que nós, humanos, desaparecermos do planeta. 

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


Do amargo ao tropical: como os “bitters” italianos reinventam o paladar brasileiro

Cultura

por Revista Amarello

E eu que era triste?

#19 Unidade

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

O talento é o transe

#5 Transe

por Carlos Andreazza Conteúdo exclusivo para assinantes

O gozo de perder: ilusão e poesia com Pessoa

#30 Ilusão

por Roberta Ferraz Conteúdo exclusivo para assinantes

Entre o muro e a Jabuticabeira. Eu vejo e me lembro, não vi, nem tava lá

#7 O que é para sempre?

por Helena Cunha Di Ciero Conteúdo exclusivo para assinantes

Um bilhão de saudades

#13 Qual é o seu legado?

por Vanessa Agricola Conteúdo exclusivo para assinantes

O Masculino

#36 O Masculino

por J. E. Beni Bologna José Ernesto Bologna

Conversa Polivox: Melly

#52 Satisfação Música

por Pérola Mathias Conteúdo exclusivo para assinantes

O capital está morto

# Terra: Especial 10 anos

por Léo Coutinho

Que terreiro é esse?

# Terra: Especial 10 anos Arte

por Márcio Bulk

O melhor amigo do homem

#22 Duplo

por André Tassinari Conteúdo exclusivo para assinantes

Naturismo e a busca pela vida simples

#2 Nu

por Flavia Milioni Conteúdo exclusivo para assinantes

ballet + porn + Brueghel + esclera, 2025.
#54EncantoArtes Visuais

Bombardear e transar: banalidade e lascívia em Deyson Gilbert

por Revista Amarello

A gênese do trabalho de Deyson Gilbert é aquele hiato entre o que já vimos e o que ainda não conseguimos formular. É como se suas peças estivessem um passo à frente do olhar, desmontando o perigoso e contumaz automatismo da visão e, com isso, reorganizando nossa percepção. Nada em sua produção permite, ou sequer solicita, interpretação imediata. Há harmonia, mas há também ruído. E não esse ruído fragmentado que conhecemos tão bem. Um ruído demorado e positivo. Um alívio. 

acidente + Van Eyck + porn + porn, 2025.

Esse sopro de vida se dá a partir da manipulação de frequências raras, um tipo de energia estética que não se revela na superfície, mas na vibração subterrânea de materiais, imagens e protocolos. Os trabalhos de Gilbert parecem escutar algo anterior ao gesto e posterior ao objeto, num campo no qual o visível não é mais garantia de presença e o invisível já não é sinônimo de ausência. É desse território oblíquo que emergem as obras que vêm construindo uma trajetória sólida na arte contemporânea brasileira, caracterizada por meticulosidade e inquietação guiadas por forças que se insinuam mais do que se declaram. A exposição Thanateros: abstruction_img_666.gif, que esteve em São Paulo na Galeria Martins&Montero, é prova disso.  

baumeister + guerra (WWII) + porn, 2025.

Thanateros, neologismo que funde desejos antagônicos — Thanatos, personificação da guerra na mitologia grega, e Eros, o famoso deus do amor —, funciona como um deslocamento, fazendo a semântica vibrar num território no qual contrários passam a se tocar. “Não é fortuito”, escreve Marcela Vieira no texto curatorial da exposição, “que operadores de paixão, como o erotismo e a morte pelo crime, estejam juntos em composição, literalmente colados um ao outro, enredando, mais especificamente, devassidão e suplício. (…) Porém a morte aqui representada não é a natural, e sim a morte de guerra, provocada pelo homem-animal-político capaz de levar o corpo à dimensão do sacrificial, do vitimal e do sagrado”. 

Ou seja, desejo, suplício, crime, sacrifício, todos esses impulsos deixam de ser opostos e passam a operar como variações de um mesmo campo de força, sob a égide de matérias cujo intuito é enroscar e enroscar, fazer da violência um prolongamento do ímpeto e do erotismo uma fagulha que ilumina, mesmo no escuro, o que o corpo suporta. 

“O gênero e o sexo masculino”, continua Vieira, “prevalecem nas representações visuais, sugerindo o registro fálico que se evidencia pelas já mencionadas hastes rígidas e verticais que regem o espaço, e também pelas conotações bélicas e referências homoeróticas, que, no fundo, não passam de uma insistente reiteração do masculino.”  

Essas hastes que ela cita assumem a forma de falos em desvio. Rígidos e afirmativos, mas nunca plenamente retos. São lanças que desejam a verticalidade absoluta, embora carreguem, em cada inclinação, o lamúrio da própria torção. A rigidez não é o cume do Homo erectus, mas a evidência do esforço quase desesperado para defender uma posição. As hastes-falos, a priori símbolos de domínio, em vez de consolidar uma força pela via da repetição, expõem toda a sua exaustão. E nesse ponto, quando o masculino se dobra sob o peso do próprio gesto, o trabalho abre espaço até para outras vibrações que pulsam logo abaixo da superfície. 

Arcimboldo + crânio + chave, 2025.

O subtítulo, abstruction_img_666.gif, nos apresenta um pequeno enigma, se fazendo de arquivo encontrado num canto obscuro de computador. Os nomes escolhidos e a opção pela grafia do universo cibernético ajudam a jogar luz sobre algo que Gilbert faz muito bem, que é suspender certezas. E uma das certezas suspensas aqui é essa automação do olhar, um inimigo cujo poder bélico é tão forte quanto seu poder de sedução. A ironia é brutal, pois trata de demonizar uma característica que está em nós e é evocada diariamente. A conta é simples: o diabo, o profano 666, cabe, sim, no nosso olhar. E o frio na espinha que isso causa é real. 

O ponto é que a banalidade da guerra faz com que ela se reproduza e siga acontecendo em proporções cada vez maiores, repetindo e até piorando a história; em contrapartida, a banalidade do sexo causa saturação no olhar e nos sentidos, esvaziando-o dos ímpetos da excitação e dos gemidos do gozo.  

Essas obras traduzem tais instâncias, Thanatos e Eros, manifestando um quê de organismo e um quê de máquina, mas também algo que escapa a essas categorias. Como se fossem seres provisórios, atravessados por uma pulsação não humana, temos uma cadência que se aproxima do mineral e do elétrico. Esse caráter de subversão existencial, embora não explicitado, se fez presente em Thanateros. O trabalho ali não descrevia o mundo, ensaiava outro. E esse ensaio parecia operado simultaneamente por precisão técnica e descontrole simbolista, como se um protocolo de laboratório tivesse sido atravessado por um feitiço.  

o ponto de vista de Freud / um exemplo imaginário, 2016.
Um Império Construído Sobre Sexo ou guerra (WWII) + porn +porn, 2025.

Cada obra, dessa exposição e de todo o já extenso corpo de trabalho de Deyson Gilbert, funciona como um fragmento de linguagem que ainda não encontrou gramática. Entendendo esse não entender e sabendo que o mundo continua cheio de zonas opacas, forças que ainda não têm nome e cintilações discretas e espalhafatosas, fica evidente que Thanateros e Gilbert não dão nome aos bois, mas delatam a falência do pensamento fálico, a puerilidade de toda e qualquer guerra e a instrumentalização frígida do erotismo.  

porn + Vietnã + El Greco + Bosch + Velázquez + soldados (WWII), 2025.

Ecoam, na mesma medida, o estampido das bombas e o silêncio das transas. Pois tudo isso se resume à falta de tesão e ao medo infelizmente não paralizante de brochar quando a hora H, do sexo ou da guerra, enfim chegar.  

Gostou do artigo? Compre a revista impressa

Comprar revista

Assine: IMPRESSO + DIGITAL

São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.

Assine a revista
Compartilhar
  • Twitter
  • Facebook
  • WhatsApp

Conteúdo relacionado


O Brasil que se forma nos nossos olhos

#53 Mitos Sociedade

por Nicolau da Rocha Cavalcanti Conteúdo exclusivo para assinantes

Madureira, território barroco: escolas de samba e lugar de fala

#39 Yes, nós somos barrocos

por Mauro Sérgio Farias Conteúdo exclusivo para assinantes

Tempo e cotidiano: tempos para viver a infância

#33 Infância

por Maria Carmen Silveira Barbosa

Antes do Feminismo: portfólio Berna Reale

#28 O Feminino

diante de homem com h maiúsculo, criação

#51 O Homem: Amarello 15 anos Sociedade

por Ana O. Rovati Conteúdo exclusivo para assinantes

Tramundo

#27 Perspectivas

por Márcio Bulk Conteúdo exclusivo para assinantes

Vida Mata Dentro

# Terra: Especial 10 anos

“Homem-Peixe”: Uma conversa com Allexia Galvão e Gleeson Paulino

Flexibilização de gênero nos animais

#28 O Feminino

por Amanda Lee Mascarelli Conteúdo exclusivo para assinantes

Karina Olsen e sua terra de referência: Hilma af Klint

# Terra: Especial 10 anos

Kali Yuga

#17 Fé

por Thiago Blumenthal Conteúdo exclusivo para assinantes

Aprender a escutar: uma conversa com Mestre Sidão e Eronides Andrade

#54 Encanto Cultura

por Gean Ramos Pankararu Conteúdo exclusivo para assinantes

Navegação por posts

Publicações mais antigas
Publicações mais novas
  • Loja
  • Assine
  • Encontre

O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

  • Facebook
  • Vimeo
  • Instagram
  • Cultura
    • Educação
    • Filosofia
    • Literatura
      • Crônicas
    • Sociedade
  • Design
    • Arquitetura
    • Estilo
    • Interiores
    • Mobiliário/objetos
  • Revista
  • Amarello Visita

Usamos cookies para oferecer a você a melhor experiência em nosso site.

Você pode saber mais sobre quais cookies estamos usando ou desativá-los em .

Powered by  GDPR Cookie Compliance
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos salvar suas preferências de configuração de cookies.