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#54EncantoSociedade

Em busca da copa da castanheira: direito e encantamento nas lutas por justeza 

por Ciani Sueli das Neves

Chico da Silva, Sem título (1974).

(Exclusivo da Amarello 54 edição digital)

Em agosto de 2025, numa oficina sobre direito em pretuguês conduzida pela professora de direito constitucional da PUC-Rio Thula Pires, inúmeras angústias e inquietações pareceram ganhar um ponto comum com o exemplo da copa da castanheira. Tratava-se de uma discussão intensa, numa rara tarde fria do Rio de Janeiro, quando uma estudante da Universidade Federal do Pará trouxe a referência que inicia este texto. A conversa era em torno de como compreender o direito sob uma perspectiva não colonial e fazê-lo responder aos anseios sociais que se dão em torno de sua aplicação com base em uma produção científico-jurídica que respeite os limites éticos e reconheça e valorize os conhecimentos comunitários e tradicionais como fazer científico. Samara, a estudante paraense, pediu a palavra e começou a relatar a experiência de uma liderança indígena de uma das aldeias de seu estado. Ocorre que a mulher citada era a primeira pessoa indígena daquela aldeia a acessar a universidade, pelo curso de Direito — área do conhecimento espinhosa e de intensas disputas para os grupos vulnerabilizados no Brasil —, e ela deveria cumprir a tarefa de retornar ao seu território para fazer o repasse dos conhecimentos adquiridos na instituição. O compromisso se tornou uma grande dor de cabeça a partir do momento em que a moça se deparou com a teoria da hierarquia das normas jurídicas, usualmente representada nos cursos de graduação em direito pela chamada “pirâmide de Kelsen”. O uso de tal imagem se dá com o intuito de viabilizar a estrutura do ordenamento jurídico formado por uma lei superior, que decorre da norma hipotética fundamental e corresponde ao topo da pirâmide, seguida de normas infraconstitucionais, que são normas que estão hierarquicamente abaixo da Constituição e têm a função de regulamentar e detalhar dispositivos constitucionais; na base da pirâmide estão as normas infralegais, que correspondem àquelas que se encontram abaixo da Constituição e das leis, cuja função é meramente administrativa, posto seu caráter regulamentar. Dito dessa forma, pode parecer algo de compreensão simples, mas a grande preocupação da estudante indígena era com como ela iria explicar isso para o seu povo. Empenhada em cumprir a missão que lhe foi dada, ela seguiu conversando com outras pessoas indígenas e com as mais velhas e os mais velhos de sua comunidade, até que, depois de muito explicar tal hierarquia, alguém sugeriu a ela que, ao invés de usar a pirâmide como referência, já que pouquíssimas pessoas compreenderiam a menção às maravilhas que identificam de imediato o Egito, ela usasse a castanheira, pois a copa dessa árvore é tão alta que ninguém consegue alcançá-la, mas todas as pessoas que se relacionam com a floresta sabem que ela é fundamental para a manutenção do equilíbrio florestal. O exemplo trazido por Samara parecia resolver dois dilemas: o do repasse do conhecimento jurídico no território indígena em questão e o das angústias das pessoas que participavam da oficina em questão, que pareciam ter ido até ela ansiando por uma solução para o desencantamento com o direito.  

O direito segue sendo ensinado nas faculdades e aplicado no cotidiano, permanecendo como um fator de desencantamento do mundo, posto que tanto a metodologia bacharelesca, que a cada dia mais se ocupa em formar indivíduos preocupados com a aprovação no concurso mais rentável e o maior prestígio político, quanto a aplicabilidade das leis nas relações sociais tende a reproduzir condições de desigualdade. Em sociedades constituídas a partir do colonialismo, essa percepção gera impactos danosos significativos para a vida dos sujeitos em particular e enquanto comunidade. Luiz Rufino, em Pedagogia das encruzilhadas: exu como educação, já nos ensinou que o colonialismo é um projeto de morte, operando na produção sistemática do desvio ontológico e, assim, estendendo-se, ampliando a descredibilidade existencial/epistemológica de povos não brancos ao mesmo tempo em que produz a credibilidade do Ocidente sustentada pelo epistemicídio. A materialização do colonialismo como projeto de dominação é viabilizada pela homogeneização, que institui a negação de outras formas, baseada na noção unilinear da história e no caráter absoluto e cientificista do pensamento ocidental, para lembrar o já dito por Sérgio São Bernardo. Entretanto, lembremos que a vida é dialética, e exatamente por isso confronta o projeto de dominação colonial com o drible das frestas próprios daqueles a quem é imposta dominação pelo controle e pela escassez. Seria, assim, como diz Danilo Marcolino em Encantamento do direito pela filosofia popular brasileira: por uma teoria constitucional popular, lançar mão do “reconhecimento de múltiplas subjetividades, em vez de uma subjetividade única na construção do sujeito de direito, adquire um peso significativo na luta contra a normatividade e a heteronormatividade brancas, bem como suas consequências”. É importante entender que “as diferenças, de maneira invariável, são relacionais, não inatas, e é imperativo compreender que a integralidade e a coletividade resultam de atos conscientes de vontade e criatividade, não de uma descoberta passiva”. Esse talvez seja o maior desafio do direito, compreender as diversas formas de ser-fazer dos sujeitos a partir da perspectiva de reconhecimento destes enquanto sujeitos de direitos.  

Certo é que não se trata de uma tarefa fácil, pois, para que se torne aplicável de forma ampla, ela implica abrir mão de vantagens construídas ao longo da história, além do compromisso em reparar os anos de injustiças perpetradas sob legitimação do escopo jurídico. Porém, sabemos que desafios recebem esse nome exatamente por não constituírem tarefas fáceis, mas que precisam ser feitas. Dessa maneira, retomar as lições ensinadas por Dora Lúcia Bertúlio é um caminho ainda atual, no sentido de destituir o direito do papel de desencantamento que lhe foi atribuído pelo projeto colonial de mortandade. Para tanto, é necessário primeiro admitir o papel sócio-histórico que raça, gênero e classe ocupam nas relações sociais como um todo e de que modo delineiam os contornos políticos do sistema de justiça. Ora, raça, gênero e classe compreendem eixos estruturantes da experiência social e política nas Américas, implicando a organização de todos os setores dessas sociedades a partir dos pactos sociais, a que autores como Charles Mills e Carole Pateman chamam, respectivamente, de contrato racial e contrato sexual, em razão de a implementação dos lugares sociais serem reservados tomando por base a raça e o sexo. Prestemos atenção, portanto, em como esses fatores se manifestam ao longo do tempo na sociedade brasileira e na necessidade de se levantar o véu de Ísis do sistema de justiça no tocante aos aspectos raciais e de gênero. Dora Lúcia de Lima Bertúlio, em Direito e relações raciais: uma introdução ao racismo, já na década de 1990, envidou esforços incansáveis na busca por elucidar o sistema de justiça brasileiro, com enfoque em como o racismo permanece incólume nesse ambiente, não só definindo decisões judiciais como moldando elaboração legislativa, além de favorecer a desproteção das pessoas negras através da omissão estatal em protegê-las do racismo e/ou criminalizá-las. No dizer da procuradora paranaense, “a sutileza do racismo brasileiro, que encarcera a quase totalidade da população negra brasileira em submundos social, intelectual, político e econômico, tem seu grande colaborador no discurso jurídico que, enquanto proclama igualdade, justiça e liberdade, convive em cumplicidade e conivência com atos de racismo quer individuais, quer institucionais. Sua estrutura reguladora, repressiva e judiciária, paradoxalmente cria mecanismo proibitivo de atos de preconceito e racismo e implementa a impunidade dos agentes e a destruição das vítimas, especialmente pela ação da polícia”. Seguidos da ação do Estado, que se desenvolve pela destruição das vítimas, seja na omissão em protegê-las das violências raciais, seja na sua criminalização, adota-se também o silêncio como tática de bloqueio da discussão racial. Sendo assim, o sistema de justiça cria mecanismos de silenciamento de como o racismo opera em seu interior, de modo a não admitir questionamentos raciais, ocasionando, assim, a desnecessidade de se falar de tal assunto.  

Tais bloqueios são meios de sustentação do pacto narcísico da branquitude, que Cida Bento, em O pacto da branquitude, explica como um pacto, ainda que silencioso, que garante a proteção entre pessoas brancas nos diversos espaços de poder. O sistema de justiça brasileiro é, talvez, o ambiente em que esse pacto vigora com mais eficiência nos espaços de poder do país, razão pela qual não se identifica eficiência nem eficácia da legislação, ainda que se trate de legislação antirracista, e, consequentemente, induza ao desencantamento das vítimas ao procurarem a resposta do Estado e de quem atua no uso das ferramentas jurídicas para promoção e defesa de direitos dos grupos vulnerabilizados.  

Por essa razão, não pode o direito ser alçado ao patamar de solucionador dos conflitos como uma ferramenta mágica. Isso porque, primeiramente, as sociedades não são unilineares nem destituídas de saberes; posteriormente, porque o sistema de justiça brasileiro é formatado pelos ditames do colonialismo, que impede a credibilidade do diverso com o intuito de exercer o controle e a dominação. Nesse âmbito, é indispensável admitir a imprescindibilidade da tomada do direito pelos grupos vulnerabilizados como uma ferramenta de luta social, capaz de instrumentalizar as suas noções de justeza e de auto-organização como formas de também fazer-pensar o direito. Uma vez que a percepção estatal de direito, chamada pelos povos tradicionais de terreiro de justiça estadocêntrica, argumenta exclusivamente com base em uma perspectiva colonial representada por uma estátua cega, inclusive às violências e iniquidades do mundo, como nos lembram Thula Pires e Adailton Moreira, ela mantém o conflito com a mobilidade da vida manifestada pelas práticas e pelos saberes dos povos e das comunidades tradicionais — práticas essas forjadas pelo legado dos povos bantus e yorubás, que, a partir das diásporas negras, difundem o paradigma de “sujeito coletivo que assume um lugar de destaque na cosmologia que dita seus destinos, enraizada nas profundezas da ancestralidade”. O sujeito coletivo do qual aqui falamos está intrinsecamente ligado às diversas formas de existência, não apenas os humanos, mas os animais e minerais, antepassados, ancestrais e a comunidade de forma integral. Por essa razão, a noção de justiça pela perspectiva jurídico-estatal é insuficiente para explicar e compreender a noção de existência dos povos e das comunidades tradicionais, pois para esses sujeitos isso consiste numa concepção de não apartamento entre humanidade e natureza; não há a dicotomia entre sagrado e profano, posto que a existência é também sagrada e se complementa com os erros e acertos vivenciados. O sujeito coletivo se constitui nas formas de organização e de vida comunitária, movidos continuamente, posto que seus fundamentos e suas formas de ser-fazer-pensar não ficam parados, mas se movimentam em “diferentes realidades”, nas quais “seus parâmetros ético-normativos ampliam a possibilidade de devida diligência e responsabilização sem reprodução de violência para qualquer caso, trazendo, assim, a ciência do encante que Luiz Rufino aponta em seus escritos. Forja, portanto, a continuidade por meio da vivência “do culto à ancestralidade, à metafísica e à ciência do encante proporcionadoras de um arsenal de ações decoloniais que vitalizaram e vitalizam as formas de invenção e continuidade nas frestas”. Em outras palavras, a continuidade nas frestas abre o caminho para a busca pela copa da castanheira. 

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Para a antropóloga afrocêntrica Marimba Ani, a grande tragédia da humanidade já aconteceu: a maafa, como ela chama o holocausto dos africanos na época das colonizações europeias. Dessa época, além de genocídios, torturas e toda a sorte de violências, antes impensáveis, contra a humanidade, também houve o início da exploração sem precedentes da natureza.  

Na sua teoria dos berços, o polímata senegalês Cheikh Anta Diop defende que a Europa seria da ordem da escassez, com seu frio e suas poucas terras, em sua maioria não férteis, e que isso explicaria sua avidez por recursos naturais e humanos, assim como a violência e a dissimulação aplicadas para a conquista. Natureza e humanidade, corpo e mente separados, como se não houvesse complementaridade ou interação entre essas partes, como se realmente fizesse algum sentido serem partes.  

Para Achille Mbembe, o início da colonização e da escravidão que a Europa aplicou a outros povos foi o início da necropolítica, que, de forma resumida, significa o poder de matar do Estado, que decide quem vai viver e quais corpos são descartáveis. A partir de um etnocentrismo neurótico, apoiado e justificado por uma fé cristã, tem-se o processo de genocídio de povos negros e indígenas.  

Isso foi apontado também, de forma muito corajosa e pioneira, em plena ditadura militar, por Abdias do Nascimento, em sua obra O genocídio do negro brasileiro, escrito em 1978. O texto foi pioneiro, porque, até então, ninguém havia usado o termo para explicar a situação da população negra, uma vez que ainda se tentava tapar o sol com a peneira com o mito da democracia racial. Por isso o autor foi perseguido e ficou de fora da comissão de intelectuais brasileiros que iria ao festival Festac ‘77, ou Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negra e Africana, que aconteceu em Lagos, na Nigéria. Mesmo assim, ele foi por conta própria e carregando várias impressões feitas de maneira independente, entregando-as a várias delegações africanas, como forma de denunciar o racismo no Brasil e cometido pela comissão que o censurou.  

Abdias também nos mostra que o racismo é um monstro com vários tentáculos, e um deles é a tentativa de aniquilação, deslegitimação ou invisibilização dos saberes de povos não europeus. Isso, mais tarde, seria chamado de epistemicídio por Boaventura de Souza Santos, mas, na minha humilde opinião, foi expandido e complexificado pela filósofa Sueli Carneiro.  

Para a autora, a questão é muito mais profunda e um processo contínuo. Ela assim o explica em sua tese:  

Para nós, porém, o epistemicídio é, para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, um processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso à educação, sobretudo de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da autoestima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. Isto porque não é possível desqualificar as formas de conhecimento dos povos dominados sem desqualificá-los também, individual e coletivamente, como sujeitos cognoscentes. E, ao fazê-lo, destitui-lhe a razão, a condição para alcançar o conhecimento “legítimo” ou legitimado. Por isso o epistemicídio fere de morte a racionalidade do subjugado ou a sequestra, mutila a capacidade de aprender, etc. 

Afinal, para a conquista ser de fato algo concreto, a mente dos subalternizados precisa também ser colonizada, não havendo vitória possível, além da aniquilação física, se não estivesse amparada pela tentativa de morte de culturas, subjetividades e conhecimentos ou formas de fazer de um povo. E se toda essa gama de sociabilidades estivesse construída de forma a englobar um todo cósmico? Plantas, minerais, animais diversos, espíritos e o universo em uma estrutura pluriversal, formando um todo. E se a ideia agora fosse o ser humano como medida de todas as coisas? Sua superioridade como guia à exploração e ao consumo desenfreado para a satisfação pessoal e a acumulação primitiva de bens — a natureza agora é algo a ser conquistado, e não mais parte de nós.  

Aqui eu entro no meu argumento principal, o da produção do desencantamento do mundo a partir do que se constituiu enquanto saber, ciência e razão pela ótica ocidental. Ao se desconectar da natureza e das coisas, da metafísica e do universo, o eurocentrismo produziu uma desertificação do conhecimento ancestral, assim como a escassez do mundo. A combinação do cristianismo com o eurocentrismo e o capitalismo tentou apagar toda a magia do mundo. A ideia judaico-cristã de domínio total da natureza, e essa como simples provedora da humanidade, e não como parte de um todo, vai produzindo o desencantar da vida, assim como vai empreendendo uma cruzada incansável para eliminar todo o caráter místico que sua própria religião sustentava em tempos passados. Em menor proporção, isso também vale para o islã, que ainda preserva um contato com o que não se vê pelo sufismo. O eurocentrismo, etnocêntrico, julgou arrogantemente estar acima de todos os outros povos do planeta, assim como buscou, posteriormente, separar mente e corpo, desvalorizando um dos elementos necessários para a produção de saber e conexão com a vida. 

Para o ecologista, etnobotânico e filósofo David Abram, essa separação entre os humanos e o mundo “natural” se deu pelo cogito cartesiano e pelo sistema de escrita alfabética, pois o alfabeto decompõe a linguagem falada em unidades sonoras sem significado específico, as letras, e as associam a símbolos visuais que nada têm a ver com as coisas que eles representam. Ou seja, causam uma grande abstração na forma de entendimento do mundo, que precisa de um grande esforço para ser realizado, ato que tira a atenção da sensorialidade existente na relação com a natureza.  

Seu pensamento começa a ser construído a partir da experiência de pesquisa de campo realizada com xamãs de culturas oralizadas do sul da Ásia. A oralidade, presente em todas as culturas indígenas do mundo, se vale do gesto, ou seja, do corpo, e do som para constituir sua forma de comunicação. Em seu livro The Spell of the Sensuous (O feitiço do sensível, em tradução livre), Abram destaca como a oralidade está diretamente ligada a ritmo, sons e movimentos da natureza e como o corpo faz parte dessa construção.  

Não por acaso, Oyèrónkẹ Oyěwùmí, em sua obra A invenção das mulheres, argumenta que o Ocidente é ocularcentrista em suas cosmovisões, argumentando, então, que esse termo é inadequado para se referir à percepção do mundo pelos iorubás e por outras etnias africanas, sugerindo a palavra cosmopercepção. Para a socióloga nigeriana, a maioria das culturas em África tem uma relação muito mais profunda com o sentido da audição, o que constrói uma relação diferente com a natureza e o cosmos, inclusive no sentido de acreditar em coisas que não se pode enxergar, abrindo uma conexão com a metafísica. Oyěwùmí também liga a construção dessas cosmopercepções ao fato de a oralidade ser o principal meio de se comunicar e transmitir conhecimento, trazendo o argumento reforçador das línguas africanas serem tonais.  

Assim, percebemos que a destruição da natureza a partir de sua exploração extrativista e imparável, produzindo o aquecimento global e a morte de outros seres e saberes, vai nos levar ao fim do mundo. Não por acaso, a filósofa quilombola Katiuscia Ribeiro sugere que “o futuro é ancestral”, seguida por Ailton Krenak, pretendendo o replantio das epistemes e práticas afro-indígenas para que a própria ideia de futuro continue existindo enquanto possibilidade, para que possamos reencantar o mundo.  

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por Gilson José Rodrigues Junior

Entrei na graduação em Ciências Sociais em 2003: um jovem negro que, de alguma forma, se encantou com aquele universo — o primeiro homem da família a adentrar aquele espaço. Antes de mim, uma mulher, minha prima, havia aberto a porta. Ela me deu o melhor conselho: “A universidade não está tão boa quanto já foi, mas aproveite tudo: viagens, cursos, projetos, militância…”. Entrei encantado num universo que, como já alertava Max Weber, se organiza por processos de racionalização, afastamento de uma ideia de sagrado e desencantamento do mundo — um esforço de compreensão do Ocidente enquanto rejeição de outros caminhos possíveis. Weber reconhece racionalizações em várias religiões e sociedades, mas indica que a modernidade desenvolveu uma forma específica, focada na dominação do mundo, que anda junto da perda de sentido.  

Lendo o autor alemão, percebi que esse diagnóstico atravessava a própria universidade: o modo ocidental de olhar sem ver — reduzir o mistério à estatística, o sagrado à categoria, o corpo à função. Tal racionalização vira norma e poder. 

Exemplo disso é o mito de Fedro, de Platão, que apresenta o cocheiro e os cavalos: a alma como uma carruagem guiada pela razão, que tenta conduzir dois cavalos — um branco, dócil e obediente; outro negro, indócil e perigoso. É ali que o medo do corpo e do desejo começa a ser elaborado como fundamento da razão. Não irei aqui me aprofundar no racismo da metáfora, mas é preciso lembrar que a distribuição de cores não é inocente: a brancura se associa ao “bem”, e a negrura, à “desordem”. É nesse gesto que a modernidade desenha uma cosmofobia — medo das diferenças, recusa em conviver com outros modos de ser e existir. O cocheiro é o ancestral simbólico desse ideal moderno de pessoa — alguém que separa a mente do corpo e põe a razão para mandar em tudo —, e a carruagem de Platão ainda atravessa o corpo das universidades. 

Olhar para o mundo a partir da ideia de que o mundo é construído socialmente é lindo, e continuo encantado com isso. Só que desconstruir, um dos pontos‑chave das ciências sociais — sociologia, ciência política e antropologia —, não é o bastante. Desconstruir para quê? Para supor que algo possa ser construído onde antes havia certeza, dogmas, hierarquias. Falar de encantamento do mundo é falar de um outro modo de construir — não o que ergue prédios e sistemas, mas o que planta relações e escuta silêncios. Falar encantado é falar deste outro lugar do corpo. É permitir que a fala não separe o humano do invisível nem o pensamento da carne. 

Porque o desencantamento, ainda que se apresente como exercício de racionalidade, pode ser também violência — violência sofisticada, uma caça ao mistério, um incômodo com o encantamento, com a magia. Enquanto homem negro, hoje consciente da força emanada pela minha ancestralidade, percebo que também me violentava. E que fique negritado: o problema não é com a desconstrução. Algum desencantamento é indispensável. Há deslumbres que são profundas cegueiras e alienação. Mas não é sobre isso que estou falando! 

Quando penso nisso, lembro de Malunguinho, líder do quilombo do Catucá, um gigante que ia de Pernambuco até a Paraíba. Malunguinho recebe as chaves das sete cidades da Jurema das mãos dos indígenas e se torna mestre, caboclo e exu.  

Conheci Mestre Bispo em 2019, e nos reencontramos ao longo dos anos. Sempre me senti diante de um encantado encarnado! Como de costume, ele alertava: não há começo, meio e fim. Há começo, meio e começo.  

Assassinados por europeus, tantos povos negros, indígenas, quilombolas e ciganos sofreram e ainda sofrem. Essa é a causa da cosmofobia que matou Malunguinho: esse ódio, esse medo. Mas, como aqueles que se encantam, aquilo não foi seu fim, foi um novo começo. Renasceu guardião das sete cidades da Jurema, o território do mistério. Sua morte é início. Seu fim é retorno. E, ao retornar, ele me ensina a reencantar. 

Nesse sentido, a Jurema é um convite ao reencantamento do mundo. Um reencantamento que não nega a crítica social ou ignora as injustiças e as desigualdades. Muito pelo contrário. As mestras e os mestres da Jurema foram, em muitos casos, homens e mulheres que viveram marginalidade existencial — porque o ódio ao diverso não suporta o que não pode dominar.  

A Jurema é escola de resistência. Sua pedagogia é feita de silêncio, de erva macerada, de folha, de segredo. O que se aprende nela não é um conteúdo, mas uma disposição: o corpo aprende a ser confluência — encontro entre diferenças em que ninguém engole ninguém e todos se fortalecem. 

O reencantamento é isso: um chamado à confluência entre saberes, existências e mundos. É a recusa da cosmofobia e a escolha da comunhão. É reconhecer que o saber não precisa ser possessão — ele pode ser relação. Na Jurema, o conhecimento não se toma, ele se recebe.  

“Jurema é um pau encantado, é um pau de ciência que todos querem saber.” Quando escuto e canto esse ponto, compreendo que ele fala de uma ciência que não é a ciência moderna. É outra. É uma ciência contracolonial — um modo de conhecer que nasce dos povos feridos pela colonização, e não dos centros que a produziram. Uma ciência que sabe esperar o tempo da seiva, da folha, da palavra. 

Porque o conhecimento, quando é sagrado, não é propriedade, é responsabilidade. A Jurema, esse pau encantado que é árvore e bebida, é sempre mistério. E todo mistério carrega em si a pedagogia do encantamento. “A Jurema é um pau sagrado onde Jesus descansou…” E aí: “Ah, mas Jesus não conhecia a Jurema?”. Quem disse? Talvez o Cristo da floresta não tenha sido traduzido pelo mesmo latim das igrejas, porque mistério não cabe na cronologia ocidental. 

O encantamento, então, não é fuga do real, mas é outra concepção de mundo, já que devolve ao ser o que a modernidade transformou em coisa. É o reconhecimento de que a vida não é apenas biológica, mas ancestral. Pensar é também cantar, rezar é também teorizar, curar é também pesquisar.  

Encantar-me é resistir ao desencantamento como norma epistêmica. É recusar a lógica que transforma a vida em dado. É afirmar, como diz Krenak, que o mundo não é um condomínio de humanos VIP, rodeados de sub-humanos. É lembrar, com Gersem e Braulina Baniwa, que somos corpos‑territórios — corpos inseparáveis da terra, que guardam florestas, rios e memórias. O corpo é território! 

Reencantar o mundo não é um gesto ingênuo. É insurgente. É desafiar a arrogância da razão moderna, essa razão que acredita ser a única capaz de explicar o inexplicável. É restituir o direito de sentir o mundo.  

O encantamento não nega o conflito, mas o reinscreve num horizonte de relação — uma epistemologia da reciprocidade, e não da extração. Por isso, reencantar é também celebrar. 

Lembro das palavras de um ancião mancagne (etnia senegalesa), em Ziguinchor, no sul do Senegal: “nós adoramos a Jesus Cristo e celebramos nossos ancestrais, e nisso não há nenhuma contradição.” Nessa frase, há o gesto que a modernidade não sabe acolher em seu binarismo excludente: é possível adorar e celebrar, crer e dançar, pensar e sentir, sem que um anule o outro. O reencantamento do mundo é exatamente isso — uma celebração dos ancestrais que me habitam, das forças que me atravessam e das vidas que insistem em florescer, mesmo depois da morte. 

O velho mancagne me provocava a conjugar o verbo confluenciar. Não precisamos escolher entre isso ou aquilo, entre os ancestrais e Jesus Cristo, entre o conhecimento acadêmico e a Jurema, entre a crítica das ciências sociais e o encantamento do mundo. Tudo isso pode conviver. E, nisso, posso encontrar caminhos confluentes, posso encontrar potências nunca imaginadas antes. Confluir é compreender que o desencantamento do mundo precisa ser posição diante de injustiças, desigualdades, discriminações e preconceitos, mas não deve acabar com a magia nem matar a capacidade de se surpreender com a vida. 

É nesse ponto que se dá o confluir: onde rios se encontram, onde certo desencantamento não se opõe ao encantamento, onde o culto aos ancestrais não se opõe a uma ciência.  

Salve a Jurema Sagrada. Nas ervas, nos cachimbos, na fumaça — que é oração, proteção e ataque —, desejo que cada um plante o que colhe. Lembrando de Malunguinho ensinando que há defesas que são ataques, que aquele que colhe, colhe do que mandou, colhe do que plantou. Como me ensinou minha Ya, a pessoa manda, a gente se defende, e o que ela vai receber é consequência do ato dela…  

É no mistério que se vê o cachimbo como arma e escudo — na fumaça, proteção; nas ervas, aprendizado; na gira, cuidado e confluência. O encontro de diferenças. É como o encontro entre o Rio Negro e o Solimões: um não engole o outro, e ambos se tornam mais fortes. Encantar-me é não desistir do mistério, é compreender que o mundo não se explica, se canta, que a ciência sempre teve corpo, e que o corpo pode ter ciência, mas nunca foi neutro!  

Malunguinho continua vivo, guardando as sete cidades, lembrando que não há começo nem fim: há começo, meio e começo. 

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“Falamos em comuns, no plural, inspirados pelo lema zapatista ‘Um não, muitos sins’.” Assim escreve Silvia Federici em Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns (lançado em 2018 e traduzido para português em 2022), de maneira a recusar qualquer universalismo que imponha uma forma única de vida. A tal política dos comuns nasce dessa pluralidade quase radical, como uma prática cotidiana de reconstrução do vínculo social e de reencantamento da Terra. O capitalismo nos ensinou a viver uma realidade fragmentada: a trabalhar sem ver sentido, a produzir sem partilhar, a consumir sem nos reconhecer no que fazemos. Separou o corpo do território, o cuidado da política, o tempo da vida. Contra essa lógica que isola e exaure, talvez caiba outra gramática para a existência, uma em que ela signifique, antes de tudo, uma trama compartilhada. 

Federici — cujo magnum opus é o clássico do feminismo materialista Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, de 2004 — não está evocando uma nostalgia pastoral nem um retorno ao passado comunitário. O que é colocado em pauta pela autora, que tem uma longa trajetória de militância e pesquisa, é a reapropriação do poder de decidir coletivamente sobre a vida, frente à dupla expropriação do capital e do Estado. É fazer do comum um verbo: comunar, partilhar, recriar juntos. Esse gesto político simples seria o ponto de partida de uma reorganização civilizatória. No tempo desencantado, também conhecido como atualidade, tal tarefa seria a mais urgente.  

“Quando falo em reencantar o mundo”, escreve a autora ítalo-americana, “refiro-me à descoberta de razões e lógicas diferentes das do desenvolvimento capitalista.” Ou seja, ela situa o problema no coração do capitalismo contemporâneo, que subordina a reprodução da vida à acumulação. A extração de valor não se limita à fábrica, mas invade a casa, o corpo e o tempo.  

“A história da acumulação primitiva não pode ser entendida do ponto de vista de um sujeito universal abstrato, pois um aspecto essencial do projeto capitalista é a desarticulação do corpo social pela imposição de diferentes regimes disciplinares.”  

O capitalismo não apenas produz diferenças e hierarquias. Ele depende delas. São parte de sua engrenagem, o meio pelo qual a exploração se torna possível e contínua, quase incontornável. A clássica cisão entre o produtor e seus meios de produção é uma peça que o capitalismo jamais deixa de encenar. Mudam os atores, mas o roteiro da expropriação é sempre o mesmo. A violência não é o ponto de partida do capitalismo, mas o seu método permanente. 

“Em resposta ao ápice de um ciclo de lutas sem precedentes — anticolonial, operária, feminista —, não surpreende que a acumulação primitiva tenha se tornado um processo global e permanente, com guerras e expropriações massivas que hoje surgem em todas as partes do planeta.” 

Federici chama de “cercamentos” o processo pelo qual o capitalismo tira das pessoas o acesso direto ao que é essencial para viver — lê-se: terra, tempo, corpo, conhecimento… — e transforma tudo em propriedade ou mercadoria. Antigamente, isso acontecia quando camponeses eram expulsos das terras comuns na Europa moderna; hoje, vemos isso na privatização de serviços, na exploração de dados e na forma como a tecnologia captura nossa atenção. Em outras palavras, os cercamentos são uma prática permanente do capital: eles quebram vínculos sociais, transformam relações humanas em recursos e nos afastam da sensação de pertencimento e encanto no mundo. 

Um exemplo é a financeirização. No capitalismo industrial, a exploração acontecia principalmente na produção, mas, na fase atual, ela se desloca para o crédito, para os fluxos de capital e para a dívida. O dinheiro deixa de circular apenas como meio de troca e passa a gerar lucro a partir de si mesmo, não mais pela produção de bens, mas pela promessa de pagamento futuro. Ele gira sobre si mesmo e transforma o tempo em penhor. Nesse sistema, a dívida funciona como instrumento de governo, pois, ao transformar o futuro em garantia e o desejo em obrigação, ela regula comportamentos. No discurso neoliberal, o endividamento é apresentado como inclusão, como gesto de autonomia financeira. Na prática, é uma nova forma de cercamento, que transforma necessidades básicas em contratos e submete a vida à lógica do pagamento. 

A tecnologia também reforça esse movimento. Ela promete liberdade, mas oferece controle. Automação e plataformas digitais criam a ilusão de autonomia enquanto aumentam o isolamento e a dependência. Se não se pode rejeitar a tecnologia inteiramente, é importante saber que ela faz com que o mundo seja visto como recurso, e este deixa de ser um tecido de interdependências que serve à vida, e não ao lucro. Os comuns surgem como resposta. Ao perceber que nem Estado, nem mercado garantem a vida, Federici propõe reapropriar coletivamente a riqueza já produzida para inventar formas novas de viver juntos no futuro. 

Reencantar o mundo é devolver valor àquilo que o capital transformou em mercadoria. É reencontrar no corpo, na terra e nos vínculos humanos não instrumentos de produção, mas formas de existência. O reencantamento, de aparência tão basal, é mega político, porque recoloca a vida no centro. O trabalho reprodutivo — cuidar, cozinhar, plantar, educar — é o primeiro território de resistência. A autora explica o porquê: “Produzir seres humanos ou colheitas para a nossa mesa é uma experiência qualitativamente diferente da produção de carros, pois requer uma interação constante com processos naturais, cuja modalidade e cujo desenvolvimento não controlamos.”  

O comum nasce desse reconhecimento de interdependência, uma espécie de ontologia da relação. Essa perspectiva permite a Federici olhar para o futuro sem ingenuidade, mas com um tipo de esperança materialista.  

E onde entra o feminismo nisso tudo? O feminismo, na verdade, é o coração da política dos comuns. Foi através das mulheres que Silvia Federici enxergou como o capitalismo organiza e explora a base da vida. Sua atuação e seus estudos sobre gênero e trabalho giram em torno da reinterpretação de tudo à luz da violência histórica contra as mulheres. Não existe produção sem reprodução. Ou seja, o trabalho de cuidar, alimentar, limpar, criar e manter a vida é o que torna possível todo o resto, inclusive o trabalho assalariado. Historicamente, esse trabalho ficou invisível e desvalorizado, realizado majoritariamente por mulheres, dentro das casas, sem remuneração e sem reconhecimento social.  

Já na casa dos seus oitenta anos, Federici dedicou sua vida a ponderar sobre como o capitalismo se apoia na exploração gratuita daquilo que garante a continuidade da vida. Por isso, o feminismo, para ela, não é apenas uma luta por igualdade entre homens e mulheres, mas uma crítica à estrutura econômica e social que transforma o cuidado em dever privado e naturaliza a desigualdade. Sem o feminismo, a seu ver, o comum não existe, porque é nele que se aprende, concretamente, o que significa sustentar a vida em conjunto. Esse reencantamento não é o retorno ao mito, mas a restituição da magia à matéria. A autora escreve que “a capacidade de interpretar os elementos, descobrir as propriedades das plantas, obter o sustento da terra e guiar-se pelas estrelas foi, e continua sendo, uma fonte de autonomia a ser destruída.”  

Curiosamente, mesmo com tudo isso em mente, é difícil até conceber que possa dar certo. Há boas intenções, propostas de justiça e solidariedade, mas parecem esmagadas por uma lógica maior, impessoal e incessante. Por que será? Por que pensar assim pode soar como um descolamento da realidade? No fim, por mais íntegro que um lado seja, o capitalismo se mostra quase invencível, impondo suas regras e determinando vencedores e perdedores com uma frieza quase mecânica. Resta-nos perguntar: é possível encontrar brechas para resistir? Ou estaremos condenados a reagir, aceitando a derrota como inevitável? Pode o encantamento triunfar sobre o desencantamento? 

Assim como a violência funciona como instrumento do capitalismo, o reencantamento e o feminismo se apresentam como armas não violentas da política dos comuns, oferecendo munição para reorganizar o mundo a partir da partilha, do cuidado e da transformação coletiva. Talvez seja esse o grande impasse: pensar nisso, agir e não cair na abissal vala do cinismo.  

A briga é desigual, mas há muita luta na força que não é bruta.

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Quem canta o encanto  
Encanta o encanto  
Quem canta o encanto  
Encanta  
Quem canta o encanto 
Encanta o encanto  
Quem canta o encanto  
Encanta
 

Quem é da Jurema 
É do ajucá  
Que é da Jurema  
É do ajucá 
Quem é da Jurema  
É do ajucá  
Que é da Jurema  
É do ajucá
 

A minha ancestralidade me conecta a tudo, ela é viva e atemporal. Os princípios e ensinamentos são de respeito a tudo, principalmente à natureza, aos mais velhos, às tradições, e isso pode ser uma velha forma de reinvenção da vida e do amor… 

Se imaginarmos um cenário catastrófico, apocalíptico, de final de espécie humana, eu queria que a sobrevivente fosse uma mulher indígena, com o poder de se reencantar e atravessar o tempo. Que lembrasse o nome dos animais, as cores da biodiversidade que a natureza oferecesse, que fosse uma mãe, com seu poder de parir e ser porta pra vida. 

A vida só tem graça porque tem encanto. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Viver encantado é compreender uma ecologia, uma harmonia. Quando nos compactamos e nos moldamos a padrões comportamentais e de vida estabelecido pelo desconhecido, estamos nos afastando da matéria-prima que rege o universo em que vivemos. É difícil entender que uma vida, para estar equalizada, precisa de uma aproximação da consciência de que existem outros seres, que encantam os caminhos e os tempos, subvertendo os maus.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Na minha época de escola, havia uma matéria que chamavam de ensino religioso, e eu estou escrevendo isso do nada, simplesmente veio, e, se veio, é porque preciso falar…  

Sim, voltando ao ensino religioso: eu me lembro de rezar na sala de aula e de os colegas dizerem que aquela aula não era importante.  

Quando o assunto é fé, geralmente ensinam que existe um único caminho, que é preciso sacrifícios para se ter a atenção do grande criador. Eu lembro da professora falando um pouquinho de outras religiões e bem muitão da religião católica, era ensinamento monofé, o colonialismo espiritual já estava correndo solto.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar. 

A geração do meu pai e da minha mãe quebrou um ciclo muito grave, eles se converteram. A quebra desse ciclo incluiu o afastamento de uma forma de fé específica, pautada na coletividade, na diversidade, na relação com a natureza e com os seres que nela habitam, contexto em que existem diversas forças e energias que corroboram com a gestão espiritual de uma grande força, a do grande espírito criador.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar. 

Eu nasci no monoféistico, apesar desse lar ser dentro de um território indígena, que tem seu próprio modo de ver a origem da vida e sua própria fé, e isso sempre foi contraditório para mim, quando criança e em grande parte da minha vida. Tudo muda para mim quando, através da música, busco incessantemente por autenticidade, e é voltando para minhas origens que me reconecto com o universo primário, aquele em que os meus pais quebraram o ciclo que meus avós mantiveram até se converterem. 

Deixei de ser monofé por indução, e passei a ser polifé por experiência e por consciência étnica, compreendi que a fé do meu povo não é sobre religião, mas sobre uma cosmologia que integra o ser humano, que o faz ser parte de um mundo que tem inúmeras outras partes, e compreendi que o encanto pode tornar a relação da vida mais simples e natural. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

É essencial a busca por equilíbrio e entender que o encanto está para a vida como todas as outras coisas. O que importa é como distribuímos isso. 

Não acredito que se relacionar com os encantados seja como uma peça de roupa que deixamos no guarda-roupa e escolhemos usar em determinada ocasião. Os encantados são princípios, fundamentos que devemos levar para tudo que fazemos.  

Muitas vezes, pensamos ou achamos que a espiritualidade nos abandonou. Será que são os encantados que se afastam da gente ou somos nós que nos afastamos? Porque a relação com os encantados precisa ser regada. A meu ver, o encanto está em tudo, é a ecologia humana. Encanto é como tempero, não pode ser tratado como artigo de luxo, que uns podem acessar e outros não. O que nos tem faltado é a capacidade de reconexão, de reencantamento. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Na minha relação de proximidade com o encanto, há conversas, mensagens, conexão através de uma tecnologia que não foi desenvolvida por inteligência artificial 

Senhorzinho 
Senhorzinho mandou dizer 
Que esse mundo não tá bom 
Que o mal é o bicho homem 
Que destrói tudo que vê
Senhorzinho que mora longe  
Nos palácios dos encantos  
Peça ao nosso grande espírito  
Que proteja minha nação  
Senhorzinho, mestre encantado  
Salve a vida dos seus filhos  
protegei nossos te
souros  
Da ganância do poder  
Senhorzinho, preserve as fontes  
As nascentes de água pura  
As sementes crioulas  
E toda a planta nativa  
Não castigue os animais  
Eles são os inocentes  
Não merecem pagar  
Pela ruindade dessa gente 
 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.   
Venho de tempo muito distante, em que o vento faz a curva a favor do que é bom  
Em que as leis dos inocentes  
Valem mais do que ouro  
No bolso dos homens maus 
Lá a casa do joão-de-barro  
Vale muito mais que uma mansão 
Lá ninguém morre, se encanta  
A morada é a casa onde mora  
O ancião   

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.
   
Quem corre sob o comando do cronômetro, se perde no tempo da natureza.  
Quem não constrói pontes não atravessa, não reencontra, não reconstrói. 

 

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No começo, o sumiço do encanto passou desapercebido. Não houve trovão nem tempestade, nem anúncio no noticiário ou no stories do Instagram. Apenas uma leve mudança no ar, um desbotamento, um brilho que se perdeu. As flores afloravam com as cores mudas, o vento soprava desanimado, sem levantar as folhas num turbilhão. Os adultos pareciam mais cansados, de passos arrastados pelo peso da responsabilidade. Todo lúdico foi se desvanecendo. 

As crianças foram, é lógico, as primeiras a perceberem. O lápis de cor de repente se recusou a pintar o dragão de verde, o céu de azul, o unicórnio de cor-de-rosa. O lençol deixou de ser um paraquedas, o chapéu mágico já não produzia mais pombos ou coelhos. A fada do dente não veio. Espantados, perceberam que o encanto havia sumido. 

Juntaram-se uma tarde e decidiram fazer algo a respeito. Mas onde encontrar o encanto?  

— Já sei — disse um. — Minha avó sempre diz que o encanto mora dentro de nós. 

— Mas como encontrá-lo? — indagou outro. 

— Nas memórias, ora. Me lembro de uma tarde, deitado na grama, olhando o céu e imaginando que as nuvens eram todo tipo de bicho. Girafa, anta, macaco, papagaio.  

Já outro respondeu: 

— Nada disso. O encanto mora nos olhos. Meu pai diz que, se quisermos, podemos enxergar o encanto até nas coisas mais básicas do dia a dia. 

— Teremos que juntar muitas memórias — disse uma menina —, e usar todos os nossos olhos para tentar enxergar o encanto.  

As crianças olharam à sua volta, mas tudo parecia cinza, pálido. Até que a menina avistou uma singela borboleta.  

— Ali! A borboleta!  

As crianças olharam para a borboleta, que lutava para voar, suas asas penando. Começaram então a se lembrar da vez em que a borboleta pousou na cabeça da mamãe, de quando o titio comprou uma rede para caçar borboletas no Natal. Do campo de flores com centenas de borboletas, encontrado por acaso numa tarde no parque. Com a enxurrada de memórias, a borboleta começou a ganhar força e brilhar, cada vez mais colorida. As suas asas, antes cinzentas, se tornaram furta-cor. Cada criança enxergava uma cor diferente, ora roxo, ora verde, ora azul turquesa. Logo notaram que o silêncio do ar foi se transformando, ganhando som. Parecia até que a borboleta estava cantando.  

— Claro — disse uma menina muito sabida. — A palavra “encanto” vem do latim incantare, ou cantar sobre. Antigamente, as pessoas cantavam palavras especiais, de poder, transformando o mundo à sua volta com a voz. E daí, aos poucos, “encanto” passou a descrever tudo que encantava, fascinava, provocava admiração. É a música que a alma reconhece, mesmo quando a razão a esquece. O encanto não é feitiço, é o canto que damos ao mundo quando acreditamos nele.  

A música da borboleta pululava, espalhando-se pelo ar numa brisa colorida. Cada nota parecia despertar algo adormecido: as flores se esticaram, preguiçosas, as árvores voltaram a balançar e até o sol cintilou mais do que nunca. 

As crianças se entreolharam, surpresas com o que tinham feito. 

— Então é isso… O encanto nunca foi embora — murmurou um dos meninos. — A gente é que se esqueceu de cantar. 

E começaram, todos juntos, a inventar uma canção. Não tinha rima nem melodia certa, mas era feita de risadas, lembranças queridas e pedacinhos de sonho. Cantaram para o vento, para o chão, para o céu, e, a cada verso, o mundo ia recuperando suas cores. 

Quando o último acorde da canção se dissolveu no ar, a borboleta pousou no ombro da menina e sussurrou algo que ninguém mais ouviu. Ela sorriu e disse baixinho: 

— O encanto nunca morre, ele apenas adormece dentro das pessoas que param de acreditar. 

Depois disso, as crianças voltaram para casa, levando consigo pequenas sementinhas brilhantes. Eram sementes de encanto para cada uma plantar. Sementes que crescem quando são regadas com risadas, alimentadas com a imaginação, acolhidas pela gratidão de viver cada momento de nossas vidas. As sementes que crescem, invisíveis, com o doce canto dentro de cada um de nós. 

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Tudo começou com o pai de Clara. Uma sexta-feira por mês, saíam para terem aula de realidade. O pai a levava no cartório para ver a burocracia, no fórum do centro, ficavam horas na fila do xerox, só para a menina entender que a vida real era cheia de pedaços sem graça. “Acontece que a vida é morna, filha”, ele dizia. Ao final, tomavam sorvete e tudo que parecia tedioso ficava divertido. 

Benedito, seu pai, era um homem da ciência, estudioso, teórico inveterado, que passava o dia de olhos abertos. Mas o homem veio do interior, onde teve aulas com uma benzedeira, por isso, em alguns domingos, tirava quebranto de Clara fazendo o sinal da cruz na testa, enquanto rezava baixinho. Seus olhos lacrimejavam, o que era sinal de limpeza espiritual. Nesse lugar, a menina se sentia protegida de todos os males, amém.  

As aulas de realidade pareciam querer contrapor o homem místico que Benedito tentava esconder com sua intelectualidade. Quando era dia de Santo Antônio, o pai dizia para a filha colocar no sereno uma clara de ovo com água e, antes de amanhecer, ver no fundo do copo o nome do seu marido. Ela acordava contente no dia seguinte, com a certeza de que seria feliz no amor e que havia um nome traçado no céu reservado para ela. Cresceu assim, encantada tanto com a realidade quanto com seu lado místico. Sua compulsão começou na infância.  
 
Seu primeiro amor a fazia querer correr para a banca de seu Toninho, onde comprava a revista Simpatias de Amor, e executava com fidelidade cada ritual sugerido. Ela tinha como assistente o porteiro do prédio, Francisco, que a ajudava a enterrar no jardim do térreo bananas encharcadas com mel e recheadas com sete papéis dobrados com o nome do menino da classe de quem ela gostava. 

A mãe, pragmática, legara à filha a herança do mesmo mal. Vivia atrás de astrólogas, cartomantes, leitoras de mão, e quanto mais distante, melhor. Sua favorita era Safira de Mariporã.  

Um fruto não cai longe do pé, e a menina cresceu correndo de cartomante em cartomante, leitora de borra de café, taróloga, videntes etc. Tudo era uma diversão, uma vida só era muito pouco, uma vida era também demais. Era preciso algo mais na existência, alguma purpurina.  

Chegava a se arrepiar quando as tarólogas estendiam a toalha de feltro roxa com uma mandala dourada desenhada no meio, cristais e balas 7 belo no canto lateral (oferendas para o anjo da guarda). De tanto ir, aprendeu o significado das cartas, de modo que não temia a carta da morte, e sim a da torre. 
 
Certa vez, quando terminou um namoro, chegou a ir em mais de 30 consultas diferentes para saber se o amor voltaria ou não. E listou, numa planilha de Excel, os sins e nãos, montando um gráfico das possibilidades de uma possível volta do rapaz. Divertia-se, ainda que na fossa, ao mesmo tempo em que aguardava o remendo de seu coração. A cartomante Déia errou na previsão quando disse que em março eles se casariam. Clara, que nunca foi de levar desaforo para casa, foi lá tomar satisfação logo que chegou abril. 

Foi em maio do mesmo ano que conheceu a senhora russa que a recebeu na sala e a levou ao quarto dos fundos, ao som do CD de música eslava, enquanto abria o baralho da cigana russa. Seus dois gatos se espreguiçavam pelas imagens, Vera fumava sem parar, dizendo que não podia fumar na sala pois Dalmo, seu marido, estava no balão de oxigênio no quarto e podia fazer mal para ele. Clara, que sempre gostou de nicotina, a acompanhava com lealdade. 

Quando o pai de Clara adoeceu, quis ensinar a filha a benzer. Ela não aceitou. Foi a única coisa que ele ficou sem lhe ensinar. Mas ela não poderia aprender, pois assim teria que admitir que estava pronta para viver sem o pai. Ele partiu do mesmo jeito, deixando-a em busca de respostas e de centros espíritas. Clara finalmente achou um perto de casa e, enquanto aguardava sua vez, contou sua história para as outras pessoas que também aguardavam na fila. Elas a abraçaram e disseram que sua dor ia passar. Quando finalmente ficou de frente para uma das entidades, ouviu que seu pai estava bem e tomando sopa com outros espíritos. Revoltada, pois tinha sopa em casa, a moça foi ao candomblé, onde recebeu muitos rituais dificílimos de cumprir, que envolviam velas gigantes que ficavam acesas no box do banheiro — para evitar acidentes, rodeadas por uma bacia de água — e que a deixavam assustada quando ela ia fazer xixi de madrugada.  

Entre folhas de mamona para rituais de São Jorge, arroz para Jesus e oferendas para Cosme e Damião, o tempo foi passando e a dor mudando de um altar visitado diariamente para uma prateleira pesada em seu coração, visitada de vez em quando, na hora em que a saudade batia. 

Um dia, a mãe disse a ela: “Me arrume uma vidente. Quero saber se o meu ex-namorado, Olavo, está vivo”. Clara estranhou, pois sabia que Olavo havia morrido há mais de vinte anos. Foi nesse segundo que entendeu que o Alzheimer estava chegando na sua casa feito um encosto e que não havia como lutar — mesmo tendo colocado o feng shui direitinho na área da saúde, conforme orientado pela radiestesista. 

Clara cuidou, amou aquela mãe, mesmo com a realidade lhe dando a pior de todas as aulas, a de ser esquecida por quem mais a amou na vida. A mãe partiu depois do dia de nossa senhora de Fátima e ainda não mandou nenhum sinal, mas a filha de seu Benedito e Maryjane não desiste, e encontrou uma médium no Instagram que trabalha com apometria e está aguardando seu sinal de que não está só. Todo dia ela reza para não deixar de acreditar em nada, mas está difícil. Só quem é clarividente pode ver que sua aura é clara e que sua capacidade de sonhar é seu talismã de resistência. 

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Gira encantada

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Obra de Chico da Silva, Sem título.

No mundo-desencanto,
Gira a roda em cantoria.
Sentido anti-horário,
Retorno ao passado.
No solo sagrado,
(Sobre)vive a ciência,
Jurema que sagra
Em rezo, em canto.
Semente plantada,
Encantaria

Maracá e tambor,
Ancestralidade viva,
Preto Véi alumeia
Cabôco que guia.
Unindo dois povos,
No encanto que rima.
Quilombos e Aldeias
Coragem e rebeldia.
Terras se guardam
Na força da gira.
Ritos e memórias
Modos de vida.
(Re)Encantarias

A modernidade, tal como se constituiu sob o signo do colonialismo europeu, produziu aquilo que podemos chamar de um mundo de desencanto: uma forma de organizar a vida que separa, fragmenta e hierarquiza tudo o que toca. Um mundo que se entende como centro e medida de todas as coisas, no qual a razão é tomada como única via de conhecimento, e o sagrado foi privatizado e encarcerado em instituições, dogmas e estruturas de poder. Um mundo que se afirma universal ao mesmo tempo em que tenta apagar e deslegitimar todas as formas de existência que não se conformam à sua lógica. 

Esse processo deslocou o sagrado para fora da vida cotidiana, transformando-o em objeto de culto institucional, em promessa pós-morte, em doutrina abstrata. A espiritualidade virou “religião”. A fragmentação dos saberes — essa divisão entre ciência, fé, arte, cultura, trabalho — é uma tecnologia de controle. Um mecanismo que buscou padronizar o mundo, disciplinar corpos, apagar cosmovisões e tornar o sagrado previsível e administrável. O objetivo era simples: transformar sujeitos em força de trabalho, e territórios, águas, florestas e espíritos em mercadoria. 

Mas para nós, povos afrodiaspóricos e indígenas, o sagrado nunca precisou ser religado, porque nunca foi separado. Não existe essa cisão entre corpo e espírito, entre natureza e humanidade, entre visível e invisível. Não se trata de “crer” ou “cultuar” algo fora de si. Trata-se de reconhecer que a vida é relação contínua com tudo o que existe e que essa relação se manifesta em gestos cotidianos. 

Nesse contexto, por exemplo, a tradição iorubá, nominada de Ifá, não é propriamente uma religião. Ifá é um sistema complexo de conhecimento que envolve filosofia, arte, ética, medicina, ciência, política e memória. Ifá é método de vivência no mundo. Assim também são o candomblé e a jurema, experiências diaspóricas com o sagrado, que resistiram a todas as tentativas de apagamento. 

A escravização não apenas sequestrou corpos, também tentou arrancar a alma, a memória, a linguagem e a fé dos povos africanos. Na cidade de Ouidah, por exemplo — um dos principais pontos de embarque da chamada Costa dos Escravos —, havia um ritual imposto antes da travessia: os homens eram obrigados a girar nove vezes ao redor da árvore do esquecimento, as mulheres, sete. A intenção declarada pelos reinados não era apenas romper a ligação territorial, mas impedir que a memória, uma vez atravessando o Atlântico, pudesse retornar como maldição contra aqueles que lucravam com a venda de seres humanos. 

O giro, portanto, não era um gesto neutro: era tentativa de desvincular o corpo de sua linhagem, silenciar a ancestralidade, impedir o retorno da palavra, da lembrança e da justiça. Os memoriais construídos na década de 1990 — como o Portal do Não Retorno e a própria Árvore do Esquecimento — frequentemente reproduzem uma narrativa equivocada que retrata os corpos escravizados como resignados e inertes, quando sabemos que nunca houve passividade. 

Mesmo sob violência extrema, nossos povos resistiram. Os iorubá, jeje, bantu, kongo, angola — entre tantos outros troncos civilizatórios — não aceitaram a condição de escravizados; houve levantes a bordo, sabotagens em alto-mar, pactos de fuga ainda no porão dos navios, insurreições urbanas e rurais, e a construção persistente de quilombos em serras e florestas, como Palmares e Catucá, além dos levantes que a história oficial tentou reduzir a nota de rodapé, a exemplo da Revolta dos Malês e da Revolta dos Búzios. 

Essa história não se conta em marcos legais de concessão, mas em estratégias de guerra e sobrevivência: inteligência coletiva, redes de proteção, códigos de comunicação, domínio de território e circulação de conhecimentos práticos — das marés ao plantio, do trato das folhas às cartografias da mata —, aspectos decisivos para a manutenção da vida e para a invenção de novos modos de liberdade. A liberdade, aqui, nunca foi dádiva do senhor; foi política de insurgência cotidiana. 

Essa resistência, no entanto, não se deu isoladamente. A sobrevivência negra no território que se tornaria o Brasil se teceu também em alianças profundas com os povos originários que aqui já estavam. Foi nos caminhos, nas águas, nas matas, nas aldeias e nos interstícios da fuga que esses encontros aconteceram — encontros feitos de troca de conhecimento, de estratégias de defesa e de alianças que garantiram refúgio, orientação e continuidade.  

Foi nesse convívio forjado na urgência, na reciprocidade e no risco que se consolidou uma cosmopercepção que não é soma, mistura ou folclore, mas reconhecimento de um fundamento comum: a terra como parente, o corpo como território vivo de memória, o canto e a roda como tecnologias de cura e organização, a folha como ciência aplicada, o tempo como espiral e o ancestral como presença viva. A aliança se forja na prática e no movimento, na necessidade de viver e permanecer. Não se trata de “hibridismo” em chave museológica, mas de continuidade civilizatória que reconhece, na diferença, um método de permanência. 

É desse fundamento que hoje nomeamos Encantaria — não como categoria exótica, mas como regime de presença que mantém o mundo vivo, incorporando o sagrado ao cotidiano e recusando a amputação moderna que separou saberes, pessoas e territórios. Encantaria é tecnologia de relação e de cuidado; é método de leitura do real que escuta o vento, respeita o solo, conversa com a água, agradece a chuva, reconhece os não humanos como parte da comunidade, honra quem veio antes.  

O que a racionalidade europeia especializou em subsistemas (religioso, científico, artístico) aparece aqui como circuitos integrados: cozinhar é ciência e é rito; dançar é política do corpo e é conhecimento do tempo; rezar é ética pública e é medicina; plantar é jurisprudência do território e é linguagem da ancestralidade. Ifá, candomblé e jurema sagrada evidenciam esses circuitos — não como “crenças”, mas como sistemas complexos de produção de sentido, cura, justiça e organização social. 

Nesse mesmo horizonte, a orixalidade aprofunda a compreensão de que não existe separação entre vida, memória e sagrado. Trata-se de um sistema sofisticado de princípios éticos e filosóficos construído na diáspora como resposta à violência e ao epistemicídio. Mais do que um conjunto de crenças, ela orienta modos de convivência e reordena o mundo a partir da multiplicidade, da reciprocidade e da responsabilidade com a força vital. A orixalidade amplia a capacidade de leitura do real, oferecendo parâmetros de equilíbrio, pertencimento e justiça que dialogam com a vida concreta, não com abstrações distantes. 

Os mitos, oriquis e itã, nesse contexto, não são ornamentos simbólicos, mas arquivos de pensamento. Neles se entrelaçam ética, política, cosmologia e cuidado. Cada narrativa recoloca a pessoa na sua origem, devolvendo-lhe medida e orientação. Cada saudação reinscreve o corpo na memória coletiva e o convoca a sustentar a vida em circulação. Assim, esses repertórios funcionam como ferramentas de reorganização do presente, ensinando que justiça é prática cotidiana de equilíbrio, reparação e vínculo. 

Os terreiros, por sua vez, tornaram-se territórios de reconstrução da vida. Na diáspora, foram casas de refazimento da família que o colonialismo tentou destruir. Pai e mãe de santo tornaram-se guardiões do cuidado e da memória; irmãos e irmãs de santo tornaram-se parentes espirituais; e a casa tornou-se abrigo, escola, farmácia, arquivo e território de proteção. Ali se refez a continuidade que a violência tentou romper, expandindo a noção de família para uma ética de compromisso, afeto e responsabilidade coletiva. 

Por isso, o reencantamento do mundo não é nostalgia de um passado idealizado, mas tarefa política e ecológica do presente: recompor vínculos, desfazer hierarquias entre formas de vida, devolver espessura às relações e reinstalar a responsabilidade como princípio de convivência. Encantar, aqui, não é maquiar o desastre; é adiar o fim pela restauração dos laços que a colonialidade rompeu. Enquanto houver quem lembre, quem cuide, quem cante, quem firme o chão com o pé descalço, haverá mundo — não por milagre, mas por método: prática cotidiana de relação. 

Esse método tem um alicerce comum às tradições originárias e afrodiaspóricas: o respeito. Respeito como princípio de reciprocidade (dar e receber), de responsabilidade (responder ao chamado do vínculo) e de medida (saber o peso da ferramenta que se empunha). Respeito que se aprende com Exu na ética da resposta e da troca, com Ogum na estratégia do fazer, com Oxóssi na pedagogia da partilha e do caminho, com as mães das águas na política do acolhimento e da continuidade. Respeito como gramática mínima para uma justiça pluriversal, capaz de reconhecer múltiplos centros de mundo e múltiplas competências de verdade, desarmando a pretensão de universalidade que sustentou o epistemicídio. Onde há respeito, a vida volta a circular; onde a vida circula, o mundo adia o seu fim. 

Caminho, então, para a conclusão afirmando: Gira Encantada não é ornamento poético; é proposição de mundo.  

Asè  
 

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Exposição na Pinacoteca de São Paulo entrega o protagonismo aos bastidores da festa popular.

A Pinacoteca encerra o ano com uma exposição que, numa feliz exceção, desvia o olhar do desfile e o direciona para a correria que põe o festejo inteiro de pé. Trabalho de Carnaval, em cartaz no edifício Pina Contemporânea, parte de uma constatação simples, raramente lembrada: por trás da maior festa popular do país há um ofício contínuo, feito de repetições, improvisos e convicção. O resultado dessa investigação já está em cartaz e pode ser visto até 12 de abril de 2026.

Abetura da exposição Trabalho de Carnaval no Pina Contemporânea para Pinacoteca de São Paulo

Com curadoria de Ana Maria Maia e Renato Menezes, a mostra reúne 200 obras de 70 artistas de diferentes origens e gerações. Fotografias, vídeos, adereços, maquetes e croquis formam um panorama do Carnaval como cadeia produtiva e campo de imaginação coletiva. A exposição não se propõe a capturar a festa em si, mas o processo por trás dela, jogando o holofote sobre esse território em que a criação conceitual e o trabalho manual se confundem. Se, como dita o clichê, somos o país do carnaval, antes de tudo somos o país da peleja e do suor.

Os quatro núcleos — são eles Fantasia, Trabalho, Poder e Cidade —, mostram as diferentes camadas do Carnaval. Em Fantasia, há o gesto de planejar e sonhar a festa. Estudos de J. Cunha para o Carnaval de Salvador e de Joana Lira para as ruas do Recife revelam a força do desenho como primeira forma de desfile. Tudo que encanta e fascina vem de um esboço, ainda que esse processo de criação muitas vezes não ganhe o devido destaque, já que os louros vão para o resultado final. 

Abetura da exposição Trabalho de Carnaval no Pina Contemporânea para Pinacoteca de São Paulo

No núcleo Trabalho, a festa se despe de qualquer romantização e é aí que surgem os corpos que costuram, pintam, levantam estruturas e colam lantejoulas madrugada adentro. São as mãos que fazem o espetáculo acontecer, mesmo quando o país insiste em não enxergá-las.

No núcleo Cidade, o Carnaval ganha escala urbana. Fotografias de blocos, cortejos e agremiações revelam o modo como a festa ocupa o espaço público, um gesto que é, também, uma importante afirmação de pertencimento. A rua, tomada pela música e pela cor, se transforma em um território simbólico de disputa e de encontro. 

Já o núcleo Poder inverte as hierarquias: trabalhadores rurais se tornam reis do maracatu, mulheres negras assumem o centro da festa, corpos periféricos ocupam a narrativa. 

A mostra é, nesse sentido, uma aula sobre a economia simbólica do Brasil. O Carnaval é o espelho de um país que produz beleza em meio à precariedade, que transforma falta de recursos em invenção. A Pinacoteca, e os curadores Maia e Menezes, traduzem esse paradoxo ao montar um espaço que é simultaneamente museu e ateliê, onde a arte contemporânea convive com o saber popular, sem hierarquia.

 Muito da força da exposição está naquilo que não se vê de imediato. Quem passa pelas salas não escuta o barulho das máquinas de costura nem sente o cheiro da cola quente, mas há algo desses ruídos que resiste nas imagens e faz, sim, ecoar esses sons, discerníveis a quem se atenta. O brilho exposto nos painéis é resultado de meses de cansaço, da pressão dos prazos, do ritmo que se acelera à medida que o desfile se aproxima — e tudo isso é um desfile por si só.

Sem título, de Lula Cardoso Ayres

Um grupo que encarna com força essa vivência, que é praticamente a costura entre invenção, exaustão e desglamourização, são os bate-bolas. Presentes nos subúrbios do Rio, eles formam uma espécie de espelho distorcido e fascinante do próprio carnaval: anônimos sob máscaras exuberantes, movidos por uma energia de manter uma tradição viva e criar novas formas de existência. Assim como os artistas e trabalhadores que sustentam o espetáculo das escolas de samba, eles vivem o carnaval o ano inteiro, para além do espetáculo, como prática cotidiana de criação.

Em entrevista para a edição Amarello Sonho, a pesquisadora Rafaela Pinah, que acompanha esses grupos desde 2016 e atua na direção criativa de muitas deles, descreve esse universo como uma “economia criativa dos bairros”. Ali, a produção é constante, o fluxo de dinheiro e de afeto em algum nível circula o ano inteiro, e a potência cultural se sustenta à margem das grandes estruturas. “Hoje essas pessoas podem vislumbrar o lugar dessa potência cultural”, comentou Pinah, “de agentes culturais locais, trabalhando inteiramente para a cultura do governo do Estado do Rio de Janeiro, criando e trocando com as turmas, trazendo um trabalho psíquico e pedagógico também para essas crianças.”

 Os bate-bolas são uma síntese do que há de mais genuíno no Carnaval, que é a capacidade de criar mundos a partir do que se tem. A cola, o tule, o glitter, os restos de tecido e o tempo roubado entre um trabalho e outro se transformam em fantasia, identidade e presença. É um gesto de resistência e de beleza que escapa da lógica da passarela e retorna às ruas, às vielas, às calçadas onde o carnaval nunca deixou de existir. Essa realidade é trazida à tona por Trabalho de Carnaval, mesmo quando não a explicita. Cada obra da mostra parece carregar a memória desse corre coletivo, amplificando o ruído e a magia que brilham por detrás das sombras.

Esses bastidores constituem um modo de vida, um sistema de saberes compartilhados que se repete a cada ano, como um ciclo que o tempo e o cansaço não conseguem interromper. Ao trazer esse universo para o espaço expositivo, a Pinacoteca questiona a própria noção de arte institucional. O que acontece quando o museu se abre para o trabalho que o Carnaval representa? O que se transforma quando o gesto popular é observado como produção estética e social? Há, em Trabalho de Carnaval, uma tentativa de corrigir uma antiga miopia cultural, que considera arte apenas aquilo que chega pronto, limpo, apresentado. O processo também pode ser esplendoroso.

 O Carnaval, como símbolo de nossas contradições, concentra o desejo de liberdade, a falta de estrutura, a potência criativa e a desigualdade persistente. É uma celebração que começa muito antes do samba e continua quando o silêncio volta a ocupar as ruas.

Mas o brilho nunca esteve só na avenida. Ele começa nas mãos que fazem. E é a elas que a Pinacoteca dedica, com precisão e respeito, o seu último samba do ano.


Trabalho de Carnaval
De 8 de novembro de 2025 a 12 de abril de 2026
Edifício Pina Contemporânea (Grande Galeria)
Endereço: Avenida Tiradentes, 273, Luz, São Paulo — SP.
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 18h.

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Exposição na Pinacoteca apresenta um artista múltiplo, que transitou entre teatro, pintura e design gráfico.

A exposição Tens a vontade e ela é livre, em cartaz no quarto andar da Pina Estação, se abre como passagem — uma travessia entre tempos, linguagens e corpos de um país em constante transformação. Revisitar a obra de Flávio Império (1935–1985) é reavivar a potência de um artista múltiplo — pintor, arquiteto, cenógrafo, designer, agitador cultural — e, diante de seu legado, reconhecer a urgência de uma reflexão sobre o país: o que fizemos da liberdade e como reinventá-la em tempos de vigilância e controle?

Flávio Império foi uma das figuras mais inventivas da cultura brasileira do século XX. Formado em arquitetura pela FAU-USP, transitou com naturalidade entre o teatro, a pintura, o design gráfico e a cenografia, sempre guiado por uma inquietação ética e estética que fazia da arte um gesto político. Filho de imigrantes italianos do bairro do Bixiga, carregava em sua obra o olhar atento ao cotidiano e às expressões populares, sem jamais dissociá-las das grandes questões de seu tempo. Império foi, antes de tudo, um articulador de mundos — entre o erudito e o popular, o individual e o coletivo, o palco e a rua — e sua trajetória, embora interrompida precocemente, permanece como um projeto de liberdade em movimento.

Flávio Império nos anos 1980. Reprodução.

Com curadoria de Yuri Quevedo, que há mais de uma década investiga o acervo e os rastros deixados por Império, a exposição em sua homenagem reúne quase 300 obras produzidas entre os anos 1960 e 1985. É uma retrospectiva, aliás, que acontece em um sentido mais amplo, pois, para além das obras, ela evoca a energia de um tempo em que a arte não era apenas expressão, mas necessidade — um modo de existir, resistir e comunicar o indizível. O título, tomado de um verso de Brecht, é também um manifesto: haverá sempre vontade, e é preciso garantir que a liberdade a acompanhe.

 A exposição se desdobra em três núcleos que funcionam a) como etapas cronológicas e b) como estados de espírito. O primeiro, tomado por pinturas e colagens dos anos 1960, mostra o artista em confronto direto com o cotidiano sob a ditadura militar. As figuras populares, os anúncios de jornal, os rostos das ruas e os slogans da propaganda aparecem em composições que misturam ironia e crítica, como se o país se refletisse em um espelho rachado. 

No segundo núcleo, intitulado Aspectos do inconsciente coletivo na comunicação de massas, o tom muda: é o Brasil interior que emerge, o das festas de São João, dos símbolos de fé, das máscaras e dos orixás. Império mergulha na cultura popular sem exotismo, deixando o folclore de lado para focar na essência de pessoas que exalam potência. 

 A terceira parte, Mãos e mangarás, aborda o final dos anos 1970 e início dos 1980, quando Flávio viaja pelo interior do Brasil e volta com novos materiais, novas cores e novas formas de olhar o trabalho manual. É um momento de síntese e liberdade, em que o artista se interessa pela repetição dos gestos, pelos símbolos da natureza e pela convivência de técnicas populares e experimentais. Aqui, a vontade de criar parece já desprendida de fronteiras disciplinares. Pintura, gravura e objeto se confundem em um mesmo impulso vital.

Tudo na exposição sugere movimento. Não há um sentimento, bom ou ruim, que parece indelével, pois o próximo sempre vem. As obras, dispostas em ritmo quase teatral, dialogam entre si, atestando para uma coerência rara de um artista que nunca se deixou aprisionar por estilos ou por rótulos. Sua prática, múltipla e inquieta, é a de quem entende a arte como espaço de encontro e transformação, praticamente uma arquitetura da experiência.

 Flávio Império morreu em 1985, aos 50 anos, um dos primeiros artistas brasileiros a ter o nome associado publicamente ao HIV. Temos aqui uma reabertura de caminhos que é muito bem-vinda, pois Império continua a ecoar, nas formas e nas ideias, como quem insiste em lembrar que a arte é um exercício de liberdade — e, portanto, de risco.

As maquetes de cenários, os estudos de capa para Doces Bárbaros, as serigrafias de cores abertas, as colagens que reúnem fragmentos de jornal e de vida, tudo parece falar de um país que se constrói a partir de ruínas, improvisos e desejos. Na realidade cada vez mais fragmentada em que vivemos, tudo na exposição soa atual, e, diante de um mundo que volta a se dividir em compartimentos e especializações, fica a mensagem: a liberdade só existe na mistura, seja ela de técnicas, de vozes ou de olhares.

Flávio Império vive. E vive também a ideia de que o movimento que tira da escuridão é possível e que a arte, quando quer e quando pode, ainda é capaz de amanhecer o país.


Local: edifício Pina Estação  (4º andar)
Data: de 28 de junho até 1 de fevereiro de 2026
Endereço: Largo General Osório, 66, Santa Efigênia, São Paulo — SP
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 18h.

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De Truman Capote a Gay Talese: antídotos contra a informação instantânea

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Em meio ao cansaço e à superficialidade do mundo digital, o jornalismo literário ressurge com força.

Depois que Truman Capote lançou o clássico A Sangue Frio, em 1966, o mundo do jornalismo nunca mais foi o mesmo. A obra, que reconstrói com minúcia o brutal assassinato da família Clutter, no Kansas, marcou o nascimento oficial do “jornalismo literário”, definido como uma fusão entre reportagem e narrativa ficcional, com personagens reais, cenários reconstruídos e diálogos reconstituídos.

Por sua vez, Gay Talese, outro expoente do gênero, se consagraria com perfis e textos que esbanjavam requinte, como o lendário Frank Sinatra Has a Cold, publicado pela Esquire, também em 1966. Nele, Talese monta a figura do astro sem nunca tê-lo entrevistado. Ao questionarem os limites formais do texto jornalístico, ambos romperam com o engessamento até então visto como necessário ao ofício. Nascia ali uma escola que influenciaria gerações de repórteres ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Truman Capote. Reprodução.
Gay Talese. Reprodução.

Em tempos de redes sociais, timelines aceleradas e consumo compulsivo de conteúdos efêmeros, é difícil não nos perguntarmos se ainda há espaço para esse tipo de jornalismo.

Se por um lado o jornalismo atual é guiado por métricas de cliques, engajamento e velocidade, por outro, vive-se também um movimento de cansaço do consumo rápido, uma estafa totalmente justificada. A avalanche de conteúdos breves gerou um apetite por histórias mais densas, bem contadas, que escapam da lógica do imediatismo. É nesse vão que o jornalismo narrativo vem encontrando novos caminhos, não mais nas bancas de jornais, mas nos fones de ouvido e até nas caixas de e-mail dos leitores.

Chico Felitti e o seu podcast A Mulher da Casa Abandonada (2022), da Folha de S.Paulo, talvez seja o exemplo nacional mais emblemático dessa reinvenção. Em sete episódios, Felitti reconstrói a história real de uma mulher misteriosa que vive em uma mansão decadente no bairro de Higienópolis, em São Paulo. A narrativa se desdobra em uma investigação profunda, revelando que a protagonista era foragida do FBI por crimes de escravização doméstica. O podcast virou fenômeno, alcançando milhões de ouvintes e gerando debates éticos, jurídicos e jornalísticos. O jornalista não inventou o estilo, mas o adaptou, tomando como inspiração os podcasts internacionais, e trouxe-o para a esfera nacional, gerando repercussões inéditas.

 “Eu gosto muito de jornalismo literário, sempre gostei”, disse Felitti em entrevista à IJNet. “Nunca estudei roteiro de podcast, nunca estudei escrita de podcast, como eu nunca estudei escrita de não-ficção. Eu fui fazer isso depois de ter trabalhado em jornal diário a vida inteira, o que é um pouco diferente. A seriedade precisa ser a mesma, as ferramentas para investigar são as mesmas, mas o texto precisa ser um pouco diferente. Era o tipo de coisa que eu já estava em banho maria a tanto tempo, que saiu.” Guardadas às devidas proporções, seu trabalho se insere numa tradição que remonta a Capote e Talese, mas adaptada ao formato contemporâneo de storytelling em áudio, com edição sonora cuidadosa e ritmo de suspense.

Antes da virada tecnológica que redesenhou o fazer jornalístico, nomes como Eliane Brum e Caco Barcellos já mantinham viva a chama do jornalismo narrativo no Brasil. Brum, que já escreveu para diversos veículos, além de autora de livros como A Menina Quebrada, segue praticando um jornalismo que busca o humano por trás das estatísticas, com longos relatos que exigem do leitor tempo e entrega. “Meu pacto com o leitor é de só tomar o seu tempo se acreditar que posso iluminar alguns cantos escuros de um acontecimento ou trazer para a luz o que chamo de ‘desacontecimentos’ e não está no noticiário. Essa sempre foi a minha busca. Se consigo ou não, só os leitores podem dizer”, disse em entrevista.

Caco Barcellos, embora tenha migrado para a televisão, nunca abandonou a lógica do jornalismo investigativo-narrativo. Suas reportagens no Profissão Repórter frequentemente mantêm o fio condutor de personagens reais, tramas sociais e construção de contexto — elementos essenciais ao estilo que praticava em Rota 66 (1992), seu livro-investigação sobre execuções extrajudiciais cometidas pela polícia de São Paulo.

Mas o jornalismo narrativo atual não vive mais apenas nas páginas impressas, ele se pulveriza em formatos digitais que resgatam a ideia de fidelização com o leitor/ouvinte. Newsletters como a da jornalista Juliana Diógenes (Assunto Sério) ou da própria Eliane Brum têm conquistado leitores interessados em análises aprofundadas, longe do ruído das redes sociais. No campo dos podcasts, além de Felitti, destaca-se a jornalista Paula Scarpin, criadora da Rádio Novelo, produtora responsável por sucessos como Praia dos Ossos (2020) e Retrato Narrado (2019). Ambas as produções se valeram de longos períodos de apuração, arquivos, entrevistas e roteiros complexos, uma prática que remete à paciência e ao rigor investigativo dos grandes nomes do passado.

Apesar dos bons ventos, o jornalismo narrativo ainda esbarra em um obstáculo estrutural importante: ele demanda tempo, fôlego e investimento, elementos escassos em um mercado marcado por cortes e crises. O jornalista e professor da ECA-USP, Eugênio Bucci, chama atenção para essa fragilidade ao refletir sobre o papel atual da imprensa:

“A imprensa passou por turbulências vindas da mudança de padrão tecnológico, da alteração de receitas publicitárias, porque com a transição tecnológica, sites e plataformas digitais passaram a sugar a receita que ia para os jornais e organizações jornalistas. E [a impresa] entrou numa crise econômica e, por fim, numa crise de pensamento, parou de se ver como um organismo pensante, as redações deixaram de ser formuladoras e passaram a ser apenas fechadoras. O que fazer agora? A imprensa precisa reencontrar seus vínculos com a sociedade democrática, precisa investigar o poder, precisa se apoiar em esteios mais permanentes, como, por exemplo, as emissoras públicas, que são um pilar das democracias no Reino Unido, na Alemanha, na Suíça e em outros países, e com isso recosturar, reaproximar a sua vitalidade da vitalidade da democracia.”

Sua análise aponta para um cenário em que produzir perfis aprofundados, coberturas extensas e narrativas imersivas pode parecer um luxo. Mas, paradoxalmente, é nesse tipo de conteúdo que reside uma das forças mais transformadoras do jornalismo, justamente por ser o oposto da produção apressada e descartável que domina as timelines.

Há esperança. A Agência Pública, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil, fundada em 2011, opera no modelo de financiamento por fundações e doações individuais, publicando reportagens de profundidade com apuração minuciosa. O modelo independente é um dos caminhos possíveis para manter vivo o jornalismo narrativo.

O jornalismo literário, no fundo, sempre foi um híbrido: exige apuração rigorosa, ética e método jornalístico, mas também sensibilidade narrativa, capacidade de observação e domínio da linguagem. Quando bem feito, ele não apenas informa, mas permite compreender. Se Capote e Talese tivessem nascido em 1990, talvez não estivessem escrevendo para a Esquire ou a The New Yorker. Talvez tivessem um canal no YouTube, um podcast, uma newsletter com milhares de assinantes. Mas o compromisso com a história bem contada, com o detalhe que faz a diferença, com a ética da escuta — isso seguiria igual.

Existe terreno para a mentalidade de Capote e Talese continuarem se fazendo valer. Mas, para tanto, é necessário coragem, paciência e, acima de tudo, leitores e ouvintes dispostos a fazer o caminho inverso da pressa.

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Parte da identidade nacional, o humor mostra um país que busca narrar a si próprio pela graça.

Desde sempre, nós brasileiros nos comunicamos pela linguagem informal, florescendo a partir dela, muitas vezes, o lado jocoso, o deboche, o humor histriônico e, claro, o improviso. Faz parte de quem somos. “Está no sangue”, diriam alguns. Agora, passado um quarto de século XXI, os memes deram forma digital a um impulso praticamente ancestral e, respondendo a algo tão intrínseco à nossa essência, nada mais justo que uma exposição dedicada ao tema. MEME: no Br@sil da Memeficação está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Sinal dos tempos, não é? Mas, nesse caso, a expressão vem à ponta da língua com aura positiva.

À primeira vista, a ideia parece improvável e até fora de propósito. Reunir num espaço museológico piadas cujo âmago reside na reprodução em massa, na falta de apuro estético? Como transformar em objeto de contemplação aquilo que vive da velocidade, da efemeridade, do calor do momento? Mas é justamente nesse esforço de subversão de valores que a exposição mostra a que veio. Esse humor talvez não caiba num catálogo tradicional, mas tê-lo nesse tipo de espaço é, enfim, reconhecê-lo, chancelado por uma entidade cultural de primeira linha, como linguagem, crítica social e, sobretudo, afeto coletivo.

A curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, em parceria com o @newmemeseum, organiza o percurso em seis núcleos temáticos. São ambientes imersivos que misturam neons, esculturas, vídeos, figurinos, pinturas e experiências interativas. Do “sanduíche-iche” — que já existe há duas décadas, advindo de uma época em que o termo “meme” nem fazia parte do nosso vocabulário — às dancinhas virais da Carreta Furacão, atravessa-se um labirinto onde a zueira revela um país inteiro tentando se narrar pela graça.

“Memes não são só piadas. Eles são ferramentas políticas, culturais e afetivas”, explica Clarissa. “São como o Brasil elabora, disputa e negocia suas diferenças em tempo real.” E Ismael Monticelli, categórico, arrebata: “Enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil.” 

Reprodução do perfil @pedrovinicio80
Reprodução do perfil @pedrovinicio80

Talvez esteja aí o centro da questão: engana-se quem pensa que rir é um ato de distanciamento e de mero desdém. Ele é, na verdade, uma forma de agir. Articular ideias, e, convocar as pessoas à roda, é o que o humor faz de melhor — para o bem e para o mal. 

Ciente disso, a exposição apresenta um núcleo chamado Combater ficção com ficção, que reflete sobre como o humor participa da disputa política. A sátira, por exemplo, pode iluminar contradições, mas também ser arma de desinformação. O riso, no auge dos seus extremos, pode libertar e, a quem convier, também pode ferir. Essa tensão atravessa a mostra inteira. De certa forma, atravessa todos nós.

As barby tão fora da caixa, de Dona Roxinha

O núcleo A Hora dos Amadores celebra o gesto criativo que nasce à margem do “profissionalismo” e que, justamente por isso, carrega a potência de subverter hierarquias. O vídeo mal editado, a montagem improvisada, o humor tosco e toda essa “estética do erro” pode ser uma escolha consciente, mas, na maioria das vezes, é o acaso que impõe seu ritmo e define a magia. Basta um comentário solto, um tweet despretensioso, um registro caseiro ou até uma gafe televisiva para acionar a alquimia da reprodução. É nesse território que o brasileiro brilha com intensidade única. Expandir o que já está dado é quase um talento nato. Levar uma piada até às últimas consequências e fazê-la atravessar conversas, telas e discursos é uma habilidade coletiva que nos caracteriza. Não há síntese mais precisa desse espírito do que o meme.

Há maneira mais simples e concisa de dizer que se está diante de uma situação absurda, entre o choro e o riso, do que um simples “kkkcry”? Honestamente, duvido muito.

Reprodução do perfil @frasespravoce
Reprodução do perfil @greengodictionary

É interessante pensar que, com essa exposição, a distância entre o que é arte e o que fazemos ao longo do dia fica menor. Não estão expostos artistas que passaram anos e anos estudando, não estão naquelas paredes quadros que requerem um olhar mais refinado para serem compreendidas, não estamos falando obras que se pretendem revolucionárias. O que se vê no CCBB, espaço que já recebeu nomes dos mais altos calibres, são as imagens que circulamos entre nós todos os dias. Nesse gesto, há uma espécie de reparação. Justiça é feita, pois ninguém sabe melhor do que nós que a criatividade que pulsa nos memes é, sim, preciosa.

O neon verde instalado no CCBB é certeiro: “O Brasil é um meme que nunca dorme.” 

Que fique claro: quando transformamos a tragédia em meme, não estamos banalizando o sofrimento, mas criando condições para atravessá-lo coletivamente. O riso online foge da solidão por compartilhar uma experiência de mundo e criar comunidade em torno do absurdo. 

Falar de memes é falar da vida comum. Falar de riso é falar de sobrevivência. Há tempos, o humor foi compreendido como mecanismo de defesa, com a psicanálise o reconhecendo como uma das formas mais engenhosas de contornar a dureza do real. O Brasil, por sua vez, levou essa estratégia a outro patamar, transformando-a em marca identitária.

O espírito é esse: por aqui, rir é coisa séria.


MEME: no Br@sil da Memeficação
Até 3 de novembro, de quarta a segunda, das 9h às 20h
Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112, São Paulo)
Grátis

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Há uma corrente invisível aprisionando o Prometeu contemporâneo: a conexão de wi-fi. Na busca pelo fogo do saber, estamos condenados. Hoje, o aprendizado passa mais pelas linhas de informação coletadas na rede virtual do que pelas redes de pesca da experiência. Não aprendemos a pescar, consumimos informações como quem se alimenta de peixes já pescados e digeridos por outros. 

Há algo de autêntico no pensamento do sujeito contemporâneo ou desaprendemos a pensar por conta própria? Nossa voracidade por informação estaria esvaziando nossa capacidade? Revelar é descobrir ou apenas cortar caminho?  

Não suportamos mais a espera. Falamos a língua da urgência. Recebemos um exame e jogamos o resultado no Google, e chegamos no médico cheios de falsas certezas. A dúvida, motor do conhecimento, se resolve num clique. Queremos receber os dados prontos, mas eles chegam requentados.  

Aceleramos as vozes de pessoas queridas nas gravações de áudio; não respeitamos seus registros vocais. Atropelamos recados, pois as pessoas não podem falar em seu próprio tempo, e sim adaptar-se ao nosso. A pornografia virtual torna o prazer dependente de uma cena gravada escolhida num cardápio infinito. Não há mais espaço para a fantasia e devaneios, que surgem da espera, do descanso. Fechar os olhos e imaginar… Para quê, se há uma máquina que cria por mim? O sugador de clitóris promete orgasmos rápidos, afinal, preliminares viraram perda de tempo. 

Em um artigo publicado no New York Times, Meirelle Scott destaca uma pesquisa: desde o lançamento do iPhone, a frequência sexual jovens caiu drasticamente. Além disso, adolescentes da geração Z priorizam segurança emocional extrema, evitando imprevistos e situações de exposição, o que, paradoxalmente, se torna quase uma pré-condição para o sexo. 

Apaixonar-se por acaso, numa trombada, sem um aplicativo que nos oriente e filtre preferências e alvos próximos, está em extinção. Não sabemos mais os caminhos pelas ruas de cabeça. Tampouco gravamos números de telefone, e saber o número de alguém de cor, antes, era sinal de intimidade -“de cor”, como diziam os gregos, aprendido pela corda do coração. Agora, quase nada passa pelo coração, pelo sonho, metáfora ou fantasia. A experiência emocional empobreceu. 

Estamos presos a um oráculo que nos decifra com prontidão, mas nos limita em nossa autonomia subjetiva. Como Édipo: cegos por termos visto demais, mais do que deveríamos. Andamos como zumbis pelas ruas, cabisbaixos, isolados num deserto de tártaros, marchando corcundas, cada vez mais sós, inundados por mensagens, mas, por outro lado, distantes de nossos silêncios, calando voluntariamente nossa intuição. Esquecemos de olhar para as estrelas, decifrar desenhos das nuvens, caminhar sem rumo, eventos que tanto nos constroem. 

Para aprendermos com a experiência, é preciso integrá-la. E, para que ela nos pertença, algum nível de desacomodação precisa ser computado. 

A caverna do mito de Platão, na qual estamos aprisionados hoje, mora em nossos bolsos. Vemos apenas recortes da realidade que chega editada, filtrada. Nosso Narciso contemporâneo está submerso nesse espelho de pixels que filtra nossa imagem, corrige seus contornos, apaga as rugas, devolvendo-nos uma versão idealizada de nós mesmos. Uma falsa promessa de um “eu ideal” passível de existência. Mas, ao acordar e olhar no espelho, nos reconhecemos? Ou, como Medusa, nossa imagem nos parece castigo? Nesse reflexo que sempre pode ser melhorado, perdemos a noção de quem somos. 

Almejamos apenas paraísos artificiais. Consumimos versões editadas de conhecimento que alimentam a ilusão de que é possível aprender sem ensaio, sem erro. Mas se como no mito do Éden, o conhecimento nos é oferecido tal qual um fruto, seria mesmo conhecimento ou apenas informação despejada, fruta já mordida? Aprender por Ctrl+C / Ctrl+V não é aprender, é copiar. 

Hoje a informação pousa com a leveza de uma borboleta em nossas telas. De tanto tentarmos roubar o fogo do saber para alimentar nosso eu vaidoso e faminto de onisciência, estamos emburrecendo. Desacostumados com o incômodo do não saber, nos iludimos com a falsa ideia de que saberemos tudo. Nosso anseio por sermos semideuses reduziu nossa capacidade de pensar por nós mesmos. Mas essa certeza antecipada esvazia nossa autonomia, pois nada mais é descoberto de forma independente: para tudo, consultamos uma máquina que checa e responde. 

Seguimos o destino de Ícaro que vai perto demais do sol do conhecimento derretendo as asas de sua liberdade. Afogados num caldo cultural indigesto, aprisionados numa pedra repleta de dados excessivos que não conseguimos decifrar.  

A escritora Rosa Montero, contou que suas crises de pânico se atenuaram com a escrita. Num de seus livros, se refere à imaginação como “a louca da casa”, ou seja, nosso aspecto criativo como sendo algo menos lúcido, menos coerente, mas que gera pensamento, combustão e combustível, dada sua potência criadora. Me pergunto se estamos renunciando a nossos aspectos menos lúcidos, e mais livres, vivendo a partir desses recortes de experiências.  

Na Mitologia grega no início, era tudo caos. Urano e Gaia viviam em coito incessante, até que, exausta, Gaia pede a Cronos que castre seu pai. O tempo, com sua foice, corta Urano, que sobe aos céus em um grito de dor. Suas lágrimas formam as estrelas, e os outros deuses do Cosmos finalmente emergem. 

Os gregos criaram mitos para entender o mundo e decifrar os mistérios de estar vivo. Talvez o mundo virtual seja uma alucinação que criamos para tentar domesticar os enigmas da vida. Contudo, somos hoje prisioneiros desse labirinto que geramos. E, como Sísifo, estamos empurrando uma pedra pesada demais, sempre em queda, oferecendo mais sombras do que luz. E não podemos esquecer das estrelas que nascem do caos. 

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O mito repete o sempre no agora

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Júlia de Carvalho Hansen é escritora e editora convidada da edição Amarello Mitos.

Os mitos estão em toda parte. São parte da espécie humana. Dos livros de escola aos conceitos de psicanálise, no que os filmes de Hollywood se apropriam das épicas clássicas para que os marcianos sejam vencidos, passando pelas crenças das religiões e pelas descrenças da ciência, do Egito Antigo às propagandas de automóveis, numa história para uma criança dormir, nos horóscopos, nos terreiros, nos fãs de um rockstar, nas propagandas políticas… As estruturas míticas operam nos imaginários humanos com força e permanência. 

Talvez a gente ainda lide com a ideia de que o mito só acontece no passado, como uma essência primordial de uma história antiga, ou de uma doutrina que produz condicionamentos (lá no fundo) ilusórios a serem desmascarados com a agressividade da certeza, a faca da razão e o furo da verdade. No entanto, a sensibilidade mítica transcorre por outras estruturas — e, nelas, enquanto alguns pressupostos se diluem, as narrativas ampliam conhecimentos. O mito pode, sim, ser entendido como uma fórmula arcaica, “apenas” uma história contada em volta de uma fogueira. Mas o mito também pode ser entendido como o próprio fogo. 

É passado, mas o mito também é presente. Aprendemos com Roland Barthes que ele pode existir até mesmo na propaganda de uma caixa de sabão. A eficácia saponácea de lavar mais branco é, no fundo, uma metáfora: o que, no alvo clarão de um pano, fala de uma mitológica ideia de higiene ou conforto? O mito é uma força operativa cotidianamente. Por um lado, pode funcionar como um recurso de sabedoria ancestral em tempos sem sentido, mas também é, em si, uma forma articulada de pensamento, a abertura para o que é preciso (re)conhecer, uma maneira legítima de nomear o tempo.  

Os mitos atravessam séculos e geografias, adaptam-se às línguas, aos suportes das mídias, são orais, imagéticos, escritos, tatuados em símbolos, se embrenham e recriam nas cosmologias de cada tempo. Continuam vivos nas narrativas de família, em sonhos noturnos, nas histórias que contamos às crianças, nas fábulas modernas do cinema e até mesmo nas fórmulas matemáticas que tentam descrever o universo. Estão presentes nas metáforas e manipulações políticas, nas idealizações amorosas e nas promessas de tecnologia, na inteligência artificial, nos pressupostos do progresso. 

Nossa ideia, neste número da Amarello, foi desdobrar o mito como uma potência sempre atual. De que maneiras o mito se reinventa no tempo e, assim, nos aterra no presente? Como essa forma narrativa tão antiga pode permanecer atuante e, ao mesmo tempo, ganhar novas roupagens? Para isso, convidamos especialistas de diferentes áreas a abordar o mito por diversos prismas: da filosofia clássica às tradições afro-brasileiras, passando pela astrologia, pelos conhecimentos indígenas, pela psicanálise e, claro, pela literatura. A seu modo, cada um deles mostra que o mito não é só um resquício do passado que continua pulsando nos imaginários, mas uma chave para compreensão.  

* 

No pensamento (sobretudo europeu) do século XX, circulou certa ideia de que o mito poderia ter sido “superado” pela História ou pela Ciência (quase sempre com “H” e “C” maiúsculos). Além de que as ideias de superação são em si datadas, são também colonialistas e violentas porque produzem o aniquilamento de uma forma de ver o mundo sobre outra. É contra essa ideia violenta que tentamos produzir os debates e as argumentações sobre mito nos textos desta edição. Contra uma visão única e, portanto, totalitária, a pluralidade mítica — o que, no Brasil, é não só um argumento como uma prática.  

Em tempos de crise, certamente o mito oferece não só respostas, mas caminhos de indagação e, sobretudo, de imaginação. Se não formos capazes de imaginar, o que nos restaria? É certo que as narrativas não organizam o mundo como uma ciência exata, imaginar também é extrapolar a possibilidade de haver uma única resposta e de que a crua e dura realidade seja a única possibilidade de corte e costura de viver. Qualquer mito é, por princípio, passível de interpretação. E nisto, regulamenta uma abertura de imaginário, trazendo pistas pro impossível e pro inimaginável. O mito conta o que não sabíamos nomear e, no entanto, já era sabido, de tão necessário. 

O mito repete o sempre no agora. É primeiro e antes de tudo uma história que já aconteceu e que carrega tanta força narrativa e simbólica que se cristalizou no chão das coisas vivas ou, então, que virou uma gota de orvalho umidificando as folhas de noite. As folhas do sonho. Entrar em contato com um mito talvez seja essa espécie de retorno à casa que a vida onírica nos traz. Se, por um lado, tem algo de espelhamento, também traz o seu assombro: o que já estava dito é vivo, pode ter aura, ser chamado de arquétipo, se embrenhar nas geleiras dos esquimós, acontecer entre as árvores de uma floresta. Ser esquecido. Ele dá corpo ao que a razão não consegue abarcar por inteiro e se infiltra em cada narrativa que ousamos criar para explicar o mundo. O mito também é um poder. 

Podemos ter o mito da origem como uma força de significação. Procuramos naquele acontecimento primordial quem somos a partir de uma primeira faísca ou de um grande trauma, sabemos que os territórios onde crescemos também trazem caracteres das nossas personalidades. Talvez ao procurar na origem, na escola, nos pais, no país, no primeiro namorado, a gente esteja mesmo procurando um mito pra chamar de meu. Isso porque, quando recontamos um mito, entendemos a história a partir de outra perspectiva, mais transversal. Será a cultura um apanhado de mitos que se refizeram tanto que já integramos as suas narrativas ao ponto de esquecermos com que palavras elas foram feitas? Como efeito tácito, essas características que achamos que são recortes de modos de ser talvez sejam mitos que nos esquecemos de contar. 

Como um homem do seu tempo e da sua cultura, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, no livro Mito e significado, opõe o pensamento científico ao pensamento mítico, concluindo que o pensamento científico tem o poder de “alcançar o domínio sobre a Natureza”, coisa que (ele indaga) o pensamento mítico não seria capaz. E penso eu que talvez não seja capaz justamente porque relacionar-se com a natureza não deve se tratar de uma questão de domínio, mas de convívio. Os mitos são também uma forma de conviver com o mundo na qual o próprio mundo responde ao que não conhecemos. Contra o binarismo de certo ou errado, real ou falso e a apropriação do desconhecido, o mito traz um acesso multidimensional ao tempo e horizontal no espaço. É atemporal. 

No entanto, o mesmo Lévi-Strauss também conta que, enquanto escrevia as suas “Mitologias”, ouviu falar de uma determinada tribo, que era capaz de ver a luz de Vênus durante o dia — o que ele considerou imediatamente impossível. Aquilo o fez procurar astrônomos, dos mais renomados, que confirmaram que não era possível ver a emissão da luz de Vênus durante o dia. O antropólogo conta que, passado algum tempo lendo tratados de navegação europeus, descobriu relatos de navegantes europeus que contavam ter não só avistado Vênus de dia como utilizado isso para se guiarem pelo mar. Disto Lévi-Strauss conclui que ver Vênus era possível (afinal, os “seus” haviam visto!) e que os povos sem escrita têm seus conhecimentos a respeito da natureza de uma forma que “nós” (eles, os europeus letrados) não teríamos. É interessante a perspectiva de que diferentes culturas produzem capacidades de inteligências díspares, ao ponto de afetarem a acuidade visual. Mas, no fundo, o pensamento mítico fala de ver Vênus à luz do dia ser possível tanto como realidade real quanto como imaginação da realidade. Não importa. É a luz de Vênus, e ela está sempre ao nosso alcance. 

Lévi-Strauss, bem sabemos, não era brasileiro. No Brasil, os mitos se proliferam. Se alguém disser que viu Vênus de dia, é certo que teremos centenas, quiçá milhares, de visionários de Vênus. Se há uma coisa que não falta no brasileiro é imaginação mítica. Acreditamos em cada coisa. Aposto que se você perguntar para um brasileiro se ele tem espiritualidade, pode vir a ouvir de tudo… Eu mesma já ouvi “acredito em Jesus Cristo” ou “Exu é pai, laroyê!”, como também “a minha tia Cidinha quando incorpora o Juquinha traz verdades através de uma boneca” ou “acredito em energias”. Existem, claro, os céticos (e sobretudo os que se dizem). No entanto, seja como herança clássica — onde ainda ecoam Cronos, Dionísio ou Afrodite —, seja nas cosmologias afro-brasileiras e indígenas, os mitos aqui se multiplicam e se encontram, compondo um imaginário plural. Os mitos no Brasil são realmente inesgotáveis. 

E isso é belíssimo e aterrorizador. Por exemplo, no Brasil, crescemos com o mito da abundância. Por trás da destruição ambiental do tal do progresso que explora os minérios abrindo vãos na terra, que devasta as florestas pra criar gado, há um mito originário desde a carta de Pero Vaz de Caminha que diz que, nesta terra, “em se plantando tudo dá”. Caetano Veloso, além de ter citado Caminha, na Tropicália, também costumava citar uma frase do português Agostinho da Silva: “o destino do Brasil é tão grande que não há abismo em que ele caiba”. E, por trás disso, está o pressuposto de que no Brasil tudo é inesgotável. O que, em termos míticos, talvez seja verdade.  

Tento imaginar, por exemplo, o poder das narrativas que conseguiram atravessar o Atlântico nas pessoas que foram raptadas e escravizadas e traficadas em navios tumbeiros e que chegaram no Brasil. Imagino que essas histórias, ao serem contadas e recontadas, mantinham vivas não só a memória de suas famílias e línguas de origem, mas também a dignidade e a força de cada comunidade africana raptada — iorubás, jejes, bantus, entre tantas outras — que nunca se resumiram à condição imposta pela escravidão. Ao serem compartilhadas, essas histórias recriavam mundos, preservavam cantos, ritmos, orikis e modos de viver. Elas atravessaram séculos, resistiram ao sequestro e à morte, ao apagamento, e seguem hoje como raízes de resistência, beleza e criação na cultura brasileira. 

Se, neste país, “mito” também é sinônimo de resistência, infelizmente, a palavra também foi politicamente apropriada para se referir a um genocida. A história recente mostra como certas forças políticas se apropriaram do termo “mito” para justificar projetos autoritários, violentos, excludentes. É assim mesmo, o mito tem muitas faces. Se abre mundos, também pode fechá-los. Não há inocência no seu uso. A apropriação de símbolos míticos por regimes totalitários não é nova — basta lembrar a suástica nazista como uma inversão de um símbolo budista. Se o mito pode ser manipulação, pode também ser memória coletiva e criação de futuros, o que o torna, portanto, sempre um campo de disputa. Reconhecer essa ambivalência é reconhecer a sua força.  

Nesta Amarello, pensamos em trazer o mito sob perspectivas diversas presentes no contemporâneo, seja em revisões históricas politicamente obrigatórias, seja na proposta de dar voz a práticas de conhecimento que circulam nos imaginários brasileiros. Dos muitos textos da edição que trabalham neste sentido, destaco dois especificamente: os depoimentos de Glicéria Tupinambá e o texto de Reginaldo Prandi.  

Ao narrar a jornada de Glicéria, a matéria revela como a reconstrução do manto Tupinambá na qual Glicéria trabalha com afinco é uma cosmotécnica: um gesto que une saberes, sonhos ancestrais para reabrir caminhos que o colonialismo interrompeu. Mais do que um apelo por repatriação, a história do manto Tupinambá é também um chamado à revisão crítica daquilo que os museus europeus guardam como “objetos” e que, na verdade, são entidades vivas. 

No texto de Reginaldo Prandi, um dos maiores estudiosos das religiões afro-brasileiras, o mito aparece em sua dimensão mais profunda: como narrativa primordial que funda sentidos, organiza valores e transmite saberes entre gerações. Prandi sintetiza o que é um mito, lembrando que ele não é uma mentira, mas linguagem simbólica capaz de dar corpo ao indizível e ao sagrado, de costurar passado e presente em um mesmo tecido de imaginação e verdade. Em sua leitura, os mitos dos orixás, assim como os mitos cristãos, gregos ou hindus, não são apenas histórias, mas modos de viver, mapas éticos e existenciais que sustentam coletividades inteiras. Sua contribuição à revista ilumina com lucidez como o mito resiste ao tempo, à ciência e às tentativas de apagamento, permanecendo sempre como lugar de memória, de resistência cultural e de orientação vital. É nessa perspectiva que este número da Amarello se abre.  

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Que a astrologia tenha se desenvolvido em diálogo com a mitologia não é nenhum mistério. Mesmo quem pouco sabe sobre o tema reconhece que o nome atribuído aos planetas provêm de alguns dos deuses gregos ou greco-romanos. 

Na prática astrológica, a posição de Mercúrio indica como se manifestam temas ligados à comunicação, à troca de ideias ou mercadorias, às transações e ao ir e vir — seja em uma perspectiva coletiva, ao analisar como Mercúrio se configura no céu em um dado momento, ou individual, ao analisar as condições desse planeta no mapa de nascimento de alguém. Nenhuma surpresa em reconhecer em tais temas os atributos e as características do deus grego Hermes e, posteriormente, do greco-romano Mercúrio. 

Entretanto, por mais que pareça que o conhecimento astrológico tenha surgido como uma derivação das narrativas mitológicas, ele foi desenvolvido em paralelo, ainda que de forma imbricada, à mitologia. Um dos tratados astrológicos mais antigos, compilado aproximadamente 1.500 anos antes da Era Comum, documenta a observação do céu empreendida pelos povos da Mesopotâmia, que relacionavam certas posições de planetas, ou configurações planetárias complexas, com a ocorrência frequente de tipos de eventos na Terra. Nesse tratado, chamado Enuma Anu Enlil, há uma passagem que associa certo posicionamento de Mercúrio à maior presença de ladrões no reino. Vale apontar que o nome do planeta não era Mercúrio, e sim Nabu, divindade do panteão assírio-babilônico associado à escrita, à inteligência e à manipulação engenhosa dos dados. 

Muito antes de chegar à Grécia, o conhecimento astronômico-astrológico já tinha sido consideravelmente desenvolvido pelos povos da Mesopotâmia, como uma forma de estreitarem sua comunicação com os deuses, para assim mapearem a passagem do tempo e organizarem o curso da vida social de forma alinhada a forças maiores — expressas pelos planetas-divindades. Com esse intuito, observavam o que se manifestava na Terra quando os astros se configuravam de determinada forma no céu. Dependendo da natureza dos eventos e acontecimentos que se repetiam quando um planeta se destacava, mais claramente ele era entendido como expressão de uma divindade. 

Quando esse conhecimento chega à Grécia, em torno do século V antes da Era Comum, vindo principalmente da Mesopotâmia, a descrição das qualidades e dos atributos de um planeta, até então associada a deuses e mitos daquela cultura, foram então transpostos a alguns dos deuses gregos: àqueles que mais se assemelhavam às características já atribuídas aos corpos celestes. 

Uma passagem curiosa do mito de Hermes, filho de Zeus e Maia, diz que, logo ao nascer, ele teria se soltado do leito onde havia sido colocado e então viajado até a Tessália, onde furta parte do rebanho que se encontrava sob a guarda de Apolo. Astuto, amarra ramos nas patas dos bichos para que suas pegadas não deixassem rastro. Ao ser descoberto, usa de artimanhas para negar sua relação com o roubo e, quando não é mais possível evitar, reconhece o erro e promete a Zeus que nunca mais mentiria, mas tampouco diria toda a verdade. Os gregos associam Hermes ao planeta até então associado a Nabu, e que no mundo greco-romano ganha o nome de Mercúrio. 

Outros atributos de Nabu eram o domínio da escrita e seu dom profético, por ser quem estabelece a comunicação entre os humanos e os deuses. Protetor dos escribas, que anotavam, dentre outras coisas, as posições planetárias e seus eventos terrestres correspondentes. Hermes, por sua vez, é também o mensageiro dos deuses, é ele que faz a travessia entre os diferentes mundos, é o tradutor, o intérprete. Ambos falam do ir e vir, das estradas. Uma característica que ganhou mais destaque quando os atributos de Nabu e Hermes se expressaram posteriormente em Mercúrio, divindade greco-romana, é a figura do comerciante, do mercador que circula por diferentes feiras e vilas, falando diferentes línguas, realizando as mais diversas transações, de ideias a mercadorias. Não à toa a iconografia associada a Mercúrio ganha mais um elemento, além do caduceu e das sandálias e chapéu alados: um saco para guardar as moedas. 

O mito é uma narrativa que dá contorno aos fenômenos e aos ciclos da natureza, como parte dos esforços humanos para explicar a vida e seus desdobramentos. No caso da astrologia, serviu para dar contorno às qualidades e aos significados associados aos planetas, protagonistas no desenvolvimento desse saber. 

Um planeta, além de significar uma série de atividades e experiências, rege também um ou dois signos, emprestando a eles seus atributos e configurando de forma determinante suas características. Mercúrio, por exemplo, rege Gêmeos e Virgem, oferecendo-lhes assim sua sagacidade, inteligência, e rapidez de percepção, características que Gêmeos e Virgem expressam cada um à sua maneira. 

Os planetas, entretanto, não só moldavam as características dos signos, mas serviam como modelos, com sua miríade de referências mitológicas, para uma tipologia humana. Nos períodos medieval e renascentista, eles eram entendidos como astros que governavam não só tipos de eventos, mas também o temperamento dos seres humanos, o que figurava como uma tipologia físico-comportamental. Assim, as pessoas que expressavam a natureza de um planeta, ou exerciam as atividades associadas a ele, eram chamados de “filhos do planeta” — por exemplo, os “filhos de Mercúrio”. 

Para se chegar a esse temperamento predominante, por um período bastante extenso da história da astrologia se desenvolveu um método de cálculo, envolvendo diversos pontos de um mapa de nascimento. Dentre os mais centrais para se chegar a essa tipologia, ou temperamento, figurava a identificação de um ou mais planetas predominantes no mapa. Para isso, se observava se havia planetas em posições de destaque, como a conjunção com o ângulo ascendente, a mais forte delas. Observava-se, também, qual planeta regia não só o signo ascendente, mas o signo onde se encontrava a Lua. E não só, pois além do planeta que regia posição zodiacal da Lua no mapa de nascimento, era considerado também aquele que regia a posição da Lua cheia ou nova antes do nascimento, dentre outros pontos. O cálculo é complexo e envolve nuances, assim como o é a trama formada por cada instante de um céu em constante movimento. 

Talvez o mistério maior, nos tempos atuais, seja a ideia persistente de que apenas um signo, o signo solar, descreva quem a pessoa é. Sintoma de tal distorção é o frequente enunciado, “fulano é geminiano” ou “meu signo é Áries”, como se isso resumisse o temperamento de alguém. Ninguém é signo nenhum. Uma pessoa expressa o céu todo sob o qual nasceu. Diante da riqueza de repertório astrológico que o céu de nascimento oferece para descrever quem se é e para onde se vai, a prevalência dessa ideia equivocada, fruto do encontro da astrologia com a cultura de massas do século XX, é um mito que não engrandece um saber tão cheio de camadas e referências, sobrepostas e sedimentadas há séculos e séculos. 

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Marcos Martinho é um renomado professor de Estudos Clássicos da Universidade de São Paulo, onde leciona sobre retórica, poética, mitografia e outros temas. Nesta entrevista, concedida a Júlia de Carvalho Hansen e a Gaya de Castro Cunha, ele aborda o mito na cultura grega antiga, tratando de sua definição, circulação, funções sociais e religiosas, bem como de sua recepção moderna nos estudos da psicanálise. 

Como poderíamos definir mito a partir da cultura grega antiga? 

Em muitas sociedades antigas, o mito foi a história de uma época anterior, em que humanos conviviam com seres sobre-humanos. Na sociedade grega antiga, os humanos conviviam com os deuses, que eram imortais e também mais fortes e hábeis. Os deuses podiam gerar outros deuses por si mesmos ou por união amorosa. Além disso, da união amorosa de um deus e um humano, nasceram semideuses ou heróis, que eram mortais, mas mais fortes e hábeis. 

Os deuses intervinham nas ações humanas, podendo favorecer e estorvar. Por exemplo, Atena propiciou o encontro de Nausícaa com Odisseu, e Posidon perturbou a navegação de Odisseu de retorno para casa. A razão para a intervenção divina podia ser a punição de uma má ação. A soberba, em particular, não era tolerada pelos deuses, mas estes não podiam tudo, ou melhor, cada deus podia algo que era próprio dele, e não dos outros. Assim, ao intervir nas ações humanas, cada deus intervinha no aspecto da vida que era próprio a ele. Por exemplo, Atena incutiu prudência em Aquiles, impedindo que ele degolasse Agamêmnon, e Afrodite infundiu encanto em Páris, permitindo que ele seduzisse Helena. 

Os heróis, por sua vez, empreenderam façanhas, seja individualmente, seja em conjunto. Neste caso, a façanha podia ser bélica, como foi a Guerra de Troia. 

Como os mitos circularam no mundo grego antigo? 

Primeiro oralmente, na recitação dos aedos, e depois concomitantemente por escrito nas edições dos gramáticos. De qualquer modo, eles foram transmitidos em narrações elaboradas por indivíduos especializados, quer dizer, por aedos, cantores e dramaturgos, em tipos codificados de discurso e em formas artificiais de linguagem. 

Por exemplo, a Ilíada e a Odisseia teriam sido elaboradas ao longo de gerações de aedos, tendo sido atribuídas a um aedo de nome Homero (séc. VIII a.C.). A linguagem é formular e versificada, num dialeto que é resultado de uma mistura de dialetos gregos. A matéria é composta por episódios do cerco de Troia, tendo como escopo tecer o elogio dos heróis que tomaram parte naquele cerco. A Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C.), por sua vez, expõe a genealogia dos deuses, ao mesmo tempo que narra a sucessão dos deuses que reinaram sobre o mundo: de Céu, a que sucedeu Crono, a que sucedeu Zeus, que desde então governa o mundo. 

Posteriormente, essas narrações foram resumidas por escrito, e aí os resumos foram reunidos em coleções, as quais podemos considerar ancestrais do que são os manuais modernos de mitologia grega. 

Quais eram as funções sociais e religiosas do mito entre os gregos antigos? 

Embora fosse a história de uma época anterior, o mito servia de exemplo à conduta moral e religiosa dos que viveram depois. Na Ilíada, Aquiles aceitou morrer jovem para empreender ação que lhe valeria glória imortal: matar Héctor. Ao mesmo tempo, insultou o cadáver deste, aborrecendo os deuses. Assim, os mitos narrados na Ilíada ofereciam ao público o exemplo do que fazer, isto é, a bravura de Aquiles, e também do que não fazer, isto é, a fúria ímpia do mesmo Aquiles. 

Dentre os valores religiosos, o cuidado com os mortos é bem ilustrado na Ilíada quando os guerreiros de um lado e do outro fazem trégua para recolher os corpos dos que caíram em combate, cremando-os e honrando. Dos valores sociais, o cuidado com a cidade e a família é igualmente bem ilustrado quando Héctor repreende o irmão, Páris, porque as ações deste infligiram grande vergonha à cidade, ao rei, ao povo. Ou ainda quando Héctor estende os braços ao filho de colo, Astianacte, e este se assusta com o brilho do elmo do pai, pondo-se a chorar, de modo que Héctor ri, depõe o elmo sobre o chão e toma o filho nos braços. 

Assim, os mitos da Ilíada davam exemplo tanto da piedade religiosa como da virtude política e social ao público de seu tempo. 

Mas as crenças religiosas e as convenções sociais não mudavam com o tempo? E, se mudavam, o que acontecia? Os mitos perdiam sua função? Ou ganhavam novas funções? 

Na verdade, as cidades gregas antigas eram como nações independentes. Cada uma tinha  regime político próprio, leis, governantes, de modo que o mesmo grego que era cidadão numa cidade era estrangeiro noutra. No entanto, alguns valores religiosos e sociais eram igualmente cultivados em diferentes cidades. Por exemplo, aqueles do cuidado com os mortos, com a cidade e com a família, que a Ilíada ilustrava tão bem. Por isso, a Ilíada e também a Odisséia e a Teogonia foram bem recebidas em muitas cidades, justamente porque contribuíam para a conservação dos valores tradicionais. Isso, bem entendido, junto ao grande público. 

Alguns círculos de estudiosos, porém, passaram a rever muitas das crenças e dos valores tradicionais a partir do séc. VI a.C. Esses estudiosos investigaram as causas dos fenômenos naturais, propondo explicações que confrontavam as crenças tradicionais. Por exemplo, na Odisseia, Zeus movimenta os ventos, ajunta as nuvens, produz uma tempestade, dispara um raio, a fim de quebrar a nau de Odisseu, porque os companheiros deste comeram as vacas do deus Sol. Em outras palavras, segundo a crença tradicional, a causa dos eventos climáticos era divina e tinha um propósito, que era punir os que aborrecem os deuses. 

Diferentemente disso, Anaxímenes de Mileto (séc. VI a.C.) explicava que, quando o ar se condensa, são geradas as nuvens; quando o ar condensado é posto em movimento, são gerados os ventos; e quando os ventos cindem as nuvens, é gerado o relâmpago. Em outras palavras, a causa dos eventos climáticos era mecânica, por depender dos elementos da natureza — ar, terra, fogo, água —, e era desprovida de propósito. 

Mas então esses estudiosos da natureza contestavam o poder dos deuses? Ou questionavam a própria existência deles? 

Não exatamente. Na verdade, não contestavam a existência dos deuses, mas a concepção tradicional de divindade. Por exemplo, na Ilíada, Odisseia e Teogonia, diz-se que Atena tem olhos glaucos, Hera tem braços brancos, Tétide tem pés de prata. Em outras palavras, os deuses têm aspecto semelhante ao humano, na medida em que têm olhos, braços, pés. Por isso, Xenófanes de Colofon (séculos. VI e V a.C.) acusou tal concepção de imaginar os deuses conforme os humanos, de modo que, se os cavalos pudessem, diriam que os deuses são como eles – bem entendido, que têm crina, abanam o rabo, trotam sobre quatro patas. Ou, ainda, acusou-a de imaginar os deuses não só como humanos, mas como gregos, porque os trácios, ao contrário, dizem que os deuses têm olhos azuis e cabelos ruivos. Mais que o semblante, porém, Xenófanes acusou tal concepção de imaginar a índole dos deuses conforme a humana, atribuindo àqueles o que é próprio dos humanos, a saber: roubar, cometer adultério, enganar uns aos outros. De fato, na Odisseia, o aedo Demódoco conta que, na ausência do marido Hefesto, a esposa Afrodite recebia o amante Ares no leito conjugal. Na Teogonia, conta-se que Prometeu enganou Zeus, roubando-lhe o fogo. 

Nas sociedades modernas, porém, as crenças e os costumes são outros. Ainda assim, os mitos das sociedades gregas antigas continuaram a despertar o interesse de muitos — por exemplo, dos pensadores da psicanálise, como Freud e Jung. Por que você acha que estes mobilizaram os mitos gregos para elaborar suas teorias? 

De fato, nos tempos modernos, muitos interessaram-se pelo mito grego, não só psicanalistas, mas também antropólogos, historiadores, filósofos, e cada um, bem entendido, por suas próprias razões. 

Quanto a Freud e Jung, é importante notar uma diferença, pois, ao passo que Jung, nas Transformações e símbolos da libido, vai não só ao mito grego, mas ao sumério, persa, indiano, egípcio, germânico, nórdico, Freud, na Interpretação dos sonhos, vai principalmente ao mito grego, e a um em particular: ao mito de Édipo. 

Jung, no prefácio à segunda edição das Transformações…, diz que o mito é o que está em toda parte, que está sempre, em que todos acreditam, acrescentando que só pode captar o sentido do mito quem vive com ele, que assim pode não perguntar o que é o mito, mas perguntar a si mesmo o que é o mito que ele próprio vive. Freud, por sua vez, na Contribuição à história do movimento psicanalítico, ao comentar como a psicanálise era aplicada a diversas disciplinas, como os estudos de mitologia, remete aos estudos de Otto Rank, os quais considera definitivos nessa matéria. 

No Mito do nascimento do herói, Rank vai ao mito babilônio, egípcio, indiano, grego, islandês, anglo-saxão, flamengo, anglo-lombardo, a fim de examinar como se narra o nascimento do herói em cada um. Apesar da diversidade das versões, Rank nota um conjunto de traços comuns a estas, que compõem um fundamento típico, que ele identifica com o “romance familiar”. 

Freud, Jung e Rank entenderam o mito (dos gregos, bem como de outros) como restos deformados de fantasias correspondentes a desejos tanto do indivíduo como de povos inteiros. É interessante lembrar que os gregos antigos conceberam e desenvolveram dois modos de interpretar os mitos: um de natureza filosófica e outro de natureza historiográfica. O método da interpretação historiográfica supunha justamente que o mito era o resultado da deformação de uma história anterior. Mas isso é matéria para outra entrevista… 


Marcos Martinho é professor do programa de pós-graduação em Letras Clássicas da USP. Pesquisador PQ do CNPq, especialista em mitografia grega e romana.

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“Sou assim, sou assado”, “fiz isso, fiz aquilo”, “não sei, só sei que foi assim”. Quantas histórias cabem em uma personalidade? Nossa busca por felicidade, sentido, realização e, muitas vezes, aprovação externa é cheia de crenças cuidadosamente construídas (de maneira mais ou menos consciente), histórias que contamos a nós mesmos sobre quem, como, por que somos. Essas narrativas, em alguns casos, nos fortalecem, fazendo com que assumamos nosso papel no mundo; em outros, enclausuram, prejudicando nosso campo de visão e até reduzindo possibilidades. Vivemos a nossa própria Ilíada, recontando aquilo que tomamos como nosso, definindo o “eu” a cada vez que o fazemos.  

Um acontecimento pode ser visto por diversas perspectivas, e, em se tratando de algo que aconteceu com a gente ou perto da gente, seremos nós o ponto focal da história que contaremos dali em diante. Isso não quer dizer que contaremos versões falaciosas do que aconteceu, mas tudo será mediado a partir do nosso olhar, que de isento não tem nada. E nem sempre a interpretação que fazemos de nós é generosa. Em meio ao emaranhado das nossas histórias pessoais e das pressões sociais, é comum que nos joguemos para baixo, tão comum quanto nos jogarmos em bajulação própria. Quando não há uma verdade absoluta, o que sobra no quadro são as tintas que temos à disposição. 

O chamado “efeito Rashomon” descreve situações em que, por diferentes interpretações pessoais, não é possível saber o que realmente aconteceu. O filme de Akira Kurosawa de 1950 que dá nome ao efeito e que segue impressionante mesmo 75 anos depois de lançado, fez isso com o julgamento de um caso de estupro e assassinato em que três pessoas relatam sua versão do acontecido — daí o termo. Na vida real, raramente conseguimos “rashomonizar” qualquer história ou qualquer versão de quem somos, então ficamos com a interpretação que elaboramos ou que chegou até a gente, externa ou internamente. E assim seguimos, como mestres titereiros de nós mesmos. 

Mas e se “rashomonizássemos” nossas histórias? Com qual versão ficaríamos?  

A terapeuta Daniela Faertes tem olhado de perto para essas costuras invisíveis entre o eu e o mundo. Especialista em terapia cognitivo-comportamental, ela aborda como crenças limitadoras, baixa autoestima e o desejo excessivo de agradar fazem parte das narrativas internas que nos impedem de viver com autenticidade e satisfação. 

Com sua ajuda, exploramos como essas histórias impactam nosso bem-estar, como reescrevê-las e quais mitos desconstruir para viver com mais plenitude. 

Como você entende o conceito de “mito pessoal”? Em que medida pode funcionar como limitador? 

Daniela Faertes: São crenças profundas, formadas ao longo do nosso desenvolvimento, que funcionam como constructos rígidos e convictos. Por isso, acabam nos atrapalhando: são limitadas e limitantes. Isso significa que, quando temos uma convicção muito forte sobre algo, fechamos espaço para outras possibilidades. Faltando essa flexibilidade, deixamos de considerar outras narrativas além dos nossos mitos pessoais. 

Como a terapia cognitivo-comportamental atua sobre eles? 

DF: Partimos da premissa de que não são as situações em si que nos fazem mal, mas a forma como as enxergamos. Enxergamos o mundo através de uma lente formada por nossas crenças, convicções e visão de mundo. Quando essas crenças são disfuncionais, podemos trabalhar nelas para mudar nossa forma de ver, pensar, sentir e agir. Nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos vêm dessas crenças. No fim, atuamos na vida conforme as narrativas que contamos a nós mesmos. 

Muitas pessoas escrevem seus próprios scripts sobre a felicidade, baseadas em expectativas sociais ou familiares? 

DF: O mais comum é que as crenças sobre felicidade estejam baseadas em padrões familiares e, depois, em influências sociais. É raro que essas crenças sejam totalmente individuais e desvinculadas dessas duas fontes. Às vezes, acontece até o contrário: a pessoa decide ser o oposto do modelo familiar porque não se identifica com ele, ou simplesmente segue a trajetória construída ao seu redor, mesmo quando sente algum incômodo. Essas crenças são muito enraizadas, moldam nosso olhar sobre a vida e até a forma como nos percebemos. Não temos como fugir completamente dos padrões sociais. Todo mundo diz “não se compare”, mas somos seres sociais, e o comparativo é natural. Esses modelos foram importantes para a sobrevivência dos grupos, para que pudessem se adaptar e se organizar. Porém, muitos desses scripts sociais hoje podem ser bastante adoecedores. 

A ideia de “narrativas que nos protegem” pode ser ambígua: às vezes dão estrutura, outras vezes aprisionam. Como diferenciar entre uma narrativa que serve como suporte e uma que mantém um ciclo de autossabotagem ou estagnação? 

DF: Elas tendem mais a nos limitar e sabotar do que, de fato, proteger. Em geral, funcionam como proteção contra rejeição, baixa autoestima… Até são protetoras, mas, justamente quando cumprem esse papel, se tornam menos críveis e mais difíceis de sustentar. A pessoa acaba criando um mundo que não é real. Na terapia cognitiva, buscamos evidências para flexibilizar essas crenças. Na verdade, qualquer rigidez é disfuncional. Uma crença muito rígida, ainda que pareça protetora, pode me impedir de entrar em contato com os meus medos, com o amor, com o risco. São protetoras, sim, mas limitantes. Sempre deixam uma interrogação sobre o quanto realmente fazem bem. 

Quais são os principais obstáculos que impedem uma pessoa de questionar suas próprias narrativas? 

DF: Eu apontaria dois. Um deles é quando a narrativa protege a pessoa de algo ainda mais difícil de encarar — algo que, psiquicamente, ela não está pronta para enfrentar. O outro tem a ver com a rigidez da personalidade, com a inflexibilidade para rever pontos de vista.  

A sociedade moderna, com a cultura do “faça o que te faz feliz”, cristaliza uma narrativa que nem sempre ajuda? 

DF: Essa cultura acabou sendo adoecedora, porque criou, principalmente entre os jovens, uma expectativa de que a gente tem que fazer só o que gosta. E nem sempre é assim — às vezes, o que a gente faz não é algo de que se gosta, ou esse gostar simplesmente não aparece. A felicidade é algo amplo e não pode ficar estagnada num construto, presa a uma única parte da nossa vida. Por outro lado, pesquisas mostram que ser uma pessoa mais positiva — não no sentido de buscar a felicidade o tempo todo, mas de ter uma postura mais otimista — costuma ter uma visão de mundo que abre mais possibilidades. Não é sobre certezas sem evidências, mas sobre um otimismo que se abre para o que pode acontecer. Quando a gente tem uma visão muito pessimista, a tendência é não enxergar saídas ou outras possibilidades. 

A hiperexposição do mundo atual atrapalha ou acelera a construção de uma narrativa pessoal mais autêntica? 

DF: Com esse bombardeio constante de informações e opiniões, as pessoas acabam deixando de criar narrativas próprias mais autênticas e passam a adotar discursos prontos. Com um mundo tão polarizado, a enxurrada de notícias dificulta o diálogo entre diferentes linhas de raciocínio e até mesmo o desenvolvimento de uma narrativa pessoal sólida. 

Quais sinais podem indicar que estamos presos a um mito pessoal que nos impede de evoluir ou mudar? 

DF: Muitas vezes, os sinais são mais externos. Os internos têm a ver com o nosso mundo emocional e mental — como está o nosso nível de angústia, de tristeza, de medo. Já os externos se expressam na paralisia, nas coisas que a gente gostaria que acontecessem e que simplesmente não acontecem. Por exemplo, crenças que temos sobre relacionamento podem impedir que a gente consiga ter um. Então fica esse empecilho. As pistas estão nas coisas que gostaríamos de realizar na nossa vida, mas que não estão acontecendo. Porque se a gente sente, pensa e se comporta a partir das nossas narrativas, é como se estivéssemos insistindo em um caminho — e talvez existam outros, em outros formatos.  

O cuidado da saúde mental individual pode ser considerado um investimento coletivo? 

DF: O cuidado com a saúde mental individual é, sem dúvida, um investimento coletivo. Como propõe o conceito de capital mental, trata-se de investir na nossa capacidade de lidar com a vida de forma mais saudável. Mas a terapia, no Brasil, ainda é um recurso muito elitizado. Os serviços públicos oferecem poucas alternativas de atendimento, e a maioria das pessoas precisa recorrer a atendimentos pagos, o que limita o acesso de boa parte da população. Existem faculdades e institutos que oferecem esse tipo de serviço, mas eles ainda não dão conta da enorme demanda. Quando falamos em capital mental, falamos também de investimento governamental em saúde mental. As consequências da falta desse investimento costumam ser mais graves e mais caras do que se pensarmos em ações realmente preventivas. 

Como entender a diferença entre autocuidado e individualismo? 

DF: A diferença é sutil, mas importante. O autocuidado é essencial para o nosso bem-estar. A partir do momento em que estamos bem, mas não convivemos, trocamos, contribuímos em nada com as outras pessoas, aí estamos diante de uma postura individualista. Há inclusive pessoas individualistas que nem praticam o autocuidado, mas continuam focadas apenas em si, de forma rígida, sempre buscando o que é melhor para elas. Isso as torna alheias ao mundo. Já o autocuidado é cuidar de si para ter condições de oferecer bem-estar também às outras pessoas. Quando dizemos, por exemplo, que a terapia individual é voltada ao indivíduo, isso não significa que ela não afete o coletivo. Quanto mais saudável está uma pessoa, mais ela contribui para o bem-estar coletivo. E o oposto também é verdadeiro: quanto mais adoecida mentalmente, mais adoecimento social ela pode provocar. 

Muito se fala em liberdade, mas a liberdade de se reinventar ainda assusta. Por que mudar continua sendo visto com desconfiança? 

DF: A liberdade de se reinventar às vezes esbarra naquele clichê do futebol, de que mudar de time é estranho — se você é de um time, tem que ser para sempre. Há uma ideia de que a pessoa deve manter uma posição fixa, não pode mudar de crença política, religiosa ou estilo de vida. Mas, na verdade, reinventar-se é a essência da vida e da liberdade, é o nosso potencial de transformação. A mudança ainda gera desconfiança, porque a sociedade criou esse hábito rígido de que as pessoas devem se manter iguais. 

O que você diria para quem sente que precisa mudar, mas está paralisado diante da complexidade da própria história? 

DF: Eu diria: valide essa complexidade. Todos temos uma história, mas não precisamos ser reféns dela. Não é sobre apagar ou negar o que aconteceu, mas sim sobre mudar a forma como enxergamos essa história. Temos essa capacidade cerebral — a neuroplasticidade, a flexibilidade cognitiva — que nos permite transformar a visão que temos da vida. Quem está preso à angústia da própria história precisa saber que pode mudar essa perspectiva. A partir daí, mudam também os sentimentos, os pensamentos e o comportamento. 

Em qual mito sobre felicidade você gostaria que as pessoas deixassem de acreditar? 

DF: Que as pessoas começassem a substituir a palavra “felicidade” pela busca do bem-estar no cotidiano. Vivemos o dia a dia, e não aquele grande sonho que pensamos que vai trazer nossa felicidade. Não vale a pena ficar só em busca da felicidade como um conceito amplo. A felicidade para cada pessoa é algo diferente, e o mais importante é buscar um estado de bem-estar, algo que pode ser cultivado no cotidiano. 

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por Glicéria Tupinambá Revista Amarello

Com suas penas, fibras e cera de abelha, carregado do eco dos cantos ancestrais, o manto Tupinambá já rodou muito, certamente bem mais do que seu povo gostaria. Quando algo é tomado de seu território, as memórias se tornam os únicos vestígios de sua existência — e, com anos e mais anos, até a noção de lembrança se vê ameaçada. Ainda assim, apesar dos pesares, o manto Tupinambá atravessou a inclemência do tempo e dos colonizadores, como uma entidade que respira e que, a partir dos esforços de Glicéria Tupinambá para reproduzi-lo, vem devolvendo a comunidades indígenas o gosto de mundos que o colonialismo tentou calar.  

“Ele sempre foi, e ainda é, a testemunha de vários momentos históricos, uma vez que ele tem cerca de 400 anos”, conta Glicéria, liderança da aldeia Serra do Padeiro. “E o manto fala comigo. Se ele fala, ele tem uma voz, eu o escuto. Ele, pra mim, está em um lugar de espiritualidade.” 

Feito de milhares de penas vermelhas de guará, costuradas em rede de algodão, o manto foi concebido há séculos como um objeto de poder, uma vestimenta cerimonial ligada a ritos de passagem e à própria organização espiritual dos povos Tupinambá. É um corpo próprio, um tempo condensado de forma que, sustentado de ancestralidade, representa uma cultura e uma história que não deixaram de acontecer.  

No século XVII, o manto foi deslocado à força. Retirado do Brasil em meio à colonização, ele atravessou o Atlântico em direção à Europa. Ali, perdeu sua função primordial e foi transformado em mera peça de coleção, exibido como curiosidade exótica ou trancado em depósitos poeirentos. O que em essência deveria ser elemento pulsante de uma rica cosmologia virou objeto imóvel, “preservado” sob uma lógica de dominação e condenado a existir em vitrines frias, distante da terra e do povo que o concebeu. 

Há mantos dispersos por acervos na Dinamarca, Bélgica, França, Suíça, Itália e em outros museus europeus, com pessoas que não têm direito a eles. Por isso, então, ressoa a pergunta: como ficam as pessoas que têm esse direito? Como viver sabendo que sua história lhe foi tomada e mantida a oceanos de distância? Quando um artefato de seus antepassados lhe é tirado violentamente, como responder? 

Para Glicéria, os mantos carregam “tanto poder e tanta importância” que ultrapassam a comunidade Tupinambá. “O cuidado com ele é tão amplo que o povo brasileiro pode se sentir pertencente, porque é um patrimônio.” Mas não se trata de um patrimônio qualquer, ele “precisa de todo o cuidado, de toda a atenção, sendo que todos podem se sentir parte dele, porque ele vem de um espaço de diplomacia, de diálogo, não de um espaço para disputa”. 

Na cosmologia Tupinambá, os objetos são linhas encarnadas, forças que atravessam corpos e territórios para fundar o coletivo. São itinerários de sensibilidade, formas de conjurar mundos e conversar com os ancestrais. Como explica Glicéria, a cultura Tupinambá entende que “os rituais podem agenciar a espiritualidade para habitar no objeto, diferentemente da cultura europeia, em que o objeto permanece apenas objeto. O manto é um recipiente em que habita um espírito e, dentro dessa espiritualidade, eu o chamo de ancestral.” Assim, ele “sai da categoria de objeto e passa a ser uma entidade”, desempenhando a articulação entre mundos.  

Isto é, não há um substituto real para um portal desse porte. Sua confecção é complexa e precisa ser feita à semelhança de outro. Mas… Onde está o outro? 

Em 2000, quando um manto veio da Dinamarca para a Mostra do Redescobrimento, em São Paulo, Nivalda Amaral de Jesus reconheceu-o e pediu o retorno dele à aldeia. Isso teve uma grande repercussão, deu visibilidade à questão e desencadeou o processo de demarcação do território. Essa luta segue até hoje, e passos foram dados, mas, felizmente, a reconstrução simbólica e política do manto Tupinambá não depende só disso. 

Em 2006, Glicéria iniciou um gesto inédito: se lançou a fazer o primeiro manto Tupinambá contemporâneo. Ela nunca havia visto de perto a trama original, mas trazia na memória os relatos de Nivalda e os poucos registros acessíveis. Com um retroprojetor antigo e fotografias em baixa resolução, decifrou pacientemente a estrutura da vestimenta. Estudou cada detalhe e, ao lado do pai, experiente na tecelagem do jererê, improvisou ferramentas e encerou algodão com cera de abelhas nativas para chegar lá. “Um ancião da minha comunidade dizia que não gostava de remendar. Ele preferia fazer um novo e não remendar. E entendi isso, porque eu não estava tentando remendar a história. Não quero isso. Eu estou construindo outra história.” 

Na impossibilidade de reunir as cerca de dez mil penas de guará que compunham o manto original, ela foi e construiu sua história, recorrendo às aves do próprio território, como galo, galinha, pato, gavião, pavão, araponga e aracuã. Sua primeira versão nasceu em uma forma menor, um cocar carregado de intenção espiritual. O objeto foi dedicado aos Encantados (entidades espirituais presentes na cosmologia do povo Tupinambá) durante a Festa de Rei São Sebastião. 

No ano seguinte, em 2007, o trabalho chamou a atenção do antropólogo João Pacheco, do Museu Nacional da UFRJ, que organizava a exposição Os primeiros brasileiros, em Fortaleza. A presença do manto na mostra foi autorizada, mas sob a condição de que três outros fossem confeccionados para permanecer na aldeia. A missão, no entanto, revelou-se maior do que os meios disponíveis. Faltavam penas, tempo, recursos… O desejo de dar continuidade ao trabalho permaneceu vivo, mas precisou ser interrompido. 

Em 2019, Glicéria visitou um manto na reserva do Museu du Quai Branly, em Paris, e viveu aquilo que chama de “cosmoagonia”. Estar diante dele reabriu a ligação espiritual com o cosmos Tupinambá, evocando a teia de relações entre humanos, animais e ancestrais — daí a cosmogonia. E, ao mesmo tempo, estar ali era estar diante do fato de que, arrancado de seu território, o manto estava confinado a milhares de quilômetros de sua gente — daí a agonia. A força criadora do sagrado e a dor histórica da separação. Foi nesse choque, simultaneamente luminoso e doloroso, que ela encontrou o impulso necessário para retomar o processo de reconstrução. 

Durante a pandemia, o isolamento forçado trouxe uma calmaria rara à Serra do Padeiro. Foi nesse silêncio que Glicéria retomou a confecção do manto, guiada pelos Encantados, que orientavam cada gesto por meio da “cosmotécnica”, um saber que se manifesta em sonhos, imagens e matéria. “Para mim, o mais importante foi encontrar as guardiãs, as detentoras da feitura do manto dentro do meu território”, conta. “Perceber isso teve muito impacto em mim, pois são mulheres anciãs, sábias, praticantes. Não é uma pessoa que faz esporadicamente ou lembrava esporadicamente. É alguém que faz.” 

Essa descoberta transformou sua presença na aldeia. “Tem sido grandioso incentivar, vê-las fazer a malha, retomar o manto, e me desafiar a aplicar a pena. Está sendo grandioso para dentro do território, entendendo também que isso tem um efeito fora.” 

Ela mobilizou parentes, transmitiu técnicas e devolveu o manto ao ciclo da vida. “Quando a gente pratica, a gente amplia esse conhecimento. A linguagem da arte possibilita materializar, ver e refletir.” A jornada pela repatriação, liderada por Glicéria e outros, não é apenas patrimonial, é memorial, um clamor por dignidade e pelo direito de contar a própria história com seus próprios meios.  

E contar essa história, para ela, significa também corrigir distorções produzidas pelo olhar colonial, que reduziu o manto a um objeto exótico, desvinculado de sua memória viva. 

“A informação que eu tinha era apenas de que se tratava de uma peça do século XVII, levada por Maurício de Nassau, saindo da região do Pernambuco, indo para a coleção do rei e, depois, para os cuidados do museu. Mas, quando se entra nessa escuta, nesse lugar do possível, onde o próprio manto fala que ele é feito e portado por mulheres, tudo muda. No imaginário das pessoas, o manto sempre foi portado por homens. E, de repente, ele me diz que é feito e portado por mulheres, e que estou no caminho certo e vou encontrar vestígios. Quando cheguei ao Palácio de Versalhes, no Salão de Apolo, vi um afresco com uma mulher usando um manto que remete ao de Copenhague. Para mim, aquilo é a materialidade do que nunca foi visto.” 

Sabe-se da existência de pelo menos onze mantos Tupinambá, a maioria em coleções europeias. Em 2024, o governo federal, por meio da ministra da Cultura Margareth Menezes, formalizou o pedido de devolução de todos eles. E, após séculos na Dinamarca, um deles voltou. A peça agora integra o acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Eu acredito que esses mantos do território europeu são marcos, são diplomatas”, conclui Glicéria, ressaltando o peso simbólico e político de reconstruir materialidades, ideários e espiritualidades. “Dentro desse conceito, eu acredito que nós, indígenas do Pernambuco, possamos ocupar a Europa.” 

Os mundos que o colonialismo tentou calar continuam a falar, e há uma urgência crescente em escutá-los. O manto sustenta essa continuidade, e ela, em si, é uma resposta contundente ao que ocorreu no passado, pois essa continuidade atravessa o tempo e os mares, levando consigo a memória dos ancestrais, a voz dos Encantados e a promessa de que a história, mais do que nunca, será sendo contada por aqueles que dela fazem parte.  

Que depois da cosmoagonia venha o êxtase. 

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Uma história de símbolos, conflitos e vilões, tudo que uma grande narrativa precisa ter. Mas é possível tomá-la como real? 

Sim. Bem mais do que imaginamos. E não estamos falando somente de épocas passadas, quando a ciência estava em estágio incipiente, nem dos círculos em que Santo Agostinho gastava sua retórica. Estamos falando do mundo atual, de pessoas que não necessariamente são cristãs fervorosas. Stephen Greenblatt, historiador literário e escritor estadunidense, escreveu, no seu livro Ascensão e queda de Adão e Eva, publicado em 2018, que “pesquisas recentes mostram que milhões de pessoas, mesmo hoje, apesar de tantas evidências científicas, ainda declaram acreditar na história de Adão e Eva, não como alegoria, mas literalmente. O motivo dessa crença literalista tem pouco ou nada a ver com ignorância”.  

Qual é o motivo, então? Qual é o poder dessa e de outras histórias na humanidade? “Sabemos, ou achamos que sabemos”, escreve Greenblatt, “que os chimpanzés, animais tão próximos a nós, não especulam sobre a origem da desobediência dos chimpanzés; que os orangotangos estão destinados a morrer; e que os bonobos, animais tão sociáveis, não contam, enquanto cuidam dos pelos uns dos outros, uma história a respeito das primeiras cópulas entre bonobos machos e fêmeas. (…) Nenhum desses animais, acreditamos, inventou uma história de origem”. 

Queremos histórias, precisamos delas para sobreviver. Evidentemente, há duas maneiras de olhar pra isso: ou somos seres inquisitivos, sensíveis e criativos, muito mais evoluídos que qualquer outra criatura do planeta, ou estamos perdidos numa busca eterna por um sentido maior, num esforço que nunca vinga, a despeito da complexidade de nossas narrativas e de nossos avanços.  

Filipe Jota, professor e mestre em História pela USP, acredita que “muitas dessas histórias revelam, sim, nossa impotência diante de questões como a morte e o destino, bem como a angústia que pode derivar de relações baseadas no amor e na amizade. No entanto, as mesmas histórias frequentemente destacam a resiliência humana no enfrentamento desses desafios e incertezas, motivada pela consciência de que o desconhecido, ainda que incerto, traz esperança. Os mitos apresentam modelos de mundo que desejamos criar, preservar ou resgatar — sendo, por isso, essenciais tanto para a manutenção quanto para a transformação das relações sociais”. 

Pensar que a parábola de Adão e Eva acabou por definir muito de quem somos enquanto espécie, enquanto sociedade, é aterrador e admirável. Aterrador porque revela o quanto nossas ideias sobre culpa, desejo, punição e diferença, que ecoam fortemente até hoje, foram moldadas por uma narrativa tão primordial, repetida à exaustão por séculos. E admirável porque, apesar de tudo, é uma manifestação impressionante da nossa capacidade de criar e recriar, já que essa mesma história tem servido como fonte inesgotável de reflexão, criação e reinvenção, sendo uma espécie de espelho sobre o qual projetamos nossos medos mais íntimos e nossas esperanças mais antigas. 

Talvez nenhum outro pensador tenha feito desse espelho um instrumento tão rigoroso quanto Santo Agostinho. Foi ele quem, ao interpretar a história do Gênesis, cravou as bases de uma leitura que associaria o desejo ao pecado, a mulher à queda, e a humanidade inteira a uma herança de culpa inescapável. Durante anos, Agostinho mergulhou na tentativa de compreender — e justificar — a dor, a mortalidade e a imperfeição humana a partir daquele gesto inaugural, o momento em que Eva estende a mão e Adão consente. 

Como escreve Greenblatt, “ao tornar a história de Adão e Eva o episódio central do drama da existência humana, Agostinho abriu as comportas para uma corrente de misoginia que turbilhonou durante séculos em torno da figura da primeira mulher. (…) Não importava que o Cristianismo, em seus anos de formação, houvesse acolhido bem as mulheres, juntamente com escravos, criminosos e outras categorias oprimidas pela ordem social romana, e lhes oferecesse lugar à mesa dos abençoados. (…) Muitas outras autoridades, dentro e fora da igreja, de bom grado atribuíam a responsabilidade quase inteiramente a Eva”. 

Essa operação interpretativa sedimentou uma imagem de Eva como arquétipo da tentadora, da frágil e da culpada, permitindo que a narrativa da queda servisse, por séculos, como fundamento simbólico da exclusão das mulheres da esfera pública, da autoridade e até mesmo do saber. O mito, rearticulado por Agostinho, ajudou a organizar o mundo sob uma determinada hierarquia. À mulher coube a culpa original, a desobediência, a tentação, o caos. Ao homem, a cumplicidade silenciosa, depois a dor, o trabalho e a vergonha. Daquele jardim perdido brotou uma narrativa que atravessaria milênios, moldando doutrinas religiosas e concepções morais, políticas e estéticas do Ocidente.  

​​Acha que “milênios” soa como um exagero? Pois então pense: o que lhe vem à mente quando o nome de Yoko Ono é mencionado? ​​​ 

​Eva segue sendo apedrejada: a mesma queda, diferentes jardins. 

“Precisamos ter em mente”, comenta Filipe Jota, “que o imaginário social é uma estrutura complexa e dinâmica. Além de ter dupla dimensão — consciente e inconsciente —, essa estrutura é composta por diferentes camadas, construídas em vários momentos ao longo da história. Quase nunca uma imagem tem apenas um significado. A mesma imagem ou ideia pode ser apropriada de formas distintas, segundo grupos e interesses distintos, tanto no presente como em diferentes períodos históricos”. 

É justamente essa plasticidade simbólica que permite que Adão e Eva sobrevivam no ideário popular. Da pena austera de Agostinho à gravura sensual de Albrecht Dürer, pintor do Renascimento nórdico que também trouxe seus dois centavos à roda, a narrativa foi absorvendo camadas de interpretação — ora sendo usada como aparato de controle, ora como ferramenta de libertação. 

“Não se trata de questionar se os mitos ainda têm lugar no mundo atual”, acrescenta Jota, “mas sim de compreender quais mitos ganham maior adesão e quais interesses eles ajudam a sustentar”. 

A queda de Adão e Eva de seu pedestal teológico não marcou o fim de seu poder. Ao perderem autoridade religiosa, ganharam vitalidade cultural. Tornaram-se arquétipos, modelos narrativos, metáforas universais sobre o começo de tudo e sobre a dor de saber que esse começo sempre envolve perda. 

“Toda construção e apropriação mítica envolve algum grau de distorção”, pondera o professor e historiador. Alguns mitos se sustentam em fontes históricas ou achados arqueológicos; outros, afirma, “são quase que exclusivamente fruto da imaginação coletiva”. O importante, segundo ele, não é separar os verdadeiros dos falsos, mas reconhecer esse processo e lidar com os mitos com consciência. “O essencial é termos consciência disso e usarmos os bens simbólicos com responsabilidade e senso crítico.” 

Mas fazemos isso? Talvez a passagem perdure porque ela não responde — ela tensiona. Mais do que tudo, nos devolve perguntas. Quem somos quando desobedecemos? O que fazemos quando descobrimos que estamos nus? Por que seguimos comendo frutos que sabemos que não devíamos tocar? As respostas, sabemos, podem ser inquietantes. 

Adão e Eva continuam vivos, não porque habitam um céu ancestral ou porque estão envoltos por uma aura bíblica. Continuam vivos, ainda no encalço de nossa consciência coletiva, porque, no fim, nós somos eles. 

Independentemente do que acreditamos, aquele Gênesis é nosso. E, de era em era, seguimos caindo. 

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Como descreveríamos o Brasil para um amigo estrangeiro que está pensando em vir morar aqui com a família? Como descreveríamos o Brasil para os nossos filhos? Como queremos que eles vejam o nosso país? Como descreveríamos o Brasil atual para um antepassado que faleceu há 50 anos? Quais foram as mudanças que julgamos serem relevantes? Houve mudanças relevantes? 

Seja qual for a história a contar, seja qual for o perfil do Brasil a se traçar, qual patamar de segurança poderíamos atribuir ao nosso relato? Que percentual de correspondência com a realidade ele mereceria aos nossos próprios olhos? Achamos que temos um bom conhecimento, fidedigno, sobre o Brasil? 

De onde provém o nosso conhecimento sobre o país? Além da nossa experiência direta insubstituível — por certo, muito verdadeira, enquanto experiência pessoal —, quais são as nossas fontes? O que lemos? Quem lemos? A que assistimos? Com quem dialogamos? De quem divergimos? Quem escutamos? 

Quais são as categorias e os conceitos que usamos para pensar o Brasil? Vemos o nosso país como a nossa casa — como parte de quem nós somos, como dimensão integrante da nossa existência — ou preferimos enxergá-lo com certo distanciamento, com certa alteridade? Ao olharmos o Brasil, nos vemos ou vemos os outros? Notamos nossas qualidades ou identificamos os defeitos dos outros? 

Estamos apaixonados pelo Brasil ou nos encontramos numa fase de mágoa, de ressentimento, de certo desprezo ou mesmo de indiferença com a nossa terra e o nosso povo? Temos conversado sobre a relação? Ou preferimos ir tocando, sem refletir muito, sem querer escutar muito, um tanto receosos com o que pode vir à tona desse papo mais sério, mais profundo, mais olho no olho? 

Há admiração pelo Brasil? Brilham os nossos olhos quando pensamos no futuro do país? Nos sentimos orgulhosos de estarmos construindo, no presente, esse futuro? Ou há mais um tom de desencantamento e frustração com o que poderia ter sido e não foi? 

O que nos incomoda no Brasil? Quais são as suas características que nos deixam um pouco envergonhados? Quais usos e costumes produzem em nós uma sensação de não pertencimento? Ou, ao revés, há um sentimento de excessivo pertencimento, o choque de nos vermos no espelho sem filtros e com uma luz não tão boa, de estarmos sendo filmados sem aviso prévio? Sorria, você está sendo filmado. 

Os nossos mitos 

Como fomos ensinados a ver o Brasil? Jovem, promissor, pacífico, miscigenado, mestiço, criativo, continental, sem terremotos e sem vulcões, com uma incrível biodiversidade, alegre, caloroso, cordial, esperto, malandro, improvisador, resiliente, religioso, católico, com um rico sincretismo religioso, tradicional, familiar, folclórico, burocrático, colonial, preguiçoso, desigual, analfabeto, pobre, emergente, subdesenvolvido, agrícola, improdutivo, degradado, sem infraestrutura, sem apreço pelo passado, politicamente instável, ecologicamente irresponsável, alheio às oportunidades, fechado ao mundo, autossuficiente, com um poder público caro e ineficiente, dominado por uma casta de privilegiados, com um futuro maior — ou menor — que o seu passado? Como nos ensinaram a ver o Brasil? Era o país do futebol, do carnaval e das novelas? Foi assim ou de outro jeito? 

O que, de tudo isso, marcou a nossa imaginação? O que moldou o nosso olhar e molda, queiramos ou não, nossa ação? 

Nossos mitos fundadores — do descobrimento português, da miscigenação das três raças, da unidade nacional, da independência pacífica, da convivência harmoniosa — remetem a uma terra abençoada por Deus, que desfruta de um lugar único no mundo, de uma situação privilegiada. Nossos mitos falam de um país com um destino quase inexorável, que se realizaria sem esforço e sem trabalho. 

Não é um país a ser construído, que pode ter diferentes destinos e caminhos; portanto, chegar a um bom porto exigiria responsabilidade, compromisso, atuação. Não. Nossos mitos fundadores falam de uma nação com características únicas — de terra e de povo —, cujo destino não depende da ação coletiva. Neles, a população não é protagonista, É abençoada. Que sorte a de viver num país sem guerras. 

É verdade que o mito da paz e da diversidade, da convivência pacífica, anda bastante enfraquecido, desgastado. O século XXI expôs uma nova sociedade brasileira. Colocou novas questões, reintroduziu as perguntas de sempre. Se somos tão sociáveis, por que não nos integramos à América Latina? Por que demoramos tanto a abolir a escravidão? Por que menosprezamos tanto a educação? Por que resistimos tanto a ver, reconhecer e reparar as consequências da escravidão e do racismo? 

Se somos pacíficos, por que temos índices alarmantes de violência? Por que há tanta dificuldade em admitir a realidade: somos um país violento? 

Se o Brasil é o país do futuro, de qual futuro estamos falando? Estamos pensando em riqueza ou em humanidade? Estamos falando de números ou de pessoas? Estamos nos referindo ao sucesso ou ao sossego? Ao lucro ou à paz? O que temos a oferecer ao mundo? O que queremos oferecer ao mundo? Colocaram-nos ou fomos nós que nos colocamos como país do Terceiro Mundo? O que pensamos ao falar em Terceiro Mundo? O que nos atrela a esse mundo do subdesenvolvimento, do quase lá? É destino ou é nossa própria omissão? Estamos realmente insatisfeitos com o lugar do Brasil no mundo ou estamos muito satisfeitos com o nosso lugar dentro do Brasil? 

Lento e rápido 

Muitos dos nossos problemas permanecem praticamente inalterados ao longo das décadas, ao longo dos séculos: a pobreza, o racismo, as desigualdades sociais, a disparidade de oportunidades, a ineficiência do setor público. Para uma significativa parcela da população, a cidadania é como sempre foi: meramente formal. Os direitos da Constituição de 1988 não lhes foram reconhecidos na prática. Na vida real, a efetividade dos direitos continua sendo para poucos. 

Mas isso não significa um país imóvel. Houve mudanças sociais importantes. Não temos a menor taxa de natalidade do mundo, mas somos recordistas na desaceleração do número de filhos por mulher. Somos um dos mais intensos usuários de redes sociais, de tempo dedicado à internet. Promovemos uma massiva inclusão de crianças e adolescentes no ensino formal. 

Não somos, portanto, tão passivos como querem fazer crer nossos mitos fundadores. O Brasil mudou não apenas demograficamente — a transformação de uma sociedade rural em urbana em menos de meio século —, mas também culturalmente. Consumidor de ideias e produtos globais, produtor de ideias e produtos igualmente globais. 

Há uma plasticidade cultural, amoldamo-nos rapidamente às novidades, às tendências, ao espírito dos tempos. Entre os sintomas disso, está o esgarçamento das relações sociais. Essa plasticidade é aggiornamento, mas é também tensão. Entre tradição e modernidade, entre local e global, entre sagrado e profano, entre rito e liberdade. Entre o que fomos, o que somos e o que queremos ser. 

O que nos faz tão móveis — tão plásticos — enquanto sociedade? A televisão? A nossa modalidade educativa massiva de meio período? A nossa pouca memória? O que nos faz tão móveis que voltamos a cair nos mesmos problemas, nos mesmos dilemas, nos mesmos embates? O que nos faz tão móveis a ponto de parecer que, em vez de andar para frente, retrocedemos? 

Nenhuma dessas questões têm respostas binárias. O Brasil é diverso: plural e massificado, simples e complexo, humano e desumano, pobre e rico. Estamos um pouco perdidos, é verdade. Queremos conhecer o futuro, mas desconhecemos o passado e o presente. Temos algumas ideias, que motivam, que entristecem, que preenchem — menos do que talvez gostaríamos — um sentido possível. Não é fácil pensar o coletivo. Não é fácil pensar o individual. Tateamos. Tropeçamos. Descobrimos. E redescobrimos. Nossa terra, nossos laços, nossas feridas, nossas histórias, nossas vozes. 

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