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#55Imagem BrasilArteCulturaSociedade

A Diasporadical Triology como contraimagem do Brasil “pra inglês ver”

por Rafael de Queiroz

Still do filme Diasporadical Trilogia.

A imagem que o Brasil projeta para o mundo — e a forma como nós, brasileiros, processamos nossa própria identidade — costuma passar por filtros que ora nos exotizam, ora nos reduzem a um subproduto tardio do Ocidente. No entanto, quando paramos para observar o território nacional pelas lentes de Samuel Bazawule, o artista ganês conhecido mundialmente como Blitz the Ambassador, essa perspectiva sofre uma inversão radical e necessária. Para Blitz, o Brasil não é um “outro” geográfico, uma nota de rodapé na história da colonização ou um destino turístico de cores vibrantes e melancolia profunda; ele é, fundamentalmente, uma extensão viva, pulsante e ininterrupta do continente africano. Como autor e pesquisador que se debruça sobre as fissuras da comunicação e as potências da imagem, entendo que a obra de Blitz nos convida a uma tarefa urgente: enxergar a afrodiáspora não como um território de perda ou trauma, mas como uma continuidade política e espiritual em que o legado pan-africanista se materializa em estética, som e movimento. 

A narrativa central da Diasporadical Trilogia (2016) não é apenas um acompanhamento visual para um álbum de rap; é uma tese em movimento conduzida por uma figura feminina arquetípica, uma mulher negra que habita um estado de onipresença existencial. Ela vive em três espaços geográficos distintos — Acra, Brooklyn e Salvador — de forma simultânea. Mais do que transitar entre fronteiras, essa personagem transita por diferentes temporalidades, personificando o conceito de tempo espiralar. Como formulado por Leda Maria Martins, a temporalidade espiralar rompe com a flecha linear ocidental para propor um movimento em que o passado habita o presente e o futuro em um ciclo de recorrências. Não se trata de uma viagem no tempo linear, mas de uma coexistência na qual as camadas da história se tocam. 

O ponto de partida dessa espiral é o primeiro ato, Juju Girl, situado em Acra. É crucial destacar que a narrativa em Gana não se perde em um passado ancestral abstrato, mas se ancora em um momento político definidor: o ano de 1957, marco da independência do país. Blitz utiliza de forma magistral o arquivo sonoro do discurso histórico de Kwame Nkrumah, o primeiro presidente da Gana independente e um pan-africanista convicto. Nkrumah proclamou que a independência de Gana seria insignificante, a menos que estivesse ligada à libertação total do continente africano. Ao inserir a voz de Nkrumah, Blitz conecta a diáspora a um projeto político moderno de soberania negra. A mulher que caminha por Acra em 1957 carrega consigo o projeto de um futuro livre que se desdobra para além das fronteiras do continente, estabelecendo que a liberdade de um é a liberdade de todos os que compõem o corpo africano global. 

Ao mergulhar na trajetória de Blitz the Ambassador, percebo um artista que opera como um mestre de cerimônias de uma rádio global, sintonizando o highlife ganês com a urgência do hip-hop nova-iorquino. Minha análise busca compreender como essa trilogia se ergue sobre o que chamo de encruzilhadas epistemológicas, utilizando o conceito de stereomodernism, desenvolvido por Tsitsi Ella Jaji. Esse conceito explica como os povos negros utilizaram as tecnologias de reprodução sonora — do rádio de pilha ao disco de vinil — para criar circuitos de solidariedade transnacional que ignoravam as censuras e as barreiras coloniais. A batida do rap de Blitz funciona como essa rádio global, fazendo vibrar simultaneamente as frequências de três continentes, provando que a tecnologia, quando apropriada pela estética negra, torna-se um instrumento de reconexão ancestral. A rádio não apenas toca música; ela transmite o pulso de uma civilização que se comunica através do Atlântico. 

Essa conexão é potencializada pela teoria de Exu, conforme explorada por Luiz Rufino. Vejo a trilogia como um movimento de trânsito livre, em que a comunicação é o axé para abrir caminhos e conectar as pontas da história. Exu, nesta análise, é a própria epistemologia do movimento: o senhor das passagens e das encruzilhadas que permite que a protagonista transite entre Acra, Brooklyn e Salvador sem perder o eixo identitário. É Exu quem permite o “drible” na narrativa linear e impõe a circularidade que organiza a obra. Na lógica da encruzilhada, o encontro entre Gana e Brasil não é um acidente geográfico, mas um alinhamento espiritual e político. 

Após o despertar político em 1957, a narrativa nos transporta para o concreto do Brooklyn no segundo ato, Shine. Aqui, a busca pela sobrevivência urbana na metrópole ocidental é mediada por uma proteção que a personagem carrega dentro de si. O “brilho” (shine) que Blitz evoca não tem relação com o glamour efêmero da indústria cultural; ele é a luz espiritual e a consciência necessárias para não se perder na névoa da diáspora. A estética do vídeo dialoga com a história do rap clássico, mas a subverte ao inserir elementos rituais e simbólicos que remetem diretamente ao ato anterior em Gana. A mulher que caminha pelo Brooklyn carrega os mesmos amuletos e o mesmo olhar de quem sabe que o território onde pisa é apenas uma fresta em uma história muito maior, conectada diretamente à libertação anunciada por Nkrumah. O Brooklyn, aqui, é uma extensão da luta de Acra, e a resistência se traduz no brilho do olhar de quem se recusa a ser apagado. 

Mas é no encerramento da trilogia, com o curta Running, filmado integralmente em Salvador, que a temática “imagem do Brasil: como nos vemos e como somos vistos” atinge seu ápice. Blitz não veio à Bahia para buscar o “folclore” ou a imagem pacificada de um paraíso tropical. Ele veio para documentar a sobrevivência da África em solo brasileiro como um fato político e estético. A análise descritiva revela uma mulher idosa em uma corrida desesperada pelas ruas de Salvador, cercada por sombras e figuras que simbolizam a repressão histórica, o braço armado do Estado e o racismo estrutural. A “corrida” aqui é a fuga histórica da escravidão que se atualiza na violência cotidiana da metrópole. É a corrida pela vida que atravessa séculos de opressão. 

Entretanto, o desfecho proposto por Blitz é uma poderosa afirmação de poder. A salvação da personagem surge através da intervenção dos Ibejis, os gêmeos sagrados que, na cosmogonia iorubá, detêm o poder de reverter o destino através da alegria, da duplicidade e do novo que nasce. No momento em que os Ibejis aparecem, a temporalidade espiralar se fecha: o Brasil se revela como o refúgio onde a África se preservou através da ação, do drible e da fé. O mar da Bahia deixa de ser o símbolo da separação traumática para se tornar o espelho do mar de Gana. As águas que transportaram a dor do tráfico agora transportam a cura pelo reconhecimento estético. Salvador surge como a capital da resistência afrodiaspórica. 

Ao analisarmos o Brasil através da câmera de um artista africano moderno, somos forçados a nos reconhecer como uma peça fundamental de uma cartografia negra indomável. Blitz the Ambassador nos oferece uma lição de soberania visual: não somos náufragos de uma história de dor, mas herdeiros de uma tecnologia de resistência. A afrodiáspora é solo africano em solo brasileiro — um território onde a imagem que projetamos para o mundo deve ser a de uma identidade negra em movimento e contínua, espiritual e de luta. Essa visão invalida a percepção externa que nos vê como “derivados”; ela nos coloca como protagonistas de uma civilização global que pulsa aqui com a mesma intensidade que pulsa acolá. 

Minha intenção, ao mergulhar nessa obra, é mostrar que Blitz faz muito mais do que música: ele produz um conhecimento visual que nos provoca a repensar a crítica de mídia e o papel das imagens na construção da nossa realidade. A narrativa sobre o negro não pode ser contada apenas de fora para dentro, ela deve emergir da própria raiz. Quando Blitz filma no Brasil, ele dialoga com o saber acumulado do candomblé, das comunidades negras e de toda a nossa tradição de resistência. Ele afirma que Gana e Brasil são vizinhos de porta, separados apenas por uma massa de água que Exu e a tecnologia espiralar sabem atravessar com maestria. 

A Diasporadical Trilogia permanece como um exemplo dessa nova forma de ver e ser visto, um mapa essencial para navegarmos em um mundo que tenta nos desorientar, mas que não conta com a bússola certeira da nossa ancestralidade política e espiritual. Ver o Brasil como continuidade da África é, em última instância, um ato de soberania e de amor político que nos permite, finalmente, olhar no espelho da história e enxergar a nossa própria face projetada no infinito do tempo espiralar. É o reconhecimento de que somos parte de um projeto de liberdade que começou desde a primeira luta anticolonial, reafirmando que a diáspora radical é o nosso território de ideias mais potente. 

Essa jornada visual nos ensina que a imagem que temos de nós mesmos deve ser mediada por esse reencontro. Se nos vemos como parte dessa espiral, deixamos de ser vítimas de uma história alheia para nos tornarmos os arquitetos de uma imagem de Brasil que é, simultaneamente, profundamente brasileira e visceralmente africana. A conexão estabelecida por Blitz the Ambassador é o lembrete de que o Atlântico é um caminho de volta e de que cada movimento de corpos negros, cada ato sonoro advindos destes corpos e cada discurso de liberdade ressoa em ambas as margens, mantendo viva a chama de uma civilização que tem aldeias e quilombos como projeto de futuro a ser atingido. 

*** 

Este texto é uma livre adaptação do artigo científico Mo pèé ìba méta làá b’ okán: “Eu invoco vezes três são como uma”: o sistema Exu-estéreo para ouvir e ver a Diasporadical Trilogia de Blitz The Ambassador, de minha autoria, publicado na Revista ArteFilosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). 

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Este texto pretende ser um convite a pensar como vemos o Brasil e como ele é visto de fora, pelos estrangeiros. Com este pequeno passeio, deseja-se despertar, sobretudo, carinho pelo nosso país — carinho que leve ao cuidado, ao pertencimento, à abertura. Nesse itinerário, talvez vejamos alguns ângulos nossos não tão bonitos, mas que também isso seja carinho, atenção, proximidade. Com calma, tudo poderá ter, a seu tempo, a oportunidade de se alinhar. 

Grande é o Brasil 

O tamanho do Brasil é uma de suas notas definidoras. Desde pequenos, na escola, somos ensinados que o nosso é um dos maiores países do mundo. Ao contrário de tantos outros, que se fragmentaram, se desentenderam, brigaram, continuamos unidos. Continuamos grandes territorialmente. Duas características muito presentes em nossa compreensão do Brasil, portanto: grande e unido. Na terra e na língua. 

Somos diferentes dos outros países, mas não nos achamos esquisitos. Diferentes de um jeito bom, pensamos. Somos únicos. Somos grandes e unidos: pacíficos, calorosos, alegres, criativos. E temos uma natureza incrível. Poucos países (também nos ensinaram isso desde pequenos) têm uma flora e uma fauna tão abundantes como aqui. 

Nossa natureza encanta, assim como nossa arte. Temos orgulho dela. Temos orgulho da nossa cultura, especialmente da nossa música — mas não só dela. Sabemos que o mundo gosta do Brasil, e esta é outra nota definidora da nossa autocompreensão: o mundo gosta da gente, aprecia a nossa terra, a nossa cultura, as nossas praias, as nossas florestas, o nosso jeito de ser e de viver. Somos benquistos. Somos populares. 

Convivemos, desde pequenos, com a exposição a altas doses de ufanismo, mas sempre do nosso jeito: nada nos foi dito explicitamente. Nada foi reconhecido abertamente, e, se isso ocorresse, teria nos constrangido um pouco. Somos grandes e unidos, mas disfarçamos. Não saímos dizendo por aí. Essa mensagem habita o fundo do coração, molda, configura, acalenta, mas sem ser dita, sem ser admitida, sem ser nomeada. 

Adoramos não dizer as coisas claramente. Somos o país do subtexto. O texto explícito, a mensagem oficial, a regra escrita — nada disso vale muito, nada disso importa muito. Vou sim. Combinado. Fechado. Nada disso tem um sentido literal. É antes um gesto afetivo, um aconchego, que se esgota no presente. Ele cumpre sua função no momento em que é dito, em que é ouvido. Depois não sabemos. Nossa resposta não foi um compromisso, foi essencialmente uma gentileza, uma ideia, muito nossa, de gentileza. Não desagradamos. Somos — estamos convencidos disso — gentis. 

Somos o país do presente. Não pensamos no passado. O passado é uma realidade que não está no nosso imaginário nem no nosso afeto. Somos práticos. Pensamos no hoje. Não somos reflexivos, dramáticos, angustiados; vivemos o hoje. Somos desprendidos do passado. E, sob essa lente, somos leves. Não temos bagagem a carregar, a processar, a ressignificar. Não temos contas a acertar. 

Sem passado e com os dois pés no presente. Somos, há de se reconhecer, um pouco adolescentes. Queremos o hoje. Nossa expectativa de futuro é leve, passageira. Não queremos nada que comprometa o presente. 

Sendo adolescentes, somos também volúveis. Alternamos nosso acervo de ufanismo com doses de inferioridade, de estranhamento, de fastio, de desesperança. O Brasil é também o país da corrupção, da violência, da desigualdade, dos privilégios, da hipocrisia e da história oficial. 

O Brasil, não temos nenhuma dúvida disso — nenhum estrangeiro precisa nos dizer isto —, é superlativo também nos seus problemas. Além de não os resolver, conseguimos, muitas vezes, piorá-los. A cada estação surgem novos problemas, e os antigos permanecem, bem plantados e bem regados. 

Sofremos com essa situação. Gera-nos mal estar. Dói-nos viajar para outros países e sentir a carência de tantas coisas no Brasil. De serviço público, de senso de comunidade, de responsabilidade cívica, de uma construção de país de longo prazo. Gostaríamos que tudo isso fosse realidade também na nossa terra, na nossa cidade, no nosso bairro. Mas não o é. E torna-se fácil pensar, nessas horas, em se mudar para Portugal, para a Itália. Ou para Miami. Nessa hora, pensamos no futuro, nas não em um futuro coletivo. Pensamos no futuro familiar, no refúgio seguro para os nossos filhos. Almejamos uma residência onde as questões básicas da vida em sociedade — segurança, saúde, educação — já foram resolvidas por outros, antes de nós. Nós somos especialistas em presente. 

Fácil e difícil 

Narrar como os estrangeiros, os outros países, nos veem não é simples. É assim, de fato, como eles nos veem? Ou estamos projetando nossas impressões pessoais no olhar deles, numa validação da nossa própria compreensão? Aqui não há certeza epistemológica. De toda forma, mesmo com os riscos envolvidos, vale a pena percorrer o caminho. Podemos ver outras sombras e outras luzes. 

Começo por uma hipótese. Os estrangeiros que têm pai ou mãe brasileira têm um grande carinho, uma grande admiração pelo país. Não é “apenas” que a parte brasileira tenha infundido um grande amor pelo Brasil, o que é significativo, é que os filhos de brasileiros veem o Brasil como um outro mundo possível. Outra natureza, outra temperatura, outras relações, outros afetos. Não é apenas um outro país, o país da minha mãe, do meu pai. É um país diferente. 

E, seja qual for a relação prévia com o Brasil, o que os estrangeiros veem de diferente aqui?  

Aos olhos — e ao coração — dos estrangeiros, o Brasil é acolhedor. Com enorme rapidez, estabelecem-se relações sociais. Sentem-se queridos, próximos, envoltos de imediato numa rede de amigos e conhecidos, de eventos. Aquilo que talvez seja o mais difícil em suas culturas de origem, o quebrar a barreira da intimidade, aqui não parece sequer existir. 

O dia a dia dos brasileiros encanta. O abraço, o banho, a alegria, o tempo em outra cadência. Há mais temperatura na relação com os outros, na relação com o corpo, na relação com a natureza. E os estrangeiros logo sentem esta realidade tão presente — e tantas vezes invisível para nós: somos filhos da África e filhos dos indígenas. Eles veem, plasmado no nosso presente, o nosso passado. Um legado muito próprio de humanidade, de cultura. 

Mas não é só encantamento. Depois, os estrangeiros sentem, muitas vezes, o fio da frustração. Há convites, abraços, o apresentar os amigos dos amigos, mas habitualmente é uma intimidade rasa. Vive-se intensamente o presente, mas não se reflete sobre ele. Não se dialoga sobre ele. Não se compartilha o mundo que é visto a partir de dentro. 

O calor do afeto é também sentido na cultura. O Brasil é vibrante, culturalmente diverso, criativo. Experimentam-se os múltiplos sincretismos: o religioso, o cultural, o afetivo. Nesta terra, misturam-se os elementos, as ideias, os corpos, as famílias, as relações, os andares. 

Os estrangeiros veem e sentem a natureza exuberante, a biodiversidade, a desigualdade social. Veem tudo isso e admiram-se. Pelo positivo e pelo negativo. Admiram-se especialmente que nós próprios não vejamos, não valorizemos nossas exuberâncias e nossas desigualdades. Acostumamo-nos com elas — e, para nós, elas se tornaram invisíveis. Os estrangeiros notam nossos apagamentos. No bom e no ruim. Nossa falta de memória. 

É fácil gostar do Brasil, mas ele tem suas complexidades. Suas dinâmicas e tramas escapam dos cânones racionais. O afeto e a violência. Sua democracia e suas instabilidades. Seu Estado forte e, ao mesmo tempo, desigual, incompleto, fraco. 

Nas relações com os outros países, o Brasil cultiva paradoxos. Há proximidade, mas há distância. Há acolhimento, mas há indiferença, desconhecimento, alheamento. Isso é notório em sua relação com Portugal; é assustadoramente notório com seus vizinhos. Por suas dimensões e qualificações, o Brasil é inegavelmente uma liderança na América Latina, mas sustenta e reproduz, diariamente, o seu isolamento na região. A América Latina são os outros. 

Eis, então, a pergunta: tem o Brasil uma identidade definida no exterior? Sim, inclino-me a dizer. Ninguém fica indiferente quando se diz que é brasileiro. Mas também penso no “não”: cada vez que o mundo nos conhece mais, vê nossas pluralidades e encruzilhadas. E já não se vê tão facilmente o Brasil. As antigas nitidezes esfumam-se. 

Talvez 

Talvez o primeiro passo para uma compreensão mais madura sobre o Brasil esteja em não pretender encaixá-lo numa expectativa, numa ideia. Nosso país não é como ele deveria ser. No Brasil, talvez haja uma maior distância entre o ser e o dever ser em muitos sentidos, em muitos aspectos, no ruim e no bom. Nesse hiato, vislumbram-se espaços de liberdade. 

Por que somos assim?, nos perguntamos. Nessa reflexão, podemos talvez incluir outra questão: para que somos assim? Isto é, com o que podemos contribuir sendo dessa maneira? 

Mais do que dar respostas fechadas, talvez o horizonte mais luminoso esteja em integrar, na nossa busca pelo Brasil, a dimensão temporal. Seu passado, seu presente, o nosso futuro. 

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Desfiando algodão e fazendo rede, de Carmézia Emiliano, artista de etnia macuxi. Reprodução

Eu me chamo Trudruá Dorrico, sou indígena makuxi, povo que ancestralmente ocupa a terra que hoje se divide entre os países Brasil, Guiana e Venezuela.  

O povo makuxi possui o tronco linguístico Karib. O nome de nossa língua é o mesmo do povo. Temos costumes como o de dançar a parixara, comer damorida, vestir saia de palha. E viver o presente e todas as suas tecnologias: estudar, aprender outras línguas, fazer intercâmbio, dialogar com outros mundos, viajar.  

Cena 1: meus pais  

Eu estou morando em Paris.  

Mas, antes de contar essa história, vou fazer um brevíssimo relato de migração.  

Meus pais, em decorrência do garimpo, mudaram-se da Guiana para o Brasil, e de Roraima para Rondônia, onde eu nasci, em Guajará-Mirim, na década de 1990. Cresci num distrito chamado Abunã, uma comunidade ribeirinha instalada às margens do rio Madeira. Pode-se dizer que era bem dentro da Amazônia.  

Sou filha de mãe macuxi da Guiana e pai quéchua do Peru. A geopolítica sempre atravessou, portanto, minha vida. Minha mãe é falante da língua macuxi, inglês e português; meu pai, quéchua, espanhol e português. No tempo deste texto, eles se divorciaram há muitos anos. Apesar disso, foi suficiente para, até os nove anos, eu estar cercada de línguas e culturas diversas. Essa pluralidade nunca foi, para mim, uma barreira; pelo contrário, foi um jeito de aprender a viver com culturas e línguas diversas.  

Com a separação dos meus pais, minha mãe nos levou, eu e meus irmãos, para Roraima, Boa Vista, com as tias, e para Bonfim com meu avô e minha tia-avó. Bonfim faz fronteira com Lethem, Guiana. Esse é um Brasil que muitos brasileiros de outras regiões nunca nem ouviram falar. Em Abunã, se cruzássemos o rio, chegávamos ao território boliviano. Muitos soldados de lá inclusive desciam para o nosso distrito para comprar pão e mantimentos. Antes não tinha ponte, hoje tem, mas também era uma balsa fluvial que a gente pegava para atravessar o rio Tacutu, chegar ao Lethem e fazer compras, pois Lethem é um centro comercial a céu aberto, é região de livre comércio. Guajará-Mirim, onde nasci, também tinha fronteira internacional: com Guayaramerín, na Bolívia.  

Estou mostrando todas as fronteiras que fazem parte da minha história para exprimir que eu sempre vivi entre fronteiras geopolíticas. Hoje, viver na França me lembra de todos esses lugares em que cresci e passei a maior parte de minha vida. Contudo, viver em outro continente me faz pensar em algumas coisas.  

Cena 2: eu  

A primeira vez que vim a Paris foi no ano de 2023. Vim fazer uma residência artística de três meses no Cité Internationale des Arts a convite do Theatro Municipal de São Paulo. Aqui escrevi o livro Tempo de retomada, que, mais tarde, em 2025, seria tema do Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Quando cheguei aqui, não sabia falar uma palavra em francês, e achava que a língua francesa se chamava françois.  

Não saber a língua francesa me colocou num lugar de criança novamente, e eu acho que voltar ao estado de ser criança é muito bom. Tipo quando a gente anda num bairro pela primeira vez e se perde, ou quando algo te faz lembrar da sensação que você sentiu nos seus primeiros anos de vida, como ter feito capoeira me lembrou que eu brincava de rodar até cair de tontura. Enfim, me senti nesse estado, de tudo novo, tudo escrito numa outra língua, acordando com outra arquitetura, com muitas nacionalidades indo e vindo na cidade mais visitada do mundo.  

Me perguntei: o que eu, indígena, faço aqui, nesta cidade de arte que não me entende? Ao mesmo tempo que consegui curar a fadiga mental decorrente do doutorado e da pandemia, comecei a me desesperar e pôr em cheque minha capacidade intelectual de aprender outros códigos neste país. Estudar é sempre minha direção, eu acredito na minha intuição pesquisadora, então fui estudar a língua no ano seguinte para poder me fazer compreender.  

E aí outras questões se impuseram a mim, como anunciar minha nacionalidade. Porque eu não sou só brasileira, eu sou macuxi-brasileira. Eu nunca tinha comprado uma blusa do Brasil e ainda não tenho uma bandeira, apesar de querer comprar, nunca tinha tido vontade de gritar que amo o meu país, que samba e carnaval nem são as festas mais populares de nossa região. Eu gostaria de gritar, ser patriota, mas como posso amar um país que só agora está começando um relacionamento com os povos indígenas?  

24 de fevereiro de 2026. Abro o Instagram e vejo uma enxurrada de postagens sobre a vitória da mobilização indígena — cito aqui a da parenta Alessandra Munduruku, mas tem muitas outras — contra o Decreto nº 12.600/2025, que abria caminhos para a privatização dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira, cuja maior interessada é a empresa Cargill, que, por sinal, é francesa e multinacional do agronegócio. A minha apreensão é sobre a velocidade com que se faz um decreto, sobre como o preço para desabilitá-lo custa a vida dos meus parentes. São evidentes a alegria e os sinais da permanente luta e vigilância contra a ameaça dos rios. A vitória é do rio e dos parentes que se mobilizaram por 32 dias frente à ameaça iminente da empresa privada e da conivência do Estado brasileiro. 

O ano de 2025 foi marcado pelo pacto cultural Brasil e França, com atividades culturais brasileiras na França e francesas no Brasil. Esse intercâmbio cultural teve forte repercussão aqui. Em ruas, restaurantes e academias, vi várias pessoas com a blusa do Brasil. As atividades que fui ver nas margens do Sena tinham um público considerável de brasileiros e gente de outras nacionalidades.  

O que, no entanto, mais aqueceu meu coração foi a parte da pesquisa. Estudantes indígenas oriundos do Programa Guatá, voltado exclusivamente para mestrandos e doutorandos indígenas das universidades Unicamp, UnB, UFMG, UFSCAR, UEA e UFRR. Eu participei, a convite de estudantes e professores envolvidos no programa, de seminários e conferências, e foi muito bom ver a demarcação da produção de conhecimento. Cada estudante indígena acaba exibindo um Brasil que a França não conhece. 

Cena 3: permanência 

Todas as vezes que eu falo que sou brasileira, percebo uma simpatia, mesmo que ela não tenha sido apresentada de primeira. É muito difícil julgar um país a partir de experiências singulares, e eu só posso falar a partir das minhas poucas vivências dos trânsitos Brasil-França que fiz de 2023 a 2026.  

Falando como macuxi, eu queria não ter esse ressentimento com o Brasil. Talvez eu fosse mais corajosa, mais sorridente, mais leve a qualquer manifestação cultural, e não reticente. Quando, Brasil, você vai nos amar de verdade?  

Culturalmente falando, Caramelo, cinema, Amazônia, Havaianas, brigadeiro, mousse de maracujá têm me confortado nesse continente do lado de cá. E o fato de o Brasil estar na moda.  

Aprender a língua francesa é uma ferramenta para apresentar um outro Brasil aos franceses, o Brasil Macuxi.  

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por Thiago Thiago de Melo

Nos idos de 2016, fiz um show no Brooklyn, em Nova Iorque, apresentando músicas do meu primeiro álbum solo, Amazonia underground (Blacksalt Records, 2017), para um público heterogêneo de brasileiros, americanos, latinos, europeus e asiáticos. No fim dele, fui abordado por um casal de japoneses que estava ali depois de terem buscado na internet por programas culturais que tivessem como tema a natureza e o meio ambiente. Disse-me o casal que gostou muito do som, mas que lamentava não entender as letras, que julgavam, com razão, ser elemento importante das minhas canções. Minha resposta imediata foi dizer que não se preocupassem, pois, ironicamente, no Brasil, as minhas letras também não eram totalmente compreendidas pelo público que ia aos meus shows, sobretudo na região Sudeste — em cidades grandes do Norte, como Manaus, Macapá e Belém, e de pequeno e médio porte, como Parintins, Borba e Barreirinha, por outro lado, havia menos “ruído” na comunicação. Eles ficaram espantados com isso e, desde então, reflito constantemente sobre essa questão. Afinal, se escrevo e canto em português, a compreensão deveria ser razoável, não?  

Desde pequenino fazendo a travessia entre o Rio de Janeiro e o rio Amazonas, cedo percebi que palavras como pirarucu, tucandeira, pirarara, curuminzada, inajá, cunhatã, urucum, igapó, tuxaua e tipiti, entre uma infinidade de outras (muitas das quais presentes no meu cancioneiro), eram tão naturalmente identificadas no repertório vocabular de caboclos, quilombolas, ribeirinhos e indígenas do Amazonas quanto estranhas aos habitantes das grandes cidades brasileiras das regiões Sul e Sudeste. Que língua vasta e complexa o português! Como é rica a contribuição das línguas indígenas para o português falado no Brasil! O pensamento indígena provoca uma reflexão aguda sobre quem somos, os brasileiros, como se isso implicasse um desconhecimento, uma alienação, um descolamento da realidade: o brasileiro tem dificuldade em se reconhecer indígena (embora, no exterior, seja muitas vezes identificado como tal, até de modo pejorativo). Não sabemos as palavras porque não sabemos as histórias, porque não vivemos as culturas, sobreviventes de um projeto de apagamento. A ficha cai em algum momento: as elites e as classes médias urbanas, formadas em universidades e orgulhosas de falarem inglês, são praticamente analfabetas dos muitos brasis que fazem o Brasil. 

Será que o casal de japoneses no Brooklyn imaginava um Brasil consciente de sua rica natureza e biodiversidade, e por isso se espantou? Será que o feitio que fazia do nosso país era indígena? Não saberei, apenas especulo. O certo é que essa situação me chamou a atenção para a imagem que projetamos sobre nós mesmos no exterior e também aqui dentro de nosso país. Sendo um compositor e cantador brasileiro, a relação entre cantar e contar é, para mim, um gesto político, forma pela qual posso, através da arte, (in)formar o público sobre as possibilidades de nossas línguas nos (re)ligarem aos muitos territórios que compõem o território nacional.  

A relação entre a língua portuguesa e o território brasileiro remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento literário sobre nosso país. Em 1500, mal acabaram os marinheiros lusitanos de bradar “terra à vista”, o capitão da frota logo tratou de dar nome ao que estava diante dos olhos: ali, o Monte Pascoal; essa, a Terra de Vera Cruz. Interessante notar que os primeiros habitantes daqui foram identificados pelo escrivão português como “pardos”, “avermelhados”. As línguas têm esse poder de nomear, de fazer existir. A imagem do que depois seria chamado de Brasil foi, tão logo aqui chegaram os estrangeiros, sendo construída por esse olhar “de fora”, marcado por alteridade radical. Não deixo de imaginar a dita “primeira missa”, proferida por frei Henrique e relatada por Pero Vaz como momento de prazer e devoção por parte de todos os presentes diante da bandeira de Cristo e da leitura do Evangelho. Se essa carta pudesse ser reescrita, se o enunciador fosse indígena, o que diria desse primeiro contato com os europeus? Sabemos apenas a perspectiva alienígena, dos que vieram de fora. Há, nesse ponto, uma violência simbólica, uma imposição ideológica, típicas do eurocentrismo e seu projeto colonizador mercantilista, como se essa visão parcial daquele instante representasse a totalidade de um momento tão complexo. 

Hoje em dia, num cenário global multifacetado e polifônico, com todas as vozes falando ao mesmo tempo — claro que umas mais alto do que outras, muitas vezes silenciadas —, temos a chance de olhar para essas situações de modo crítico, tensionando a relação entre o modo como somos vistos no exterior e a forma como projetamos nosso retrato para nós mesmos. Nesse sentido, um paralelo interessante é o que encontramos no relato do paraense Daniel Munduruku, um dos mais prolíficos escritores indígenas contemporâneos, quando ele narra, em seu livro Histórias de índio, que até ingressar na escola, em uma cidade grande, recém-saído de sua aldeia, ele nunca tinha sido chamado de índio nem nunca tinha ouvido essa palavra. São momentos assim que nos fazem constatar o descompasso, muitas vezes violento, entre como nos vemos e como somos identificados pelos outros. 

O modernismo brasileiro, cujo marco é a Semana de Arte Moderna de 1922, caracteriza-se pela busca de uma identidade nacional através de postura antropofágica, remetendo ao canibalismo de vários povos indígenas. Nesse processo deglutidor, seriam incorporadas desde as vanguardas europeias até as tradições populares e folclóricas do Brasil, dando forma a uma arte e a uma cultura brasileira autêntica. As inspirações indígenas dos modernistas não abriram espaço, contudo, para a presença de artistas dos povos originários nas publicações e exposições da época. Artistas indígenas da contemporaneidade são os que melhor têm exposto essa contradição: Denilson Baniwa, artista plástico amazonense com muitas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior, por exemplo, é o autor da obra Re-antropofagia, trabalho que confronta a apropriação do mito de Makunaimã feita por Mário de Andrade em sua obra seminal. Ao retomar essa figura, Baniwa propõe um movimento de “re-antropofagia” das cosmogonias indígenas, desestabilizando os preconceitos e as narrativas folclóricas construídas pela elite modernista do Brasil. O “re” do título, segundo Baniwa, significa “revolta”, “revisão”, “reviravolta”, “reconhecimento”. 

Tais movimentos dentro da arte brasileira são interessantíssimos para nossa imagem como país, pois indicam uma mudança fundamental: se, para os modernistas, os indígenas deveriam ser recuperados em algum lugar de nosso passado, para artistas como Denilson Baniwa e Jaider Esbell (outro exemplo luminoso nesse sentido, os indígenas estão vivos — apesar do projeto colonizador e seu propósito de apagamento —, produzindo arte, pensamento, resistindo ou simplesmente vivendo no presente, contribuindo, assim, para a construção do mundo em que vivemos. 

Torço para que saibamos melhor sobre as línguas, as culturas e os povos indígenas; para que a imagem que os brasileiros fazem do Brasil seja cada vez mais orgulhosamente indígena. Temos que conhecer para nos aproximar, criar vínculos e reconhecer raízes. Nesse sentido, cantar tem sido para mim um modo de voltar a ser árvore, bicho, floresta. É o que eu respondo quando me perguntam, provocativamente, se minha intenção é que ninguém entenda minhas letras quando escrevo, por exemplo: 

Tempo virou 
Vento varreu a capoeira 
Na capivara caipora 
Se enfeitou 
Perto da pirambeira 
A tucandeira 
Curumim, leso, se encantou 
Por feiticeira
(A voz dos ancestrais, canção de Thiago Thiago de Mello e Diogo Sili).

É o contrário, eu digo: quero que um grande número de pessoas entenda. Ou se sensibilize, se identifique. Fará um bem enorme para a saúde geral do mundo o reconhecimento dos brasileiros e dos estrangeiros de que o Brasil é, sobretudo e antes de mais nada, um país indígena. Segundo o escritor Alberto Mussa, ao falar sobre nossa ancestralidade, “há 15 mil anos somos brasileiros e não sabemos nada do Brasil”. Já está, portanto, mais do que na hora. Como salienta a poeta e pesquisadora macuxi Trudruá Dorrico, “é tempo de retomada”.  

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Sempre gostei da piada de que meu avô Dalvo era “gerente de programação da Rede Globo”. O contraste entre a figura daquele homem — que saiu da Bahia ainda jovem para ganhar a vida como pedreiro em São Paulo — em nada combinava com a ideia engravatada de um “gerente”, ainda mais da Globo.  

Meu avô também era alcoolista. Mas, em algum momento da vida, recebeu uma intimação do médico: ou parava de beber, ou morria. Ele parou de beber. Entre os novos hábitos adquiridos para substituir o álcool estavam as telenovelas. Foi daí que nasceu a piada do “gerente de programação da Rede Globo”. Meu avô sentava no sofá da sala por volta das 17 horas, quando começava Malhação, e só saía quando acabava a novela das 21 horas. Não recebia salário nem tinha vínculo formal com a emissora, mas era capaz de opinar sobre todas as tramas de todos os núcleos de todas as novelas em exibição. Mais do que isso: ele conversava com os personagens, elevando a outro nível o clássico hábito do brasileiro de desejar “boa noite” ao William Bonner. E ele não era o único.  

No Brasil, desde os anos 1950, as telenovelas construíram intimidade com o público, ao entrarem em seus lares e se entrelaçarem com suas vidas. No livro Que rei sou eu?: política e novela no Brasil, o pesquisador Bruno Fillipo pontua que existem dois eixos originários da teledramaturgia: o estadunidense e o cubano, ambos ligados ao desenvolvimento das radionovelas. Enquanto, nos EUA, as soap operas trazem histórias sem começo, meio e fim, que podem durar décadas — a exemplo de Days of Our Lives, exibida entre 1965 a 2013 —, as novelas latino-americanas estruturadas na matriz cubana têm um desenvolvimento linear da trama. “No Brasil, a dramaturgia de rádio e ​​TV articulou-se à influência histórica dos folhetins, romances que eram publicados em capítulos nos jornais e nas revistas desde o século 19”, escreveu Fillipo.  

A autora Rosane Svartman, no livro A telenovela e o futuro da televisão brasileira, lembra ainda que, “enquanto as telenovelas mexicanas se tornaram mais melodramáticas, por exemplo, as brasileiras se tornaram mais naturalistas, investindo em filmar em locações reais e fazendo uso de linguagem coloquial”. 

As singularidades não param por aí. “Ao contrário do teatro e do cinema, a novela é uma obra cuja trama vai sendo escrita aos poucos pelo autor, o que lhe permite realizá-la de forma contínua à apresentação ao público, tornando-a suscetível à pressão dos índices de medição de audiência, do espectador e da opinião pública”, escreveu Fillipo.  

Logo, ao contrário do que eu poderia supor ao ver meu avô falando com a ​​TV, não se tratava de uma conversa com a parede, mas de um diálogo simbólico verdadeiro, comum nos mais variados lares brasileiros. Isso porque as histórias respondem aos anseios do público, e o público absorve as mensagens das histórias. Mais do que alucinação, o diálogo entre o espectador e a história é uma das bases do gênero. Isso faz com que, ao longo de mais de 70 anos de história, as telenovelas se tornem dispositivos de memória que funcionam como verdadeiras máquinas do tempo, nos permitindo enxergar diferentes retratos do Brasil.  

A novela Roda de gogo (1986), de Lauro César Muniz, é um exemplo eloquente. Primeira trama exibida após o fim da ditadura militar na Globo, ela ainda carrega ecos do período de chumbo, o que a torna particularmente rica. Ainda assim, foi uma cena aparentemente simples que me provocou um curioso deslocamento temporal. Nela, um personagem sugere “tomar uma saideira” no bar. Militante recém-chegada do exílio, a personagem de Eva Wilma estranha o termo; o personagem de Tarcísio Meira então explica que se trata da última rodada de bebida antes de ir embora. Parece óbvio, mas, até então, nunca havia me ocorrido que uma expressão tão comum pudesse ter sido historicamente construída. 

A expressão provavelmente só foi incorporada à novela porque já circulava nas ruas. Ao mesmo tempo, o fato de precisar ser explicada em cena sugere que a dramaturgia também ajudou a popularizar seu significado. Isso nos leva à inevitável questão circular que acomete todos aqueles que se debruçam sobre o tema: são as novelas que refletem a sociedade ou é a sociedade que reflete as novelas? Além do mais, se isso acontece com expressões, poderia também acontecer com a própria imagem que temos do Brasil?  

É inegável que as novelas podem funcionar como superfícies lisas nas quais podemos nos enxergar. Nesse sentido, cada autor parece criar um país à sua imagem e semelhança. As Helenas de Manoel Carlos evocam um Brasil solar e sofisticado, herdeiro da bossa nova, onde personagens elegantes tomam drinques no Leblon; já os folhetins de Walcyr Carrasco mergulham na agitação frenética de São Paulo e em suas tensões urbanas. O Brasil imaginado por Benedito Ruy Barbosa — em novelas como Pantanal (1990), O rei do gado (1996) e Terra nostra (1999) —, por sua vez, é rural, atravessado por disputas de terra, tradição e pertencimento. Em obras como Roque Santeiro (1986) e Saramandaia (1976), Dias Gomes apresenta um país alegórico e profundamente político, onde o absurdo convive com a crítica social. Enquanto isso, Glória Perez expande esse imaginário ao incorporar outras culturas às tramas brasileiras, como em Caminho das Índias (2009), cujas cenas, em 2026, viralizaram na própria Índia. 

Mas nem sempre o reflexo é tão límpido. Em 2024, antes mesmo de sua estreia, a novela No rancho fundo sofreu duras críticas na internet ao apresentar um Nordeste estereotipado. Nas imagens em tom sépia, os personagens apareciam esfarrapados, com uma paleta terrosa, que fez muitos espectadores questionarem a “estética da pobreza”. Para a pesquisadora Thaysa Gabrielle, o pobre imaginado pelos roteiristas e figurinistas da trama é, como dizem em Pernambuco, “malamanhado”: “Num país com ranço escravista e elitista, o pobre não tem direito nem às imagens produzidas sobre si. O que chega até nós em filmes, novelas e séries parte de uma fonte onde aos pobres não resta nem a dignidade de representação”.  

Em muitos casos, porém, o espelho se inverte, e as novelas passam a refletir demandas da própria sociedade, ajudando a criar imagens que compõem um novo imaginário. O documentário Orgulho além da tela, que analisa a presença LGBTQIAPN+ nas novelas, evidencia como essas mudanças se desenrolam. Se o primeiro personagem gay da televisão brasileira — interpretado por Ary Fontoura em Assim na terra como no céu (1970) — era restrito ao alívio cômico e impedido de demonstrar afeto, hoje a televisão aberta exibe personagens lésbicas que trocam carícias e protagonizam cenas de sexo em Três Graças (2025). 

No livro A negação do Brasil, o pesquisador e documentarista Joel Zito Araújo reflete sobre outra questão, a racial. Ele explica que o horário das 18 horas é onde, historicamente, mais se concentram personagens negros, uma vez que essa é a faixa horária reservadas às novelas de época, muitas vezes com tramas coloniais. Durante anos, portanto, nas novelas históricas, aos negros eram reservados somente os papéis de pessoas escravizadas. No entanto, obras como Lado a lado (2012) e, mais recentemente, A nobreza do amor (2026) — na qual, de forma inédita, personagens negros surgem adornados em ouro como parte de uma realeza africana — ajudam a romper com esse padrão. Para o pesquisador Victor de Rosa, obras assim nos dão a “possibilidade de criar personagens negros dignos e revelar brechas de nossa história para um grande público”. 

Essas novas imagens também ajudam a redesenhar a forma como algumas doenças são compreendidas. Isso se revela, por exemplo, ao observar o caso de Vale tudo (1988), novela de Gilberto Braga, que ganhou uma releitura assinada por Manuela Dias em 2025. Através da personagem Heleninha Roitman, a trama mostra que a compreensão sobre o alcoolismo passa por uma série de fatores. Ao nos apresentar a mesma personagem, no mesmo enredo, com 37 anos de diferença, as duas versões da novela oferecem uma janela única com vista tanto para o passado quanto para o presente, mostrando como a construção e a desconstrução de estigmas podem levar décadas para se estabelecerem.  

O que essas representações revelam é que não existe uma imagem única ou fixa de Brasil. Ao longo das décadas, a teledramaturgia ajudou a consolidar estereótipos, cristalizou imaginários e, muitas vezes, limitou quem podia ocupar o centro das narrativas. Mas, justamente por trabalhar no campo das emoções, ela também deslocou essas imagens e abriu espaço para outras possibilidades de país.  

“Não adianta fazer discurso, porque discurso tem contestação”, afirmou Glória Perez no documentário Orgulho além da tela. “A grande arma de quem faz novela é que você chega nas pessoas pela porta da emoção. E as pessoas não têm defesa quando se emocionam.” Mais do que refletir o país, as novelas participam ativamente da maneira como o Brasil aprende a se enxergar, a se desejar e a se imaginar. 

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Groove, suingue, balanço… Requebra o quadril, balança a trança, agarra a cintura, exibe a tattoo, beija na boca. A expansão do corpo que dança é amor e é vingança. Os bailes funk do Rio de Janeiro são, há pelo menos três décadas, uma das expressões mais libertárias, um dos poucos gestos que afrontam, de forma corajosa e libertina, a luta de classes perversa e feroz que se infiltrou na sociedade brasileira desde a chegada dos navios repletos de africanos escravizados ao litoral brasileiro. 

Baile do Boqueirão. Rio de Janeiro, 2007. © Vincent Rosenblatt
Baile da Arvore Seca, Complexo do Lins. Rio de Janeiro, 2010. © Vincent Rosenblatt

Mas isso tudo só foi possível saber porque Vincent Rosenblatt, fotógrafo brasileiro acidentalmente nascido na França, nos deu a ver flashes da espontaneidade genuína, da pulsão de vida, da rebeldia e da alegria, como se estivéssemos alucinadamente colocados no meio de um salão pendurado no morro, mas sem pedir socorro. 

Rosenblatt, antes de mirar suas lentes para essa explosão de vida e consciência política que transpira nos bailes funk, criou a oficina de fotografia Olhares do morro, entre 2002 e 2008, na comunidade de Santa Marta. Foram muitos os jovens e adolescentes que aprenderam o ofício da fotografia e passaram a representar seus territórios, criando uma visão livre dos vícios e preconceitos da representação comumente observada nos veículos de comunicação. 

Samyra Santos, Yolo Love Party. Rio de Janeiro, 2023. © Vincent Rosenblatt

Olhares do morro ajudou a criar consciência e autoestima. Foi dessa forma que “o francês”, como Rosenblatt é chamado nos bailes e morros, foi adquirindo legitimidade para acessar e representar as quebradas, os lares, os encontros, as festas. Nesse ponto, o fotógrafo torna-se também um exemplo muito bem delineado de como o “lugar de fala” é algo que pode, de fato, ser conquistado. Nesse mundo de radicalismos, em que cada vez mais somos levados a pensar como algoritmos, sem nuances e meios-tons, a atitude de Rosenblatt, que assume o papel de um antropólogo errante, é a prova cabal de que convivência, cumplicidade, parceria e afeto podem unir opostos, conciliar conflitos e, por fim, bailarem juntos no chão quente da pista. 

Funkear é preciso! E é mais que preciso funkear a contrapelo do moralismo e dos preconceitos que cercam toda e qualquer manifestação cultural e social que envolve pessoas racializadas e menos privilegiadas política e economicamente. 

É mais que preciso funkear para afirmar existências dentro de uma política de Estado historicamente construída para marginalizar e excluir a maior parcela da sociedade brasileira. Flash: segundo o Atlas da Violência no Brasil de 2023, 96 pessoas negras são assassinadas diariamente neste país, e 76% das vítimas de homicídio são negras. 

Baile do Boqueirão. Rio de Janeiro 2006. © Vincent Rosenblatt
Baile do Morro da Gamba, Complexo do Lins. Rio de Janeiro 2009. © Vincent Rosenblatt

Groove… A madrugada avança, o corpo dança, “o francês” faz de sua câmera um instrumento de captação de delírios, sonhos ultracoloridos, desejos explícitos, expansão dos sentidos: odores, sabores, o toque na pele suada, arrepios, respirações ofegantes, visões extasiantes. A sensualidade extrema é também um manancial político. Corpos aviltados pela falta de oportunidades na educação, na saúde, no trabalho, na vida encontram, nos bailes funk, a possibilidade de atravessarem um portal onde podem ser e estar no mundo em plenitude. O funk, dessa forma, é uma insurreição social, estética e territorial que emerge das periferias e desafia estruturas de poder, moralidade e representação. É isso que MC Smith proclama, desde o Morro do Alemão, na letra de seu hit Vida bandida: 

Nossa vida é bandida
E o nosso jogo é bruto
Hoje somos festa,
Amanhã seremos luto
Caveirão não me assusta!
Nós não foge do conflito
Nós também somos blindados
No sangue de Jesus Cristo 

Baile do Fazenda F.C,. São João do Meriti 2011. © Vincent Rosenblatt

Colocando fotografias nas trincheiras para que a festa não se torne luto, Rosenblatt nos leva a espiar esse mundo que resiste entre sons sincopados e letras furiosas por um caleidoscópio mágico. Suas fotografias têm o poder de romper a superfície e nos arremessar para dentro, por entre as fissuras, na espessura das cenas. Sua lente chega perto, muito perto, dos corpos, dança junto, colada, pertencendo a esse universo. Fotografia de mão dupla que dá ao outro a possibilidade de se autorrepresentar. 

Flash: uma deusa ébano, de cabelos louros, infinitos e encaracolados, carrega um sol em raios fúlgidos no colo — onde amor e mágoas coexistem — e, sobre ele, a deusa ordena: fogo nos racistas! A fotografia de Rosenblatt é esse fogo que faz o racismo arder em chamas. 

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Desde 2008, Vincent Rosenblatt acompanha festas de aparelhagem do interior do Pará. Quando chegou à cena, já fotografava bailes funk no Rio havia alguns anos, e percebeu uma aproximação entre aqueles universos. “As festas em Belém”, conta, “me pareciam uma tecnologia social parecida, onde territórios e pessoas marginalizadas retomavam sua centralidade, criavam rituais coletivos e geravam o que há de mais contemporâneo no Brasil.” 

Lançamento do Crocodilo Prime, Via Show, Belém do Pará, 2017. Foto © Vincent Rosenblatt.

Nas festas de tecnobrega, estruturas de aço e LED assumem formas de águias, crocodilos e touros futuristas para dominar a experiência, como se o som ganhasse corpo diante do público. “Cada uma tem seu repertório, sua lenda contemporânea, sua reencarnação numa nova versão ainda mais moderna a cada dois ou três anos.”. Nas mãos de artesãos como João do Som, essas máquinas ganham personalidade e presença cênica próprias. 

Lançamento do Superpop Ultra Live em Icoaracy, novembro de 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 As fotografias do francês buscam capturar o caráter ritualístico das festas. Elevado sobre a aparelhagem, o DJ conduz fogos, lasers e luzes estroboscópicas enquanto a máquina pulsa como um semideus evocado pela música. 

A Fénix do Marajo, Belém do Para, 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 “Fico horas e noites adentro numa entrega hipnótica, tentando captar a vida própria dessas máquinas sobrenaturais”, explica o fotógrafo. “Chamo a série de Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase o show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase do show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Aparelhagem Tupinambá Saudade. Belém do Pará, 2016. Foto © Vincent Rosenblatt.
Crocodilo no Rio de Janeiro. Festival Paredao. Foto © Vincent Rosenblatt.

Quando as imagens se sobrepõem, os clarões distorcem a percepção e a multidão entra em um estado compartilhado de fascínio. “A fotografia tenta captar essas epifanias”, diz Rosenblatt. “Gosto de imaginar que uma cosmogonia ancestral encontrou outra forma de se manifestar ali, graças a esse dispositivo profano.” 

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por Ludimilla Carvalho Wanderlei

Quais imagens povoam o imaginário brasileiro a respeito de nós mesmos? Que referenciais moldaram nossas representações, em uma perspectiva histórica e cultural? De onde partem os olhares lançados sobre nossos modos de ser, estar e sentir, e que construíram e constroem a nossa imagem através de pinturas, gravuras, fotografias e filmes, catalogados, exibidos e valorizados pela institucionalidade do mundo da arte e pelo senso comum? 

Pintores e gravuristas estrangeiros forjaram as primeiras visões de populações originárias, fauna e flora locais desde o processo de invasão dos territórios americanos. Nesse sentido, autores latino-americanos como o filósofo Enrique Dussel, o semiólogo Walter Mignolo e o sociólogo Aníbal Quijano deram contribuições valiosas para entendermos o projeto colonial no contexto da modernidade europeia como uma agenda de dominação político-econômica que inclui uma contraparte simbólica essencial, sem a qual esse projeto não seria possível nem teria sido consolidado. Para além do poder e do dinheiro, é preciso que o dominado se sinta vencido, pouco disposto à resistência, também quando suas elaborações, vindas do espírito e da mente, seus modos de se relacionar e suas cosmovisão são rebaixados, ridicularizados e invisibilizados a tal ponto que acabem destruídos ou perseguidos.  

Quijano, inclusive, explica que a colonialidade — termo que se refere ao lugar de subalternidade forçada decorrente do colonialismo, mas não restrito ao seu marco temporal, e, por isso mesmo, ainda em operação nas relações entre Norte e Sul Global — vai criando identidades coloniais, como “o índio”, “o negro”, “a mulata”. São designações classificatórias totalmente estranhas ao mundo de significados dos indivíduos aos quais são aplicadas e que fazem sentido apenas em um contexto de inferiorização intelectual, social e cultural planejada pelos brancos europeus.  

Trabalhos de Albert Eckhout, pintor holandês do século 17, são exemplares de representações estereotipadas, integradas a um plano de conquista sofisticado, com ecos de disciplinas como biologia, filosofia, antropologia e estética. As identidades coloniais encontradas nas pinturas de Eckhout incluem mulheres trajadas ao estilo do vestuário greco-romano clássico, em um esforço de europeização flagrante, ou mulheres (negras) com os peitos de fora, acompanhadas de crianças nuas, todo mundo sem nome, sem origem. A figura feminina aparece vinculada aos papéis sociais de mãe, escravizada ou vendedora ambulante, e o olhar do pintor sugere que seus corpos estão disponíveis à domesticação e à exploração, tanto quanto a paisagem natural que emoldura as cenas. O artista pintou também uma mulher indígena que carrega uma mão e uma perna humanas, sugerindo o canibalismo como prática de grupos bárbaros e sem alma. Essas imagens são facilmente encontradas na internet, mas certamente muitos de nós as conhecem dos livros de história do Brasil ou de história da arte (europeia).  

O processo se aprofunda no Brasil oitocentista, nas obras de artistas como Johann Moritz Rugendas (alemão) e Jean-Baptiste Debret (francês). Nos seus trabalhos, não são raras as cenas de violência e humilhação contra negros e negras, além da exploração de contrastes entre senhores e escravizados. De um lado, a vida material precária e o trabalho forçado; de outro, a liberdade, a fartura. O recorte de classe, o racismo e a sexualização dos corpos subalternos são, assim, ensinados sistematicamente na vasta iconografia sobre o Brasil, em uma pedagogia garantidora do status quo estrangeiro. 

A fotografia, filha do progresso e da racionalidade e gestada na barriga da objetividade, elevou essas questões a um nível de complexidade que ainda não havia sido experimentado. Para a artista e pesquisadora Ariella Azoulay, a fotografia, embora separada por séculos da época dos “descobrimentos”, já que foi “inventada” em 1839, deve ser inserida no amplo conjunto de tecnologias coloniais, pois ela serve ao exercício dos direitos de dizer quem é sujeito e quem é objeto (do olhar, inclusive), o que é novo e moderno (determinando também o que é ultrapassado e insignificante), quais lugares, epistemes e sensibilidades podem existir e quais devem ser destruídos. Ariella diz que a fotografia não pode ser separada da temporalidade colonial pelo argumento da sua viabilidade técnica porque, de fato, ela vai corroborar, registrar, documentar esses direitos imperiais que já estavam sendo exercidos pelos europeus desde fins do século 15 sobre as populações e os territórios colonizados. A modernidade, como lembra Mignolo, não é somente um processo estrutural, mas é também uma retórica disseminada através de diferentes e complexos mecanismos.  

A produção fotográfica é um dos instrumentos mais eficazes para a consolidação das formas de ver. Ao longo do século 19, nomes como Augusto Stahl, Marc Ferrez e Christiano Júnior contribuíram para a criação de um vasto conjunto de imagens de pessoas indígenas e negras (escravizadas ou não). Há fotos produzidas na esfera da pseudocientificidade das missões de estudiosos-viajantes que catalogavam os “tipos” nativos para sustentar teorias eugenistas e evolucionistas. Elas mostram pessoas (novamente) despidas, sem identidade, futuro e passado. Há também aquelas tomadas em estúdio, com os fotografados usando roupas e acessórios que reforçam uma visão exótica, pitoresca e desumanizada, corroborando o homem europeu (assim, no masculino e no singular) como modelo civilizatório válido. Facilmente essas fotografias transitavam do universo da ciência ao do mercado de lembrancinhas, pois eram vendidas ao público europeu como carte-de-visite (formato de retratos pequenos e baratos). O espectador final se alimentava de paisagens e personagens não europeus (o que também aconteceu com os filmes de viagem do primeiro cinema), espelhando uma ideia de propriedade sobre espaços e pessoas.  

Na seara da construção de discursos vindos de fora sobre os daqui, as imagens desempenham um papel fundamental, mantendo-se como alvo de intensos debates e escrutínios, e participando de gestos de apropriação e releitura encabeçados por artistas de destaque na cena contemporânea. Em certa atitude antropofágica, que engole, mastiga e cospe esses referenciais à revelia de seus criadores originais, eles realizam, na prática, aquilo que o pesquisador e professor carioca Fernando Gonçalves chamou de fazer das imagens formas-pensamento que suscitam reflexões, revisam percepções e imaginam outras realidades, além de olhar para a história colocando-a em perspectiva.  

Revisitar o passado com os olhos do presente, mas não quaisquer olhos. São olhares situados em um lócus de enunciação inseparável dos processos de apagamento, controle e racialização, e, por isso mesmo, capazes de operar respostas sensíveis e críticas, estabelecendo o compromisso ético e político de elaborar um conhecimento contra-hegemônico através do gesto estético. Aliás, essa leitura que considera a inseparabilidade de estética e política é o que nos permite reconhecer o diferencial de tantas obras atuais, que, ao contrário da perspectiva kantiana dominante na conceituação da experiência estética, não admite o corpo de uma subjetividade criadora como um corpo não político, capaz de se isentar dos marcadores de gênero, raça, sexualidade ou classe no momento de se expressar.  

Ressignificação de arquivos, fabulações críticas (proposta de Saidiya Hartman como estratégia de visibilidade e sobrevivência da população negra) e encenações de mundos possíveis por sujeitos ativos na (re)construção de histórias que fogem ao discurso eurocentrado são algumas das táticas presentes em muitos trabalhos de arte atualmente. A paraense Nay Jinknss, na série fotográfica Do mar ao Rio (2022), se baseia em retratos de Felipe Fidanza (português) e Alberto Henschel (alemão) para criar visões que deslocam a perspectiva exótica e racista original. Rosana Paulino, de São Paulo, retrabalha arquivos fotográficos oitocentistas, mesclando-os a ilustrações e gravuras que recebem várias intervenções, revelando a estreita ligação entre fotografia, eurocentrismo e racismo científico. Gê Viana, de origem maranhense, através das colagens digitais, em Atualizações traumáticas de Debret (2020), projeta situações e ambientes de felicidade, acolhimento, partilha, dignidade e resistência para personagens negros e indígenas ausentes nas obras do francês.  

Rosângela Rennó, André Parente, Eustáquio Neves, Davi de Jesus do Nascimento, Denilson Baniwa, Ayrson Heráclito, Mitsy Queiroz, Edu Monteiro, entre tantos outros nomes da arte contemporânea, têm se voltado às imagens como instrumento de crítica, ultrapassando um viés contemplativo dominante. A partir de recursos, mídias e estratégias de enunciação variadas, têm ocupado papel de destaque para repensar os pressupostos que informam as imagens sobre nós, ao mesmo tempo em que devolvem ao mundo perspectivas alternativas, possibilidades de existência para a negociação constante de discursos atravessados por relações de poder também no campo da arte.  

As perguntas que lancei na abertura deste texto parecem figurar como provocações que estão por trás das inquietações desses artistas contemporâneos brasileiros, mas também de outros territórios onde se desenvolve um pensamento fronteiriço (como dizem Joaze Bernardino Costa e Ramón Grosfoguel), marcado pela relação estabelecida a partir do binômio modernidade/colonialidade. Suas trajetórias estão pontuadas de esforços para revisitar criticamente essa história única contada pelas imagens e gravada em nossa memória cultural.

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Conversa Polivox: Lívia Mattos

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A trajetória de Lívia Mattos foge aos caminhos mais previsíveis da música brasileira. Sanfoneira, compositora e instrumentista, ela construiu seu trabalho a partir do cruzamento entre música, circo e formação em sociologia — três campos que atravessam sua maneira de pensar som, repertório e cena. Essa combinação aparece tanto em suas pesquisas quanto em projetos performáticos, como A sanfonástica Mulher Lona, além de orientar sua investigação acadêmica sobre música no circo. 

Paralelamente a essa dimensão de pesquisa e experimentação cênica, Lívia desenvolveu uma trajetória consistente como musicista. Durante anos, integrou a banda de Chico César, circulando por diferentes contextos musicais dentro e fora do Brasil, até consolidar uma carreira autoral — que, na verdade, já vinha de bem antes. 

Na música, seus três discos — Vinha da ida (2017), Apneia (2022) e Verve (2025) — formam uma trilogia marcada pela experimentação sonora. Os trabalhos alternam canção e música instrumental, exploram formações distintas e imprevisíveis, compassos que fogem à regra e uma poesia que dialoga com referências da cultura popular e com pesquisas realizadas em viagens e residências artísticas pelo mundo. Em 2020, Lívia ganhou o Festival da Canção – Ano Aldir Blanc com a música Apneia, além do Prêmio Funarte RespirArte e do Prêmio Jorge Portugal, da Bahia. 

Nesta entrevista, tento revisitar com Lívia seu percurso de vida, música e arte, além de falar sobre como Verve sintetiza muitas dessas investigações. 

Pérola Mathias — Você lançou seu terceiro disco em agosto de 2025, sendo que o primeiro saiu em 2017 e o segundo em 2022, então são quase dez anos. Mas você já tinha uma carreira solo por ter projetos que vão além da música, especificamente da composição. Fala um pouco dessa sua trajetória e da virada para a questão autoral. 
 
Lívia Mattos — Na verdade, até eu começar a gravar o Vinha da ida, em 2016, foram oito anos de maturação. O primeiro show autoral que eu fiz foi no Sesc Pompeia, naquele projeto maravilhoso que retornou agora, o Prata da Casa. Era a Patrícia Palumbo a curadora. Dei uma sorte, porque nessa época eu tinha ido gravar um Vozes do Brasil com ela, acompanhando o Chico César, tocando triângulo, estava chegando em São Paulo. Nesse dia, eu dei uma demo para a Patrícia. 

Mas, antes disso, em Salvador, minha primeira banda foi uma banda autoral que se chamava Feira Moderna, que era só forró. Depois eu entrei numa banda de forró de mulheres, em que eu fiquei três anos. E eu comecei a compor desde que comecei a tocar. Então essa coisa da composição sempre veio na verve do início da minha relação com o instrumento. E eu compunha coisas fora do forró. 

No circo, no Picolino, eu já atuava como artista dentro da companhia. Considero que minha carreira profissional começou nos meus 18 anos, no dia do meu aniversário, 27 de setembro, que foi o meu primeiro espetáculo com a companhia. Essa coisa que falam que autodidata é quem aprende sozinho, eu acho que é quem aprende com muita gente. Eu fui aprendendo com muita gente, nas bandas que eu toquei, no circo, nos forrós, no baile da vida, até eu começar a tomar aula mesmo, que foi já em São Paulo.  

Em 2008, eu saí dessa banda de forró, acabei um namoro e teve um acidente no circo. Foi um negócio bem pesado. E eu estava cursando Sociologia. Era um ritmo maluco em Salvador, estudando Hegel, Marx, trapézio, sanfona. E aí eu falei: cara, preciso olhar minha vida de fora para decidir o que eu vou fazer, porque eu sou muito perfeccionista para ficar fazendo circo e música, que são duas coisas que exigem diariamente do meu tempo, do meu corpo. E a sociologia, essa outra parte, sempre foi uma formação de vida.  

Aí vim pra São Paulo pra passar um mês e fiquei dois anos, porque, no primeiro mês, as coisas foram acontecendo. No primeiro dia, eu conheci Chico César, que é um cara muito importante na minha carreira. Encontrei o Oswaldinho do Acordeon e ele falou: o que é que você precisa? E eu não estava pedindo nada pra ele. Aí ele: você tem gravação do seu trabalho? Eu falei que não. Ele falou: você compõe? Eu falei: eu componho. Aí ele falou: então vamos gravar uma demo. 

O Oswaldinho foi o meu primeiro padrinho, me levou pro estúdio sem me cobrar nada, com os músicos dele, gravou comigo as minhas músicas.  

Então foi aí: no dia em que eu fui tocar esse Vozes do Brasil com o Chico César, eu levei a demo e dei pra Patrícia. Dali a poucos meses, ela me chamou pra fazer o Prata da Casa. E aí eu fiquei na dúvida: o que eu faço com mais segurança é o forró, mas o que eu quero fazer, na verdade, é chegar no Sudeste e conseguir ter um lugar de liberdade com o instrumento, que eu penso muito além do forró. E o embrião, então, do Vinha da ida começou fonograficamente aí.  

Depois eu voltei pra Salvador, em 2010, pra terminar a faculdade. Até então, eu tinha muita crise entre o circo e a música. Quando decidi que era o circo, só aparecia trabalho com música. Quando eu decidi que era música, só aparecia trabalho com circo. E foi indo nesse fluxo, até que, quando eu voltei para a sociologia, eu juntei as paixões.  

Acho que essa parte da história você não conhecia, né? De como foi chegar no primeiro disco, que é um disco de canção, um disco mais fácil. Esse agora, o Verve, eu acho que ele chega no equilíbrio entre os dois, porque o Apneia é pra poucas pessoas. 
 
O Vinha da ida tem muito da sua história, né? Da sua história não só na música, mas pessoal, e é muito solar mesmo. O Apneia já dá uma quebra, mas também tem a ver não só com a pesquisa musical, tem aquele momento tenso que a gente vivia, em 2022, de eleição, e acho que fala um pouco dessa falta de ar em geral, da pandemia. Já o Verve tem uma força solar, mas eu acho que ele traz uma felicidade que não é leve como o Vinha da ida. 
 
Eu concordo, ele é profundo na alegria, né? Eu brinco que Apneia é um disco mais denso, mas, quando a alegria aparecia ali, em músicas como Galego, é como a samambaia que rompe o cimento no meio da rua. Porque o Apneia foi um disco totalmente sem concessão. Foi o disco, dos três, mais fácil de definir o repertório, porque era só o que cabia dentro daquele sentimento. Os outros dois são mais abertos. 

Aí o Verve é como se fosse o equilíbrio de temperatura, mesmo, das duas coisas. Ele tem uma densidade, inclusive musical, na elaboração, na sonoridade, na experimentação, na temperatura. E esse híbrido entre instrumental e canção é uma escolha super difícil de fazer, porque você não ganha prêmio de nada, os programadores não sabem onde te encaixam. De escolha mercadológica, é a pior possível. 

Agora eu posso fazer um disco só de instrumental, só de canção, de novo, ou um disco de forró, ou um disco infantil da sanfonástica, eu posso fazer milhões de coisas, porque eu construí uma fonografia que me representa em muitos lugares. Por isso que eu chamo de trilogia. E eu acho que eu vou continuar ela, na real.  

Como é que você chegou nesse léxico, nessa palavra, “verve”, como conceito e título? Dá para entender, obviamente, mas eu queria ouvir de você. E porque, quando eu estava preparando a entrevista, lembrei disso: nosso professor de política [na Universidade Federal da Bahia], Paulo Fábio, sempre falava da verve política, quase como a ciência como vocação. 
 
Eu não lembrava dessa palavra dentro do contexto acadêmico. Eu lembrava mais no sentido poético. Já usava no meu léxico também, que tem a ver com isso, essa função criativa, de vocação também, do fazer para o que veio. Tem a ver com tesão, né? Estou aqui pra fazer com todo gosto, inteirona nisso. E aí não foi uma palavra que chegou no início, não foi um projeto que foi escrito com esse nome. 

O que fazia sentido, para mim, era esse desenvolvimento de linguagem, estética, sonora, com trio de sanfona, tuba e bateria, num lugar que é quase que essa construção de uma ilha, de você entrar e imergir.  

A sanfona é um som que satura, diferente de um violão, um piano, que você pode ouvir duas, três horas. A sanfona, ela é um médiozão que cansa. Eu sou sanfoneira, sei que cansa. Então, eu queria provocar outras paisagens, outras funções. 
 
Não só esse, né? Porque eu acho que você nunca teve uma formação, digamos, convencional de banda.  
 
Eu sou a inquieta da sonoridade. Como a sanfona é um instrumento muito emblemático, estereotipado dentro de determinados gêneros, de músicas de fronteira, ele é sempre estigmatizado. A minha busca é por propor uma outra leitura dele, mesmo. E é isso que me faz criar um tipo de composição meio diferente. Por isso que minhas músicas têm muito compasso diferente também, para quebrar ritmicamente o 2×4, o 4×4, que é o brazuca tradicional. 
 
E tem uma coisa interessante também: você é uma pessoa da música que sempre está em lugares diferentes da música. Você faz muitas residências, o que não é uma coisa tão comum pra músico de canção, de música popular. E suas residências também nunca são, sei lá, Inglaterra, Paris, você vai pra Costa do Marfim, por exemplo. Tem uma que você fez, que eu não consigo lembrar o nome, há muitos anos, que era um monte de gente do mundo todo. 
 
A One Beat. Essa foi uma alavanca pra mim, no sentido criativo. Eram 25 músicos de 17 países diferentes. Foi no ano do Vinha da ida e foi uma crise, porque era no mês que estava previsto o lançamento do disco. E eu falei: como é que eu vou passar cinco semanas fora? Esperei tanto pra lançar meu primeiro disco, imagina, e eu não vou estar aqui no lançamento do meu primeiro disco pra fazer ele acontecer, com a Natura Musical?  

Eu mandei uma mensagem pra minha amiga, falei: ó, fui selecionada, mas não vou, porque eu estou lançando meu disco. Ela falou: não, você vai, vai mudar a sua vida. Aí eu comecei a descobrir outros músicos que estão há muito tempo escrevendo essa parada que nunca tinham sido selecionados. Fui conversar com o Chico César e saí assim: disco eu vou lançar vários, esse é o primeiro, agora essa residência, quando é que eu vou fazer de novo uma parada dessa?  

E eu comecei a compor diferente, porque eu vi muitas formas diferentes de música numa imersão que me atiçou muito, eu fiquei muito instigada por aqueles músicos da Indonésia, de Taiwan, do Quênia, da Jordânia, do Quirguistão, do Cazaquistão, da Bielorrússia… Eu fiquei louca com aquilo. É muito doido, o mundo é muito grande. 
 
E aí vai aparecendo nos discos… No Apneia tem a faixa Tuk tuk, que eu achei que era para a Índia, mas é para o Egito e tem tudo a ver com a história da música da Bahia. Tem as participações também, no Apneia, que eu acho que você termina com um coco. E no Verve termina com frevo, né? Gente, pra onde ela vai no próximo? Qual vai ser a última música do próximo? 
 
Que é um frevo baiano, né? Um frevo bem de guitarra baiana, né? Você enxerga ali a guitarra de Armandinho, né?  

Exatamente. Armandinho, que está no disco anterior.  

A gente achou um timbre na sanfona que ficava igual a guitarra baiana.  

Mas e as outras participações de Verve? Fala um pouco dessas referências de uma maneira geral. 

Eu sou de uma cidade portuária, litorânea, que é do suor, do salitre, que é uma cidade molhada, salobra, né? Salgada do mar, do suor, da festa, e muito aberta à chegada, desde a colorização, aberta no bom e no mau sentido, nesses trânsitos.  

Então, eu comecei a minha carreira artística num circo que tem uma linguagem antropofágica, uma linguagem tropicalista. O que me fez entrar num circo foi um espetáculo que era em cima da obra de Glauber Rocha, que tinha todas as linguagens, cinema, teatro, poesia, dança, circo, tudo. Uma banda de oito músicos que tocava de Villa-Lobos a música de cultura popular de feiras e rock ‘n’ roll. Minha construção de artista começou no Circo Picolino, e o circo em si é gregário. Por isso que o meu trabalho também tem tanta preocupação visual, na parte estética, porque eu venho desse lugar que penso em tudo mesmo. 

Uma coisa que eu gosto de fazer em todos os álbuns, por exemplo, é botar a cor de cada música. Para eu poder definir que cor vai ser a capa, como vai ser a iluminação do show, com que cenário, eu boto a cor. Às vezes, é mais de uma cor ali naquela música e tal. A construção da identidade visual vem junto com a composição, vem junto com as gravações do disco. 

A sanfona proporciona essa autonomia de você poder viajar muito. Viajei muito sozinha até conseguir, como hoje, viajar com o meu grupo. E, tocando com o Chico César, fui fazendo minha pesquisa de circo. Eu ia tocar com o Chico, sei lá, no interior do Piauí, ficava mais três dias para procurar um circo, entrevistar a galera. 

Caucaia, que está nesse disco Verve, veio daí. Eu estava sem sanfona, fui entrevistar a galera do circo lá do lado de Fortaleza, e tava toda inspirada. Veio a música toda na cabeça e eu tava sem sanfona, porque eu não fui de sanfoneira, fui entrevistar, estava felizona que não estava carregando peso, aí fiquei tristona porque estava sem o meu instrumento pra criar, gravei no celular. Só quando cheguei em São Paulo de novo que fui terminar. Como a música veio da voz, fez todo o sentido chamar uma cantora para participar. E a Varijashree Venugopal é indiana, ela usa o sargam, que é esse modo de você cantar as notas, né? É uma tradição milenar. O forró é um jovenzinho, uma jovem criança, perto do sargam indiano. Já a Senny Camara, senegalesa, traz a cora, que é um instrumento muito masculino, como a sanfona também é masculina. Ela está em Ndoukahakro, música que eu fiz na Costa do Marfim. O Verve tem esses encontros, que vêm desses lugares.  

Para você, como é equilibrar o risco, a experimentação e ainda, de alguma forma, ter essa base cancional que você traz? 
 
Acho que é porque tudo me representa. Eu tenho essas duas vertentes que acho que estão nos três discos. Tirando o instrumental, que só está nos dois últimos, mas eu toco como instrumentista também no primeiro, então também tem o lugar da instrumentista, da cancionista. 

Eu acho que até pro show dá um descanso, porque você vem de uma coisa instrumental, aí você canta, aí você não cansa da voz, não cansa do instrumental, eu acho que dá uma dinâmica. 

Eu gosto muito de começar pelo estranhamento. Eu gosto quando a pessoa chega no meu show, por exemplo, e vai esperando uma sanfoneira nordestina. Ou quando eu estou fora do Brasil: sanfoneira brasileira, vai tocar forró, ou aquele ritmo lá do Brasil que parece com salsa… Tem várias leituras assim. Eu não tenho essa coisa da vanguarda, da burguesa que não quer comunicar. Eu sou do circo, eu gosto de agradar. Eu gosto de comunicar, mas eu gosto de propor, também. 

A coisa que eu mais gosto não é tocar fora do Brasil, é tocar no interior, chegar com esse som e fazer num lugar em que a galera não tem tanto acesso a coisas diferentes. Você vê como a galera compra. É aquela história do Gil, né? O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe.  

Quando eu fiz esse show do Prata da Casa, foi a primeira vez que eu toquei num lugar em que eu não via o público, porque a luz vinha forte, e no circo, no forró, nos contextos de Salvador, você enxerga todo mundo. Eu subi no palco e fiquei perdidaça, porque eu aprendi a ser artista no olho no olho. Como é que faz pra enxergar as pessoas? 
 
É verdade, o circo depende muito da reação, né? 
 
Muito, muito. É a escuta performática, né? É pensar o verbo como verbo ativo, e não passivo. 
 
 

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Com fotos de Derek Fernandes

Estar com a Carol, assim como assistir Downton Abbey, te faz uma pessoa melhor. De postura ereta e bons modos, ela é uma pessoa fina por natureza. Conheci ela recentemente pelo Rapha, nosso amigo em comum, mas tivemos uma conexão muito rápida, com mil afinidades. Já nos encontramos na Amarello e falamos das nossas avós e seus papéis em nossas vidas. Almoçamos no Jaber, no Centro, e depois compramos uma capivara para a Luca, falamos do Francis Mallmann e do tanto que amamos a maneira com que ele faz o trabalho dele.

Ela não sabe, mas a D’Arouche, loja que teve com o David Polak, faz parte da minha vida. Ela ficava no meu caminho de volta do trabalho, quando ia da Líbero Badaró para a rua da Consolação, e todo dia eu parava em frente e ficava admirando, fascinado por aquele mundo gótico-déco e exuberante, cheio de personalidade.

Em um sábado frio de chuva em São Paulo, a cidade cheia de eventos, eu e o Derek nos encontramos em frente ao seu prédio para bater esse papo delicioso, do tipo que está cada vez mais difícil de ter por aí.

Carol, a gente já conversou tanto que eu acho que nem vai ter o que falar na entrevista.

Ah, você tem tudo guardado nessa sua cabecinha?

Não, eu não tenho mais cabeça. Ontem fiquei me sentindo tão burro em uma reunião… O pessoal era tão inteligente. Um era filósofo, a outra, jornalista. E, assim, até sei as coisas, mas não consigo falar, não lembro os nomes…

Você toma magnésio?

Tomo nada.

Você tem que tomar, tá? Eu tomo muito magnésio pra minha cabeça. Porque senão…

Mas você sente diferença?

Gosto de acreditar que está funcionando, né? Senão vou acreditar no quê?

Carol, o que você mais ama sobre casa?

Bom, eu amo casa, né? É um ninho do amor. É o melhor lugar do mundo. Eu amo cuidar da casa. Eu, na verdade, acredito que fui criada para ser uma excelente dona de casa da década de 50, mas infelizmente o negócio não rolou dessa forma. Eu adoro ficar em casa, fazer coisas na casa, mas eu não sou muito habilidosa…

Em qual sentido?

No sentido de que, se eu quero mudar a mesa, foda-se, arrasto a mesa e acabo com o taco. Mas tenho a sorte de que o César é. Você não tem ideia! Ele ama fazer tudo perfeitamente. Ele coloca o saquinho embaixo de onde vai furar a parede, mede meticulosamente com a régua para fazer o furo, tira a sujeirinha e em seguida passa o pano úmido no chão.

Aí junta com a Mariluza, que trabalha aqui em casa, que ama engomar roupa. Outro dia eu ganhei da mãe de uma amiga que faleceu uma sacola cheia de bordadinhos, tipo jogo americano, rendinha, toalhinha, colcha, crochê, só que tudo guardado há um milhão de anos. A Mari lavou e engomou, passou, ficou incrível. Então eu, o César, a Mari e a Joana, que costura, somos super complementares em casa.

É uma função constante, né?

É o meu maior hobby. Eu amo. Pro meu gosto, a casa tá muito boa. Não sei se pro gosto dos outros está, mas pro meu tá…

É tão gostosa uma casa vazia assim. Uma configuração muito original.

Mas isso é uma evolução da minha parte, porque eu já tive tudo isso e muito mais dentro de um lugar até menor. Agora eu tô numa fase mais madura.

A gente vai aprendendo. Quem é ligado em casa vai evoluindo, não mora a vida toda da mesma forma.

Eu sempre falo que eu não quero ser aquela mulher de cabelo preto com biombo chinês. Então eu tento mudar dentro do que eu tenho e também faço muitos rolos, trocas, vendo uma coisa e compro outras. Com o Raphael Nasrallah, já brigamos, nos acertamos, já tivemos todo tipo de intercorrência nos nossos business.

Você faz troca com ele?

Faço direto, mas às vezes não dá bom, porque ele fica muito chateado se não é do jeito que ele quer. Mas eu amo, porque, quando vou na loja dele, quero tudo.

Sabe o que eu tenho com a loja dele? Uma surpresa de acabar comprando peças que eu nunca imaginei que fosse ter e conviver com elas. Ele conhece e sabe de muita coisa.

Porque é uma coisa de surpresa na vida. Eu adoro ir lá e mexer na minha cabeça. Aí ele vem com o xaveco do Habibi, e você fica ainda mais apaixonada com a historinha que ele conta. Quando eu ganho alguma coisa, eu mando foto e ele me dá o parecer dele. Eu nem preciso pesquisar o que ganhei, ele já é minha enciclopédia.

Que legal que você ganha tanta coisa.

Por que você acha que isso acontece? Eu tenho muita sorte. Acho que é uma mensagem que eu mando, porque aprecio tanto quando ganho e dou tanto valor.

Começou com a minha avó, aí meu pai também, a mamãe também… Bom, a mamãe era o oposto, eu chegava na casa dela e falava assim: nossa, que linda! E ela falava: vai, toma!

Meu pai não. Meu pai é um drama. Ele dá também, mas é tudo dele. Ele vem aqui em casa e fala: Carolina, já te falei, essa espanhola não é assim, é assado. É como se tudo fosse um empréstimo.

Esse seu gosto por casa vem dele?

Acho que vem da minha avó, da mãe dele. Ela tinha muito bom gosto. Também tinha uma tia-avó que tinha muita coisa boa, que não tinha tanto bom gosto quanto a mãe do meu pai, mas tinha muita coisa.

Olha, eu não tenho quase nada que comprei aqui. Eu não preciso comprar nada.

Muito curioso.

Eu sou um prazer de dar presente. Mas lógico que tem os presentes que eu, principalmente com meu pai, dou uma forçada de barra.

Como começou sua história com esta casa aqui?

Quando eu vim dos Estados Unidos, eu tinha um apartamento no Largo do Arouche que meu pai reformou pra mim. Perfeito, tudo do jeito que eu queria, até o número de tomadas.

Daí teve a história da D’Arouche, e, quando vim morar no Brasil, tive a Luca, e não tinha mais condições de ter um bebê lá no Arouche. Aí eu aluguei um apartamento aqui na Praça Buenos Aires, e o César, meu marido, morava no Centro. Foram oito anos dessa vida, eu morando com a Luca e ele morando na casa dele. Aí eu passava o final de semana na casa dele, ele passava na minha.

Que delícia!

Foi muito bom, mas, depois de oito anos, resolvemos morar juntos. Para mim, o único jeito que a gente poderia morar juntos, que poderia dar certo, seria morar numa casa com espaço, e aí eu encontrei a casa dos meus sonhos no Pacaembu, numa rua sem saída.

Mudamos e fomos arrumando a casa nos finais de semana, cozinhando, foi tudo muito maravilhoso, até o dia que fomos assaltados e a Luca falou que nunca mais entraria na casa, porque foi bem violento o negócio.

Começamos a procurar apartamento. Em uma semana não achamos nada, até entrar neste. Quando eu olhei, falei: é aqui.

Tiramos tudo da casa e mudamos pra cá muito rápido. Eu acabei guardando muitas coisas, que depois fui trazendo e arrumando aos poucos. Nem pintamos esse apartamento, e só agora o César está fazendo pequenos retoques e tal, mas coube tudo super bem, porque, quando entrei, já pensei no que cabe onde, sabe? Aqui eu vou pôr isso, aqui eu vou pôr aquilo, e as coisas vão se conectando e se formando ao redor.

E o imóvel nos ensina muito também, né?

Sim. A gente tinha uma estante enorme de livros na casa que não coube aqui, e eu achei ótimo, porque, eventualmente, não tem o espaço ou não tem o ambiente, e de repente você força uma coisa que talvez o imóvel não saiba receber.

Fui descobrindo e usando as coisas de outro jeito. Posso trocar o tecido do sofá, sentir a vibe que você está. Eu não queria um monte de coisa quando eu mudei, porque eu não sabia o quão temporário ia ser, mas agora eu acho que eu vou ficar aqui. Eu tô bem, e, no fim, descobrimos que dava super certo morar num apartamento os dois juntos.

Você acha que você transpôs a casa dos sonhos pra cá, de alguma forma?

Acho que, na verdade, eu desfiz o mito da casa dos sonhos, porque esse apartamento aqui sou eu, e talvez aquilo não era, era o que eu gostaria que fosse. Aqui funciona pra mim, é a minha cara, é onde sou feliz.

E o que você acha que a arquitetura desse apartamento te oferece, em termos de bem-estar?

Eu amo o pé-direito de prédio dos anos 50. Pra mim também não dá pra ter outro piso se não for de taco. Tem sido muito bom ficar fazendo a casa com tempo. E amo que cada um tenha o seu quarto. Eu não durmo no mesmo quarto que o César, e adoro isso.

Então, assim, a verdade é que funciona muito bem para mim, porque eu acho que fui criada para ser de apartamento. Morei em Nova York, 15 anos em apartamento, né? Morei em casa duas vezes, por pouco tempo, sempre com a minha família. Eu sou uma pessoa muito, muito, muito urbana. Fui criada assim e sempre vivi assim.

Eu amo os armários, não mexi em nada, nada, nada. Não quero ficar entulhada, sabe? Eu não quero um armário lotado. Então isso, pra mim, tá bom, esse espaço.

Você já foi muito entulhada?

Já fui muito. Casa, armário, tudo. É um jeito de pensar, um jeito de estar no mundo.

Tem uma outra coisa nesse apartamento que eu amo, que é que tem várias portas. As pessoas podem usar a cozinha e ir para o quarto delas e aqui não tem interação, sabe? É muito bem dividido esse apartamento, eu gosto muito disso. Falta um lavabo, mas tudo bem.

Como você acha que a moda impacta o jeito de morar?

Eu acho que sim. Roupa é muito importante pra mim e, realmente, se você pensar em casa e fases da vida, o meu jeito de me vestir conversa com a minha casa. Percebo muito isso.

Quando você vai na casa de uma pessoa e a casa não tem muito a ver com ela, você acha que a pessoa é meio fake, uma pessoa feita de referências de fora, que não são dela. Quem tem a casa e o look bons é um pacote premiado, né? Aí é pedir demais.

Para mim, é o seu jeito de estar no mundo. Como você viaja e o que te desperta interesse, os lugares que mexem com você e a maneira que você vai para esses lugares. Os livros que lê, como se relaciona com os amigos e com a família, como se relaciona com o seu dia a dia, a comida que come. Acho que tudo é uma coisa só.

Eu também acho. Eu gostaria muito, inclusive, de fazer um trabalho de interiores. Porque os produtos relacionados à casa são uma parte enorme de mim. Eu amo mais casa do que roupa, mas a vida me levou a trabalhar com roupa.

A grande verdade é que eu acredito que é uma visão. A minha especialidade é um olhar, e eu consigo olhar com o seu olhar. Tanto para roupa quanto para casa. Para todas as minhas amigas eu dou palpite na decoração, todas mandam foto do lookinho, e elas não saem vestidas de Carol.

E o que significa pra você tomar um cafezinho na casa de alguém?

Como sou uma pessoa que não gosta de festa, de ter várias pessoas numa mesa lotada falando muito, tomar um cafezinho com alguém é muito a minha cara, porque eu gosto de encontros one-on-one.

Eu pratico fervorosamente com as minhas amigas toda semana, encontrando para um café, para um chá ou para um bolinho. São momentos só meus e dessa pessoa, que te convida ou é convidada para a sua casa, cercada das nossas coisas, dentro do seu conforto, trocando e conversando. Para mim, é perfeito.

OBJETO DE CARINHO

Para Carolina, é muito difícil escolher um objeto só, porque ela ama muito todas as suas coisas, mas ao mesmo tempo não é apegada. Os objetos da sua casa quebram, as coisas vão, são de fases.

Tem épocas em que ela está muito apaixonada por um vaso, tem épocas em que está muito apaixonada por um pedaço de pano, mas o objeto do momento é a biscoiteira de prata que nos serviu um biscoito melhor do que o outro.

Essa foi sua última aquisição — presente, herança ou furto da casa do seu pai.

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Para os nórdicos, a palavra Friluftsliv significa muito. Ela foi popularizada na década de 1850 pelo dramaturgo Henrik Ibsen, que usou o termo para descrever a importância de passar um tempo em lugares remotos para o nosso bem-estar físico e espiritual. Ela nos faz lembrar tudo o que viemos esquecendo nos últimos séculos, nossa conexão com o meio ambiente, desconectar-se do estresse diário e melhorar o bem-estar físico e mental, independentemente do clima. Basicamente, da onde viemos e para onde voltaremos.

Nas minhas últimas férias de janeiro, estive na Noruega e fazia -40 graus. Fiquei muito impactado quando falei com uma prima que estava na Bahia e ela me disse que estava 45 graus. Estávamos a mais de 85 graus celsius de diferença, sobre o mesmo planeta terra, no mesmo dia 7 de janeiro de 2026.

O clima na Escandinávia é radicalmente diferente do clima no Brasil, e na Bahia, as coisas acontecem mais ou menos da mesma forma. No solo soteropolitano,  realmente existe uma coisa especial, única no mundo, e que é muito difícil de traduzir. Talvez o que melhor traduza seja um misto de vento quente no rosto e os primeiros vinte segundos da música Marina, do Gilberto Gil.

Nenhum estado que faz fronteira com a Bahia tem algo semelhante à essa coisa mágica que ela tem. Não sei se é o dendê presente na culinária e seu perfume no ar, não sei se é a ligação única e direta com a África no Recôncavo, as crenças católicas sincretizadas com os orixás, ou a luz estarrecedora que brilha na baía de Todos os Santos. No fundo acho que é tudo o que isso proporciona em termos de personalidade, bem-estar, estilo de vida e cultura para as pessoas que nascem e vivem ali.

Depois de 30 anos visitando a Bahia, o litoral, o sertão, a chapada e até as montanhas, foi em Itacaré que conheci uma Bahia que só existe naquele canto, rodeado de Mata-atlântica.

Não é à toa que os suecos construíram ali o Barracuda Hotel como um projeto de vida. Se conectaram de primeira com aquele litoral, único no estado com um resto que sobrou de mata atlântica na Bahia, um dos biomas mais ricos e biodiversos do mundo.

A Suécia tem uma sofisticação simples, que se aproxima muito do que temos aqui no Brasil, obviamente que cada país com suas características. É a sofisticação simples da vida cotidiana, de pescar o peixe que se come e assar na grelha na beira do rio, no cuidado com o corpo, com a qualidade de vaida inserida e próxima à natureza.

Itacaré tem uma condição ímpar que mistura surf com o cultivo do cacau. O cultivo do cacau nas primeiras décadas do século XX foi um dos ciclos econômicos mais importantes da história da economia brasileira, marcado pelo cultivo do cacau para exportação e que depois foi devastado pela vassoura de bruxa, no final dos anos 1980, na mesma época que o surf começou a aparecer por lá de forma orgânica, como consequência do isolamento e da natureza intocada que a crise da vassoura de bruxa acabou preservando. 

A cultura da pesca é muito consolidada em Itacaré, praticamente todas as famílias de alguma forma vivem dela, e muitas dessas pessoas trabalham no restaurante do Barracuda trazendo para o hotel peixes e crustáceos frescos de manhã, pescados por eles mesmos. 

Mas é o fogo o ingrediente mais importante de conexão de tudo isso. A cultura de se alimentar com alimentos frescos, recém colhidos e grelhados, seja no hotel, em um barco ou na beira do rio, conecta a Suécia com a Bahia e o cacau com  surf à uma cultura mais simples, local, ligada à natureza  ancestral, que faz daquele canto no sul da Bahia único.

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Atento à cultura do politicamente correto, a qual eu acredito ser uma maré forte, que dificulta nos depararmos de fato com nossos preconceitos, perguntei ao Gean Pankararu, pouco antes de participar do ritual sagrado de seu território, como afinal eu deveria me referir a ele e a seu povo. Índio? Indígena?

Para a minha surpresa, ele me disse que eu deveria me referir a eles da maneira que bem entendesse, já que todos os nomes e nomenclaturas estão errados. Nomenclaturas essas, claro, dadas pelos portugueses quando chegaram aqui, pensando terem chegado na Índia.

O Brasil foi forjado através da violência de uma ação colonial de proporções gigantescas. Portugal deslocou 4,8 milhões de africanos para cá e tomou para si infinitas terras onde habitavam 1.400 povos indígenas diferentes, numa população estimada entre 2 e 5 milhões de nativos, falantes de centenas de línguas distintas.

Se somos feitos de muitas chegadas, afinal quem somos? Como nos enxergamos? A busca pela identidade brasileira é infinita. Ela faz parte da nossa identidade; ela nunca pode ser encontrada. Se um dia chegarmos a algum consenso, perdemos nossa identidade. O que foi chamado de descobrimento é um ato de força que encobre a origem traumática do que é hoje chamado Brasil.

O Brasil ainda é um cartão-postal. Uma imagem simplificada que encobre uma conjuntura histórica marcada por mentiras e invisibilidade. Talvez por isso o país pareça nunca realizar plenamente suas promessas. Falta-nos um sentido de comunidade, uma ideia compartilhada do que significa viver juntos.

O Brasil já deu certo.

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Amarello Visita: Serra da Capivara

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Fotos de Mariana Tassinari.
Colaboração de André Strauss, Maria Antonielli e Tininha Llanos.

A Serra da Capivara impressiona pela vastidão da caatinga, pelos extensos paredões de arenito e pela densidade de sítios com pinturas rupestres. O relevo é marcado por desfiladeiros estreitos, escarpas que se elevam abruptamente sobre o chão pedregoso e cânions que se abrem em cortes profundos na paisagem semiárida. A depender da estação, o verde da vegetação contrasta com o amarelo-terroso do solo, ou então o cenário assume cores mais secas e homogêneas, moldadas pela incidência do sol. É inevitável não extrair do cenário uma impressão de permanência.

Essa impressão é a nascente de muitos debates que, de um jeito ou de outro, também formam o solo da Serra. A paisagem parece imutável, mas as interpretações sobre o passado que ela abriga estão longe de ser. Há em tudo isso um teor político que quase coloca a beleza natural e a relevância de sua história num segundo plano. Parece improvável, tamanha é a vastidão diante dos olhos de quem vê, mas é verdade. O silêncio que reverbera pela paisagem de algum modo parece ecoar perguntas fundamentais: quem fomos? Quem pensamos que somos? Quem pensam que somos?

Antes que o Brasil fosse nomeado, cartografado ou imaginado como projeto de nação, homens e mulheres já habitavam o que hoje é o sudeste do Piauí. Ali, longe dos eixos históricos de validação científica e cultural, está um dos mais contundentes arquivos da presença humana no planeta.

André Strauss, arqueólogo e professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, conduziu pesquisas na Serra da Capivara. De acordo com ele, a Serra “ganhou proeminência no debate sobre o povoamento da América devido à proposta de Niède Guidon e colaboradores de que ali havia evidência comprovando a presença humana na América desde 100 mil anos atrás. Uma hipótese que contrasta muito com as hipóteses amplamente aceitas sobre o tema”.

Em vales de arenito, paredões avermelhados e abrigos naturais da caatinga, há registros de gestos cotidianos, rituais, disputas, afetos e crenças. Os paredões chegam a dezenas de metros de altura, formando grandes blocos inclinados. Em alguns trechos, passarelas de madeira conduzem a poucos centímetros das figuras pintadas há milênios. O vermelho ferruginoso da rocha contrasta com os traços em ocre, branco e negro que representam cenas de caça, dança e conflito. Essas imagens, gravadas e pintadas, atravessaram o tempo até serem reencontradas em um país que ainda reluta em se reconhecer nelas. A Serra da Capivara antecede, portanto, o Brasil histórico e, ao fazê-lo, tensiona a imagem que o país construiu sobre si mesmo e a forma como é percebido pelo mundo.

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O Parque Nacional da Serra da Capivara reúne a maior concentração de sítios arqueológicos com pinturas rupestres das Américas e, possivelmente, do mundo. São mais de mil sítios catalogados, centenas deles preparados para visitação, distribuídos por uma área que ultrapassa 130 mil hectares entre municípios marcados historicamente pela escassez de políticas públicas, infraestrutura e visibilidade. Reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1991, a região se tornou referência internacional para a arqueologia, ao mesmo tempo em que permaneceu à margem do imaginário dominante sobre ciência, desenvolvimento e centralidade cultural.

Esse deslocamento entre importância objetiva e reconhecimento simbólico acompanha a trajetória de Niède Guidon, arqueóloga franco-brasileira que dedicou mais de cinco décadas à defesa da Serra da Capivara. Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, formada em História e especializada em arqueologia pré-histórica na Sorbonne, Guidon chegou à região no final dos anos 1960 e nunca mais saiu. Sua atuação conta com uma extensa lista de feitos, tais como: coordenou escavações que desafiaram consensos científicos consolidados, articulou a criação de um parque nacional, fundou uma instituição de pesquisa, mobilizou recursos internacionais, enfrentou disputas políticas e transformou profundamente a realidade social do entorno. Vale citar que um dos aspectos mais emblemáticos desse processo foi o protagonismo feminino incentivado por ela, entregando às mulheres as funções estratégicas na gestão e na proteção do parque, tornando-as guardiãs dos sítios arqueológicos e referências comunitárias. Esse movimento também redesenhou relações de poder no cotidiano local, ampliando o acesso das mulheres à renda e à autonomia. Sendo assim, as conquistas de Guidon são muitas, e sua importância é inegável, mas as controvérsias acompanharam e marcaram a sua trajetória. “Niède Guidon”, comenta Strauss, “teve um papel importante no estabelecimento institucional da arqueologia no Brasil, bem como na divulgação da arqueologia para o público amplo. Ao mesmo tempo, ela teve um papel negativo ao difundir hipóteses desprovidas de validade científica para o grande público, como a ideia de que os primeiros humanos a chegar na América teriam vindo navegando da África 100 mil anos atrás”.

A polêmica em torno de Guidon ganhou dimensão internacional em 1986, quando ela publicou na revista Nature, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo, um artigo apresentando datações por carbono-14 que indicavam presença humana no sítio Boqueirão da Pedra Furada, uma imensa galeria a céu aberto na Serra da Capivara, há cerca de 32 mil anos. O resultado contrariava o modelo dominante da época, segundo o qual os primeiros habitantes das Américas teriam sido o chamado povo de Clóvis, que viveu há aproximadamente 13 mil anos no atual território dos Estados Unidos. A proposta desafiava o consenso ao sugerir uma ocupação muito mais antiga do continente. No sítio piauiense, a equipe de Guidon encontrou vestígios de fogueiras e artefatos líticos associados a camadas datadas em dezenas de milhares de anos. Se confirmadas, o que até hoje é um ponto de discussão, essas evidências obrigariam uma revisão profunda da cronologia do povoamento americano.

De acordo com Strauss, esses trabalhos geraram controvérsia por três motivos: “Um, porque a ampla evidência arqueológica não indica presença humana na América anterior ao último máximo glacial (portanto, se a interpretação de Niède Guidon e colaboradores sobre as evidências encontradas na Serra da Capivara estiverem corretas, eles demonstram que a ocupação do continente é cerca de cinco vezes mais antiga do que se assume); dois, porque a natureza da evidência apresentada era inconclusiva (estava no limite dos métodos, abrindo espaço para dúvidas); e três, porque a qualidade dos trabalhos analisando e descrevendo os achados era de baixa qualidade (aumentando o espaço para o ceticismo generalizado)”. Ou seja, se estivessem corretas, as datações não apenas recuavam em dezenas de milhares de anos a presença humana nas Américas como também desafiavam métodos, cronologias e consensos consolidados na arqueologia do continente.

A celeuma foi instaurada imediatamente. Como não havia ossos humanos nas camadas mais antigas, críticos argumentaram que os vestígios eram indiretos e poderiam ter origem natural. As supostas fogueiras poderiam ser resultado de incêndios espontâneos, e as ferramentas de pedra se tratariam de fragmentos desprendidos da falésia e modificados por processos geológicos ao longo do tempo. O debate extrapolou o caso específico da Serra da Capivara. Para muitos pesquisadores, aceitar datas tão recuadas implicaria repensar rotas migratórias, capacidades tecnológicas e o próprio processo de dispersão do Homo sapiens pelo planeta.

Em 2003, Guidon ampliou ainda mais a controvérsia ao propor que o sítio poderia ter sido ocupado há cerca de 100 mil anos, hipótese considerada ainda mais improvável pela maioria dos arqueólogos, já que nesse período o Homo sapiens começava a se expandir para fora da África.

O antigo consenso do modelo Clóvis foi enfraquecido por novas evidências de ocupações anteriores a 13 mil anos em outras regiões do continente. Ainda assim, as datas mais remotas defendidas por Guidon seguem em pauta. Os debates em torno da Serra da Capivara viraram um dos capítulos mais marcantes da arqueologia americana, especialmente por expor as tensões entre paradigmas consolidados e descobertas que desafiam o centro da ciência.

A Serra da Capivara passou, então, a simbolizar um Brasil que interpela o eurocentrismo que historicamente orienta narrativas sobre as origens da humanidade e também a centralidade acadêmica dos Estados Unidos na definição de agendas, métodos e consensos científicos. A disputa, ao fim e ao cabo, ultrapassava a cronologia para expor as assimetrias de poder que moldam quem formula as perguntas, quem valida as respostas e quem é reconhecido como produtor legítimo de conhecimento. Durante décadas, as hipóteses formuladas a partir do parque brasileiro enfrentaram contestação, sobretudo de centros acadêmicos norte-americanos, ainda ancorados em modelos explicativos formulados na metade do século 20. A dificuldade de aceitar que um dos mais antigos registros da presença humana nas Américas esteja localizado fora da Europa ou dos Estados Unidos joga luz sobre a assimetria persistente no reconhecimento da ciência produzida no Sul Global.

No entanto, Maria Antonielli, estudante de Arqueologia e Preservação Patrimonial na Universidade Federal do Vale do São Francisco, acredita que “a Serra da Capivara continuará sendo referência mundial. Hoje existem datações seguras de 50 mil anos de ocupação humana, resultado de pesquisas consolidadas. Isso coloca o parque em outro patamar. Estudar ali é ter consciência de que estamos trabalhando em um território central para a história da humanidade”.

Esse embate entre centro e periferia, visibilidade e apagamento, passa tanto pelo debate científico quanto pela própria história do parque. Quando Niède Guidon chegou à região, encontrou uma população marcada pela pobreza extrema, ausência de serviços básicos e exploração predatória do território. A preservação do patrimônio arqueológico não poderia ser pensada de forma dissociada das condições de vida da população local. A criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, foi apenas o primeiro passo de um projeto mais amplo, que costurava ciência, conservação ambiental e desenvolvimento social.

Para viabilizar essa integração, Guidon criou, em 1986, a Fundação Museu do Homem Americano, responsável pela gestão do parque em parceria com o poder público. A atuação da fundação extrapolou o campo da pesquisa arqueológica e passou a investir também em educação, saúde, capacitação profissional e geração de renda. “Estudar arqueologia no campus Serra da Capivara”, conta Maria, “muda completamente a sua formação. Desde o primeiro período, nós entramos no Parque Nacional, vemos as pinturas rupestres de perto e entendemos que aquilo não é só conteúdo de livro. Quando chegamos aos períodos de escavação, cavamos dentro do próprio parque. A arqueologia ali nunca foi interrompida. Todos os anos surgem novos vestígios, como coprólitos, ossos, sementes. A formação é prática, sensorial. É diferente de aprender apenas na teoria. Uma arqueologia feita com os pés na areia é outra coisa, né?”.

Escolas de tempo integral foram implantadas, postos de saúde construídos, projetos culturais e produtivos estimulados. O turismo, a apicultura e a produção artesanal se consolidaram como alternativas econômicas, reduzindo a migração e criando uma relação mais sustentável entre comunidade e território. Para quem estuda e vive ali, essa transformação não é abstrata. Nesse sentido, Maria observa que a Serra ultrapassa a dimensão científica e se torna uma experiência concreta: “Mesmo com as dificuldades de acesso, conhecer a Serra vale muito a pena. Estar frente a frente com as pinturas, caminhar pelas trilhas, sentir o calor do semiárido, vestir uma bota e percorrer aquele território é uma experiência transformadora”. Ela lembra ainda que o impacto também é visível na circulação de pessoas: “Recebemos visitantes do Brasil inteiro e também do exterior, da América do Norte, do Japão, da América do Sul. Isso mostra a dimensão do que existe ali”.

E se a estudante representa a geração formada dentro do projeto educacional impulsionado por Niède, Tininha Llanos, que trabalha e vive na região, tendo acompanhado a arqueóloga por anos, encarna a memória dessa transformação. Diretora da área turística e testemunha direta da atuação de Guidon, ela acompanhou de perto o surgimento das iniciativas que redesenharam a região. “A doutora iniciou uma trajetória de projetos voltados para o desenvolvimento da nossa região quando criou escolas de período integral com ensino de artes e cultura nas comunidades em torno do Parque Nacional da Serra da Capivara.” Essas escolas, as chamadas “escolas da doutora”, como recorda Tininha, ofereciam mais do que ensino formal. “Elas garantiam alimentação balanceada e saudável para as crianças dessas comunidades, além de atividades culturais que ampliavam horizontes.”

Ao refletir sobre as transformações ocorridas na região desde o início dos projetos liderados por Niède, Tininha não aponta primeiro para obras ou números, mas para algo mais profundo. “O que mais mudou foi o sentimento de pertencimento a uma comunidade, a um território. Esse sentimento acabou sendo reforçado. Ele foi fortalecido com os projetos de educação, culturais, patrimoniais, com a inclusão de pessoas nativas nas pesquisas e nas escavações. Quando os filhos das comunidades que foram retiradas de dentro do Parque, como o Olho d’Água e a comunidade Zabelê, passam a buscar salvaguardar a memória de seus ancestrais, isso muda tudo.”

Iniciativas como o Museu Zabelê e o Instituto Olho d’Água não surgem por acaso, mas como desdobramento direto desse processo de valorização. “Esses projetos”, comenta Tininha, “mostram que as próprias comunidades começaram a assumir a responsabilidade de preservar suas histórias. Proteger sítios arqueológicos é tão importante quanto proteger memória, identidade e raiz.”

Entre avanços simbólicos e fragilidades estruturais, a Serra da Capivara é, ao mesmo tempo, conquista e desafio permanentes. Segundo Tininha, “o que permanece igual é a falta de subsídios para a pesquisa arqueológica” e para projetos de inclusão da comunidade do entorno no acesso ao parque. Hoje, afirma, não existem programas que garantam esse apoio de forma contínua e, embora muito tenha sido conquistado, ainda se depende de “esforços quase heroicos para manter muita coisa funcionando”.

A imagem de Niède Guidon é, portanto, indissociável da Serra da Capivara. Figura centralizadora, muitas vezes descrita como “dura”, “intransigente” ou até “megalomaníaca”, ela encarnou a própria ideia de resistência em um país historicamente marcado pela descontinuidade de políticas públicas e pela fragilidade institucional. A sobrevivência do parque, em diversos momentos, dependeu mais de sua capacidade de articulação e insistência do que de um compromisso estrutural do Estado brasileiro. A intransigência, ainda bem, teve utilidade.

A Serra da Capivara permaneceu e permanece como um espelho incômodo do Brasil. Um país que abriga um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do planeta, mas que frequentemente falha em garantir sua manutenção. Que produz ciência de ponta, reconhecida internacionalmente, mas reluta em valorizá-la internamente. Que guarda imagens fundadoras de sua própria história, mas hesita em incorporá-las ao imaginário coletivo.

As pinturas rupestres da Serra retratam partos, danças, confrontos, jogos, gestos de afeto e organização social complexa. Revelam uma humanidade plural, criativa e simbólica, distante da ideia de primitivismo que durante muito tempo marcou a leitura da pré-história americana. Com isso, ela dialoga diretamente com a ideia de imagem do Brasil, evidenciando a distância entre o país que existe — múltiplo, antigo e sofisticado em suas expressões culturais — e o país que costuma ser projetado, interna e externamente, como jovem, periférico, incompleto, eternamente emergente. Se o centro da história for o sertão do Piauí, as hierarquias simbólicas que aguentem outra cartografia do conhecimento.

O legado de Niède Guidon, que faleceu em 2025, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, é inseparável dessa provocação. A ciência não é neutra nem descolada do território em que se insere; ela depende de escolhas políticas, disputas narrativas e persistência individual. Mais do que sugerir outros caminhos para pensar a história do povoamento das Américas, Guidon ajudou a escrever outra possibilidade de Brasil: a de um país capaz de reconhecer valor onde antes se via apenas vazio, de produzir conhecimento relevante a partir de suas margens e de compreender que sua imagem no mundo passa, necessariamente, pelo modo como cuida de sua própria memória.

As polêmicas em torno da Serra da Capivara hoje são, em essência, as mesmas levantadas desde a década de 1980: há ou não evidências sólidas de presença humana no local há cerca de 100 mil anos? Embora, no Brasil, o tema muitas vezes seja tratado como resolvido, no cenário internacional a situação é diferente. Uma parte significativa da comunidade científica mantém forte ceticismo quanto à natureza antrópica — isto é, produzida por humanos — dos depósitos pleistocênicos encontrados na Serra. A controvérsia, portanto, não diz respeito apenas às datas, mas à interpretação dos vestígios e à robustez das evidências apresentadas.

Como diz Strauss, “Niède Guidon é uma espécie de novo Santos Dumont, trazendo um ufanismo nacionalista aos debates arqueológicos sobre o povoamento da América”. A analogia sugere que, mais do que uma disputa científica, o que está em jogo é também a narrativa sobre quem pode reivindicar protagonismo na história das origens. No local, o Brasil não é promessa nem projeto futuro. Ele já aconteceu, há dezenas de milhares de anos, inscrito em pedra. O desafio atual é aprender a olhar para essas imagens, e para nós mesmos, com a mesma atenção que elas exigem para atravessar o tempo.

Quem somos quando deixamos de repetir imagens importadas e passamos a encarar aquilo que está sob o nosso próprio chão?

As perguntas seguem ecoando.

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De templos do saber iluminista a espaços plurais e críticos, os museus reinventam suas narrativas. Se eles antes organizaram o mundo sob uma lógica eurocêntrica, hoje revisam silêncios e ampliam vozes, assumindo papel democrático e social. 

Os museus contemporâneos enfrentam o desafio de reinventar suas narrativas para estabelecer um diálogo genuíno com novos públicos e novas tecnologias. Historicamente, essas instituições serviram como ferramentas de organização do mundo sob uma lógica puramente eurocêntrica, mas o cenário do século 21 exige a revisão de silêncios históricos e a ampliação de vozes anteriormente marginalizadas.  

Sandra Costa, museóloga e professora da Universidade de Bolonha, destaca a natureza política dessas instituições ao afirmar que “a narrativa de um museu nunca é neutra. É sempre ideologicamente conotada”. No contexto brasileiro, essa subjetividade resultou, por muito tempo, na prevalência da perspectiva dos colonizadores sobre temas sensíveis como a escravidão, mantendo negros e indígenas à margem das narrativas oficiais. Essa dificuldade narrativa é acentuada pela origem dos acervos, frequentemente constituídos por doações de elites e focados em objetos de luxo. Paulo César Garcez Marins, historiador e diretor do Museu Paulista, aponta que “narrar a história de uma sociedade complexa a partir de documentos restritos a certas classes é um desafio”.  

Refletindo sobre o peso ético de lidar com o passado, Alex Calheiros, doutor em filosofia e diretor do Museu da Inconfidência, recorre à poesia de Carlos Drummond de Andrade para afirmar que “toda história é remorso”, lembrando que o exercício de pensar o passado exige o reconhecimento imediato de ausências e silenciamentos. Atualmente, o pensamento decolonial busca desconstruir essas hegemonias, criando espaços para a memória de grupos subalternos. 

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A trajetória dos museus revela um deslocamento fundamental de prioridades. Nos primórdios, a centralidade repousava no objeto, como se podia observar no Ennigaldi-Nanna, primeiro museu que se tem notícia, datado de 530 a.C., ou no enciclopedismo iluminista visto nos gabinetes de curiosidades do século 18. No século 19, surgiram os museus de história com a pretensão de narrar a trajetória de “todos”, mas que, segundo Marins, acabavam por contar a história de apenas alguns grupos. Calheiros recorda ainda que, nessa lógica, quem não se adequava ao padrão europeu era frequentemente rotulado como “incivilizado, bárbaro ou, na melhor das hipóteses, exótico”. 

A mudança radical nas diretrizes museológicas ganhou corpo no século 20. Em 1934, a Conferência de Madrid reconheceu a diversidade do público, e os anos 1970 consolidaram a nouvelle muséologie, que deslocou o foco da coleção para o visitante. Costa explica que o centro da narrativa passou a ser a relação estabelecida entre a coleção e o observador, e não mais a coisa em si. Em 2022, o International Council of Museums (ICOM) reforçou essa visão, definindo o museu como uma instituição inclusiva e comprometida com as questões sociais e democráticas do seu tempo. 

Paradigmas de gestão, convivência e equilíbrio 

Museus modernos são cada vez mais vistos como espaços de convivência e até de cura. Ico Migliore, arquiteto, professor do Politecnico di Milano e especialista em projetos museológicos e expositivos, ressalta que estudos comprovam que lugares de cultura promovem senso de comunidade e bem-estar. Ele, no entanto, defende que os museus precisam mudar seus paradigmas. Embora a museologia tenha avançado no campo teórico, algumas instituições permanecem inalteradas por décadas, enquanto outras revelam uma “ansiedade espasmódica” de renovar continuamente suas montagens, ressalta o arquiteto e curador Roberto Duilio, professor e responsável pelo sistema arquivístico e bibliotecário do Politecnico di Milano.  

“A virtude está no equilíbrio”, defende Duilio. Para ele, obras centrais devem compor exposições de longa duração — não eternas, mas estáveis por anos. Já núcleos menos fundamentais podem ser revistos a cada dois ou três anos, pois “a história e a crítica estão sempre em transformação”.  

Um exemplo prático dessa aplicação é a Pinacoteca de São Paulo. Fundada em 1905, a instituição mantém em destaque em sua exposição temporária obras como Amolação interrompida (1894) e Caipira picando fumo (1893), de Almeida Júnior. Yuri Quevedo, arquiteto e curador da Pinacoteca, explica que essas telas, consideradas fundadoras do acervo, integram um debate secular sobre a figura do caipira. Embora tenham sido encomendadas por elites que contribuíam para o desaparecimento do modo de vida retratado, elas resistiram ao tempo pela sua “porosidade a novos significados”.  

Com um acervo de 12 mil obras, a Pinacoteca agora organiza uma mostra temática de longa duração, sob a curadoria de Quevedo, promovendo diálogos que causem “estranhamento” de tempos e características para estimular a reflexão crítica do público. A exposição coloca o artista no centro e transforma a parede em espaço de tensão e debate. 

Equidade e representatividade: o caso do MAC USP 

No Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), a narrativa do acervo de cerca de dez mil obras passa por revisão permanente sob critérios de equidade de raça, gênero, etnicidade e geração. Fernanda Mendonça Pitta, historiadora e curadora da instituição, destaca que iniciativas ligadas aos estudos decoloniais têm sido fundamentais para identificar ausências concretas. A pesquisa liderada por ela sobre a presença indígena na história da arte e nos museus revelou não apenas artistas indígenas incorporados no passado, mas também deslocamentos institucionais que ajudaram a apagar essa história. 

Experiência, acessibilidade e transparência 

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A visita ao museu deixou de ser meramente didática para se tornar uma vivência emocional e participativa. Para Migliore, as instituições devem “ativar a relação entre o usuário e a obra”. Ele cita o exemplo do Museo di Storia Naturale, em Milão, onde o público pode manusear gavetas de acervos, e do ADI Design Museum, que integra sua fachada à rua — ambos reformulados pelo escritório Migliore+Servetto. 

A democratização também envolve acessibilidade física e intelectual. O Museu do Ipiranga, vinculado à USP, utiliza 350 materiais táteis e recursos de vibração para que pessoas com deficiência auditiva sintam o ritmo de músicas como o samba-enredo. Além disso, a gestão moderna busca transparência ao tornar visíveis os acervos de reserva técnica, como ocorre no Victoria and Albert Museum, em Londres, e na exposição Da colher à cidade no ADI Design Museum, que integra todos os projetos vencedores do Compasso D’Oro. 

Reparação histórica em Ouro Preto e Recife 

Reconhecido pela Unesco em 2024 como parte da rota do povo escravizado, o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, vive uma transformação concreta. A instituição alterou seu plano museológico, substituindo o termo “inconfidência” por “conjuração”. “Quando se usa o termo ‘inconfidência’, transforma-se uma ação política num crime”, justifica Calheiros. 

O museu agora inclui salas dedicadas à cultura afro-mineira, inseriu no Panteão as lápides de Hipólita Jacinta e Bárbara Heliodora para reconhecer o protagonismo feminino e promove debates críticos sobre objetos que anteriormente trivializavam a tortura, com o projeto Este objeto, o que ele nos fala. 

De forma semelhante, o Museu do Homem do Nordeste, em Recife, vinculado à Fundação Joaquim Nabuco, discute a mudança de seu nome para Museu do Povo do Nordeste para superar perspectivas hegemônicas europeias. Sob a coordenação de Moacir dos Anjos, curador e pesquisador, a nova exposição de longa duração (prevista para iniciar em 2026) focará na resistência de povos silenciados, destacando religiões afro-brasileiras e manifestações como o maracatu e o boi-bumbá, ampliando a representação da cultura popular nordestina. 

Revisitando a identidade nacional e o papel do digital 

Museu do Ipiranga, em São Paulo. Foto de Gabriela Portilho.

Por décadas, o Museu do Ipiranga, braço do Museu Paulista, privilegiou figuras como Dom Pedro I, os fazendeiros e os bandeirantes Em 1989, a instituição revisou seu legado, adotando os eixos “história do imaginário”, “cotidiano e sociedade” e “universo do trabalho”, que orientam pesquisas e exposições, como a mostra Mundos do trabalho. Focada em homens, mulheres e crianças envolvidos na formação do país, esta trata de um argumento antes inexplorado em uma exposição de longa duração.  

Sobre a Independência, o museu agora apresenta uma visão plural, mostrando que o processo foi composto por várias independências regionais, como as do Nordeste e as do Sul do país. “No Brasil, foram várias independências”, assinala Marins. 

Por fim, cabe destacar como a revolução digital trouxe novas camadas de interpretação, especialmente na arqueologia, com o uso de realidade virtual para reconstruções históricas, como no caso do Museu dell’Ara Pacis, em Roma. No entanto, a historiadora e filósofa Irene Di Pietro, especializada em museologia e colecionismo, assistente didática na Universidade de Bolonha, alerta que a tecnologia não deve ser um espetáculo vazio ou apenas um substituto para o suporte analógico. Para ela, o desafio fundamental é garantir que o conteúdo digital mantenha “validade histórica e científica”, permitindo que os museus continuem preservando o passado enquanto constroem narrativas capazes de envolver públicos cada vez mais diversos. 

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Antiquário e pesquisador atento das culturas materiais do Sul do Brasil, Cristiano Ross desenvolveu ao longo dos anos um olhar voltado para móveis vernaculares e peças anônimas produzidas longe da lógica industrial ou da ideia de design autoral. Em Assentos de origem, exposição realizada em parceria com a Amarello, Ross reúne bancos, mochos e banquetas produzidos por imigrantes alemães e italianos no Sul do Brasil, peças que ajudam a compreender como tradição europeia, matéria brasileira e cotidiano rural acabaram formando uma linguagem híbrida, profundamente ligada ao território.

Conte um pouco sobre o processo de seleção das peças que compõem a exposição e sobre as principais diferenças entre os modos de construção herdados de imigrantes alemães e italianos.

Cristiano Ross: O processo de seleção aconteceu muito mais pelo encontro do que por uma busca objetiva. São peças que venho encontrando ao longo dos anos em sítios, casas antigas, depósitos, serrarias e pequenas cidades do interior do Sul do Brasil. Lugares que carregam muita memória e onde, muitas vezes, ainda vivem descendentes daqueles imigrantes que vieram para cá tentando construir uma nova vida.

A seleção nasce muito do afeto. Primeiro vem essa conexão emocional com o lugar, com as histórias e com as pessoas. Depois entra um olhar mais racional: entender como aquele móvel pode continuar existindo hoje, dentro de uma casa contemporânea, sem perder sua identidade. Existe uma diferença perceptível entre as tradições alemãs e italianas. Nos móveis ligados à cultura alemã normalmente aparece uma construção mais rígida e precisa, com encaixes muito bem resolvidos e uma preocupação evidente com durabilidade. Já nos móveis ligados à imigração italiana existe uma relação mais livre e intuitiva com a madeira, muitas vezes com soluções improvisadas e uma construção menos rígida.

Mas o mais interessante é perceber que, com o tempo, essas linguagens deixaram de ser europeias. São móveis feitos na América, por pessoas que acabaram se misturando ao território, aos materiais e às culturas que já existiam aqui. No fim, esses móveis também se tornaram brasileiros.

Durante esse processo de garimpo e seleção, quais sinais fazem você entender que uma peça carrega uma história importante? São os materiais, os encaixes, as marcas do tempo, os reparos improvisados ou existe algo mais intuitivo nesse reconhecimento?

CR: Tudo isso conta. Os encaixes, os desgastes, os reparos improvisados e até certas deformações ajudam a entender a vida daquele objeto. Às vezes um conserto antigo revela mais do que a própria construção original, porque mostra que aquela peça era importante o suficiente para continuar existindo. Mas existe também algo intuitivo. Algumas peças têm uma presença muito forte, mesmo sendo extremamente simples. Você olha e percebe que existe verdade ali.

O que me interessa é justamente isso: objetos que não foram feitos para impressionar, mas para acompanhar a vida cotidiana durante muitas gerações. Espero que as pessoas consigam olhar para essas peças quase como relicários. Cada uma carrega um percurso, uma memória e a experiência de quem viveu com ela.

Muitos desses móveis nasceram em ambientes rurais, longe da lógica industrial e do design institucionalizado. O que mais te interessa nessa produção anônima e vernacular? Existe uma espécie de inteligência silenciosa nesses objetos que o olhar contemporâneo costuma ignorar?

CR: Acho que existe exatamente essa inteligência silenciosa. São objetos feitos sem nenhuma preocupação com o design, mas que resolvem problemas de maneira muito sofisticada. Existe economia de material, entendimento estrutural e uma relação muito direta entre necessidade e forma. Hoje estamos muito acostumados a olhar para o design através da autoria e da assinatura. Esses móveis mostram outro caminho possível.

Também gosto da ideia de desmistificar a função desses objetos. Um banco não precisa ser apenas um banco. Pode virar mesa, escultura, apoio ou simplesmente uma presença dentro do espaço. Acho interessante quando essas peças continuam abertas a novas leituras, mesmo tantos anos depois.

A exposição reúne peças produzidas por imigrantes alemães e italianos, mas elas já não pertencem integralmente às tradições europeias de origem. Como você percebe essa transformação cultural acontecendo através da madeira, das técnicas e das soluções construtivas encontradas nos objetos?

CR: Essa transformação acontece naturalmente quando essas tradições encontram o território brasileiro. As madeiras daqui eram completamente diferentes das europeias, tanto em densidade quanto em comportamento. Isso fez com que adaptações fossem necessárias. Além disso, o cotidiano rural brasileiro exigia soluções mais práticas e diretas. Aos poucos surge uma linguagem híbrida, onde ainda é possível reconhecer uma herança europeia, mas já profundamente transformada pela realidade local.

Em muitos casos, esses móveis sobreviveram sem qualquer preocupação de preservação formal. Eles passaram por mudanças de casa, heranças familiares, abandono, reformas. O que mais te impressiona na sobrevivência física desses objetos?

CR: O que mais impressiona é a resistência. Muitos sobreviveram simplesmente porque eram úteis demais para serem descartados. Foram usados continuamente durante gerações. Também me impressiona como esses objetos absorvem o tempo sem perder dignidade. As marcas de uso, os reparos e os desgastes acabam criando uma camada humana muito difícil de reproduzir artificialmente.

O trabalho manual presente nesses objetos revela uma relação muito íntima com a matéria. Como você percebe o diálogo entre os imigrantes e as madeiras brasileiras disponíveis naquele território? De que maneira o material local acabou transformando técnicas trazidas da Europa?

CR: A madeira brasileira transformou completamente essas técnicas. Muitas espécies daqui têm dureza e comportamento muito diferentes das madeiras europeias. Isso acabou mudando encaixes, proporções e até o desenho das peças.

Ao mesmo tempo, existe um encantamento evidente com a abundância de matéria-prima encontrada aqui. Em muitos casos vemos móveis feitos com madeiras que hoje praticamente desapareceram. Existe uma relação muito direta entre mão, ferramenta e matéria.

Em muitos casos, esses móveis foram feitos sem autoria identificada. Como você enxerga o valor dessa produção anônima?

CR: A ausência de autoria não diminui a importância desses objetos. Pelo contrário. Muitas vezes ela faz com que o olhar vá direto para aquilo que realmente importa: a construção, o uso, a permanência e a relação da peça com o território. Existe hoje uma valorização muito grande da assinatura, mas esses móveis lembram que cultura material também é construída coletivamente.

Existe uma dimensão política em olhar para objetos anônimos e cotidianos como portadores de memória cultural? O que muda quando passamos a considerar essas peças como parte do patrimônio simbólico do país?

CR: Existe uma dimensão política importante nisso. Quando começamos a olhar para esses objetos como patrimônio cultural, ampliamos a ideia de memória para além das narrativas oficiais. Essas peças falam sobre imigração, trabalho, adaptação, escassez e vida cotidiana. Reconhecer isso como patrimônio também é reconhecer a importância dessas histórias mais silenciosas.

Em uma época marcada pela produção acelerada, você acredita que a seleção da Assentos de origem tem algo a dizer sobre permanência e durabilidade?

CR: Acho que sim. Esses objetos nasceram em um contexto onde fazer um móvel exigia tempo, esforço e matéria-prima valiosa. Então existia naturalmente uma preocupação com permanência. Hoje vivemos uma lógica muito acelerada, onde os objetos já nascem descartáveis. Esses assentos carregam uma ideia oposta. Foram feitos para durar e acompanhar gerações.

Existe algo muito bonito na ideia de que esses assentos foram feitos para durar dentro da rotina, não para serem admirados em uma exposição. Para você, qual é o significado de deslocar objetos tão ligados ao uso cotidiano para um espaço de contemplação?

CR: O mais interessante desse deslocamento é permitir que as pessoas olhem com atenção para objetos que normalmente passariam despercebidos. Quando essas peças entram no espaço expositivo, elas deixam de ser apenas utilitárias e passam a revelar tudo o que carregam: técnica, memória, desgaste e tempo.

Mas gosto também da ideia de que elas continuem abertas ao uso e à interpretação. Um banco pode continuar sendo um banco, mas também pode ser visto como escultura, mesa lateral ou objeto contemplativo. Acho bonito quando o significado dessas peças continua mudando com o tempo.

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Móveis atravessam décadas sem fazer muito alarde, silenciosamente. Permanecem ali enquanto o entorno muda, acumulando riscos, pequenas assimetrias, manchas de sol, marcas de mãos. Um banco de madeira, por exemplo, guarda bem mais que o sentar. Guarda um modo de viver, marcas de convivência e uma relação muito específica entre pessoas, território e matéria.

A exposição Assentos de origem, realizada pela Amarello em parceria com o antiquário Cristiano Ross, apresenta bancos, mochos e banquetas produzidos por imigrantes alemães e italianos no Sul do Brasil. Expandindo o que seria uma pesquisa linear, a seleção nasceu dos encontros que Ross acumulou ao longo dos anos em sítios, serrarias, casas antigas, depósitos e pequenas cidades do interior sulista. São peças feitas em cedro, cabriúva, canjerana e outras madeiras que carregam, numa só, a memória de técnicas europeias e a adaptação inevitável à paisagem brasileira.

Esses objetos não nasceram para estar em galerias, foram concebidos para o uso diário: ordenhar, cozinhar, esperar, conversar, alcançar uma prateleira alta, descansar depois do trabalho. Muitas dessas peças surgiram em oficinas improvisadas, em pequenas propriedades rurais, construídas por pessoas que precisavam transformar escassez em permanência. As madeiras disponíveis eram outras, mais densas e duras, exigindo adaptações constantes das técnicas trazidas da Europa. O desenho, portanto, vinha menos de uma ideia de estilo e mais da necessidade e da intimidade com a matéria.

Talvez por isso os assentos reunidos na exposição revelem uma beleza difícil de separar da experiência, da praticidade. Em algumas peças aparecem construções mais rígidas e encaixes precisos, associados à tradição alemã. Em outras, percebe-se uma relação mais intuitiva com a madeira, com soluções improvisadas e menos rígidas, frequentemente ligadas à imigração italiana. Nenhuma delas parece interessada em perfeição estética. O valor está na permanência de um objeto que seguiu útil durante décadas.

A imigração europeia no Sul do Brasil costuma ser lembrada pela arquitetura, pela culinária ou pelas festas populares. Os móveis do cotidiano, no entanto, acabam sendo esquecidos quando a conversa é sobre legado, talvez porque pertençam a uma escala mais íntima da cultura. O que pode acabar passando batido, e que guarda a maior beleza, é que um banco não monumentaliza a história, ele participa dela de maneira discreta. Nessas peças cabe muita humanidade. Elas condensam hábitos, repertórios técnicos e relações familiares. Um assento carrega a altura de uma mesa, a postura de quem trabalha, o tamanho de uma cozinha, a lógica de uma casa construída coletivamente. 

Ao longo do tempo, essas linguagens deixaram de pertencer integralmente à Europa. Misturadas ao cotidiano rural brasileiro, às madeiras locais e às necessidades práticas daquele território, acabaram formando uma produção híbrida, impossível de separar completamente entre herança e transformação.

Também chama atenção a inteligência prática presente na seleção. Há soluções estruturais sofisticadas escondidas sob aparente simplicidade. São objetos produzidos sem preocupação formal com o design, mas capazes de resolver problemas de maneira sofisticada, econômica e durável. Existe uma relação direta entre necessidade, estrutura e forma. 

Algumas peças encontradas por Cristiano Ross sobreviveram porque continuaram úteis durante décadas e, portanto, carregam consertos improvisados, deformações e desgastes que revelam uma espécie de biografia material. Às vezes, um reparo antigo diz mais sobre o valor daquele objeto do que sua construção original. 

Reunir esses assentos dentro da Amarello é deslocar o olhar sobre o design brasileiro. Em vez de partir de autores consagrados ou da ideia de peça assinada, aproxima as pessoas de uma produção anônima, construída por comunidades de imigrantes que moldaram sua identidade entre tradição e adaptação. O que se sobressai não é apenas a influência europeia preservada no Brasil, mas algo transformado pela matéria local, pelo trabalho rural e pelas circunstâncias de um novo território.

Assentos de origem deixa claro que a cultura também se preserva através das coisas simples. Um mocho gasto pelo tempo pode contar muito sobre pertencimento, deslocamento e continuidade. Há memórias que não foram escritas em documentos ou fotografias. Permaneceram na madeira, nos encaixes, na altura dos assentos, na insistência de peças que seguiram existindo, porque alguém continuou encontrando utilidade e beleza nelas.

Assentos de Origem
Amarello e Cristiano Ross
A partir do dia 28 de maio na Amarello, Loja & Café
Rua Dr. Melo Alves, 780, em São Paulo.

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Lançado em 2025, Ano Passado acompanha um período devastado por rupturas íntimas e coletivas: um amor que se transforma, a memória que falha, o corpo que reage e o mundo que colapsa. Em entrevista, a autora nos conta como a poesia pode ser ferramenta para responder ao agora e a escrita pode funcionar para recuperar o que nos escapa. 

O livro tem um diálogo com o formato de diário. O que te interessa nesse formato híbrido entre o registro e a fabulação, a interpretação? Em certo ponto, você até sugere que o diário pode ser o melhor gênero dentro da ficção. Como tudo isso entrou no projeto que você tinha do livro?

Júlia de Carvalho Hansen: Tem a ver com a minha experiência e os meus processos de escrita. Acredito que eu escreva diário há provavelmente uns 18, 20 anos, porque é uma forma de sobrevivência da minha sensibilidade. É como se o diário me colocasse em alto contato com o teor da matéria da minha vida. E, ao mesmo tempo, eu percebo que ele é um registro muito múltiplo. Meus diários nunca partem de uma formulação como “hoje eu acordei de manhã e fui fazer musculação”. A verdade é que eu persigo o que os meus diários falam, do cansaço de subir à rua, o que se deu quando passei pela
experiência de um divórcio anos atrás. Então, escolhi que o Ano Passado fosse em formato de diário por sentir que o registro do diário abarca um tipo de construção que eu pratiquei muito na escrita, e me interessava fazer uma transposição de uma prática individual para um registro de livro.

E veio também de um interesse de um projeto. Alguns dos meus livros são projetos, alguns acontecem. Por exemplo, o Seiva Veneno ou Fruto [lançado em 2016] aconteceu. Mas o Romã [de 2019] nasceu num projeto. O Ano Passado nasceu num burnout. Eu estava, acredito, há uns três anos sem escrever com projeto e se eu não escrevesse eu ia adoecer, eu ia enlouquecer, eu tinha que voltar. Se eu desse uma síntese de estrutura a ele, ela começaria dizendo que o livro é um livro de poemas estruturado em forma de diário, o que também faz dele uma narrativa como um romance. Então eu jogo com isso. Você pode pegar um poema e ler separadamente, ele soa de um jeito, mas, se você lê na sequência, ele continua se expandindo, afinal, ele é a estrutura de um romance. O poema tem histórias, tem narrativas, tem várias linhas. E, nesse sentido, ele passa totalmente por uma experiência que é romanesca. Era um projeto que me interessava como escritora, pela experiência acumulada dentro do gênero; era um projeto que me era necessário como ser humano para sobreviver. E, ao mesmo tempo, eu entendi logo no começo que isso produziria uma construção de um livro que jogava com muitos gêneros, e isso também me interessou.

Foto de Renato Parada.

Na poesia, há uma tendência de leitura mais pessoal, de aproximação entre eu lírico e autoria. Como você vê essa relação? Você trabalha com esse jogo também?

JCH: Eu não saberia dizer se em toda a história da leitura as pessoas tiveram essa impressão de que o eu lírico na poesia é mais aproximado da autoria do que na prosa. Mas eu acho que a gente vive num tempo em que os prosadores, por exemplo, estão entrando mais em um registro do tipo biográfico. Não à toa, talvez o gênero mais vendável dentro da prosa hoje seja a autoficção. Neste gênero, os prosadores precisam estar decididos se se trata da “minha vida” ou se se trata da “minha vida recriada”. Coisa que, na poesia, eu acho que não é necessária. Claro, existem poetas que tentam escapar disso e se tentam, deve ser porque, no contemporâneo é preciso tentar escapar disso; senão, a tendência é de uma coisa grudada de uma relação muito próxima entre o eu lírico e a autoria.

No meu caso, eu sou uma poeta que, se Ana Cristina Cesar não tivesse existido no meu campo de leitura, eu não teria a menor ideia do que eu escreveria. E acredito que isso vale para a maior parte, ou grande parte, da poesia brasileira contemporânea. A Ana Cristina é um ponto daqueles que tem um antes e depois que é drástico. E eu acho que aprendi com a poesia dela que esse tipo de jogo literário, que é um jogo de efeitos, é extremamente sedutor. Essa câmara de ecos (pra citar o Waly Salomão) é um campo de estratégia que eu tenho. 

Há um diálogo com a autoficção e com essa expectativa contemporânea de exposição do autor. Como isso atravessa o livro?

JCH: Eu tinha baixado no meu celular um aplicativo que se chamava Diário para me ajudar a escrever, porque, basicamente, há muitos anos eu noto que o meio no qual eu escrevo interfere na escrita — e isso eu estou falando mecanicamente, se estou escrevendo à mão com uma caneta, se estou escrevendo digitando no computador ou se estou escrevendo no celular —, as velocidades que eu consigo escrever são muito diferentes. Obviamente, escrever no computador é muito mais rápido do que no celular e à mão é muito mais lento, mas digo isso porque eu comecei a fazer experimentos de textos escritos no celular e também esses experimentos de escrever, não pensar muito, postar e ver o que acontecia nas redes sociais. 

Talvez a grande metalinguagem desse livro seja algo muito radical e que também veio a partir da ideia de que se ele era um diário, eu comecei a achar isso completamente necessário de fazer: se traduz numa série de questões sobre o tempo. Sobre o tempo, a metamorfose, as transformações, as coisas que acontecem pelo destino e que nos atravessam e que a gente não tem escolha, ou como a gente se porta perante essas coisas. É uma coisa muito abstrata, mas, ao mesmo tempo, foi uma tentativa de figuração disso no livro.

O tempo, de fato, é algo super importante no livro, tem a cronologia ali definida, o tempo está no título do livro. Qual foi a relação com isso no processo de escrita? Você sente que escrever te dá um certo poder sobre o tempo?

JCH: Quem dera [risos]. Eu estava lendo um livro do Bashô, o poeta japonês, que está até em uma das epígrafes do Ano Passado. Esse livro dele é organizado pelas estações do ano. Então, você tem, assim, “primavera” e 20 haicais; “verão” e 30 haicais…” Cada uma dessas partes tem um clima. E aí eu percebi que eu gostaria de fazer um livro em que as partes dele acompanhassem uma movimentação das estações do ano. Mas que também acompanharam o fato de que a gente vive num tempo de transição climática, em que as estações do ano estão deixando de existir. Então, nesse sentido, meu livro também é um livro de memória sobre um tempo que está se perdendo.

Mas eu também diria, e aí pega num lado biográfico, que é um livro sobre grandes encerramentos de época da minha própria vida. Eu acho isso muito forte no livro, essa questão da passagem do tempo. E até mesmo ele se chamar Ano Passado… Romances têm um título assim. Eu quero que a pessoa entre na livraria, veja e pense “é um romance… Não, que esquisito, é um livro de poemas”. É um livro sobre a minha separação do meu ex-marido e é um livro sobre o envelhecimento do meu pai. E eu lancei o livro em junho do ano passado [2025], e tanto o meu ex-marido quanto o meu pai morreram depois da publicação do livro. É como se, de repente, o livro tivesse ganhado uma perspectiva na minha vida ainda mais louca.

Depois de publicado, como a sua relação com o livro costuma se transformar? Ele se torna mais distante, mais claro ou mais complexo?

JCH: Eu penso muito sobre isso. Atualmente, quando publico um livro e me dão parabéns, eu fico sempre com mixed de feelings, porque a minha sensação é que perdi o meu brinquedo, eu estava dentro dele e, de repente… E também é como se eu entrasse num momento posterior em que eu não consigo escrever poemas. É como se eu entrasse numa entressafra, aquela coisa que a Clarice Lispector falava: “se eu não escrevo, eu estou morta”, e, ao mesmo tempo, ela contava que morria entre os livros, que ficava sem conseguir escrever. Eu não fico sem conseguir escrever em todos os gêneros, mas, poesia, sim. E, como isso me aconteceu entre todos os meus cinco livros, hoje em dia, quando me acontece, já não me angustia. Eu sinto falta, mas sei que, em algum momento, isso deve voltar, porque, afinal, é o que eu gosto de fazer, é o que eu sei fazer, é o que eu preciso fazer.

Às vezes eu tenho a autoestima literária da Hilda Hilst. Eu bato o olho, releio e falo: “Nossa, arrasei, como há 10 anos eu já era inteligente”, sabe? E, às vezes, eu quero morrer de vergonha por uma vírgula mal colocada. E, com o Ano Passado, quando eu o publiquei, sabia que ia levar tempo para as pessoas começarem a ter reações. Primeiro porque ele é um livro propositalmente extenso. O Schneider Carpeggiani, que foi o editor, na primeira vez que eu apresentei o livro para ele, temi que ele fosse aplicar o método clássico do editor, da castração. Mas ele, generoso, falou para mim: “mais, aumenta”. Então eu imaginava isso, que ia demorar para as pessoas começarem a falar sobre o livro. E sinto que isso está começando a acontecer agora. E agora, depois de quase um ano, sinto que eu ainda não conheço o Ano Passado. No sentido de que, como ele é muito múltiplo, tenho essa sensação de que eu mesmo ainda estou assimilando. 

Sua escrita articula o íntimo e o coletivo, o cotidiano e o cósmico. Como essas camadas se encontram aqui?

JCH: Eu comecei a escrever esse livro com um burnout que tive no começo de 2022. E a primeira vez que eu tive Covid foi no meio de 2022. Covid é a mais recente das experiências coletivas, não? Então tem, por exemplo, sonhos que estão bem no meio do livro, que são sonhos que eu tive com Covid, e realmente foi naquele meio de ano. E, ao mesmo tempo, o livro, embora ele seja sobre um ano, eu escrevi entre o começo de 2022 e o começo de 2025. Então, foram três anos de um arco de escrita. Tem um poema do Seiva Veneno ou Fruto, que começa assim: Foi-se o tempo/ em que confundi ação/ com a fúria do movimento. E esse poema é muito exemplar disso, porque é como se estivesse falando de uma metamorfose, de um furacão acontecendo em simultâneo a uma lavagem de prato. E há esse íntimo e essa relação com um macro que é terreno, telúrico, mas também é cósmico. Ele também é espiritual. Eu acho que isso não só constitui a minha poesia, mas me constitui. Eu sou astróloga. Por exemplo, quando eu estava falando sobre a divisão em estações do ano, essa divisão também é uma divisão astrológica. 

Há muitos anos eu me interesso por um campo contemporâneo que é um campo de pesquisa do conhecimento e dos saberes entre espécies. O animal, o vegetal, tudo isso me interessa muito desde criança. Tenho um convívio entre as espécies que é um convívio bastante horizontal. Isso guia muito as coisas que eu vou escrevendo, porque essas espécies nos ensinam muito a poder conviver com uma experiência que é respirarmos todos juntos dentro de um planeta, um oxigênio só. Isso é coletivo. Mas, ao mesmo tempo, sou uma escritora paulistana com consultório astrológico lotado, onde eu atendo sei lá quantas pessoas por mês, que me falam o tempo inteiro da intimidade delas, das vidas particulares, de coisas que são muito privadas. Então, de certa maneira, eu acho que meus poemas vão jogando com isso, onde tem uma experiência que é altamente subjetiva, altamente individual, mas que, no fundo, o que eu acho que interessa é essa vibração do casulo da borboleta. Acho que a vida está nessas coisas.

É um livro muito narrativo, e a cronologia contribui para isso. Havia uma estrutura pensada nesse sentido, com um percurso mais definido, de começo a fim? E como é a sua relação com a narrativa dentro da poesia, isso é algo mais recente na sua escrita ou já vinha se formando ao longo do tempo?

JCH: Entre os meus livros, só o Ano Passado é assim. Foi uma coisa muito da feitura, muito mais do que da minha experiência de leitora. Como leitora de poesia, acredito que eu precisaria pensar um tempo, mas acho que não, que a maior parte dos livros de poesia que mais me fascinam têm estruturas mais abertas. Mas não tenho certeza. Li muito os livros da Louise Glück durante a pandemia e a li muito para escrever esse livro, e ela é muito sofisticada, uma coisa de que você nem nota qual é a estrutura, a não ser que você tenha lido, lido, lido, daí você vê que a estrutura está lá. E eu, na prosa, nos últimos anos, acabei lendo muitas coisas de autoficção e sempre me interessei muito pela autobiografia. 

Embora tenha pescado as estações do ano do Bashô, eu acho que não houve nenhum modelo para eu fazer esse livro. Foi quase como se eu percebesse: se eu não fizer uma estrutura no Ano Passado bem formal, ele vai ser um livro ilegível. E eu quero que ele seja legível. Para trabalhar com essas grandes questões do tempo, acho que era importante, que ele fosse linear.

Há mais espaço para poesia hoje em dia? 

JCH: Acho que sim. É aquela coisa que a Ana Cristina César dizia: a poesia é telegráfica. E, em algum sentido, a poesia pode corresponder a um contemporâneo que vive pela imagem. Eu acho, como poeta, como astróloga, que a gente vive mesmo um fim de época que é um início de época. Astrologicamente, 2026 é o primeiro dos anos que é um início, dentro de muitos que vinham sendo o fim, desde 2020. E, certamente, como todo início, ele é muito desconhecido, nos apavora, o presente tem muitas coisas que a gente desconhece. Mas uma coisa que eu entendo é que a gente vive, contemporaneamente, uma crise muito violenta do que é o indivíduo. A gente vive num tempo em que o individualismo é muito reificado, likeado, tagueado, mas que, ao mesmo tempo, esses indivíduos em nós, que reiteram atitudes de sobrevivência egóica, digamos assim, também não têm a menor ideia de quem são.

E eu acho que (é claro que estou puxando a sardinha para o meu lado), mas dentro do campo das artes, a poesia trabalha com esse tipo de questão sempre. A poesia sempre começa com um desentendido, com um enigma, com uma impossibilidade de sujeito que precisa passar pela experiência para que ele exista. Assim, acho que a poesia também responde a um problema de época, ou melhor, da nossa época.

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Em novo livro, a autora faz do ato de escrever ferramenta para expandir o tempo e reorganizar o que nos escapa.

O livro mais recente da poeta Júlia de Carvalho Hansen, Ano passado, acompanha a experiência de um ano vivido em meio a mudanças que não se organizam em ordem clara: um amor que se esvai, o corpo que reage ao mundo, o pai que envelhece e perde a memória, a cidade que sufoca, a natureza que insiste e falha, o tempo que se embaralha entre passado, presente e algo que ainda não aconteceu. O livro descreve esse conjunto de forças sem separá-las, como se tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo dentro e fora de quem escreve, e como se viver fosse justamente tentar sustentar essa sobreposição sem reduzi-la a uma explicação única.

Ano Passado, publicado pela Editora Nós.

Partir de um gesto simples e o tensionar até que ele se transforme em outra coisa pode ser um tiro no pé, a não ser que você use isso a seu favor. Ano passado se joga e prospera trabalhando com talvez o formato mais íntimo e universal, o de diário. Datar a experiência, registrar os dias, marcar o tempo como quem tenta acompanhá-lo. Mas, ao longo das páginas, isso deixa de ser uma mera ferramenta de organização e passa a ser um campo de instabilidade, um gesto que se revela quase um anti-diário, atemporal, um exercício de dilatação que vai contra a própria natureza do tempo. 

E é aí que o livro ressoa sua força.

Muito embora haja uma progressão, uma travessia que dura mais ou menos um ano, essa estrutura conduz a uma narrativa que não é necessariamente linear. O que se acumula não é uma sequência de acontecimentos, mas um conjunto de estados que se reconfiguram a cada entrada.

A escrita da poeta não tem como objetivo fixar o vivido. Na verdade, ela vai na contramão disso, expondo a dificuldade de fixação. Há uma fricção constante entre o desejo de registrar, e o consequente registro, e a impossibilidade de estabilizar o que se vive. O tempo aparece como uma ideia em que diferentes camadas coexistem: infância, presente, memória familiar, imaginação, referências literárias e culturais, tudo se infiltra no agora, que, em si, é uma abstração. O efeito é o de um presente expandido, que não se deixa limitar pelas datas que insistem em o nomear.

E o uso do diário não é apenas formal. Ele funciona também como uma espécie de dispositivo crítico. Ao adotar uma forma associada à intimidade e à continuidade, o livro revela as falhas dessas noções, com lacunas, repetições, interrupções, deslocamentos. O diário, aqui, faz cara feia para a coesão e evidencia o quanto a experiência da vida, em especial as experiências mais intensas como as vividas no livro, escapa a qualquer tentativa de ordenação.

Julia de Carvalho Hansen por Renato Parada.

A própria ideia de memória é colocada em questão. Em vez de recuperar o passado como algo definido, os poemas mostram como ele se recompõe a partir do presente. Lembrar não é acessar um arquivo, talvez esteja mais para uma reorganização de fragmentos, como imagens, temas e situações que retornam sem se fixar completamente, respingando umas nas outras. Cada retorno altera o que veio antes e o que está por vir, criando um caleidoscópio sedutor que vai apresentando cores novas a cada leitura.

Essa lógica de recorrência atravessa, inclusive, a linguagem, já que o livro articula registros distintos sem buscar uniformidade (o que, de maneira paradoxal, estabelece uma espécie de unidade conceitual). Há passagens em que o tom se aproxima da conversa, outras em que se densifica em imagens mais concentradas e tom etéreo. Referências a mitologias, à astrologia, à cultura pop, à vida cotidiana e à tradição literária aparecem lado a lado, sem hierarquia evidente. E a linguagem acompanha a convivência dessas camadas, incorporando ao invés de depurar.

O efeito é o de uma escrita que aparenta pensar enquanto acontece. Essa dimensão processual aparece com força na maneira como o livro lida com os acontecimentos. Do fim de um relacionamento amoroso, numa escala íntima, à percepção de um colapso ambiental, numa escala global, tudo surge como parte de um mesmo campo, sem que um elemento se imponha sobre os outros. Mas a narrativa dá um jeito de se fazer bastante presente nesse caldo. Um livro de poesias, como é comum que se esqueça, pode ser muito narrativo, e Ano Passado é um deles.

A presença do pai, em especial, atravessa o livro como um ponto de inflexão e um forte marcador de intervalos temporais. A perda progressiva da memória introduz uma outra relação com o tempo, marcada pela descontinuidade. Aquilo que deveria garantir permanência se fragiliza, enquanto fragmentos de linguagem, como versos ou citações, permanecem. A dimensão familiar que não se fecha no âmbito privado reverbera na maneira como o livro pensa em herança, continuidade e ruptura. O que se recebe dos outros não é apenas memória, mas também impasse. E escrever passa a ser uma forma de lidar com isso. 

Ao mesmo tempo, a escrita não se mantém centrada em uma interioridade. O mundo entra pelos poemas de forma insistente: plantas, insetos, fenômenos climáticos, paisagens, cidades, catástrofes ambientais. Se não como cenário, como parte ativa da experiência. É simbólico que as datas passem pelo período de pandemia, tempo em que o caos coletivo invadia a vida enclausurada pelas rupturas gritantes da tela do celular.

A ideia de fechamento se contrapõe, e de algum jeito também se soma, à ideia de acúmulo. Os poemas se empilham para criar uma espécie de sedimentação e oferecer uma conclusão aberta. Nada é resolvido de uma vez. As questões retornam, se transformam, se rearranjam. 

Um ano que não se fecha porque continua em curso na linguagem. Um conjunto de tentativas de dar forma ao que escapa, sem a expectativa de capturá-lo por completo. O que permanece não é uma história, mas o ritmo de uma escrita que acompanha a vida enquanto ela ainda não se decidiu.

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Na tradição italiana, o amargo ocupa o centro da forma de beber. O sabor aparece em clássicos como o Negroni e o Americano, fazendo dele eixo de equilíbrio. Bebidas pensadas a partir de infusões de ervas, cascas cítricas, raízes e especiarias ajudam a abrir o paladar e organizar o gosto. É dessa base que nascem também os spritz e outros aperitivos mais leves, no qual o amargo não pesa, mas alonga, refresca e puxa o próximo gole. Funciona como um fio condutor que sustenta a estrutura do copo e permite variações sem perder o sentido.

É na mistura e criatividade, algo que o Brasil faz tão bem, que novas possibilidades ganham corpo. A estrutura clássica europeia, como os amargos, os aperitivos e a lógica dos spritz, serve como base para a entrada de ingredientes que deslocam o eixo do sabor. As escolhas constituem o ato de trazer o familiar para um território onde ele se reconhece de outra forma.

Na Amarello Loja & Café, o novo cardápio de drinks chega para dar continuidade a uma identidade que já vinha sendo desenhada em camadas. Agora, o gesto de olhar para fora sem perder o sotaque de dentro fica ainda mais evidente. A autoria é de Marina Hernandez e Carlos Siffert, que organizam essa travessia com toda a sua sensibilidade, precisão e leveza. 

Dry Martini
Caipirinha

Segundo Marina, o cardápio nasce de uma combinação que, à primeira vista, pode parecer improvável, mas que encontra equilíbrio no copo: “A ideia do cardápio foi trazer essa alma ítalo-caipira, partindo de uma base clássica, como vermouth, campari, os spritz, que transitam do mais intenso ao mais leve, e, a partir daí, juntar tudo isso com essa camada brasileira.”

Ponche
Macunaíma

Há também uma decisão clara de não transformar o cardápio em um exercício de complexidade. Muito pelo contrário. Existe um cuidado em manter a leitura simples. “A ideia”, conta ela, “é que não sejam drinks complexos, mas sim fáceis de entender.” Isso permite que o repertório do cliente encontre pontos de contato imediatos, enquanto pequenas variações vão revelando a assinatura da casa.

Essa leveza se desdobra também no tempo. Os drinks não estão presos a uma ocasião específica, mas acompanham o ritmo do dia. “Eles podem ser tomados ao longo do dia, por isso até a referência do rabo-de-galo, que é uma coisa mais fim de tarde, noite. E o Macunaíma, que é um drink mais fresco, bem autoral, brasileiro.” Entre o entardecer e o calor do início da tarde, o cardápio se movimenta sem rigidez e representa o espírito da loja como um todo.

O twist final, a azeitona que completa esse bebericar em brasileiro, é uma ideia de cuidado que não se anuncia em excesso, mas se deixa perceber nos detalhes. “A gente quis fazer tudo com a assinatura mesmo da Amarello, com cuidado, com o gelo de qualidade. E isso vale para todas as bebidas” Há rigor na escolha, mas também contenção, uma tentativa de deixar que cada elemento apareça sem ruído.

Marina falou um pouco sobre alguns destaques do cardápio:

GARIBALDI

“Campari com suco de laranja. Além de ter só um Campari Spritz, que é o Campari com uma coisa mais gasosa, que pode ser água com gás, a gente colocou o Campari com o suco de laranja. Então, vai uma raspinha de laranja bem interessante, criando um drink mais fresco, porque dá uma equilibrada um pouco na amargura do Campari.”

NEGRONI

“Uma coisa muito legal nele é o amargo de jurubeba. Ele é como se fosse um vermute, só que feito com jurubeba, que a gente colocou para dar um toque mais poderoso. Então, dá um amargor diferente, bem interessante.”

Negroni, o clássico dos clássicos.

SPRITZ AMARELLO SIDRA E SPRITZ CAMPARI

“São bebidas mais refrescantes. No Spritz Amarello, ao invés de espumante, a gente colocou a sidra que funciona super bem e dá uma leveza. O Spritz Campari a gente manteve normal com a sidra, sempre com laranja acompanhando.”

MOCKTAIL

“Bebida sem álcool. A gente colocou uma infusão do chá, feita com uma florzinha que chama clitoria, então fica meio azulado. Esse chá é de uma empresa chamada Brilha. Também colocamos a calda da compota de jabuticaba, que adoça um pouquinho esse esse drink. E aí bastante limão e água com gás para deixar como se fosse uma soda italiana. Ela tem um pouco esse pertencimento aí do italiano, do ítalo-caipira, mas a gente trouxe para a realidade dos produtos da Amarello.”

Mocktail Soda de limão e jabuticaba

MACUNAÍMA

“Brasileiro, paulistano. É um drink leve, com um pouco de Fernet, que traz uma profundidade, mas é um drink feito com cachaça. Ele faz um contraponto com a caipirinha. Acreditamos que vai ser um drink que as pessoas vão gostar bastante.”

Macunaíma

É um exercício de síntese: poucos elementos, bem escolhidos, organizados de forma a sustentar uma ideia clara. Entre o amargo italiano e a fruta brasileira, entre o clássico e o cotidiano. É um ponto de equilíbrio que não precisa se impor. Ele simplesmente acontece.

Marina Hernandeztransita entre cozinha, ensino e televisão, tendo sido treinadora gastronômica no Infiltrado na Cozinha, apresentadora do Cozinha Caseira e consultora em Que Seja Doce e Batalha dos Confeiteiros. Carlos Siffert é consultor da Casa Santa Luzia há mais de 15 anos, desenvolvendo receitas especiais e cardápios sazonais, além de ser professor na Escol

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Muito embora o contato entre as pessoas esteja cada vez mais amplo, com um oceano a nada mais que um celular de distância, e por mais que as cidades estejam cada vez mais habitadas, com multidões saindo da China à Índia, passando por São Paulo, estamos — paradoxalmente — mais solitários que nunca. 

Em pleno século XXI, ao presenciar a onipresença da imagem em uma globalização que possibilita ligações de vídeo instantâneas com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, a solidão é, sim, um fenômeno em ascensão, algo que tem afetado cada vez mais pessoas em todo o mundo. Quando pensamos em solidão, claro, não estamos falando apenas da ausência de companhia pura e simples, mas de um sentimento profundo de isolamento e desconexão, que acomete com violência (ainda que os “alvos” estejam rodeados por pessoas). Dura, e inquestionável, realidade: é possível nos sentirmos sozinhos e desamparados nos mais populoso dos contextos. 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 20% da população mundial sofre de solidão crônica, e esse número tende a crescer. No Brasil, uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2021 apontou que 45% dos brasileiros se sentem sozinhos.

Nos últimos anos, a pauta veio ainda mais à tona com a crise da Covid, que agravou a situação. Segundo a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, durante a pandemia, 1 em cada 4 adultos relatou se sentir solitário com frequência. Entre os idosos, esse número foi maior, chegando a 43%. A diminuição do contato social, forçada pela necessidade de quarentena, combinada ao aumento natural da ansiedade e do estresse, podem ter contribuído para os aumentos nos números. E a coisa toda, como hoje em dia sabemos bem, se estende a implicações para lá de sérias: estudos indicam que a solidão crônica pode aumentar o risco de doenças cardíacas, diabetes, depressão e ansiedade, para não falar de quedas acentuadas na qualidade do sono. Essa somatória de fatores implica em um impacto na longevidade, podendo aumentar o de morte prematura em 26%.

“Agir é mais importante que nunca”
— Diana Barran, Ministra da Solidão do Reino Unido

Recentemente, o Reino Unido e o Japão criaram ministérios dedicados à solidão, reconhecendo a crescente epidemia em todo o mundo. O Ministério da Solidão do Reino Unido foi criado antes da pandemia, em 2018, com o objetivo de coordenar os esforços governamentais e de organizações voluntárias para combater a altamente disseminada sensação de desamparado nos países britânicos. De acordo com a Cruz Vermelha local, mais de 9 milhões de pessoas no Reino Unido se sentem solitárias. O ministério, portanto, colabora com organizações de caridade, grupos comunitários e empresas para elaborar programas e iniciativas. Foi criado também o Dia da Amizade (30 de julho) para incentivar as pessoas a se conectarem com outras e combater quaisquer sentimentos de desconexão que possam estar sentindo. 

No Japão, a solidão é ainda mais pronunciada, com a sociedade japonesa apresentando uma alta taxa de isolamento social, especialmente de pessoas que optam por não casar ou ter filhos — por se tratar de uma cultura bem tradicionalista e rígida, aqueles que optam por seguir caminhos alternativos tendem a se distanciar, e serem distanciados, pela sociedade. Em resposta a isso e ao aumento da preocupação com o bem-estar social imposto pela pandemia, o governo japonês criou o Ministério da Solidão em fevereiro de 2021. O ministério trabalha em estreita colaboração com a comunidade local para identificar as pessoas que estão em risco de solidão e isolamento social, fornecendo-lhes o apoio necessário. Também exploram a possibilidade de criar um aplicativo que possa ajudar as pessoas a se conectar com outras pessoas que têm interesses semelhantes, criando uma rede de apoio e amizade.

Por que agora? A solidão, é bem verdade, sempre esteve aí. Agora, ao menos, fala-se mais abertamente sobre ela, assim como outras questões importantes antes não abordadas, como depressão, ansiedade e tantas outras. Esse tipo de tabu vem sendo vencido aos poucos. Coordenar esforços do governo, de organizações voluntárias e de empresas, criar programas e iniciativas, tudo isso representa um ótimo passo. Os Ministérios da Solidão do Reino Unido e do Japão, que poderiam existir desde sempre, são sintomáticos — demorou, mas, ao menos em algumas partes do mundo, chegou-se lá e, finalmente, como quem chega atrasado mas é abraçado no limiar da porta, reconhece-se: esta, afinal, é uma pauta de saúde pública.

A solidão nas grandes cidades é um tema tão comum quanto complexo. A um só tempo, as cidades concentram um número imenso de pessoas em um espaço limitado, o que pode parecer propício à construção de relacionamentos e convivência social, mas também bafejam sobre si mesmas uma neblina solitária, já que esse mesmo ambiente, de tão impessoal que pode ser, é capaz de gerar um sentimento de isolamento.

Uma das razões para isso é a falta de conexão emocional com as pessoas que estão ao nosso redor. Em meio à agitação do dia a dia, muitas vezes não há tempo para conversar ou interagir com os outros, o que pode resultar em um sentimento de desconexão. Além disso, a vida na cidade muitas vezes é marcada pela competitividade e individualismo, o que dificulta a construção de laços afetivos.

Para combater a solidão nas grandes cidades, é preciso investir em iniciativas que incentivem a interação entre as pessoas, como espaços públicos de convivência, festivais e eventos culturais, e até mesmo aplicativos e redes sociais que conectem pessoas com interesses em comum. É um desafio que precisa ser enfrentado com medidas concretas, tanto por parte das autoridades quanto pela sociedade em geral. O importante é reconhecer que esse sentimento pode ocorrer em qualquer lugar, e buscar formas de criar laços afetivos e sociais que ajudem a superá-lo.

Na edição Amarello Solidão, o urbanista Anthony Ling, ao falar sobre a solidão na cidade, escreveu o seguinte:

“O que já foi um símbolo da liberdade se tornou o do isolamento, e o que era para ser planejado se tornou um caos — ou pelo menos provou que com o caos não se brinca. A cidade nos deu uma privacidade muito além do que se esperava, pois a morte dos encontros é a morte da própria cidade”.

Essa contradição, de um excesso que deságua na separação, é similar à causada pela hiperconectividade. O aumento da conectividade por meio da tecnologia pode ajudar a combater a solidão ao fornecer oportunidades para as pessoas se conectarem com outras pessoas e se envolverem em comunidades virtuais. As mídias sociais, por exemplo, são um meio de as pessoas manterem contato com amigos e familiares que estão distantes e permitir que elas se conectem com pessoas com interesses semelhantes em todo o mundo. No entanto, apresentando o outro gume, a hiperconectividade também tem o poder de trabalhar em prol da solidão, porque a conexão digital pode substituir as interações face a face, importantes para o desenvolvimento de relacionamentos significativos e a construção de uma sensação de comunidade. Um ambiente que suscita a constante comparação com os outros pode fazer florescer uma forte sensação de inadequação.

“Nenhum homem é uma ilha. Todos precisamos de ajuda de vez em quando.” 
 — Um Homem Chamado Ove (2015)

Imagem do filme “Um homem chamado Ove” (2015), de Hannes Holm. Divulgação.

O romance do escritor Fredrik Backman, publicado em 2012, foi adaptado para os cinemas primeiro em 2015. A produção sueca foi bem recebida pelo público e pela crítica, ganhando, inclusive, duas indicações ao Oscar, nas categorias de Filme Estrangeiro e Maquiagem. Agora, em versão hollywoodiana, ganha nova adaptação, chamada O pior vizinho do mundo, com Tom Hanks no papel principal. 

Qual é a história e o que ela tem a ver? Ove — ou Otto, como é chamado sob a batuta de Hanks — é um homem de 59 anos, mal-humorado e viúvo, que segue uma rotina rígida de hábitos solitários. Depois de ser demitido do lugar em que trabalhou por mais de 40 anos, ele usa o tempo livre recém-adquirido para visitar o túmulo da falecida esposa e mergulhar de cabeça em tentativas de suicídios, sempre interrompidas pelos vizinhos. Por essas e outras, ele não se dá bem com os condôminos com os quais vive por falta de escolha. Um dia, claro, sua rotina é interrompida quando novos vizinhos se mudam para a casa ao lado. A família, composta por um jovem casal iraniano e seus filhos, chacoalha a vida do homem ranzinza. Paulatinamente, uma amizade genuína se desabrocha entre eles. Com alguns flashbacks, a história mostra o passado de Ove, quando ele mesmo estava na época em que o casal agora está, e descobrimos assim os motivos que o levaram a se tornar o homem fechado que é. 

No choque entre as gerações, revivendo a dor lancinante de suas memórias e ainda tendo que lidar com o presente cada vez mais distante do passado, o protagonista reconhece, talvez pela primeira vez, a solitude. Sua redenção, ao fim, chega a partir dos outros.

A fórmula não é exatamente nova, nem a do livro nem a do filme, mas, com um bom espírito que espertamente jamais deixa de reconhecer o peso carregado por Ove, ela leva adiante uma mensagem importante: é difícil vencer a resistência que um ciclo impõe, em especial o da solidão, mas, quando há um caminho para fora da ilha própria, achar abrigo em sóis compartilhados é uma vitória. 

“How long will I be alone?”

O australiano Nick Cave — que, além de cantor, é escritor, roteirista, ceramista e muito mais, apesar de, hoje em dia, gostar de pensar em si mesmo, acima de tudo, como um pai e um marido — é responsável por uma das melhores paragens de toda a internet: a newsletter Red Hand Files. Lá, responde perguntas de fãs do mundo inteiro, com honestidade e sensibilidade acachapantes. Cada resposta, um verdadeiro sopro de empatia e esperança. Em 2019, uma fã polonesa trouxe a questão: por quanto tempo ficarei sozinha? A indagação ficou com Cave por alguns meses até que ele voltasse em definitivo à ela.

A resposta na íntegra merece ser lida. Por qualquer um. Aqui, o final dela:

“Como passei muito tempo viajando sozinho nesta turnê, me ocorreu que sua pergunta não precisava ser respondida, mas simplesmente reconhecida; que estender a mão para você, como você estendeu a mão para mim, poderia ser a resposta e, talvez, um remédio —para te dizer que você não está sozinha, nós estamos aqui, e que nós, uma multidão, estamos pensando em você.”

Na saída da ilha deserta, há uma placa que diz, em letras garrafais: Reconhecer.

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