
Com fotos de Derek Fernandes
Estar com a Carol, assim como assistir Downton Abbey, te faz uma pessoa melhor. De postura ereta e bons modos, ela é uma pessoa fina por natureza. Conheci ela recentemente pelo Rapha, nosso amigo em comum, mas tivemos uma conexão muito rápida, com mil afinidades. Já nos encontramos na Amarello e falamos das nossas avós e seus papéis em nossas vidas. Almoçamos no Jaber, no Centro, e depois compramos uma capivara para a Luca, falamos do Francis Mallmann e do tanto que amamos a maneira com que ele faz o trabalho dele.
Ela não sabe, mas a D’Arouche, loja que teve com o David Polak, faz parte da minha vida. Ela ficava no meu caminho de volta do trabalho, quando ia da Líbero Badaró para a rua da Consolação, e todo dia eu parava em frente e ficava admirando, fascinado por aquele mundo gótico-déco e exuberante, cheio de personalidade.
Em um sábado frio de chuva em São Paulo, a cidade cheia de eventos, eu e o Derek nos encontramos em frente ao seu prédio para bater esse papo delicioso, do tipo que está cada vez mais difícil de ter por aí.


Carol, a gente já conversou tanto que eu acho que nem vai ter o que falar na entrevista.
Ah, você tem tudo guardado nessa sua cabecinha?
Não, eu não tenho mais cabeça. Ontem fiquei me sentindo tão burro em uma reunião… O pessoal era tão inteligente. Um era filósofo, a outra, jornalista. E, assim, até sei as coisas, mas não consigo falar, não lembro os nomes…
Você toma magnésio?
Tomo nada.
Você tem que tomar, tá? Eu tomo muito magnésio pra minha cabeça. Porque senão…
Mas você sente diferença?
Gosto de acreditar que está funcionando, né? Senão vou acreditar no quê?
Carol, o que você mais ama sobre casa?
Bom, eu amo casa, né? É um ninho do amor. É o melhor lugar do mundo. Eu amo cuidar da casa. Eu, na verdade, acredito que fui criada para ser uma excelente dona de casa da década de 50, mas infelizmente o negócio não rolou dessa forma. Eu adoro ficar em casa, fazer coisas na casa, mas eu não sou muito habilidosa…

Em qual sentido?
No sentido de que, se eu quero mudar a mesa, foda-se, arrasto a mesa e acabo com o taco. Mas tenho a sorte de que o César é. Você não tem ideia! Ele ama fazer tudo perfeitamente. Ele coloca o saquinho embaixo de onde vai furar a parede, mede meticulosamente com a régua para fazer o furo, tira a sujeirinha e em seguida passa o pano úmido no chão.
Aí junta com a Mariluza, que trabalha aqui em casa, que ama engomar roupa. Outro dia eu ganhei da mãe de uma amiga que faleceu uma sacola cheia de bordadinhos, tipo jogo americano, rendinha, toalhinha, colcha, crochê, só que tudo guardado há um milhão de anos. A Mari lavou e engomou, passou, ficou incrível. Então eu, o César, a Mari e a Joana, que costura, somos super complementares em casa.
É uma função constante, né?
É o meu maior hobby. Eu amo. Pro meu gosto, a casa tá muito boa. Não sei se pro gosto dos outros está, mas pro meu tá…
É tão gostosa uma casa vazia assim. Uma configuração muito original.
Mas isso é uma evolução da minha parte, porque eu já tive tudo isso e muito mais dentro de um lugar até menor. Agora eu tô numa fase mais madura.
A gente vai aprendendo. Quem é ligado em casa vai evoluindo, não mora a vida toda da mesma forma.
Eu sempre falo que eu não quero ser aquela mulher de cabelo preto com biombo chinês. Então eu tento mudar dentro do que eu tenho e também faço muitos rolos, trocas, vendo uma coisa e compro outras. Com o Raphael Nasrallah, já brigamos, nos acertamos, já tivemos todo tipo de intercorrência nos nossos business.
Você faz troca com ele?
Faço direto, mas às vezes não dá bom, porque ele fica muito chateado se não é do jeito que ele quer. Mas eu amo, porque, quando vou na loja dele, quero tudo.
Sabe o que eu tenho com a loja dele? Uma surpresa de acabar comprando peças que eu nunca imaginei que fosse ter e conviver com elas. Ele conhece e sabe de muita coisa.
Porque é uma coisa de surpresa na vida. Eu adoro ir lá e mexer na minha cabeça. Aí ele vem com o xaveco do Habibi, e você fica ainda mais apaixonada com a historinha que ele conta. Quando eu ganho alguma coisa, eu mando foto e ele me dá o parecer dele. Eu nem preciso pesquisar o que ganhei, ele já é minha enciclopédia.

Que legal que você ganha tanta coisa.
Por que você acha que isso acontece? Eu tenho muita sorte. Acho que é uma mensagem que eu mando, porque aprecio tanto quando ganho e dou tanto valor.
Começou com a minha avó, aí meu pai também, a mamãe também… Bom, a mamãe era o oposto, eu chegava na casa dela e falava assim: nossa, que linda! E ela falava: vai, toma!
Meu pai não. Meu pai é um drama. Ele dá também, mas é tudo dele. Ele vem aqui em casa e fala: Carolina, já te falei, essa espanhola não é assim, é assado. É como se tudo fosse um empréstimo.
Esse seu gosto por casa vem dele?
Acho que vem da minha avó, da mãe dele. Ela tinha muito bom gosto. Também tinha uma tia-avó que tinha muita coisa boa, que não tinha tanto bom gosto quanto a mãe do meu pai, mas tinha muita coisa.
Olha, eu não tenho quase nada que comprei aqui. Eu não preciso comprar nada.
Muito curioso.
Eu sou um prazer de dar presente. Mas lógico que tem os presentes que eu, principalmente com meu pai, dou uma forçada de barra.
Como começou sua história com esta casa aqui?
Quando eu vim dos Estados Unidos, eu tinha um apartamento no Largo do Arouche que meu pai reformou pra mim. Perfeito, tudo do jeito que eu queria, até o número de tomadas.
Daí teve a história da D’Arouche, e, quando vim morar no Brasil, tive a Luca, e não tinha mais condições de ter um bebê lá no Arouche. Aí eu aluguei um apartamento aqui na Praça Buenos Aires, e o César, meu marido, morava no Centro. Foram oito anos dessa vida, eu morando com a Luca e ele morando na casa dele. Aí eu passava o final de semana na casa dele, ele passava na minha.


Que delícia!
Foi muito bom, mas, depois de oito anos, resolvemos morar juntos. Para mim, o único jeito que a gente poderia morar juntos, que poderia dar certo, seria morar numa casa com espaço, e aí eu encontrei a casa dos meus sonhos no Pacaembu, numa rua sem saída.
Mudamos e fomos arrumando a casa nos finais de semana, cozinhando, foi tudo muito maravilhoso, até o dia que fomos assaltados e a Luca falou que nunca mais entraria na casa, porque foi bem violento o negócio.
Começamos a procurar apartamento. Em uma semana não achamos nada, até entrar neste. Quando eu olhei, falei: é aqui.
Tiramos tudo da casa e mudamos pra cá muito rápido. Eu acabei guardando muitas coisas, que depois fui trazendo e arrumando aos poucos. Nem pintamos esse apartamento, e só agora o César está fazendo pequenos retoques e tal, mas coube tudo super bem, porque, quando entrei, já pensei no que cabe onde, sabe? Aqui eu vou pôr isso, aqui eu vou pôr aquilo, e as coisas vão se conectando e se formando ao redor.
E o imóvel nos ensina muito também, né?
Sim. A gente tinha uma estante enorme de livros na casa que não coube aqui, e eu achei ótimo, porque, eventualmente, não tem o espaço ou não tem o ambiente, e de repente você força uma coisa que talvez o imóvel não saiba receber.
Fui descobrindo e usando as coisas de outro jeito. Posso trocar o tecido do sofá, sentir a vibe que você está. Eu não queria um monte de coisa quando eu mudei, porque eu não sabia o quão temporário ia ser, mas agora eu acho que eu vou ficar aqui. Eu tô bem, e, no fim, descobrimos que dava super certo morar num apartamento os dois juntos.
Você acha que você transpôs a casa dos sonhos pra cá, de alguma forma?
Acho que, na verdade, eu desfiz o mito da casa dos sonhos, porque esse apartamento aqui sou eu, e talvez aquilo não era, era o que eu gostaria que fosse. Aqui funciona pra mim, é a minha cara, é onde sou feliz.
E o que você acha que a arquitetura desse apartamento te oferece, em termos de bem-estar?
Eu amo o pé-direito de prédio dos anos 50. Pra mim também não dá pra ter outro piso se não for de taco. Tem sido muito bom ficar fazendo a casa com tempo. E amo que cada um tenha o seu quarto. Eu não durmo no mesmo quarto que o César, e adoro isso.
Então, assim, a verdade é que funciona muito bem para mim, porque eu acho que fui criada para ser de apartamento. Morei em Nova York, 15 anos em apartamento, né? Morei em casa duas vezes, por pouco tempo, sempre com a minha família. Eu sou uma pessoa muito, muito, muito urbana. Fui criada assim e sempre vivi assim.
Eu amo os armários, não mexi em nada, nada, nada. Não quero ficar entulhada, sabe? Eu não quero um armário lotado. Então isso, pra mim, tá bom, esse espaço.


Você já foi muito entulhada?
Já fui muito. Casa, armário, tudo. É um jeito de pensar, um jeito de estar no mundo.
Tem uma outra coisa nesse apartamento que eu amo, que é que tem várias portas. As pessoas podem usar a cozinha e ir para o quarto delas e aqui não tem interação, sabe? É muito bem dividido esse apartamento, eu gosto muito disso. Falta um lavabo, mas tudo bem.
Como você acha que a moda impacta o jeito de morar?
Eu acho que sim. Roupa é muito importante pra mim e, realmente, se você pensar em casa e fases da vida, o meu jeito de me vestir conversa com a minha casa. Percebo muito isso.
Quando você vai na casa de uma pessoa e a casa não tem muito a ver com ela, você acha que a pessoa é meio fake, uma pessoa feita de referências de fora, que não são dela. Quem tem a casa e o look bons é um pacote premiado, né? Aí é pedir demais.

Para mim, é o seu jeito de estar no mundo. Como você viaja e o que te desperta interesse, os lugares que mexem com você e a maneira que você vai para esses lugares. Os livros que lê, como se relaciona com os amigos e com a família, como se relaciona com o seu dia a dia, a comida que come. Acho que tudo é uma coisa só.
Eu também acho. Eu gostaria muito, inclusive, de fazer um trabalho de interiores. Porque os produtos relacionados à casa são uma parte enorme de mim. Eu amo mais casa do que roupa, mas a vida me levou a trabalhar com roupa.
A grande verdade é que eu acredito que é uma visão. A minha especialidade é um olhar, e eu consigo olhar com o seu olhar. Tanto para roupa quanto para casa. Para todas as minhas amigas eu dou palpite na decoração, todas mandam foto do lookinho, e elas não saem vestidas de Carol.
E o que significa pra você tomar um cafezinho na casa de alguém?
Como sou uma pessoa que não gosta de festa, de ter várias pessoas numa mesa lotada falando muito, tomar um cafezinho com alguém é muito a minha cara, porque eu gosto de encontros one-on-one.
Eu pratico fervorosamente com as minhas amigas toda semana, encontrando para um café, para um chá ou para um bolinho. São momentos só meus e dessa pessoa, que te convida ou é convidada para a sua casa, cercada das nossas coisas, dentro do seu conforto, trocando e conversando. Para mim, é perfeito.

OBJETO DE CARINHO
Para Carolina, é muito difícil escolher um objeto só, porque ela ama muito todas as suas coisas, mas ao mesmo tempo não é apegada. Os objetos da sua casa quebram, as coisas vão, são de fases.

Tem épocas em que ela está muito apaixonada por um vaso, tem épocas em que está muito apaixonada por um pedaço de pano, mas o objeto do momento é a biscoiteira de prata que nos serviu um biscoito melhor do que o outro.
Essa foi sua última aquisição — presente, herança ou furto da casa do seu pai.
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