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Obra de Arthur Luiz Piza. Direitos reservados à Fundação Piza.
#56O que está acontecendo?Sociedade

Epidemia do desencanto: a crise da saúde mental em um mundo incapaz de imaginar o amanhã

por Christian Dunker

Falar abertamente sobre saúde mental é uma conquista enorme, se compararmos ao silêncio e ao preconceito das gerações passadas. Porém, surge um problema quando essa abertura vira uma patologização do dia a dia, construída a partir da ideia de que qualquer desconforto exige um diagnóstico e uma solução rápida, quase sempre medicamentosa. Para os mais jovens, o sofrimento deixou de ser visto como uma reação natural às pressões da vida e passou a ser encarado como uma condição crônica e incapacitante. Só que tratar essa crise apenas como uma questão individual é um erro. O sofrimento psíquico atual é a extensão de um colapso muito maior, e tentar entendê-lo sem olhar para as fraturas do nosso tempo — a crise ambiental, a precarização econômica, a paralisia política e a degradação estética — é insistir em um diagnóstico incompleto. 

Segundo o raciocínio do teórico britânico Mark Fisher sobre o “realismo capitalista”, vivemos sob o signo de um déficit estrutural de imaginação. Fomos capturados por um presente estático no qual a capacidade de projetar o amanhã foi substituída por um desânimo sistêmico, transformando o sofrimento na própria engrenagem da vida social. A virada dos anos 1980 e 1990, com o advento dos antidepressivos modernos e dos antipsicóticos atípicos, prometia que as neurociências inaugurariam uma era de controle e cura sobre a dor psíquica. O resultado, no entanto, foi um fracasso: sabemos muito mais sobre o cérebro, mas não desenvolvemos novas táticas para transformar a nossa relação com o sofrimento. 

As psicoterapias baseadas em evidências apresentam resultados que mal superam o efeito placebo, e as medicações deixaram de ser pontes de recuperação para se consolidarem como regimes de manutenção contínua. Paralelamente, a própria arquitetura diagnóstica ruiu por dentro. O DSM-5 — quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais, uma espécie de “código penal” da psique — passou por uma expansão que chega a ser até suspeita, catalogando em menos de três décadas mais de duas centenas de novas patologias sem qualquer ganho de precisão terapêutica.   

O próprio Allen Frances, psiquiatra estadunidense que dirigiu, durante anos, o DSM, admitiu que nossa forma de nomear a dor humana se tornou ampla e indeterminada demais. Isso gera uma perversão distributiva, com excesso tanto de diagnóstico quanto de remédio para quem pode pagar e escassez de assistência para as populações em situação de vulnerabilidade social. No Brasil, embora a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) seja uma excelente ideia, a falta de recursos a força a focar em casos extremos, abandonando a imensa faixa de complexidade média, ou seja, as depressões e ansiedades que, sem escuta, podem evoluir para o colapso. 

O erro metodológico está na tentativa de transplantar para o campo da saúde mental a lógica mecanicista da medicina tradicional, buscando o “princípio ativo” da dor psíquica. Mas qual é o princípio ativo do sofrimento? É o casamento falido, o racismo estrutural, a precarização do trabalho ou a solidão da metrópole? O sofrimento não é uma coleção de sintomas biológicos isolados, é o produto direto de uma forma de vida. Sob a lógica neoliberal, o mal-estar deixou de ser um limite a ser minorado para virar um poderoso instrumento de extração de valor. A pressão contínua gera o burnout, mas assegura a entrega de metas, como se a indução da insatisfação permanente alimentasse a roda do consumo. Criou-se, assim, uma população adoecida e convencida de que o desconforto não pode ser tolerado, deixando de lado a visão da dor como parte do amadurecimento para vê-la como uma falha técnica a ser corrigida a qualquer custo. 

Com a perda de força de narrativas morais, religiosas ou comunitárias que outrora davam sentido ao limite e à finitude da existência, a dor passou a ser tratada quase que estritamente como um defeito de desempenho. Prosperou uma indústria de soluções disciplinares, de modulagens da paisagem cerebral e de treinamentos de alta performance que vendem a ilusão de que esse mal-estar é apenas a incompetência individual de quem não soube otimizar a própria biologia.  

A esse ambiente de cobrança incessante somam-se as tecnologias digitais e seus impactos profundos sobre os laços sociais, gerando um debate global que já se traduz em leis de restrição ao uso de celulares em escolas da França e da Austrália. No entanto, críticos e pesquisadores frequentemente questionam essas medidas por não encontrarem uma relação direta de causa e efeito entre o tempo de tela e diagnósticos de depressão, ansiedade ou déficit de atenção. O debate público muitas vezes busca uma causa biológica simplista, mas o colapso não vem dos raios azuis do visor, a tecnologia opera por uma cadeia indireta. O uso assíduo de telas gera, ao mesmo tempo, um aumento do isolamento e uma hipersociabilidade, servindo de terreno fértil para o avanço de compulsões, adições e impulsões, cuja febre das bets no Brasil é apenas a manifestação mais recente. 

Ao rivalizar com a presencialidade, diminuir a confiança no outro, destruir a potência da intimidade e corroer a comunalidade, esse império digital alimenta uma cultura da inadequação. As pessoas são empurradas para uma espiral de fobias, como o medo constante de não estar participando ou de estar atrasado em relação à tecnologia, podendo resultar naquilo que se descreve como uma morte por desespero ou por desistência. 

Na medida em que a convivência presencial se torna mais custosa e arriscada, as pessoas se refugiam nos dispositivos digitais, buscando anestésicos de fácil acesso em redes, jogos e apostas virtuais. O dado de que mais de 40% dos jovens já recorrem a ferramentas de inteligência artificial em busca de aconselhamento terapêutico é a demonstração cabal da nossa crescente inabilidade relacional. Tudo isso revela que a saúde mental é um fenômeno covariante à qualidade das relações humanas e que construir laços de qualidade exige um ativo que o mundo contemporâneo confisca sem piedade: o tempo. Se o nosso tempo for encurtado pela exigência da performance, a qualidade relacional despenca vertiginosamente.  

Outro sintoma é o exercício da sexualidade, que vem caindo em escala global. Essa queda não vem de uma perda de libido, mas do desgaste do convívio em uma rotina engolida pelo trabalho e pela atrofia de habilidades sociais. Estar com o outro exige presença e exposição ao risco e, em um ambiente tomado por interações superficiais, o espaço público passa a servisto como um terreno minado, onde o diálogo perdeu a capacidade de mediar conflitos. Sem conseguir lidar com o peso das emoções no encontro presencial, as pessoas se recolhem em bolhas e adotam a apatia como defesa.  

Muito embora seja difícil falar de soluções definitivas, é nesse vácuo de convivência que a arte se torna indispensável. Diferente da medicina tradicional, a saúde mental se transforma conforme mudamos a forma de falar sobre ela: a maneira como nomeamos e compartilhamos a dor altera a própria natureza do sofrimento. Esse foi o tiro que saiu pela culatra quando começamos a diagnosticar além da conta. A arte, então — não a que é vendida como entretenimento rápido, mas aquela que dá nome ao que parece indizível —, é um dos poucos caminhos capazes de dar um novo sentido ao nosso mal-estar. Para além de combater os gatilhos externos da ansiedade, a saúde psíquica depende da nossa capacidade de imaginar o futuro, uma imaginação que o consumo artístico estimula ao nos reconectar com a história e com a memória coletiva. 

A partir desse resgate, torna-se possível pensar em uma oniro-política, abordagem inspirada tanto na psicanálise quanto nas cosmologias indígenas — como as reflexões do pensador Davi Kopenawa. O sonho, de acordo com essa abordagem, não é um devaneio alienante ou uma fantasia infantil, mas a capacidade de transformar a memória cultural em imagens capazes de desafiar o presente e reorganizar a política. Enquanto a única linguagem disponível for a da competição, da performance individual ou da tragédia iminente,o futuro continuará parecendo apenas uma repetição cinzenta dos nossos problemas atuais.  

A capacidade de voltar a imaginar o amanhã exige desarmar uma armadilha frequente: a conversa rasa entre otimismo e pessimismo. O pessimista escolhe o caminho confortável de esperar o pior, garantindo o luxo de sempre se dizer certo; já o otimista ingênuo prefere se anestesiar com a ilusão de que o progresso e a tecnologia resolverão tudo sozinhos. Ambas as posturas, no fim, servem apenas para alimentar a apatia. No lugar de meros pessimistas e otimistas, precisamos adotar uma atitude que recuse a promessa de que o sofrimento de hoje será compensado por um amanhã perfeito que nunca chega. A verdadeira postura crítica não minaa vontade de lutar; ela faz insurgir um desejo de futuro que recusa a espera e exige a transformação ativa do presente. 

A geração que prometeu aos jovens um mundo conectado e próspero entregou exaustão, solidão e precarização. O desespero atual é a conta de uma promessa falida. Qualquer saída real para a saúde mental e para a nossa vida coletiva não virá de novos remédios nem de receitas individuais de bem-estar, mas do próprio fim desse desencanto. Aceitar a exaustão como destino é insustentável e, no momento em que as falsas soluções fracassam, renasce a urgência de reconstruir nossas formas de vida, recuperar o tempo e resgatar a presença física do outro.  

Resta-nos reivindicar, mesmo sem garantias, a coragem de voltar a sonhar.

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#56O que está acontecendo?CinemaCulturaLiteraturaSociedade

Da produção à especulação: o poder do capital sobre a sociedade no século XXI

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Poucos livros de economia na história recente tiveram tanto sucesso quanto O Capital no século XXI, do economista francês Thomas Piketty. Publicado em 2013, a obra ganhou enorme destaque por trazer um debate muito importante no contexto pós-crise financeira de 2008. Apesar de suas mais de 600 páginas, o livro vendeu mais de três milhões de exemplares e rendeu bastante prestígio ao economista. Onze anos depois, a tese que deu um novo olhar para o debate sobre desigualdade voltou à tona com o documentário homônimo dirigido por Justin Pemberton, alertando para males do capital que se mostram extremamente atuais.

O documentário percorre três séculos de história, entre a Revolução Francesa e o crash de 2008, para nos provocar com as seguintes questões: como o modelo econômico contemporâneo reaproveitou os mecanismos das estruturas do século XIX para construir um novo regime financeiro? Quais são as consequências da concentração de riqueza e da desigualdade para a democracia e a sociedade? A obra retrata a passagem de um capitalismo industrial, alicerçado em uma economia produtiva e na geração de empregos, para uma era dominada pela especulação e acumulação de renda.

A fórmula de Piketty que investiga décadas de desigualdade

Para que seja possível entender o porquê e como a desigualdade vem crescendo nas sociedades, Piketty centraliza toda a sua tese na relação desigual entre duas importantes variáveis econômicas: a “simples” fórmula r > g, que mostra que a desigualdade tende a aumentar quando a taxa líquida de retorno do capital (r) excede a taxa de crescimento do produto (g).

Ao comparar esses dois indicadores, Piketty verificou que, historicamente, a desigualdade cresceu nos momentos em que r era maior que g, como explica a professora de economia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cláudia Tessari: “A taxa líquida de retorno do capital é o quanto rendem os investimentos, isto é, quanto rende o dinheiro aplicado em investimentos financeiros (ações, títulos públicos e outros ativos financeiros) ou aplicado em investimento produtivo (em uma fábrica, por exemplo). Já o produto (ou PIB) é a somatória de tudo o que foi produzido (bens e serviços) por um país ou uma região em um determinado período de tempo”.

Portanto, se r foi maior do que g, isso significa que o crescimento desse dinheiro aplicado foi superior ao crescimento da renda gerada a partir da produção (trabalho). “Na prática, o que Piketty mostrou é que quem tem dinheiro investido (ou seja, os milionários que têm investimentos) ganham mais que quem trabalha e vive só do salário (e, geralmente, não tem investimentos)”, exemplifica Tessari.

“Como a maior parcela da população está relacionada ao trabalho, esse retorno elevado do capital significa uma fatia maior do bolo sendo apropriada pelos proprietários de ativos (lucros, juros, aluguéis). A renda do trabalho acaba engolida, se não em termos nominais, certamente em termos relativos”, salienta ainda Fernando Batista, professor de economia na Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG).

Capital produtivo vs. especulativo

Se r > g explica por que a desigualdade cresce, o conceito de capital especulativo ajuda a entender como essa dinâmica se acelerou nas últimas décadas. Dentro da economia, o capital costuma ser separado em duas grandes formas: capital produtivo e capital financeiro ou especulativo.

O primeiro, capital produtivo, é aquele ligado ao processo de transformação de insumos em bens de maior valor agregado, como o trabalho industrial e a agricultura. Como o capital produtivo está diretamente relacionado a gerar um valor real, é necessário investir recursos em bens físicos e em mão de obra. É a partir disso que será estabelecido o primeiro fator de desigualdade no capital (depois de já determinadas as explorações coloniais, o cercamento de terras e a acumulação primitiva do capital), a bisavó da fórmula r > g: a mais-valia, conceito criado por Marx que determina o valor gerado pelo trabalho de um proletário e o valor de sua remuneração.

A partir da ascensão do neoliberalismo, na década de 1970, porém, o capitalismo passou por uma grande alteração estrutural: a financeirização. Então ganha força o capitalismo especulativo, cuja ideia é baseada na compra e venda de ativos que aumentam ou diminuem o valor sem que passem por um processo de transformação de insumos. Portanto, o capital especulativo pouco tem a ver com a natureza produtiva, ele é simplesmente uma relação de compra. Ou seja, algo é adquirido por determinado valor unicamente para ser vendido mais caro depois.

“O capital especulativo é danoso para o desenvolvimento econômico e social, pois nenhum investimento de curto prazo gera crescimento econômico nem emprego. Os investimentos que geram crescimento e emprego são aqueles longos, em que o dinheiro pode ser utilizado para ampliar uma fábrica, por exemplo, que, após ser aplicado, irá gerar emprego, produção, vendas, lucro (nessa ordem) e só então poderá retornar para o investidor na forma de rendimento”, enfatiza Cláudia Tessari.

O economista Fernando Batista também ressalta que, quando ativos primários, principalmente commodities como alimentos, petróleo, habitação e saúde, tornam-se objetos de especulação no mercado de bolsa de valores e em fundos imobiliários, o custo de vida das populações trabalhadoras se eleva sem qualquer ganho correspondente em infraestrutura ou produtividade social. A especulação faz com que os preços desses ativos passem a refletir não apenas oferta e demanda reais, mas também a busca por lucro dos investidores. Isso pode elevar os preços

de alimentos, petróleo, moradia e outros bens essenciais, aumentando o custo de vida para a população trabalhadora, cuja renda geralmente não cresce no mesmo ritmo.

Com isso, agravam-se as problemas sociais, como o desemprego, a precarização e a fome. Isso tem como resultado um maior número de pessoas sendo obrigadas a aceitar condições cada vez mais extenuantes e degradantes de trabalho.

Como o capital influencia as democracias contemporâneas?

Outro desdobramento trazido pelo avanço da desigualdade é a fragilização das instituições democráticas. Essa problemática decorre principalmente da substituição da suposta igualdade política pela supremacia financeira. Enquanto a ideia de democracia presume que cada cidadão tenha um mesmo peso decisório, a concentração de riqueza faz com que esse “poder de decisão” se afunile nas mãos de um pequeno grupo.

A partir disso, o poder econômico acumulado passa a interferir no processo eleitoral e nas instituições democráticas Esse processo se dá por meio de financiamentos de campanhas, lobbies e, fundamentalmente, pelo controle dos grandes meios de comunicação e das plataformas digitais, que moldam a opinião pública conforme seus interesses.

Mesmo em situações em que um país consegue eleger um governo mais progressista, o capital consegue exercer sua influência a partir de ameaças e chantagens. A desvalorização cambial passa, então, a se suceder, enfraquecendo políticas estatais e permitindo o incentivo às privatizações para o capital externo.

O resultado deste “sequestro” da democracia é a disseminação de uma forte apatia e a desmobilização popular. Ao perceber que a política e a democracia perderam o poder de transformação da conjuntura, boa parte da população é levada ao afastamento da participação cidadã.

A proposta reformista de Piketty Desde a consolidação hegemônica do seu sistema, diversos pensadores tentaram buscar formas de conter o avanço do capital. A abordagem mais popular é a do pensador alemão Karl Marx. Dentro do marxismo, o capital é uma relação social de exploração entre aquele que tem os meios de produção (o patrão) e aquele que vende a sua força de trabalho (o trabalhador). A partir dessa lógica, segundo Marx, a única forma de solucionar essa relação de exploração é abolindo a propriedade privada e superando o modo de produção capitalista.

No entanto, Piketty não pensa da mesma forma. Em sua crítica, o economista francês não rejeita a propriedade privada nem o livre mercado. Para ele, o grande problema do capital é a falta de equilíbrio na distribuição final da renda acumulada. Por essa razão, Piketty pode ser considerado um grande reformista, uma vez que, em sua perspectiva, é possível “domesticar” o

capital sem a necessidade de uma grande revolução ou ruptura. A sua proposta, embebida de keynesianismo, é a criação de um imposto global e progressivo sobre o capital, com alíquotas isentas ou baixas para os pequenos patrimônios e progressivamente elevadas para grandes fortunas e super-ricos.

Dessa forma, a crença do autor é de que a fórmula r > g seria freada, garantindo ao Estado a possibilidade de investir mais em áreas estruturais. Para incorporar a essa ideia, Piketty também defende transparência bancária financeira com cooperação internacional para acabar com o sigilo bancário e rastrear fortunas ocultas.

A esperança para resistir

Embora reconheça que essas ideias são um tanto quanto utópicas em um curto prazo, Piketty argumenta que elas são mecanismos fundamentais para evitar que a desigualdade volte a patamares semelhantes aos da Belle Époque. Essa reflexão traz um tom de esperança que encerra o documentário, apostando na mobilização cidadã e na ação política como formas de resistência à capital.

O professor Fernando Batista também acredita que o capitalismo pode ser ajustado e reforça que o sistema “não é uma lei da gravidade”: “O capitalismo é um elemento que vem sofrendo, ao longo da sua história, influências, impactos da própria sociedade, da própria política, e isso naturalmente faz com que o regime continue em funcionamento, mas ele vai sendo adaptado a essas alterações”, destaca. “Se pensarmos na Europa do século XX, existiam jornadas de trabalho extremamente predatórias para a classe trabalhadora e foi a partir de uma legislação trabalhista que a sociedade passou a exigir um novo um novo formato de ‘não, a gente não pode viver escravo do capital’”, ressalta.

Na mesma linha, a professora Cláudia Tessari reitera que a contenção da desigualdade depende da mobilização popular e de instituições democráticas sólidas que favoreçam a classe trabalhadora: “Foi o caso, por exemplo, do período pós-Segunda Guerra Mundial na Europa, com a constituição dos Estados de bem-estar social”, constata. “Sendo assim, concordo que somente a mobilização política da população é capaz de frear os danos causados pelo capitalismo na sociedade: destruição ambiental e concentração de renda, sobretudo”.

Mais de uma década após a tese de Piketty, a distribuição da riqueza segue se afunilando e, com ela, a precarização do trabalho, das condições de vida e da democracia. A história ensina que as conquistas sociais não nascem de forma orgânica, mas da pressão popular organizada. O grande desafio das próximas gerações será decidir se vamos nos mobilizar para transformar a realidade ou apenas viver adaptados a ela.

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No romance O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu, a humanidade recebe a confirmação de que uma civilização extraterrestre e tecnologicamente superior, os trisolarianos, decidiu invadir a terra. A sua frota levará quatro séculos para alcançar o planeta. No entanto, o impacto da notícia é imediato. Sem que uma única nave tenha chegado ao sistema solar, as estruturas sociais, políticas e filosóficas do mundo começam a se reconfigurar. O simples anúncio de uma chegada futura altera profundamente a realidade presente.

A dinâmica atual ao redor da inteligência artificial (IA) guarda uma curiosa semelhança com essa premissa. A promessa da Inteligência Artificial Geral (AGI) — ou seja, a ideia de se desenvolver sistemas autônomos capazes de igualar ou superar a capacidade cognitiva humana — opera no imaginário coletivo como a frota trisolariana. Alimentada por anúncios de empresas de tecnologia e centros de pesquisa que alocam grandes volumes de capital na corrida da IA, a promessa tecnológica exerce uma atração cada vez maior sobre a sociedade contemporânea. Não é necessário que essa superinteligência exista hoje para que seus espectros já redesenhem o trabalho, a regulação e as nossas expectativas sobre o amanhã.

Trata-se, em grande medida, de uma profecia autorrealizável. Ao projetar no horizonte a chegada inevitável de uma automação cognitiva ampla, decisões são tomadas para se antecipar a esse cenário. Essa constante antecipação alimenta um estado de ansiedade coletiva. O ponto central, contudo, é evitar a armadilha de encarar a IA apenas como um anúncio futurista ou como resultado inexorável de um plano bem arquitetado de grandes corporações. A IA, vale sempre lembrar, já é uma tecnologia concreta e funcional no presente, integrada à infraestrutura e às ferramentas de produção. O que gera inquietação, assim, não é propriamente a sua presença no cotidiano, mas a sombra que resulta da projeção de um presente em acelerada transformação tecnológica sobre um futuro incerto.

No plano econômico e do trabalho, a transformação imediata não decorre de um desemprego súbito, comumente projetado no horizonte, mas da reorganização do próprio valor da atividade humana. Tarefas focadas na análise quantitativa e na síntese documental perdem relevância, deslocando o diferencial do trabalhador para competências de mediação interpessoal e capacidade de julgamento em contextos ambíguos. Na política, a promessa tecnológica já pressiona as democracias a lidarem com o aumento da velocidade da informação e com a sobrecarga de conteúdos sintéticos, exigindo arranjos institucionais capazes de proteger a deliberação pública sem sufocar a inovação.

Na educação e na vida familiar, as mudanças atingem o coração do aprendizado e do afeto. A sala de aula é forçada a migrar do modelo focado na memorização de respostas prontas para uma formação centrada no pensamento crítico e na habilidade de formular boas perguntas. Ao mesmo tempo, o espaço doméstico e as relações sociais começam a conviver com a presença contínua de agentes virtuais e interlocutores sintéticos. Essa convivência reconfigura a gestão da atenção, tornando o tempo de convivência não mediado por telas e a presença física elementos cada vez mais raros e, por isso, valiosos.

É justamente em meio a essa reconfiguração das rotinas que o romance de Cixin Liu oferece um segundo elemento de reflexão sobre a própria natureza do ser humano. No livro, a mente dos trisolarianos é totalmente transparente: para eles, pensar e comunicar coincidem de forma imediata, tornando-os incapazes de mentir ou ocultar intenções. Em contrapartida, os seres humanos preservam o espaço individual da mente, com a capacidade de guardar segredos, duvidar, construir metáforas e habitar a ambiguidade de forma intencional. Essa opacidade interior, longe de ser um defeito de comunicação, é, muitas vezes, a fonte da arte, da diplomacia, da filosofia e, consequentemente, da singularidade da experiência humana.

À medida que sistemas de IA processam volumes maciços de informação para prever comportamentos e simular a linguagem, a sociedade se vê forçada a refletir sobre o que significa continuar sendo humano diante dessa imensurável capacidade computacional. A resposta não reside em competir com máquinas em velocidade de processamento ou em eficiência na realização de tarefas corriqueiras, mas sim em reconhecer as dimensões do pensamento que escapam à lógica algorítmica.

Nesse horizonte, o conceito de tecnodiversidade, formulado pelo filósofo Yuk Hui, torna-se essencial. A tecnodiversidade nos lembra que a tecnologia e a inteligência não são forças universais e homogêneas, mas construções enraizadas em culturas, geografias e valores específicos. Ao reduzirmos o pensamento humano a modelos estatísticos de previsão, arriscamos empobrecer nossa própria definição de mente. O raciocínio humano envolve intuição, contexto e experiência incorporada no mundo real. A intuição, por exemplo, não funciona por força bruta de processamento estatístico, mas por formas de apreensão que dependem da convivência e da memória.

As empresas de tecnologia desempenham um papel legítimo ao expandir as fronteiras da engenharia e criar ferramentas úteis para a resolução de problemas complexos. O desafio surge quando a visão de mundo focada na eficiência do cálculo é tomada como a única métrica válida para medir a inteligência. Tratar a experiência vivida como mero dado a ser otimizado silencia a pluralidade cultural e existencial que define a nossa sociedade global.

Assim, a revelação de que não estamos sós, seja diante de uma civilização ficcional ou de sistemas que imitam nossa linguagem e capacidade cognitiva, não deve conduzir à resignação passiva. O futuro da IA não é um destino pré-determinado. Ele depende de nossa capacidade de desenhar alternativas tecnológicas que valorizem a diversidade cultural, a autonomia decisória e a preservação daquilo que torna a vida interior insubstituível.

Preservar o sentido do humano na era da automação significa, portanto, proteger a opacidade da mente, a profundidade das relações afetivas e a liberdade de errar e reinventar o mundo. A promessa do amanhã continua a nos provocar e opera transformações profundas ao nosso redor, mas a construção do futuro permanecerá sempre enraizada no solo fértil (e plural) do presente.

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Ela completou 30 anos em junho de 2026, tem três álbuns solos lançados, duas indicações ao Grammy Latino e venceu uma das edições do prêmio junto à sua antiga banda, Bala Desejo. Julia Mestre tem um rosto angelical, mas exala sensualidade. Sua voz é doce, mas sua postura revela uma personalidade inquieta, de quem tem uma fome voraz de engolir a vida. Não à toa, ela está sempre em movimento nos próprios clipes: corre pelo mato, acelera na estrada, foge do trabalho burocrático, mergulha ou destroça uma festa vestida de noiva.

Formada em artes cênicas, a artista carioca encontrou na música um lugar para reunir algumas de suas paixões: a atuação, a composição, o palco e a construção de imagens. Desde que começou a carreira solo, vem se tornando uma das vozes de sua geração e ampliando seu espaço na música brasileira, delineando um universo estético e simbólico próprio, que faz nostalgia e contemporaneidade dialogarem. 

Agora, contratada por uma major da indústria musical, Julia se prepara para uma nova fase. Enquanto segue apresentando Maravilhosamente Bem, já escreve as músicas de um álbum previsto para 2027. Na entrevista a seguir, ela fala sobre as suas referências, a construção de sua identidade artística e o impacto do reconhecimento.

Julia Mestre em show. Reprodução.

Pérola: Julia, sua música sempre parece dialogar com diferentes tempos. Há algo de retrô, mas também é muito contemporânea. Como você enxerga essa construção estética hoje, tanto na sua música como em relação a seus pares? 

Julia: Isso que você trouxe é exatamente o ponto que eu pesquiso, porque tem o flerte com o passado, é uma linguagem nostálgica, mas o ponto essencial é contemporâneo, pertence aos dias de hoje. 

Eu acho que essa pesquisa é de longo prazo, vem pela minha formação. Antes da música, eu sou atriz, a minha faculdade é de artes cênicas. E eu brinco muito — entre aspas — que sou uma atriz frustrada, porque não é a carreira que eu segui, muito menos tenho histórico em filmes, mas é onde está a minha base, onde comecei na arte. 

Eu sinto que, quando comecei a caminhar para a música, porque sentia que tinha facilidade para compor e conseguir traduzir certos sentimentos através da música, eu quis trazer o ambiente visual para o meu trabalho. É a minha forma de compor, também, através de narrativas, às vezes de ficção, de personagens. 

Sobre essa volta no tempo, acho que começou sendo uma pesquisa e, quando vi, me dominou. Hoje eu converso muito com o lugar da nostalgia para poder trazer esse resultado. Faço uma pesquisa de câmeras, que muitas vezes são realmente da época. E aí eu também sinto que tenho que fazer uma pesquisa maior com os figurinos, com os letterings que uso. Isso me desafia mais, e eu sinto que acaba ficando com uma linguagem mais amarrada. Hoje, quando eu vejo, já trago sempre para esse lugar nostálgico, porque sinto que conecta a Julia Mestre, a artista, e, quando eu vejo, já estou 100% dentro desse universo.

Ao longo da sua trajetória, quais referências musicais — mas não só musicais — foram estruturantes para sua identidade como artista? 

Bom, são muitas referências, né? Sempre existe primeiro esse impacto de ver, de se sentir seduzido por aquilo, e aí a gente vê o que a gente quer fazer, né? Eu acho que começa na infância. Eu já me sentia muito conectada quando ia num show ou quando via um filme. Eu gostava muito de ver musicais, era apaixonada por todo esse repertório. Chicago, Mamma Mia, Moulin Rouge eram meus filmes favoritos. Quando eu era criança, escolhia esses filmes porque eles me deixavam cada vez mais apaixonada, acho que por essa mistura da música com o cinema. 

Mais tarde, eu fui me apaixonando por essa atitude mais do palco, do ao vivo. Eu tenho essas referências que são mais óbvias, de que eu falo muito, que é a Rita Lee, que é a Marina Lima, que flertam muito com o meu trabalho. E eu sempre me encantei muito por ver mulheres tocando no palco. Sempre me instiguei mais quando via uma figura feminina tocando. Esperanza Spalding é uma super referência pra mim; Tash Sultana, multi-instrumentista australiana, eu gosto pra caramba; e de MARO, que é uma cantora portuguesa.

Eu entro, às vezes, em hiperfocos, como na pandemia, em que teve um momento em que eu passei a só ver shows, era uma coisa que eu gostava muito de fazer. E eu buscava vídeos no YouTube de artistas femininas. Acho que sempre fui uma pessoa muito curiosa e muito apaixonada pela arte. Eu realmente me inspiro assistindo a muitos shows, vendo muitas mulheres. Elas me fortalecem. Mais do que qualquer outro lugar de comparação, é uma coisa que realmente me bota para cima quando vejo outras mulheres no palco.

E você tem um instrumento preferido? Tem um clipe seu com uma cena simbólica em que você recebe uma guitarra, mas eu me lembro mais de você com o baixo.

Sim, é que é meu instrumento.

Você tem um preferido? Como que flui a sua relação com eles?

Gosto muito dos dois, mas, recentemente, a minha paixão tem sido o baixo, e é o que eu estudo. A guitarra já é de longo prazo, porque eu toco violão desde pequena. 

Quando eu tinha 16 anos, fiz uma viagem entre amigos e lembro que uma noite teve uma rodinha de violão, aquele momento bem de adolescente de beijinhos e tal, e eu lembro que todo mundo era meio a fim do menino que tocava violão. Só que eu não me apaixonei por ele, eu me apaixonei pelo violão dele. No final da viagem, perguntei se ele estudava, onde estudava, quem era a pessoa que ensinava, se podia me passar o número. Então, em vez de pegar o número dele, eu peguei o número da professora. Foi aí que eu tive meu primeiro contato com o violão.

E eu acho que, quando a gente toca um instrumento, a gente tem independência, a gente consegue mostrar o nosso som e pode defender o que a gente acredita. Essa é a minha maior dica, estudar um instrumento, ter relação com ele, se conectar com a música, pra que, quando a gente for defender a nossa arte, a gente possa defender sozinha, sabe? Eu sinto que ele sempre me dá uma independência. Me sinto empoderada quando tenho um violão ou outro instrumento na mão. 

Desculpa insistir, mas só para eu tentar entender um pouco da cabeça da Julia Mestre: por que, na hora que você terminou a escola, você foi fazer artes cênicas?

Sempre foi muito óbvio para mim que a arte era a minha direção. Pode não parecer, mas eu sou uma pessoa muito tímida. Às vezes, era especialmente tímida quando mais jovem. E acontecia essa controvérsia. Quando eu subia no palco, eu me sentia uma pessoa espontânea, que tinha facilidade para aquilo, mas, às vezes, fora do palco, eu era uma pessoa mais introvertida, às vezes com dificuldade de fala. E eu vi que, quando eu tinha essa conexão com a arte, eu conseguia me expressar. Quando eu estava no palco, sentia que eu conseguia ser uma pessoa engraçada, divertida. Então, acho que, desde criança, eu já tinha esses sinais de que aquele era o meu lugar.

O seu trabalho hoje expressa muito essa relação entre o som, a imagem, a narrativa, a atuação. O roteiro do Maravilhosamente Bem também é totalmente seu. Foi uma historinha que você criou na sua cabeça e falou: “vou montar isso”? Queria entender como você pensa essa relação entre as linguagens e como você emerge em cada processo. Como você faz para tudo ficar muito amarradinho, do seu jeito, quando entram os colaboradores?

Por mais que eu tenha a ideia criativa e de ser uma pessoa que gosta muito de dar as ideias, sempre acredito muito no trabalho em equipe, me conecto com pessoas que vibram nessa mesma energia, nessa mesma identidade. Quando falam que meus visuais têm sempre uma filtragem analógica, que parece que vêm de uma outra época, é porque eu encontro pessoas que também trabalham com essa linguagem.

Em Maravilhosamente Bem, eu fiz esse trabalho junto com o Gabriel Galvani, que dirigiu os clipes, e a gente pensou nessa ideia conjuntamente. Falei para ele que eu queria que cada música fosse um filme e um personagem diferente. E eu sinto que, no show, eu também tenho feito essa pesquisa bastante visual. 

Agora, no Maravilhosamente Bem, atrás de mim fica o que eu chamo de portal, que é uma bola grande, e ela trabalha como se fosse um teatro de sombras, a gente trabalha muito com contraluz. E aí o espetáculo fica interessante, porque, junto com um estudo de partitura corporal, eu tento trazer uma narrativa também para as músicas. E eu acho que essa tem sido a minha pesquisa, misturar música com teatralidade.

Você já viveu o reconhecimento de um Grammy Latino com a Bala Desejo e, mais recentemente, recebeu duas indicações solo por Maravilhosamente Bem. O que mudou na sua carreira e na sua relação com o trabalho depois dessas experiências? 

Eu acho que o amadurecimento de ver onde o seu sonho pode chegar. Às vezes, a gente acha que o sonho vai até aqui e, quando a gente vê, ele chega num prêmio gigantesco da música da América Latina. Ele foi maior do que o meu sonho podia chegar. Mas, num outro ponto, vem também a responsabilidade. Quanto maior o alcance da sua carreira, também vêm as cobranças da gente querer sempre trazer algo que seja tão impactante quanto, ou que a gente consiga entregar excelência. 

Mas eu tento trazer esse tema com muita leveza, porque a gente também não pode se deixar cair nessa história, porque, afinal, é a nossa arte. Claro, eu acho que esse amadurecimento também vem com essa minha necessidade de aperfeiçoamento, de querer sempre trazer uma versão melhor, mais atualizada. Mas o futuro é um mistério, né? E eu não sei o que o futuro reserva pra mim. Já sou muito grata pelo que essa estrada tem me proporcionado, pelos encontros que tenho feito, pelos lugares que tenho visitado e pelas experiências de palco, de trajetória, de discos. 

Você falou duas coisas que eu já queria perguntar. A primeira é sobre a cobrança. Existe uma tensão, para você, entre essa expectativa externa e a liberdade criativa, principalmente por ser uma artista da Universal agora? A segunda é que as discussões que eu vejo sobre música hoje estão muito influenciadas por essa questão dos fãs, da criação de comunidade e de como eles direcionam, mesmo, a evolução do mercado. Como você lida com isso na prática? 

Começando pela gravadora: essa tem sido a minha recente novidade, eu estar agora numa grande gravadora da música, que é a Universal. Eu acho que, se eu falasse com a Julia do passado, até de um ano atrás, eu não imaginaria onde estaria agora. Mas sinto que a trajetória vai surpreendendo a gente. A apresentação do Grammy Latino foi um divisor de águas na minha carreira, por ter realmente me apresentado ao mercado musical. Foi uma grande oportunidade estar num palco onde todo mundo pudesse assistir a um pouquinho do meu trabalho e dar uma provinha de Julia Mestre para o mundo.

Essa pesquisa que tenho feito com o teatro de sombras se firmou quando fui convidada para cantar nesse palco do Grammy Latino. Fui ousada e pedi para manter a mesma assinatura do meu show. Tive reuniões com a equipe do palco para explicar meu projeto de luz e desenhar a apresentação. Quando disse que queria trabalhar com luz contra, a diretora de palco perguntou: “Como é que você, no maior palco da sua vida, quer apagar a luz da frente e trabalhar com luz contra?”. E eu respondi: “É que faz todo sentido. Essa é a minha assinatura, eu preciso mostrar esse trabalho”. No ensaio, um dia antes da apresentação, todo mundo ficou muito eufórico, porque havia ali uma personalidade muito forte.

Acho que, no final, é sobre acreditar nos seus símbolos, porque eles vão se aproximando cada vez mais da sua identidade. E sinto que foi também por eu sempre insistir na minha personalidade e na minha linguagem que a gravadora se encantou por mim. Então acredito que vou continuar sendo a criativa do projeto, como quem já me conhece do trabalho independente.

Você tem essa verve da pessoa que faz a direção criativa e tudo mais.

Sim, e tem sido muito divertido, porque, às vezes, quando a gente aposta nos símbolos, demora um tempo para as pessoas processarem. E eu sinto que, nesses últimos meses, tem sido muito legal, porque eu vejo que os fãs estão muito conectados com a linguagem do Maravilhosamente Bem. Eu vejo muitas meninas de franjinha e pessoas com estrelas, porque são símbolos que eu trouxe. Ou estão de gravata indo para o show. Isso é muito legal, porque eu sinto que o trabalho tem chegado e se comunicado com as pessoas. 

Você falou sobre estar em vários palcos, com públicos diferentes, e Maravilhosamente Bem fez um ano de lançado em maio. Foram dois anos entre ele e o Arrepiada, que eu acho que é um tempo razoável para o artista criar, circular, fazer todos os processos que um disco traz. Você circulou bastante, e este ano ainda vai levar ele pra muitos lugares. Conta um pouco dessa experiência.

Isso é uma das coisas mais incríveis, né? O meu ofício me proporciona essa experiência de viajar por muitos lugares, de ter que levar minha música até a cidade das pessoas. Eu vou viajando e levando meu show, as minhas músicas, mas eu também volto pra casa carregada de memórias. E eu acho que o mais legal também é, na música, poder conhecer novas pessoas, tanto o público, os fãs, quanto os amigos que você faz na estrada. E, outras vezes, estar em festivais é dividir o palco com artistas que você admira e poder ter aquela proximidade de conversar com alguém de quem você é fã. Eu também me vejo sendo fã.

Olhando para a sua discografia, o que você sente que fica como fio condutor entre os discos, independentemente das mudanças de fase ou do que acontece entre eles?

Não é só um fio condutor que liga um ao outro. Acho que a narrativa de empoderar, de me empoderar, com outras mulheres, com a minha música. Tanto que o Geminis é o meu primeiro álbum, e a canção se chama Mudar o mundo. 

O Arrepiada já é um disco um pouco mais rebelde, ele tem mais esse punch. E talvez seja a minha fase mais adolescente, de gritar pro mundo. Passarinha, da Bala Desejo, é uma música que fala isso: se eu tenho as minhas asinhas, não corta. E aí vem para o Maravilhosamente Bem, que é essa celebração sobre colocar a sua felicidade em primeiro lugar, e isso não se discute. Acreditar nesse amor e nessa vontade de querer contagiar. Eu acho que esse talvez seja o meu fio condutor.

Você acha que também existe, no seu trabalho, uma liberdade de expressão do desejo feminino? Rita Lee e Marina Lima foram importantes por falarem abertamente sobre isso num contexto em que era ainda mais raro do que é hoje, e são suas referências. 

Sim, exatamente. Acho que elas me ensinaram muito. Eu peguei a canetinha, o papel e realmente tive essas palestras aí da Marina, como elas também ensinaram muitas mulheres a se empoderar, a se colocar em primeiro lugar.

E, depois do disco, você lançou o single Afim de Verão. Fala um pouquinho dele e do que ele representa em relação a uma possível nova fase do seu trabalho. 

Afim de verão vai fazer parte já do próximo álbum. Ele não necessariamente aponta uma estética, mas já mostra um novo estudo de como eu venho querendo também sempre mudar o que já estou mostrando. Como em Maravilhosamente Bem, eu entrei em muitos personagens e vesti muitas personas. Com Afim de Verão, no clipe, pelo menos, eu tentei me despir um pouco dessas armaduras, dessas máscaras que eu também uso para me proteger, e tentei mostrar um pouco mais da Julia, quem eu sou com menos maquiagem, me mostrar um pouco mais leve.

Você mencionou esse novo álbum algumas vezes. Você já está em que fase dele?

Já tenho algumas músicas escritas. É um álbum que vai para 2027, mas eu acho que 2026 ainda prepara mais uma surpresa para o fim do ano. Nos palcos, acho que eu vou continuar com Maravilhosamente Bem, mas, na coxia, já estou falando um pouco da próxima fase.

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Dez anos após a morte de Umberto Eco, Bolonha abriu ao público um dos espaços mais aguardados por estudiosos e admiradores do escritor: a Biblioteca Eco. Instalada no histórico Palazzo Poggi, sede da Universidade de Bolonha, ela preserva não apenas cerca de 32 mil livros, mas a arquitetura intelectual de um dos maiores pensadores do século XX. Visitar esse acervo é percorrer os caminhos de uma mente que fez da curiosidade, da dúvida e das associações improváveis sua forma de compreender o mundo.

Quando um livro muda uma vida

Umberto Eco e sua Obra Aberta transformaram profundamente minha maneira de enxergar o mundo. Naquelas páginas, descobri que nenhuma obra está concluída em si mesma: ela só se realiza plenamente no encontro com quem a lê. Com Eco, compreendi que interpretar também é criar. Desde então, deixei de ser apenas espectadora para me tornar cocriadora de tudo aquilo que a arte, a arquitetura e a literatura colocavam diante de mim.

Essa descoberta me levou a percorrer outros caminhos de sua obra. Vieram os romances, os ensaios, a semiótica e o sonho (nunca realizado) de um dia ser sua aluna na Universidade de Bolonha. Quatro décadas depois, a vida desenhou um roteiro inesperado: Bolonha tornou-se meu lar. Caminhar por suas ruas é, de certa forma, acompanhar as trilhas deixadas por Eco.

Mesmo dez anos após sua partida, sua presença continua viva na cidade, agora ainda mais intensa com a inauguração da Biblioteca Eco. Visitá-la foi como entrar em uma cartografia da sua inteligência. Entre estantes, descobri não apenas os livros que leu, mas a rede de relações que alimentava sua curiosidade inesgotável. Foi dessa experiência que nasceu este texto, dedicado a um dos intelectuais que mais marcaram minha formação.

O homem que uniu saberes

Nascido no Piemonte, em 1932, Umberto Eco foi filósofo, semiótico, romancista, ensaísta e um apaixonado pelos livros. Professor da Universidade de Bolonha, contribuiu decisivamente para consolidar a semiótica e os estudos da tradução, mas conquistou o mundo também como escritor, sobretudo com O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault. Em sua obra, filosofia medieval, literatura, comunicação, cultura de massa e tecnologia convivem sem hierarquias, como se todo conhecimento integrasse um mesmo universo.

Sua biblioteca particular, com cerca de 32 mil volumes, refletia essa visão. Os livros não eram organizados para impressionar, mas para criar aproximações inesperadas. Eco acreditava que, muitas vezes, o livro de que realmente precisamos é justamente aquele que repousa ao lado do que procurávamos. Talvez esse seja seu maior legado: ensinar que o conhecimento nasce menos das certezas do que da descoberta.

Biblioteca Eco: percorrer uma mente

Poucos dias depois da inauguração da Biblioteca Eco, em julho deste ano, tive o privilégio de participar de uma visita guiada conduzida por Francesca Tancini, responsável pelo projeto de reinstalação do acervo, e por Ilaria Bortolotti, coordenadora da biblioteca. Mais do que conhecer uma coleção de livros, tive a impressão de percorrer a própria arquitetura do pensamento de Umberto Eco.

Instalada na ala novecentista do histórico Palazzo Poggi, sede da Universidade de Bolonha, a biblioteca ocupa um edifício onde séculos de conhecimento parecem repousar sobre as mesmas pedras. Entrar por seu discreto acesso na Piazza Puntoni é quase um rito de passagem. O ruído da cidade fica para trás e, pouco a pouco, somos conduzidos a um lugar onde as ideias continuam respirando.

Na casa de Eco, em Milão, a biblioteca ocupava um longo corredor de cerca de 16 metros, onde cada estante fazia parte de um percurso cuidadosamente construído ao longo da vida. No Palazzo Poggi, esse corredor precisou ser reinventado em ambientes distribuídos por dois níveis. A disposição dos volumes foi recriada com precisão, preservando a vizinhança entre os livros e, com ela, a arquitetura intelectual do escritor. O desafio não era apenas transportar uma biblioteca, mas reconstruir um modo de pensar.

A arquitetura das conexões

A transferência do acervo foi resultado de um acordo entre a família de Eco e o Estado italiano. A valiosa coleção de livros antigos foi adquirida pelo Ministério da Cultura e passou a integrar a Biblioteca Nazionale Braidense, em Milão. Já a biblioteca moderna foi cedida à Universidade de Bolonha em regime de comodato por 90 anos, encontrando abrigo no Palazzo Poggi, onde Eco lecionou durante décadas.

Foi durante a visita que compreendi uma das ideias mais fascinantes do professor: a “teoria do bom vizinho”, inspirada em Aby Warburg. Segundo esse princípio, o livro de que realmente precisamos nem sempre é aquele que procuramos, mas o que repousa ao seu lado. O conhecimento nasce da associação improvável, daquilo que chamamos de serendipidade. Por isso, Eco nunca se interessou por um catálogo definitivo. Preferia confiar na memória visual das estantes. Alguns livros permaneciam expostos de frente, como sinais discretos de orientação. Outros ocupavam o lugar privilegiado da altura dos olhos, indicando as questões que naquele período habitavam seu pensamento. Bastava percorrer as prateleiras para acompanhar o movimento de sua curiosidade. A biblioteca era um organismo vivo, capaz de se transformar à medida que novas perguntas surgiam.

Enquanto caminhávamos entre as prateleiras, Francesca Tancini chamava nossa atenção para relações que dificilmente surgiriam em uma biblioteca convencional. Carducci dividia espaço com Pinóquio. Dom Bosco surgia ao lado de Júlio Verne, Alexandre Dumas e Conan Doyle. Alberto Moravia aparecia próximo aos autores do Grupo 63, movimento literário do qual Eco participou e que se colocava justamente em oposição ao estilo de Moravia. Em outra estante, Dante encontrava um estudo sobre Maomé. Mais adiante, Orhan Pamuk dividia a vizinhança com Yukio Mishima. Aos poucos, deixei de observar os livros isoladamente para perceber o desenho invisível que unia todos eles.

Uma biblioteca sem hierarquias

Foi impossível não perceber que Eco jamais acreditou nas fronteiras entre alta cultura e cultura popular. A literatura infantil ocupava um lugar tão digno quanto a filosofia medieval. Quadrinhos, romances policiais, ficção científica e tratados acadêmicos compartilhavam o mesmo território, como se todos participassem da mesma aventura humana: compreender o mundo por meio das narrativas.

A coleção de livros antigos completa esse universo. Nela, Eco reunia obras sobre alquimia, cabala, sociedades secretas e autores que chamava, com humor, de “diabólicos”. Não porque buscasse verdades ocultas, mas porque era fascinado pelos erros da humanidade. Para ele, até as ideias equivocadas ajudam a contar a história da inteligência humana.

Ao deixar a Biblioteca, percebi que não havia visitado apenas o espaço que abriga uma coleção de livros, mas penetrado na cartografia intelectual de Umberto Eco. Ele nos lembra que o conhecimento raramente

segue um percurso linear. Constrói-se por desvios, encontros, descobertas e perguntas que surgem quando menos esperamos. Talvez essa seja a maior lição dessa visita: lembrar que toda obra permanece aberta. Cada livro espera um novo leitor; cada leitura inaugura uma nova possibilidade. Voltei para casa com a certeza de que Eco nunca quis nos ensinar respostas, mas a arte de continuar perguntando.

Nove séculos de conhecimento

Antes de chegar à Biblioteca Eco, é impossível não se deixar envolver pela história da Universidade de Bolonha. Fundada em 1088, a Alma Mater Studiorum é reconhecida como a universidade mais antiga do Ocidente em funcionamento contínuo. Diferentemente de outras instituições medievais, ela nasceu da iniciativa de mestres e estudantes, e transformou a cidade em um dos grandes centros intelectuais da Europa.

Durante séculos, as aulas aconteciam sob os pórticos, em conventos e residências particulares, fazendo da cidade uma verdadeira escola a céu aberto. Ao longo de quase mil anos, a instituição acompanhou as grandes transformações da história europeia: floresceu no Renascimento, enfrentou o controle papal após a Contrarreforma e renasceu no início do século XIX com as reformas promovidas por Napoleão Bonaparte.

Foi nesse período que a universidade se tornou uma instituição estatal e transferiu sua sede para o Palazzo Poggi, elegante edifício renascentista do século XVI que permanece até hoje como seu coração acadêmico. Em torno dele desenvolveu-se um importante polo científico e cultural, que reúne museus, bibliotecas, laboratórios e centros de pesquisa.

Hoje, com cinco campi, milhares de pesquisadores e estudantes de mais de uma centena de países, a Universidade de Bolonha continua fiel ao princípio que a fez nascer: o conhecimento como encontro, liberdade e diálogo. Não por acaso, foi no Palazzo Poggi que a Biblioteca Eco encontrou sua nova casa, integrando-se naturalmente a uma história que atravessa quase nove séculos.

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A região amazônica é feita pelo subir e descer das águas dos rios. Todo ano é assim, há muito tempo. As águas são as donas de tudo. Dão a vida, os frutos, abrem e fecham caminhos. Mais de 1700 rios compõem a paisagem daquele lugar. Tem mais rios na Amazônia do que na Europa. É o início de tudo, mas, sobretudo, o meio onde a vida acontece. Água gera vida, e os rios voadores — eita, tem água até no céu! — ajudam a umedecer outras partes do país. A água é generosa.

No estado do Amazonas, o maior do Brasil, e mais especificamente no Baixo Amazonas, costuma dizer o senso comum ribeirinho que existem duas estações do ano: o verão, de junho a novembro, e o inverno, de dezembro a junho. O inverno é quando chove mais: dias brancos, nublados. O verão é quando seca. Às vezes, são meses sem chuva nesse período da vazante. No final do ano, as águas começam a subir, e é sempre um deslumbre ver as mudanças da natureza. Não é apenas a paisagem que se transforma. É a quantidade e os tipos de peixes e frutas, os insetos, a folhagem das árvores. Muda-se a dieta, mudam-se os hábitos, os sons, a temperatura. No verão forte, muitos rios, furos e igarapés secam a ponto de virarem estradas de terra ocupadas não mais por embarcações, mas por motos, bicicletas, carros, triciclos e caminhonetes. As cheias, noutro extremo do ano, trazem à tona os igapós, a floresta alagada, lagos e lagoas.

O Andirá é o rio pelo qual tenho mais afeto no mundo. Rio dos meus antepassados — pai, avô, bisavós e, possivelmente, tataravós, ou até mesmo antes deles gente sangue do meu sangue estava por lá. Mas é também rio onde hoje se banham minhas filhas, dando continuidade a essa história ancestral que tanto me (co)move, me dá assunto e sentido. Conheci o Andirá aos seis meses de idade, quando cheguei acompanhado de minha mãe e meu pai, moradores da cidade de Barreirinha, no Amazonas. Esse rio é tão rico! Território sateré-mawé, e onde se encontra a maior população quilombola do estado. (Uma vez ouvi de Maria Amélia dos Santos Castro, importante liderança quilombola da comunidade de Santa Tereza do Matupiri, que o Amazonas não é apenas indígena ou caboclo: “o Amazonas é negro”, ela me disse, entre o orgulho e a indignação.)

Na segunda quinzena de junho, o rio começa a baixar. Em setembro e outubro é o auge da seca, com muitas praias abertas pela estiagem, como a da Safadeza e a do Caturetê. Em janeiro de 2024, fui a Manaus para o lançamento do meu livro Uma varanda no meio do rio, publicado pela editora Impressões de Minas, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, com a presença de gente querida da minha infância em Barreirinha e de muitos artistas: Djedah, Célio Cruz, Zeca Torres (Torrinho), João Paulo Ribeiro, Celdo Braga, Alcides Alexandre e Paulinho Assunção. Em seguida, viajamos de imersão, uma turma grande, à região de Freguesia do Andirá. Fomos visitar a Casa da Poesia, último refúgio que meu pai, o poeta Thiago de Mello — que chamava o Amazonas de “pátria d’água” —, manteve no interior da floresta.

Depois de 24 horas de barco saindo de Manaus, atracamos no pequeno porto de Freguesia. Havia capim por toda a margem daquele pequenino distrito, atrapalhando o atracar de pequenas embarcações, que não conseguiam chegar à terra firme. Os ribeirinhos chamam esse mato de barranco. As praias e toda a margem estavam ocupadas por essa vegetação densa e muitas vezes catinguenta, a ponto de curumins e cunhantãs não conseguirem tomar banho. Estranhei; na verdade, lamentei. Em mais de 40 anos indo e vindo por aquelas águas, nunca tinha visto tal situação. O verão tinha sido de lascar, me diziam, e corria o surto de uma febre que estava pegando muita gente, de idosos a crianças. Pessoas da comunidade usavam máscaras e passavam álcool em gel nas mãos, como se estivessem se protegendo de algo contagioso como a covid-19. Os mais velhos ainda não tinham visto enfermidade como aquela.

Margens tomadas por vegetação, população com febre e uma quantidade fora do comum de maruim, esse minúsculo mosquito, tão gitinho que quase não conseguimos enxergar. “É o clima no mundo que está mudando”, comentavam. Os dias eram vividos com a intensidade que o lugar exige, espécie de êxtase causado pela mistura de Amazônia, poesia, utopia, arte, cultura, farinha de mandioca, música, caldo de jaraqui, mapará assado de brasa e pimenta murupi. Até que, depois de uma semana, senti os primeiros sintomas ao cair da tarde. O crepúsculo trouxe febre, moleza, dores no corpo. Tomei analgésico e fui ao posto de saúde. O médico, jovem vindo de Goiás, me mostrou em seu celular uma matéria sobre a febre de Oropouche, de que eu nunca tinha ouvido falar, e sentenciou: “é isso que você tem”. Em Freguesia, ninguém sabia o que era essa moléstia que parece uma dengue. Uma semana depois, os sintomas voltaram, mas diferentes: febre baixa, dor de cabeça. Anjinha, minha amiga, sábia das plantas, me puxou com óleos de copaíba e de andiroba. Dias depois, já em Manaus, fui a um hospital que é referência no combate a doenças infecciosas e parasitárias. Não testavam para Oropouche, mas deu negativo para malária. Voltei ao Rio de Janeiro e não demorou a surgir a terceira leva de sintomas, dessa vez com sinusite e febre. Senti-me um pugilista que vinha apanhando round após round há semanas. Para evitar o nocaute, procurei a Fiocruz, referência brasileira no mundo no campo da saúde pública e da ciência. Foi confirmada a febre de Oropouche. Passei a ser monitorado pela Secretaria Estadual de Saúde. Os jornais e as TVs anunciavam: “o primeiro caso de Oropouche no Rio de Janeiro é de um homem de 42 anos com histórico de viagens para o Amazonas”.

Mais do que febre e mal-estar, me doeram casos de racismo e xenofobia que vivenciei na ocasião. No bairro em que moro no Rio, um conhecido me abordou com odiosa indagação: “Mas o que você vai fazer na Amazônia? Só tem índio por lá!” Ao que prontamente respondi: “Você se refere aos povos indígenas, certo?” Vi que ele ficou embaraçado com o próprio preconceito de relacionar os povos originários a algo infra-humano. Não comigo. Mas o pior foi o que vivi em um hospital renomado na Zona Sul carioca, quando o experiente médico que me examinava cravou: “Você está com alguma doença que pegou no Norte do país, só vem coisa ruim de lá”. No momento, eu estava tão debilitado que só consegui pedir por mais respeito.

A ignorância amamenta o preconceito. A educação é um caminho para diminuir o racismo. Fiquei a pensar porque contraí febre de Oropouche. Claro que não foi por causa dos povos indígenas, como também é inadmissível culpar a região Norte, como sugeriram a mim alguns membros da classe média carioca.

A estiagem no Amazonas no segundo semestre de 2023 foi das mais brutais da história. O nível dos rios baixou como nunca desde que começaram as medições, no início do século 20. O extremo calor na região levou ao aumento da temperatura das águas e, com isso, à mortandade de botos e peixes. Universidades brasileiras apontaram que tanto o calor quanto a seca refletem mudanças climáticas. Cientistas da World Weather Attribution (WWA) indicaram que o clima transformado pela ação humana foi causador dessa que foi a pior seca na região amazônica em mais de meio século. Queimadas e desmatamentos deformam a paisagem. Mesmo um fenômeno como o El Niño, que afeta a quantidade de chuva na região, é menos decisivo para a situação do que a ganância e a irresponsabilidade do ser humano.

No início do século, a teoria do Antropoceno se popularizou com o trabalho de Paul Crutzen e Eugene Stoermer. Vigorou, com isso, a noção de que entramos numa nova era geológica, marcada pelo aumento da temperatura média do planeta, resultado da atividade humana. Do ponto de vista político, é um alerta para pressionar os poderosos do mundo. Por outro lado, pesquisadores como Jason Moore e Donna Haraway criticaram o conceito de Antropoceno por ser vago, vazio, abstrato demais — por isso, confortável —, não conseguindo dar conta de explicações sociais e históricas da crise climática. Ao estabelecer uma crítica genérica à humanidade como causadora principal do aquecimento global, o Antropoceno turvaria a percepção de motivos fundamentais dessa crise, desconsiderando relações assimétricas de poder, raça e classe. Ou seja, o problema não seria a humanidade em si, mas a violência do sistema capitalista, que se alimentou de colonialismo, industrialização e objetificação/mercadologização da natureza. É nesse sentido que Moore fala em Capitaloceno, compreendendo o capitalismo não simplesmente como sistema econômico, mas como forma desintegrada de viver a natureza: um modelo violento de exploração e acumulação.

O que vivi em janeiro de 2024 em Freguesia do Andirá — margens tomadas pelo capim dos barrancos, trazidos pela cheia dos rios após forte estiagem — foi uma paisagem natural afetada pela ação humana e o desejo secular de aumento de lucro. A quantidade de maruim era avassaladoramente maior que em anos anteriores. Contrair a febre de Oropouche no Andirá foi sinal de que as mudanças climáticas não estão longe de nós. Fora o prejuízo, financeiro e espiritual, para milhares de famílias ribeirinhas impostas a essa situação, ela faz aumentar a chance de a floresta amazônica ter seu poder de equilibrar o clima no Brasil (e no mundo) enfraquecido. Não posso deixar — não podemos deixar — que os rios tenham seu curso interrompido, que as águas não sejam geradoras da vida. O que está acontecendo? Tudo está junto e em movimento. Fazer circular os conhecimentos, se aproximar, conhecer e quiçá amar, são formas de cuidarmos da Amazônia, que tanto cuida de nós.

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Mais filhos e menos emprego? O estigma profissional da maternidade

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Obra de Arthur Luiz Piza. Direitos reservados à Fundação Piza.
#56O que está acontecendo?CrônicaLiteratura

Afinal, as coisas estão melhorando ou piorando?

por Leticia Pinheiro Lima

Neste momento, é difícil não sentir que a maionese está desandando. Basta abrir as notícias, e as manchetes são avassaladoras. Guerras se alastrando, democracias enfraquecendo, enchentes, incêndios e terremotos, inflação subindo, doenças retornando, instituições falhando, um cenário geopolítico instável, corrupção e polarização. O pessimismo tornou-se não apenas um estado de espírito, mas quase uma forma de sofisticação. Ter esperança pode soar ingênuo, e o pessimismo, sinal de conhecimento, de estar a par da situação.

Os pessimistas estão certos.

Mas também errados.

Eles estão certos quanto ao perigo. Em 2025, um relatório do Instituto de Pesquisa pela Paz de Oslo registrou 65 conflitos armados envolvendo Estados nacionais, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. A Freedom House informou que a liberdade global diminuiu, em 2025, pelo vigésimo ano consecutivo, com pioras globais em indicadores como liberdade de imprensa, devidos processos legais e liberdade de expressão. Mais países apresentaram retrocessos do que avanços, e os regimes autocráticos aumentaram. A ansiedade climática tampouco é histeria. A última década foi a mais quente já registrada, e os sinais físicos do aquecimento já são visíveis hoje, e não apenas como cenários futuros.

O pessimismo não é à toa. Ele tem fundamento. Porém, apresenta um retrato incompleto.

Se nos afastarmos do ciclo diário de notícias e observarmos alguns marcadores ao longo de décadas, surgem dados mais animadores. Em 1990, a taxa global de mortalidade de crianças abaixo dos cinco anos era de 93,5 mortes por mil nascidos vivos. Em 2024, havia caído para 37,4, uma redução de cerca de 60%. Isso significa que milhões de crianças estão vivas hoje graças às vacinas, à melhoria da nutrição, aos antibióticos, ao combate à malária, a partos mais seguros e a medidas básicas de saúde pública — mesmo que ainda haja muito a ser feito para diminuir essa taxa.

O mesmo arco pode ser observado em termos da pobreza. Em 1990, aproximadamente 38% da humanidade vivia em situação de pobreza extrema. Hoje, o Banco Mundial estima que esse número esteja em cerca de 8,5%. Isso ainda representa um enorme fracasso moral, com quase 700 milhões de pessoas, mas a transformação histórica é profunda. Em uma geração, a pobreza extrema deixou de ser a condição de uma parcela significativa da humanidade e tornou-se uma crise mais concentrada e, portanto, mais passível de solução.

Há boas notícias para meninas e mulheres também. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a desigualdade global de gênero diminuiu para 68,8%, impulsionada por avanços econômicos e políticos. Isso se deve em parte à melhora na educação. O Relatório de Monitoramento Global da Educação da Unesco revelou que, desde 2015, mais de 50 milhões de meninas foram matriculadas em escolas em todo o mundo. Além disso, há hoje cinco milhões a mais de meninas concluindo cada etapa da educação, do ensino primário ao ensino secundário superior. Além disso, o empoderamento político feminino apresentou maior melhora geral, com

a diferença diminuindo em 9,0 pontos percentuais globais desde 2006, e a participação e as oportunidades econômicas aumentaram 5,6 pontos percentuais ao longo do tempo.

Em contrapartida, 122 milhões de meninas continuam fora da escola, a maioria delas na África Subsaariana, onde pobreza, religião e práticas culturais, assim como falta de segurança ou de produtos menstruais, inibem a participação de meninas na escola. No Afeganistão, a exclusão em massa das meninas do sistema educacional significa que 60% delas não frequentam o ensino primário, e que 74% não frequentam o ensino secundário inferior, em um caso extremo de discriminação por gênero.

A discriminação por gênero tem um lado ainda mais violento. No Brasil, os casos registrados de feminicídio estão crescendo. Em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas em razão de seu gênero, o maior número já registrado no país. Além disso, os direitos reprodutivos das mulheres sofrem, no momento, um retrocesso global, alertam especialistas internacionais e a ONU, impulsionado pela ascensão de grupos conservadores, como o fenômeno cultural da “machosfera”, e pelas reformas restritivas.

É por isso que a pergunta “as coisas estão melhorando ou piorando?” é simples e um pouco insensata. A resposta é que estão melhorando e piorando, dependendo da escala de tempo e do tema analisado. Nos tornamos mais eficazes em manter as pessoas vivas, alimentar crianças, educar meninas, prevenir doenças e responder a desastres. O número de mortes provocadas por catástrofes naturais é muito menor do que foi durante grande parte do século 20 em parte graças aos sistemas de alerta, à infraestrutura e às respostas de emergência. Mas também enfrentamos o aumento dos conflitos, a erosão democrática, a instabilidade climática e uma desaceleração na redução da pobreza e nos direitos reprodutivos das mulheres. A desigualdade entre países está diminuindo, porém, aumentou internamente. Hoje, os 10% mais ricos retêm 75% da riqueza global. No Brasil, os 10% mais ricos ficaram mais ricos em 8,7%, enquanto os 40% mais pobres viram um aumento de apenas 3,7% de renda. Mesmo assim, a renda dos 40% com menores rendimentos atingiu nível recorde em 2025. Na comparação com 2019, houve aumento de 37,6% na média nacional.

O perigo é que, tomados separadamente, cada lado desse debate nos induz a uma falácia diferente. O otimismo pode transformar-se em complacência, na sensação de que estamos passando apenas por uma fase ruim e que as coisas tendem a melhorar. O pessimismo pode se transformar em amnésia, nos fazendo esquecer o trabalho e o esforço que gerou os avanços que temos hoje.

O que precisamos não é de despreocupação, tampouco de desespero, mas de sobriedade. O progresso não é uma lei da natureza. Ele foi construído por instituições, movimentos, ciência, políticas públicas e lutas políticas. Pode estagnar. Pode ser revertido. Mas, justamente porque foi construído, também pode ser defendido e ampliado. Talvez a frase mais útil para o nosso tempo seja: o mundo não é tão bom quanto deveria ser, mas é melhor do que acreditamos. É nossa responsabilidade continuarmos atentos, tentarmos corrigir os retrocessos e lutarmos pelos avanços.

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#56O que está acontecendo?CrônicaLiteratura

O mundo está ao contrário e ninguém reparou

por Helena Cunha Di Ciero

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a 
não ter outra vista que não a das janelas ao redor.

A gente se acostuma a não abrir de todo as cortinas, e, à medida 
que se acostuma, esquece o sol, o ar, a amplidão.

A gente se acostuma à poluição, à luz artificial de ligeiro 
tremor, ao choque que os olhos levam com a luz natural.

A gente se acostuma às bactérias da água potável, à morte lenta
dos rios, à contaminação da água do mar.

A gente se acostuma à violência, e, aceitando a violência, que
 haja número para os mortos. E, aceitando os números, aceita não haver a paz. 

Mariana Colasanti

Cássia e Nando cantaram, lá pelo começo dos anos dois mil, mas ninguém ouviu. Crianças fazem skincare. Adultos brincam com bonecas reborn como se fossem filhos. Carros blindados dividem o asfalto com pessoas vasculhando o lixo em busca de comida. Nos cruzamentos, crianças descalças pedindo trocados correm contra o cronômetro do farol. Os muros das casas ficam cada vez mais altos. Estamos sendo filmados o tempo todo e chamamos isso de segurança. 

O susto virou hábito. A palavra que interessa aqui não é inversão nem decadência: é habituação. O mundo não ficou de ponta-cabeça de repente. Ficamos, aos poucos, sem o órgão que reconhecia o avesso como tal.  

Antes, a guerra era manchete; agora é rotina, e a rotina tem esse jeito de engolir tudo sem mastigar. Casas que parecem prisões. Praças vazias porque tememos o próprio bairro. Isso deveria ser revoltante, mas algo em nós se resignou. Nos acostumamos, simplesmente. 

Para onde foi aquilo que deixamos de sentir? Porque é grande demais para ter desaparecido. Afeto não desaparece, desloca-se. Se não vira indignação, torna-se sintoma. E esse inventário dos absurdos contemporâneos vai deixando de ser uma lista e começa a ser o diagnóstico de algo terrivelmente fora do lugar. 

Multimilionários constroem bunkers com estoques de comida para quando a catástrofe ambiental chegar. Enquanto isso, passeamos distraídos, de cabeça baixa, enterrados como avestruzes em nossos telefones. O céu do futuro se acinzenta, e vamos caminhando sem sonhos e sem projetos, conformados, alimentados pela desilusão. 

Não comemos glúten nem lactose, e vemos adolescentes pedindo por Mounjaro. A restrição e o controle surgem como anestesia para o medo do descontrole do mundo. O bunker do ricaço e a dieta restritiva do resto de nós são parentes: estoques contra a catástrofe, um em silo, o outro em corpo. Nossos heróis morreram de overdose. 

Crianças zumbis brincam com tablets, adultos querem aparentar cada vez menos idade e adolescentes acumulam ódio por não conseguirem ser jovens, competindo com os próprios pais, sonhando com um lugar de proteção que ninguém mais oferece, porque todo mundo está ocupado demais tentando parecer vinte anos mais novo. 

Enquanto isso, os mais velhos comemoram nas redes o próprio rosto sem nenhuma ruga, como quem vence um argumento contra o tempo, tomam hormônios para ter o corpo que tinham aos vinte e se enganam chamando isso de longevidade. Ninguém mais envelhece, todo mundo se otimiza. Compramos suplementos para dormir porque trocamos a noite pela tela, e depois compramos outro aplicativo para medir a qualidade do sono que perdemos para a ansiedade. 

Há quem pague por companhia artificial e conte isso como se fosse alívio. Um namoro que não erra, que não cansa e que não vai embora, porque nunca esteve lá. Conexões narcísicas que dão menos trabalho, pois são o espelho daquilo que necessito. 

Há os que choram o luto em vídeo de quinze segundos, com música ao fundo, editado para render mais visualizações. A dor vira conteúdo, ao invés de virar elaboração: a foto do enterro postada é sofrimento contemplado, visualizado. Aplaudimos a coragem de compartilhar, sem perguntar o que sobra de silêncio para quem perdeu alguém depois que a postagem sai do ar. 

Nos habituamos a delegar a uma máquina todas as nossas dúvidas. Estamos entornando a poesia no chão, robóticos, automatizados, perguntando à tela o que antes perguntávamos ao tempo. Já não conseguimos sustentar a dúvida sem checar, sem consultar. Se toda pergunta tem resposta a um clique, ela deixa de ser trabalho psíquico e vira apenas desconforto a ser eliminado. E, sem dúvida sustentada, não há revolta possível, porque a revolta precisa de incômodo e tempo de elaboração, elementos trocados por velocidade. 

Não nos conformamos por covardia. Nos conformamos porque encontramos substitutos eficientes para tentar distrair o afeto que doeria demais sentir por inteiro. Cada tela, cada dieta, cada procedimento, cada muro mais alto é uma pequena sedação bem-sucedida. E sedação bem-sucedida parece adaptação. 

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Viver o fim e perceber um início: conversa com Júlia de Carvalho Hansen

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#24 Pausa

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#56O que está acontecendo?Arquitetura

Saberes inespecíficos

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Tudo o que se vê, desde o próprio corpo às roupas que se veste, do mobiliário em que se acomoda ao espaço em que se abriga, das ruas por onde se anda pela cidade em que se habita, o parque e as árvores, as matas e os rios, as montanhas e os lagos, a praia e o mar, o céu e as estrelas, tudo o que os olhos veem foi nomeado, significa, tudo está impregnado de valores culturais para constituir o campo simbólico que o fazer arquitetônico mobiliza como fonte para elaborar suas proposições. Ao mesmo tempo, esse campo é também o palco onde ela opera, interage e transforma. Nada de novo. É assim que acontece na relação do corpo com o meio. Trivial como a luz do sol que vaza uma janela para curar as dores de alguém; como o luar se derramando sobre um casal que caminha à noite pela praia. E, talvez, justo porque o simbólico transcende o limite físico, ele é percebido como intangível, como algo indestrutível, mais ou menos como toda jura de amor almeja ser eterna. O valor simbólico de uma casa, uma cidade, um país ou um planeta, ainda que nos imponha o compromisso de preservar, de algum modo resiste, mesmo depois da coisa em si reduzida a pó. Não desaparece nem de olhos fechados. Eterno, ainda que só dure por um dia. E, pela mesmíssima razão, ainda que pareça oposta, uma casa inteiramente preservada não significará a mesma coisa no instante seguinte. Pois o campo simbólico, como obra em andamento, é dinâmico. As imagens, que lhe dão presença mais sólida, estão feitas de uma matéria curiosa: fortes o suficiente para se fixar em cada um de nós como se fosse para sempre e, opostamente, de tal modo dinâmicas que não se deixam capturar. Você fecha os olhos para tentar delineá-las, em vão. Mesmo se pudéssemos, como fazem os artistas, elas já não seriam as mesmas no minuto seguinte. Mais ou menos como se, a cada foto, o modelo deixasse de existir, um modelo impossível de ser clicado duas vezes em sequência. O campo simbólico, incontornável, é, para a arquitetura, um saber inespecífico. Ainda que nos forme desde a origem, não faz parte, de modo objetivo, do corpo de disciplinas que educa um arquiteto.

A provocação deste texto, pensar sobre o que vem por aí, dirigida para essa atividade cujo dia a dia é o projeto — ou os planos de ação que preparam o que virá — parece causar uma reação de oposição, como se, para respondê-la, fosse preciso fincar os pés e os olhos no agora e inconformar-se com o que a foto da cidade de São Paulo, por exemplo, nos mostra: rios mortos e outros enterrados vivos; o nome dos lugares e suas histórias apagados sob o substantivo comum excludente de periferia; a oposição absurda entre ambiente natural e construído; a degradação da noção de espaço público; a desigualdade no acesso ao saneamento, à água e aos serviços públicos; a predominância, ainda, do transporte individual; o excesso de propriedades contra a escassez de moradias; as diversas formas de violência que a existência da cidade impõe e o absurdo número de vidas que ela cobra a cada dia; as desigualdades sociais tão estruturais. Com quantos saberes e ações se enfrenta isso? A arquitetura, que se afeta enormemente diante do quadro, é para lá de insuficiente para formular uma resposta. As obras que ela propõe registram, mais do que poderiam transformar, as relações sociais que estruturam a cena urbana. O empenho da arquitetura é o mesmo para todas as atividades humanas, aquelas que se aliam num mesmo projeto civilizatório. Nesse sentido, inclusive, parece possível transformar muito sem construir nada; bastaria, por exemplo, desmantelar os absurdos construídos para segregar ou excluir. Seria como desenhar mais com a borracha do que com o lápis. É inegável que o cenário presente desespera. Soma-se a isso a consciência sobre a crise ambiental, as evidências das mudanças climáticas e sua hegemonia inescapável no diário. Os novos saberes nesse campo permitem contabilizar o custo ambiental da atividade da construção, que disputa a liderança na emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Dilemas éticos. A gente lê o jornal e prende o fôlego, sente culpa até por respirar, tenta sequestrar no próprio corpo o maior causador do efeito estufa. Basta estar vivo para causar tempestades e vendavais, secas severas e enchentes devastadoras. Enfim, temos clara noção de que o fim do mundo humano é uma obra em construção, como se fosse uma espécie de anti-projeto da própria espécie. Obviamente a ameaça é real. Mas vale notar que entre os conceitos de espécie e de humano há uma distância sideral. Algo similar separa construção de arquitetura. Manfredo Tafuri — o célebre professor de arquitetura em Veneza — sintetizava o propósito da obra inteira de León Battista Alberti — expoente arquiteto do Renascimento italiano, cinco séculos antes da noção de meio ambiente — numa única frase: a função da arquitetura, para Alberti, seria a de colocar limite à loucura humana. A arquitetura tem um propósito primordial do qual nunca se afastou: construir abrigo para o homem. A casa e todas as suas extensões e desdobramentos. Sofisticou-se em soluções para enfrentar as condições climáticas mais adversas, foi o recurso que permitiu o assentamento das culturas humanas em todo o planeta, nos mais diversos biomas. Enfim, se aquela ameaça destruidora se consumar, será apesar da arquitetura e nunca através ou nem mesmo por erro dela. Em outras palavras, será porque a batalha empreendida desde Alberti, e por todo e qualquer arquiteto depois dele, terá sido vencida pela insistência insana de não observar limites.

Dentro dos saberes específicos, a arquitetura tem, como se diz, uma nova agenda, informada sobretudo pela urgência das questões ambientais. Isso se faz ver tanto no universo acadêmico, com jovens arquitetos nitidamente comprometidos, quanto no profissional, pela transformação de práticas, indústrias e a inclusão de novas normativas coordenadas no intuito de mitigar o impacto ambiental e energético da atividade. Ao menos na parcela que atua inserida na esfera formal, os novos preceitos predominam. Num país como o Brasil, o maior desafio é conciliar as novas agendas — em geral pensadas em contextos sociais muito diferentes do brasileiro — com o compromisso de superar as desigualdades. Há uma clara resistência, por exemplo, em se relacionar emissão de dióxido de carbono com circulação de dólares, embora haja uma direta correspondência entre as duas coisas. Ou entre quanto um sujeito gasta por dia e quantos quilos de gás ele lança na atmosfera, ou quantos litros de água, ou gasolina, ou eletricidade consome. Quantos metros quadrados uma pessoa ocupa para viver tornou-se uma questão relevante quando se mede o custo ambiental do que está construído na cidade. A clareza de que os recursos naturais têm limite induz à resposta óbvia, porém oculta pelo preconceito: é preciso aprender com os que vivem com pouco. É por aí que se irão tecer as chaves das superações estruturais mais profundas.

Inespecificamente, a gente tem a impressão de que a abrangência da consciência ambiental, quando estabelece relações de causa e efeito entre os eventos climáticos afastados no espaço e no tempo, quando expõe a interdependência de biomas que antes não se viam relacionados, traz uma forma de entender o mundo que ressoa algo da percepção estética, ciência inaugural do humanismo desde Alberti, que costumava abordar todo o universo em interrelação direta. Uma forma de olhar que foi enfraquecida sob a hegemonia da abordagem técnico-científica, um efeito colateral inescapável do avanço de campos de conhecimento abertos pelas especializações, que, isoladas ao extremo, tendem a explodir a unidade do conjunto. Afasta-se da forma de ver guiada por critérios de beleza. Talvez por aí, pela inesperada ressonância entre meio ambiente e estética, a gente poderá ver, com os únicos olhos que temos, informados pela cultura, o que não éramos capazes de ver antes. Olhar, por exemplo, a Amazônia sem que lhe sobressaia uma ideia de selva. Ao contrário, ver que ela hoje representa uma “natureza antropizada”, pois, por mais de onze mil anos, como se vê em milhares de registros arqueológicos, todos apenas recentemente descobertos, ela vem sendo cultivada pelos povos do lugar. É por isso que hoje se diz que a Amazônia é mais um jardim que uma floresta. Sabe-se que ali o solo fértil (terra preta), a água potável e o ar mais respirável são também, em muito boa medida, herança cultural. Ao nos depararmos com as evidências e a monumentalidade de tal obra humana, diante dela, a ambição mais elevada do dito mundo desenvolvido — e que se traduz em desacelerar os desmatamentos e reduzir o ritmo do envenenamento ambiental — soa mesquinha. É preciso subir a régua.

De volta aos pés fincados no agora da cidade de São Paulo, é um alento perceber que a expressão selva de pedra se esvaziou de sentido. Isso dá na gente uma esperança de que construção e natureza possam não ser vistos em oposição e de que a consciência das questões ambientais tenha ampliado o campo simbólico pela ação dos jovens, dos artistas e dos estudiosos para construir alguma forma de resistência ao desastre e para abrir uma fresta de possibilidade de futuro. Eis a razão de ser da arquitetura.

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#11 Silêncio

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Foto de Gleeson Paulino no Refúgio Alto. Todos os direitos reservados.
#56O que está acontecendo?EditorialSociedade

Editora convidada: Glória Kalil — O que vem por aí?

por Gloria Kalil

Sou só eu ou estamos todos com a sensação de estar vivendo um presente que tem traços de ficção científica de qualidade duvidosa?

“O que vem por aí?” logo me ocorreu como uma pergunta que grande parte das pessoas devem estar se fazendo e que talvez pudesse ser respondida por gente que pensa. Gente inteligente que estuda comportamento, informática, IA, psicanálise, arquitetura e China — temas em ebulição e que pareceram, a mim e à Amarello, desafiadores. Seria um privilégio ouvi-las, então fomos atrás delas!

Que oportunidade a revista me deu de entrar em contato com esses intelectuais e profissionais que tanto admiro já há muito tempo. Eles têm enorme bagagem de conhecimentos para nos ajudar a entender o que está acontecendo hoje e o que deve acontecer amanhã em suas diferentes áreas de atuação.

Pedimos a eles, portanto, que nos fornecessem pistas, armas ou informações para nos situar, nos preparar, nos equipar para o que der e vier nestas paisagens novas e extraordinárias.

Quem são essas pessoas? São aquelas que queremos muito ouvir nos momentos de mutação e de risco. Vocês verão, pelos nomes que assinaram os textos, que ouvimos os melhores.

Não podemos deixar de agradecer a simpatia e a disponibilidade que tiveram para acolher nossas inquietações urgentes, nossa curiosidade apreensiva e nossas perguntas.

Venham conosco. Aproveitem também!

Quem melhor para nos posicionar na questão do feminismo e nos dar um panorama de suas instigantes reivindicações atuais do que Vera Iaconelli, psicanalista, escritora e doutora em Psicologia pela USP? Ela nos leva a refletir sobre a questão do cuidado, desde sempre atribuído ao feminino, e sobre por que os homens não se sentem concernidos com essa tarefa. Não está na hora de aliviar os ombros das mulheres desse fardo e assumir o cuidar como responsabilidade coletiva?

Outro assunto que está chegando com uma velocidade maior do que o nosso preparo para recebê-lo é o envelhecimento. Há perspectivas de que possamos chegar aos 100 ou 150 anos em pouco tempo. Estamos preparados para essa novidade? Temos sociedades e governos tomando providências para enfrentar esse acontecimento? Ana Amelia Camerano, economista e demógrafa, pesquisadora do Ipea, comenta o assunto e mostra saídas possíveis para ele.

Ao psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker fomos pedir luzes para a crise da saúde mental que anda por aí, essa “crise do desencanto”, como ele chama. Em sua análise, ele fala dos poucos efeitos que as medicações tiveram na tentativa de cura desse mal e alerta que o sofrimento psíquico atual é parte de um colapso maior, e que “tentar entendê-lo sem olhar para as fraturas do nosso tempo — a crise ambiental, a precarização econômica, a paralisia política e a degradação estética — é insistir num diagnóstico incompleto”.

Cidades em permanente mutação, bairros desfigurados, especulação imobiliária, desprezo ao meio ambiente… O que têm a dizer os arquitetos? O que eles estão pensando sobre o futuro das cidades? Angelo Bucci, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do MIT (nos EUA), oferece um projeto poético para enfrentar esse cotidiano de destruição e construção pelo qual as cidades brasileiras estão passando a partir de uma ideia de Alberti — arquiteto do Renascimento italiano, cinco séculos antes da noção de meio ambiente: “a função do arquiteto é a de colocar limite à loucura humana”.

IA, ameaça ou solução? Precisamos saber mais sobre essa ferramenta que nos intimida e fascina. Quais são seus perigos reais? Que benefícios ela pode nos trazer? Ronaldo Lemos e João Victor Archegas nos dão um esperançoso panorama dessa fantástica novidade, cuja perspectiva de presença no nosso cotidiano já altera profundamente a nossa realidade.

Epistemicídio computacional? Ou seja: destruição sistemática da cultura e da história dos povos marginalizados por conta do racismo e do colonialismo. É possível que esse absurdo esteja acontecendo nos dados que alimentam a ciência da computação? É a essa causa que a jovem cientista de computação e mestre em Visão Computacional pela Unicamp, fundadora do Instituto da Hora, Nina da Hora, dirige seus estudos e sua militância. A nós cabe entender e apoiar.

“O que vem por aí?” é talvez a pergunta mais aflitiva diante do confronto com o grande enigma, a China, que todos temem e poucos conhecem. De que modo um país de mais de um bilhão de habitantes conseguiu êxitos econômicos,

científicos, tecnológicos e sociais tão extraordinários em apenas 40 anos? O que fazer para conhecer o funcionamento dessa república tão diferente da nossa? É o que nos ensina o professor Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense, da Universidade Politécnica de Macau e da Universidade de Língua e Cultura de Pequim, diretamente do Oriente.

Por fim, e ainda na China, menciono o envolvente relato de Sônia Bridi, jornalista, repórter de televisão e escritora, que viveu alguns anos por lá e que retornou ao país várias vezes depois para se surpreender com os progressos inacreditáveis que verificava a cada visita. “Todas as vezes que eu voltava, era como se chegasse a um país diferente”. Ela conta sua experiência e dá um alerta: “A China quer ser de novo o centro do mundo”, e a história mostra que as metas chinesas costumam ser alcançadas bem antes do prazo.

Quero ainda fazer um enorme agradecimento ao Tomás por ter me convidado para participar desta revista linda, que eu sigo e curto há tantos anos, e ao Willian pelo agradabilíssimo e competente bate-bola comigo durante o percurso desta edição.

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Casas de alvenaria sem reboco, música animada ao longe, luzes amarelas iluminando algumas cabeças. Desci do barco e fui ver de perto. Muitas motos passavam por mim. Ninguém usava capacete: dois, três na garupa, jovens, senhoras e crianças. Entrei no bar. Tocava um arrocha, ou algo parecido. Estava cheio, em sua maioria homens. Riam, bebiam, dançavam. Voltei para o barco e fui alertado a tomar cuidado. A maioria, disseram-me, era de garimpeiros. A cidade era perigosa.

Eu estava em Coari, no Amazonas. Depois de dois dias navegando a partir de Manaus, começava ali a expedição literária Amazônia das Palavras, na qual eu participaria como oficineiro de slam.

Acostumado ao ambiente urbano e periférico de São Paulo, eu não sabia exatamente o que encontraria na Amazônia. Trazia comigo, como quase todo mundo que chega de longe, algumas imagens prévias da floresta, dos rios e das comunidades ribeirinhas. Mas também carregava quase duas décadas trabalhando com poesia, cultura e educação na periferia. Era a partir desse lugar que eu iria olhar para aquelas escolas.

Foram dezoito dias navegando pelo Amazonas, passando por Coari, Codajás, Anori, Manacapuru, Iranduba, Anamã e Manaus. Sete cidades, sete escolas públicas e muitas turmas de estudantes. Fui para ensinar poesia falada e voltei com o olhar deslocado sobre minha própria prática artística e pedagógica — e, de alguma maneira, sobre o país.

Não pretendo dar respostas definitivas, muito menos fazer uma análise sociológica da Amazônia. O que posso fazer é contar o que vi a partir do lugar de onde venho: um artista, educador e poeta que vive e trabalha na periferia de São Paulo e que atravessou o Rio Negro e o Solimões para descobrir que a distância entre a Zona Leste e a Amazônia pode ser muito maior e muito menor do que imaginava.

Na primeira escola, em Coari, cerca de quarenta estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 1º ano do ensino médio me esperavam. A primeira coisa que me impressionou foi a timidez.

Para iniciar a oficina, propus que cada um dissesse seu nome em voz alta, acompanhado de um gesto que o representasse. Eu costumava fazer esse exercício nas oficinas de jogos teatrais e quase sempre funcionava. Começava tímido, mas logo virava uma pequena euforia coletiva. Ali, eles mal pronunciavam o próprio nome. Precisei perguntar um por um e, mesmo assim, falavam apenas para mim, em um volume quase inaudível. O gesto nem chegou a acontecer. Eu estava acostumado a entrar em uma sala de periferia e precisar administrar o excesso de vozes. Ali, meu primeiro desafio seria justamente fazer aquelas vozes aparecerem.

Ao me apresentar, falei de onde vinha: Cangaíba, na Zona Leste. Perguntei se conheciam MC Daleste. Alguns conheciam. Contei que ele também havia morado no meu bairro e declamei Somos todos Daleste, poema que fiz em sua homenagem. Depois emendei com Cavalo de Troia, do MC Kevin. Aos poucos, a atmosfera mudou. Algumas referências atravessavam os quase quatro mil quilômetros que separavam a Zona Leste do Amazonas.

Propus, então, um exercício de escrita que chamo de dadaísta. Cada estudante escreveu uma palavra; recolhi todas, recortei e coloquei em um saco. Fui sorteando até chegar a dez, anotando-as na lousa. A maioria estava relacionada ao universo bíblico: fé, Deus e outras palavras do mesmo campo. Fiz um poema de improviso, articulando as dez palavras, para mostrar que era possível construir sentido mesmo quando elas pareciam não ter relação. Eles gostaram. Pedi que escrevessem seus próprios poemas. Quando chegou a hora de compartilhar, ninguém quis ir à frente. Li todos.

A viagem pelo rio também desmontava algumas imagens que eu trazia. À noite, o trânsito era intenso. Muitas embarcações passavam diante de nós. Parecia uma avenida, só que, em vez de carros, eram barcos. Havia festas, com dezenas de embarcações atracadas, música alta e luzes coloridas. Outros barcos levavam passageiros, redes, malas, alimentos, mercadorias e até carros. Passavam lanchas e embarcações de serviços públicos e privados.

Quando uma embarcação grande passava, nosso barco balançava. Deitado no beliche, às vezes imaginava se aquilo poderia virar. Ao mesmo tempo, pequenas canoas motorizadas atravessavam o rio levando famílias inteiras, inclusive crianças de colo. Não vi coletes salva-vidas. Nosso barco, muito mais confortável que os de linha, carregava cerca de quarenta pessoas entre oficineiros e equipes de produção. Vivíamos praticamente dentro dele: comíamos, dormíamos, conversávamos e planejávamos as atividades até chegar à próxima escola.

Quando contei que faria a viagem, amigos me alertaram sobre jacarés, cobras e onças. Percebi que esse também era o imaginário que muitos brasileiros carregavam sobre a Amazônia: floresta, animais selvagens e comunidades isoladas. Pouco se fala das cidades.

Nas que conheci, quase ninguém andava a pé. A moto era o principal transporte em terra; o barco, na água. Muito concreto, comércio e poucas árvores para amenizar o calor. Eram mais urbanas do que eu imaginava. Mas Anamã foi uma exceção. Conhecida como a Veneza do Amazonas, é marcada pelas palafitas. Casas, comércio e serviços públicos estão elevados sobre a água. Quando chegamos, a maré estava baixa. Em determinados períodos, quando o nível sobe, o barco deixa de ser apenas transporte e passa a ser uma extensão da rua. Para ir de casa ao mercado, é preciso navegar. Por isso, quase não havia carros. Foi também ali que percebi uma mudança na relação com os estudantes. Vieram perguntas, curiosidade e maior disponibilidade para participar. As vozes, antes quase inaudíveis, começavam a ecoar no espaço.

Comecei ainda a perceber a força das batalhas de rima. Mesmo em cidades pequenas e distantes dos grandes centros, muitos estudantes conheciam MCs como Xamuel e Jhony MC. assim como os vídeos da Batalha da Aldeia, realizada em Barueri, na Grande São Paulo.

Em uma das cidades, sentei em um bar à beira do rio com Thiago Thiago de Mello, oficineiro de música, e Michael Sullivan, o Pirata, integrante da produção. Fazia muito calor. Pirata resolveu pular na água. Thiago foi atrás. Eu também me joguei.

Só depois descobrimos que havia muitos jacarés naquela parte do rio.

Por sorte, não encontramos nenhum. 

Enquanto navegávamos, comecei a perceber outra coisa: durante quilômetros de rio, a floresta aparecia principalmente como uma borda. O terreno plano fazia com que nossos olhos alcançassem apenas a superfície das árvores. Estávamos dentro da Amazônia, mas víamos apenas uma espécie de moldura dela. Em uma conversa, aliás, a produtora Fernanda Kopanakis me disse algo que ficou comigo: “A Amazônia é como o inconsciente. A gente não alcança o profundo”.

Talvez seja isso. A partir do barco, eu conseguia ver as margens, as casas, os portos, as palafitas e as embarcações. Mas havia sempre alguma coisa além do meu campo de visão.

Em Manacapuru, já mais próximo de Manaus, a paisagem começava a se aproximar ainda mais de uma realidade urbana. A Escola Estadual José Seffair ficava no bairro periférico Terra Preta, justamente onde nosso barco estava ancorado.

No início da oficina, alguns estudantes no fundo da sala conversavam e demonstravam pouco interesse. Comecei a falar sobre batalhas de rima. A resposta veio rapidamente: gostavam muito. Mostrei fotos que tinha no celular ao lado de nomes conhecidos da cena, como Magrão e Bob 13. Eles se aproximaram, ficaram empolgados e começaram até a fotografar as imagens.

Realizei o exercício dadaísta. Entre as palavras sorteadas estavam confiança, paixão, fé, Neymar, amor, saudade e esperança. Fiz um improviso articulando todas elas e, dessa vez, vieram aplausos. Era uma pequena conquista.

Propus, então, que escrevessem poemas e participassem da dinâmica do slam. A primeira estudante a se voluntariar apresentou um texto forte sobre racismo. No final, Taissa, indígena da comunidade Kambeba, apresentou um poema sobre o orgulho de pertencer ao seu povo. A turma aplaudiu entusiasmada. Ela venceu.

“Eu não quero pena nem favor, muito menos esmola
Quero que me veja como gente, como história.”

Era a quinta cidade da expedição. Até então, nenhum poema havia colocado de maneira tão direta a identidade indígena no centro da cena. 

Na última cidade, Manaus, encontrei uma realidade mais próxima à minha. Os estudantes falavam bastante, interagiam e demonstravam menos vergonha de ir à frente. Surgiram poemas fortes, marcados por ritmo, rimas e referências às batalhas.

Durante uma apresentação, um aluno fez uma homenagem a Mineiro MC. Fiquei emocionado. Ao final, contei aos que não o conheciam quem havia sido aquele jovem. Falamos sobre sua obra e sua trajetória. A poesia havia criado uma oportunidade para falar também sobre memória, perda e aquilo que permanece quando alguém parte.

Ao longo das sete cidades, percebi que havia visto apenas uma superfície. Encontrei muitas coisas semelhantes à minha realidade e outras completamente diferentes. Sem folclorizar a Amazônia, encontrei uma região real, com suas belezas, contradições, urbanidades e floresta; com jovens conectados ao mundo e comunidades que ainda dependem do rio para quase tudo; com motos, celulares e Starlink, mas também com barcos, palafitas e longas distâncias.

Saí do rio Gamelinha, que corta a Vila Guilhermina, onde acontece o slam do qual faço parte, e cheguei ao Rio Solimões. Dois rios muito diferentes, separados por milhares de quilômetros, mas que acabaram ligados pela poesia.

Ainda não sei exatamente o que está acontecendo em nenhum desses lugares. Como poeta, posso apenas olhar, escutar e transformar aquilo que encontro em palavra.

Percebi que o sentido de ensinar
é construído no navegar
entre as palafitas dos paranãs
numa pedagogia ancestral e aldeã.

Palafitas dos Paranãs, de Emerson Alcalde.

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“O que fazer para que a China seja melhor compreendida pelos demais países?” Essa foi a pergunta feita a mim pelo vice-presidente do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais da Escola do Partido, Fan Jishe, durante o Fórum de Think Tanks sobre Governança Nacional nos Países em Desenvolvimento, evento realizado em Beijing em 2026. Ela reflete uma preocupação genuína e válida diante do desconhecimento generalizado sobre o sistema político chinês, bem como a ressurgência da mentalidade de Guerra Fria, reeditada pelos Estados Unidos e adotada por líderes de extrema-direita de alguns países.

Apesar desses dois fatos, todos querem fazer negócios com os chineses. Empresas como BYD, Great Wall Motors, Xiaomi, Huawei, Shein, para citar apenas as mais conhecidas, estão no Brasil, gerando empregos e parcerias de todo tipo. Diante desse novo cenário, há um consenso de que a China alcançou êxitos econômicos, científicos, tecnológicos, ambientais e sociais inigualáveis. Mas há um fato que intriga. Quando se afirma que esses resultados não podem ser dissociados do sistema de governança liderado pelo Partido Comunista da China, um silêncio constrangedor se instala, como se fosse possível admirar os frutos e ignorar a árvore que os produziu. Às vezes, alguém rompe esse silêncio: “Ah! Mas na China é mais fácil, porque basta o Partido querer para que as coisas aconteçam”. E, assim, um sistema político complexo, formado por instituições estatais, mecanismos de consulta pública, planejamento, avaliação de quadros, experiências locais, supervisões horizontais e verticais e sucessivas reformas é resumido a uma simples ordem administrativa e a uma caricatura.

O debate ocidental sobre sistemas políticos foi comprimido pela oposição entre democracia e autoritarismo. A democracia eleitoral passou a funcionar como medida universal de legitimidade, sem levar em conta as diferenças existentes entre as democracias. Dessa perspectiva, a pergunta sobre como o Estado chinês formula objetivos de longo prazo, seleciona e elege dirigentes, testa políticas, corrige erros e produz bens públicos fica subordinada a um veredito proferido antes da investigação. Não se trata de negar a importância da questão democrática, nem de sustentar que a China deva ser poupada de críticas. Trata-se de recusar que um único conceito monopolize toda a análise política e imponha uma censura velada a qualquer outra discussão sobre formas alternativas de governança. Essa censura tem conseguido, inclusive, impedir a discussão sobre uma das características centrais no estudo do sistema chinês: a de ser uma república popular.

Se olharmos para os movimentos políticos que levaram à queda da dinastia Qing, em 1912, veremos que a questão republicana era o contraponto ao sistema imperial. No entanto, analistas ocidentais ignoram o caráter republicano da China e concentram-se quase exclusivamente no debate sobre democracia. A omissão empobrece a compreensão do país, pois produz um deslocamento seletivo em relação a uma dimensão relevante do ponto de vista histórico e diz respeito à finalidade do poder, à qualidade do governo, ao interesse público e à responsabilidade dos governantes. Também impede de perceber que a tradição chinesa formulou uma reflexão sofisticada sobre mérito, dever público, harmonia social, educação moral e bem-estar do povo que converge para princípios republicanos que vêm sendo desenvolvidos sobretudo desde 1949, com a fundação da República Popular da China, sob a liderança de Mao Tsé-Tung (Mao Zedong), em substituição à República da China, fundada em 1912 pelo Partido Nacionalista.

A República Popular da China é republicana não apenas porque assim se denomina. Há, em sua experiência política, a centralidade da coisa pública e a busca de objetivos coletivos. Em vez de reduzir a política à competição periódica pelo voto, sua governança exige que o poder público demonstre capacidade de ouvir constantemente a população, de promover desenvolvimento abrangente para todos, de preservar a estabilidade social e a soberania nacional.

Em 2021, o governo publicou o livro branco China: Democracia que Funciona, no qual apresenta o conceito de “democracia popular de processo integral”. O documento sustenta que cada país deve desenvolver formas democráticas adequadas à sua história e às suas condições; e que a democracia não pode ser um ornamento, devendo produzir resultados. A proposta procura combinar procedimento e substância, democracia direta e indireta, eleição, consulta, tomada de decisão, administração e supervisão. Com esse documento, a China torna público o seu entendimento sobre “democracia”. No contexto deste debate a China define-se como “socialista com características chinesas”. Este é um aspecto importante, porque destaca a sua singularidade. No 20º Congresso Nacional do Partido, realizado em outubro de 2022, o presidente Xi Jinping consagrou o que ficou conhecido como as Duas Integrações. Ele reafirmou que a adaptação do marxismo exige integrá-lo, primeiro, às realidades concretas da China e, depois, à excelente cultura tradicional chinesa. A primeira integração impede que o marxismo seja aplicado como uma fórmula estrangeira e abstrata. A segunda impede que a modernização seja confundida com a ocidentalização ou com uma ruptura completa em relação à história civilizacional do país. As Duas Integrações fornecem, portanto, uma chave para entender por que a mentalidade da Guerra Fria não é compatível com a China. O sistema chinês não é a mera aplicação de uma doutrina marxista nem a mera restauração de um passado confuciano. É uma construção histórica que procura articular revolução e continuidade, socialismo e civilização milenar. A boa tradição cultural chinesa não concebe o governo como mera arena para a agregação de interesses privados. E isso antecede qualquer teoria moderna. Na perspectiva confucionista, governar implica cultivar virtudes, escolher pessoas capazes, assegurar meios de vida ao povo e preservar uma ordem estável que permita a convivência. A tradição de exames para ingresso no serviço público e a antiga noção de que a autoridade perde legitimidade quando abandona o bem-estar coletivo não são princípios que nascem com a república moderna, eles integram um repertório antigo do qual a China contemporânea continua a retirar sentidos para sua república popular.

Há, naturalmente, uma responsabilidade nesse desencontro de percepções entre o que a China pensa de seu sistema político e como o mundo tenta interpretá-lo. Muitos conceitos chegam ao exterior como fórmulas prontas, sem a história intelectual que lhes confere densidade. Retomo, enfim, a pergunta do fórum: o que fazer para que a China seja melhor compreendida? O primeiro passo é ampliar o vocabulário. A democracia é uma questão incontornável, mas não é a única. República, socialismo chinês, mérito, consulta, planejamento, capacidade estatal e bem comum também pertencem ao campo da política. O segundo é estudar as Duas Integrações, pois isso revela como o país interpreta a relação entre o marxismo e sua continuidade civilizacional. O terceiro é abandonar tanto a idealização quanto a demonização do país.

Por fim, é preciso estudar a China sob uma perspectiva comparada, não para importar seu modelo de governança, mas para compreendê-lo a partir de uma metodologia de base. Como comparar a China, que é um estado unitário, com o Brasil, que é uma federação? Os processos de formação das sociedades são muito distintos. Contudo, isso não impossibilita um diálogo a partir da análise de experiências concretas. Exemplo: a implementação de projetos-piloto para testar políticas públicas antes de nacionalizá-las é uma prática da governança chinesa que merece nossa atenção.

O sistema de cooperação multipartidária e de consulta merece um estudo mais atento. Os comitês de bairro nas cidades e os de vilas nas zonas rurais, cujos membros são escolhidos pela própria comunidade, discutem e decidem questões cotidianas que impactam diretamente a população local. Há, cada vez mais, amplo uso de mecanismos tecnológicos para que a população possa se manifestar sobre as medidas implementadas pela administração. Nos órgãos do poder do Estado, há a preocupação de garantir que os diversos segmentos da sociedade estejam representados. No Poder Legislativo chinês, a proporção de mulheres deputadas vem crescendo acima de 1% desde 2008, chegando a 26,5% em 2023. A título de comparação, na eleição brasileira de 2022, foram eleitas 91 deputadas (17,7% do total de 513 assentos da Câmara dos Deputados) e 13 senadoras (16% do total de 81 assentos do Senado Federal).

Quanto à representação das minorias étnicas, há iniciativas que merecem estudo comparativo. A China tem oficialmente 56 grupos étnicos. A etnia Han representa mais de 90% da população. Em razão disso, a lei busca assegurar que, nas áreas autônomas étnicas, os grupos minoritários possam exercer certos direitos de autonomia administrativa. Na China, os grupos étnicos minoritários têm o direito de usar suas próprias línguas faladas e escritas, inclusive em processos judiciais. Esse exemplo poderia inspirar o Brasil a garantir aos povos originários o direito de usar seus próprios idiomas quando recorrerem à Justiça. Isto é republicano.

Aliás, no quesito “república”, a centralidade das emendas parlamentares no orçamento público brasileiro e seus débeis mecanismos de fiscalização, os penduricalhos nos vencimentos dos magistrados e da elite do funcionalismo público, a autonomia do Banco Central que se converteu em isolamento político e poder excessivo de uma burocracia não eleita, a pensão vitalícia para descendentes adultos e capazes de militares são exemplos de situações no Brasil que contrastam com a cultura republicana da China.

À medida que avança, a China se prepara para novos desafios e também para intensificar sua cooperação com o mundo; e o mundo, por sua vez, precisa de uma China estável, economicamente forte e pacífica. O diálogo com a China pode nos abrir mais horizontes de cooperação e de caminhos para o nosso próprio país. Uma ordem internacional efetivamente plural deve também admitir diferentes trajetórias políticas e tradições de pensamento. Levar a sério a dimensão republicana da China e as Duas Integrações não encerra o debate sobre democracia. Mas são conceitos indispensáveis para entender as razões pelas quais a China tem sido bem-sucedida em seu processo de desenvolvimento e, talvez, seja justamente isso que mais incomode aqueles que preferem uma China economicamente admirável, mas politicamente impensável.

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O que significaria, para as pessoas negras, acreditar coletivamente que, apesar do racismo e de outras forças de dominação, nós podemos encontrar no universo tudo de que precisamos para viver bem, inclusive a força para nos engajarmos no tipo de resistência política capaz de transformar a dominação? 

bell hooks, Irmãs do inhame 

Longe de querer responder o questionamento feito por uma das pensadoras negras mais influentes da nossa história, é preciso olhar para essa sentença como uma provocação constante e atualizável. Isso porque encontrar no universo tudo o que precisamos para viver bem parte da constatação de que nada nos foi dado para que esse feito fosse realizado. Forjado pelo processo de colonização que humilhou, violentou e excluiu nossos corpos dos espaços de poder hegemônico, junto a uma farsa de que vivíamos e continuamos vivendo uma democracia racial apaziguada e sem marcas de racismo, o Brasil segue produzindo um contexto em que o bem viver da população negra ainda é um sonho a ser conquistado. 

Os dados públicos seguem nos mostrando que a criação de uma resistência política capaz de transformar a dominação ainda é imprescindível para vislumbrar um futuro minimamente mais justo e digno para o nosso povo. De fato, para muitos de nós ainda é preciso sonhar com a possibilidade de viver um futuro, com ou sem o bem viver, afinal, em nosso país, envelhecer é um privilégio. 

De acordo com o Atlas da Violência, 77% das pessoas assassinadas no Brasil são negras. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), jovens negros do sexo masculino são as principais vítimas de mortes decorrentes de intervenções policiais. Além disso, mulheres negras são maioria em número de vítimas de violência doméstica, e crianças e adolescentes negros são as maiores vítimas de mortes violentas e mortalidade infantil.

A falta de oportunidades de educação e trabalho também afeta a população negra de forma desproporcional, além de sermos minoria nos espaços políticos. Dos 513 deputados federais, 24 são negros. Dos 81 senadores, três são negros. Dos 5.570 prefeitos, 1.604 são negros. Dos 57.838 vereadores, 24.282, são negros. Dos governadores dos estados e do DF, nenhum é negro. Dos ministros do STF, nenhum é negro. 

Nesse contexto, o futuro é construído a partir de um vislumbre. No dicionário, o vislumbre significa um clarão fraco de luz, uma visão sem nitidez de algo ou um sinal leve de que algo vai acontecer. Também indica uma ideia vaga ou uma pequena semelhança entre duas coisas. 

Não seria essa nossa forma de construir outros futuros possíveis? Acredito que vislumbrar seja um gesto político para as populações subalternizadas. É essa visão sem nitidez e esse sinal leve de que algo vai acontecer que nos impulsiona a criar outras possibilidades e modos de vida que tem como mote realizar uma transformação antirracista. Seja no campo micro ou macro, cada transformação que nasce de um vislumbre é um novo passo — e, como afirmou Chico Science, um passo à frente e não estamos mais no mesmo lugar. Vislumbrar é não ter a certeza de que iremos alcançar o que desejamos, mas ainda assim agir sem medo da incerteza, afinal, ela também integra o nosso fazer político. 

O que leva uma mulher negra, sendo minoria, a ir até um púlpito de uma Câmara confrontar políticos do alto escalão, colocando sua vida em risco, senão o vislumbre de poder garantir mais direitos para a população? Nem sempre essa ação será tão bem-sucedida e muitas vezes poderá custar nossa saúde e nossa vida, a exemplo de Marielle Franco. Mas ela pode dar início a uma mudança nunca antes vista, como o impulsionamento de milhares de candidaturas de outras mulheres negras em diversas cidades e estados do país ou a instituição de um Ministério da Igualdade Racial. 

O vislumbre enquanto gesto político também está pautado no exercício da imaginação radical. Em seu livro mais recente, Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível, a professora e escritora Rosane Borges defende o potencial que temos em atuar politicamente e incidir sobre o Estado graças às nossas formas de construir utopias. Ela defende que “se não disputarmos o imaginário, o racismo vence”.

É essa disputa pelo imaginário que impulsiona iniciativas como a campanha política para se ter uma ministra negra no STF. Organizado pelo Instituto de Defesa da População Negra (IDPN) e a Coalizão Negra por Direitos, a campanha se tornou um movimento nacional para pressionar o governo federal a indicar a primeira mulher negra da história para o Supremo Tribunal Federal. Ainda que a indicação não tenha sido feita, a campanha possibilitou que o debate sobre o racismo tocasse na composição do judiciário brasileiro, além de ser responsável por dar visibilidade a dezenas de mulheres negras que possuem formação para ocupar esses espaços, evidenciando que não nos falta capacidade, mas sim oportunidades. 

A forte atuação política de Erika Hilton na Câmara dos Deputados — liderando inclusive a proposta pelo fim da escala de trabalho 6×1 — também iniciou um movimento orgânico nas redes sociais, onde as pessoas afirmam que a deputada será a futura presidenta do Brasil. Nossa primeira presidenta negra e travesti. Um vislumbre que é reforçado na manifestação artística da cantora Urias. Ao final dos seus shows, enquanto performa a faixa Voz do Brasil — uma crítica à uma moral hipócrita do país —, a artista aparece utilizando uma faixa presidencial.

Junto ao movimento de reconhecer grandes escritoras negras brasileiras que antes estavam invisibilizadas e excluídas nos registros históricos do país — como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, entre outras —, é possível afirmar que foi a nossa imaginação radical de vislumbrar um futuro em que essas mulheres seriam reconhecidas da forma que merecem que levou Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor, a se tornar a primeira mulher negra a ocupar a Academia Brasileira de Letras. E, como esperamos, muitas virão depois dela, afinal, como afirmou Conceição Evaristo, “O importante não é ser o primeiro ou a primeira, o importante é abrir caminhos”. 

Importante também negritar a nossa relação com o futuro que não se dá de forma linear, como a cultura ocidental se conformou a pensar. Olhar para a ideia de um começo, meio e começo, como propôs o pensador quilombola Nêgo Bispo, é um forma de conceber que nossa ideia de futuro está diretamente ligada aos nossos ancestrais, àqueles e àquelas que habitaram a terra antes de nós e que já praticavam esse vislumbre como um gesto político há séculos. Como indica o ideograma sankofa, imaginar futuros possíveis para nós é reconhecer que nunca é tarde para voltar e buscar o que ficou para trás. Ou seja, muitas conquistas e muitos avanços já foram vislumbrados antes de existirmos enquanto matéria orgânica. E é pensando nessa indissociável relação entre ancestralidade e temporalidades múltiplas que me emociona trabalhos como o de Dalton Paula.

Junto a sua esposa, a pesquisadora e educadora Ceiça Ferreira, Paula criou o Sertão negro, uma instalação artística localizada em uma área de sete mil metros quadrados na zona rural de Aparecida de Goiânia, no entorno do Cerrado. O local tem como proposição ser um espaço vivo de experiências estéticas para pensar uma cura coletiva e a construção de novas epistemologias ao combinar práticas ancestrais e contemporâneas. Recentemente, em visita ao museu Inhotim, em Minas Gerais, pude conhecer parte do acervo de Dalton Paula na exposição Cura coletiva. Em seu trabalho, que reúne quadros, produções audiovisuais e instalações, o artista visual coloca em prática sua radical imaginação ao criar imagens que remontam registros históricos de pessoas negras — registros esses que muitas vezes nem existiram, mas que são inventados e reinventados com a arte.

Com isso chego a mais um ponto que acredito ser importante para a prática do vislumbre enquanto o gesto político para a população negra: a fabulação crítica. Criado pela pensadora norte-americana Saidiya Hartman, a fabulação crítica é um método de escrita e pesquisa que nasce do desejo da teórica em criar narrativas de experiências de vida de pessoas negras marginalizadas, criando arquivos para contrapor histórias oficiais que relegaram as pessoas escravizadas um lugar de constante violência e silenciamento. Fabular através de um arquivo oficial é também praticar uma imaginação radical capaz de construir uma resistência política transformadora. Tendo este mesmo mote de recontar a história através de arquivos que humanizem os corpos de pessoas escravizadas, a professora Valéria Gomes Costa, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, criou o grupo de estudos Matamba. Usando a técnica da paleografia para decifrar manuscritos antigos, o grupo quer resgatar a história de pessoas negras escravizadas e ex-escravizadas que viveram no Recife no século 19 e mostrar que essas pessoas também construíram patrimônio para seus herdeiros e suas herdeiras. 

Em um ano eleitoral decisivo para o Brasil, perceber esses movimentos políticos e culturais como um modo de construir futuros possíveis é assumir um compromisso com o gesto político do vislumbre, tomando-o como força motriz para mobilizar a transformação que queremos.

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O Grande Salto Adiante: a China decidiu não ficar para trás

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Há mais de duas décadas, a China passou a ser parte importante da minha vida pessoal e profissional. Morei lá por dois anos, e desde então voltei mais de uma dezena de vezes. Sempre visito várias províncias, revejo pessoas e lugares, acompanho a evolução de costumes, economia, novos lançamentos da literatura, enfim, o que passar na minha frente. E, no entanto, posso afirmar: não conheço a China, porque cada vez que chego encontro um país diferente. Apenas reconhecer que nunca a humanidade viu um caso de ascensão social nessa escala de grandeza e nesse curto espaço de tempo não parece traduzir o que se passa lá. Em menos de cinquenta anos, a China passou de nação ocupada e humilhada por potências estrangeiras, esfomeada por motivos externos e pelas políticas desastradas de Mao Tsé-Tung, que também destruiu o sistema educacional, à segunda economia do mundo, ou à primeira, se considerarmos o purchasing power parity (PPP), o poder de compra da população.

Esse salto pode ser contado por anedotas do dia a dia. Em janeiro de 2005, quando instalei a primeira sede da Globo na Ásia, precisei abrir uma conta no Banco da China. Foi uma experiência selvagem. Para chegar ao guichê, tive de avançar por uma multidão alheia aos conceitos de fila ou gentileza. Já no guichê, depois de uma hora, ainda era empurrada por mãos que se multiplicavam para enfiar papéis pela aberturinha no vidro. Passados dois anos, minha visita para encerrar a conta foi numa agência nova, com distribuição de senhas e sofás para esperar ser chamada. Em 2018, pela primeira vez fiz uma viagem inteira pela China sem tocar em dinheiro de papel. Todos os pagamentos feitos com telefone e códigos QR, de hotéis e passagens de avião a frutas da barraquinha na esquina.

Em 2005, levei uma mala de dinheiro para comprar um carro. A economia chinesa não conhecia nem cheque, nem cartão de crédito. Escolhemos uma camionete de marca local, cópia não muito precisa de uma japonesa. Nosso motorista chinês protestava — “Chinese car no good. Buy Audi”. Meses depois, quando precisamos trocar o pneu, descobrimos que o macaco era de carro pequeno, não alcançava a estrutura da camionete. Quando questionada, a concessionária mandou um funcionário com a solução: um toco para botar embaixo do macaco. Hoje essa é uma das montadoras chinesas que estão revolucionando o mercado automobilístico do Brasil com elétricos e híbridos com alta tecnologia embarcada e baixo custo.

Nada disso me surpreende. Eu vi a China seguir cada passo de uma estratégia para chegar aqui. A mesma de Japão, Coreia e outros asiáticos: abertura para estrangeiros com mão de obra barata, alto investimento em infraestrutura e educação. Planejamento e metas. Quem levou o chão de fábrica para a China encontrou trabalhadores com no mínimo nove anos de estudo, capazes de aprender rápido e dispostos a enfrentar extensas jornadas. Eles não tinham o direito de reclamar ou protestar, mas seus salários baixos garantiam comida na mesa da família, que geralmente ficava no campo do outro lado do país.

No começo dos anos 2000, o país era um imenso canteiro de obras, com cidades sendo botadas abaixo e reerguidas com avenidas, praças, viadutos e arranha-céus. Alguma arquitetura de gosto duvidoso, mas também obras-primas de arquitetos como I. M. Pei, Norman Foster e Zaha Hadid, que fazem da China um mostruário da arquitetura da virada do século XXI, da mesma maneira como a reforma Haussmann faz de Paris o mostruário da virada do fim do século XIX.

Aí veio a infraestrutura. A cada semana um novo porto proclamando ser o maior do mundo, uma nova linha de trem, outra central nuclear ou um parque industrial com tudo integrado: no mesmo pátio, várias empresas de determinado setor e os fornecedores de peças, insumo e logística. Todos juntos numa concorrência selvagem que derruba preços e incentiva a inovação. A infraestrutura não negligenciou a educação. Vi campi universitários sendo erguidos no meio do nada, nos modelos de Stanford, Harvard, Cambridge e Oxford. Professores dessas instituições sendo contratados para desenhar e ministrar os cursos. Empresas sendo incentivadas a montar departamentos de pesquisa e desenvolvimento tocados por engenheiros chineses.

Em 2004, visitei Chongqing, então uma imensa cidade de encostas íngremes à beira do Yangtzé que parecia uma vila amazônica turbinada — prédios velhos, escadarias sem fim (em Chongqing, você não anda de bicicleta, ela anda em você, diz o ditado local). Posta abaixo e reerguida, é a cidade mais futurista do mundo, ainda mais que Xangai. Naquele mesmo ano, levei dois dias por estradas estreitas de mão dupla seguindo o rio para ir de Chongqing até Yichang, onde estava sendo construída a usina hidrelétrica de Três Gargantas, que tirou de Itaipu o título de maior do mundo (agora há duas maiores, ambas na China). Em 2018, fiz o mesmo trajeto em quatro horas de trem-bala. Ele é a nova paisagem da China. O primeiro trecho foi inaugurado em 2008, com 100 km ligando Pequim, a capital, à cidade portuária de Tianjin. Hoje são 50 mil quilômetros de linhas de trem-bala cortando o país.

Em 2010, ouvi de uma fonte do governo chinês: “Perdemos a revolução industrial, a revolução das comunicações e tantas outras, mas vamos liderar as próximas revoluções, a começar pela energia limpa”. Hoje o país domina 90% do mercado de energia solar e 70% da energia eólica mundial; uma montadora chinesa de carros elétricos passou a Tesla e é a maior do mundo — na China, há mais de cem delas lutando ferozmente para alcançar esse lugar; a China lidera a produção e o desenvolvimento de baterias e sistemas inteligentes para administrar as energias de fontes intermitentes com as firmes. Há 20 anos, a China produzia o equivalente a metade da energia dos Estados Unidos; hoje, é o dobro. É o primeiro electrostate, em oposição aos petrostates. E a eletrificação da economia pode ser sentida no silêncio das ruas, onde predominam veículos elétricos, nas viagens pelos 50 mil quilômetros de trilhos de trens-bala, nos parques industriais que trocam caldeiras a carvão por parques solares. Tudo o que pode ser tocado por eletricidade já o é ou será em breve. Mesmo o petróleo, se usado para gerar energia, é mais eficiente do que para tocar motores a combustão.

Nos costumes, quem esperava ver a democracia brotar do desenvolvimento econômico testemunhou o contrário. Um endurecimento do Estado de vigilância e um controle que invade a vida privada como nos tempos da fome. A queda brutal da natalidade não se revolveu com a revogação da dolorosa política do filho único. E os direitos das mulheres sofrem as consequências. Em seu Enfrentando o dragão, Leta Hong Fincher relata como líderes de movimentos feministas são presas e tratadas como inimigas do Estado e jovens universitárias são coagidas a abandonar universidade e carreira para ter filhos para a pátria.

Na nova fronteira da economia, a inteligência artificial, a China está desenvolvendo modelos tão eficientes quanto e com menos gasto de energia do que os americanos. Essa disputa ainda está acontecendo, e não sabemos como será o desfecho, mas sabemos que a China não se acanha em mostrar que quer ser de novo o centro do mundo. O avanço autoritário no Ocidente facilita o trânsito chinês no marketing internacional. O enfraquecimento democrático deste lado do planeta poupa ao partido comunista a necessidade de explicar a falta de liberdades individuais, a censura à imprensa, a perseguição aos dissidentes e tantas outras agressões aos direitos humanos. E a rapidez com que a China alcança objetivos, se é boa para seus cidadãos, pode se tornar uma ameaça aos países que têm nela seu principal parceiro comercial. Ano passado, o governo chinês disse que quer reduzir drasticamente sua dependência da importação de grãos em 20 anos. O Brasil precisa se preparar rápido, porque a história recente mostra que as metas chinesas costumam ser alcançadas bem antes dos prazos.

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Do direito de ocupar o mundo à recusa de carregá-lo nas costas

A ideia da família tradicional sempre foi sustentada pelo mito fundador — tão conveniente a alguns — que diz que o homem trabalha fora para sustentar a casa e que a mulher cuida da família por puro amor. Na verdade, é importante dizer, as mulheres nunca deixaram de trabalhar. Elas sempre estiveram nas lavouras, nas fábricas ou em bicos informais, quase sempre com vergonha de ganhar o próprio dinheiro. No entanto, enquanto o mercado abriu as portas e a rotina de trabalho virou cada vez mais normal para a população feminina, a ideia de maternidade e a responsabilidade pelo lar continuaram iguais às do século passado. Nesse ponto é que a conta fica pesada demais: trabalhar o dia inteiro fora e ainda continuar sendo a maior responsável por cuidar da casa, dos filhos e de tudo ao redor. A virada do feminismo atual nasce desse nó. A questão já não é só ocupar os espaços dos homens, mas também expor que as mulheres não aguentam mais carregar o fardo do cuidado sozinhas. 

 Quando o feminismo ganha tração, na segunda metade do século 20, e se consolida como uma busca por igualdade no mercado de trabalho, a conquista de espaços de prestígio e o topo das carreiras tornam-se pautas legítimas e fundamentais. Porém, em sua gênese, o feminismo surge na ordem da necessidade. Antes de ser uma formulação teórica, o movimento feminista foi a resposta emergencial a condições degradantes e sufocantes de existência. Foi a reação a um ecossistema que negava às mulheres desde direitos políticos básicos até a própria sobrevivência em ambientes industriais e domésticos insalubres. 

 À medida que esse processo de emancipação avançava, a conquista de territórios originalmente masculinos impôs uma transformação complexa ao próprio feminismo. Para ocupar o mundo público e provar valor em uma estrutura desenhada por e para homens, o conhecimento e as tecnologias associadas ao universo do cuidado foram, em larga medida, desqualificados. O feminismo daquela geração concentrou-se em assimilar as lógicas do desempenho e da autonomia profissional, deixando a reprodução da vida diária entregue ao esforço privado. 

Assiste-se agora a uma guinada nessa trajetória. A tentativa de emular a rotina masculina deu lugar à exigência de colocar o trabalho do cuidado no centro da política e da economia. Como a economia enxerga esse trabalho hoje? Da enfermagem ao ensino infantil, passando pelo trabalho doméstico, a remuneração continua baixa — prova de que a sociedade aprendeu a desvalorizá-lo. Logo, a transformação feminista em curso não propõe uma simples troca de posições com os homens, mas a exigência de que a responsabilidade por manter a vida funcionando seja dividida por igual. O afeto não deixou de importar, mas a prioridade atual é definir quem realmente arca com o peso dessa engrenagem. 

Disso nasce um impasse que se manifesta especialmente na maternidade, em que as promessas de realização pessoal entram em choque direto com a realidade prática. Com o arranjo social abrindo portas para que a mulher desempenhe uma jornada profissional plena e, ao mesmo tempo, continue assumindo de forma quase exclusiva a gestão doméstica e a criação dos filhos, o cotidiano se torna insustentável. Estudos recentes mostram que mulheres casadas relatam níveis de satisfação e bem-estar inferiores aos de mulheres solteiras e sem filhos, enquanto o inverso favorece amplamente os homens. E é fácil entender o porquê: o parceiro muitas vezes preserva o privilégio de desfrutar da paternidade sem absorver o desgaste da rotina. Diante desse descompasso, em que a responsabilidade por cada detalhe recai sobre ombros femininos, ganha muita força a recusa em ter filhos nos moldes em que a maternidade continua sendo vendida. 

 Essa “greve do útero” reflete a essência da transformação contemporânea. A escolha, obviamente, transborda o debate feminista e pode refletir um desânimo generalizado com o futuro, em que o colapso ambiental e a instabilidade política se fazem presentes. Ainda assim, a indisposição contra o modelo sufocante da maternidade permanece no centro de tudo. A questão ganha complexidade porque diferentes realidades se cruzam: há mulheres que desejam ser mães, mas adiam o plano por falta de suporte e condições materiais; há as que cedem à pressão social; as que recusam a maternidade por completo; e as que a exercem sem romantismos. Se, em décadas passadas, criticar o mito do instinto materno provocava escândalo, hoje as contradições da criação circulam abertamente, evidenciando o esgotamento de um modelo secular. 

 Sempre atento, o mercado logo identifica essa hesitação estrutural e é ágil em capturar as angústias geradas pelas novas configurações do feminismo. A indústria médica e farmacêutica passa, então, a comercializar a promessa da maternidade medicamente assistida como uma solução técnica para um dilema político e social. O congelamento de óvulos e o adiamento da gravidez são vendidos sob a ilusão de que a biologia pode ser dobrada pela tecnologia sem custos físicos, financeiros ou emocionais. A promessa de um “tempo estendido” transforma o desejo de maternidade em um produto de consumo de alto custo, o que gera novos dilemas éticos sobre embriões e procedimentos invasivos sem resolver a questão da ausência de uma rede real de apoio para criar uma criança. 

Paralelamente a esse mercado, cresce uma reação neoconservadora que tenta frear os avanços feministas romantizando a vida doméstica. É o caso do fenômeno das tradwives, as “esposas tradicionais”, que usam as redes para exaltar uma rotina dedicada apenas ao lar e ao marido. Em vídeos com luz suave e estética impecável, lavar a louça ou assar um pão artesanal aparecem como o ápice da paz feminina. Mas há uma ironia inescapável aí: essa suposta “volta às origens” só existe porque virou trabalho remunerado. Para convencer outras mulheres a abandonarem a carreira, elas produzem e negociam patrocínios como qualquer criadora de conteúdo. Ou seja, a nostalgia do lar tradicional virou mais uma mercadoria lucrativa da internet. 

No outro extremo, na faixa liberal, a conquista da autonomia, da liberdade real de escolher o próprio caminho, acabou capturada pela lógica da performance. O mercado não vende apenas o direito de decidir, é ardiloso ao vender, no mesmo pacote, a ilusão de que é possível ter tudo ao mesmo tempo. Ferramentas como o congelamento de óvulos ou o trabalho remoto, que surgiram para dar respiro e flexibilidade, viraram rapidamente novas cobranças. A mensagem velada que se ouve hoje é a de que a mulher precisa ser impecável em todas as frentes: ter uma carreira brilhante, manter o corpo em dia, aproveitar a vida de solteira e, ainda assim, deixar a maternidade engatilhada para o momento perfeito. 

 O problema é que a cultura da performance tenta apagar uma regra elementar da vida: escolher um caminho exige deixar outro para trás. Ao vender a ilusão de que a tecnologia, o consumo ou a disciplina pessoal podem fazer a mulher estar em dois lugares ao mesmo tempo, o mercado transforma a própria autonomia, que deveria ser libertadora, em um fardo de exigências sobrepostas. A mulher não se sente livre; sente que está devendo em todas as frentes. O resultado dessa promessa falsa é um cansaço permanente, em que o próprio desejo acaba sufocado pela obrigação de performar. 

 Enquanto a classe média se prende a esses dilemas, a transformação mais real do feminismo ganha corpo na periferia. Quando o Estado não aparece e a presença masculina falha, a vida diária exige soluções imediatas, e as mulheres acabam criando suas próprias pontes. É a vizinha que olha as crianças para a outra conseguir trabalhar, a cozinha comunitária que garante o jantar do bairro, o apoio que chega no momento do aperto.  

 Essa política do cotidiano nasce do afeto e da urgência prática de manter a comunidade de pé, e é, talvez, a resposta mais contundente, pois essa vivência cria um chão firme para o movimento, capaz de aproximações reais entre histórias muito diferentes. Os próximos passos do feminismo parecem depender de parar de exigir que cada mulher resolva seus problemas sozinha, usando essa força coletiva para cobrar leis, serviços públicos e estruturas de amparo que sustentem a vida de verdade. Esse é o caminho para aliviar os ombros de cada uma e assumir o cuidado como responsabilidade coletiva. 

 A maturidade do feminismo hoje exige desmontar a ilusão de que as mulheres precisam dar conta de tudo. Nenhuma sociedade pautada no afeto e no tempo humano vai nascer do esgotamento diário ou das saídas fáceis prontas para consumo. Encarar a vida como ela é, sabendo que abraçar um caminho significa inevitavelmente se despedir de outros, não tem nada a ver com conformismo.

Só assim será possível quebrar a tirania das expectativas e resgatar o direito de desejar de verdade. 


Vera Iaconelli é psicanalista, escritora e doutora em Psicologia pela USP. Atua na clínica e no debate público sobre maternidade, relações familiares e questões contemporâneas. É autora de O mal-estar na maternidade, Felicidade ordinária e Análise, entre outras obras. 

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Hoje não tem nenhuma outra mulher trabalhando na mesma rua que eu. Só homens. Fico com medo de me pegarem. Não preciso estar bonita ou cheirosa, basta que eles saibam que não há ronda dos patrões e que ninguém será contra. Aqui não há quem dê conta nem mesmo da própria vida. 

Vigília. 

No adormecimento de um trabalho mecânico, ninguém precisa pensar para fazê-lo. A gente concentra a razão todinha na sobrevivência aos perigos que se enterram sob e entre as trilhas de cana plantada-crescida-queimada. As gentes ficam por aqui, como se jazidas numa vala a céu aberto. Almas penadas, porque, debaixo de toda a vestimenta, andam-puxam-rasgam-cortam-jogam. Não pensam.

Não consigo me concentrar no trabalho. Penso em tudo isso, o que me faz mais lenta. Com o braço esquerdo, a muito custo, afasto um punhado de cana para que seja mais fácil o golpe certeiro de facão que o braço direito deitará em sua raiz para, a seguir, empilhá-lo atrás de mim. 

Repito o movimento. 

De novo. 

E de novo. 

E de novo. 

E mais uma vez. 

Não consigo me concentrar no trabalho.

Limpo o suor nos olhos com dificuldade, porque o volume de roupas que uso para me preservar do sol, da fuligem e das folhas da planta — que resistiram à queima e deixam em brasa o que tocam, como se por vingança — impede que o dorso do braço se aproxime de meu rosto. É preciso cuidado para não aproximar a lâmina afiada do cutelo de minha cara, para que ele não abra ali uma cachoeira de sangue, como aconteceu com Ednalva na semana passada. Vigília. 

Mais uma vez o braço esquerdo afasta um monte de cana enquanto o direito é levado para trás, a mão tão assentada há horas no cabo firme da faca que é como se fosse ela o meu tato, e desce feroz à raiz da planta. Curvo levemente o corpo. Volto a erguê-lo. Dou um passo para o lado. Fico de frente a outro chumaço. É como se meu trabalho imitasse um passo de dança. Repito. De novo. Mais uma vez. Erro a mira. Tento outra vez. De novo. De novo. De novo. Outro passo. Mais uma vez o braço sobe, a mão desce. O pé se desloca na lateral. E me desculpe se faço parecer que há tempo para pensar: não há. O corpo embala o trabalho mais uma vez. E outra vez. Não paro. 

Eram três da manhã quando acordei. Minhamãe já me esperava na cozinha. Ali preparamos a comida que me abasteceria ao longo do dia, no talhão de cana, no meio do nada. Não tem muita comida e nem precisa que tenha, mesmo que o corpo careça de nutriente e de energia para encarar um dia inteiro sem descanso na colheita. Acordei mais cedo, tenho força suficiente para preparar a comida antes que os paus de arara ronquem seus motores e faróis pelas ruas, recolhendo gente para levar aos mais diversos destinos das plantações, me recolhendo. Mas minhamãe nunca soube dormir até perto do sol raiar. Toma da minha mão o bule e o pote de açúcar, a lenha do fogão já tinha acendido. Ordena que eu use o tempo para me vestir, tarefa custosa. Finjo resistir, mas só para olhá-la um pouco mais, sentir o que não é dito entre nós, pensar nas casas de pau a pique em que ela já morou.

Alguém arrisca carregar um rádio velho a pilha para romper com o enclausuramento da plantação, das roupas em quilo que sufocam o nariz, a boca, e dificultam o fazer xixi e cocô. Mas é difícil ter sinal. E a gente desliga todos os sentidos para amortecer o corpo que dói, coça, sangra, pede água, comida e vento. A gente se veste como pode, trabalha das seis às onze da manhã, faz uma pausa para comer aquilo que era comida quando preparamos e encerra às seis da tarde. Não paramos o movimento nunca. A pobreza cumpre o papel de capataz que arrebenta o chicote nas costas de quem faz corpo mole. Para conseguir dinheiro suficiente, a gente precisa de um corte rápido e muitas toneladas de cana colhida num dia, pelo menos quatro. Uma pilha maior que a casa de qualquer um feita por uma só pessoa, às vezes duas.

É assim o começo desse meu dia, que tem sido o mesmo desde o início da safra, há três semanas. Depois dos sete primeiros dias, a gente não sente mais cansaço. Fica adormecido. A gente se funde a ele: corpo e cansaço viram uma coisa só. Só faz o corta, o arrasta, o pesa. Não vê nem a hora passar. Todo dia um é picado por uma cobra-filha, mais perigosa que a cobra-mãe porque não tem a natureza de saber dosar o veneno da picada ainda. Um decepa os dedos, outros têm a orelha decepada. Marinalva, quando começou no ofício de boia-fria, na falta de jeito com essa dança, cortou a ponta do próprio nariz fora quando foi limpar o suor que ardia os olhos — esqueceu a vigília de manter o facão o mais longe possível de si. Ela só tinha treze anos, muitos dentes já faltavam na boca e agora estava sem a ponta do nariz. Fico com pena. Eu colho quantas toneladas por dia for preciso para que minhas irmãs não precisem passar por isso. É o único pensamento que ouso ter. 

Preciso correr, amontoar uma pilha com cana colhida, pois os cruzeiros, no fim do mês, precisam ser o suficiente para comprar os remédios que remediam mas não consertam as chagas da minhamãe e, quem sabe, se sobrar, um tênis novo para mim. Esse eu acho que precisarei deixar para depois, minhamãe fica tonta, segura o peito dolorido de um coração que ficou grande demais. Ela não reclama, mas eu noto que a velhice e a doença açoitam seu corpo numa velocidade mais acentuada pela vida seca. O médico aparece uma vez por mês e faz o que pode, com paciência mas pouca atenção. Só que para essa vida não tem mais remédio algum, é reza atrás de reza. Tão seca e tão árida que não importa o que eu peça. Só o que dá algum jeito é o facão, a marmita azeda e meu braço subindo e descendo debaixo do sol.

Nada nunca acontece. É o mesmo dia todo dia. 

Alguém me chama. Acho que é coisa da minha cabeça. Minha própria voz que sai descompassada vez ou outra e me pega no susto. Dei para falar comigo mesma. Dinalva. Parece ficar mais perto. Tenho medo. A voz chega mais perto, com o galope de um cavalo a sufocando, não sou eu. Rezo aridamente para que eu me concentre no trabalho e pare de divagar os medos.

Dinalva, você não está ouvindo, mulher? Me esforço para manter a lâmina firme. Dinalva, sua mãe… A palavra tropeça dentro do meu ouvido. Meu coração também.

Deito o facão no pé.

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Durante muito tempo, o envelhecimento foi tratado como uma etapa da vida privada, restrita ao âmbito familiar e às experiências individuais. Esse período, porém, chegou ao fim. Após séculos do apogeu da sua força de trabalho, aquilo que tecnicamente se costuma chamar de bônus demográfico, o Brasil está finalmente ficando grisalho. A transformação pode ser facilmente verificada na paisagem urbana no aumento da expectativa de vida, na redução das famílias e na consequente inversão gradual da pirâmide etária. Seja nos lares mais próximos ou nas ruas, o país se aproxima da realidade de ter uma população com menos pessoas em idade ativa e contar com uma parcela crescente de idosos.

O problema é que a mudança acontece em um ritmo acelerado e antes de termos superado problemas históricos, como desigualdade, baixa produtividade e fragilidades na proteção social. Por essas e outras, o envelhecimento costuma ser apresentado como uma ameaça às contas públicas. Mas, para a economista e demógrafa Ana Amélia Camarano, uma das maiores especialistas brasileiras no tema, o envelhecimento precisa ser entendido para além do seu impacto nas contas públicas. Pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ela estuda como as transformações demográficas impactam a sociedade e defende que uma população mais longeva também pode impulsionar a economia com força de trabalho e novas tecnologias. Os desafios para a Previdência, para o mercado de trabalho e para os sistemas de cuidado são inúmeros, mas o tema abre espaço para pensar uma economia voltada para uma sociedade que vive mais e, quem sabe, para um novo modelo de país. 

É tempo de mudar. Se viver mais deixou de ser exceção, por que continuamos organizando o país como se a velhice fosse um acontecimento raro?

Continuamos nos enxergando como uma sociedade jovem, como se a juventude fosse permanente. Estamos realmente envelhecendo?

Ana Amélia Camarano: Aqui, a fecundidade começou a cair no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 e continua diminuindo. Desde os anos 2000, já estamos abaixo da taxa de reposição da população, ou seja, não nascem crianças suficientes para manter o tamanho da população estável. Nas minhas projeções, a redução populacional começará em meados da década de 2030; nas do IBGE, um pouco depois. O mais importante, porém, é entender que passaremos a viver em uma sociedade demograficamente dominada por pessoas mais velhas, e não mais por jovens, como aconteceu ao longo de praticamente toda a história. Essa é uma mudança inédita.

O envelhecimento da população acontece de forma diferente no Brasil em relação a outros países? O que caracteriza esse cenário?

A partir de 2030, que é praticamente amanhã, cerca de 45% da população brasileira terá mais de 50 anos. Nossa sociedade sempre se organizou a partir de mecanismos de transferência entre gerações. Os pais cuidam dos filhos, os filhos cuidam dos pais na velhice. A Previdência também funciona assim: quem está trabalhando financia quem já saiu do mercado de trabalho. Esse mecanismo começa a entrar em crise, porque teremos menos filhos para cuidar dos pais idosos e menos trabalhadores contribuindo para um número crescente de pessoas que receberão benefícios por um período cada vez maior. É por isso que países como Japão e, mais recentemente, a China investem tanto em produtividade. A China está desenvolvendo robôs para tarefas domésticas e de cuidado. Não se trata apenas de substituir pessoas, mas de aumentar a produtividade em uma sociedade que terá cada vez menos trabalhadores. Esse é o desafio brasileiro. Estamos envelhecendo sem ter conseguido dar esse salto de produtividade. 

Como aumentar a produtividade de um país que envelhece? Quais são as prioridades para o Brasil enfrentar esse cenário?

A Previdência é uma delas. O regime de repartição simples, do jeito que está, se esgotou. Não adianta continuar fazendo reformas, porque, na prática, elas têm sido apenas puxadinhos. A reforma de 2019 aumentou a desproteção social e não resolveu a questão fiscal. Poucos anos depois, já se fala em uma nova reforma. Previdência é um contrato social, e um contrato precisa transmitir credibilidade. Hoje, muita gente não quer contribuir porque simplesmente não acredita que um dia vai receber o benefício. E a questão não é apenas demográfica: o mercado de trabalho mudou. A uberização, o trabalho por conta própria e as novas formas de contratação fizeram crescer o número de pessoas que não contribuem para a Previdência. Hoje, cerca de 40% da força de trabalho está fora do sistema. Então não basta discutir despesa. É preciso discutir receita, mercado de trabalho e um novo contrato social capaz de responder a uma sociedade em que as pessoas viverão muito mais.

Como resolver esse impasse?

O primeiro passo é garantir proteção para quem não puder mais trabalhar. O Brasil avançou muito com a Constituição de 1988, ao assegurar uma renda para essas pessoas. O problema é que o sistema atual caminha para proteger cada vez menos gente. Ao mesmo tempo, precisamos colocar a economia do cuidado no centro da discussão. As pessoas viverão mais, precisarão de mais cuidados, e essa é uma atividade que dificilmente poderá ser totalmente automatizada. O cuidado envolve contato humano, percepção, sensibilidade. Mesmo com o avanço da robótica, isso continuará sendo indispensável. É também um enorme gerador de empregos. Se houver empregos de qualidade, esse setor pode responder a uma necessidade social crescente e também fortalecer a economia.

Existe algum modelo que possa servir de referência para o Brasil?

Inglaterra e Chile, por exemplo, trabalham com modelos em pilares. Eu acredito que precisaríamos fortalecer um piso solidário, semelhante ao Benefício de Prestação Continuada, mas com alcance mais amplo. Esse benefício garantiria uma renda básica independentemente da contribuição individual. A partir daí haveria um segundo pilar contributivo, vinculado ao INSS, e um terceiro formado pela previdência privada. Hoje o Brasil devolve uma parcela relativamente alta do que foi contribuído, principalmente para quem contribuiu menos. Outros países trabalham com retornos menores, mas garantem primeiro uma proteção básica universal. 

A tecnologia pode ser uma aliada dessa política de cuidados?

Sem dúvida. Quando falamos em cuidado, muita gente pensa apenas no cuidador, mas existe toda uma cadeia tecnológica associada a isso. O Japão já utiliza bengalas com GPS, sensores capazes de medir sinais vitais, dispositivos de monitoramento e equipamentos que aumentam a autonomia das pessoas. No Brasil ainda estamos muito atrás. Além disso, nossos próprios sistemas públicos não conversam entre si. Saúde, assistência social e Previdência deveriam compartilhar informações, mas isso não acontece. Muitas vezes uma pessoa faz o mesmo exame duas ou três vezes porque muda de cidade ou de unidade de atendimento e o sistema não acompanha seu histórico. Precisamos de plataformas interoperáveis, capazes de integrar essas informações. 

No Brasil, a indústria que mais evoluiu com o envelhecimento talvez tenha sido a da anti-idade. Isso parece dizer muito sobre a nossa relação com a velhice.

A gente investe muito tempo e dinheiro tentando não envelhecer, mas dedica menos esforço para se preparar para viver mais. O Brasil é um dos líderes mundiais em cirurgias plásticas e a indústria de cosméticos anti-idade movimenta bilhões por ano. Isso revela o medo da velhice e, em última instância, o medo da morte. Só que esse preconceito dificulta o debate sobre políticas públicas. É muito mais confortável discutir envelhecimento ativo, academias, qualidade de vida. O lado mais difícil da velhice — a dependência, os cuidados de longa duração, as instituições de acolhimento — continua sendo tratado como tabu. Mas ele existe. Quanto mais envelhecermos, mais teremos de falar sobre isso.

Grande parte dos brasileiros vive para resolver o presente: trabalha hoje para pagar as contas de amanhã. Como construir uma mentalidade de longo prazo em uma sociedade assim? 

Se as pessoas vão viver mais, terão de trabalhar por mais tempo, cuidar mais da saúde e também se preparar financeiramente para isso. E tudo passa pela educação. Educação financeira, inclusive. Desde cedo é preciso compreender que não se pode gastar tudo o que se ganha. Se você quer viver muito e viver bem, precisa poupar. A contribuição para a Previdência também é uma forma de poupança. Acho que essa consciência precisa ser construída desde cedo. Hoje vivemos a democratização da sobrevivência. Antes sempre existiram pessoas que chegavam à velhice, mas eram poucas. Agora, a maioria chegará.

Por isso, a educação continua sendo fundamental, inclusive para a inclusão digital. Não basta usar a internet; é preciso saber navegar, acessar serviços, encontrar informações. Também precisamos combater o etarismo. As pessoas podem trabalhar por mais tempo, mas o Brasil vive uma contradição: para o mercado de trabalho, aos 50 anos você já é considerado velho; para a Previdência, aos 60 ainda é novo para se aposentar. Se quisermos ampliar a participação das pessoas mais velhas na economia, é necessário investir em capacitação continuada. Com a velocidade das mudanças tecnológicas, ninguém consegue permanecer décadas trabalhando sem atualização. Um dos principais preconceitos em relação aos trabalhadores mais velhos é a ideia de que eles não acompanham essas mudanças. Isso se resolve com formação permanente.

Falamos sobre educação e Previdência. Em termos de políticas públicas, existe mais alguma frente indispensável para preparar o Brasil?

A questão da habitação e da infraestrutura urbana é fundamental. Precisamos de cidades acessíveis, com iluminação adequada, calçadas seguras, transporte adaptado. Muitas limitações atribuídas ao envelhecimento são, na verdade, socialmente construídas. Uma pessoa cadeirante, por exemplo, pode trabalhar, sair de casa e participar da vida social se encontrar um ambiente acessível. Quando isso não existe, a dependência acaba sendo produzida pela própria sociedade.

Também é necessário adaptar os ambientes de trabalho. No Japão, há muitos anos, já era comum encontrar espaços mais ergonômicos, equipamentos adaptados e tecnologias pensadas para uma força de trabalho mais envelhecida. Os empresários precisam compreender que valorizar essa mão de obra também é uma estratégia econômica. Quanto mais tempo as pessoas permanecerem trabalhando, maior será o tempo de contribuição para a Previdência. Muitas vezes o debate fica restrito ao corte de despesas, quando também deveríamos discutir como aumentar as receitas. 

Você diz que essa transformação acontecerá em menos de dez anos, mas parece que o país ainda não se deu conta disso. Quais são as iniciativas para que essa tomada de consciência aconteça?

No governo federal há uma Secretaria dos Direitos da Pessoa Idosa, e também uma Secretaria Nacional de Cuidados. Elas desenvolvem ações importantes, embora ainda muito voltadas para populações mais vulneráveis. Nos municípios também existem experiências interessantes, como programas de visita domiciliar, centros de convivência e iniciativas voltadas para o desenvolvimento cognitivo e o envelhecimento ativo. O mercado também começa a responder a essa realidade. Há empresas investindo em estimulação cognitiva, memória, inclusão social e outros serviços voltados para a população idosa. Mas ainda precisamos avançar muito. O Brasil tem muitas necessidades sociais acumuladas e precisa conciliar educação, saúde, segurança, assistência social e envelhecimento dentro de um cenário de recursos limitados.

Mas não estamos parados. Desde que comecei a trabalhar com esse tema, há mais de vinte anos, vejo avanços importantes. Eles talvez não aconteçam na velocidade necessária, mas existem. Precisamos deixar de enxergar o envelhecimento apenas como uma bomba fiscal. O envelhecimento, por si só, não é bom nem ruim. O que fará diferença é a maneira como a sociedade, as famílias, o mercado e o Estado escolherem responder a essa nova realidade.

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À medida que a estrada de terra deixa para trás o asfalto que liga São Paulo às alturas de Camanducaia, a paisagem vai gradativamente mudando de densidade e escala. A 1.500 metros de altitude, em pleno coração da Serra da Mantiqueira, a bruma constante que cobre o vale do rio Jaguari atua como um divisor de águas na geografia da montanha, propondo um ritmo mais lento aos sentidos e ao corpo de quem se aproxima. Suspenso no topo do vale, entre nascentes e trechos de mata nativa que se espalham por 405 mil metros quadrados de relevo acentuado, está o Refúgio Alto, as terras de uma futura comunidade de vida e subsistência, onde o morar vai se dividir entre o aconchego sombreado do vale e o sopro aberto do horizonte.

A relação direta com o território define uma proposta que entrelaça arquitetura, terra e criação. Em oposição ao ritmo acelerado e ao consumo das metrópoles, esse refúgio — que aqui assume, por direito, a maiúscula de Refúgio — busca a autossuficiência organizando o cotidiano a partir do solo. Nessa dinâmica integrada, a produção do próprio alimento caminha lado a lado com o uso tátil da matéria-prima local: a argila das grotas, a madeira de manejo e as plantas tintoriais darão forma às casas, aos utensílios diários e ao trabalho prático nos ateliês.

Katja Taubert, cofundadora do Refúgio Alto, conta que, “como todos os projetos, este também começou com um sonho. Uma imaginação de como viver em abundância de coisas gostosas, de ideias e respostas utópicas para os desafios e problemas que identificamos nas nossas próprias vidas e nas sociedades urbanas e rurais.” E Gabriel Lima, cofundador do Instituto Alto (uma organização que está dedicada à cultura, pesquisa e à regeneração ambiental com sede no vale oposto do Refúgio Alto), completa, destacando a importância central do conceito de eco-criativo, que “parte da premissa de que a cultura e o meio ambiente são duas esferas essenciais e conectadas da nossa existência.” Para ele, “antes do mundo não humano das máquinas e das inteligências artificiais, existe o mundo não humano dos animais e das plantas; por isso, busca encontrar nesses sistemas os modelos e exemplos de convívio e organização coletiva.”

Na cidade, o ritmo acelerado fragmenta os laços coletivos e nos desconecta dos processos mais elementares da terra, como plantar o que se come, acompanhar o ciclo das chuvas e se responsabilizar pelo próprio lixo. Quando o solo vira apenas mercadoria ou reserva financeira, o sentido do morar como gesto de pertencimento, cuidado e permanência se esvazia. Em contraposição a essa lógica, o Refúgio desenha uma topografia em que a privacidade das casas e a vida comunitária se sustentam em equilíbrio.

Tal desenho se traduz em cerca de 50 áreas privadas distribuídas pelas encostas, em metragens que variam de dois mil metros quadrados a dois hectares. A prioridade, no entanto, pertence à maior parte dos 40,5 hectares que são dedicados à conservação da mata, ao plantio agroflorestal compartilhado, às trilhas para caminhada e aos espaços de encontro. É assim que o projeto se organiza como um bairro rural comunitário, gerido por uma Associação de Moradores e balizado por um regimento socioambiental construído para abrigar quem deseja entrelaçar as tarefas diárias aos ritmos vivos da floresta.

Tirar uma ideia dessas do papel, claro, exigiu a elaboração de uma estrutura jurídica que salvaguardasse o propósito inicial do lugar, como conta Katja: “O nosso maior desafio foi entender como criar regras que deem a maior liberdade possível para as pessoas ocuparem o solo, mas que, ao mesmo tempo, garantam de forma sustentável os interesses da flora, da fauna, das fontes de água e o bem-estar de toda a vizinhança.”

As regras que guiam cada intervenção no terreno partem de uma premissa de integração e baixo impacto. Assim, as casas ocupam no máximo 4% do solo e não ultrapassam a altura oito metros, erguidas com materiais de baixo impacto e sem grandes cortes na montanha. Em vez de muros, a divisão entre os lotes deve ser feita por plantas, preservando o fluxo da vida silvestre pelo vale. E na infraestrutura, a lógica é a mesma: o abastecimento de água respeita as nascentes sem perfurar poços profundos, o esgoto passa por filtros biológicos no próprio terreno e a mobilidade interna prioriza caminhadas, bicicletas e cavalos, deixando os carros apenas para o deslocamento essencial.

Esse rigor sobre o solo reflete diretamente a forma como o projeto concebe a criação e o seu impacto na montanha. “Existe um paradoxo em propor a ação humana para reparar os estragos da própria ação humana”, reflete Gabriel, ponderando sobre a nossa presença na Terra. “Mas a cultura é, em sua essência, o vínculo que tecemos com a natureza ao longo de milênios. Acredito que usar essa sensibilidade, aliada à ciência moderna, para criar intervenções que favoreçam os sistemas vivos seja o nosso único caminho possível.”

Recortada por cristas, fendas sombreadas e nascentes transparentes da bacia do rio Jaguari, a terra expõe as cicatrizes dos ciclos históricos da Mantiqueira, marcados pelo pasto e pela monocultura de pinus e eucalipto. Mas o projeto quer inverter essa lógica, apostando na presença humana como vetor de cura: as antigas áreas de plantio exótico dão lugar a sistemas agroflorestais, pomares com espécies nativas e corredores ecológicos que devolvem a passagem segura a jacus, tucanos, jaguatiricas e polinizadores.

“Existem intervenções que imitam os processos da terra”, detalha Katja. “As técnicas da permacultura, por exemplo, podem melhorar a biodiversidade, a qualidade do solo e a retenção de água, às vezes usando maquinário bruto para redesenhar a paisagem e criar assentamentos autossustentáveis. Ao introduzir insumos que a natureza levaria anos para produzir, como composto e nutrientes provenientes de manejo animal, a gente consegue imitar os processos naturais de construção de solo, criando condições mais favoráveis para que a floresta se regenere mais rápido.” 

Toda essa engenharia de manejo se completa quando vira vivência. À medida que a floresta ganha espaço e respiro, quem habita a montanha descobre um novo modo de estar no mundo. Para o fotógrafo Gleeson Paulino, também um dos idealizadores do Refúgio Alto, o ar da montanha atua como um convite para reajustar a escuta e os sentidos. “Tenho observado muito essa relação entre a cidade e o Refúgio. Lá, por estarmos em uma altitude mais alta e cercados pela natureza, existe um silêncio muito profundo. Os únicos sons são os pássaros, as árvores, o riacho. Isso muda completamente o ritmo do corpo”, relata ele. “Você dorme melhor, acorda com mais disposição, faz o café sem pressa, anda descalço no gramado, toma banho de cachoeira. E começa a prestar atenção em coisas muito simples: um inseto que você nunca viu, uma planta, uma espécie diferente. Aos poucos, isso vai te aterrando.”

Aos olhos de quem costuma estar imerso nas dinâmicas aceleradas da metrópole, o impacto mais evidente dessa vivência está na mudança da própria escala temporal. “Um fim de semana lá às vezes parece uma semana inteira, porque você está realmente presente”, diz o fotógrafo. “Na cidade, somos atravessados por tantos estímulos e tantas distrações que os dias simplesmente passam. Na natureza também existem distrações, mas são distrações que te trazem de volta para o presente. No fim, acho que o Refúgio é muito sobre isso: desacelerar o suficiente para voltar a perceber o tempo, o corpo e aquilo que está ao nosso redor.”

Mas algo fundamental do projeto é que a busca por esse respiro não significa isolamento. O bairro rural se insere na dinâmica da Mantiqueira de forma porosa, mantendo uma troca constante com o cotidiano de Camanducaia e de vilas vizinhas, como o Bom Jardim e o distrito de Monte Verde. A iniciativa privilegia o comércio local para o abastecimento, contrata profissionais da região e mantém um diálogo fluido com a rede educacional e cultural do entorno.

“O Refúgio Alto”, destaca Katja, “mantém laços amigáveis e respeitosos com os seus colaboradores e suas parceiras. O conhecimento e a sabedoria local são essenciais para a realização de projetos de plantio e de construção”. Essa troca com a comunidade vizinha dialoga diretamente com a atuação do Instituto Alto, que, a partir da sua reserva contígua e de sua sede em São Paulo, desenvolve iniciativas voltadas às gerações mais jovens, construídas em conjunto com a comunidade para enfrentar desafios sociais e ambientais do território. “A maioria das pessoas que trabalham com a gente carrega décadas de conhecimento ancestral sobre esse território. Nós tentamos sempre refletir e complementar esse saber com o conhecimento que trazemos; juntamos os dois e aprendemos um com o outro”, completa.

Essa troca se desdobra no Instituto Alto de Ecocriação e Cultura, localizado em uma reserva vizinha. Ele foi projetado como parque cultural e espaço de investigação voltado às artes, aos ofícios manuais e à agroecologia, e conecta a produção artística das capitais ao saber tradicional da montanha. Um dos projetos que está sendo desenvolvidos pelo Instituto Alto é O que a natureza guarda, que consiste na restauração ecológica de seis hectares com foco em diversidade ecossistêmica, diversidade de espécies e diversidade genética intraespecífica. A iniciativa prevê o plantio de dez mil árvores compostas de 150 a 200 espécies nativas, com a funcionalidade de ampliar a biodiversidade e apoiar a cadeia de restauração com bancos vivos de sementes.

A partir dessa matriz viva, artistas e cientistas colaboram em intervenções integradas à sucessão ecológica e à infraestrutura técnica e biológica de restauro do território. Essas criações conectam-se à arquitetura natural das espécies, interligando-se aos seus atributos de tons, texturas e aromas, assim como a outros organismos vivos. O modelo tradicional costuma sofrer com a baixa variabilidade de espécies e de diversidade genética intraespecífica, gerando áreas frágeis e vulneráveis às mudanças do clima. Então, para que a terra realmente renasça de forma forte e duradoura, é preciso ir além do plantio simples e abraçar a riqueza dos processos naturais de conexão e sucessão ecológica. 

“Existe um desejo muito forte de pertencer a alguma coisa”, pontua Gleeson Paulino, refletindo sobre como a vocação do lugar responde a uma busca coletiva por desaceleração e presença. “Muita gente fantasia sair da cidade e viver no campo, mas o isolamento total nem sempre se sustenta. Quando você transforma essa transição em uma experiência coletiva, a perspectiva muda. Você não está simplesmente fugindo da metrópole, está construindo outra forma de estar junto.”

Os ateliês e o trabalho comunitário são justamente os instrumentos que ancoram essa vivência no solo. “Me interessa muito pensar nisso através da arte: pessoas com sensibilidades e práticas diferentes, compartilhando espaço, conhecimento e experiências, criando unicamente umas com as outras e também em relação com a terra”, sintetiza ele, enxergando o vale menos como uma ideia abstrata e mais como ponto de convergência. “O que mais me surpreende é perceber que esse desejo já existe em muita gente. De alguma forma, o Refúgio está apenas criando um lugar para ele acontecer.”

A dispersão do mundo contemporâneo transformou a capacidade de contemplar em um ato de resistência. Habitar a montanha exige um aprendizado contíguo, no qual a vida em comunidade depende de manter a atenção viva no outro, no saber e na informação — laços que, desgastados, alimentam o adoecimento do nosso tempo. É esse cultivo diário que fundamenta o projeto: “Implementar isso como um modo de vida”, pontua Gabriel, “sobretudo de vida em coletividade, é talvez uma das poucas contribuições que estão ao alcance de todos e que podem gerar um impacto maior do que imaginamos”.

O Refúgio Alto vive o presente, mas mira o tempo dilatado, aquele cujos frutos mais maduros virão nas próximas décadas. Os sistemas agroflorestais que hoje ganham volume vão transformar a paisagem e a oferta de alimentos nos anos vindouros, enquanto as crianças que correm pelas trilhas do vale e frequentam os ateliês desenvolvem um vínculo intuitivo com a terra e o fazer manual. É essa sobreposição de ritmos que aproxima o cotidiano da floresta. 

“Vislumbro o Refúgio Alto, em dez anos, como uma vizinhança viva, com várias casas prontas, famílias vivendo e trabalhando de lá, crianças se aventurando no ambiente”, projeta Katja. A imagem encontra seu complemento na visão de Gabriel, que estende esse olhar para a própria terra: “Pensar em uma década ou duas é alinhar-se ao tempo de restauro de uma floresta e da transmissão de conhecimento entre gerações. A vivência compartilhada compõe um grande mosaico que espelha a essência da cultura e da natureza, fazendo disso um projeto coletivo”.

Diante de um horizonte em que a silhueta das araucárias corta a névoa do fim de tarde, o Refúgio Alto contorna as incertezas do nosso tempo com uma sabedoria ancestral: a de que é possível habitar a montanha com reverência, fundindo arquitetura, terra, arte e comunidade em um modo de vida que já começou.

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A matéria do tempo e a geologia do desejo: o pincel-bisturi de Maurício Adinolfi

por Revista Amarello

Pintar, para Maurício Adinolfi, é uma operação de força física, resistência mecânica e arqueologia tátil. A criação visual contemporânea pode estar migrando para superfícies luminosas, efêmeras e desprovidas de massa, mas a produção do artista paulistano prefere a poética que existe por trás do atrito. Suas pinturas se dão no peso da gravidade, na viscosidade da tinta a óleo, na rigidez bruta dos blocos de madeira maciça e na rugosidade do linho encorpado. Na exposição A Carne da Pedra, essa investigação ganha sua expressão mais densa. Nela, Adinolfi escava a Antiguidade com as próprias mãos, sem a distância respeitosa da citação erudita, arrancando do passado uma matéria que continua quente.

Casal de Pompéia (Caso sério), 2024

Graduado em Filosofia e mantendo um vínculo afetivo direto com o território e a paisagem do sul da Itália, Adinolfi constrói sua linguagem no ponto de fricção entre a densidade do pensamento conceitual e a crueza da matéria física. Essa relação já se manifestava em trabalhos anteriores, a exemplo da mostra Cão em liberdade (2023), na qual o artista articulava um vocabulário plástico focado na colisão das formas. Ali, a justeza geométrica e o silêncio contido dos recipientes do cotidiano conviviam no mesmo plano que a vibração elétrica de objetos banais, como latas amassadas, fósforos, restos de crustáceos e figuras com contornos grotescos. Ao colocar esses elementos em atrito através de composições com grande densidade de tinta, o pintor deixava explícita a sua antipatia à lógica do “cubo branco” — aquele modelo de galeria asséptico, neutro e de paredes impecavelmente limpas. No lugar desse acabamento mais polido, ele preferia ancorar o trabalho no ruído, na contaminação e no entulho visual da vida ordinária.

A partir da sua pesquisa mais recente, seu trabalho ganha um novo fôlego ao olhar para Pompeia. Soterrada pelo Vesúvio em 79 d.C., a cidade acabou guardando sob metros de cinza e pedra justamente o que o tempo teria destruído. Em condições normais, a umidade, as reformas urbanas, os saques e a própria exposição ao sol teriam apagado os afrescos e esfarelado as paredes das residências romanas. No entanto, o soterramento funcionou como uma estufa e, quando os arqueólogos finalmente abriram os casarões da elite, a exemplo da Casa dos Vettii e da Casa del Centenario, encontraram as paredes originais praticamente intactas, cobertas de mosaicos e pinturas murais tomadas por um erotismo direto, focado no prazer e no culto à fertilidade.

Adinolfi puxa desse universo tanto uma temática quanto um jeito de fazer. Em vez de usar pedrinhas de verdade — as chamadas “tesselas”, que os romanos cortavam e encaixavam lado a lado nos mosaicos —, o artista faz esse mesmo trabalho com tinta a óleo. A técnica consiste em depositar a tinta em camadas curtas e espessas, assentando a massa ponto a ponto sobre a tela. É uma construção paciente, como se cada marca de pincel fosse um pedaço de rocha colocado ali. O resultado é uma superfície cheia de relevo e textura, fazendo com que as figuras ganhem corpo e quase saiam do quadro.

Quando se olha para os corpos desse universo tão magnético, não há nada de acabamento certinho ou beleza neoclássica. O gesto ali é de revelação bruta, de rasgar a casca da imagem e escancarar a musculatura, os tecidos e a ossatura que carregamos sob a pele. É uma arqueologia da própria anatomia, com o pincel atuando quase como um bisturi. A carne existe no próprio corpo da tinta, com peso, relevo e presença física.

Adão e Eva (autorretrato pós-Claude Mellan), 2024

Nas variações da série Casal de Pompeia, dá para notar uma melancolia subterrânea na repetição obsessiva dos corpos entrelaçados. O erotismo presente celebra o prazer, mas, ao mesmo tempo, expõe a erosão lenta dos afetos e a impermanência dos encontros. A tinta sobre a madeira sofre o mesmo desgaste que consumiu as ruínas romanas ao longo dos milênios. E, com algumas inserções deliberadas de anacronismo, como a personagem de salto alto nos pés, a ilusão do tempo linear se rompe. Assim, os séculos se dobram sobre si mesmos, mostrando que as grandes pulsões humanas sobre o corpo, a fome, o sexo e a finitude permanecem assustadoramente iguais.

Esfolamento (autorretrato pós-Ticiano), 2024

A pintura de Maurício Adinolfi exige a presença física de quem vê, a lentidão do olhar e o atrito direto dos sentidos. Em seu ateliê, onde a matéria se acumula e o tempo se sedimenta camada por camada, o ato de pintar se reafirma como um ofício de resistência contra a imaterialidade da vida moderna.

Diante do choque entre o peso da rocha e a temperatura do corpo, fica claro que o desejo e a ruína são feitos da mesma substância e que a pedra, transformada na tela, camada por camada, ainda guarda o poder de sangrar.

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