Composição em vermelho, de Anna Maria Maiolino (1983). A artista ítalo-brasileira é uma das homenageadas da 60a Bienal de Veneza (Divulgação)

A mobilidade urbana é uma ferramenta de inclusão social imprescindível. Oferecer acesso facilitado e acessível a diferentes regiões e serviços é desempenhar um papel fundamental na garantia dos direitos de mobilidade e oportunidade para todos os cidadãos, independentemente de sua condição socioeconômica. Como prova de que a mobilidade urbana sempre chegará em quaisquer futuros com um tanque de importância cheio, ela segue sendo extremamente relevante à sociedade contemporânea, ganhando novas camadas de relevância na medida em que a sociedade avança de maneira desembestada. Em um mundo cada vez mais interconectado e marcado por desafios — tais quais a urbanização acelerada, a poluição e o congestionamento excessivo —, transporte público e companhia surgem como uma solução eficaz para promover a sustentabilidade, a equidade e a qualidade de vida nas cidades. 

O trânsito em São Paulo impacta a vida dos seus habitantes.

Nesse contexto, a necessidade de um sistema de transporte público eficiente e abrangente é mais premente do que nunca. 

Das possibilidades exploradas atualmente, parece inevitável pensar na implementação de novas políticas, como a famigerada Tarifa Zero, que só se nacionalizou de fato por aqui com as chamadas Jornadas de Junho de 2013. Essa abordagem, com a qual o transporte público seria gratuito para a população, busca enfrentar desafios como a congestão de tráfego, a poluição do ar e a desigualdade no acesso ao transporte. No panorama brasileiro, as dificuldades para a implementação da Tarifa Zero são acentuadas, principalmente em cidades de grande porte como São Paulo, palco principal das manifestações do Movimento Passe Livre ocorridas há uma década. As cidades brasileiras enfrentam barreiras estruturais, como a falta de investimento adequado em transporte público, a deficiência na infraestrutura e a falta de integração eficiente entre os modos de transporte. Além disso, a dependência do automóvel particular e a resistência política à mudança também são obstáculos significativos.

Um dos principais argumentos contrários ao transporte público gratuito é o financiamento. A gratuidade do transporte público demandaria um substancial investimento público, que poderia ser encarado como um ônus para os cofres municipais. Há preocupações de que a falta de receita proveniente das tarifas possa levar a uma deterioração dos serviços e a uma sobrecarga financeira para as autoridades responsáveis pelo transporte público. Outra dificuldade é conseguir atender o esperado aumento de demanda, o que exige investimento não apenas no aumento de frota, mas em infraestrutura urbana — incluindo faixas exclusivas, eliminação de vagas de estacionamento em vias onde passam ônibus, criação de sistemas de integração e transferência.

Tarifa Zero é uma proposta que ganhou destaque no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e um dos nomes associados a ela é o da política Luiza Erundina, prefeita da cidade de São Paulo entre 1989 e 1992 e uma defensora ardente do transporte público gratuito. Durante seu mandato, que aconteceu com o Partido dos Trabalhadores, foram realizados estudos e debates sobre a viabilidade da Tarifa Zero em São Paulo, o que popularizou a questão e fez com que a ideia fosse vista como uma possibilidade pelas pessoas. Antes, pouco se pensava sobre soluções como essas, descartadas de partida por serem tidas como inviáveis. A proposta foi amplamente discutida e despertou tanto apoio entusiasmado quanto críticas acaloradas. No entanto, toda ideia que desafia forças maiores sofre forte resistência e, devido a questões financeiras e políticas — e, não para a surpresa de ninguém, até pressão midiática —, a Tarifa Zero não foi implementada integralmente na cidade durante o mandato de Erundina. 

Apesar disso, como a boa iniciativa que é, o debate sobre a Tarifa Zero continuou a ecoar no cenário político brasileiro. Espera-se, inclusive, que tenha forte impacto nas eleições municipais deste ano. 

Luiza Erundina, com seu apoio à Tarifa Zero e outras iniciativas relacionadas à mobilidade urbana, deixou um legado de discussão e conscientização sobre a importância do transporte público acessível e de qualidade. Sua contribuição ajudou a colocar a questão em pauta, estimulando a busca por soluções inovadoras para os desafios da mobilidade urbana. 

E ela não está sozinha nessa. Há tanto políticos quanto pesquisadores que fazem coro à Erundina.

Enrique Peñalosa é um político colombiano conhecido por sua veia urbanista. Foi prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, e novamente entre 2016 e 2019. Peñalosa defende fortemente a isenção de tarifas como uma medida para garantir a equidade social e promover cidades mais inclusivas e sustentáveis. Durante seus mandatos, ele implementou políticas para tornar o transporte público acessível a todos os cidadãos.

“Uma cidade avançada não é aquela em que até os pobres usam carros, mas sim aquela em que até os ricos usam transporte público.”
Peñalosa na Ted Talk Why buses represent democracy in action (2013)

Bogotá tem uma população de 7,181 milhões de pessoas (2018). Getty Images

Susan Shaheen é uma pesquisadora estadunidense especializada em mobilidade compartilhada e inovação no transporte. Ela argumenta que o passe livre pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a utilização do transporte público, especialmente quando combinada com outras medidas, como o compartilhamento de veículos. Aprofundando-se no assunto, ela também chama a atenção para os cuidados que devemos tomar na automatização de processos, já que muitas vezes eles reproduzem imperfeições humanas.

“Precisamos pensar cuidadosamente sobre o que queremos dizer com equidade. (…) Se entrarmos em um futuro automatizado, onde temos aprendizado de máquina e inteligência artificial aprendendo com o motorista, preconceitos raciais podem ser incorporados aos algoritmos.”
Shaheen em entrevista para Iomob, em 2018

Judith Dellheim, que já esteve no Brasil algumas vezes em fóruns sobre mobilidade urbana, é uma pesquisadora alemã da Fundação Rosa Luxemburgo que aborda a questão da Tarifa Zero como uma forma de promover a justiça social e a sustentabilidade. Ela tem acompanhado as propostas de políticas de passe livre na Alemanha e estudado a dependência de seu país em relação à indústria automotiva.

“Na sociedade atual, com muita frequência, as cidades são planejadas de acordo com as necessidades dos proprietários de automóveis. E os poderes públicos – altamente endividados – investem anualmente muito mais por habitante em transporte individual motorizado do que em transporte público local.”
Delheim, no texto Tarifa Zero, a experiência europeia (2019)

No panorama global, aliás, a utilização do transporte público varia entre os países. Em algumas nações, como Alemanha, Suíça e Holanda, o transporte público é amplamente utilizado e bem integrado, com altos níveis de qualidade e eficiência. Em alguns casos, os sistemas de transporte público são parcialmente subsidiados pelo governo, o que reduz os custos para os usuários. No entanto, não existe uma abordagem única em relação à gratuidade do transporte público. Cada país adota diferentes modelos de financiamento e cobrança de tarifas, que vão de acordo com a viabilidade política, financeira e cultural daquela nação.

Na capital da Estônia, Tallinn, uma medida interessante foi implementada em 2013: os residentes da cidade podem usar o transporte público, incluindo ônibus, bondes e trens, mediante o pagamento de uma taxa de registro anual. Já a França, conhecida pela forte presença do Estado na vida prática dos seus cidadãos, tem o caso de Dunkirk: o transporte público na cidade, incluindo ônibus e trens regionais, tornou-se gratuito para todos os passageiros. Em um outro tipo de abordagem, a cidade de Bonn, na Alemanha, oferece um modelo híbrido de transporte público gratuito. Os estudantes e os passageiros com mais de 65 anos podem utilizar o transporte público gratuitamente, enquanto outros passageiros pagam uma tarifa reduzida. Essas abordagens têm como objetivo incentivar a utilização do transporte público e promover a sustentabilidade.

Um dos exemplos que mais chama a atenção, porém, é o de Estocolmo, capital da Suécia, que adotou uma abordagem diferente para tornar o transporte público mais acessível. A cidade introduziu um sistema de tarifas progressivas, em que o preço da passagem é calculado com base na renda dos passageiros. Dessa forma, aqueles com menor renda pagam menos ou até mesmo têm acesso gratuito ao transporte público.

O futuro da mobilidade urbana envolve a exploração de novas políticas, e cada caso deve ser pensado e planejado de maneira específica. Isso inclui a adoção ou não de novidades e tendências que estão moldando o futuro do transporte.

Veículos elétricos que produzem energia limpa são um exemplo: com a transição para veículos elétricos ganhando impulso em todo o mundo, as montadoras estão investindo pesadamente no desenvolvimento de carros elétricos e a infraestrutura de carregamento está sendo expandida. A mobilidade compartilhada é uma outra possibilidade: os serviços de compartilhamento de veículos, como carros, bicicletas e patinetes, estão se tornando cada vez mais populares. As pessoas estão optando por compartilhar veículos em vez de possuí-los individualmente, o que ajuda a reduzir o número de carros nas ruas e a diminuir a poluição. Além disso, estão surgindo plataformas que integram diferentes modos de transporte para oferecer soluções de mobilidade mais completas.

Mas, acima de tudo, a inteligência artificial é quem mais deve pesar nessas decisões e discussões. A tecnologia de veículos autônomos está progredindo rapidamente, e empresas de tecnologia e montadoras estão investindo nela para uso compartilhado de táxis autônomos e ônibus sem motorista. Essa tecnologia tem o potencial de melhorar a eficiência e a segurança do transporte, além de reduzir o congestionamento nas estradas. Da mesma maneira, a inteligência artificial está sendo aplicada ao gerenciamento de tráfego e ao planejamento urbano para otimizar o fluxo de veículos e melhorar a eficiência do transporte. Algoritmos avançados podem ajudar a prever padrões de tráfego, otimizar rotas de ônibus e sincronizar semáforos para reduzir o congestionamento e melhorar a fluidez do tráfego. 

Por essas e outras, as cidades estão investindo em infraestrutura conectada para melhorar a mobilidade urbana. Sensores e dispositivos inteligentes estão sendo usados para coletar dados em tempo real sobre o tráfego, qualidade do ar e uso de transporte público. Esses dados são usados para tomar decisões informadas sobre o planejamento urbano e melhorar a eficiência dos sistemas de transporte. À medida que a tecnologia avança e as demandas das cidades evoluem, é provável que novas inovações surjam, buscando criar sistemas de transporte mais sustentáveis, eficientes e acessíveis. 

Tomando os cuidados preconizados por Susan Shaheen, e sempre tendo a ética como fio condutor, a inteligência artificial pode levar a caminhos eficazes e mais abrangentes. 

No tecido intrincado das ruas urbanas, onde se cruzam sonhos, destinos e histórias, encontra-se a essência do direito de ir e vir do cidadão. Como cidade, tem-se o dever de tornar tangível essa aspiração, pavimentando caminhos que transcendam a mera mobilidade física. Nesse emaranhado de linhas, surge uma sinfonia de vidas em movimento, dançando em harmonia com o pulsar da cidade. 

Quando reconhecemos que a liberdade de deslocamento é mais do que uma necessidade prática, mas sim a própria poesia das nossas existências, somente então estaremos plenamente vivendo a verdadeira essência de uma mobilidade urbana inclusiva. Faz lembrar da frase da celebrada e saudosa Toni Morrison: “Eu sonho um sonho que me sonha de volta para mim.”

É possível. Mas é preciso fazer com que assim seja.

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A Casa de Marimbondo é uma nova e promissora marca sergipana de mobiliários e artefatos brasileiros. Emergindo como uma ode à tradição entrelaçada com uma visão contemporânea, ela traz consigo um vínculo íntimo entre o artesanato ancestral e a expressão moderna do design. Sua primeira coleção, de objetos do cotidiano e da cultura do pantanal sergipano, carrega muito desse propósito, sendo inspirada na natureza orgânica e comunitária do povoado do Tigre, em Pacatuba, onde mantemos a tradição originária de viver no tempo e do que a natureza oferece. 

Prometendo carregar o bastião do design trançado em tradições atemporais, a marca floresce sob a parceria entre a multiartista Naná Oliveira e a arquiteta Giovanna Arruda.

Giovanna é responsável por traduzir o bioma, concretizando o sentir do ambiente em artefatos e mobiliários. Como arquiteta, indica o espaço, direciona os tamanhos e formas do que está sendo produzido.

“No caso da Casa de Marimbondo”, conta a arquiteta, “falar sobre tradição não está diretamente ligado ao desenho e funcionalidade do mobiliário de forma isolada, nós prezamos pela singeleza da estrutura para que o trabalho artesanal seja o protagonista. Ele traz a preservação dos modos de vida, manualidades e memórias, antecedendo a chegada dos mobiliários ao Brasil durante os processos migratórios, que foram sendo adaptados à disponibilidade de nossas matérias primas.

Em um período em que tudo pode ser replicado de forma muito rápida, lidar com os processos artesanais, o tempo das pessoas e da natureza é um desafio. São nesses processos de produção, principalmente os que não têm o auxílio de maquinário, onde cada artesão imprime sua personalidade nas peças. É inegável perceber a riqueza de autenticidade e originalidade das artesanias produzidas nas comunidades tradicionais do país, sobretudo no norte e nordeste. Neste espaço, queremos ser protagonistas tanto na fabricação quanto na narrativa do que se é produzido aqui.”

E se Giovanna cuida da parte mais técnica do empreendimento, Naná é quem cuida da parte mais espiritual. Junto com a comunidade na feitura das peças, ela traça a palha, trama ideias e comunica o passado de tradição com o presente de preservação.

“Sem a comunidade e sua bagagem histórica”, diz ela, “não haveria criação de mobiliário e artefatos. É a partir dos modos de vida e da influência direta do bioma local que a comunidade do povoado Tigre manifesta sua arte. Para explicar de forma mais didática, precisamos compreender a formação das famílias e detalhar como as pessoas lidam com a natureza ao seu redor. Naquele território, se pesca na costa oceânica, se marisca nos muitos e grandes lagos, extraem taboa dos pântanos e lagoas, se planta e se cria animais. Para toda lida baseada no extrativismo e agricultura familiar, é necessário a criação de artefatos e é nesse momento que se percebe a sabedoria e criatividade de um povo. Foi a esse cenário que a Casa de Marimbondo trouxe um olhar contemporâneo.”

Nesse universo de criação que evoca energias de épocas e entidades distintas, cada objeto é mais do que uma simples peça — é um testemunho da relação simbiótica entre o artesão e a matéria-prima, entre a tradição e a inovação. No caso da coleção de Pacatuba, símbolos do cotidiano da comunidade são transmutados em artefatos que transcendem sua utilidade original: o puçá que as mulheres usam para mariscar, o tear onde é trançada a taboa e o barco utilizado para retirar as fibras naturais das lagoas transformam-se em ícones de um legado vivo.

“Sempre dizemos que o artesanato é o fio condutor entre um povo e sua cultura”, escreve a marca em suas redes sociais. “É através da manualidade que materializamos o que vemos ao nosso redor, que transformamos a necessidade da vida em arte.”

Naná Oliveira em foto de Victoria Araújo.

A jornada criativa da Casa de Marimbondo é tecida com fios de taboa e o suporte do vergalhão. A taboa é uma planta aquática que vive de mãos dadas em suas raízes, envolvendo-se umas com as outras. Sua flor é um espigão de farta quantidade de sementes, que se dissipam com o sopro do vento. Em sua exuberância natural, passa por três etapas para compor as formas e texturas das peças. 

Na colheita, é preciso ter força e sabedoria para dar um talho na taboa, com precisão, rente ao chão. No desfiar, usa-se o método mais condizente com o que será produzido: o desfiar de cabeça, um trabalho mais denso, é usado para cestos e esteiras, ao passo que o desfiar fino e preciso na lateral da planta é para tranças em sua delicadeza natural. A etapa final é o trançar, momento pessoal do processo, em que todas essas histórias são contadas em forma artesanal. Enquanto isso, o vergalhão, haste de aço que faz parte dos mobiliários interioranos pelo seu baixo custo e longevidade, molda a estrutura dos mobiliários com sua simplicidade e robustez, conferindo-lhes durabilidade e caráter.

E a esses processos e materiais se soma a vontade superior e inquestionável da vida natural. Como também escreve em suas redes sociais, a marca “trabalha no tempo da natureza. É a chuva que enche as lagoas e o sol que baixa as águas. É a natureza que nos diz o tempo do corte, do desfiar, secar, de criar e trançar nossos mobiliários.” Há nas produções da Casa de Marimbondo, portanto, aquela aura mística e insubstituível do que vem das entranhas verdes de nossas terras. Independentemente de onde elas estejam, o espírito do biossistema se faz presente, pronunciando-se através de uma forma final que respeita seu poderio intrínseco.

A colaboração entre Naná e Giovanna adentra um território onde a história e a identidade se entrelaçam. Cada etapa do processo de criação é permeada por uma profunda devoção pela tradição, enquanto simultaneamente se busca explorar novas possibilidades e interpretações. Das mãos habilidosas das artesãs à mente visionária da arquiteta, surge uma síntese harmoniosa entre passado e presente.

“A arte é a representação do cotidiano de cada comunidade, de cada povo. É necessário viver para compreender o território. O povo que vive ali cria seus modos de viver e sua própria estética a partir da necessidade cotidiana. Tudo está conectado, a natureza e a comunidade. O artesanato existe para suprir as necessidades cotidianas. Quando a arte popular da comunidade é preservada, toda a história do lugar se mantém viva.”
Naná Oliveira

Ao contemplar as peças da Casa de Marimbondo, somos convidados a mergulhar em um universo onde a beleza reside na simplicidade, onde a herança cultural se mescla com a estética contemporânea. Cada cadeira, espreguiçadeira e tamborete é um elo entre gerações, uma manifestação exuberante da resiliência e da criatividade de um povo.

“Assim como a culinária e a música, o artesanato é uma das formas de conhecer mais sobre um povo. Por meio dele é possível verificar se sua origem é fruto de inquietações artísticas comunitárias ou pessoais, se surgiu para suprir alguma necessidade cotidiana. Percebemos o porquê da mesma matéria prima ser esmiuçada em um determinado local de um jeito e em outro lugar de outro completamente diferente. Também quais as lutas e anseios daquele povo e a forma como vivem.”
— Giovanna Arruda

Assim, a Casa de Marimbondo ergue-se como um farol de esperança e prosperidade, oferecendo sobretudo oportunidades de empoderamento e sustento para as mulheres das comunidades tradicionais nordestinas. Em cada trançado, ecoa o espírito resiliente e vibrante de Pacatuba e outros pontos, convidando-nos a celebrar a riqueza da cultura brasileira em sua forma mais autêntica e inspiradora.

Como a própria marca carrega em seu slogan: aquilo que se convencionou ser chamado de design, elas preferem chamar de tradição.

Sem título, serigrafia de Anna Maria Maiolino (1995). A artista ítalo-brasileira é uma das homenageadas da 60a Bienal de Veneza (Divulgação).

Talvez você se lembre do clássico de 1979, Video Killed The Radio Star, da banda The Buggles. A música celebrava um futuro em que as imagens tinham o poder de estar em todos os lugares (lê-se “sala de estar”), dizendo coisas como “Pictures came and broke your heart, put the blame on VCR” (as imagens chegaram e partiram o seu coração, ponha a culpa no videocassete). Embora datada, a canção teve um impacto imenso e ecoava um sentimento geral de que o passado estava totalmente para trás e ninguém mais precisava de rádios, porque as músicas agora vinham acompanhadas de videoclipes na televisão. E se você pode ter som associado a imagens deslumbrantes, por que ficar só com som? Bem… De maneira irônica, quem parece estar com os dias contados hoje em dia são justamente os videoclipes.

Esse cenário tão prolífico e indispensável de não tanto tempo atrás está passando por uma mudança sísmica, onde os números estrondosos de visualizações estão sendo substituídos por uma paisagem mais fragmentada e desafiadora. Após o declínio das vendas de CDs no final dos anos 2000, o YouTube emergiu como uma métrica crucial de sucesso e os números de visualizações de videoclipes pareciam estar em constante ascensão. No entanto, agora nos encontramos em um momento em que até mesmo os gigantes do pop estão lutando para manter a relevância e o engajamento com suas produções visuais.

Um exemplo marcante desse declínio é o contraste entre os videoclipes de artistas como BTS, Beyoncé e Drake, que conseguiram no passado atingir cifras estratosféricas de visualizações mas que, no presente, já não conseguem reproduzir tamanha relevância com esse formato. A grande questão é: eles continuam tão populares quanto antes. E isso só pode significar uma coisa: houve uma mudança de mentalidade, mesmo para as pessoas mais fanáticas. Algumas dessas estrelas, inclusive, já decidiram parar de fazer clipes tradicionais. O novo álbum da Queen B, Cowboy Carter, foi lançado recentemente e… nada de clipe. Ou melhor, ela lançou o que a indústria chama de “visualizers”, que, no fim, não deixam de ser videoclipes, mas são consideravelmente menos complexos e sem muitas pretensões. Com Texas Hold ‘Em, uma música central de trabalho do novo disco, foi assim. Nada daquele clipe elaborado que seria de se esperar há 10 anos, quando canais de videoclipes resistiam na televisão, na era que antecedeu o boom dos streamings e do reinado TikTok.

Foi-se o tempo de grandes clipes musicais como Thriller do Michael Jackson, dirigido por John Landis, ou Dancing in the Dark, hit de Bruce Springsteen, dirigido por Brian De Palma. Essas obras tinham a liberdade para serem o que quisessem ser e, por conta disso, ditavam tendência e definiam toda uma época. Os anos 1980 foram marcados por inúmeros clipes dessa estirpe: Take On Me, A-Ha; Like A Prayer, da Madonna; Once in a Lifetime, do Talking Heads; Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler; Welcome to the Jungle, do Guns N’ Roses; e tantos outros. Aqui no Brasil, os anos 1990 tiveram o seu auge de videoclipes marcantes, como Diário De Um Detento, dos Racionais, dirigido por Maurício Eça, e Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero), canção d’O Rappa com direção de Luciano Vidigal. 

Há não muito tempo, os clipes reinavam com ainda mais força do que nos anos 80 e 90, devido à abrangência sem precedentes do YouTube, que permitia com que as pessoas assistissem aos clipes que desejavam, na hora que quisessem, quantas vezes lhes desse na telha. Mas algo no meio do caminho mudou tudo. O quê?

Uma das razões por trás desse fenômeno é a mudança no comportamento do público. Em um mundo inundado de informações e entretenimento instantâneo, manter a atenção do espectador por toda a duração de um videoclipe tornou-se uma tarefa hercúlea, mesmo que você seja uma Billie Eilish ou uma Olivia Rodrigo. Se o vídeo matou a estrela do rádio, o scrolling matou as estrelas dos videoclipes. Se lançado nos dias de hoje, ninguém saberia os passinhos feitos pelos zumbis de Thriller e as marias-chiquinhas colegiais de Britney Spears em Baby One More Time não causariam tanto furor. A ascensão do TikTok como uma plataforma dominante para o compartilhamento de conteúdo musical contribuiu ainda mais para essa mudança de paradigma, onde os vídeos curtos e virais dominam a paisagem digital. Hoje em dia, mais vale uma dancinha de segundos feita no quarto de casa do que um grande número musical de quatro minutos. Da perspectiva de um artista popular, é compreensível, já que esse tipo de divulgação natural dá muito mais retorno e não custa nada. 

Além disso, a própria indústria musical está passando por uma transformação radical. Há uma contenda famosa e contínua entre artistas e serviços de streaming: os artistas ganham quase nada com Spotify, mesmo aqueles com bilhões de plays, mas, sem a plataforma, sem dúvida a mais popular delas, não são tão ouvidos. E, se isso vale para os gigantes, vale em dobro para os pigmeus, que se agarram aos seus poucos ouvintes para fazer shows menores em casas locais. O conflito por si só gera um atrito que acaba mudando o modus operandi geral, criando um senso de cautela maior. Os orçamentos para videoclipes, quando existem, estão encolhendo, e os diretores estão sendo desafiados a fazer mais com menos — eis os tais visualizers. Outra solução para isso, que entrega tanto economia quanto eficiência, é o lyric video, uma produção de motion design que apresenta a letra da música com alguma elaboração gráfica. Claro que, enquanto produto artístico, nem os visualizers e nem os lyric videos chegam aos pés das ambições por trás dos videoclipes tradicionais. Então, fica uma sensação de perda.

“A própria indústria musical está passando por uma transformação radical. Há uma contenda famosa e contínua entre artistas e serviços de streaming”

No entanto, mesmo diante desses desafios, há uma crença persistente na importância dos videoclipes como uma forma de arte. As novas gerações podem estar distraídas demais para assistir a um clipe, e elas são as que costumam jogar números nas alturas, mas muita gente que já se impactou por esse ou aquele videoclipe ainda está aí, como mercado consumidor. Talvez, hoje, um videoclipe não valha mais tanto a pena. Mas o que se pensa é que, nos ciclos inevitáveis da cultura, eles voltem à baila. Assim esperamos, ao menos, porque eles têm o poder de criar momentos visuais que ressoam com os espectadores e transcendem o tempo e o espaço. Por que outra razão se não essa ainda estamos assistindo ao clipe de Gangnam Style ou de Bad Romance? Ou de Bohemian Rhapsody? Dos visuais icônicos de artistas como Spike Jonze, que dirigiu clipes para bandas como os Beastie Boys, aos cenários deslumbrantes feitos para Bjork nas colaborações com Michel Gondry, os videoclipes têm o potencial de se tornarem marcos culturais que definem uma geração.

Fica a dúvida: os videoclipes podem sobreviver e prosperar neste novo cenário digital? Claro que sim. Mas adaptações precisarão ser feitas. Uma delas foi anunciada recentemente: o Spotify agora está passando clipes. Muito embora isso queira dizer que essas produções serão consumidas pela tela de um celular, o que incomodaria muitos realizadores, a tendência é que sejam mais vistas. Ao menos parte delas. É um sinal dos tempos, mas é o que é.

No final das contas, acima de lucros ou prejuízos, a indústria musical deveria continuar a apoiar e investir na produção de videoclipes de alta qualidade. Por quê? Mais do que nunca, precisamos de algo que nos fascine verdadeiramente. No TikTok, não acharemos isso. À medida que nos aprofundamos no vórtex sem fim de pequenos vídeos vistos pela tela do celular, sem ver ou sentir a vida passar, esquecemos da intensidade e complexidade dos nossos sentimentos — algo que um videoclipe tem o poder de traduzir, visto que sua função primária é representar as principais sensações contidas naquela canção. Precisamos nos entregar novamente ao que quer que esteja dentro de nós, deixando a passividade de lado. 

Precisamos disso, nem que seja por míseros três minutos e meio

Sem título, xilogravura de Anna Maria Maiolino (1942). A artista ítalo-brasileira é uma das homenageadas da 60a Bienal de Veneza (Divulgação).

“Além da extraordinária perspicácia, a grande amplitude de visão desse homem e o fato de que ele mesmo estava de tal maneira no controle de um grande movimento se faziam sentir, especialmente em público. Presenciei esse aspecto de Freud nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, nas quais esse homem aparentava ser um gigante em meio a pigmeus.”

Sigmund Freud por Max Halberstadt (Domínio público via Wikimedia Commons).

Ler isso, e tendo ouvido o nome “Freud” pipocar aqui e ali nos mais variados contextos, faz surgir a pergunta: como devia ser a experiência dos pacientes do criador da psicanálise? Abram Kardiner, psiquiatra e psicanalista americano, mata um pouco dessa curiosidade no livro Minha Análise com Freud, lançado recentemente pela editora Quina

É verdade que, no caso de Kardiner, ele teve a oportunidade por ser um prodígio no mundo da psicologia e sua análise, portanto, serviria mais como um testemunho de como Freud aplicava sua psicanálise na prática e menos como uma terapia contínua. Mas, ainda assim, foi uma jornada que gerou um contato próximo com uma das pessoas mais influentes da história recente da humanidade.

“Poucas pessoas tiveram o privilégio de ser analisadas pelo próprio Freud. (…) Se eu fosse mais jovem, hesitaria em revelar os fatos biográficos necessários para essa empreitada. Em minha idade, no entanto, o que importa não é tanto dar uma contribuição à Freudiana, sobre a qual já existe material abundante. Minha motivação é um pouco diferente – revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.”

O psiquiatra Abram Kardiner (Bernard Gotfryd | Library of Congress)

Para se ter uma ideia de quem foi Abram Kardiner e entender o porquê dele ter sido selecionado para uma experiência como essa, basta citar alguns de seus feitos posteriores: foi responsável por promover estudos revolucionários sobre as interseções entre a psicanálise e a antropologia, além de ter feito contribuições seminais para a compreensão dos efeitos psicológicos do trauma e do estresse social, ajudando a estabelecer os fundamentos para o estudo moderno do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Embora nem sempre tão reconhecido, ajudou a expandir a psicanálise para além das fronteiras da psicoterapia individual.

Minha Análise com Freud, lançado fora do Brasil originalmente nos anos 1970, tem como força os trechos pessoais e reveladores do próprio autor, que compartilha suas experiências durante a análise entre 1921 e 1922, assim como suas reflexões sobre Freud enquanto analista e pessoa. Como o autor escreve no prefácio, a obra se caracteriza não como uma especulação sobre a teoria freudiana, mas por “revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.” Não à toa, um dos aspectos mais interessantes do livro é a análise crítica que Kardiner faz da própria análise que o dr. Freud está conduzindo. Ele discute sua técnica, apontando tanto suas virtudes quanto suas limitações. 

Revela, por exemplo, como Freud utilizava o complexo de Édipo como estrutura central da análise, mas também como se desviava de sua teoria da libido em determinados momentos. “Ele praticamente não falou nada sobre o erotismo anal, exceto de passagem (…). Em outras palavras, a análise foi iniciada com o complexo de Édipo, a derivação da constelação de dependência, com sua homossexualidade inconsciente, como uma das resoluções dos fracassos para resolver o complexo de Édipo satisfatoriamente, em cujo estado Freud me encontrou.”

Porém, ainda que cutuque uma ou outra atitude do psicanalista, Kardiner reconhece o “gigante entre pigmeus” quando escreve sobre a abordagem terapêutica de Freud, destacando sua habilidade única na interpretação dos sonhos e nas associações livres. Diferente dos outros, ele não lançava mão dos discursos inacessíveis, a genialidade de Freud também se manifestava ao fazer interpretações em linguagem comum, sem se prender excessivamente a formulações teóricas: “O que tornou Freud um analista extraordinário foi o fato de, pelo menos naquela época, ele nunca utilizar formulações teóricas, fazendo suas interpretações em linguagem comum.”

Ao longo do texto, Kardiner compartilha insights valiosos não apenas sobre Freud, mas também sobre o contexto histórico e cultural da Viena do início do século XX. Ele destaca a influência da psicanálise na sociedade da época e levanta a bola para falar das tensões e rivalidades entre os principais nomes do movimento psicanalítico, como Alfred Adler. Chega a ser curioso imaginar essas pessoas carregando qualquer tipo de rivalidade, mas acaba sendo um deleite. “Na verdade, não havia muitos psicanalistas – talvez uns quinze ou vinte –, mas todos eles tinham de passar por Freud, de modo que ele tinha um grande controle tanto sobre os aspectos econômicos quanto sobre o progresso do grupo. Não se podia deixar de reconhecer que essa influência era perniciosa, uma vez que também criava um bocado de rivalidade, brigas internas e manobras entre seus discípulos, levando a que se bajulasse aquele que era o grande provedor.”

Com sua narrativa envolvente e análises perspicazes, Abram Kardiner nos leva pelas profundezas da mente humana, principalmente na sua. No meio disso, nos convida a refletir sobre o legado duradouro de Sigmund Freud, o que talvez seja o que a obra tenha de mais instigante. 

Hoje em dia, a psicanálise continua a ser uma influência significativa no campo da psicologia e da psicoterapia, embora tenha enfrentado críticas e desafios ao longo dos anos. Muitos terapeutas ainda utilizam conceitos fundamentais da psicanálise, como o inconsciente, a transferência e a interpretação dos processos mentais, como base para sua prática clínica. A psicóloga Karin Silva1 acredita “ser importante considerar que Freud rompeu com paradigmas científicos muito fortes da sociedade da qual fazia parte e daquele cenário histórico”, sendo inegável “que a teoria psicanalítica freudiana trouxe contribuições singulares para o campo da psicologia em geral ao propor um método que valorizasse mais a singularidade e a complexidade dos processos subjetivos.”

No entanto, a abordagem psicanalítica evoluiu e se diversificou, incorporando ideias de outras escolas de pensamento, como a psicologia humanista, a terapia cognitivo-comportamental e a psicologia positiva. Essa integração de diferentes perspectivas permite uma abordagem mais holística e flexível, adaptada às necessidades individuais dos pacientes.

Dentro da comunidade científica e acadêmica, a psicanálise tem sido objeto de críticas e debates, especialmente em relação à sua eficácia em comparação com abordagens mais orientadas para evidências. Apesar disso, muitos defensores da psicanálise argumentam que sua ênfase na compreensão profunda dos processos mentais e emocionais, bem como na relação terapêutica, oferece benefícios únicos que podem não ser captados por métodos exatos. Na visão de Karin, “a psicanálise é injustiçada no campo das ciências quando dizem que ela não é científica devido ao fato dela não reproduzir um modelo de ciência parecido com o das ciências naturais e exatas.” 

Ao refletir sobre o futuro da psicanálise, isso nos anos 1970, o próprio Abram Kardiner escreve: “Devemos aprender a diagnosticar as doenças do nosso tempo e aquilo que está acontecendo na mente humana, numa cultura cujos padrões básicos estão se alterando a uma velocidade estrondosa.”

E Karin endossa sua opinião, voltando os olhos, inclusive, para o Brasil: “O fato da psicanálise ter sido criada no período Moderno em uma sociedade europeia voltada para as elites, pouco foi considerado na disseminação desta abordagem no Brasil. Por essa razão, por muito tempo e muitas vezes ainda na atualidade, a psicanálise pode apresentar uma leitura reducionista e individualista da subjetividade. Isso porque a realidade da maior parte da população brasileira, que é negra e/ou pertencente a classes populares, vivencia dilemas e problemáticas muito diferentes do público considerado por Freud na elaboração das suas teorias. Não é à toa que, por muito tempo com o aval da psicanálise freudiana, a psicologia no Brasil foi reduzida à psicologia clínica e acessada somente pelo público elitizado, os únicos com condição financeira e tempo para falar sobre suas aflições.”

O Sigmund Freud pintado por Kardiner de fato temia pelo futuro da psicanálise. Ele tinha medo de que ela fosse ficar restringida — daí a importância das adaptações temporais, culturais e socioeconômicas. Portanto, para além de sua leitura agradável e acessível, Minha análise com Freud serve como um lembrete de que, mesmo em uma era de avanços tecnológicos e mudanças sociais rápidas, as questões fundamentais da psique humana permanecem profundamente arraigadas e requerem uma exploração contínua e sensível para alcançar uma compreensão mais profunda e um bem-estar emocional duradouro. 

Com esse livro, publicado no Brasil pela primeira vez, conseguimos vislumbrar um pouco da experiência de ser analisado por um fundador do seu campo de conhecimento — e, a partir daí, vislumbramos também a ressignificação sempre necessária de seu corpo teórico.

Mesmo presentemente, a psicanálise carrega uma responsabilidade para com as pessoas, sendo a oportunidade para um renascimento depois que todos os impedimentos tivessem sido removidos. Adaptando-se a novos divãs e a novas realidades, ela pode “fazer o bem”, da forma como Freud e Kardiner acreditavam que ela era capaz.


1Karin Silva, mestre e doutoranda em psicologia, é psicóloga clínica e social ([email protected] / @_profpsi)

CinemaCultura

“Deságue” e as figuras mitológicas do Brasil

Em sua busca de desvendar as narrativas do Brasil, a Amarello apresenta Deságue, um filme de Pedro Perdigão.

Se você quer mergulhar em uma história legitimamente brasileira, Deságue é uma bela oportunidade. Realizado em película, o filme de Pedro Perdigão nada pelas águas do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, onde a natureza exuberante da região serve como pano de fundo para um enredo enraizado em mitos e mistérios brasileiros. Narrando a jornada de dois pescadores cujas vidas são entrelaçadas por uma figura mítica, a obra lida com temas que estão cravados na tessitura da cultura nacional. 

A proposta de se debruçar sobre uma parte importante do imaginário coletivo do país direciona nossos olhos para uma narrativa ancestral, profundamente conectada à própria essência do rio. As lendas do Rio São Francisco, transmitidas oralmente através das gerações, desempenham um papel crucial no ideário brasileiro, servindo como uma fonte de identidade cultural e conexão com o passado.

Estas lendas, muitas vezes envolvendo seres mitológicos como Boitatá, Curupira e Iara, são fundamentais para a compreensão da relação do povo brasileiro com a natureza e com suas próprias origens. Elas não apenas enriquecem as narrativas regionais, mas também refletem a riqueza e diversidade da cultura brasileira como um todo. Assim, o filme não apenas conta uma história singular, pouco traduzida para o formato audiovisual, mas também se insere em um contexto mais amplo de tradição e folclore, contribuindo para a preservação e celebração dessas lendas tão preciosas para a identidade nacional.

Além da narrativa e da poesia visual, Deságue é enriquecido pela poesia que permeia cada cena, com a narração de um sonoro poema dividido em três partes: “Nasceu pro rio”, “A água sussurrou” e “Segredos que só o rio sabe”. A título de exemplo, em um desses momentos, o poema evoca a emoção e a conexão dos habitantes ribeirinhos com o Rio São Francisco:

“O menino escuta a história de um tio ou de uma avó
O pai saiu de jangada e a jangada voltou só”

Essas seções, entrelaçadas com as imagens deslumbrantes captadas em película, transportam os espectadores para um universo mágico onde o tempo parece desacelerar, permitindo uma imersão completa nas histórias e mistérios do rio.

Para falar sobre o filme e refletir sobre os seus desafios e significados, conversamos com o diretor Pedro Perdigão.

Qual o significado de fazer um filme como esse, que evoca a mitologia das águas, em tempos tão rápidos e tão propensos a esquecer do passado como os atuais?

Pedro Perdigão: Colaborar com a Amarello, principalmente em um tema como esse, nos coloca em uma posição de proximidade com as raízes do nosso país. É lindo pensar quantas histórias existem ou ainda podem existir no nosso imaginário como território. Mais lindo ainda é pensar como elas são capazes de atravessar gerações e provocar múltiplas interpretações. Nosso filme é apenas mais uma dessas possíveis interpretações.

O Rio São Francisco, claro, desempenha um papel central na narrativa. Como entrar em contato com o espírito do Rio São Francisco? E a pergunta vale tanto em termos pessoais quanto de realização audiovisual, se é que não são os mesmos. 

PP: Realmente esses termos se confundem, se embaralham – formam um grande borrão. Sempre aprendi a ter um respeito enorme pela força das águas. Seja no mar ou em rios. O Rio São Francisco tem segredos que só ele sabe, ele é um universo grandioso. Foram duas maneiras principais que me pegaram: escutando as pessoas que ali vivem e navegam; e mergulhando no Rio aberto ao seus atravessamentos. 

Conte um pouco sobre os porquês da escolha de filmar em película.

PP: Venho da fotografia, de uma prática que valoriza as texturas, sensações e atmosferas. Filmar em película me ajuda a encontrar esses caminhos. Outro motivo fundamental são as restrições que a película promove. No set precisamos ser precisos. Valorizo muito o improviso, mas a película nos faz escolher bem o que rodar, nos faz estar atento ao que o lugar nos apresenta em relação a luz, atmosfera e paisagem. Faz os atores estarem próximos do que precisam transmitir. Faz com que todos os colaboradores do filme estejam perto de suas funções.

Pensando que o roteiro divide a história em 3 partes, quais os desafios de se filmar cada uma delas com características particulares mas, ao mesmo tempo, fazer com que elas se conversem e se complementem?

PP: O filme precisa estar na cabeça durante todo o processo. Isso amarra tudo. O projeto vai levantando perguntas o tempo todo. São as pequenas escolhas em todas as etapas que vão moldando o filme. Usamos alguns recursos diferentes para evidenciar as diferentes atmosferas que gostaríamos de transmitir em cada parte. Essas escolhas podem vir durante a filmagem ou nas etapas de pós. 

O filme tem elementos que você explorou em outros momentos da sua carreira, como a vermelhidão que se apodera da tela quando a figura mítica aparece. Aqui esses elementos são elevados a níveis mais profundos. Você vê “Deságue” como um ponto culminante da sua trajetória profissional?

PP: Todo exercício me leva a uma direção. ‘Deságue’ tem uma grande importância para mim por todo seu processo. Ele me lembra a maneira que mais gosto de fazer filmes – uma história que provoca, perto de pessoas inspiradoras, em contato com um lugar de força maior, poucas pessoas no set e muita vontade de todos em realizar – do pré ao pós. Fazer um filme é algo muito colaborativo, e isso me move. Agradeço muito a todos que entraram nesse processo conosco. 

Como você entende o papel do cinema, e da arte como um todo, em explorar e preservar as tradições e mitologias culturais?

PP: Entendo como algo que faz você querer chegar perto.


DESÁGUE
Um filme de Pedro Perdigão
Narrado por Zé Manoel

Roteiro – Tadeu Bijos
Direção criativa – Tomás Biagi Carvalho
Direção de fotografia – Daniel Venosa
Elenco Nirvana Gonçalves de Souza, Alan Fontes e Luciano Pedro Ferreira de Lima 
Beleza – Dindi Hojah
Figurino – David Pollak
Cauda sereia – Thiá Sguoti
Trilha sonora – Fred Demarca e Marcelo Gerab
Sonorização e Mixagem Final – Marcelo Gerab
Músicas – Fred Demarca
Montagem – Luca Narracci, edt.
Cor e Animações – Flip
VFX – Cajamanga
Produção executiva – Marina Ferriani
Gráficos – Mateus Acioli
Assistente de roteiro – Antônio Pedro Ferraz
Primeiro assistente de câmera – Gabriel Moska
Assistente de direção/produção – Matheus Nascimento Monteiro
Ordem do dia – Rodrigo Lacerda e Rafael Lundgren
Produção local – André Fontes Torres
Participações especiais – Yasmin Pereira dos Santos, Livia Gomes Fontes, Paulo Lima dos Santos, João Marco Teixeira e Mike Nascimento dos Santos

Agradecimentos – Dan, Adriana, Alef, Joaci do Pandeiro, Gedevaldo Bezerra, Thiago Fontes Barros, Fagner Almeida Bezerra, Caru Magano, Handred e Victor Hugo Mattos

A linha Amarello Rituais Em Brasileiro chegou para celebrar os rituais particulares que constituem a parte mais fundamental da nossa existência. Tanto a Água de Colônia Folha de Tomate quanto a Água de Colônia Mel de Cacau foram lançadas justamente para promover esse encontro entre nós e a nossa essência, com ambos os aromas trazendo a calmaria singular daquilo que é frequente e seguro. Mas como traduzir as ideias por trás desses estímulos olfativos em uma embalagem?

No vasto espectro da criação, existe um desafio que transcende a mera materialidade: a tradução de um aroma e um conceito, ambos intangíveis, em algo palpável. Esse é o território onde a magia do design de produtos se entrelaça com a complexidade dos sentidos humanos em um intricado jogo de formas e significados. É desde os primórdios da civilização que os seres humanos têm buscado meios de dar forma às suas ideias mais profundas, seja através de esculturas, pinturas, arquiteturas ou, mais recentemente, produtos. Hoje em dia, os símbolos são mais abundantes, mas também parecem durar menos — o que pode ser um desafio, especialmente se o objetivo for criar algo duradouro.

É nesse contexto que conversamos com Bárbara Bareca, designer de produto das duas águas de colônia. Em suas palavras e experiências, encontramos insights sobre o processo criativo e reflexões sobre a busca pela extensão da beleza e como os processos podem variar de país a país.

Pensando nas garrafas das águas de colônia, qual foi o processo para chegar a um resultado final?

Bárbara Bareca: Acho que o processo começa já com algumas coisas entrelaçadas e a gente já tem uma ideia do que quer fazer. No caso, a gente já sabia que queria fazer uma colônia e tinha algumas informações técnicas. Por exemplo, a volumetria. A partir disso, a gente tinha que tentar traduzir o que a gente queria do aroma para a garrafa. A gente estava querendo fazer uma garrafa nada parecida com o que a gente vê hoje em dia nas perfumarias. Como a gente sabia que o nosso produto era um produto de perfumaria de luxo, a gente tinha que ter um desenho atrelado a isso. Ao mesmo tempo, esse desenho teria que causar um desejo de compra, mesmo pensando numa questão de mercado. O processo aconteceu a partir daí. 

Foram muitos desenhos e os desenhos também traziam dificuldades técnicas, porque, como a produção seria 100% brasileira, a gente também tinha que entender isso enquanto produção. A gente até fala que todo desenho cabe no papel, mas para fazer é uma coisa totalmente diferente. Partimos para alguns desenhos, conversando com algumas pessoas em conjunto, como fabricantes de moldes, os fabricantes de vidro, desenhistas e técnicos, para a gente conseguir adequar essas nossas vontades de desenho ao que cabia na produção. Nisso, a gente fez algumas impressões 3D para entender esses volumes, para poder pegar, sentir na mão, entender o tamanho, entender se a gente aumentava o diâmetro, se a gente aumentava a altura, se a pegada estava boa. Para isso, a gente fez dez mockups. Foram dez protótipos para a gente ir entendendo as mudanças a partir do momento em que via essas peças prontas. Passamos por tudo isso para conseguir chegar na garrafa que a gente tem hoje.

Como foi sua experiência com pequenos ateliês de vidro?

BB: Ainda existem alguns ateliês de vidro no Brasil, mas, obviamente, um número muito menor do que tinha na década de 60 e 70. Era um material muito usado e hoje foi muito substituído pelo plástico. Fiquei surpresa, e grata também, por conseguir ter acesso a isso. São ateliês, são lugares pequenos, são produções pequenas, mas eu acho que é uma manufatura muito possível. Eu, particularmente, nunca tinha trabalhado com vidro dessa forma. A Amarello já tinha alguns outros produtos feitos em vidro, mas com uma técnica muito diferente, mais manual. As garrafas passam por um processo de molde de vidro soprado. Ou seja, você precisa entender quais desses ateliês conseguem fazer o tipo de produto que você deseja, porque não são todos. A gente passou por dois para poder chegar em um que conseguiria entregar a garrafa do jeito que a gente queria. 

Mas é interessante saber que a gente consegue ainda produzir esse tipo de produto no Brasil, em pequenos ateliês ou pequenas fábricas. A nossa produção não é grande, mas é algo totalmente possível. Temos algumas restrições, mas eu acho que o mais importante de tudo é essa noção de que é, sim, possível produzir vidro aqui.

O que deve ser considerado para chegar a uma estética que converse com aquele produto, com aquele aroma? 

BB: É preciso saber principalmente qual é a identidade do aroma e qual é a estética dessa identidade. Só assim a gente consegue fundir uma coisa com a outra e fazer com que isso converse. Quando foi definido quais seriam os nossos aromas, a gente teve que buscar a identidade desses aromas, a identidade da Amarello, a identidade dessa pesquisa, desse projeto e dessa linha dos rituais, para conseguir desenvolver um desenho que fosse esteticamente compatível a essa identidade. As coisas precisam conversar. Entender a identidade do que se deseja é sempre o principal.

O processo seria muito diferente se estivéssemos em outro país? Tanto em aspectos geográficos quanto culturais.

BB: Seria totalmente diferente! O Brasil é um país de manufaturas. A gente é muito rico em manufatura, em artesanato, em técnicas identitárias. Então, eu acho que a gente detém essa riqueza, que é um grande luxo. Mas, se tratando de uma escala industrial, a gente apanha muito. A produção aqui é caríssima. Precisa-se fazer quantidades absurdas para que a gente consiga um bom preço. A gente não tem muita viabilidade técnica. Igual eu disse, a gente conseguiu chegar em duas empresas que faziam vidro soprado e, mesmo assim, elas não detinham todas as técnicas. 

Se a gente tivesse em um país desenvolvido, obviamente a gente teria essa facilidade industrial. De quantidade de cor, de molde, de opções de ateliês, opções de profissionais. Mas aqui no Brasil isso é muito, muito limitado. É um pouco difícil, mas não é impossível. Ainda é possível com que a gente fabrique aqui. Mas temos muitas, muitas, muitas limitações. É uma indústria muito cara. 

O que mais fez seu olho brilhar na história toda?

BB: Conseguir traduzir numa coisa física tanto o aroma quanto o líquido. Traduzir numa coisa física um projeto que começa com os rituais do dia a dia. Isso fez meu olho brilhar. E também o fato da gente conseguir fechar o ciclo de vida de um produto. Eu acho que isso é muito importante também. Desde quando a gente começou a falar em fazer colônia? Há muito tempo. Tem que definir os cheiros, definir as notas, definir os nomes, a identidade visual, o desenho da garrafa, se adequar à produção, definir as embalagens, ao mercado, aos valores de custo, aos valores de venda. É um mega processo. Conseguir traduzir fisicamente um conceito e um aroma, somado ao fechar um ciclo longo com sucesso, fez com que tudo fosse especial.

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“O perfume é sobre relacionamentos”, diz o perfumista François Demachy no documentário Nose. “Sempre há uma conexão humana”.

François Demachy. Reprodução

O filme é uma produção encomendada pela Parfums Christian Dior e agora está disponível para streaming na Apple TV. A figura central é o maravilhoso processo criativo por trás de alguns dos aromas mais icônicos do mundo e, claro, a pessoa por trás deles, o renomado Demachy. Criador de perfumes da Dior desde 2006, Demachy tem um currículo que inclui fragrâncias de sucesso para marcas como Chanel, mas seu trabalho na Dior abrange algumas das maiores franquias da famosa casa francesa. Como mostrado no documentário, ele é conhecido pela dedicação tocante ao trabalho, desde misturar notas em seu laboratório até sujar as mãos nos campos de flores e instalações de produção onde essas notas começam sua jornada do solo para a garrafa.

Já de partida, o filme oferece algo que vimos poucas vezes: um aprofundamento nos complexos meandros por trás das produções de perfume. Como tantas outras coisas, os perfumes acabam não ganhando muito a nossa atenção diária, ainda que usemos um frasco com frequência. Quais são as histórias por trás daquela combinação? Por que esse cheiro e não aquele? De onde vêm esses aromas que têm tanto poder?

Seguindo Demachy ao longo de dois anos, o filme revela sua incansável busca pelos ingredientes perfeitos, desde jasmim e bergamota até patchouli, em locais tão diversos quanto a Indonésia e a Itália. Clément Beauvais, diretor do filme, destaca a determinação de Demachy, descrevendo-o como um “perfumista viajante” disposto a explorar os cantos mais remotos do mundo em busca da excelência.

O que o filme tem de mais interessante é o fato de que as jornadas de Demachy em busca do perfume perfeito não se limitam aos glamourosos tapetes vermelhos ou às lojas de perfumes de luxo. O filme captura momentos menos romantizados, como a meticulosa mistura de notas aromáticas em seu laboratório e as cenas rústicas de trabalhadores agrícolas colhendo flores à mão. Esses instantes revelam a complexidade e a paixão que o perfumista investe em sua arte, oferecendo uma visão autêntica do mundo da perfumaria.

A capacidade do filme de revelar essas cenas menos glamorosas, enquanto fornece uma espécie de introdução para os não iniciados por meio de comparações úteis com composição musical, vinificação e um rápido desvio para uma oficina de katana em Tóquio, lhe confere um apelo mais amplo. São os momentos menos “elevados” que ficam com a gente, como trabalhadores destilando óleo perfumado em grandes tanques industriais e agricultores colhendo flores à mão em campos aparentemente intermináveis. Nada é tão elucidador quanto essas sequências que estabelecem a complexidade, e a beleza, da perfumaria. 

Em um misto de cinebiografia e publicidade requintada, Nose consegue também, ao menos em algum nível, descentralizar o holofote, reconhecendo que Demachy é apenas uma parte de uma equipe maior que contribui para a criação de cada fragrância. Se ele é o gatilho de muitos processos, a mão na massa que faz acontecer não é a dele. Em Grasse, o berço da perfumaria no sul da França, o próprio perfumista defende o legado das fazendas locais e destaca a herança centenária da região. Ainda que não fuja absolutamente da mística de seu personagem principal, o filme destaca a importância do savoir-faire tradicional.

A colaboração e o respeito são valores fundamentais que refletem a visão de Demachy sobre a perfumaria como uma forma de arte que une as pessoas. Uma fragrância é uma evocação de uma memória, uma experiência e um momento no tempo. E a busca de Demachy pela fragrância perfeita lhe confere uma aura quase divina. Ao proporcionar sua visão intimista, tal qual um aroma transcendental, Nose atinge além do nariz e revela a verdadeira essência por trás das fragrâncias mundialmente reconhecidas da Dior, além de nos fazer pensar sobre os processos que envolvem outras marcas. 

Se os perfumes são “sobre relacionamentos”, como diz Demachy, então nada como ver as entranhas dessas conexões.

Arte de Alvaro Seixas, capa da Amarello Erótica.

Meus desenhos partem da sedução que a imagem do outro exerce sobre mim. Sempre dediquei a minha atenção à linguagem encoberta nos corpos que não habito: sua intrincada complexidade mitológica, poética e política.

Sou fascinado pelas aquarelas de Rodin, pelos desenhos de Jean Cocteau, Ismael Nery e Tunga. Também pelas fotos de esculturas antigas feitas por Alair Gomes a partir de ângulos obtusos (eróticos) durante seus passeios pela Europa. Recentemente, me encantaram as figuras múltiplas retratadas por Lorenza Böttner.

Mas, uma de minhas obras de favoritas é o desenho de Leon Bakst representando Vaslav Nijinsky de fauno, feito para os Ballets Russes. A figura dançante e satânica desse bailarino fantasiado de divindade romana sempre ofereceu visões maravilhosas. Me interessa, dessa forma, essa fantasia do corpo, ou, ainda, esse enigma do corpo e sua penumbra ficcional. Não me interesso tanto pela arte e pelos corpos idênticos e reduzidos ao “inferno do igual”, para pegar emprestado uma expressão do filósofo Byung-Chul Han.

O sagrado tem algo a ver com esse enigma. O sagrado é erótico, uma entidade misteriosa que não se revela tão facilmente para nós. É a imagem do cupido que sorri com alguma malícia pois sabe que, para oferecer prazer, precisa necessariamente flechar a carne. É o mesmo sagrado do êxtase de Santa Teresa e por ela mesma narrado quando reencenava suas experiências místicas para as freiras do seu convento. O sagrado é o anjo de mármore, na escultura de Bernini, que atinge e faz contorcer a carne de Santa Teresa com uma flecha sagrada. O ritual religioso é indissociável da carne, pois é na carne que o sagrado se manifesta.

Ao desenhar, tento entrar em contato com esse erotismo sagrado e sua natureza contraditória: “as lágrimas de Eros” como nos falou Bataille. Ao desenhar, tento me distanciar do que é profano: do que é explícito, transparente e excessivamente luminoso. Precisamos das feridas eróticas, pois elas se opõem à matemática do regime da informação, desprovido de alteridade e narração.

Revista

Erótica — Amarello 48

“Sobre o tesão nada podemos saber”.

Garanta a sua Amarello Erótica aqui

A mais recente Amarello investiga nossas pulsões e nossos desejos em sua edição Erótica, número 48. Para o tema, recebemos como editor convidado o cantor e compositor Bruno Cosentino, com capa do artista Alvaro Seixas.

“a casa é o corpo. sentimos toda sua força não racionalizável — o tesão — que vibra desde nosso centro. sobre o tesão, nada podemos saber. podemos, no entanto, conviver com ele, encará-lo e deixá-lo agir. não devemos negá-lo”, nos instrui Cosentino, em seu editorial.

Leia a Amarello Erótica na íntegra. Garanta a sua aqui.

Arte de Alvaro Seixas, capa da Amarello Erótica.
#48EróticaCulturaEditorial

o corpo radiante

Bruno Cosentino é o editor convidado da Amarello Erótica, edição 48.

a erótica é uma matéria sitiada. em torno dela, nos quedamos agitados, cercando-a, contemplando-a. nela podemos até tocar, mas nunca penetrar. é como a definição de hermetismo dada certa vez por um teórico italiano: estamos confinados ao átrio, de onde nos chega a vibração vinda de dentro da casa, mas esta, porém, é inalcançável.

a casa é o corpo. sentimos toda sua força não racionalizável — o tesão — que vibra desde nosso centro.

(outro dia meu filho me perguntou o que significava a imagem do homem vitruviano. fui olhar de novo aquela figura circunscrita a um quadrado e a um círculo de mesma área cujo centro é o umbigo. fiquei pensando que se colocássemos o sexo no centro, onde imagino que esteja, o homem perderia a cabeça, sambando com o cânone geométrico. andré masson se inspirou em da vinci para desenhar seu acéfalo, que trazia o crânio entre as pernas e as tripas no ventre.)

sobre o tesão, nada podemos saber. podemos, no entanto, conviver com ele, encará-lo e deixá-lo agir. não devemos negá-lo, como o fez santo agostinho, que, lascivo inveterado, após se converter ao catolicismo, lançou mão de um estratagema intelectual para arrazoar contra sua tara persistente. e o pior, contra a alheia também. inventou, por exemplo, o pecado hereditário, do qual não livrou nem as criancinhas. ou a teoria da vontade, duelo dignificante entre a cabeça de cima e a cabeça de baixo, o bem e o mal, a alma e o corpo. mais de quinze séculos depois, o delírio engenhoso do santo ainda regula a vida sexual de muitos. desse grande recalcado, freud, mais recentemente, partiu para tentar entender o tesão, ao qual deu o nome de pulsão, definida como uma força constante que se move no limiar entre o psíquico e o somático. salvou a cabeça: tratou das vibrações do tesão na vida psíquica, pois sabia ser tarefa difícil, se não impossível, transpor os limites do átrio.

mas, sim, parece que há uma passagem. ela é estreita. não se sabe quando, não se sabe onde, não se sabe se. é chamada êxtase, graça, mística, pequena morte, gozo etc. imagem fugaz, aparece e desvanece sem que possamos apreendê-la. por isso a perseguimos obsessivamente, santos e putas, e repetimos o ato e vamos e voltamos e até nos multiplicamos para que novos seres possam repetir como nós o mesmo gesto sem sentido, a mesma pergunta sem resposta — este deus ecumênico.

o corpo é o prisma. o tesão é a luz que incide sobre os corpos-prismas, que, ao se desejarem, se iluminam, refratando-se em uma miríade de cores. cada matiz, uma pergunta, cada resposta, um devaneio. a fantasia é o vórtice que traga qualquer um que afirme seu tesão. a fatura erótica.

daí, esta edição dever ser isto que vibra e não diz nada — uma intumescência.

Arte de Alvaro Seixas, capa da Amarello Erótica.

Sentada à minha frente, uma só perna esticada, esfregando o pé de cima a baixo na minha língua de fora, eu imóvel, teso, só resistindo à pressão que seu pé fazia. Cheiros junto com saliva iam se espalhando pelo meu rosto, boca, nariz, testa, queixo, aí olho, bochecha e tudo de novo outra vez. De vez em quando ela para e distribui tapinhas em meu rosto com a palma e o peito do pé, olhos avisando pra eu nem tentar me esquivar ou buscar proteção. Obediência era o que se esperava de mim, obediência, apenas, e era eu me distrair um pouco, deliciado com os encantos daqueles pés, ora um de cada vez vindo pra cima de mim, ora os dois juntos, e lá vinha um golpe surpresa pra eu não ficar nunca muito acomodado. Tapinha de leve, que aquilo era um pé batendo num rosto, mas, por mais leve que fosse, mexia com os meus medos todos. E o engraçado é eu em dúvida, hoje, se gostei mais de ter os pés dela ao alcance dos meus cinco sentidos ou se dela brincando de distribuir tapinhas surpresas com esses mesmos pés. As duas coisas, talvez? Defender-se é reação inconsciente, em minha mente alarmes a que toda uma vida fui condicionado soando, perigo!, perigo!, e eu precisando aprender a ignorá-los, já que desligá-los não era uma simples questão de querer. Eu queria era o quê, aliás? Estar totalmente rendido, à mercê das vontades dela? Se sim, então era mais do que necessário aprender a estar entregue, as minhas defesas todas desarmadas. O frio na barriga que isso não traz! Ela percebe meu desconcerto, acho até que riu dos meus medos, mas sabe também, eu queria crer, que abusar demais, isso não seria lá muito prudente. Naquele momento inicial ao menos, eu ainda tão virgem nos meus sonhos de submissão. Seu pé então se aquieta e a língua precisava agir, cavucando fundo os poros daquele pé atrás do gostinho salgado, esfregando firme cada curvinha mínima, dedos, entrededos, palma, peito, calcanhar, mãos em movimento orquestrado aproveitando o ensejo pra massageá-lo. Pelezinhas soltas no pé, ela aponta, bolhas já secas, língua e dentes logo se revezando em raspar de leve até deixá-la lisa outra vez, eu engolindo os resquícios da esfoliação, assim como tudo o que empelotasse na língua. Me arrepiavam as sensações que eu vivia. Não havia script, não havia horário, nada, eu um poço de timidez, sem saber direito o que fazer com as mãos, se eu podia, ou não, olhá-la nos olhos, envergonhadíssimo da ereção indisfarçável que tomou meu genital logo que ela mandou eu me despir. Seus olhos pareciam nem notar aquele pedaço de carne, pedaço que sempre tratei como o ator principal do tesão, mas que ali encarnava o papel, no máximo, de um figurante espalhafatoso. “Agora que você já se esbaldou”, ela disse, “é minha vez de sentir prazer”. Fiz que sim com a cabeça e ela, dando uma última pancadinha em meu rosto, falou pra eu ficar de pé, mantendo as mãozinhas sempre pra trás. “É um belo pau, você deve ter bastante orgulho dele, não?”, ela falou, enquanto manuseava minhas bolas, apertando-as ora de levinho, ora com mais força para testar o tanto de dor que eu suportava. “Você garantiu que ia me dar prazer, fazer de tudo pelo meu prazer… Espero não me decepcionar”, declarou, por fim, levantando-se da cama e arrastando-me pelas bolas até um canto do quarto. Não transcorreram duas horas desde o bar em que casualmente nos conhecemos até chegarmos àquela espelunca, o hotel mais próximo que havia, onde entramos sem sequer saber nossos nomes, sem ter combinado nada. O que nos ligava eram aqueles pés, pés que me fascinaram, pés pelos quais caí rendido no bar, beijando-os de joelho, em público, sem que a dona dos tais manifestasse qualquer desconforto com a cena. Era como se ela já esperasse a atitude, talvez até estranhasse o tanto que demorei. Foi dela, aliás, a ideia de virmos para o tal hotel, onde eu teria toda a liberdade do mundo para reverenciá-la. Paguei nossas comandas, deixei acertado o pernoite e cá estávamos nós. No entanto, apesar do deleite supremo que eu vinha experimentando, eis-me agora confuso com a atenção que ela dedicava ao meu genital, receio de que aquele encontro mágico com um ser superior se convertesse, de repente, em mais uma transa banal igual a inúmeras outras. Como eu estava enganado. Ela iria se valer, sim, do meu genital, mas não da forma ordinária, com a penetraçãozinha bonitinha e, coroando tudo, uma ejaculação. O tesão se manifestava de formas menos óbvias para essa mulher, algo que eu só percebi no momento em que ela me mandou fechar os olhos e, sem aviso prévio, pá!, acertou um chute forte bem no meio das minhas pernas. Sim, lá mesmo. Caí no chão estrebuchando de dor e, diante da minha acerba indignação, ela se limitou a sentar na cama, rindo, e a dizer: “bom, agora você já sabe o que precisa fazer pra me agradar”. Eu nunca havia vivido nada parecido, nunca havia imaginado receber um chute daqueles, sobretudo num contexto erótico, e, apesar disso, a ereção em meu genital seguia firme e forte, me deixando confuso sobre como interpretar o que eu estava vivendo. Nisso, ela se aproxima de mim, faz carinho em minha cabeça e manda eu me recompor, pois esse era só o primeiro. Avistar seus pezinhos divinos, tê-los tão perto, me lembrou da razão de eu estar ali e da promessa que havia feito. Passado o susto, a dor já não parecia mais tão atroz, momento em que me levantei e, cheio de coragem, falei que, se era assim que ela queria que eu a servisse, assim seria. “No próximo, quero você de olhos abertos, agradecendo cada chute”, ela disse. De olhos abertos como? Seria possível ficar tão entregue? Já havia sido difícil eu não me proteger dos tapinhas de leve que ela dera em meu rosto, imagina assistir indiferente a um chute vindo na direção das minhas bolas, eu tendo que agradecer, ainda. Na primeira tentativa, o medo venceu — fechei as pernas antes que o alvo fosse alcançado e quase fiz com que ela torcesse o pé. Seu olhar transparecia raiva e contrariedade. Pedi para ficar de olhos fechados na próxima vez, seria mais fácil assim, mas ela estava irredutível, queria que eu me entregasse por completo, assistindo a tudo. Ela daria o chute e esperaria eu me recompor antes do novo ataque, mas eu não poderia fechar as pernas nem sair daquela posição, as mãozinhas sempre para trás. Nem me masturbar eu podia. Ela queria descobrir até quando a ereção ia se manter. O desafio era aprender a lidar não só com a dor, mas também com os meus medos, medos que me impediam de vivenciar o prazer de me ver tão rendido, um mero brinquedo nas mãos daquela perversa mulher. Contei oito chutes, talvez tenham sido mais. Minhas pernas tremiam, lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas a ereção se mantinha, e agora era eu quem queria ir até o fim, eu quem queria descobrir o limite. No nono chute, sem eu sequer relar no meu genital, inexplicavelmente gozei. Caí no chão, em prantos. O gozo me trouxe à realidade, o gozo aflorou a dor, fez com que eu me sentisse violentado, humilhado. “Você nunca mais vai conseguir gozar de outra forma”, ela sentenciou enquanto calçava os sapatos. Nunca mais nos vimos, e hoje, escrevendo este texto, só posso dizer que ela estava certa.  

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Amarello Visita: Aromaria

Fotos de Tomás Biagi Carvalho

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os eus sulfurosos de erm

por Bruno Cosentino

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os eus sulfurosos de erm

Dela disseram ter organizado a orgia — 

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Imagens fotográficas em História do olho

Atenção, este texto traz spoilers.

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Cantando o sexo: o samba e as relações afetivo-sexuais na musicalidade brasileira

No princípio, era a música

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Um cafezinho com Jeanete Musatti

Texto de Jeanete Musatti
Fotos de Derek Fernandes

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Entre os murmúrios historicamente abafados das narrativas africanas, Carolina Rocha desafia os fantasmas do silêncio como uma lenda, ancestral e contemporânea a um só tempo. Seu pseudônimo, alter ego, nome artístico, alcunha de heroína — ou como preferir chamar — é nada mais nada menos que Dandara Suburbana. Seus superpoderes? A lista é longa: mulher preta, imersa na espiritualidade de Xangô, bissexual, escritora, ativista e historiadora. Mas o que ela própria acredita que a define, “melhor do que qualquer coisa”, é o fato de ser uma mulher de terreiro. “Todo o meu trabalho gira em torno da minha relação com a ancestralidade”, revela, “com todos os ensinamentos que a literatura e a vivência em uma Comunidade Tradicional de Terreiro me dão.”

É claro que, com poderes assim, periféricos, plurais e transgressores à ordem existente, há muitos inimigos à espreita. O elitismo, o racismo, a heteronormatividade, o capitalismo predatório, tudo que infelizmente ainda predomina nas entranhas da sociedade. Sua jornada é marcada por desafios e superações, mas ela não se importa; prefere continuar sendo um testemunho vivo da força e da resiliência da mulher negra brasileira.

Nascida e criada na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, Dandara cresceu em uma família suburbana. Filha de Eugenia e Fumaça, aprendeu desde cedo o valor do trabalho duro e da determinação. “Minha mãe dizia que, por ser uma mulher preta e pobre, eu precisava ser a melhor em tudo que fazia para driblar de alguma maneira as violências da sociedade em que vivemos”, reflete ela sobre o fato de ser exacerbadamente “certinha” quando criança. Já nessa época, antes de assumir um papel maior na própria lenda contempoancestral, os vilões do conservadorismo estrutural já se faziam presentes. Enquanto outras crianças pareciam caminhar ao seu redor com mais calma, sentindo confortavelmente os pés no chão, ela sentia que, para subverter essa mesma pavimentação incontestada, precisava voar.

Desde os oito anos de idade, “juntava as bonecas no sofá de casa e dava ‘aulas’ para elas”. Não são muitas crianças que fazem isso, mas a jovem Dandara talvez não fosse como a maioria. E, se pensarmos em sua trajetória acadêmica, era um prenúncio natural do que viria pela frente. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense, tornou-se doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua pesquisa aborda questões essenciais, como as relações étnico-raciais no Brasil, estudos de gênero, religiosidade e violência urbana, entre outros temas para lá de relevantes.

Com certo pesar, porém, admite que, durante muito tempo, sucumbiu à pressão de se adequar aos arredores esbranquiçados da vida acadêmica, encurralando-se em corredores labirínticos de normas elitistas que forçavam sobre ela certa autorrestrição: “Só depois de adulta fui entender que a violência do racismo fez com que eu me encolhesse para caber nos espaços que considerava importante.” Nessa contenda, porém, a autoconsciência também brigava por ar e, com um pé na ancestralidade e outro na contemporaneidade, a verdadeira Carolina Rocha empurrou as paredes e encontrou as brechas que precisava para fugir — e a partir daí tomou a narrativa para si, e o encolhimento virou agigantamento.

Deixando de lado a escrita formal e em terceira pessoa, fez emergir uma voz que se ouve em alto e bom som. Afinal, por que escrever? O que faz do ato um dedo em riste tão potente? A resposta é tão categórica quanto tocante: “É revolucionário escrever ao invés de servir.” Além de sua atuação acadêmica, Dandara é uma escritora com obras publicadas em diversas coletâneas e projetos. Seu livro O Sabá do sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial, por exemplo, é uma contribuição significativa para o entendimento da história colonial brasileira. E o erotismo que perpassa e por vezes define sua literatura também encontra justificativas fortes: “Amor e sexo, para nós, não obedecem a uma lógica individualista. São, antes de tudo, expressões políticas.” Ou seja, ser Dandara Suburbana, e não uma pessoa rendida aos ditames elitistas da Academia, é uma escolha política, porque “a literatura é um campo estratégico na luta contra as opressões que vivemos, sejam elas de raça, classe, gênero ou sexualidade, pois elabora um imaginário social”.

Ao tomar a narrativa para si e optar por mergulhar no erótico, Dandara valoriza o prazer e a autonomia dos corpos negros; desafia os estereótipos e as representações objetificadas que historicamente os têm marcado; e reivindica o prazer como um espaço de poder e afirmação da identidade. É como ela mesma diz: “Quero falar do meu prazer em primeira pessoa, porque ele não existe só na relação com as outras pessoas, mas também na comigo mesma”.

Seu engajamento social se estende para além dos escritos. Ela é idealizadora da Ataré Palavra Terapia, uma comunidade dedicada à escrita criativa e terapêutica, especialmente voltada para a literatura negra feminina. A ideia geral do Ataré é tirar “a escrita do lugar sacralizado que ocupa neste país, que só reconhece como intelectualidade uma elite branca”. Essas oficinas têm sido um espaço de empoderamento e expressão para centenas de pessoas, incentivando-as a contar suas narrativas e a compreender o poder que reside na escolha pela primeira pessoa. É um lugar no qual a oralidade, a escrita e o corpo são faces da mesma encruzilhada. Em momentos difíceis, como nas mortes do pai e da mãe, que ocorreram consecutivamente em um curto intervalo, os momentos proporcionados pelos encontros têm sido um pilar na força de Dandara, pois, “ao longo desses anos, tudo foi se ampliando” e ela foi “compreendendo ainda mais a importância do poder da palavra para a transformação que queremos ver no mundo”.

Se as palavras fazem Dandara, Dandara também faz as palavras — e essa relação permite que ela transcenda as páginas de um livro e as salas de aula para não ser uma mulher idealizada, mas sim uma “mulher que beijamos na boca com vontade, que benze as feridas da sua comunidade, que falha e chora, que celebra pequenas vitórias, que escreve a sua própria história”.

Cada um de seus superpoderes está na batalha por algo maior. E, na guerra contra a vilania de uma sociedade que nega ou faz pouco dos prazeres que não considera dignos, nada como contar consigo mesma e com as vozes que vieram antes.

Para que Dandara e Carol escutem e se sintam reverberadas, leia a seguinte mensagem em voz alta: o prazer, em toda a sua complexidade, há de vencer.

ORGASMO CURA
Seleção poética de Dandara Suburbana

Dieta

Amor essa semana estou de dieta
Nada além do seu gosto me interessa
Me alimento do seu espesso gozo
Nada de coitos afoitos
Não admito desperdícios
Quero suor, apetites vorazes e vícios

Eu vou me lambuzar de você
Sem parar pra respirar
Sem olhadinha no celular
Sem despertador pra acabar
Eu vou fazer seu corpo, no meu corpo, de lar
Te proponho rever todo o alfabeto
Letra por letra vamos soletrar sobre prazer e afeto

Eu esperei demais pelo instante
De poder amar gemendo só em vogais
Tesão sem miséria,
Mas o papo aqui é manter a cuca sã
Enquanto dá comida à matéria!
Consoante é ter responsabilidade
Senão, nem me interessa…

Vem, desliza os lábios nos meus seios
Sem hesitar, me enche de beijos
Eu pego na sua mão
E desço até a minha calcinha
Pinceladas molhadas de ousadia
Que trago na boca,
E vou fazendo poesia
Enquanto saboreio os seus dedos…

Psiu, não conta pra ninguém esse segredo:
Tem gente preta insistindo em gozar
Ao invés de sentir medo!

Orgasmo que cura

Nego aguenta, hoje é sexta e eu preciso dizer:
Quero uma dose cavalar de você!
Exagero de dedos, dentes e saliva.
Não busco prazer no singular
Meus ancestrais cultuam a fartura
Tenho sede e grandes expectativas
Apetites vorazes, dignos de uma rainha.
Pra tocar meu corpo é preciso saber
Colher, quinar, temperar e mexer
Quando meu mel estiver quente
Escorrendo na ponta da sua língua
É o momento de consumar a magia
Estarei aberta, sedenta, nua e sua
Pode entrar e se servir
Mas não vá pensando que sairá ileso
Eu sou um continente inteiro
Muito maior do que seus olhos podem ver…
Na ânsia por me preencher
São meus grandes lábios que devoram você!
E que vantagem a sua,
Minhas águas são profundas
Nutritiva seiva bruta
Puro amálgama,
De um orgasmo que cura!

[sem título]

Você é um leitor voraz
que em poucas horas
me devora
costumo me abrir inteira
toda vez que me folheia
até lambuzar os dedos
com letra, papel e tinta
te sinto entrando pela capa
até atingir a última página
e no ápice
da ponta do seu lápis
escorre a poesia
que me invade
gota a gota
eu vou melando toda
já não é mais ficção
no meu corpo tenho
todos os vestígios
das suas mãos
você me acompanha
como um livro bom
e mal posso esperar
pra escrever
novas palavras contigo
outra vez.

– para o amor que vai chegar



[sem título]

Estou procurando um meio termo
Para me expressar
Eu quero te comer
Mas não quero ser vulgar
Peço desculpas pela franqueza
Minha poesia tem menos enfeite
Do que ousadia
Estou mais preocupada com o conteúdo
Do que com as rimas
Eu te vejo dançando na pista
Vou molhando o verbo
Que escorre até a calcinha
Me dá uma chance?
Não te prometo nada novo
Mas garanto ser bem gostoso
Meu sexo bruto
Com cafuné fofo
Não se espante
Por trás dessa cara de menina
Tem muita água e muito fogo
Para de se fazer de bobo
Aqui a loteria é certa
Uma pretona dessas
É sua sorte no amor e no jogo
Estou valendo mais que ouro
Pedra rara, dessas lapidadas
Cheias de brilho e contorno
Deixei de procurar uma forma ideal
Pra me expressar
Eu quero te comer
E estou sem tempo pra esperar!

#48EróticaArtes VisuaisCultura

Perder a cabeça

Na milésima segunda noite,
Sherazade degolou o sultão.

— Antônio Carlos Secchin

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