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#25EspaçoCulturaSociedade

Colônias espaciais

É um final de tarde de verão, você está com seus amigos bebendo uma cerveja, e finalmente o sol está brilhando, depois de uma longa semana de trabalho. O rio próximo de vocês brilha na luz. Você segue seu curso, seus olhos gradualmente se movendo para cima, para cima, sobre a cabeça e, em seguida, para baixo, para o outro lado. Eventualmente, a água encontra-se em um círculo perfeito, de volta a onde você começou. Tudo é como deveria ser. Você é um residente de um Bernal sphere, flutuando no lado mais distante da Lua – você já está acostumado com gravidade artificial.


Em 1975, a NASA Ames Research Center encomendou uma pesquisa a Gerard O’Neill, professor de Princeton que recebeu uma bolsa do programa espacial norte-americano para realizar um estudo de dez semanas em estruturas off-mundo. O’Neill e sua equipe trabalharam com arquitetos, pesquisadores, engenheiros e cientistas em Mountain View, Califórnia, e avaliaram se suas ideias eram viáveis, elaborando três conceitos para apresentar à NASA: Bernal Sphere, Toroidal Colony e Cylindrical Colony.

Na década de 1970, a Guerra Fria estava governando os assuntos internacionais, e a conquista do espaço foi uma prova de poder. Após o sucesso da missão Apollo 11, muitos sonharam com a vida humana no espaço. Durante uma série estudos de verão da NASA dedicados à vida humana no espaço, os artistas Don Davis e Rick Guidice ilustraram suas ideias sobre colonizar lugares em uma galáxia muito, muito distante.

As ilustrações são baseadas no trabalho do físico Gerard O’Neill. De fato, as estações espaciais têm a forma de um donut, esféricas e cilíndricas, de modo a transformarem-se em órbita e simularem a gravidade, e contêm grandes espelhos para refletir o sol em todos os interiores.

Esse projeto não está mais na agenda da NASA, mas os desenhos são muito, muito impressionantes – e são uma boa alternativa para os gráficos de computador genéricos que usados hoje em dia.

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#25EspaçoEditorial

Editor convidado: Lourenço Gimenes

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É curioso quando um tema familiar se torna complexo, uma vez que nos propomos enxergá-lo sob outros ângulos. Em princípio, ‘espaço’ deveria ser um assunto elementar para mim – é, no limite, o meu objeto de trabalho como arquiteto.

Mas destacá-lo do contexto estrito da arquitetura exige, simultaneamente, uma dose de aventura e o reconhecimento de uma desconfortável ignorância. Espaço é uma palavra que assume contornos diferentes e, sendo parte necessária da vida de todos, torna-se um assunto perigosamente amplo. Na tentativa de entender alguns de seus outros possíveis significados, deparei-me com interpretações variadas. Filosofia, sociologia, física ou matemática oferecem ideias muito ricas, e, por isso mesmo, não faria o menor sentido discorrer aqui acerca do conceito de espaço para Aristóteles, Hegel ou Kant; para Simmel ou Dürkheim; para Euclides ou Descartes; para Newton ou Einstein. Eu nem seria capaz, mesmo que quisesse.

O espaço ao qual estou acostumado é normalmente composto pela arquitetura. Ele é o vazio (fim) resultante de uma intervenção construtiva (meio), no qual pessoas habitam, trabalham, interagem, divertem-se, agem… O espaço também se encaixa naquela categoria de vazios formados por massas arbóreas, formações rochosas, colinas, corpos d’água e – de novo – construções humanas que, como objetos, constituem o cenário da vida numa outra escala. De maneira que, quando alguém se refere a um espaço vazio, isso nada mais me parece do que um pleonasmo engraçado. Afinal, espaço é o próprio vazio, cujo significado é criado por quem o percebe ou ocupa.

Talvez o vazio seja uma chave interessante para um passeio pelas próximas páginas. Ele pode ser conduzido à interpretação de lugar, e o registro de sua própria antítese (o não lugar) pelas lentes de Rose Klabin é, nesse sentido, impactante. Não por acaso, alguns trabalhos abordados nesta edição são assinados por artistas-arquitetos, treinados na arte da construção e formatação de vazios-lugares. Na obra de Fabio Flaks, por exemplo, o vazio pode ser físico, familiar à sua formação acadêmica, mas também flerta com o vazio do cotidiano, do depois, das reminiscências. Uma técnica precisa e quase obsessiva revela um processo de investigação solitária, contaminada pelo próprio espaço do seu ateliê – cuja representação termina por tornar-se objeto de alguns trabalhos.

Bruna Canepa, por sua vez, a partir da investigação da linguagem arquitetônica, representa o espaço em função de sua contraposição sólida e precisa, onde a escala humana se entranha num espaço de linhas e massas.

No espaço proposto por Camila Sposati, cria-se um estranho paralelo com os teatros anatômicos do século XVI e a arquitetura (construir) cede à arqueologia (escavar). Aqui, o vazio é um meio para visualizar as entranhas da terra e um fim em si mesmo: o olhar é dragado para o centro, enquanto o trajeto nesse curioso buraco insiste na dicotomia entre ele e a sólida envoltória geológica.

Nesse embate entre o cheio e o vazio, que pode ser puramente físico ou psicológico, corpos humanos se entrelaçam pelas lentes de Ute Klein; paisagens urbanas revelam suas contradições nas empenas de Ivan Padovani, povos desafiam fronteiras políticas. E, já que tecnologia é assunto recorrente em qualquer esquina, o espaço (ilusório) encontra eco cada vez mais presente na realidade virtual, nos filmes imersivos e nos jogos eletrônicos, enquanto o espaço (sideral) se impõe como fantasia para a reposição de um espaço de vida humano, que em breve teremos sucesso em destruir completamente.

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Algum lugar no meu cérebro, onde os caminhos ficam gravados – eu acho que eu não vim com esse lugar no meu cérebro. Estou no carro agora; vim dar uma volta com meu filho para ver se ele dorme. Saí de casa na Francisco Isoldi, a esmo, e eu nem te conto onde é que estou. Daqui a pouco, chegaremos na Mooca, e eu não sei voltar para casa da Mooca.

Na época da faculdade, voltando para uma outra casa, que ficava no Morumbi, fui parar no McDonald’s da Imigrantes. Minha mãe me avisou de manhã, Vanessa, volta pela Marginal hoje à noite, porque vai ter jogo, e lá fui eu pela Marginal. Não sei como entrei na Bandeirantes, aí fui indo, fui indo, paguei pedágio, comecei a chorar.

Minha grande explicação, para mim mesma, é que eu ainda não sabia dirigir direito naquela época, e fiquei com medo de fazer os retornos, sabe? Quando você começa a dirigir e tem medo de subir ladeiras, fazer retornos – essa é minha grande desculpa. Mas e hoje, eu aqui na Mooca? A Vivo cortou minha internet, me deixou sem mapa. Essa cliente, essa Vanessa, vamos cortar a internet dela, hahaha! Devia ser assim a propaganda da Vivo, empresa sem alma.

Mas, só por hoje, Vivo, eu te perdoo. Ficar sem mapa é bom para eu lembrar que sou uma pessoa espacialmente retardada – justo o retardo que mais me preocupa em mim mesma. Eu, que andava me achando evoluída, porque estou fazendo ginástica e escutando o Prem Baba no YouTube, e o Prem Baba tem me ensinado que tudo bem a gente ter defeitos, que faz parte do evoluir diagnosticar e aceitar o que somos. E a Vivo me lembrou que eu não aceito esse meu retardo.

Outro dia, alguém me falou, “ali na Major Sertório”, e eu fiquei pensando… “Ali do lado de onde vocês moravam!”. Eu me odeio por não ter lembrado da rua Major Sertório. Eu trabalhei na rua Major Sertório. Como que alguém me diz “Major Sertório” e eu fico pensando? Por que junto do meu retardo, da disfunção do registro fotográfico das ruas e esquinas de São Paulo e de qualquer lugar, eu tenho também o retardo dos nomes das ruas, das coisas e das pessoas, Prem Baba?

Filho, calma. Daqui a pouco a gente chega. Quer ouvir o Pedro e o Lobo? Com a Rita Lee ou o Roberto Carlos? Droga, não está pegando. Vamos ter que escutar a rádio, Antônio. Porque a internet não está funcionando, filho. O Pedro e o Lobo está na internet, entendeu? Mas escuta essa música, Amy Winehouse. Não gostou? Antônio, não seja chato. Não tem Seu Lobato, filho.

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Logo na capa desta edição da revista Amarello se vê como Bruna Canepa reage às pinturas que cobrem fachadas cegas nos arredores de Gênova. Em 2015, em viagem à Itália, os murais trompe-l’oeil da Ligúria lhe causaram forte impacto; nas suas próprias palavras: “essas pinturas não condizem com o interior do edifício. Atrás delas, há algo diferente do que anunciam”.

Assim, provocada, Bruna responde com uma série de desenhos, sempre aos pares, como dípticos que seguem uma mesma estrutura sucessiva: [1] vista frontal, aquela que coloca o observador no ponto preciso para que se produza a ilusão, e [2] projeção axonométrica, aquela em que o truque se desvela. Na primeira, é puro efeito. Na segunda, está desfeito. Por isso, ver a segunda equivale a conhecer o plano. Vendo-a, é possível inferir como se quer iludir o observador da cena projetada. É justamente esse segundo tipo que estampa a capa da nossa revista. Ou seja, ela não nos mostra o efeito, mas a chave. Uma chave é sempre um belo convite. Neste caso, a artista nos apresenta os elementos que devem figurar na cena para que a gente possa, por conta própria, imaginá-la. Como se a beleza não estivesse na obra, mas no modo como cada um a lê. Ela nos toma como se fôssemos todos artistas.



Quando atendemos ao convite e passamos ao corpo da publicação, às obras reproduzidas dentro da revista, como quem passa de Gênova a São Paulo, confirma-se ainda com maior clareza que a fonte de onde Bruna extrai os elementos constitutivos dos seus desenhos, as imagens que ela põe em movimento para a construção do seu trabalho, é outra vez a cidade. Sempre. Ali, o que sustenta [como edifícios], o que navega [como barcos] ou o que voa [como foguetes] é sempre uma elaboração sensível de sua vivência urbana.

As duas obras da casa fluxo [trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura] também funcionam como um par ou uma dualidade. Não por acaso, aqui os dois elementos do díptico estão reproduzidos. [1] A casa, com suas paredes negras, destaca o efeito de uma luz acesa ali dentro, acentua a sensação de abrigo, lugar adequado ao recolhimento. Vista assim, por fora, ela, a casa, paira serenamente. [2] Então, quando na sequência se atravessa suas paredes externas, a ideia de aconchego se desfaz, e nós a percebemos como parte de um sistema que lhe escapa e a coloniza. A casinha sem paredes se mostra completamente atravessada por feixes de conexões a que a artista chama de fluxo. Inversões presentes que, a seu modo, Bruna pressente e registra. Assim, justamente dentro da casa, onde estaria o espaço da intimidade, é onde o sujeito, como a casa, se pulveriza em muitas direções a partir daquele nó de fluxos.

  • Foguete
  • Casa Fluxo A
  • Casa Fluxo Isométrica
  • Cuore
  • Gym
  • Casa Fluxo F
  • Cuore
  • Cuore
  • Cuore
  • Desenho subsolo
  • Drifting City A
  • Drifting City B

Uma obra das obras que não tem seu par tem duas imensas janelas. É a única ilustração de um ambiente interno. A altura do cômodo e as dimensões das aberturas são agigantadas. O sujeito ali olha através da janela, cujo peitoril está à altura dos seus olhos, e, portanto, seu ângulo de visão só abrange o quadrante superior. Ele olha um céu noturno salpicado de pontos brancos, como estrelas, e dois círculos, como duas órbitas concêntricas nitidamente desenhadas. A imagem tão sintética nos instiga de alguns modos: [1] as órbitas fazem ver que ali o céu é plano e está em movimento [2] enquanto a sala, representada em perspectiva, tem as duas paredes laterais escapando para mais de um ponto de fuga, todos verticalmente alinhados no segmento definido entre a cabeça do sujeito e a abertura mínima, como uma inesperada seteira, na parede do fundo acima dele. O piso e o teto não seriam planos paralelos, e as grandes janelas, de fato, não seriam retângulos. Perspectiva fingida ou, de novo, o trompe-l’oeil. Outra vez o contraste, ou a mediação, entre o que é verdadeiro e o que é simulado. Justamente o alinhamento vertical dos pontos de fuga coloca em destaque uma abertura ínfima e fora do domínio visual daquele sujeito; a seteira quase perdida na parede que é coplanar ao céu poderia eventualmente enquadrar um foguete. Seria uma casa ou uma espaçonave?

A seguir, um pedaço de cidade se prepara para zarpar. Primeiro, ele se descola da malha urbana pela escala. Parece ser justamente quando mais se verticaliza e se adensa que ele se põe em condição de navegar [cidade à deriva]. Em certa medida, todo navio é exatamente assim, uma parcela urbana, como território itinerante de um país, que se lança ao mar. Do mesmo modo acontece no trabalho de Bruna Canepa, pois aqui também a carga que aquela embarcação carrega é a matéria-prima com a qual ela constrói sua obra. Por isso, a obra que ilustra a cidade à deriva em seção transversal [drifting city, trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura], e planta em malha ortogonal representada logo acima, é tão significativa. Nesta carga cultural, estritamente urbana, incluem-se a montanha e as árvores; a infraestrutura, as embarcações e os aviões; os edifícios e as esculturas; enfim, o todo existente no mundo já descrito pelo homem [construído ou não por ele] faz parte dessa bagagem cultural sobre a qual essas obras tecem a sua reflexão.

É porque está munida deste acervo, ou carga cultural, que Bruna propõe com clareza didática as quatro operações sobre um cubo [denominados platônico, à primeira vista, impossível e ideal]. Ainda aqui, quatro dípticos, como se [a] o primeiro descrevesse o propósito e [b] o segundo desvendasse a estratégia. Em platônico, [a] ligar um ponto na base de uma face ao topo da face oposta; [b] uma fresta e uma escada. Em à primeira vista, [a] ligar um lado ao lado oposto em mesmo nível, próximo à base; [b] atravessar por um túnel plano. Em impossível, [a] ligar dois pontos altos em faces opostas; [b] uma combinação dos dois primeiros, mas em vez de escada, um fosso vertical, elevador, e o plano vertical subtraído para a conexão horizontal entre os dois. O ideal lança mão dos mesmos elementos, que são a escada e o fosso, a fresta e o túnel, como estratégias de conectar como um caminho a percorrer ou apenas visualmente. Mais que a soma, aqui também se sugerem ocupações ou volumes cavados dentro dos volumes. São operações arquitetônicas que evidenciam a proximidade da artista com esta abordagem.

E, seguindo ainda por esse mesmo caminho, ela vai mais longe. Em proposal for a gym [trabalho colaborativo / Estúdio Miniatura], a sugestão de arquitetura é tão nítida que ganha inclusive programa. A gente imagina, de fato, aquela parede espessa como um edifício estreito para abrigar a atividade solitária em que o sujeito, preso ao próprio corpo, esgota-se ativamente na mais extrema solidão.

É sobre a beleza dessas obras, extraídas da experiência de cidades a partir de uma sensibilidade notável e uma racionalidade e realizadas com extremo apuro técnico em desenhos rigorosamente executados que Bruna Canepa funda sua plataforma artística. Então, sobre a plataforma, o foguete. Aquelas mesmas duas cores, azul e vermelho, usadas sempre com tanta parcimônia sobre o branco do papel e o preto dos traços, aqui neste artefato elas parecem explodir. É um foguete de carga, que pode transportar a qualquer ponto do espaço toda riqueza cultural que constitui o acervo do nosso imaginário urbano.

É assim, embarcada em seu próprio trabalho e no comando dessa espaçonave, que a artista Bruna Canepa decola.

Paisagem Lunar

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“Sim, quero dizer liberdade”

Nesse ir e vir de suportes e mídias, uma preocupação com a construção de imagens. São cortes e justaposições, em que se misturam objetos encontrados, figuras de livros, imagens do Google, fotos analógicas, stills de filmes, desenhos a mão livre e tantos outros materiais. Por meio de texturas e camadas, de pausas e fluxos, Antônio tece uma inquietante narrativa imagética, na qual reúne, num só golpe, o estranho e o familiar. Nela, o ruído de imagens banais converte-se em silêncio de enigma, porque, embora tenham uma enorme carga de sentido, permanecem sempre em alguma medida inacessíveis. Na repetição de símbolos, um esvaziamento da linguagem. Na sobreposição de gestos, um apagamento do próprio gesto. O excesso cai para dentro de si mesmo, num contradito vazio.

“Todo o planeta transformava-se em vertigem: imagem”

Não deixam de ser curiosos os efeitos dessas insistentes justaposições que, em dado momento, irrompem numa espécie de avesso vertiginoso. Digo “espécie de avesso” porque as imagens de Antônio Sobral não operam através de relações claras ou por meio de oposições definidas, mas arriscam-se em direção a uma certa desmesura, que aceita correr o risco de esbarrar na angústia, ou mesmo de ir um pouco além. É pelo uso e pelo desmonte das próprias imagens hegemônicas da dita civilização que Antônio inventa contrarrituais: atravessa por dentro as estéticas normativas e faz delas um teatro dissidente. Nesse constante transbordamento do desenho, o artista esgarça binarismos terrenos e acena ao ambíguo – confuso, nebuloso, movediço. Ao reunir e reordenar fragmentos em colagens, o artista cria imagens capazes de revelar, em sua precariedade proposital, os funcionamentos normativos da lógica identitária. Se o pensamento e a linguagem são geralmente formulados pela divisão em opostos – homem/mulher, normal/anormal, heterossexual/homossexual –, das imagens de Antônio Sobral saltam híbridos. A ambiguidade nelas contida cumpre, então, um papel ímpar, na medida que busca dissolver as formas de controle binárias e usa a desidentificação como possibilidade para construir subjetividades desviantes.

“É no mistério que brota o desejo. Ele tem cabelos: cipós. […]”

Mas, se em alguns momentos sua obra oferece justaposições brutalistas de imagens da cultura, em outros transparece uma sensibilidade bucólica. Nas poesias surgem a paisagem natural do campo, a ruina arquitetônica da cidade, o tempo do tédio e da morte, o corpo frágil, embora aceso. A prevalência das duas dimensões e dos pequenos formatos também aponta a esse fascínio pelo mergulho solitário da composição, numa quase indiferença à materialidade mundana ou, talvez, numa rejeição ao fetichismo e ao espetáculo. Abre-se um labirinto intimista na obra de Antônio, onde colidem a opressão das normas sociais e os impulsos subterrâneos do corpo. Aparecem pele, sexo, violência; santos, cadáveres, texturas. Algo que oscila entre o medo e o gozo da predação. Algo de interrupção. Algo de nostalgia da infância. Talvez a experiência da natureza se aproxime tanto da exploração do próprio corpo como de uma busca espiritual. Tanto numa como noutra, há uma vontade libertária, que só não esbarra num lugar-comum porque se utiliza do desgaste da palavra liberdade para pensá-la e, quem sabe, reavê-la desde uma outra posição. Segue aqui a ambiguidade: as imagens que comunicam também confundem. Segue a narrativa enigmática, seguem as diferentes qualidades de reprodução, provenientes de diferentes fontes. O mesmo motor voraz apontado ao corpo mostra que é a partir das marcas deste mesmo corpo que se reconhecem os mecanismos da dominação social.

“[…] Da vagina sai uma caixa de música
A bailarina agarrada em correntes de ouro
Tripas antigas
Manga queima enjoa briga […]”

A uma sociedade obcecada pelo acúmulo e pela produção, Antônio devolve um acúmulo de indizível. Talvez não por acaso seu percurso tenha se dado longe de circuitos comerciais que demandam, classificam e visibilizam. A lógica inerente a seu trabalho é muito mais próxima aos espaços ditos artist-run, tipo de associação a que ele se vinculou por vários anos. Dentre as inúmeras e distintas propostas dos espaços artist-run, o trabalho de Antônio bebe principalmente das possibilidades de troca e de formação presentes nesse ambiente, mas também de um sentido colaborativo e de certa licença para experimentar sem a urgência de resultados conclusivos. Nesses espaços, os códigos e negociações vão para além da produção artística, sendo, em várias ocasiões, éticas gerais de convivência. É partindo deste modelo de fazer-em-conjunto que Antônio, acompanhado de alguns amigos artistas e pesquisadores, inicia a gestão de uma residência artística na fazenda cafeeira de seu pai, em São José do Vale do Rio Preto, interior do Rio de Janeiro. Dessas reuniões anuais, que duram quatro semanas, saem não necessariamente obras, mas encontros e, desses encontros, conversas, experimentos, afetos.

“Tirei as tuas roupas do armário. Carreguei-as pela casa como se carregasse o teu corpo – como se houvesse o teu corpo. […]*

* Trechos de poesias escritas por Antônio Sobral

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*

Esquecer os outros, esquecer o mundo, esquecer-se, enfim. Esquecer é um exercício do presente. Não é tão difícil quando o sol esquenta: seu corpo em brasa. E o vento arrefece.

*

Houve um naufrágio dentro de casa. Ele tem 30 anos. Ele se lembra. Mas hoje ele quer pensar em outra coisa. Ou melhor: de outra forma. Ele quer pensar seu pensamento, ele quer pensar o que pensa e não para nunca. Estar fora da ladainha irritante que o assola. Ele quer algo estranho: olhar seus próprios olhos. Saber como seu corpo se mexe. Alheio à própria carne. Ver desprovido de olhos.


Presença

O mar é sedento, às vezes me mete medo. Olho para ele: rajada de luz.
Brincadeira de sol e mar: idas e vindas, pausa, fluxo.

*

Teve o dia – o momento em que desliguei o telefone. Teu pai morreu. Desci do carro e saí. Arrastando-me por entre os rochedos, entrando em grutas para chorar, praia atrás de praia. O céu, o mar e a terra me eram completamente estranhos. Todo o planeta transformava-se em vertigem: imagem. Olhava o céu subitamente descontrolado; as nuvens e o mar em conluio acelerado e hostil.

*

Eu presenciava a transubstanciação da vida. Era necessário deitar na grama para ver o luar pulsando no mato orvalhado: sentir a plenitude, a benção do meu pai.

Tive certeza de que a cidade concreta não só as nascentes de água, mas o tempo como um todo. Foi necessário deixá-la e mudar para o campo. Entender o funcionamento das plantas.

Paisagem


É no mistério que brota o desejo. Ele tem cabelos: cipós

A chuva veio confirmar a vida. Os brotos rebentam. No dia seguinte, todo o visível: mato.

Um boi ancestral rumina a paisagem. Ele está calmo, também ele entende a planície. Tudo respira a calma. A chuva vai e volta.

Eternos ciclos de chuva refletidos no espelho atrás da cama. Estivemos viajando, quiçá ainda estamos. Vivemos contidos em malas. Soltos. A água esconde-se nos grotões.

Um rio corta a paisagem: navalha de luz.

*

Transluz

Os vermelhos viscosos as chagas fumegantes as cidades mornas e ásperas, sou eu o inferno e me vejo cada vez mais dobrado.

As rochas pedem eixo, postura. Fluxo do cocuruto do crânio à unha do pé. Puxa a pedra enorme indo ao centro da Terra. O céu e a água passam. Jorra, atravessa o corpo, atravessa o corpo, atravessa o corpo, jorra, atravessa o corpo, jorra.

Grita e pede expurga! Abre o véu que esconde o peito e transluz.

Jardim de shopping

Andaríamos pela cidade

Atentos a tudo o que nasce
Cada casca um cristal
Cada folha um átomo

*

Esconde o que é construído (arquitetura ruindo lentamente)

*

No shopping, pequenos arbustos, suculentas rodeadas de pedrinhas ocas estranhamente ordenadas: parecem mortas!

Seria o jardim de shopping um álibi à insensatez?

Linhas de plantas iguais
Apenas variedades selecionadas – ó risco de selvageria! Ó plantas daninhas! Como se o mato escancarasse a injustiça social, fosse a desordem um risco à certeza das mercadorias enfileiradas, a própria espontaneidade e o vigor inerente às plantas espontâneas pudessem desencadear as cadeias transnacionais da economia globalizada.

Jardim de shopping: paradoxalmente ponto de máxima vulnerabilidade, expressão demasiado honesta do medo dos outros, de si, da vida, de tudo o que é (sem corante, silicone e trabalho escravo).

Jardim de shopping: vergonha escancarada da arquitetura social, desespero da ordem, ponto final sobre a história da autoridade. Autoridade sem subjugado, delírio lógico do “sim, claro, que chique” à matar as mesmas plantas que de nascença brotam no lugar que é seu.

Como os filhos dos filhos dos negros escravos insistem em fazer filhos, as plantas brotam da raiz de outra planta arrancada.

Amigos, irmãos, amores, andem pela cidade, toquem no tronco das árvores! Vejam os jardins construídos, planejados… vivos!

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Dá para dizer que o capitalismo não goza exatamente de boa reputação na nossa cultura. Embora vivamos em um mundo largamente capitalista, as práticas e características associadas a ele (competição, lucro, desigualdade) são vistas, na melhor das hipóteses, como males necessários enquanto ainda não somos capazes de pensar em um sistema melhor.

Tentativas de encontrar uma alternativa não faltaram, mas não foram bem-sucedidas, e, por isso, desde a Queda do Muro, o mundo vive mais ou menos resignado ao sistema que, bem ou mal, mais produziu riqueza e ascensão social na história. Contra a ideia de que capitalismo significa aumento da miséria entre os mais pobres, os dados mostram que, nas últimas décadas – justamente quando as nações asiáticas abraçaram progressivamente as instituições de mercado –, a miséria global caiu vertiginosamente. Pela primeira vez na história da humanidade, menos de 10% da população mundial vive em pobreza extrema (dados do Banco Mundial), número que vem caindo tanto em termos proporcionais quanto absolutos.

Ainda assim, fica no ar um sentimento de insatisfação com um sistema no qual tudo parece ter um preço e o poder do dinheiro define os caminhos da sociedade. A utopia continua a nos chamar com seu canto sedutor: a possibilidade de uma vida na qual tudo seja partilhado de bom grado, sem competições vazias de status e sem a brutal desigualdade dos dias atuais.

Algumas experiências, que ocorrem dentro da sociedade capitalista, parecem apontar nessa direção: comunidades de ajuda mútua, aplicativo de troca de produtos e serviços sem uso de dinheiro, esquemas para partilhar o uso de automóveis e apartamentos. E, ao contrário das tentativas frustradas de instaurar esse modo de vida pela via política (ou seja, da violência estatal), um outro caminho parece se abrir: o da tecnologia. Mas será que o avanço da capacidade produtiva vai realmente levar ao fim dos preços e ao reinado da gratuidade?

A razão de algo ter um preço é a escassez. Não existe em quantidade suficiente para que possa satisfazer todos os desejos humanos presentes e futuros. O que é abundante nesse sentido estrito – todo mundo pode usar o quanto quiser que não vai acabar – não tem preço; é o caso do ar que respiramos. Fora casos como esse, se um bem ou serviço não é abundante, será necessário limitar acesso a ele de alguma forma ou assisti-lo ser consumido até o fim. A forma clássica é o racionamento: uma autoridade determina o quanto cabe a cada um. O outro modo é o mercado: o bem tem um preço determinado por negociação entre todos os agentes, e esse preço acaba servindo a duas funções: limita o consumo de um lado e estimula a oferta de outro.

Se pão fosse gratuito, todo mundo comeria sem pudores até que o estoque global acabasse, e ninguém teria nenhum incentivo em produzir mais, exceto para consumo próprio. No capitalismo, cada um consome de acordo com seu orçamento, restringindo o próprio consumo. Por outro lado, há um enorme incentivo para que mais pães sejam produzidos constantemente. É por isso que, via de regra, bens que ficam a cargo do mercado, como comida, não acabam e atendem a uma gama bastante ampla de gostos e orçamentos.

O sistema de preços, além disso, tem outra vantagem inestimável: ao quantificar a produção humana em uma unidade comum, permite organizar a produção. Lucros e prejuízos servem também para que descubramos o que satisfaz e o que não satisfaz a demanda dos consumidores. Sem isso, não dá nem para começar a organizar um sistema produtivo complexo como o nosso. O desperdício de recursos escassos seria constante e monstruoso. Será que o ferro extraído das minas deve ir para a produção de aviões ou de aparelhos dentários? Sem um denominador comum, é impossível responder.

O capitalismo é, assim, a melhor maneira que o homem conhece para lidar com a escassez. A tecnologia moderna está acabando com a escassez? Estaremos às vésperas da pós-escassez e, portanto, do pós-capitalismo? Eu não iria tão longe. Em alguns setores – comunicação e acesso a entretenimento audiovisual, por exemplo –, a tecnologia de fato barateou tanto os serviços que estamos nos aproximando do custo zero. Ainda assim, nossa demanda por matéria-prima e recursos naturais nunca foi tão grande. Não estamos prestes a atingir a abundância plena no mundo físico. Pelo contrário: coisas que sempre nos pareceram abundantes – peixes no mar, ar limpo, espaço para jogar lixo – agora começam a escassear. Precisaremos de mais capitalismo para resolver isso, ou então teremos que limitar o consumo da humanidade na marra, com prisão e cassetete.

Isso significa que experiências alternativas, que se dão, via de regra, na esfera do consumo pessoal, última etapa do processo produtivo, nunca darão conta de substituir o grosso dessa cadeia, toda a infraestrutura que está por trás dos produtos e serviços que consumimos.

Mas vamos dar um salto na utopia e sonhar com uma revolução tecnológica tal que, de fato, nos libere da escassez dos fatores de produção. Com um punhado de átomos, produzimos tudo que precisamos a custo próximo de zero. Mesmo nesse caso, vejam só, ainda encontraríamos limites ao que podemos fazer: pois nosso próprio corpo e a própria natureza do tempo impõem limites às escolhas. O sonho utópico de Engels, do indivíduo que trabalha no campo de dia e é crítico literário à noite, provavelmente continuaria fora de nossas possibilidades.

Viver é fazer escolhas, é preferir um caminho a outro, e não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo. Com os problemas do campo material resolvidos, restariam ainda todas as angústias – talvez até mesmo acentuadas pela abundância ao redor – sobre como viver, como alocar nosso tempo finito entre todas as incontáveis oportunidades de consumo e experiências que a tecnologia permite. E, onde existe angústia, existe demanda; onde existe demanda, há empreendedores querendo lucrar.

Com os problemas materiais resolvidos, o mercado migraria inteiramente para o campo espiritual: das artes, da filosofia, da competição social baseada em bom gosto e conhecimento, da culinária (que é muito mais do que alimentação), dos coaches de vida e dos psicólogos, das religiões e das escolas éticas, dos cursos, das humanidades e de revistas culturais, como esta. Que é um pouco o que acontece entre as classes mais altas do mundo capitalista atual, e é por isso que, neste momento, você está aqui lendo um artigo em vez de descansando, todo moído depois de um dia pesado na fábrica ou na lavoura.

Não quero ser um grande estraga-prazeres. Ou talvez queira. Independentemente disso, acho que vale resgatar a ideia da utopia e trazê-la para a esfera mais modesta do indivíduo: reformular a sociedade humana talvez seja impossível, mas isso não nos obriga a parar de tentar. Comunidades alternativas, estilos de vida que fogem completamente ao padrão, vidas individuais que almejam ao status de obras de arte, tudo isso é possível dentro da estrutura fria e calculista (ainda bem!) do capitalismo. Sendo assim, os pós-capitalismos dependem do capitalismo para existir, e isso não é motivo para desistir deles.

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Dentro de casa, piso de madeira, sofá confortável e com tudo a fácil alcance. Do lado de fora, um jardim agradável, pedriscos e gramados. Abre a porta e sente aquela brisa fresca da madrugada. Tudo parece muito normal, não fosse o fato de o estar fazendo para suprir uma emergência fisiológica no meio da noite. Situação meio incômoda nessa aparente falta de conexão entre interior e exterior. Pode parecer algo inusitado, um dia num camping, uma aventura, quiçá apenas mais uma ideia para lá de absurda, quando paramos para pensar sobre isso nos dias de hoje. Já estamos demasiado acostumados com as comodidades de uma vida prática, conectados com as mais modernas tecnologias, tendo serviços feitos e entregues da forma mais instantânea. Nossas atividades mais simples são feitas de maneira semiautomática, sem que quase precisemos parar para pensar. Uma ideia como essa gera ao menos uma estranheza, um sentimento de dúvida.

É que, de fato, nem sempre foi assim. Mas, sobre isso, tomo a liberdade de emprestar a descrição de Junichiro Tanizaki, em seu ensaio sobre as sombras, e a forma inusitada como ele devaneia a respeito de alguns elementos aparentemente irrelevantes, mas de forte significado, da tradicional arquitetura japonesa.

…the Japanese toilet truly is a place of spiritual response. It always stands apart from the main building, at the end of a corridor, in a grove fragrant with leaves and moss. No words can describe that sensation as one sits in the dim light, basking in the faint glow reflected from the shoji, lost in meditation or gazing out at the garden.

Depois de ler esse trecho – e mais tantos outros – de uma descrição tão vistosa de algo aparentemente banal, é fácil se convencer da vontade de conhecer esse banheiro e, quem sabe, até mesmo tentar sentir a mesma comoção da qual Tanizaki se inebriava quando, há quase um século, estava a escrever seu livro. Parece que ele reflete sobre um momento, uma pausa do cotidiano da qual surge esse devaneio.


Nos dias de hoje, pela praticidade e pelo conforto que estimamos, salvo raras exceções, não nos permitimos mais passar por situações como essa. Mas a Casa Moriyama (Office of Ryue Nishizawa, 2005) se aproxima dessa reflexão. Em plena moderna e vibrante Tóquio, um conjunto de casas é ordenado sob o princípio muito claro de explodir o programa e o volume construído. Se, por um lado, funciona atualmente como conjunto residencial, foi projetado para facilmente ser também uma única residência, caso o proprietário assim a desejasse. Nessa hipótese, seria, no mínimo, ainda mais ousado.

Como um experimento, a noção de quarto, corredor e limites na Casa Moriyama se altera através de uma ordenação dos volumes que se apoia nos espaços livres que circundam, envolvem e conectam as áreas interiores. Por serem diminutos em sua escala, os cômodos são percebidos isolados como pequenos volumes desde o lado de fora; internamente, envolvem o morador como aconchegantes abrigos. Essa relação direta de tamanhos entre o homem e a edificação aproxima os moradores da arquitetura da casa e da percepção das diferenças entre os cômodos.

Dessa forma, a mudança de um cômodo para outro adquire um sentido que vai contra a atual tendência das plantas abertas e multifuncionais, que, em termos muito simples, busca unir os espaços compartimentados em apenas um grande e único salão. Na hipótese do conjunto ser uma única casa, os cômodos poderiam ser percebidos um a um, de forma individual. De certa maneira, na mesma forma como descreve Tanizaki. Sair de um aposento não significa mais sair do quarto apenas, mas passa a ter a mesma relevância que o sair de dentro de casa. Para fazer essa troca, é inevitável percorrer os vazios entre os volumes construídos, perceber o exterior – o frio de um inverno rigoroso, o calor úmido do verão japonês, a brisa que anuncia o outono e mesmo as flores que desabrocham durante a primavera. É a proposta de experiência de uma casa que convida – para não dizer obriga – seus moradores a conviverem diariamente com o mundo exterior.

Apesar de separados e entendidos individualmente, os espaços têm a relação intensificada. Os cômodos, complementados pelos espaços livres envolventes, são percebidos tanto como um conjunto de blocos quanto como dentro de suas próprias especificidades. Assim, o espaço e os sentidos se arranjam num experimento em que fora de casa se torna, mais do que nunca, dentro de casa.

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Quando fui convidada para escrever sobre o tema desta edição, a pausa, percebi logo de cara o desafio que seria. Eu me engano observando e acompanhando pessoas e movimentos que lutam contra essa era do speed, pois o ritmo acelerado está dentro de mim (de nós). Não tem yoga, respiração, meditação, nada que me ajude a desacelerar porque, para começar, não consigo nem criar a disciplina para uma prática constante.

Primeiro, porque o celular virou uma extensão dos meus braços. Segundo, porque trabalho com moda, o mercado que mais abraçou a velocidade como sinônimo de performance e sucesso.

Estamos todos cada vez mais conectados e presos a um ciclo vicioso, que a sociedade atual nos faz acreditar ser o caminho mais curto e certo para a realização. Mas será o melhor?

O mundo está apressado, agitado, frenético. Essa loucura virou o ritmo normal e tem ditado nossos trabalhos, relações, experiências e o convívio com outras pessoas. Na velocidade acelerada, é mais fácil e rápido mostrar superficialmente quem somos, pelas lentes das redes sociais, que são as máscaras do nosso tempo.

Na moda, presenciamos o passo a passo na construção de uma indústria global e ambiciosa, que não poupa o meio ambiente nem as pessoas. Se antes as marcas desfilavam duas vezes ao ano, hoje têm oito apresentações anuais, incluindo aí desfiles de todos os segmentos em que estão presentes, como masculino, alta-costura e as linhas de pré-inverno e pré-verão. Apenas grifes que são verdadeiras corporações (Dior, Chanel, Gucci, Burberry…) conseguem dar conta de tanta eficiência, produção e dinheiro.

Ainda assim, mesmo pessoas preparadas para esse nível de pressão têm feito escolhas que trazem mais tempo, liberdade e espaço, como aconteceu com o belga Raf Simons, que deixou a direção criativa da Dior de surpresa, após três anos na casa. Raf tem uma marca masculina, que desfila na semana de moda de Paris, e com ela pode fazer do seu jeito, no seu tempo.

Dois fenômenos detonaram esse movimento: a formação dos conglomerados de moda e o fast fashion. Daí vem o aumento no consumo, que reflete em mais oferta e mais produção, que resulta em mais vontade de comprar, em um jogo de presa e predador em que consumidor e indústria têm os dois papéis ao mesmo tempo. Precisamos de tanto? Não! Nosso impulso, nossa ansiedade, nossas inseguranças podem ser saciadas de outras maneiras, vivendo uma vida mais real, menos digital, dando atenção ao que é importante de verdade. Entender o que é essencial, mais do que um exercício, é uma escolha.

A moda sempre viveu de novidade. O problema é que as novidades de ontem ficam velhas hoje e você tem que sair em busca das de amanhã. É matar no almoço para comer no jantar. Um ciclo vicioso em que estilistas, empresários, produtores e fornecedores pagam um preço caro para sustentar a demanda por novidades.

Por que a obsessão com velocidade e quantidade? Se a ideia é produzir coisas boas, que tenham vida mais longa, correr não é a melhor forma de fazê-lo. Acelerar não aquieta a mente, só produz barulho e ansiedade.

Para todo grande movimento, há sempre uma oposição. Ela é formada por pessoas que decidiram dar uma pausa. Repensar, refletir, refazer, só que de outro jeito. Cada vez mais, no Brasil e no mundo, aparecem estilistas, designers e iniciativas que trabalham o tempo de outra maneira: a seu favor e não contra. Que atuam de forma horizontal, quebrando normas e hierarquias antigas.

Nesse silêncio, descobrem novos valores e maneiras de ir contra o que está se provando insustentável. Há um novo pensamento na moda, que inclui a otimização de tempo e dinheiro, a criação de algo durável e autêntico, a humanização dos processos e o não desperdício (de tempo, material, trabalho, mão de obra, ansiedade etc.). E isso não quer dizer que a tecnologia não seja aplicada, que o resultado não cause desejo, que a empresa não seja lucrativa e saudável.

Como exemplos, posso citar Paula Raia, Isabela Capeto, À La Garçonne, Flavia Aranha, Fernanda Yamamoto, Ronaldo Fraga, Carol Baum, Comas + Japonique e Helen Rödel. Marcas totalmente diferentes umas das outras, mas que têm em comum esse ideal e vão, bravamente, contra o fast.

A maioria tem uma operação pequena, com apenas uma loja em São Paulo e alguns canais digitais, como online shops próprias ou multimarcas. Como qualquer empresa, seu processo de criação tem uma meta: virar um produto. Mas o durante é tão importante e prazeroso quanto o fim.

Fernanda Yamamoto, Flavia Aranha, Paula Raia e Carol Baum capacitam mulheres de comunidades Brasil afora, ensinando novas técnicas manuais que podem ser aplicadas em suas peças. São muitas idas e vindas até ficar do jeito certo, de experimentos com tingimentos naturais e processos em cima de tecidos à criação de novos pontos de renda.

A Isabela tem uma história conhecida pela forma como faz suas peças, com trabalho manual, arte, beleza e amor. Suas roupas parecem que vêm carregadas de boa energia em cada bordado. Em sua mais recente coleção, ela usou peças já usadas para dar vida a novos vestidos e saias trabalhados a mão. Nada perto do que encontramos na nossa fast mais próxima.

Na À La Garçonne, nova empreitada de Alexandre Herchcovitch com seu parceiro Fábio Souza, encontramos peças que são feitas a partir de outras roupas mais antigas ou com tecidos vintage. Histórias que passaram transformam-se em novas histórias.

O não desperdício também é o foco da Comas + Japonique, que tem como lema a total otimização de tempo, dinheiro, mão de obra e materiais. Já Ronaldo Fraga tem uma estrutura maior, mas há tempo encontrou um ritmo próprio que o permite se aprofundar nas suas ideias e transformá-las não apenas em roupas, mas também em exposições, desenhos, livros e contos.

Um novo tempo, emoções sinceras, inspirações originais, esforço, inteligência, estratégia, sabedoria em técnicas, processos e materiais, trabalho honesto, horizontalidade e respeito nas dinâmicas estão entre os valores dessa proposta.

Em um momento em que mais de 500 milhões de mensagens são compartilhadas por dia no WhatsApp e o avanço da tecnologia tem feito o mundo enfrentar mudanças complexas, a pausa é o nosso calmante, nosso ácido, nossa receita contra o império da ansiedade e da busca por algo que perde a graça assim que encontrado.

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Em 1952, Guimarães Rosa acompanhou oito boiadeiros em uma viagem pelos caminhos do sertão de Minas Gerais. Esse foi o início de um dos mais importantes livros da literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas (1956). Inspirado pelo universo do escritor, e no cenário vivido por Riobaldo, é que minha experiência pelo sertão se inicia — mas sem pensar em um fim, pois, como diz o próprio Guimarães Rosa: sertão é dentro da gente.

A região está muito diferente do que foi há mais de sessenta anos, já não se encontram veredas vicejando vida pelos caminhos; e os surubins, uma vez em abundância ao longo do rio São Francisco, hoje estão escassos.

Seu Norberto e o rio São Francisco são um só. Desde o primeiro momento em que nos recebeu, com um grande sorriso no rosto, em Três Marias, foi possível sentir que para ele não há separação entre natureza e homem. O que o rio ensinou a Seu Norberto não se aprende nas linhas de nenhum livro, e isso foi o que mais deu forças para ele ser um ribeirinho militante consciente e respeitado por todos que já o encontraram um dia.

Na comunidade quilombola de Ribanceira em São Romão, Vilson foi chegando com sua bicicleta e, num momento, encostou perto de uma árvore, ficando em silêncio e observando. Sua curiosidade acompanhada de um olhar sonhador aos poucos se mostrou tão amigável como uma pessoa próxima da família. E deve ser isso viver em Ribanceira: uma grande família. Mas uma família que traz no sangue a resistência da história quilombola como força vital para superar todas as adversidades cotidianas.

Antes das 5h, ainda escuro, o horizonte começando a clarear o dia, descendo as margens do rio São Francisco na altura de São Romão, encontramos Seu Vital e seu barco prontos para começar a lida diária. Assim começava um dia quente, mas com muita sombra, conversa e barus impossíveis de contar. Depois fiz o convite: “Seu Vital, topa fazer uma foto no seu barco na beira do rio São Francisco, bem como te conheci hoje pela manhã? Se for muito cedo vou entender…”, e a surpresa na resposta veio na afirmação positiva, com a cabeça, de Seu Vital: “Essa hora pra mim o dia já começou faz tempo, tou acostumado.”

Valdemiro criou as três filhas através do artesanato. Conversando e trabalhando, no começo não deu muita atenção, mas aos poucos foi se abrindo e se mostrou tão acolhedor como todas as outras pessoas. Nos detalhes do trabalho ele vai mostrando e explicando, e noto: nas mãos, na fala e no olhar, o amor e dedicação que tem pela arte transbordam e causam admiração.

Seus Zezo é, com certeza, o maior exemplo de que é possível buscar um equilíbrio entre tradição e modernidade. Nos Vãos dos Buracos, onde seria o Liso do Sussuarão, andamos pela mata até chegar a um olho-d’água. Eu, impressionado, matando a sede, tento achar palavras para explicar o momento. Seu Zezo sabe que para algumas coisas, na natureza, não há palavras, e fica em silêncio.

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por Marina Weffort

O tecido, material escolhido por mim para esta série, é constituído de uma estrutura de fios que se cruzam ordenadamente. As direções são sempre as do urdume, vertical, e da trama, horizontal. Essas linhas, perpendiculares entre si, criam minúsculos encontros, perfeitos e estáveis, que possibilitam ao todo a realização de uma superfície única, um plano outro, maleável e resiliente. Meus trabalhos com tecido se valem da lógica construtiva inerente ao próprio material para explorar questões como cheio e vazio, leve e pesado, tensão e distensão, superfície e profundidade, e a passagem do tempo. As ações de cortar e desfiar, pregar e esticar são os únicos elementos do jogo.

Os trabalhos, em sua maioria de cores claras, são esticados diretamente sobre a parede, fazendo com que sua sombra seja incorporada à imagem da obra. Esse sútil rebatimento de luz e sombra entrecruza o desenho da nova trama, ao mesmo tempo que a insufla de ar, formando uma espécie de caixa vazada de linhas reagentes ao mínimo sopro. Revela um procedimento de escultura àquilo que, em um primeiro momento, pode parecer algo bidimensional, como um desenho ou uma pintura. Os padrões de movimento, que aparecem com a ação da mais sutil entrada de ar, muitas vezes assemelham-se à imagem do sopro do vento em uma superfície de água. A rarefação da superfície e sua fragilidade visual e física contribuem para sua dissolução no espaço. Essa relação com o espaço e com a luz que atravessa as tramas dos tecidos exige do observador um permanente esforço para corporificar essas estruturas-limite.

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Dois e dois são dois: Bruno Herrera e Yuka Okuyama

Rodolfo Herrera, 33, formou-se em Design Gráfico. Há três anos, trocou o mouse, tabela Pantone e monitor pelas xícaras, moedores e aromas do café. Barista e cofundador do Beluga Café em São Paulo, acredita no envolvimento direto com seus meios produtivos – a origem dos grãos, o esmero no processo -, criando a ponte entre o produto e seu público consumidor.

Yuka Okuyama, 28, formada em Arquitetura e Urbanismo. Divide seu tempo entre a arquitetura e a produção de café em Rio Paranaíba-MG. Filha de agricultores, sempre compartilhou com a família a paixão por café. Há dois anos desenvolve um trabalho na parte de qualidade, focado em microlotes de cafés especiais para o mercado interno.

Rodolfo Herrera – Quando começamos o Beluga, eu trabalhava com design gráfico já havia uns dez anos. Aí passei por esse momento de certo declínio do mercado de comunicação em geral, quando tudo começou a ficar muito bagunçado por conta da internet e de todas as transformações que o mercado sofreu. Como sempre tive uma questão de que quem trabalha com comunicação tem cada vez menos influência sobre o resultado final das coisas, isso começou a me gerar uma frustração muito grande. Começou-se a falar muito que as pessoas têm que procurar satisfação no trabalho, uma ideia de que o trabalho quase deixa de ser trabalho. E a história do café surgiu justamente dos momentos de pausa que eu tinha em relação ao meu trabalho com design. Queria estudar alguma coisa nova, e comecei a estudar café – um tema que me interessava. Consequentemente, comecei a tomar cada vez mais café, café de melhor qualidade, e tentar entender por que esses cafés eram melhores, eram diferentes, por que o Brasil, que é o maior produtor de café do mundo, não deixava esses cafés aqui. Era muito difícil encontrá-los aqui e, quando você os achava, eram muito caros. Eu achava que eram caros. Hoje já não acho que sejam. Acho que são baratos até. Nesses pequenos momentos de pausa, fui entrando cada vez mais nesse tema, até o momento em que isso começou a tomar mais tempo do que imaginava que deveria tomar na minha vida, sabe? E aí foi um ponto sem retorno, em que olhei e pensei: por um lado, eu tinha uma profissão que ia relativamente bem, era sócio de um estúdio de comunicação legal, mas, por outro, não via um futuro naquilo, não via aonde aquilo poderia chegar com essa configuração que se deu, e achava que o momento era o ideal para criar alguma coisa nova.

Tomei essa decisão em 2012, passei 2013 ainda trabalhando com design e estudando cada vez mais, e em 2014 foi quando larguei tudo. No final do ano, eu e Flávio abrimos o Beluga. E, de lá para cá, de certa maneira, acabaram esses momentos de pausa [risos], porque começamos a trabalhar muito. Mas aí comecei a sentir uma coisa que não sentia havia muito tempo, uma satisfação muito grande de estar trabalhando com algo em que o esforço individual tem influência gigantesca no resultado daquilo que você entrega. É o seu trabalho, junto com o trabalho de sua equipe, que diz: “o resultado está aqui”, na xícara. Se é uma xícara ruim, você falhou em algum momento; se é uma xícara boa, acertou. Simples assim. Só que existe por trás uma cadeia complexa, que só trabalhando nisso começamos a entender. Quando abrimos o Beluga, tínhamos uma visão muito estereotipada do que seria trabalhar com cafés especiais, e fomos aprendendo, trocando a roda do carro com o carro andando, sabe? E foi muito legal, mas exige muito esforço no dia a dia. Começamos a fazer um trabalho de nos conectarmos cada vez mais com quem produz o café, porque, no nosso ponto de vista, é ali que está realmente o ponto mais importante da cadeia toda. Não é só pensar no consumidor, porque o consumidor, de certa maneira, está afoito a receber novidades. Mas é olhar para o produtor, se conectar com ele, e trazer, para quem entra na loja, essa conexão direta de certa maneira. É fazer as pessoas pararem em algum momento e olharem para aquilo que estão consumindo, prestarem atenção. Acho que, obviamente, sempre vai existir o lugar onde você vai pegar um café rápido e vai embora, mas acho também que o que estamos fazendo aqui, e que outras cafeterias estão fazendo, é provocar um momento de ruptura, em que você entra e se interessa por uma cadeia, não só pelo produto final que consome. Você quer saber quem é o produtor, de onde vem, como é a relação, enfim… Isso que estamos esboçando aqui. E, assim, a relação com o campo vai nascendo aos poucos. Estudando cada vez mais, vamos conhecendo mais um percurso, tentando nos aproximar dos produtores, e a Yuka foi uma dessas pessoas, nos conhecemos aqui.

Yuka Okuyama – Eu também estava bem desanimada com a arquitetura, quando meu irmão, que morava aqui em São Paulo, acabou voltando para Minas, para a fazenda de café da nossa família. Sempre fui entusiasta do café. Acho que, da família, sou a que mais curte beber café. Para mim, é uma pausa mesmo. De lá, meu irmão se envolveu com café e me fez uma proposta de trabalharmos a qualidade do café da nossa fazenda. Isso foi mais ou menos na época em que o Beluga abriu, e ver todo esse movimento, que estava crescendo aqui em São Paulo, deu um gás ainda maior para nós. Ter contato com vários cafés do Brasil também. Porque, como produtores, é difícil ter o produtor que provou o próprio café. Normalmente existe uma pessoa que avalia o café e precifica, aí você vende. Até mesmo isso, de provar seu próprio café, é raro. É um absurdo, mas é muito raro. Eu não tinha muito repertório de café, e então começamos a pegar alguns lotes e dar uma caprichada. Aprendemos mais sobre o pós-colheita, que é o que traz qualidade para o café. Se você não dá um bom tratamento no pós-colheita, a qualidade pode cair muito. É um dos momentos mais importantes para o café. A fazenda da minha família fica no serrado mineiro, região conhecida pela produtividade. Temos algumas vantagens, digamos assim, porque o terreno lá é plano, então a gente tem colheita com máquina. Só que, como o Brasil tem o pensamento de quantidade, e não de qualidade, somos o maior produtor de café mas não somos conhecidos como o melhor café do mundo. Quando você tem muito café, é muito difícil ter tempo e cuidado com todos os lotes. Meu pai consegue uma qualidade e uma produtividade no café dele, mas começamos a dar mais atenção para alguns lotes com mais potencial, e no ano passado, em nosso primeiro teste, e pontuamos muito bem. A primeira vez que meu pai provou o próprio café foi no Beluga. Em casa a gente só tomava o café dele.

RH – Mas era uma coisa torrada na fazenda, né?

YO – É. Daí é outra história, você fecha o círculo, né? Você produz um café bom, tem um mestre de torra que torra bem, que vai buscar o melhor perfil para o seu café, e ele chega à cafeteria onde o barista vai servir-lo da melhor forma. Para o meu pai foi muito especial, mesmo.

RH – E nossa relação nasceu muito espontaneamente. Você vinha aqui como cliente, a gente nem sabia que você produzia café, fomos conversando cada vez mais, e um dia você trouxe uma amostra, nós provamos e falamos: “Caramba, esse café é incrível, dá para sair muita coisa boa daí”. E a gente foi aprendendo meio junto também.

O café tem uma relação com o tempo que é primordial para seu desenvolvimento. Vocês tiveram essa primeira safra focada em qualidade, nós provamos e demos feedback, além de outros feedbacks que vieram também, mas isso será aplicado somente na safra do ano seguinte. Existe uma espera de um ano para que isso aconteça de novo, e você nem sabe se realmente vai sair da maneira que quer que saia, porque há a influência do clima, dos processos pós-colheita, enfim… O café é um negócio que exige muita paciência e muita dedicação.

Por isso que é importante a proximidade com quem produz e com o campo. Aqui, tudo é muito rápido, para nós que estamos preparando e servindo. Produzimos centenas de xícaras ao longo dia. Só que, para que isso aconteça, para que a qualidade chegue de maneira padronizada nas xícaras, exige-se todo esse tempo “pré” do produtor. Se você experimenta novas variedades, plantando diferentes espécies, vai esperar essa planta crescer, e vai demorar três, quatro anos para dar a primeira colheita. Por isso o café exige outro tempo mesmo, e é muito difícil de conciliar. Isso de que você falou, que o Brasil é um país que sempre focou muito em quantidade e agora está aprendendo a trabalhar com qualidade, é uma mudança de paradigma enorme na maneira como a gente lida com o café. Mesmo para o consumidor é uma experiência diferente chegar aqui ou em outros lugares que trabalham com cafés especiais e consumir. O cliente pede um café coado e ele não está pronto. Preparamos na hora, moemos na hora, e demora mais tempo para ser feito e servido. Existe uma relação, que as pessoas vão aprendendo pouco a pouco, com o preparo das coisas, que toma um pouco mais de tempo, que não é tão mecânica.

YO – A onda do slow, né? Slow food, slow fashion… Está voltando um pouco agora, com o mundo tão acelerado. Acho que pouco a pouco estamos retomando essas coisas que demandam mais tempo, que são feitas com mais calma e mais qualidade. Talvez uma volta desses momentos de pausa.

RH – É. E o café especial está inserido justamente nessa mudança. É o que falei das pessoas se reconectarem um pouco com o produto e entenderem que existe um tempo para ele ser feito. Por exemplo, faz dois dias que estou sem café na prateleira – isso não deveria acontecer, em teoria, mas é porque a gente está num momento de entressafra, então os lotes que a gente tinha estão acabando, e não conseguimos tê-los imediatamente. Eu dependo do café que está no torrefador, sendo torrado, e ele vai me entregar agora à tarde para poder empacotar e colocar na prateleira. Não é um processo automatizado, industrial; são pessoas que estão envolvidas ali fazendo isso manualmente. E isso é muito legal, porque a pessoa que está aqui consumindo vai aprendendo esse timing, que toda semana eu recebo um lote de café torrado novo, então sempre vai ter esse frescor. A pessoa chega aqui – e isso é uma mudança de comportamento muito grande que acontece – e a primeira coisa que faz é olhar embaixo do pacote para ver qual é a data da torra do café. Isso é demais! É quebrar com a coisa do supermercado, que você pega e você nem sabe quando aquele café foi colhido, quando aquele foi torrado, quando foi moído.

YO – Validade de um ano. Café que já está moído…

RH – Um ano de validade. O café não dura um ano! Nenhuma comida deve durar um ano! [risos] Ela perde sabor, perde frescor, uma série de coisas. Óbvio que estou falando de uma coisa muito específica. Entendo que a industrialização da comida seja importante para uma série de coisas. Não conseguiríamos alimentar tanta gente se não tivesse uma indústria de alimentos, mas, nesse nicho, é muito importante esse processo para manter o frescor, para manter o café sempre novo.

Vemos essa mudança acontecer aqui diariamente. De gente que chegava, um ano e meio atrás, quando abrimos, e que só tomava café espresso com açúcar, e que agora toma um copo enorme de café coado sem açúcar e sai daqui feliz.

YO – Os cafés especiais têm uma doçura muito presente. Esse que a gente tomou agora… é muito suave.

RH – Isso tem a ver com essa história de saber a origem das coisas. Começar a entender que o café é uma fruta, e fruta tem doçura, tem acidez, tem tudo. Então você começa a olhar para o café de uma maneira diferente, o seu paladar muda. E quando o paladar muda, já era. Não tem volta. Uma vez que você provou uma coisa boa, dificilmente você volta. E aí entra também um trabalho nosso, de toda a cadeia, de tentar fazer com que esse café seja cada vez mais acessível, que tenha mais pontos para as pessoas consumirem e poderem levá-lo para casa.

Hoje, os nossos momentos de pausa têm sido quando conseguimos sair daqui, ir atrás de novos produtores, visitar fazendas, nos envolver mais nos processos. É uma das partes mais gratificantes, e todo ano é diferente. Todo ano você vai provar um café do mesmo produtor, e ele vai ter produzido alguma coisa diferente, porque o clima naquele ano foi diferente durante o plantio, durante a colheita, a maturação foi diferente, teve mais sol, menos sol, mais chuva, menos chuva… É um momento que paramos a loucura da cafeteria e nos reconectamos com o produto para entender como é que ele se desenvolveu naquele ano e como é que você vai trabalhá-lo depois que sair dali. As receitas de preparo vão mudando, as receitas de torra vão mudando, muda tudo a partir desse momento em que nos conectamos com a produção. E isso tem sido muito importante para nós, para vivenciarmos também uma mudança muito importante que tem acontecido no campo no Brasil. Se ficamos só em São Paulo, ignoramos um pouco o que existe no cenário do campo. Recentemente estivemos no sul de Minas comprando café de uma cooperativa de que sempre compramos, e ficamos assustados de chegar num lugar em que não tem uma placa escrita em português. O campo no Brasil é um troço muito, muito, muito avançado. Existe um nível de desenvolvimento e de tecnologia envolvido que a gente fica abismado quando vê. Isso quando falamos das regiões que trabalham com volume. Óbvio que, quando você vai para um lugar como o Espírito Santo, que é onde esses cafés são produzidos em pequenas propriedades, ainda tem a colheita manual, tudo acontece num outro timing. Mas, em alguns lugares de Minas, é outro mundo. Muito high-tech.

YO – É agricultura de alta precisão, né?

RH – De alta precisão, exatamente. Você sai da cidade achando que está entendendo muito do que existe de mais moderno, quando você está muito para trás. Existe um desenvolvimento interessante, principalmente relacionado ao café, em que o Brasil tem certa liderança de domínio tecnológico em relação à produção que é muito legal de ver.

YO – Vou passar esse próximo mês em Minas. Lá na fazenda estamos já colhendo, mas o trabalho que vou fazer lá é avaliar o café – eu não sou Q-Grader* nem nada, mas vou acompanhar.

Trabalhamos junto com uma cooperativa lá, e o meu papel vai ser basicamente acompanhar essas provas e ir separando os lotes que têm potencial para avaliarmos. Como é só uma vez por ano só que temos a oportunidade de testar novas formas de secagem, novos tratamentos do café, então vou pegar esse mês agora para fazer alguns testes. Como a nossa colheita é quase 100% a máquina que faz, a minha ideia agora é reunir um pessoal para fazer uma colheita seletiva manual. Aí vamos pegar esse café, secá-lo, fazer o beneficiamento… E só depois vamos provar.

RH – Vamos ter esse café pronto quando?

YO – Bom, já estamos provando alguns, mas começamos a colher no começo do mês. Então ainda tem um processo demorado, né? Porque ainda tem que secar o café, deixar descansar, e descascar até virar o grãozinho.

RH – Então, em uns dois meses depois de colhido?

YO – Sim, acho que uns dois meses até chegar aqui. Todo mundo está colhendo, está uma loucura, mesmo para o provador lá da cooperativa. Ele prova vários cafés por dia…

RH – E quando chegar aqui tem a outra parte, que é começar a fazer os testes de perfil de torra, sentar com o torrador e começar a procurar qual o perfil adequado para aquele café que você nos entregou. Existem, sei lá, cinco, seis perfis diferentes, provamos várias amostras dos mesmos perfis, escolhemos um que está mais ou menos no caminho ideal, e aprofundamos mais essa torra. A gente não tem uma estrutura de torrefação ainda. Quem faz a torra pra gente é um parceiro chamado Hugo. Até chegar na xícara exige muito tempo e esforço.

Depois que o perfil está pronto, ele é replicado naquele café semanalmente, enquanto existir ali. Mas ainda existem ajustes que fazemos nesse perfil, porque o café vai envelhecendo, perdendo suas características e ganhando outras. É uma coisa viva. É muito dinâmico. Todo dia é diferente.

YO – Na fazenda também é assim. Muito difícil. Se um talhão teve boa pontuação, o dividimos em partes, e, se no ano passado esse talhão bebeu bem a bebida, nesse ano pode ser que não seja assim.

RH – Se um café de um determinado talhão ficou melhor na xícara, no ano seguinte pode ser que não seja tão bom…

YO – Então, mesmo para nós, temos que identificar qual a melhor forma de trabalhar com aquele café. Acho que isso que é o que dá mais prazer de trabalhar com café; é muito complexo, são muitas variáveis… Porque é uma planta. Então tem ano em que o fruto vai estar mais doce. Daí, se ele produziu muito, no próximo ano talvez não produza tanto, porque a árvore dá uma descansada…

RH – Você estressou muito a planta.

YO – E também tem esse tratamento da secagem do café, que é muito importante, que pode também estragar um ótimo café. Temos que ficar de olho em todas as etapas, para poder trabalhar só esses lotes especiais. E fazer testes, mesmo. Acho que não estamos muito maduros ainda. Meu pai já faz isso há muito tempo, mas a gente está aprendendo muita coisa, testando muitas coisas agora. E é uma vez por ano. Você tem que dar uma avaliada geral e ver o que aconteceu com aquele café.

RH – E já começar a planejar a safra seguinte.

E tem uma coisa interessante também em relação à pausa, que é a relação das pessoas com a cafeteria. Eu sempre frequentei cafeteria, mas acho que nunca tive esse olhar que tenho agora. Agora que estou do outro lado do balcão, eu consigo observar o comportamento das pessoas que estão dentro da cafeteria. E é muito engraçado ver como as pessoas que procuram a cafeteria têm diferentes padrões. Um deles é o mais comum, que é o da pessoa que está no escritório e sai para tomar um café em algum momento do dia, para passar um tempinho fora do escritório, pensando na vida. Um outro perfil, que se repete cada vez mais, é o de gente que vem trabalhar aqui. E isso tem feito a gente olhar para relações muito interessantes que têm se desenvolvido. Pensando na região aqui, que é uma região que tem diversos escritórios de arquitetura e tal – a cafeteria começa a ter um papel muito importante em conectar as pessoas que estão por aqui por um motivo ou outro. Vemos cada vez mais reuniões de pessoas que trabalham na mesma rua e que não se encontravam constantemente, e acabam se encontrando aleatoriamente para conversar e acabam conversando sobre projetos, sobre o que estão fazendo… Vemos pessoas, também, que sabemos que são de escritórios diferentes e que vêm juntas para cá. O café tem essa capacidade social, de alavancar relações, que, para nós, de trás do balcão, é muito interessante. Reparar como esse ambiente propicia esse tipo de coisa, das pausas ao longo do dia.

Isso me fez lembrar de um livro do Steven Johnson, que é um jornalista que escrevia sobre ciência, física, vários temas diferentes, e começou a se interessar cada vez mais por tecnologias, e por como a tecnologia interfere na nossa vida. Ele escreve pequenos ensaios. Os livros dele são bem interessantes. Mas tem um livro chamado Where Good Ideas Come From que fala que ideias inovadoras nem sempre – quase nunca, na verdade – nascem daquela coisa da luz que acende, sabe? Ele diz que nascem de uma construção social. E tem um ponto muito interessante no livro, que é bem no início, em que ele fala sobre uma transformação que acontece na Inglaterra a partir de mil seiscentos e pouco, que é quando surgem as primeiras cafeterias, os primeiros lugares para consumir café. Porque, até então, se pensarmos na Inglaterra pré-revolução industrial, não existia água encanada, água limpa nos lugares, então a coisa mais segura que tinha para você beber não era água, mas álcool, porque era garantido que estava esterilizado, e eles tomavam cerveja ou destilados. Então você tinha uma população que basicamente – obviamente ele estereotipa isso – vivia bêbada 24h por dia, que se reunia para beber, e os encontros eram sempre à base do álcool. Quando começam a surgir as cafeterias, começa a haver um reagrupamento das pessoas em torno do café, para conversar e discutir ideias tomando um estimulante, e não mais uma coisa que as derrubava. E ele começa a relacionar isso a uma série de desenvolvimentos tecnológicos que começam a surgir na Inglaterra a partir desse momento, porque o café propiciou esses encontros e começou a estimular as pessoas a ficarem mais produtivas, mais sãs. É só um parênteses histórico que acho interessante, mas que, no final, vemos acontecer aqui diariamente. A pausa para um cafezinho é muito diferente da pausa que acontece ao final do dia, quando as pessoas se encontram para beber.

Em um ano e meio desde que o Beluga está aberto, eu nunca conheci tanta gente na minha vida, e nunca conheci tanta gente interessante. São muitas histórias diariamente. Quando você sai daqui e vai para o campo, também são outras histórias incríveis que você conhece; são outras realidades, vamos nos conectando. O café te obriga, de uma certa maneira, a se conectar com muitas realidades diferentes. Sou uma pessoa muito melhor, muito mais aberta, muito mais compreensiva por conta dessa convivência que tenho aqui na cafeteria. Você é obrigado a isso, sabe?

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Temporada

por Bem Gil

Uma das grandes especulações em torno do nascimento de uma criança diz respeito à data em que virá ao mundo. Nascemos datados. Isso faz com que a passagem do tempo se revele impiedosa e constante desde sempre. A música me faz estar alheio a esse imperativo. Observando de perto as estruturas “datadas” do período Inca, assim como todas as características da região que as preserva, tive uma grande sensação de liberdade nesse sentido.

Há quem sinta o tempo como sendo um acumulado de planos, todos simultâneos, além ou apesar de contínuos. E penso que, para essas pessoas, a impossibilidade de acessar os diferentes planos provoca o que chamamos de saudade. Um dos sentimentos universais relacionados ao nosso período de vida consciente, mas que sinto pouco. Ou, pelo menos, a angústia causada pela falta de algo que já não se acessa mais (descrita e cantada pelo rei do baião como sendo amarga “qui nem jiló”) não costuma ser latente em mim.

Estive recentemente no Peru, minha segunda passagem pelo país vizinho, a primeira com foco turístico (havia estado por lá anteriormente para uma apresentação musical). Dessa vez, também por conta da música, tive a oportunidade de adentrar um pouco mais o território habitado e transformado alguns séculos atrás pelo povo Inca. Como um dos criadores do projeto Terramundi Creators, recebi a encomenda de um olhar (específico e próprio do meu ofício) por essa região e acabei me deparando com essa associação direta entre a música e a capacidade de transmutação da nossa percepção em relação à passagem do tempo.

Como ferramenta de trabalho, faço uso constante de um equipamento eletrônico ligado ao instrumento, que provoca repetições programadas e controladas por parâmetros diversos em todos os sons gerados. Uma espécie de eco artificial, conhecido entre os usuários como delay (atraso). O uso desse tipo de recurso me faz perceber o som gerado como algo vindo das duas direções do tempo, passado e futuro. A natureza da região de Cusco é também especial nesse sentido. São paisagens circulares, como se um eco gigante e infinito estivesse o tempo todo atuando.

O curioso é que minha relação com a música sempre se desenvolveu a partir da oposição diametral entre o que está por vir e o caminho percorrido até aqui, e me acompanha a sensação de que tudo está na mesma linha multidirecional. Por ter um pai músico e trabalhador no campo da música como entretenimento, me acostumei desde cedo a viajar em função de shows e gravações. E foi muito por conta da expectativa e da vontade de seguir circulando por aí que acabei por me dedicar à mesma atividade.

No Peru, fomos aconselhados por guias locais a não apenas observar os sítios arqueológicos por si só (apesar do elevado grau de encantamento provocado pelas construções para além da engenharia ou da arquitetura), mas sim a procurar entender o porquê da escolha daqueles pontos específicos.

Já havia tido uma experiência, na Itália, muito interessante nesse mesmo aspecto. Um anfiteatro romano na região de Florença é considerado por muitos como tendo uma das melhores resoluções acústicas do mundo. E, ao questionar sobre essa especialidade, argumentei que não havia ali nenhum tipo de estrutura aparente que me fizesse crer no mérito da engenharia como responsável por tamanho equilíbrio entre absorção e reflexão de som. Responderam-me que o lugar era especial (não só a construção) e por isso havia sido escolhido para abrigar o teatro.

Lembrei exatamente disso ao chegar em Machu Picchu. A beleza e a magnitude da cidade são constantemente ofuscadas pelo que se observa no entorno. Toda circundada por montanhas que parecem moldadas a mão, o complexo nos transporta para uma dimensão além do alcance do tempo, ficando claro o porquê da escolha de um lugar tão específico para se construir e viver, e o porquê do encantamento e do envolvimento de gente do mundo todo com o lugar, para além de um simples passeio turístico. Estar ali é viajar no tempo e, mais do que isso, é abrir mão dele.

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Alguns anos atrás, durante nossa lua de mel, eu e minha mulher fomos a um show de música country incomum em Los Angeles. O cantor pigarreou e pediu desculpas no início, dizendo que só cantava em raras oportunidades, quando estava de folga entre seus trabalhos, e que a música era uma profissão de fé; ele fazia por amor mesmo. Pudera, a 25 dólares o ingresso, o show definitivamente não deixaria Jeff rico. Sim, Jeff Bridges tem um lindo hobby, a música. O ator oscarizado canta e performa muito bem, por sinal.

Para muitos atores, a pausa entre trabalhos normalmente é dedicada a atrações em teatro, séries, publicidade ou ao puro e necessário ócio. Alguns, porém, preferem desenvolver o que meu mais novo ídolo de infância Jeff descreveu como “uma profissão de amor”, em que podem expressar-se através das mais variadas formas.

No final dos anos 1960, o mundo das corridas automotivas ficou boquiaberto quando o jovem e talentoso ator Steve McQueen começou a pilotar, mas pilotar mesmo. E não eram apenas carros. Esnobava seus pares também em corridas de motos. Ele quase afundou sua carreira no cinema quando confundiu as bolas e resolveu coproduzir uma aventura cinematográfica caríssima sobre o que significava uma corrida. O filme Le Mans é incrível, por sinal.

Ao longo dos anos, outras estrelas seguiriam seus passos: Paul Newman, Patrick Dempsey e Eric Bana, por exemplo. Apesar das críticas, eles mostraram que estavam nas pistas porque eram verdadeiros corredores, além de ótimos atores.

O fascínio das pistas não foi o único hobby estranho a que atores se dedicaram. Temos ainda o sapateiro artesanal obcecado pela qualidade final de suas peças, feitas no norte da Itália, Daniel Day-Lewis; o pintor mediano Jim Carrey; o boxeador Mickey Rourke; o piloto de jato John Travolta; os músicos Johnny Depp, Kevin Bacon, Hugh Laurie, Liza Minnelli, Lucille Ball, Barbra Streisand, Jared Leto, Kris Kristofferson, e Jennifer Lopes; e, ainda, o carpinteiro Harrison Ford.

No Brasil, alguns atores também revelaram seus dotes em outras áreas, tais como os cantores Maurício Mattar, Alexandre Nero, Wagner Moura, Marjorie Estiano, Hebe Camargo e o romântico Fábio Júnior.

A lista é longa, e a grande maioria leva muito a sério suas carreiras paralelas tocadas nos momentos de ócio. Artistas são multifacetados por natureza e desenvolvem carreiras sólidas concomitantes a hobbies que, associados ao que é público, os definem.

O ócio muitas vezes é assimilado como um momento em que nos espreguiçamos e curtimos o dolce far niente, e, quando desenvolvemos hobbies, normalmente os guardamos para nós mesmos ou para a família e os amigos próximos. Esses artistas, contudo, não precisam provar nada a ninguém. Eles performam em público pelo prazer de dividir essa paixão com outras pessoas. Claro, pode-se ganhar um bom trocado com isso, mas creio que, em geral, dinheiro não seja a motivação principal.

Algumas vezes, o que se faz em momentos de pausa beira o inacreditável. Nos anos 1940, uma atriz austríaca debutava em Hollywood. Sua carreira no cinema e no teatro foi, no máximo, discreta. Mas, apesar disso, devemos reverenciá-la todos os dias. Hedy Lamarr era (além de lindíssima) uma inventora de mão cheia. Ela e o compositor George Antheil patentearam, em 1942, o “Sistema de Comunicação Secreto”, que visava mudar simultaneamente as frequências de rádio para impedir que os inimigos conseguissem detectar as mensagens de acionamento de torpedos aliados. Com a evolução dos transístores e chips, suas ideias foram aplicadas a diversos usos, e não apenas militares, mas também à futura telefonia celular. Sim, o Wi-Fi e o Bluetooth existem, em grande parte, graças ao hobby da estonteante atriz de Sansão e Dalila.

Bom, se em tempos de mídia invasiva, paparazzi e redes sociais, você ainda acha que viu e sabe de tudo sobre alguém, reflita sobre o que meu chapa Jeff cantou em “Falling Short”, de 2011:

Jeff Bridges

“We’d all like to think that we gave our best
But you’ll have to learn like all the rest
Until you seen it all, you ain’t seen nothing yet
You ain’t seen nothing yet
No, you ain’t seen nothing yet.”


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Segunda-feira à noite
Hotel Banri
Liberdade

João da Silva se afundou na sombra da entrada do restaurante, desviando do vapor com cheiro de peixe que vinha da cozinha. Estava quieto, os bares na rua eram pequenos, discretos. Portas pretas, luzes vermelhas, às vezes uma placa com escritos em japonês, às vezes nada. Só o Hotel Banri exibia uma placa luminosa. Comida barata na Liberdade. João se perguntou se o hotel também funcionava como bordel. Aquelas garotas asiáticas matando tempo no lobby, seus olhares cautelosos e rostos cobertos de pó de chumbo branco.

Ele respirou fundo. O ar estava pesado, uma tempestade se aproximava. Ele esfregou a testa, pegou o maço e tirou um cigarro. Era um trabalho sem futuro: sabia disso. Era um tédio. João estava entediado até não poder mais. Tudo que ele fazia era segurar uma arma e ignorar os crimes. Ele havia tido uma péssima sorte, fora assinalado para a pior DP de São Paulo. A 18ª DP da Brasilândia, uma favela difícil. Fazia a Vila Matilde parecer Paris, ou outro lugar do tipo. Traficantes vendiam crack do lado de fora da delegacia. João não ia fazer eles pararem. Ele tinha que pegar o ônibus para casa. Talvez, se ele tivesse sido colocado em algum outro lugar, teria jeitos de se provar, teria uma chance. Mas não na 18ª. Você só podia baixar a cabeça.

João balançou seu isqueiro, apertou a roda e assistiu a chama dançar em frente ao cigarro. Ele inspirou a fumaça e fechou os olhos, se afundando no gosto, tentando pensar em uma forma de mudar a própria vida. Ele ficou daquele jeito até que um facho de luz, muito mais forte que o seu isqueiro, mas tão rápido quanto, atingiu seu rosto. Ele abriu os olhos, mas só conseguia ver manchas de cor. Estremeceu por alguns segundos, se acostumando com a escuridão. De repente, sentiu silêncio. O vibrar metálico de antes havia sumido. João espiou a rua silenciosa. Vislumbrou a silhueta de uma moto. Dois homens. Pareciam estar mascarados. Esperando no escuro. Alguns anos atrás, isso significava um esquadrão da morte, a parte mais corrupta de um sistema já podre: policiais fora do horário de serviço que eram contratados como matadores de aluguel. Eles se tornaram tão poderosos que dominaram os bairros, cobrando por proteção, matando quem quisessem. Seu próprio quartel havia se tornado famoso por esses casos. Mas os esquadrões da morte supostamente não existiam mais. Um Brasil novo.

Ele olhou de relance para as cinturas dos homens. Eles estavam armados. Mas já haviam conferido João com a lanterna e não iam gastar munição nele. Estavam atrás de outra pessoa. Alguém que estava comendo no restaurante. Ele não havia treinado para isso. Deixara o distintivo e a arma em casa.

“Cara, o que você está olhando?” falou uma voz ríspida.
“Sou polícia”, ele disse, e fechou os olhos.

Uma risada abafada e, então, outra voz, mais baixa que a primeira.

“Pode voltar para dentro. Finge que não está acontecendo nada. Não cria confusão.”

João se virou lentamente e entrou no restaurante. Sentia a parte de trás de sua cabeça muito frágil e seus passos estavam longos e distorcidos. Ele não tinha muito tempo. Sua visão começou a escurecer enquanto olhava as mesas: a família japonesa comendo macarrão? A menina encurvada sobre um prato de sopa? O casal de mãos dadas comendo um barco de sushi? Não, não. É claro que era Rato, seu braço nos ombros de alguma garota, tomando uma bebida idiota. A pele de João se arrepiou enquanto assistia ele rindo. Ele era feio e idiota e criminoso. Mas mesmo assim, era apenas um garoto. João tinha que alertá-lo. Talvez algo bom pudesse vir disso, para ele mesmo, se fizesse a coisa certa.

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Fui para a Armênia fotografar as mulheres, em busca de suas histórias e da identidade armênia. Depois de quatro meses captando essas personagens, me dei conta de que todas eram como meu próprio espelho. Em todas há o meu silêncio, o meu vazio e a minha solidão por viver nessa terra, que me preenche de tanto eco.

A montanha me abraça, me alimenta, me preenche, me aquieta, como um útero. São dois mundos, o externo e o interno. E não importa qual é qual.

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Foi até engraçado quando recebemos o gentil e instigante convite para sermos editores convidados desta edição. Pausa não era uma palavra que ligávamos diretamente ao curso de vida que tomamos nos últimos anos. Pausa, no imaginário, lembra sossego, silêncio, calmaria, e nossa história lembra mais o contrário do que a essência dessa tríade.

Cinco anos, cinco cidades, dois países distintos. São Paulo, South Beach, Los Angeles, Inhotim, Catuçaba. Trabalhamos contra a inércia quando tudo fazia sentido, mas não fazia sentir. Pausamos ciclos de adaptação bem-sucedidos, planos de carreira e anuidades pagas com a ilusória garantia de que, daquela vez, era pra ficar. Ficar significaria encontrar. E, daí (alívio), pausar a tal busca, a tal saciedade da inquietação, a tal curiosidade pelo horizonte ainda desconhecido.

Mas o processo de pensar na edição nos ensinou a ressignificar o pausar. Se nossas pausas não foram para sossegar, foram para desritmicar, tropeçar, descarrillhar. Pausar foi mudar, invariavelmente. Todas as mudanças que, consciente e inconscientemente, nos demos ou que nos foram dadas desenharam um lindo mapa de navegação… As pausas foram curvas em vidas que começavam a andar em linha reta e que, por isso, deixavam de pegar atalhos, caronas, novas paisagens, destinos-surpresa…

O fato é que seguimos nos permitindo pausar e mudar de rumo. Só que agora, nessa fase, são pausas no micro, no cotidiano. Pausas em tempo e espaço.

Nossa última chegada geográfica foi na roça.

A curva foi aberta, tão aberta que quase nem percebemos que estávamos mudando – pausando. Foi quando chegamos e ficamos…

A pausa foi no pouso. Catuçaba, antigo Pouso do Chapéu.

No século dezoito, o isolado vilarejo, que se encontra no entroncamento do rio do Chapéu com o córrego da Queimada, era lugar de pausa para os tropeiros que, a cada 25 quilômetros, paravam para hidratar suas mulas e descansar do trabalho. Nosso pouso foi nesse mesmo lugar. Só que nossa retomada do trabalho não foi como a deles, que era seguir na estrada. Nosso trabalho (tempo e movimento) passou a fazer mais sentido se feito aqui, para aqui.

A cidade pequena, a rotina e o tempo rural, a conexão com os ciclos, o entendimento da dependência e da autonomia dos elementos; a liberdade atrelada à responsabilidade, o prazer atrelado ao trabalho; a complexidade atrelada à simplicidade, a vida atrelada à morte.

A roça, para nós, era o ambiente que poderia ser escola e laboratório, onde os valores, que cada vez mais reconhecemos como os contemporâneos de um futuro bem próximo, poderiam ser aprendidos, aperfeiçoados, exercitados. Valores éticos, estéticos, ecológicos, processuais, que nos ajudam a afinar nosso olhar e a termos o espírito aguçado para reconhecer, atrair e criar as oportunidades que queremos abraçar.

A possibilidade de nos reconectar não só com a natureza mais selvagem, mas com a nossa segunda natureza, que é a cultura, a tecnologia… Do fogo que cozinha, mas que também destrói, ao Wi-Fi que conecta, mas que também pode alienar. O encontro do equilíbrio, do potencial e do respeito com esses elementos é um bonito exercício de constante consciência, presença e responsabilidade.

Porque a vida da roça está longe de ser pausa – a roça nunca pausa! Ela é viva. A vida genuína nela exige uma dança constante – até mesmo nos momentos de ócio. O engraçado, de novo, é que, se a gente dança com ela direitinho, respeitando o passo e a coreografia, a ansiedade e a preocupação ficam mais brandas. E talvez aí esteja um cheiro daquela pausa que antes a gente não sabia que vivia: há espaço e tempo pra contemplação, respiro e espera.

Uma vez, passando de carro pela estradinha de terra que fica aqui em frente de casa, paramos para oferecer carona a Dona Cecília, que vende os ovos das galinhas que cria. Ela caminha (às vezes descalça, por pura preguiça de andar de chinelo), diariamente, uns dez quilômetros, trazendo os ovos e seus quase oitenta anos de vida. E nunca aceita carona.

Vai, Dona Cecília, chega aí. Estamos indo pra vila. A gente te leva, vai… “Brigada, meu fí. S’eu pegar carona, vô chegá muito cedo.”

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Há dez anos, num domingo junino, a Folha de São Paulo chegava com uma dica do Elio Gaspari, que comprei no ato e que venho seguindo desde então. Está no acervo do jornal: “Adele vai para a Trilha Paulo Francis”.

O Retrato Adele Bloch-Bauer, pintado por Gustav Klimt em 1907, confiscado pelos nazistas em 1938 e só recuperado do governo austríaco sessenta anos depois, por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, última instância de apelação de uma sobrinha de Adele chamada Maria, cidadã americana, tornava-se o quadro mais valioso da história, vendido por US$ 135 milhões para Ronald Lauder, magnata dos cosméticos e mecenas que criou a Neue Galerie justamente na Trilha Paulo Francis, em Nova York. A história deu um filme ótimo: A Dama Dourada.

Francis não viveu para ver, mas é de se supor que folgaria com a notícia da trilha ainda mais rica. Ela “começa no restaurante Bravo Gianni (rua 63, entre a 3ª e a 2ª avenidas), onde o jornalista costumava almoçar. Daí segue para a Coleção Frick (5ª avenida com rua 70). Francis parava ali por três razões, não necessariamente nesta ordem: rever o autorretrato de Rembrandt, ir ao banheiro (um luxo) e usufruir a agradável temperatura da galeria. O museu Metropolitan (5ª com rua 82) era o pouso seguinte, num percurso que acabava na sala da Princesa de Broglie, de Ingres, e da Condessa de Altamira, de Goya”. Obrigado, Elio.

Mas o que eu queria dizer é como adaptei a Trilha Paulo Francis ao meu cotidiano em São Paulo. Desde que o Jockey Clube fechou a sede da Rua Boa Vista, não tenho mais um banheiro predileto – nem um salão de barbeiro ou uma biblioteca com gravuras do Di Cavalcanti. Ou, por outra: o do Theatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo) é lindo, assim como o prédio todo, incluindo as novidades dos Irmãos Campana no restaurante. E por aí vai a minha trilha.

Como se vê, o roteiro não é necessariamente artístico. Ainda no Centro, vale uma pausa para café e sobremesa na Casa Mathilde (Praça Antonio Prado), ou para engraxar os sapatos com o Daniel Bigode (Largo do Café). Porém, tenha sempre em mente o Centro Cultural dos Correios (Avenida São João, s/n) e o do Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112).

Se você estiver na Paulista, o MASP é óbvio. Às terças-feiras é grátis e o bilhete economizado será muito bem direcionado se revertido para um café ali embaixo, no Mirante Nove de Julho (Rua Carlos Comenale, s/n). Na ponta do Paraíso, substitua pelo Itaú Cultural (nº 149) e, na da Consolação, pela Livraria Cultura do Conjunto Nacional (2073).

Prefere ar livre? Fique com o vão do MASP ou atravesse para o Parque Trianon. O do Shopping Cidade de São Paulo, esquina com a Pamplona, também é bom. No Paraíso, escolha entre a Casa das Rosas (37) e o Hospital Santa Catarina (200), cujo jardim, embora escondido, permite visitas. Na Consolação não há jardim. Melhor descer para os “Jardins”.

Na própria rua da Consolação, encontre as galerias Mendes Wood (3358) e a Baró (3417). Na Bela Cintra (1533), a Mônica Filgueiras. Na Hadock Lobo com Estados Unidos, vá à Dan Galeria e, com sorte e alguma cara de pau, consiga um café no escritório do Peter Cohn, com preciosidades na prosa ou sobre tela. Continuando pela Estados Unidos, visite a Zipper (1494) ou a Casa Triângulo (1324). E em hipótese alguma deixe de subir a Padre João Manuel para ver o que há na Luisa Strina (755).

Descendo rumo à Faria Lima, visite o MIS (Av. Europa, 158) e o MuBE, vizinho cujo prédio, sozinho, já é um deleite, e, mais adiante, a Nara Roesler (Av. Europa, 655). Já na Cidade Jardim, entre na Lume (Gumercindo Saraiva, 54). Ou suba a Nove de Julho até a Luciana Brito (5162 – é longe, melhor se você estiver pelo Itaim Bibi), cuja casa está para as galerias como o MuBE para os museus, por obra do Paulo Mendes da Rocha e do Rino Levi, respectivamente.

E há mais, muito mais. Num extremo da Gabriel Monteiro da Silva, tem a Galeria Rabieh (147) e a Papel Assinado (306), e, no outro, a Urban Arts (1984). Nas transversais, Art Hall (240 da Cônego Eugênio Leite) e a e-arte (Joaquim Antunes, 187). Em Pinheiros, o Instituto Tomie Ohtake (Coropé, 88), e, na Ferreira de Araújo, o Centro Brasileiro Britânico (741) e o Studio Dama (1056). Escalando a Vila Madalena, eu cansaria esta freguesia com tantas opções para descansar numa pausa entre uma ladeira e outra.

O importante é que os endereços estão aí e tudo o que os galeristas querem é a sua visita naquela meia hora que sobra depois do almoço. Aproveite. No verão, refresca. No inverno, aquece. Alimenta o espírito, é bom para a digestão e não custa nada.

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Eu tenho um retardo. Eu quebro todos os computadores que eu tenho. Em parte, isso se deve a uma preguiça desprezível de fazer certas coisas, atualizar programas, desligar a máquina antes de colocar na bolsa, guardar na capinha quando estou na praia. Precisa cuidar das coisas, minha filha, maresia acaba com a máquina.

O primeiro Macbook que eu quebrei, aquele branquinho pesado, foi o primeiro Macbook que eu tive. Aquilo era meu amor. Morreu de download. Era aquela época em que todas as músicas do mundo ficaram disponíveis para serem baixadas e eu surtei um pouco com essa história. Pegava as listas da Rolling Stone, “As 10 Maiores Bandas de Rock”, baixava todos os discos das 10 maiores bandas de rock. Posteriormente, eu ia deletando os que eu não gostava, mas, antes de fazer isso, tinha baixado todas as músicas.

Meu primeiro Macbook branquinho me deixou sem me dever nada. Levou embora meu roteiro, o único roteiro que eu consegui terminar na minha vida, mas me avisou antes, não foi sacana. Ele realmente me avisou, girando aquela bolinha colorida no centro da tela, meses a fio, chegando ao ponto de me fazer reiniciar três vezes. E eu, para que levantar a bunda da cadeira para mandar consertar? Que preguiça de sair de casa, ou chamar um moço para ir consertar lá em casa. Que preguiça de receber o moço.

O título do roteiro era E.U. Começava num vagão do metrô chegando na rodoviária do Tietê, em São Paulo. E.U. estava dentro do vagão, com o olhar fixo na bunda gigantesca de uma mulher gorda à sua frente. A bunda desce junto com ele, carregando uma mala pesada, andando depressa. “Posso te ajudar com a mala?” A mulher desconfia. E.U. usava um boné tampando metade da cara. “Que portão você vai?” Ele pergunta, já segurando a outra alça e subindo as escadas.

Os dois passam juntos na frente de uma banca. “Deixa eu só comprar uma água”, fala a gorda. E.U. abaixa mais ainda a cabeça. Em todos os jornais, na capa, a manifestação em Brasília; 200 mil pessoas pela contagem do Datafolha, um milhão de pessoas na verdade, segurando cartazes com uma foto dele. E tudo isso com uma vozinha no interior da minha mente, faz um backup, faz um backup, e eu dando option-command-esc, option-command-esc, até o fim.

O Macbook nunca mais ligou. Levei no Cassinho, levei no Léo, entrei em depressão. Voltei a fumar, comecei a beber, emagreci dois quilos, comprei outro Macbook branquinho e nunca mais terminei um roteiro.

Meu segundo Macbook durou seis meses. Quebrou porque caiu. Uma queda retumbante de cima do capô do carro. Eu esqueci a mochila no capô do carro e saí andando. Aí eu comprei o prateadinho, mas ele quebrou também, por excesso de download (eu acho). Aí eu comprei outro, porque eu sou rica, nascida e criada em Mambucaba mas com uma alma de Orleans e Bragança, e assim fui indo, parcelando em dez vezes, trocando iPhone quebrado junto. Ryca. Com y.

A bolinha colorida está girando de novo. Vou comprar outro Macbook? Você viu o preço do Macbook? É o dólar a 3,50 e mais três vezes o preço que o tudo aumentou. Paguei mil reais outro dia de farmácia, formei uma fila conferindo o preço das coisas, tira o Rinosoro moça, conserta esse Macbook, Vanessa.

Minha filha, é para isso que serve uma crise, para a gente evoluir como pessoa. Olha só que maravilha são as coisas. Nós somos agraciados todos os dias com pequenos milagres; é uma oportunidade que estamos tendo de olhar os nossos homens públicos e refletir: por que votamos neles? Não é uma coisa maravilhosa parar para pensar nisso? Não é uma coisa maravilhosa que você vai consertar um Macbook?

Ai, pai, estou com saudade.

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