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#29ArquivoCulturaSociedade

Um garoto nova-iorquino

por Léo Coutinho

Um garoto nova-iorquino de dezessete anos desenvolveu um programa de computador capaz de reconhecer padrões e sintetizar a obra de compositores clássicos. Sofisticado, o sistema pode criar suas próprias peças musicais.

A novidade causou frenesi nos Estados Unidos. Na TV aberta, o programa de auditório I’ve Got a Secret recebeu o prodígio com sua invenção, que apresentou uma peça de piano composta pelo computador. Ato contínuo, o presidente americano convidou o rapaz à Casa Branca para dar-lhe os parabéns pessoalmente.

Ainda estudante do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o mesmo jovem criou uma empresa para administrar outra invenção: um novo programa de computador, agora capaz de identificar matches da turma do ensino médio com universidades, cruzando as características das instituições com as respostas de um questionário preenchido pelos candidatos interessados. Qualquer semelhança com os atuais algoritmos não é mera coincidência.

Nota necessária antes de prosseguirmos: o presidente no segundo parágrafo é Lyndon Johnson. As datas de apresentação das invenções são respectivamente 1963 e 1968. O jovem é o hoje setentão Raymond Kurzweill, filho de judeus austríacos que escaparam do nazismo pouco antes da Segunda Guerra Mundial e um dos pais do conceito de Singularidade tecnológica.

O termo original vem do campo da astrofísica e é utilizado para denominar o lado de lá do horizonte de eventos dos buracos negros, onde o tempo e o espaço como os conhecemos desaparecem. Mas, nos anos 1990, a Singularidade foi reapropriada por Vernor Vinge e Ray Kurzweill para definir o lado de lá do entendimento vigente sobre a relação entre biologia e tecnologia, homem e máquina, consciência e matéria. A quem se interessar por uma introdução ampliada ao tema, recomendo a leitura do artigo “Singularidade e Convergência”, da doutoranda em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, Renata Lemos.

O que importa aqui é que ninguém discorda de Kurzweill sobre se a Singularidade tecnológica vai acontecer. Tudo o que se discute é quando, como e em qual intensidade ela virá. Isto é, sabemos que a inteligência artificial, somada à internet das coisas e incluindo nanorobôs capazes de coexistir com o organismo humano, é só uma questão de tempo. As perguntas que restam são filosóficas: quais limites éticos e morais devem ser observados?

Líderes religiosos se destacam entre os mais aflitos. Perguntam-se até que ponto convém à Humanidade “brincar” de Deus. É um debate que deve ser respeitado e realizado. E com alguma urgência. Imagino que o primeiro ser humano que foi capaz de controlar o fogo sofreu questionamentos semelhantes. Onde chegaríamos produzindo algo que acontecia como um fenômeno, quiçá divino, depois de um raio, de chuva ou de sol? A diferença principal é o tempo para o amadurecimento do debate. Parece que, naquela época, havia tempo de sobra e deu no que deu. Cá estamos. Agora, o tempo urge, a tecnologia avança num ritmo difícil de ser acompanhado. A Lei de Moore vigora, sem falhar, desde de 1965: a cada dois anos, a capacidade de processamento dos computadores dobra. Se vier a falhar, deve ser para mais, ou seja, triplicando ou quadruplicando a cada dois anos, posto que as máquinas evoluem muito mais depressa do que os seres vivos. Misturados organicamente, qual será a velocidade do passo?

Entre as previsões do futurista Kurzweill estão os nanorobôs que vão morar dentro do nosso cérebro e, de lá, poderão se conectar com a nuvem, arquivo virtual de toda a informação já produzida pela Humanidade. Será o fim dos lapsos de memória, e a criatividade humana não terá limites. Também poderão combater doenças e regenerar órgãos danificados pelo uso, provavelmente acabando com a morte morrida ou permitindo que nosso corpo aguente correr dez maratonas seguidas – confesso que não sei o que é mais assustador.

Mistérios e segredos também estarão com os dias contados. Inclusive os dos nossos ancestrais. Kurzweill é um tipo curioso. Podemos conhecer um pouco dele no filme documentário Homem Transcendente: vive no subúrbio, numa casa clássica americana repleta de memórias, bebe vinho, usa carro, terno e gravata. Pensa muito no futuro, mas não se esquece do passado.

Muito pelo contrário, quer lembrar mais. Guarda tudo o que pode sobre sua família, notadamente seu pai, para um dia poder digitalizar toda a informação e, de alguma maneira, ressuscitá-lo. Mais: já implicou muito com a presença dos extensos cemitérios dentro das cidades nos Estados Unidos, mas hoje olha para cada um deles como preciosos bancos de dados. Ele imagina que poderemos resgatar o DNA presente nos cabelos e outros tecidos dos mortos e, consequentemente, parte da memória neles contida.

Kurzweill diria: cuide bem do seu arquivo e serás imortal. Estamos preparados?

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Eu guardei o primeiro correio elegante que recebi de um menino da quarta série. Ele me escreveu: “eu adoro a sua amizade”. Daí para frente, o menino da quinta série só passava lá em casa para trocar fitas de videogame. Eu colocava um trevo de quatro folhas dentro do bolso da minha calça jeans nova e lhe emprestava as melhores fitas. Não tive sorte com trevos de quatro folhas. O menino do Rio Grande do Sul, próximo da lista, namorava a menina mais linda da escola. Pensa numa garota linda. Sabe quanto tempo eles demoraram para terminar? Cinco anos. Quatro anos depois do começo, a namorada dele foi passar o final de semana no Rio, e a gente ficou. Ele me disse que estava solteiro e que sempre gostou muito de mim. Beijei de língua, de orelha, pescoço. Eu e o menino do Rio Grande do Sul quase transamos no sábado. Na segunda-feira, ele passou com a namorada de moto.

Sabe quanto tempo eu demorei para ter o meu primeiro namorado sério?

Ele não está tão a fim de você foi o nosso primeiro filme. Ele me mandou uma mensagem perguntando se três encontros seguidos era muito, eu respondi que a única coisa que era muito era a vontade de ficar com ele. Tomei um banho, coloquei uma calça jeans nova (não tive sorte com calças jeans novas), fui para a casa dele e nunca voltei para casa. A gente assistiu Ele não está tão a fim de você como os namorados novos assistem filmes. Cada vez que a personagem, Gigi, se enganava com um homem, ríamos, como se estivéssemos para sempre livres de não dar certo. Até que, no mês passado, ou retrasado, já nem sei, ele começou a cantar a música da Frozen.

Eu demorei para entender a música da Frozen. Claro que eu já vi o filme umas quinhentas vezes, mas a letra tem todo um significado; de longe, tudo muda, parece ser bem melhor, livre estou, livre estou, etc. Que eu só entendi o dia em que ele começou a cantar “Livre Estou” na cozinha. Enquanto eu estava na sala cantando a música do Maná. A nossa música do Maná. A música do Maná que ele escolheu para ser minha. Foi só aí que eu me dei conta. Ele na cozinha, “livre estou, livre estou”; eu na sala, “con un cachito de corazón, con un cachito de corazón”.

Às vezes, a gente não tem escolha. Tem dias em que eu coloco a música do Maná no carro e pego a Marginal. Preciso instalar um insulfilm; não sei por que só consigo chorar no carro. Coloco Marília Mendonça, Vanessa da Mata. Essa semana peguei a Ayrton Senna escutando Cartola e Caetano. Achei melhor descer a serra, curvas estreitas de Frozen, silêncio, gelo do meu primeiro namorado sério. Desliguei o ar-condicionado, abri todos os vidros. A gente gostava tanto de viajar de carro. Cheguei na Rio-Santos com “Meu Coração Vagabundo”. Quero guardar o meu primeiro namorado sério em mim. Fui, fui, até Paraty. No trevo de Paraty, dei a volta para São Paulo. Fim.

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#29ArquivoAmarello Visita

Amarello Visita: Biblioteca Brasiliana e José Mindlin

por Tomás Biagi Carvalho

Cristina, você poderia nos contar um pouco de sua trajetória, como você começou a trabalhar primeiro com a coleção Mindlin, em sua casa no Brooklin, até chegar aqui nesse prédio que estamos dentro do campus da USP São Paulo?

Olha, quando eu ainda era estudante da faculdade, fiz um concurso na USP para trabalhar no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), onde trabalhei por sete anos. Mas, naquelas alturas, eu já tinha casado, minha filha tinha nascido, e eu pedi uma licença no IEB, porque naquela época não existia berçário onde você pudesse deixar um bebê. Eles negaram minha licença, e então eu pedi demissão.

Isso foi quando?

Isso foi em 1975. Eu pedi demissão e trabalhava para uma editora, fazendo tradução e revisão de livros. Quando minha filha cresceu e entrou na escolinha, eu tinha uma amiga que era professora aqui na USP e trabalhava no Mindlin que me perguntou se eu tinha vontade de trabalhar com ela. Eu já tinha ouvindo falar nele, obviamente, mas eu não tinha ideia do que era aquela biblioteca. Então fui à casa dele um dia à tarde para passar por uma entrevista – que eu achei que não ia dar certo, porque ele me perguntou, de imediato, se eu era bibliotecária, e falei que não, que era pedagoga, e ele falou, “você sabe fazer ficha?”, e eu falei, “mais ou menos” [risos]. “Você gosta de fazer ficha?”, e eu falei, “nem um pouco”. Aí eu pensei, “bom, agora ele vai dizer ‘pode levantar e ir embora’”. Então ele disse, “o que agrada você acima de tudo?”, eu falei, “ler”. Ao que ele falou, “pronto, agora podemos começar a conversar”. Esse encontro foi em uma quinta-feira, e na segunda-feira seguinte eu já comecei a trabalhar na biblioteca. A Alice (minha amiga) ficou lá durante mais ou menos dois anos e foi embora, e eu fiquei trabalhando sozinha durante uns vinte anos. Era só eu. Depois, entrou uma moça, que foi me ajudar com as revistas – porque a gente tinha uma coleção enorme de revistas – e, depois de muitos anos, entrou uma outra pessoa, que foi trabalhar com o arquivo pessoal do Mindlin, que ficou lá na biblioteca durante uns cinco anos. Quando a biblioteca foi doada para a USP, eu fiz concurso para poder acompanhá-la, porque eu era a única pessoa que conhecia o acervo; não tinha ninguém aqui, além de mim, que conhecesse a biblioteca. O Mindlin acreditava que era muito simples. A biblioteca vinha, e eu vinha. E eu disse para ele que não era bem assim…

A Biblioteca foi incorporada pela USP antes de o prédio ser construído?

A doação envolvia a construção do prédio. Mas o processo da doação em si foi uma coisa que durou dez anos. Foi muito a longo prazo. E, depois, a construção do prédio também demorou muito. Foi a última coisa e não foi feita com verba da USP, a não ser na fase final. Foi feita com captação de recursos. O processo da doação começou na gestão do Marcovitch, que era o reitor na época, aí passou por mais quatro reitores e terminou na gestão do Rodas. No final, quando a verba acabou, o Rodas bancou a finalização da obra, e nós terminamos o prédio.

E como você acha que o novo prédio influenciou o seu trabalho?

Minha relação com os livros não mudou, mas meu convívio com os livros é completamente diferente aqui do que era na casa do Mindlin. A construção no Brooklin era completamente diferente, era uma coisa muito mais intimista, os livros ficavam muito mais perto… Eu trabalhava no meio deles. Quando o pesquisador ia à biblioteca, ele não mexia nas estantes, mas sentava no meio dos livros. O Mindlin tinha uma relação com livro que, quando alguém ia lá conhecer a biblioteca, ele tirava o livro da estante, colocava na mão da pessoa e dizia, “pegue, leia, olhe, folheie, porque livro existe para ser manuseado”. Ele tinha uma visão um pouco diferente da maioria dos colecionadores. Já aqui na USP existe um distanciamento, quer dizer, os livros estão protegidos dentro de um anel, que tem acesso muito restrito. O anel tem controle biométrico de acesso, então só o meu dedo e os dos três bibliotecários, além do especialista em pesquisa, abrem as portas. Nem os diretores têm acesso ao anel. Os livros ficam ali dentro, protegidos e guardados. Na biblioteca do Brooklin, era uma relação muito mais afetuosa, digamos assim, do que é hoje, embora eu reconheça que é necessário isso, porque agora a gente está num órgão público, não está mais numa casa de um colecionador.

Como foi o processo de digitalização do acervo?

O processo de digitalização começou a ser feito antes da mudança, ainda na casa do Mindlin. Foi comprado um robô da Kirtas, um robô automático, que a gente chamava de Maria Bonita.

Por quê?

Porque todos os servidores da biblioteca tinham nomes de cangaceiros: Corisco, Sabino, Lampião… Quando esse robô da Kirtas chegou, ele era muito fresco, tudo era delicado, sensível, e aí a gente achou que ele era muito feminino e colocamos o nome de Maria Bonita.

Isso aconteceu uns três anos antes da mudança para cá (campus da USP). Ela era uma máquina que digitalizava o livro sozinha, virava a página do livro sozinha, mas a gente usava mais esse recurso quando era um livro moderno ou um livro muito antigo, de papel de trapo, porque o papel de trapo é muito resistente, permite que a máquina o manuseie com muita facilidade. Com os livros do século XIX, a gente não fazia isso, porque papel de celulose é muito frágil, então o trabalho foi feito manualmente. Montamos um esquema de fazer uma seleção do que seria digitalizado, com alguns critérios, uma mescla de livros de História, de Literatura… Começamos basicamente com o século XIX e, depois, digitalizamos obras mais raras dos séculos XVI, XVII. Um pouco antes da mudança para a USP, esse processo de digitalização foi interrompido, porque, na época, quem havia assumido a direção da biblioteca – o Mindlin já tinha morrido – emprestou as máquinas para se fazer uma digitalização para o SIBi, aqui na USP. Então elas ficaram, durante dois ou três anos, na Poli, e foi uma fase que, para nós, foi muito difícil e muito incômoda, porque as coisas não foram feitas de uma maneira muito clara.

O empréstimo?

Pois é, a gente não conseguia reaver as máquinas. Foi um processo. Aí, quando elas voltaram para a biblioteca, vieram para o laboratório de digitalização e, depois de uns dois anos, nós compramos mais três máquinas mais modernas. Atualmente, temos sete máquinas de digitalização.

A digitalização não é uma coisa tão simples, porque o livro tem que sair da estante, passar primeiro pelo laboratório para higienização, onde ele é todo limpo a mão – porque, se o livro for colocado em um equipamento sem limpeza, ele libera muita poeira, e isso compromete a máquina. Depois disso, ele vai para a digitalização, após o que passa por um tratamento de aparar as imagens e, depois, por um tratamento de OCR, que é o programa que permite que você faça busca por palavra no texto digitalizado. Então, se você pegar uma digitalização nossa e quiser, por exemplo, procurar a palavra “casa” no texto, é só você digitar e ele vai procurar no livro inteiro a palavra “casa”.

A última fase é pegar esse arquivo e colocá-lo no site. É um processo relativamente lento. Costumamos fazer quinze livros por semana. Não é muito – aliás, é bem pouco. E tem uma questão, que eu acho que é o maior agravante, que é o fato de você só contar com estagiários para trabalhar nessas máquinas. Porque, aqui na USP, você deve saber bem disso, é difícil conseguir montar uma equipe de estagiários e, principalmente, conseguir manter esses estagiários por um longo período.

Difícil pela burocracia ou pela falta de verba?

Pela falta verba. Às vezes, quando contratávamos, conseguíamos um estagiário só de 10 horas. Isso é muito ruim, porque é muito pouco tempo, e esse estágio dura somente 6 meses, quer dizer, a cada seis meses você tem que treinar toda a mão de obra novamente.

Durante dois anos, tivemos o apoio do BNDES, porque, quando construímos o prédio, o BNDES tinha muito interesse em participar do projeto. O que eles poderiam fazer para a BBM? Doar equipamento, doar mobiliário – todos esses móveis lindos de design brasileiro a gente comprou com verba do BNDES – e, também, financiar estágios e algumas bolsas.

Para nós, foi ótimo. Nessa época, existia uma bolsa que mantinha a uma conservadora no laboratório, mas, mesmo assim, a gente ficava o tempo inteiro empenhado em ter uma vaga aberta para um concurso para ter uma conservadora da biblioteca, porque essa pessoa que estava aqui era temporária. Não conseguimos que nenhum concurso fosse aberto, mas conseguimos uma coisa muito mais interessante, que foi uma permuta entre instituições. Existia uma pessoa que era especialista em restauro de fotos e que trabalhava no SIBi. Ela queria sair do SIBi e queria vir para cá. O SIBi não estava muito interessado em ceder, mas acabamos conseguindo que essa pessoa passasse a ser funcionária da BBM e, atualmente, ela é nossa conservadora.

Qual é o percentual de livros digitalizados, em relação ao acervo da biblioteca?

Existem, mais ou menos, uns 4,5 mil livros digitalizados. A biblioteca tem 60 mil livros. Mas, obviamente, a gente não vai poder digitalizar tudo, porque existe a questão de direitos autorais. Só digitalizamos e disponibilizamos na web o que está em domínio público. A única maneira de você digitalizar uma coisa que não está em domínio público é digitalizá-la apenas para consulta interna, sem disponibilizá-la na web.

Então, apesar da existência da internet e de todo o acesso que ela nos permite, ainda faz muito sentido o leitor vir até a biblioteca, porque ele vai ter um acesso a muito mais coisas.

Pois é. Bem no início da mudança para a USP, o Mindlin tinha, na biblioteca dele, uma coleção praticamente completa das obras do Vinicius de Moraes. Aí a família do Vinicius entrou em contato conosco e perguntou se nós não queríamos digitalizar todos os livros, que eles dariam autorização para isso. Nós digitalizamos todos os livros do Vinicius, e eles ficaram durante seis meses no ar. Aí, uma hora, um membro da família resolveu que não queria mais, “não brinco mais, não quero mais”. Ele criou tamanha confusão que, enquanto a família ficava batendo boca, nós resolvemos tirar todos os livros do ar. Quando fizemos isso, recebemos uma tonelada de reclamações. A partir disso, não colocamos mais nenhum livro que tivesse problemas de direito autoral – mesmo que tivesse autorização de um herdeiro.

Como é a sua relação com os livros digitais?

Leio muito no iPad, mas todo livro que eu leio no digital eu compro a versão física também. Tenho uma biblioteca em casa, então é difícil não ter o livro físico.

Mas, depois de ter lido no iPad, em algum momento você vai até o livro físico?

Ah, vou. Muitas vezes. Se eu quero reler o livro, ou se eu lembro de alguma coisa que eu li naquele livro, eu vou procurar no livro físico. Uma citação que eu queira usar em alguma coisa, eu vou no livro físico, não tem jeito.

Você acha que existe alguma diferença de leitura entre ler no papel e ler no iPad?

Toda. O conforto de deitar na cama com o livro aberto, você vira de lado, vira de outro… A luz do iPad me incomoda. Quer dizer, quando você está lendo um livro físico, você tem que acender a luz, então você usa o abajur, e tudo bem. O cheiro do livro – o iPad não tem cheiro, o Kindle não tem cheiro. O prazer de virar a página, de ir e voltar, o tato mesmo. É tudo muito diferente.

Qual você acha que é a importância dos livros nesse mundo tão raso que estamos vivendo, de informação tão superficial?

Bom, o livro não tem fake news, né? [risos] Começa por aí. Mas eu não consigo imaginar jamais um mundo que não tenha livro. Para mim, é fundamental, em todos os aspectos. Na educação, no prazer, no lazer, em qualquer coisa o livro se encaixa. Uma vez, perguntaram para o doutor José, “se você tivesse que ficar numa ilha, o que você levaria?”, e ele falou, “livros”. Ele só queria os livros. Comida, água – ele nem pensava nisso.

E como que você vê hoje esse mundo da informação que a gente está vivendo, de informação instantânea e fake news?

Acredito que não podemos ficar à mercê desse tipo de informação, porque senão enlouquecemos. A quantidade é tamanha que você não consegue abarcar tudo que está disponível na internet. Mas é muito fácil quando você pode confiar numa fonte que vai te dar uma resposta adequada. Claro que também tem tudo que é bobagem, que é mentira, que é lorota que está por aí.

Não acho que os livros vão deixar de existir, nem que o mundo digital vá deixar de existir. Acho que as duas coisas vão coexistir. Eu vou morrer, outra geração vai vir, e essas duas coisas vão continuar coexistindo. Enquanto existirem bibliotecas por aí, gente que gosta de livro – e vai sempre ter alguém – irá atrás delas.

Você participou de alguma maneira da construção do prédio?

Total. Éramos uma equipe com dois arquitetos, o diretor da biblioteca, eu – que era curadora da biblioteca –, uma moça que fazia captação de recursos… E, desde o começo, eu participei.

Às vezes, fico pensando que, se não houvesse falado algumas coisas durante o processo todo, não sei o que teria acontecido. Por exemplo, quando o Rodrigo (Mindlin Loeb) e o Eduardo (de Almeida), os arquitetos, me deram o projeto, eles falaram, “olha e vê o que você acha que precisa mexer, se você quer alterar alguma coisa”… Fiquei olhando aquele projeto, e uma hora eu chamei o Eduardo e falei, “Eduardo, que parede é essa aqui?”, e ele falou, “essa parede é do fundo da biblioteca”. E eu falei, “e o que tem aqui do lado?”, e ele disse, “banheiros”. Eu falei, “você acha que vai poder colocar uma parede com encanamento fazendo limite com a biblioteca no mesmo lugar?”. Aí foi feita uma alteração. Realmente, foi uma alteração que foi fundamental, porque jamais poderíamos colocar uma parede limitando estantes que tivesse encanamento passando dentro.

E em relação à disposição dos livros, como eles ficam dentro dos anéis, você teve envolvimento nisso também?

Os livros ficaram exatamente como eles ficavam na casa no Mindlin. Eles vieram e foram arrumados aqui tal e qual eles ficavam na biblioteca do Brooklin.

A casa tinha sua estrutura original. Depois, um prédio de dois andares foi construído em 1965, em uma parte do jardim. Depois, em 1985, foi feito mais um prédio de dois andares ao lado desse. Algumas coisas foram anexadas à construção original da casa. Tinha uma casa que tinha sido alugada do outro lado da rua, onde ficavam as revistas. Depois, um apartamento desse lado de cá foi comprado, onde ficavam os livros que estavam chegando, os livros novos. Aí a casa também ganhou algumas salas, o laboratório de restauro da dona Guita, um quarto – que a gente chamava de “quarto do caos”, porque, quando as coisas chegavam, eram enfiadas lá dentro. Tinha livro na casa inteira, menos na cozinha e no banheiro. Na cozinha ainda tinha livro de culinária.

A única coisa que foi remanejada na mudança é que os primeiros livros da biblioteca ficaram na sala da casa. Tinha uma estante que era de livros de Literatura, outra de livros de História, outra de livros de história do livro… Então todos esses livros de brasiliana saíram da sala da casa e foram para esses dois prédios da biblioteca. Literatura entrou junto com Literatura, História entrou junto com História…

Eles foram todos numerados, com um papelzinho que ficava dentro do livro em pé, e com cores diferentes. Literatura era rosa, História era azul, Arte era verde… Então, aqui na USP, temos, no primeiro andar do anel, a biblioteca do Rubens Borba de Moraes, que é um conjunto enorme, que foi uma biblioteca que foi doada em testamento ao Mindlin. Nesse andar, também ficaram os viajantes todos, os jesuítas, manuscritos e originais literários e, depois, toda a parte de História. No segundo andar, tem Literatura, que pega mais da metade do anel, e os livros de Sociologia, de folclore… No terceiro andar, tem os periódicos, os livros de Arte e as obras de referência. E aí tem, no arquivo, que é no subsolo, os fundos de arquivo da biblioteca, onde estão os fundos do Mindlin, do Rubens Borba de Moraes, do Vicente do Rego Monteiro, do Francisco de Assis Barbosa, da Zila Mamede, do Cunha de Leiradella…

Vocês ainda fazem aquisição? Ou só recebem doações?

Aquisição é mais difícil, porque obra rara custa caro, muito caro, não temos verba para isso. Temos verba para comprar livro novo, uma verba pequena que vem do SIBi, então compramos livros para pesquisa, dicionários, essas coisas. Geralmente, as editoras pedem para usar algum livro nosso para fazer uma edição fac-similar, ou para fazer uma 2ª, 3ª, 4ª, 5ª edição… Então elas mandam para nós dois exemplares. Esses livros todos, quando chegam, não ficam no anel. No anel está exclusivamente o que veio da casa do Mindlin. Eles vão para o subsolo. No subsolo, nós temos uma reserva técnica para 90 mil livros, então temos muito espaço para a biblioteca crescer.

Houve uma vez que – foi uma coisa muito rara que aconteceu, mas aconteceu, graças a Deus – um empresário telefonou dizendo que iria acontecer um leilão aqui em São Paulo de livros de brasiliana que era da Fólio, uma livraria que faz leilão, um antiquário muito bom, e que tinha livros bem interessantes. Ele disse que tinha muito interesse em fazer uma doação para a biblioteca, [e perguntou] se eu podia ler o catálogo e selecionar coisas que fossem importantes para nós. O catálogo era realmente fantástico. Ele me mandou o catálogo no fim da tarde e falou, “o leilão é amanhã”. Então eu varei a noite lendo esse catálogo. E aí, logo de cara, eu achei um livro que foi o primeiro da minha lista – porque nós temos uma coleção das obras de um editor do Maranhão chamado Paula Brito, com todas as obras, menos um livro, e este foi o primeiro que eu achei nesse catálogo: Iracema de Itamaracá. Foi o primeiro que eu botei na minha lista. Depois, eu percebi que o catálogo também tinha uma série muito grande de livros sobre a Guerra do Paraguai. Como eu tenho banco de dados no computador da minha casa, eu pude comparar o que a gente tinha e o que não tinha. Aí eu fiz uma lista de livros da Guerra do Paraguai que completava nossa coleção e, depois, incluí obras de alguns viajantes, que eram importantes e que a gente já tinha, mas eram edições diferentes. Então eu falei, “olha, eu fiz uma lista grande, você decide o que você quer doar, e a lista está em ordem de prioridade”. Ele doou a lista inteira.

Isso é assim: acontece uma vez na vida, outra na morte. Houve um outro caso que alguém ofereceu um livro que era importante para nós, e aí eu liguei para alguns dos amigos do Mindlin, que eu conheço todos: “você não quer fazer uma doação para a biblioteca?”, “ah, eu faço”. Mas não é comum.

Quais são os livros mais raros que existem na coleção?

Difícil dizer, mas tem algumas joias. Por exemplo, temos a 1ª edição do Hans Staden, de 1570. Doutor José levou anos e anos procurando essa edição, e conseguiu comprar em Londres, se não me engano. E ainda, por sorte, o exemplar que ele encontrou tem encadernação feita na época, de 1570. Uma encadernação de couro de porco, toda em relevo. E a pessoa que possuía esse livro encadernou três romances de cavalaria alemães – porque o texto do Hans Staden é em alemão –, então tem o livro do Hans Staden, depois tem um romance sobre um viajante persa e um romance de viagem na África – esses títulos eu não me lembro, mas são todos romances de cavalaria superimportantes. Não são de Brasil, mas o Hans Staden é de Brasil, e ele é o primeiro na série.

Esse é um livro muito importante, porque ele foi muito, mas muito publicado assim que o Hans Staden o lançou. Saíram várias edições. Ele foi tão publicado que, quando saiu em Marpurg em 1557, saiu uma edição em Frankfurt no mesmo ano. O Hans Staden havia ilustrado todo o livro a mão – são xilogravuras das aldeias, dos índios comendo braço, comendo gente, as praças de aldeia, as caravelas chegando e saindo do Brasil… Mas o editor de Frankfurt não tinha as matrizes das ilustrações dele, então resolveu ilustrar o livro usando ilustrações de uma viagem ao Oriente, de um autor chamado Varthema. Então, nessa edição alemã, só tem gente de burca. Temos essas duas edições aqui.

Uma outra rara que temos é a edição da Marília de Dirceu publicada no Brasil em 1810, que só existem quatro exemplares no mundo. Ela é muito mais nova do que a 1ª edição portuguesa, que é de 1790. A 1ª brasileira é de 1810, mas é infinitamente mais rara. Tanto é que o doutor José e o doutor Rubens, que era esse que doou a biblioteca para o Mindlin, procuravam esse livro a vida inteira. E aí o Rubens dizia para o doutor José, “se um dia você encontrar, não me conta, porque senão eu vou ter um infarto”. Aí, um dia, um colecionador de Minas estava na biblioteca, foi visitar o Mindlin e perguntou – colecionadores têm uma mania que é engraçada: se eu sei que você não tem determinado livro, então eu vou perguntar exatamente desse –, ele chegou para o doutor José e perguntou assim, “você tem a primeira edição da Marília de Dirceu publicada no Brasil?”, e ele respondeu, “claro que não! Eu não tenho e ninguém tem”. “Pois eu tenho”. Aí o doutor José falou, “não, você está brincando”, e ele falou, “estou falando sério. Quando você for a Minas, vai à minha casa que eu te mostro”. Aí, claro, na mesma semana o doutor José voou para Minas para ver o livro. Esse amigo falou assim, “sua mulher é restauradora, né?”, aí o doutor José falou que sim, “então leva e fala para ela restaurar o livro”. O livro estava perfeito, mas ele tinha, na página de rosto e na primeira e segunda página, alguns furinhos de bicho, mas não comprometia o texto. “Leva para ela, pede para ela limpar, arrumar, costurar de novo” – que estava descosturado – “e, se ela arrumar isso, o livro é seu”. Aí o doutor José nem acreditou. Trouxe, entregou para a dona Guita e falou “olha, Marília!”. E a dona Guita levou seis meses restaurando esse livro. Ela desenhou uma máquina especial para a refibragem do papel e tudo, e fez o livro inteiro. O doutor José, em troca, deu de presente para ele, já que ele era mineiro, documentos dos Autos da Inconfidência. Então ficou uma troca da Marília pelos inconfidentes.

O livro mais antigo aqui da biblioteca é de 1508, chamado Itinerariū Portugallensiū, de Fracanzano Montalboddo, e tem também os livros do viajante do Carl Friedrich Philipp von Martius. Ele veio para o Brasil e publicou os livros da viagem toda dele e, também, livros sobre a flora brasileira. São 41 volumes de flora. Todos ilustrados. E aí tem 18 volumes de viagem, sendo que três descrevem a viagem e os outros sobre animais – pássaros, peixes, lagartos, cobras, tudo colorido a mão. Aí depois tem os álbuns, que pesam uns 10 kg cada um, sobre palmeiras do Brasil – partes das palmeiras, semente, caule, tronco, depois a palmeira dentro do habitat dela na floresta… E tem macacos, também. E o nosso exemplar é o exemplar que pertenceu à imperatriz Maria Luísa, com os brasões dela nas lombadas.

Para digitalizar, vai dar trabalho. A pintura dos livros dele, nos grandes formatos, era feita em série, ficava numa mesa bem grande, com vários pintores, e cada um pintava uma cor – um pintava o marronzinho da palmeira, outro a folhinha verde, outro o verde-escuro… Era uma produção em série.

E quais são os objetos de desejo da Biblioteca Brasiliana?

Cultura e Opulência do Brasil, do Antonil. A 1ª edição, que não temos. Eu acho que esse é o livro que a gente mais queria. Talvez um exemplar de A Divina Pastora, que só existe um também.

E vocês sabem onde está a 1ª edição?

Não existe. Não está nem à venda em algum lugar.

Então é um desejo inalcançável.

Não, pode ser que apareça. O Cultura e Opulência do Brasil deve ter uns quatro exemplares no mundo. Todos eles estão em instituições, então não vai sair de nenhuma instituição para ser vendido.

Na casa do Brooklin funciona o que hoje?

É uma escola de criança pequena. A casa não era gigante. Ela tinha muito espaço para os livros, mas a casa em si era normal, com três quartos. Tinha um terreno muito grande, um jardim super bonito… A escola está instalada nos prédios que foram sendo construídos ao longo dos anos para receber os livros. Hoje, a escola fica no prédio onde eu trabalhava.

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As imagens construídas pela humanidade, por seus artistas, desaguam com ímpeto na memória. Segurar a lembrança, deter o encantamento, sentir o deslocamento do olhar por imagens, as quais vislumbrem interpretar o mundo, é recurso ontológico do arquivo. O fio que tece e costura os meandros da expressão humana é imaterial, subjetivo, gira em torno da experiência sensível da apreensão sobre o vasto e indomável território dos sentidos. A estética de modo dual permeia as relações não aparentes e as lógicas iconográficas.

O gesto em arquivar, em domar o tempo, o espaço das coisas criadas a partir da arte, deixa-se espelhar pela força heurística, seja do plano da imanência da consciência (desta construção do saber) em conjunção com a fluidez efêmera do encontro com o visível. Seria o arquivo, portanto, a transposição da existência das coisas propriamente representadas, ou mesmo criação do objeto (da cultura, da linguagem, das imagens elaboradas como ideias)? O arquivo discorda de sua própria hegemonia de ser inconteste, de ser o espaço de um tempo remoto. A discórdia é uma particularidade desmistificadora do estado de existência. A primazia da discórdia, nesse caso, faz-se por inconfidência e insurgência ao criar movimentos de articulação em si num tempo novo, num lugar de destreza com fronteiras porosas.

O que poderia e parece ainda hoje fugir do provável, no sentido de pensar um arquivo de possibilidades infinitas pela ideia da constituição de um volumoso atlas, trata-se, no entanto, de algo real. O inexorável e antológico Atlas Mnemosyne (1924-1929), obra capital (e inacabada) do historiador da arte alemão Aby Warburg (1866-1929), reflete essa busca complexa sobre o pensamento visual. Tal como estendesse o braço para Mnemósina, deusa grega que representa a memória e cujo significado é lembrar-se, o historiador criou algo de princípios e proporções legendárias, ligados diretamente a operar a natureza do arquivo através de pesquisa incessante de imagens da arte e da cultura. Suas articulações por colagens e montagens, ao eleger determinadas obras, visavam principalmente discutir as intermitentes perspectivas de significados e símbolos. Vale lembrar o filósofo alemão Goethe, ao refletir que a viagem estética é também a busca de uma herança. No caso de Aby Warburg, ela se dá sem a determinação da palavra, da expressão verbal, mas com uma profunda viagem pelas imagens.

O método do iconologista era claro. Seu interesse era norteado pela arte da Antiguidade Clássica e do Renascimento Italiano. De tal maneira, por meio da execução de vários painéis (até antes de sua morte, deixou um conjunto de cerca de 63 painéis), Aby Warburg agrupou por temáticas um verdadeiro inventário a partir de ícones da história da arte, fotografias, desenhos, signos ancestrais e reprodução de textos. Enfim, elementos visuais para a compreensão estética e criadora da percepção do homem a respeito do mundo, assim como da mente humana ao desencadear-se por associações imagéticas.

Aby Warburg coloca a complexidade do saber por imagens que dialogam diretamente com a memória (seja individual ou coletiva) como o centro, o lugar onde ocorre o processo de criação e, por conseguinte, o pensamento. Para ele, a imagem da memória tem certa fase de guarda consciente nas representações, que se pode definir como “o modo simbólico do pensamento”.

Entre seus tantos desejos intelectuais de investigação, o Atlas Mnemosyne revela, em seu incansável colecionismo hermenêutico de imagens – por associações, aproximações, semelhanças e diferenças –, narrativas simbólicas pela estética. As reproduções fotográficas das obras reunidas por grupos em painéis configuram certo corpus de alinhamento, no qual perfilam realidades temporais e atemporais na discussão da ciência, religião, astrologia, antropologia, filosofia, sobre magia, atitudes psicológicas, desejos, o dionisíaco… A extensão das leituras visuais é incomensurável, de modo que não há como finalizar tais relações em seu Atlas. Não há margens, barreiras de contenção. Era comum Warburg estabelecer novas configurações, ramificações, rizomas; imagens que trasladavam de um painel a outro. Para o historiador, era justo em novas configurações que os sentidos se oxigenavam e se ampliavam. Assim, cada imagem nunca era fixada definitivamente, pois seria impossível mantê-la em um só contexto.

Espontaneamente, o Atlas Mnemosyne constituía, num sopro poético, a dinâmica das constelações, da espacialidade possível de desfiar novos significados, infinitas repercussões para reflexão. Antiguidade oriental, antiguidade ítalo-meridional-árabe, imagens de planetas, ninfas, Ghirlandaio, Botticelli, Ovídio, Laocoonte se misturam e dialogam entre tantas outras referências. Tentar compreender o Atlas precede também interpretar o pensamento de seu criador através das constantes temáticas em oposição, associações e recorrências. Fernando Checa, historiador da arte, ajuda a sintetizar a tão vasta obra de Aby Warburg. “A finalidade do Atlas foi de explicar, através de um repertório muito amplo de imagens, e outro muito menor de palavras, o processo histórico da criação artística no que hoje denominamos Idade Moderna, sobretudo em seus momentos iniciais do Renascimento na Itália, centrando-se em alguns aspectos essenciais de final do século XV em Florença e procurando seus fundamentos na Antiguidade.”

De tal forma, o arquivo, como meio, reunião e preservação, é também protagonista de algo substancial – isto é, de um tempo que se habita não pelo passado, pela cronologia, mas pelas frestas e lacunas da expressividade artística. São germinados, assim, espaços para a imaginação. Nesse limiar do entre-imagens, que encontra na dialética o arcabouço mais condizente, Aby Warburg concentrava seu olhar na dicotomia ente o eu (a subjetividade) e o viés do fora, o mundo (em sua objetividade). O que o historiador define como “o ato fundamental da civilização humana” nos faz refletir sobre como a criação artística coloca em suspensão símbolos passíveis de ressignificação a cada montagem, entre as cerca de 2 mil imagens depuradas por Warburg.

O arquivo passa a ser, para o pesquisador ou qualquer artista, exercício narrativo, num fluxo de desterritorializar zonas de conforto, cujo tempo e espaço se agarram organicamente. O encanto em ampliar os símbolos, que perscrutamos diante do arquivo, é um dos pontos inquietantes para avançar na compreensão de metáforas e antíteses.

Em Mnemosyne, Warburg relata, pelas imagens, os primórdios da história ocidental, que ele nomeia de “diversidade de sistemas de relações nas quais o homem se encontra envolvido”. Ciente do quão inesgotável é aproximar imagens por suas diferenças ou distinções, ele não almejava sintetizar nem descrever, mas provocar, como situa o próprio Warburg, o encontro de certas relações íntimas e secretas, correlações no saber transversal ad infinitum da relação complexa entre história e imaginário. A aposta, como diria o filósofo Georges Didi-Huberman, inerente ao Atlas de Aby Warburg possuía, dentre suas inclinações, um sentido conotativo e imaginativo em busca de montagens. “O atlas é uma forma visual do saber, uma forma sábia do ver.”

Aby Warburg deixa em seu legado não apenas um profuso arquivamento de imagens, mas sobretudo o acontecimento da hibridez, do poder da montagem por descobertas, um ponto de partida e acolhimento das coisas que se espalham pelo mundo e pela filosofia do sensível. Ideias que, representadas, transcendem a realidade através da imaginação, dos signos e dos significados. Esta foi a magia epistêmica de Aby Warburg: um atlas para ser mais horizonte do que superfície.

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“Todas as coisas pelas quais me sinto atraída estão prestes a desaparecer”, afirmou certa vez Tacita Dean. A artista tem, de fato, um fascínio pelo limiar da ruína, notável tanto no mote de suas obras quanto nos próprios suportes de que ela se utiliza. Estes servem como forma de resistir e, ao mesmo tempo, refletir sobre a essência por trás da construção de toda e qualquer memória: o desejo de combater a própria ameaça do tempo, do esquecimento. Dele surge a criação de arquivos, a consagração de lugares e as efemérides. Não à toa, o uso do filme, por seu caráter documental e ao mesmo tempo ilusionista, tornou-se uma das maiores ferramentas de Dean.

Essa escolha fez com que a britânica nascida em Canterbury (1965) venha sendo enquadrada por críticos como nostálgica diante de uma inevitável supremacia digital. Dean, que é considerada uma das artistas mais importantes de seu país e que só este ano ganhou mostras no Pompidou (Paris, França) e no Shrem Museum of Art (Califórnia, EUA) e atualmente possui duas exposições individuais em importantes instituições (Still Life, que ocupa a National Gallery e a National Portrait Gallery até 28 de maio, e Landscape, na Royal Academy of Arts até 22 de agosto, em Londres), rebate a crítica dizendo que nostalgia é uma saudade de um tempo passado, quando seu trabalho trata do presente.

Ela considera tanto os filmes 16 e 35 mm quanto a pintura e o giz — presentes na grande maioria de suas exposições — meios que, se bem “seguidos” pelo artista, podem trazer algo totalmente inesperado, “um cachorro que cruza um campo seguindo seu próprio nariz”, como ela definiu ao The Guardian em março deste ano. Uma troca que não ocorre com a mídia digital, na qual “nada pode realmente acontecer que não seja planejado”, ela completou na mesma entrevista. Seu trabalho se efetua de maneira intuitiva, exatamente como ela descreve. Observá-la trabalhando concentrada em seu laboratório, em meio às milhares de fitas de negativo as quais ela corta, cola e pinta, um a um, confere uma coerente imagem a essa afirmação.

Sob a premissa de seguir o próprio meio até seu fim, a artista encena verdadeiros “réquiens” em loopings contínuos de quadros longos e lentos realizados com a câmera estática, conferindo uma atmosfera contemplativa aos seus filmes, que hoje já somam mais de quarenta, todos produzidos em 16 mm. Ela assume que a lentidão recorrente é, em parte, determinada pela evolução de sua artrite crônica, mas também deixa claro que, de longe, essa condição agrega qualquer significado a eles.

Em meados dos anos 1990, a britânica lançou uma série de filmes que traziam como pano de fundo a paisagem marítima — influência natural do mestre conterrâneo J. M. W. Turner, cujas pinturas eram dominadas pelo mesmo gênero —, sendo os mais notáveis aqueles que aludem à trágica desventura do velejador amador Donal Crowhurst, como Delft Hydraulics (que registra as últimas ondas produzidas num laboratório marítimo na Holanda) e Disappearance at Sea, ambos de 1996. Este segundo, que registra os últimos faróis da Inglaterra e da Escócia, foi o que fez a artista ser indicada, em 1998, ao Turner Prize, um dos mais importantes da arte contemporânea mundial.

De sua produção nos anos 2000, destaca-se Kodak, filmado em 2006 na fábrica da marca, a última a produzir filme 16 mm na Europa, em Chalon-sur-Saône, na França. Dean precisava de rolos para sua câmera e foi informada por um vendedor em Nova York que aquela era a única que ainda os produzia. Munida de seus cinco últimos rolos, ela decidiu gastá-los para registrar a fábrica, partindo da ideia de um filme que representaria “seu próprio estoque obsoleto em si mesmo (…), um meio que está prestes a ser exaurido”, como definiu para a revista Kultureflash. Em 44 minutos, Dean se vale tanto do preto e branco quanto da cor para apresentar close-ups do maquinário, sequências de seus já conhecidos quadros estáticos de espaços misteriosos, alternados com vistas abertas que capturam a rotina dos operadores, encerrando com uma imagem da área, já desértica, destinada à embalagem do produto.

Mais adiante, ela definiria a produção de Kodak como uma homenagem ao filme analógico e um lamento por seu desaparecimento, além de ser a captura de uma bela jornada que, se não estivesse em incipiente obsolescência, ela jamais teria o interesse em registrar. Sua paixão pelo esmaecer das coisas sempre a leva a criar essas belas despedidas. Esta acabou sendo uma ação premonitória da artista, que não tinha conhecimento de que a a fábrica anunciaria o fim da produção do filme 16 mm poucas semanas depois de sua visita. No ano seguinte, ela seria finalmente demolida. Kodak traz a mesma melancolia do limiar do desaparecimento presente em produções anteriores, mas acaba se sobressaindo por trazer como protagonista algo muito caro à artista.

Essa sensação de luto que envolve o prelúdio da perda pode ter sido também o que a motivou a examinar, nos últimos quinze anos, a terceira idade de artistas como o radical italiano Mario Merz — ao qual a artista atribui certa semelhança com seu próprio pai, falecido em 2010, aos 88 anos —, o coreógrafo norte-americano Merce Cunningham, bem como Julie Mehretu, Claes Oldenburg, Cy Twombly, entre outros. Uma série de nove deles estará na mostra Still Life, na National Gallery. Com eles, a artista parece completar sua mensagem ao mostrar que o filme pode servir como metáfora da vida: mesmo que por um breve momento possa se criar a ilusão de um tempo suspenso, todas as coisas ligadas a ele terão um começo, um meio e um fim. Quando um jornalista a questionou com qual frequência a “narrativa da jornada” levava à morte em seu trabalho, ela respondeu: “Bem, sempre. E esta é a parte mais aterrorizante.”

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Existe uma história a se contar toda vez que acontece um encontro. Há rastros desse encontro. Memória. Arquivo. Fetiche. Notícias humanas.

Em O Museu da Inocência, o escritor turco Orhan Pamuk, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, narra uma história de amor impossível entre dois primos que acaba se transformando em uma adoração fetichista dos objetos relacionados a essa paixão. Na história, o protagonista coleciona obsessivamente coisas que foram tocadas por sua amada. Em paralelo, o escritor colecionou esses objetos, advindos de mercados de pulgas e casas de amigos. Objetos estes que estão abrigados no “Museu da Inocência”, em Istambul, em um espaço dedicado à memória dos personagens do livro.

Escondido perto da Avenida Istiklal, pulmão da moderna Istambul na costa europeia, um prédio vermelho abriga um museu curioso. No museu, não há paredes brancas, obras de arte famosas, tampouco objetos raros. Há uma coleção de objetos ordinários, comuns, rastros físicos de uma cena de amor – como, por exemplo, uma parede dedicada a abrigar mais de três mil cigarros dispostos em ordem com uma etiqueta de identificação. São pistas da angústia de um amor mal resolvido. O valor não está na natureza de cada objeto em si, mas sim em sua capacidade de despertar e trazer à tona todos os sentimentos e sensações ali colocados.

A criação do “Museu da Inocência” nos propõe uma reflexão profunda sobre o potencial dos museus em contar histórias nessa escala, de seres humanos individuais. Construções monumentais, que acabam distanciando o público, dariam lugar a cenários da vida real com objetos ordinários que lhe dão cor de vida – assim como nossas casas, a exteriorização do nosso universo particular, o lugar onde colecionamos aquilo que escolhemos, que colocamos a nossa energia e usamos de abrigo e proteção. Seriam nossos próprios lares os futuros museus?

Em seus estudos de Análise da Imagem, Walter Benjamin estabeleceu uma relação em que a imagem, como obra de arte, depende de sua aura, do seu valor de culto, da sua autenticidade e unicidade para existir. Relacionando esse conceito com o valor afetivo que colocamos em objetos tão próximos e presentes no nosso dia a dia, podemos considerar que tais objetos são dotados de aura e valor de culto. Uma releitura contemporânea do “ready-made” de Marcel Duchamp.

Se os museus são territórios de experiência e reflexão onde podemos repensar histórias e memórias, espaços que nos conectam com mundo, é urgente usar esses espaços para se aprofundar em universos particulares.

Os grandes museus sempre trataram de observar as civilizações, os Estados, a sociedade e os conglomerados, mas nunca o indivíduo em particular. Observamos as passagens históricas sem nos ater aos seus personagens, estudamos as guerras sem nos aprofundarmos a respeito da vida dos soldados que ali estiveram. O que sabemos sobre suas famílias, seus amores, seus desejos e medos?

Entrar no profundo do ser humano é compartilhar sentimentos e emoções em comum. É nos aproximarmos. Dar lugar ao íntimo em vez de abrigar a impessoalidade do coletivo é extremamente necessário para compreender o mundo de maneira mais humana. Assim, podemos mergulhar naquilo que há de mais singelo: nossas histórias pessoais, nossas memórias, coleções de uma vida dotadas de significado. Se há vida, há arte.

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Comecei com as cartas logo que me alfabetizei, aos sete anos, em 1969. Mamãe me ditava o que ela precisava dizer para o José Maria e, depois, colocava no correio. Suas cartas eram curtas, eu me lembro. E falavam, em primeiro lugar, de saudade. Diziam que, desde que ela o vira pela última vez… – e, aí, eu escrevia como escutava, em maiúscula: “Deus que te vi pela última vez…”

Em janeiro deste ano, comecei a fazer apresentações de minhas músicas nas casas dos amigos. Eu ofereço o show em suas salas e, depois, passo o chapéu. Nós chamamos essa série de shows de De Casa em Casa. Quando fizemos o De Casa em Casa no Márcio, na hora em que estávamos saindo, Edil disse que tinha uma surpresa. No caminho, acabei descobrindo-a: entre uma música e outra, ele iria ler as cartas que lhe mandei no fim dos anos 80 e início de 90. Eu não tinha ideia do que elas eram, mas, pelo entusiasmo dele em trazê-las para as músicas, pedi que já abrisse o show com uma.

Fiquei com um pouco de vergonha, achando uma bobagem todo aquele assunto que eu criava nelas – ocos, só pelo prazer de escrever e, então, perder um pouco de minha tristeza jovem. Mas o Edil disse que eram cartas de poeta e leu de um modo muito emocionado, bonito, porque ele é um poeta, e leu poeticamente, e chorou, porque não há outro modo de um poeta ler uma carta. Todos os amigos que escutaram a leitura acharam minhas cartas muito bonitas. E eu, mesmo assim, continuei não conseguindo ter ideia do que elas eram, mas também as achei bonitas, assim, com eles, no fluxo, na vibe.

Depois, em mais outros dois De Casa em Casa, Edil levou as cartas para ler, e comecei a perder aquela primeira impressão de que eram muito bobas, muito nada a ver. Comecei a sentir o quanto de verdade tinha em toda a fantasia que eu desenvolvia nelas. E entendi melhor por que a Vilma, naquele dia, na sala do Márcio, depois do show, depois da primeira leitura delas pelo Edil, veio me dizer que eu era um cara de fronteira e que eu só não enlouquecia porque escrevia cartas, fazia músicas e era artista.

Eu escrevo cartas desde menino, com os assuntos de mamãe, mas, quando fiquei adolescente e nos mudamos para Niterói, seus assuntos, além do que escrevia para seus irmãos, começaram a ser também os meus assuntos, para uma amiga de ginásio que tinha ficado em Cachoeiro. Depois, quando a nossa amizade acabou por conta da distância, eu escrevia para os amigos adolescentes daqui mesmo de Niterói. Quando me mudei para uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro, já um rapaz adulto, elas se intensificaram. As do Edil são dessa época, enquanto ele vagava por cidades do interior de Minas Gerais.

Escrevi para outros amigos, porque nós gostávamos desse negócio de manuscrever no papel, colocar no correio, esperar pelas respostas que vinham pelo carteiro. Era um entusiasmo isso. E o Edil ter levado suas-minhas cartas para ler nos shows me fez ver que elas foram, algumas vezes, o embrião de alguma música, um tema que, depois, virou música, como o tema de “Poltrona”, por exemplo, do meu disco Antigo (2013). Também me fez ver que, dentro dos limites do que me aconteceu na vida, elas também são o embrião dos livros que escrevi. No fim, os livros são como elas. Vou inventando o que dizer sobre mim e, aí, eles vão tomando esse aspecto meio ficção, meio verdade, por conta da fantasia com que me deixo envolver para contar uma coisa que é minha.

Penso que eu tenha herdado isso de mamãe. Ela, nas cartas para o Edil, está quase sempre presente, assim como nos livros e músicas. Eu adorei saber de uma carta que fala dos bolinhos que ela fazia e que comíamos na cozinha, fritos na hora. Nela, falo do meu desejo de que comer aqueles bolinhos continuasse como aquela lembrança que eu tinha, de olhar para as rolinhas ciscando a palha de arroz, quando eu não era nem mesmo menino, ainda bebê, e o sol era um sol branco, azul e dourado, inclinado sobre elas, as rolinhas. Só que o desejo não se realizou, não fosse a carta. As rolinhas estão até hoje pastando sob o sol branco, azul e dourado. Os bolinhos só estão na carta.

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Jorge Caldeira, escritor, doutor em Ciência Política, mestre em Sociologia e bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, se encontrou, na Rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, com Alexandre Villares para conversar. Alexandre é arquiteto e urbanista por formação, pesquisa o ensino de programação em um contexto visual e trabalha como professor e educador de tecnologias e artes em diversas instituições. Ele é integrante de arteprog – arte e programação e foi editor convidado da Revista Amarello #27.

Alexandre Villares: Essas questões de arquivar as coisas estão cada vez mais interessantes. Tenho um amigo programador que foi estudar Biblioteconomia depois de mais velho, e ele fala que tem um problema, por exemplo, imaginem que o pessoal da saúde tivesse um funcionário chamado hospitalecário. Isso não funciona, porque teria o hospitalecário da administração, o hospitalecário… Mas a Biblioteconomia ficou com esse nome. O cara é um bibliotecário. Mas dentro da Biblioteconomia você tem todo um universo de especialidades e de discussões, como na saúde você tem as especialidades e tal…

JC: E arquivo tem também: se chama Arquivologia e o cara se chama arquivista. A diferença da biblioteca e de um arquivo é que na biblioteca você sabe o que tem em cada unidade, cada livro é uma unidade; no arquivo, não necessariamente. Às vezes, tem um monte de caixas e você cria as unidades do que está guardado, dependendo do tipo de material, de onde veio, etc. E existe toda uma ciência para fazer isso. E os arquivos existentes, eu uso muito – comecei a usar, como historiador, estudando em arquivos. Era basicamente papel, mapa e coisas do gênero. Então as classificações básicas tinham sido criadas para isso. Quando veio a imagem em movimento, o cinema, você quer arquivar um filme, mas o filme tem um timetable, que é descrito minuto a minuto. Já é uma coisa bem mais complicada de fazer. Para você saber o que foi guardado num vídeo, no arquivo de uma emissora de TV, a cada minuto, era complicado há vinte anos. Ainda assim, tudo tinha uma base física. A internet e a programação eletrônica criaram uma coisa difícil, porque não existe um original como havia o máster da fita que faz o disco, o negativo da foto, quando se usava negativo, e até mesmo o papel. E você não tem um testemunho confiável que liga aquele documento a alguma coisa, um fato. Isso quer dizer que, quando você pega uma certidão de nascimento, um papel, ela foi escrita para dizer que fulano nasceu naquele dia, então o papel liga um evento a uma pessoa de uma determinada maneira. Na eletrônica, é difícil, porque você até consegue guardar um e-mail, mas ele pode sumir facilmente na nuvem; a linguagem de programação muda, e começa a complicar. Mesmo as citações acadêmicas online que dizem “visto no dia tal em tal site”, você imprime aquilo para certificar, mas é uma certidão que não certifica nada.

Então você tem uma desmemória na eletrônica, ou uma desclassificação – no sentido de classificado, de arquivado, que não existe no eletrônico. Pelo menos não se sabe ainda como que isso vai ser feito.

AV: O pessoal está tateando. Eu vejo os bibliotecários com o problema de guardar obras de arte digitais e os suportes mudarem, quer dizer, o equipamento que rodava aquele programa que fazia funcionar a obra não tem mais manutenção. Então vários programas que sabiam ler aqueles arquivos não existem mais. Como é que você faz? Você consegue emular o programa, existe o archive.org, que fizeram um trabalho incrível. Um emulador de hardware que você pode emular computadores antigos que rodam os softwares que eles guardaram. Já é uma tentativa.

E eles tentam também guardar páginas de internet antigas, então, se um site sai do ar, você tem o que se chama wayback machine. Se eles guardaram aquela página, você consegue consultar mesmo que ela não exista mais. Muitos jornalistas usam isso em certas investigações. Você vai lá e vê como era a página do cara naquela época na data tal ou num período próximo. E quanto ao que você estava falando, dessa questão da ligação do fato a um documento, existe a ideia da assinatura criptográfica hoje em dia, que talvez, com o avanço dos documentos assinados digitalmente, você consiga pelo menos estabelecer que, em certo momento, alguém assinou aquele documento. Foi assim que resolveram, por exemplo, a questão da nota fiscal eletrônica. Todas as notas fiscais eletrônicas são assinadas criptograficamente, o que garante a integridade de cada uma, que ninguém vai forjar, mudar o valor da nota e as informações contidas nela. Então, talvez, para o futuro, se tivermos mais assinaturas criptográficas, ou pelo menos em algumas classes de documento, vamos conseguir ter alguma noção melhor da integridade documental digital.

JC: Lentamente, está se tentando criar um arquivo. O equivalente do arquivo físico. O arquivo físico é uma invenção do século XVII, XVIII. O primeiro arquivo foi o arquivo das Índias – o primeiro grande arquivo que guardou toda a documentação de toda a América espanhola. Ele fica em Sevilha. Eu não sei nem se ainda está aberto. Eu cheguei a pesquisar nele ainda no papel, nos originais. E eles fizeram algo que era uma criptografia simplérrima: cada sala tinha um nome, Buenos Aires 1, Buenos Aires 2, que é a documentação vinda de lá, e o armário, a prateleira e a caixa.

AV: Codificação da localização.

JC: Dessa maneira, eles guardaram bilhões de documentos, com uma chave de classificação muito simples. E a ideia era o quê? Era ter isso que você falou: alguma coisa que comprovasse uma coisa única, por exemplo, o juiz da cidade de Buenos Aires condenou aquele cara naquele dia tal, e aquele atestado ficava lá e era usado para os fins que o governo quisesse, vamos dizer assim, e depois virava um arquivo público, que todos podiam ver. Agora está tudo digitalizado, mas tinha o original que garantia autenticidade. Ao se recriar isso na internet, se repõe a possibilidade de fazer um arquivo. Quer dizer, na verdade, o que está na eletrônica não tem memória e, além disso, o dado eletrônico é perecível – uma folha de papel ruim dura 500, 300 anos, papel jornal dura 150, 200 anos.

AV: Arquivista gosta de papel. Papel dura.

JC: Sim, por exemplo, meus arquivos eletrônicos, para manter vivos eletronicamente, eu tenho que trocar o software regularmente, a cada dois anos.

AV: O CD, que a gente achou que ia ser uma mídia ótima de arquivística, é um lixo. Dez anos passam, e dá mil problemas.

JC: Mas é um rolo esse negócio. Porque, além de você ter essa coisa de criar a originalidade do documento e comprovar que aquilo é o original, ele tem que ser mantido íntegro, e manter íntegro na rede é um trabalho de Sísifo. Todo dia está morrendo uma linguagem de programação, algum formato, e os programas não abrem mais aquilo que antes abriam. Existiam programas extraordinários, mas, se o computador não roda mais o programa, você perde seus documentos.

AV: Nesse sentido, o software livre tem um pouco de vantagem. Por exemplo, eu usava o Freehand para ilustração editorial. A Adobe comprou a Macromedia por causa do Flash e matou o Freehand, porque queria vender o Illustrator. Os materiais que eu tinha do tempo de faculdade não abrem mais, porque o programa não roda nos computadores de hoje. Então, agora, a chance de resgatá-los é rodar um emulador de um Mac antigo para tentar rodar um Freehand velho e tentar abrir, para salvar em EPS. É importante pensar nessa questão dos formatos abertos. O software livre e os formatos abertos dão uma sobrevida a isso, porque o código que gerou o formato pode ser inspecionado, pode ser traduzido por alguém.

JC: Sim, mas ainda está muito longe de ser parecido com o que era o tratamento com documentação histórica num arquivo clássico. Falta mais ou menos tudo. É muito aquém. Como tenho muita documentação histórica arquivada, que usei para minhas pesquisas, tive que criar um programa de arquivologia que simula a ficha de um arquivo para linkar a esse programa.

AV: Você trabalhou com vocabulário controlado, com thesaurus? Como você faz a organização no seu arquivo?

JC: Não. Na verdade, vocabulário controlado e thesaurus são muito complicados de fazer, mesmo em arquivo. Porque você só pode fazer vocabulário controlado depois que você tem tudo classificado de alguma forma, não antes. O vocabulário controlado é o que você está fazendo em processo, enquanto você está entendendo o material já organizado.

Eu tenho praticamente toda a História do Brasil arquivada em documentos. Sei lá, umas 3 milhões de páginas de documentos históricos. A Biblioteca Nacional, por exemplo, tem 9 milhões na sessão de manuscritos. É bastante documentação. Cobre tudo. Desde as primeiras notícias do Brasil até coisas recentes, tiradas de vários lugares, vindas de várias fontes. Por isso, pesquisar nesse arquivo é algo complicado. Na verdade, acho que só eu mesmo hoje em dia consigo pesquisar nele, porque eu sei mais ou menos a história de tudo que está lá.

AV: Qual é o seu próximo projeto? O que vai envolver de pesquisa?

JC: Eu gostei do mundo digital muito cedo. Fiz um CD-ROM de História do Brasil em 1995, que era CD-ROM associado a site. A World Wide Web é de 1993. Mas, naquela época, eu já percebi que aquilo não era estável. Agora, acho que está começando a estabilizar. Está começando a deixar de ser, como eu dizia, empresas eviscerando, pedaços de coisas. E, enfim, não tem muito mais passado, vamos dizer assim, para eviscerar. Agora, eles vão ter que reconstruir. Por exemplo, o streaming já é a principal fonte de receita da indústria fonográfica. As pessoas agora estão começando a pagar pelo conteúdo – o que antes não faziam, porque pirateavam tudo. A Netflix está começando a produzir, quer dizer, está virando um estúdio. Antes, o cara da internet só passava para frente o conteúdo dos outros. Não produzia seu próprio, nem pagava para produzir.

Falei tudo isso porque, se isso se estabilizar, eu vou fazer tudo na internet, não mais em papel. Embora eu goste muito de escrever livro em papel, a rede estando mais estável torna-se um ambiente interessante para fazer as coisas diretamente dentro dela.

AV: Ah, tem uma noção que as pessoas têm da nuvem, que nada mais é que você colocar suas coisas no computador dos outros. É um jeito meio bobo de falar do computador dos outros, e aí o grau de confiança que você tem depende do grau de confiança que você tem nessas empresas e instituições. Quer dizer, quando colocamos um material na internet, precisamos pensar um pouco sobre a permanência dessas instituições. Não se sabe se daqui cem anos o Google vai existir, se a Amazon, que vende muito espaço de armazenagem, vai existir. Eu espero que, por exemplo, o pessoal do archive.org tenha permanência, porque eles fazem um trabalho importante.

JC: Ao mesmo tempo, o que orginalmente era aberto e colaborativo na rede ainda é o que anda, é o que sustenta ela, a base. As grandes empresas que estão sendo montadas flutuam em cima dessa base. Elas conseguiram achar nichos que dão muito dinheiro e conseguem vender informação classificada por um bom preço, quer dizer, o Google vende a informação de quem faz pesquisa para quem não sabe e está do outro lado querendo anunciar. Essa é a mercadoria dele. Então alguns conseguem fazer isso como mercadoria. Mas a rede ainda está pouco organizada como mercado, ainda é muito faroeste, selvagem.

AV: Agora, um ponto muito legal que você levantou é essa questão da colaboração, do crowdsourcing, que é essa capacidade que a rede traz para as pessoas colaborarem para criar recursos.

JC: Mas, na verdade, se o cara tem capacidade técnica, ele deveria receber. Uma das razões pelas quais eu não faço coisas na rede é que eu não sou rico para trabalhar de graça. Preciso ganhar a vida [risos].

AV: Mas existem mecanismos. Por exemplo, o pessoal do software livre encontrou mecanismos de remunerar o trabalho. O produto final é compartilhado livremente, mas você garante o ganha-pão de quem está produzindo.

Isso acontece de muitas maneiras. Tem pessoas que trabalham em empresas que se beneficiam de software livre, aí elas locam aquele funcionário para integrar ou parcialmente contribuir para a comunidade de software livre. Então o cara ganha para fazer o trabalho dele, mas o trabalho dele tem um impacto num software livre que, por sua vez, beneficia a empresa. A própria fundação Mozilla, que faz o Firefox, consegue doações e tem funcionários pagos fazendo o serviço deles. Então tem vários jeitos de se organizar. Uma ferramenta de programação que eu uso muito, voltada para as artes visuais, chamada Processing, é tocada hoje por uma fundação. E aí as pessoas que usam fazem doações – eu mesmo ponho muito pouco lá de doação, mas, como é uma ferramenta que eu uso, eu colaboro. E eles também conseguem doações de instituições que veem sentido nessa ferramenta. Então existem maneiras. Eu não sou muito especialista na questão de financiamento de software livre, mas eu posso dizer que é um ecossistema que tem crescido, então economicamente é possível.

JC: Meu primeiro trabalho foi fazendo enciclopédia físicas… Abacaxi, ábaco, abacate… até Z. Fazer isso profissionalmente é um negócio muito complicado. Porque uma enciclopédia é um conjunto de especialistas e um conjunto de pessoas com capacidade de divulgar o que os especialistas conhecem. Então eu escrevia o verbete de Física, e existia um físico que dizia “isso aqui é bom”, “isso aqui não é”, “isso aqui está certo”… Eu não entendia de Física e escrevia sobre Física, e isso só era possível porque tinha um físico que avalizava tudo. Iniciativas abertas como Wikipédia supõem que você, só porque tem a boa vontade de escrever, faz sem o físico. Não faz.

AV: Mas você pressupõe também que o físico vai olhar e falar “ah, isso aqui está errado” e vai corrigir.

JC: Supõe. Não aparece. Nenhum físico vai fazer isso.

AV: O Wikipédia é polêmico. Algumas validações foram feitas com especialistas, e dizem que a taxa de erros não é tão alta assim.

JC: Se você pegar um verbete “Coca-Cola”, não vai ter crítica à Coca-Cola.

AV: Alguns verbetes são polêmicos. Existe uma guerra de edição. Eles tentam evitar muito as polêmicas através de uma política do ponto de vista neutro.

JC: A certificação é baixa, porque acaba sendo um consenso meio sem pé nem cabeça. Se você pega um país como a França e lê o verbete de História da França, você não entende. Alguém escreve, outro edita, e vira uma maçaroca, e não uma coisa simples, sintética.

AV: Não tem um crivo, mas existem algumas regras – por exemplo, para estar na Wikipédia, precisa ter uma relação com um documento fora da Wikipédia. Você só pode mencionar uma coisa que foi citada numa outra obra publicada.

JC: Por isso que a enciclopédia antiga funcionava, porque era um cara que fazia isso. Na famosa enciclopédia Britannica de 1911, deram a filosofia para o Wittgenstein, e tudo que era relacionado. Aí a coisa toma rumo. Esse tipo de coisa ainda é muito difícil de conseguir dentro da rede. A rede tem muita opinião e pouca autoridade, ou nenhuma autoridade – o que é bom para a diversidade, mas não é bom para guiar.

AV: Agora está tendo outra guerra complicada, que é a guerra dos publishers das revistas científicas. Está vindo um movimento de open science e da publicação de artigos revisados por pares fora dos sistemas dos grandes publishers. Várias universidades na Alemanha resolveram parar de pagar a Elsevier (a maior editora de literatura médica e científica do mundo) e mudar a negociação de certos journals. Podem contar que nos próximos dez anos vai ter uma grande mudança a respeito disso.

JC: É, vai, mas isso, enfim, é rearrumar a autoridade na área. A autoridade de curador.

AV: E os fluxos de dinheiro e de funcionamento também.

JC: Sim, mas os fluxos seguem o que tem autoridade. Ninguém faz fluxo de dinheiro para onde não há autoridade.

AV: Mas eu acho que o Elsevier, no fundo, não tem autoridade. É aí que está. A autoridade está nos autores, não nesses intermediários. Eu acho que é por isso que eles vão morrer.

JC: Não é assim. Um dos problemas centrais da rede é o seguinte. Quando eu comecei a trabalhar em mídia, quarenta anos atrás, a autoridade da mídia vinha do fato de que muito pouca coisa passava pela máquina de imprimir. Para você fazer a revista Veja, existia uma máquina gigantesca que imprimia 400 mil vezes em três horas e ninguém mais conseguia fazer uma coisa naquela velocidade e espalhar tão depressa. Então, o cara que aparecia noticiado lá, aparecia como notícia para muita gente, e era o único que emitia opinião a respeito de um assunto qualquer – um médico, um artista, um político, o que fosse, dependendo da seção da revista. Aí o entrevistado falava umas frases e ficava famoso no Brasil inteiro. Na internet, todo mundo é emissor e todo mundo é leitor. No Facebook, qualquer pessoa emite sua “honesta opinião” a respeito de qualquer assunto, em geral sem se saber se é verdadeiro ou falso, e as pessoas leem. A sensação de virar emissor é universal. OK. E fica a questão de que aquele grupo, que era um conjunto de grandes autoridades –

AV: O gatekeeper, né?

JC: Isso está desaparecendo na internet – ou melhor, virou o Google ou o algoritmo, que é uma autoridade fake. Qual era a função do cara que tinha o juízo de autoridade? Era apontar o dedo, dizer “esta ópera é boa”, aí todo mundo ia na ópera, ou “essa ópera é ruim”, e ninguém ia naquela ópera. Esse cara era um representante, não eleito, de uma opinião média. Esse poder de fazer isso está desaparecendo na internet. É um poder que está sub judice na internet. E se ele desaparecer, aí não vamos mais saber o que é besteira e o que não é.

AV: Mas você ainda tem os grandes influenciadores. Eles são escolhidos de uma maneira diferente.

JC: O grande influenciador não tem autoridade. O maior influenciador na internet se chama Whindersson Nunes. Essa é a grande autoridade que diz o que é bom e o que não é no Brasil hoje. Ele tem 15 milhões de seguidores, que é muito mais do que qualquer emissora de televisão tem, e ele é um ser humano comum, que não diz nada, e comprou um avião. Essa é a nova autoridade. O cara que morreu da Academia vai ser substituído não por uma coisa melhor, mas por alguém que representa a massa de gente que o país tem, a opinião média, e isso não quer dizer que essa pessoa tenha efetivamente autoridade em qualquer área – afora, no caso, a da comunicabilidade. Isso vem no bolo da internet, onde todo mundo emite e todo mundo consome. A internet é como se fosse todo mundo entrando na máquina da Veja e publicando suas palavras. O problema é: quem diz qual palavra presta? Esse problema não vai ser resolvido por consenso.

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Névoas densas envolvem o que às vezes supomos claro. Dois equívocos e um enigma intitulam o presente artigo. O primeiro equívoco é imaginar que o termo tupi-guarani “Pindorama” seja o nome que precedeu o terceiro escolhido pelos portugueses para a terra cuja descoberta os lusitanos reivindicam apesar das evidências de que navegadores de outras nacionalidades estiveram aqui antes de Cabral.

O equívoco consiste na suposição de que todos os habitantes desnudos que os portugueses aqui encontraram em 1500 falavam tupi-guarani. Chestimir Loukotka, em Línguas indígenas do Brasil (Revista do Arquivo Municipal, v. 54, 1939, São Paulo), reconhece 237 línguas nas terras descobertas por Cabral, enquanto Aryon Dall’Igna Rodrigues, em Línguas brasileiras (Loyola, São Paulo, 1986), estima que fossem mais de trezentas, das quais 170 ainda estão vivas. Considerando as distâncias que separavam as tribos do Oiapoque ao Chui, as guerras frequentes e as animosidades ancestrais, é fácil concluir que, afora os falantes de tupi-guarani, centenas de outras etnias provavelmente ignoravam o termo Pindorama e chamavam a sua terra por nomes em suas próprias línguas.

O segundo equívoco é um desdobramento do primeiro e consiste em se referir aos índios supondo uma unidade étnica e/ou cultural. Estima-se em mais de duas centenas as etnias que aqui viviam em 1500. Quando se fala em cultura indígena, é preciso primeiro perguntar a qual delas se está referindo e, em seguida, é preciso indagar como se demonstra a unidade que o singular na expressão supõe, pois evidente é a diversidade que havia então e ainda hoje remanesce.

Sobre os dois equívocos impera uma suposição igualmente equivocada quando se atribui aos índios em 1500 a posse do território que hoje chamamos de Brasil. Em suas cartas, Américo Vespúcio menciona a inexistência do sentimento de posse da terra entre os aborígenes. Além disso, as tribos deslocavam-se em virtude do esgotamento do solo, devido à coivara, e também em decorrência das guerras.

Outro equívoco espantoso é a fantasia edênica que vicejou no imaginário Europeu desde os relatos dos primeiros viajantes e que persiste ainda hoje, apesar dos fatos evidenciarem a falácia da projeção. Antes da chegada de Cabral, em torno de um milhão de ferozes Tupinambá espalharam terror desde a foz do Amazonas até a Lagoa dos Patos, matando e expulsando para o interior os índios das tribos que antes viviam na costa. Consolidada a sua supremacia, deram início a guerras entre eles próprios. “A prática da antropofagia ou canibalismo entre os Tupinambá estava associada diretamente com a intensificação da guerra intestina e fratricida”. (Os índios e o Brasil, Mércio Pereira Gomes, ed. Contexto, São Paulo, 2012).

Quando Américo Vespúcio indagou a razão de estarem constantemente em guerra, descobriu que os índios não sabiam explicar e respondiam dizendo “os índios das outras tribos devem ter feito alguma coisa ruim para os nossos pais”. Cabral não imaginava a sorte que teve ao aportar em Porto Seguro, onde viviam Tupiniquins pacíficos e amistosos. Iludido pelo relato de Caminha, Vespúcio, em 1501, deixou alguns tripulantes em Cabo Frio enquanto navegava mapeando a região sul. Ao voltar encontrou somente as ossadas churrasqueadas. Portugueses, franceses e holandeses sempre se valeram dos ódios intertribais para estabelecer alianças que assegurassem apoio para se fixarem aqui.

Quem pacificou o convívio entre as diferentes tribos (um esforço de séculos) foram os portugueses, com decisiva contribuição dos padres. No século XVIII, os Mundurucus, caçadores de cabeças que, após a degola, as miniaturizavam retirando o crânio e fervendo a pele, aterrorizavam as tribos do baixo Amazonas, e muitos índios fugiam para Belém buscando proteção. Ali, portugueses salvaram índios ameaçados por índios. O termo então usado pelos Mundurucus para designar outros índios era a mesma palavra que designava “caça”. Só a persistente catequese dos padres durante gerações conseguiu convencer os Mundurucus a abandonar o hábito de caçar cabeças. O convívio entre as diferentes tribos nessas plagas abaixo do Equador não diferia muito das guerras e morticínios que incendiavam a Europa, a África e a Ásia. O idílico paraíso tropical povoado por “bons selvagens” só existia na cabeça de alguns intelectuais europeus cuja quimera idealizada persiste crível para alguns intelectuais contemporâneos que rápido “esqueceram” a capa da revista Veja que estampou a ferocidade na face de um estuprador. Para salvar a idealização, o “politicamente correto” apagou da memória nacional a barbárie do crime cobrindo-o com um manto pétreo de silêncio. O estuprador era índio e a vítima, uma professora brasileira.

De seres humanos são constituídos todos os povos. Em lugar de idealizar ou demonizar (erros equivalentes), melhor lembrar um velho ensinamento budista: “Na natureza não há o melhor nem o pior. Os ramos primaveris crescem, uns longos outros curtos”. Em todas as culturas e comunidades humanas há pessoas admiráveis e criminosos perigosos. Entre os indígenas não é diferente.

Vamos agora ao enigma que acompanha os dois equívocos no título do presente artigo. Brasileiros. O que significa isso? Santo Agostinho dizia que, se não lhe perguntassem o que era o tempo, ele sabia. Quando perguntavam, ele já não sabia. Algo semelhante acontece com o brasileiro. Se não nos perguntam, julgamos saber o que é. Quando nos indagam como é o brasileiro, descobrimos que estamos diante de um território nebuloso. No presente artigo vamos nos ater ao enigma apenas no que diz respeito ao segundo equívoco, isto é, índios e o brasileiro.

Todo brasileiro traz em si um pouco de índio. Em caso de dúvida basta ler a narrativa a seguir. “Ao entrar numa biboca em Ipanema, ele ouviu ‘Oi’. Pensou, será uma arapuca? Quem o chamava fedia como gambá, mas ele riu ao ver que era o xará que andava capenga. Pediram abacaxi, caju e pipoca. Conversaram só lengalenga, mas não ficaram de nhenhenhém”. Todos os substantivos, adjetivos e a interjeição “oi” são termos tupi-guarani, do que talvez nem suspeitassem a estonteante garota que passava e o poeta embevecido que lhe cantarolou um samba que ainda hoje encanta onde o cantem mundo afora. Quem entendeu a breve narrativa, seja brasileiro filho de alemão, italiano, japonês, espanhol, português, polonês ou zulu, também tem um pouco de índio, pois “a linguagem é a casa do Ser. Em sua habitação mora o homem”. (Sobre o Humanismo, Martin Heidegger, Tempo Brasileiro, 1967). Palavras não apenas designam coisas, elas constituem o mundo atribuindo-lhe sentido.

Observemos a toponímia brasileira e veremos que os índios batizaram nossos rios, vales e montanhas, nossas praias, frutas, peixes, árvores, pássaros. O poeta que no exílio cantou a saudade de sua terra escolheu o sabiá para cantar a sua dor. Há mais de índio no brasileiro do que ele o sabe. As jovens que nas nossas praias prodigalizam aos olhos embevecidos a majestade de sua anatomia são herdeiras esquecidas de quem as precedeu.

“Ali andavam entre eles, três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas abaixo; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as olharmos muito bem não tínhamos nenhuma vergonha”. (Carta de Pero Vaz de Caminha, O Brasil de Américo Vespúcio, Ricardo Fontana, UNB, 1994, pág. 202.)

O erotismo que marca a cultura brasileira não veio de além-mar; ao contrário, cativou quem de lá veio. Por que dois grumetes de madrugada fugiram da caravela cabralina para se esconder na mata e ficar no Brasil? O ferro em brasa da paixão até hoje converte neófitos gringos à suave e doce malemolência das redes onde a sobrevivência da raça mestiçada é assegurada entre risos e cochichos, seja dia ou seja noite. Os índios do lado de baixo do Equador desconheciam o “pecado”, essa criação das religiões abraâmicas. Desde os portugueses temerosos da Inquisição, quem não vem do Oriente sempre traz na bagagem da alma os seus pecados. Quando escolhem ficar, é porque aqui se descobrem liberados. Assim foi desde 1500, assim será enquanto ainda viver em nós o índio que também somos.

“São pouco ciumentos mas sumamente libidinosos, mais as mulheres que os homens: julgamos que devemos aqui calar, por pudor, os artifícios delas para satisfazer sua libido insaciável.” (Américo Vespúcio, in Novo mundo, Eduardo Bueno, Ed. Planeta, São Paulo, 2003, pag.74.)

Nós, brasileiros, ainda não sabemos quem somos. Quando o enigma for resolvido, no prato cozido em fogo baixo rescenderá um sabor que vem de ocas ancestrais nas quais ainda hoje crepita o lume em torno do qual famílias se reúnem. A fumaça atravessa a palha que recobre a morada e sobe ao céu, livre de chaminés. Isolados, arredios, ou mesmo nas reservas indígenas, ainda há muitos que não falam português, não sabem o que é Brasil, nem imaginam que ajudaram a formar os brasileiros.

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Mulher Africana (1641), de Albert Eckhout

A palavra que designa atualmente o país é de origem ocidental. A versão mais antiga que se conhece de “Brasil” aparece num mapa de 1367.  Eram os tempos em que os vikings tinham bases em várias áreas celtas (Irlanda, por exemplo) e dali se aventuravam para o Ocidente pelo mar incógnito. Por isso, não é de se estranhar que o vocábulo “O’Brazil”, que em celta significa “Ilha Afortunada”, aparecesse no mapa para nomear uma das várias ilhas que existiriam a oeste do continente europeu, em pleno Atlântico. Eram tempos nos quais a vida dos deuses e dos homens se misturavam, de modo que os mapas também registravam ilhas como Atlântida.

A separação entre deuses e homens nos mundos material e espiritual, que conhecemos hoje como apanágio da civilização ocidental, começou a ser construída em Portugal. Para possibilitar a navegação oceânica regular foi preciso separar a astronomia da astrologia, a química da alquimia, a física da metafísica – o relato de viagens da narrativa fantástica, a religião da ciência.

Como o objetivo era navegar, o conhecimento livresco era revisto a partir do resultado de cada viagem. Dessa forma, o “Tratado da Esfera”, obra do século 14, de João de Sacrobosco, foi sendo atualizado  a cada navegação. Começou como guia das projeções astrológicas da esfera terrestre sobre a terra plana e acabou como a representação de globo terrestre. Não à toa, Adam Smith considerava a criação da navegação oceânica “a maior descoberta da humanidade”.

A projeção da palavra celta sobre um território incerto seguiu o mesmo processo – tendo como contraponto a própria Bíblia. Os europeus que vieram a bater no Brasil viviam um momento delicado. Haviam saído  de um continente onde a fome e as pestes eram constantes, a morte, um fantasma permanente — e os sonhos da mitologia bíblica do paraíso, a maior esperança para um futuro numa outra vida.

Para gente tão amarga, a chegada a um lugar onde a luz era exuberante o verde das matas permanente, a comida farta e o clima ameno lembrava uma descrição: a do paraíso no livro bíblico do Gênesis. Ali se falava que Deus, ao criar Adão, o tinha colocado num horto “da banda do Oriente”; que ali, por toda parte, havia plantas agradáveis à vista e boas para comida; que neste horto havia um lago, do qual saíam quatro grandes rios; que ali havia ouro e pedras preciosas em abundância.

A visão da natureza tropical, somada à de índios que pareciam viver no mais perfeito estado de inocência, coincidia perfeitamente com as muitas discussões escolásticas medievais, nas quais padres e ocultistas debatiam os trechos da Bíblia, procurando situar o lugar do paraíso na Terra. O próprio Cristóvão Colombo, grande leitor desses textos, foi um dos que acreditou piamente ter chegado ao Paraíso: 

“Creio que, se passando pela linha equinocial, e ali chegando, lá está o Paraíso Terrestre”.

Como ele, muitos dos primeiros aventureiros que andaram pela América correram atrás desse lugar mítico. Dois eram os maiores objetos de buscas: a árvore da vida, que daria todo o conhecimento e vida eterna a quem colhesse seus frutos, e uma cidade inteiramente feita de palácios cravejados com pedras preciosas. Na primeira vertente, mais espiritual, andou o espanhol Juan Ponce de Léon; na segunda, mais terrena, Francisco de Orellana.

Descrita numa série de textos medievais, a árvore deveria estar plantada bem no meio do Jardim das Delícias. Os anjos, tendo à frente os querubins, a defenderiam do acesso dos mortais. Para se chegar até ela, era preciso guiar-se pelo clima: nem frio nem quente, ameno o ano inteiro. E, se os homens não conseguissem vê-la, não importava. Ao menos poderiam tomar a água da fonte que nascia a seu pé e que garantiria a eterna juventude. Ponce de Léon procurou essa árvore onde hoje está a Flórida, mas morreu antes de encontrá-la.

A segunda versão do Paraíso terrestre falava de um lugar mágico logo atrás de uma região de terras fertilíssimas e árvores sempre cheias de frutos, rios de ouro, palácios de ouro e prata cimentados por pedras preciosas: jaspe, safiras, esmeraldas, jacintos, topázios… Nos muros desses palácios, resplandecentes como o sol, havia doze portas, cada uma de uma gema. Torres de cristal, com laços de ouro puríssimo, completariam a visão. E, para se chegar até lá, caminhava-se por ruas também revestidas de ouro.

Tal cidade deveria estar num lago chamado Eldorado, no centro do continente do Paraíso. Francisco de Orellana não conseguiu encontrar o lago quando desceu o Amazonas, mas o relato de sua viagem deu a muitos a certeza de que estaria no interior do Brasil — e dele nasceriam o Prata e o Amazonas. Até o século 17 foram feitos centenas de mapas nos quais este lago e a cidade de Eldorado aparecem na região hoje chamada Pantanal, que fica exatamente no centro do continente e em torno da qual partem rios da bacia do Prata e Amazonas.

A passagem do registro mítico para o realista foi complexa — e durante esse tempo a cultura portuguesa foi perdendo sua característica única de pioneira do processo de separação. O primeiro livro intitulado “História do Brasil”, publicado em 1627 pelo Frei Vicente do Salvador, começa descrevendo um confronto entre uma designação metafísica, “Terra de Santa Cruz”, e outra, “Brasil” — esta já não mais empregada no sentido mítico celta, mas em sua materialidade comercial corrente na terra, da seguinte forma:

“O capitão Pedro Álvares Cabral pôs nome à descoberta de Terra de Santa Cruz e por esse nome foi conhecida por muitos. Porém, como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio que tinha sobre os homens, receando perder o muito que tinha sobre os desta terra, trabalhou para que se esquecesse o primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau de mesmo nome de cor abrasada, e vermelha, com o qual se tingem panos, do qual há muitos nesta terra, com o que importava mais um pau que tingem panos que o daquele pau que deu tinta e virtude a todos os sacramentos.”

O processo de pensamento já era o inverso daquele que permitiu as navegações: em vez de afirmar a física e separá-la da metafísica, afirmava a verdade do livro divino contra a realidade humana da qual fazia a história — e contava como pecado ou derivação para além do mundo religioso a vida e a obra real dos que por aquela terra passavam.

Paradoxalmente, o modo original português de privilegiar a observação real, mesmo quando isso significava contrariar crenças metafísicas, foi inaugurada como representação de “Brasil” pouco mais de uma década depois do livro de Frei Vicente do Salvador — por um holandês, o pintor Albert Eckhout, que desembarcou no Brasil em setembro de 1637, na comitiva do príncipe Maurício de Nassau.

Eckhout era apenas um dos vários pintores, inicialmente de menor importância. Começou como auxiliar dos naturalistas Piso e Marcgraf, desenhando em pequenos cadernos os animais e espécimes vegetais que os dois descreviam. Mas aproveitou os intervalos para ir registrando também as pessoas, dos índios aos nobres. Sua habilidade acabou sendo reconhecida e ele ganhou do príncipe encomendas de maior escala.

Embora não haja total certeza a respeito, existe boa possibilidade de que ele tenha recebido de Nassau a incumbência de pintar telas monumentais para a decoração de um salão no palácio que o príncipe construía em Recife, por volta de 1643.

As pinturas foram terminadas na Europa e organizadas como uma tetrarquia: quatro casais de pessoas em quatro estágios de civilização, indo dos povos mais brutos aos mestiços mais civilizados. Assim, fez mais que os primeiros grandes retratos de pessoas vivendo no Brasil: criou uma chave de interpretação para ilustrar uma civilização — que nasceria do casamento entre pessoas de origem étnica diversa.

Um dos casais é formado pelo par intitulado “Homem Brasileiro” e “Mulher Brasileira”. Este é um dos mais antigos registros que se conhece do gentílico “brasileiro”, cuidadosamente evitado pelos portugueses para impedir a disseminação de uma consciência própria na colônia. Ele mostra um casal de índios de aldeamento, talvez miscigenado. Está um ponto abaixo do casal mais ocidentalizado, composto pelas telas “Mulato” e “Mameluca” — filhos do cruzamento de raças que seria próprio do Brasil.

Estavam formados assim os dois grandes paradigmas analíticos a partir dos quais até hoje se constroem as interpretações da vida no território. De um lado, um intérprete que, mesmo na terra, se identifica com o europeu exilado em território estranho e fala como alguém que tenta impor essa civilização a bárbaros. Do outro, alguém que interpreta os fenômenos locais a partir de sua especificidade, empregando a diferença em relação ao caso geral europeu para entender aquilo que há de próprio nela.

A primeira forma marcará o pensamento de uma elite que se define por contraste da massa que seria incivilizada, cujo protótipo arquetípico é a imagem do ocidental como “caranguejo que arranha o litoral”, criada pelo Frei Vicente do Salvador. No período colonial, o discurso característico era aquele da autoridade metropolitana em sua luta para se impor ao barbarismo dos coloniais. No Império, aquele do homem próximo à coroa civilizadora e distante do súdito não europeu, interesseiro e mercantil. Na República, aquele do detentor de conhecimento técnico que se distingue do cidadão ignorante.

A segunda forma de entendimento marcará entrada nos textos de intelectuais apenas muito mais tarde, pela altura da independência. Seu arquétipo é a frase de José Bonifácio de Andrada e Silva, que define a missão nacional brasileira da seguinte forma, em 1823:

“É tempo também que vamos acabando gradualmente com todos os vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes. É da maior importância ir acabando com tanta heterogeneidade física e civil. Cuidemos, desde já, em combinar sabiamente tantos elementos discordes, em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo e compacto.”

Esta atitude interpretativa de “Brasil”, em vez de separar o autor do narrado em planos que não se tocam, exige colocar num mesmo plano o sujeito que analisa e o objeto que está sendo analisado — que já teria algo próprio de ambos numa unidade nova que seria a nação. Essa nação não seria mais parte do mundo ocidental metafísico, mas variante real na qual se constrói um todo capaz de lhe dar substância. Do ponto de vista intelectual, traz um grande desafio. Ao contrário do caranguejo, que é simples, fechado em si, o vira-lata é complexo, pois a unidade no termo vem do múltiplo autor/objeto.

Jorge Caldeira é o editor convidado da edição Delírio Tropical

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Há alguns anos Gabriela Machado encontrou um novo espaço criativo em sua vida. Ao lado da pintura — ofício que vive intensamente na beleza bucólica de seu ateliê — ela elegeu a música como outro cerne de sua relação com a arte. Mas não é qualquer música. É o samba, e mais especificamente o samba que emana da batida do pandeiro, que, assim como as tintas nas telas em branco, espalha sua vida rumo ao mar do prazer estético. É nas rodas de samba, na sua prática comunitária, democrática, sem hierarquias e organizada apenas pelo intuito da alegria sonora, que Gabriela passa seus dias quando não está pintando ou vivendo o lado cotidiano de sua vida

Lembremos que o samba e as artes visuais sempre foram parceiros felizes no Brasil. De Heitor dos Prazeres e Di Cavalcanti a Hélio Oiticica e Carlos Vergara, esse diálogo criativo resultou em belos momentos. No caso de Gabriela, o samba impregnou seu olhar para o mundo, batizou suas telas com nomes de cabrochas, lhe mostrou as gingas e as filosofias de vida que só os sambistas atingem em formato sublime e, ao mesmo tempo, popular. A beleza de Cartola ou Guilherme de Brito, a crueza de Nelson Cavaquinho ou a assertividade de Candeia entraram em sua vida e vazaram, em todos os sentidos, nas suas tintas.

A relação estreita entre música e pintura se torna óbvia quando evocamos uma palavra em comum para ambas: ritmo. O ritmo da música e o ritmo da pintura são elementos fundamentais em qualquer composição. Ambos nos remetem a jogos temporais e espaciais em que a dinâmica ou a cor regem contrastes entre cheios e vazios, entre lento e veloz, entre claro e escuro, entre dobras e recuos. Músicas e pinturas são arranjos cuidadosos de ocupação de espaços — sejam sonoros, sejam pictóricos.

Uma das primeiras apropriações que podemos fazer da pintura abstrata de Gabriela diz respeito ao seu ritmo de cores e à sutil observação do caminho que elas seguem, esparramadas em telas de tamanhos variados. Em seus amplos fundos brancos, as cores ditam o ritmo do olhar como partituras dessa música silenciosa e, contraditoriamente, explosiva.

Essa explosão sincopada e essa abundância de cor em um espaço limpo e equilibrado são movimentos que fornecem a base para sua Força Bruta. E aqui esqueçamos todos os sentidos negativos ligados à derivação de uma brutalidade. No trabalho de Gabriela, Bruta é a matéria cor em sua plena potência física e poética. Bruta é a força que nos move quase inconscientemente para um mundo onírico, de puro prazer das formas, em detrimento do circuito opressor diário do real ou do documento. Como na roda de samba, entramos na pintura de Gabriela sem saber a que horas vamos sair, pois são espaços cujos regimes são os do prazer. É esse o Bruto que toma os sentidos e nos arremessa para uma zona em que cada um de nós pode se desarmar dos lugares comuns e inventar novas narrativas sobre a vida e as cores.

Espalhada, orgânica, em movimento, a ocupação do espaço em suas telas pode, quem sabe, parecer gratuita na sua sinuosidade sensual. Não atravessemos o samba. Essa ocupação é, ao contrário, fruto de uma relação íntima e delicada de Gabriela com o seu ofício. Suas pinturas nos apresentam os meandros do embate diário do pintor com cores, pigmentos, óleos, resinas e texturas. Na composição aberta, espontânea, em progresso, suas cores não competem, se abraçam. Aos poucos as formas dão as mãos e se reinventam no lento caminho da mistura.

Em um trabalho paciente, a pintora aplica camadas de cor em suas telas e as deixa repousar em pleno processo de entrosamento. Assim, as grandes manchas de cor ganham intensidades diferentes a cada operação. Aquilo que parece ser traços velozes é, na verdade, caminhos da cor maturados com a calma de um fim de tarde.

No atual contexto da pintura brasileira, Gabriela Machado traz em seu trabalho uma afirmação da abstração em contraponto a realismos e perspectivas fotográficas do mundo. Sua abstração, porém, não se fecha em diálogos internos da forma ou silêncios monocromáticos. Suas telas de pura cor em movimento oferecem o frescor de uma narrativa encapsulada, prestes a eclodir em frente aos nossos olhos. Há nos trabalhos e na obra de Gabriela Machado uma alegria incontida de braços dados a uma fruição contemplativa. Alegria e contemplação que nos remetem ao prazer da pintura, ao vitalismo da arte. Talvez resida aí essa força bruta que nos leva a suspender alguns momentos da vida prática para mergulhar em uma exposição de arte. Ou em uma roda de samba.

Frederico Coelho é professor de Literatura na PUC-Rio, escreve ensaios, artigos e textos sobre música, literatura, artes visuais e história cultural brasileira, entre eles o livro Pintura Brasileira Séc. XXI (Cobogó, 2011).

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Alguns registros ancestrais falam sobre a existência de um povo muito antigo no norte europeu que tinha o costume de fazer desenhos definitivos no corpo e que, devido a esse hábito, foi denominado Pictus.

Os Pictus não se tatuavam por vaidade. Acreditavam que aquelas inscrições lhes davam poder e força, e que os desenhos, além de representarem a interconexão de todas as coisas sobre a terra, ficavam impressos na alma para que pudessem ser identificados por seus antepassados após a morte.

A tatuagem sempre existiu como forma de expressão da personalidade ou como marca de pertencimento a um grupo. Os primitivos se tatuavam para marcar os fatos da vida biológica: nascimento, puberdade, reprodução e morte.

Depois, para relatar os acontecimentos sociais: virar guerreiro, sacerdote ou rei, casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois da existência física.


***
Esta matéria é ilustrada com o estudo The Special Signs (os símbolos especiais), da polonesa Katarzyna Mirczak — trabalho composto por pedaços de pele humana tatuados encontrados pelo Departamento de Medicina Legal da Universidade Jagiellonian em Cracóvia, na Polônia.

Mirczak afirma que é muito difícil resistir ao vazio que se sente ao perceber o quão aparente é a realidade. Quando se sai da zona de conforto, é difícil regressar e fingir que nada aconteceu.

Katarzyna Mirczak recorreu a ambas, arqueologia e fotografia, para criar o estudo. Camada por camada, o projeto despe nossa percepção, colocando-nos frente a um objeto fechado, preservado, muitas vezes de maneira rudimentar, mas sempre com um impacto cínico e inegável. Propositalmente, Mirczak deu uma estética adocicada ao trabalho, cujas cores cativam e seduzem o espectador até que este perceba do que se trata realmente. Jogando com o contraste entre o que é visto e o que é compreendido, a artista levanta questões emocionais, provoca uma sensação de impotência e, depois, abandona o espectador — para que lide, sozinho, com as emoções.

As peças não são acompanhadas de explicações ou descrições. Não há o histórico da coleção, tampouco meios de decifrar o inevitável significado das tatuagens. Mirczak introduz um novo espaço e nos deixa lá.

Henrique Fogaça, chefe e proprietário do Sal Gastronomia, vocalista da banda de hardcore Oitão, pai de Olivia e João.

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Aos sete anos de idade, lembro de ter tido uma briga muito séria com a freira que me dava aula de religião. Eu havia questionado como ela podia me dizer que Deus existia sem me apresentar provas. Dizia ela que era um dogma e que eu tinha que acreditar, mas isso não era suficiente para mim. Vejo que minha inquietude veio de muito pequena. Como uma eterna estudante, me achava apaixonada pelo conhecimento. Hoje sei que sou apaixonada pela liberdade. Porque é o conhecimento que nos dá a liberdade. Eu me considero agnóstica, cada vez mais, e com certeza minha busca, como pesquisadora e professora, é entender como funcionamos.

A neurociência hoje nos comprova, em pleno século XXI, uma série de conhecimentos que a filosofia já sabia, ou já dizia centenas de anos antes a respeito de como funcionamos. Platão já sabia que nossa percepção não acessava a realidade. Aristóteles já sabia que nossa memória era falível, como impressões na cera, maleáveis. Ambos estavam corretos: não percebemos o mundo como ele é, e nossa memória é formatável e reformatável. Nosso cérebro é plástico e, de alguma maneira, se adapta às coisas, se transforma de acordo com o que fazemos, alterando também o mundo.

Um exemplo de como nosso comportamento vem se transformando é a tecnologia. Tecnologia é uma palavra que pode ser aplicada tanto a uma ferramenta (a roda, por exemplo) como aos óculos de realidade virtual. A escrita é uma tecnologia. Quando ela foi inventada nos vingamos da morte, pois, diferentemente da comunicação oral, passada de geração a geração linearmente, a escrita nos deu a possibilidade de deixar nosso registro no mundo. Toda a nossa produção — nosso conhecimento, nossa cultura — passou a não ser necessariamente transmitida de geração a geração, e, embora possa ser esquecida por muitas gerações, também pode ser reencontrada centenas ou milhares de anos depois.

Quando a escrita surgiu, muitas pessoas se revoltaram dizendo que aquilo não era bom, que íamos deixar a fala, que a oralidade iria se perder — mas não a perdemos. Na verdade, a escrita é como uma variação da fala e envolve circuito neural similar. Usamos a memória em ambas, e nosso cérebro hoje é muito pouco diferente dos cérebros anteriores à escrita. Não acontecem grandes modificações cerebrais quando ocorrem essas mudanças e, biologicamente, nossa essência muda muito pouco — nossos impulsos e desejos sexuais são iguais há 200 mil anos. Quando surgiu, por exemplo, a agenda do celular, as pessoas também começaram a falar que seria péssimo, que atrapalharia nossa memória, que não saberíamos mais os números das pessoas, mas, na verdade, ao gravarmos os números, simplesmente não precisamos usar nossa memória para isso, podendo usá-la para outras coisas.

Assim, a tecnologia não veio para atrapalhar, embora tenhamos uma dificuldade muito grande de aceitar essas mudanças quando elas surgem. Precisamos passar por todos esses processos, agora, com a internet, assim como passamos com a escrita, com o cinema, com a TV, com o celular. Num futuro muito próximo, passaremos com as realidades virtuais e aumentadas. O que influencia nosso comportamento é o ambiente. Quando existe uma adaptação a esse ambiente, agimos de acordo com ele. Precisamos adaptar, saber incorporar beneficamente e, por isso, não é uma bobagem discutir se a realidade virtual irá enfraquecer nosso cérebro ou não, e é a filosofia — de novo — que nos diz isso.

Existe um problema ético muito grande com todas essas invenções, porque elas trazem benefícios enormes, mas também podem causar problemas. Tanto a realidade virtual como a realidade aumentada nos trazem a possibilidade de tratamentos clínicos que são de grande valor e que podem melhorar a vida de muita gente. Transtorno do stress pós-traumático e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) são dois tipos de transtornos que podem ser tratados com seu auxílio, diminuindo o sofrimento do paciente. Outro exemplo são os óculos de realidade aumentada que vêm sendo desenvolvidos para auxiliar no tratamento de autismo, a fim de permitir que os pacientes treinem sua sociabilidade. Com a realidade aumentada, é possível se preparar para a situação real. Assim, de alguma forma, o cérebro do paciente pode até mudar.

As realidades aumentadas também podem ser usadas para treinamento de habilidades emocionais, o que, na verdade, todos nós precisamos, dado que nosso cérebro se encontra quase igual ao que era há milhares de anos, quando nos relacionávamos em grupos de 50, 70, no máximo 150 pessoas. Hoje, em ambientes urbanos, nos relacionamos com centenas de pessoas, fora os relacionamentos virtuais.

Junto com todas essas benesses, no entanto, podem existir problemas — que, na verdade, são sempre os mesmos, só mudam de plataforma. Quando vamos a uma festa, podemos invariavelmente encontrar uma pessoa de quem não gostamos e, se não nos controlarmos, podemos ter uma atitude impulsiva ou agressiva. Nas redes sociais — Facebook, Twitter, entre outras — também precisamos ter esse controle. A empatia é mais fácil quando estamos cara a cara, diante da pessoa, e então nos controlamos. Quando estamos separados por uma tela de celular ou de computador, isso fica mais complicado.

Quando o telefone foi inventado, também existiu uma fase de adaptação muito grande por causa da perda de contato visual. Grande parte do nosso feedback é visual, e quando falamos ao telefone, perdemos parte disso, mesmo ainda tendo a voz. Em uma plataforma onde só existe a escrita, perde-se muito mais. É mais difícil sermos mediados pela escrita. É só observar como as pessoas se agridem no ambiente virtual. É uma questão psicológica e fisiológica, e é por isso que hoje se fala muito de treinamento empático, comunicação não violenta, treinamento de habilidades socioemocionais. O cuidado que devemos ter reside na consciência de que não temos o feedback do olhar nem da escuta e, portanto, precisamos nos adaptar, controlar nossos impulsos agressivos, pois esse tipo de comunicação veio para ficar.

Creio que, com o excesso de informação vindo da internet, o maior desafio do nosso tempo é educar nossos filhos. É difícil chegar a um meio-termo: não podemos deixar que eles fiquem no mundo virtual por muito tempo, mas também não podemos proibir que tenham contato com esse mundo. E aí existe um outro problema. A tecnologia é muito mais sedutora, e as crianças podem aprender muito mais com ela do que nas escolas, que estão muito distantes disso tudo. Os métodos educacionais que existem hoje ainda são iguais aos do século XIX. As escolas precisam se adaptar a essa nova realidade e, inclusive, rever todo o sistema educacional, porque ele simplesmente não funciona mais.

Com a internet, pelo menos no jornalismo, deveríamos ser muito menos manipulados ao receber informações do que éramos pela TV, quando existiam poucos canais e éramos controlados muito mais facilmente. Isso é muito mais difícil com a internet, pois o acesso à informação é infinitamente maior, mas ao mesmo tempo é preciso conhecimento para saber como buscar e filtrar esse mundo de informações. No final, sempre caímos na educação.

A nossa cultura evolui no sentido positivo, e muito mais rapidamente que a nossa evolução biológica. Já melhoramos bastante — eu, por exemplo, não gostaria de ter nascido na Idade Média —, mas precisamos tomar cuidado para continuar fazendo essas adaptações com qualidade e consciência. Precisamos, cada vez mais, nos preocupar com o todo, porque a nossa espécie é perigosa: já destruímos muita vida no planeta. Talvez agora seja o momento de perceber — e a internet pode ajudar muito — que precisamos nos preocupar com quem está do nosso lado, e com a sociedade como um todo. É uma busca por tentar entender e respeitar o outro, mesmo que você não compreenda ou não compartilhe do seu pensamento. É, enfim, uma busca pela ética. A internet é muito nova, as redes sociais são muito novas. Talvez estejamos só passando por um movimento de “novidade”, onde muitas coisas aparecem e tomam forma, e precisamos nos adaptar a elas.

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No dia 9 de novembro de 2016, algo impensável até pouco tempo antes aconteceu. Donald Trump foi eleito o 45º presidente dos Estados Unidos. Este 9/11 foi considerado por muitos a maior tragédia americana desde o 11/9, quinze anos antes. Choque. Como uma nação tão “desenvolvida” pôde ter escolhido como seu líder alguém com valores tão ultrapassados? Com uma campanha marcada por extremos de xenofobia, nacionalismo, racismo e misoginia? Para muita gente, a eleição de Trump simboliza que o mundo está andando para trás. Que há uma guinada conservadora vindo com força total. Ou que chegamos ao fundo do poço. Será mesmo? Será que o fenômeno Trump não pode ser visto como o canto do cisne de uma minoria da população americana que não quer se adaptar à realidade do século XXI?

A expressão “o canto do cisne” é uma metáfora que se refere geralmente à última tentativa de fazer algo grandioso por parte de uma pessoa antes de sua morte. Dizia uma antiga lenda que o cisne branco passava a vida emitindo barulhos sem graça e só quando percebia a morte chegando cantava algo digno de nota. Não terá sido a eleição de Trump uma última chance de fazer barulho — antes de morrer — de uma minoria xenófoba, nacionalista, racista e misógina?

Mas, espera um pouco, como assim minoria? Ele não foi eleito pela maioria da população americana? Bem, Trump teve 63 milhões de votos. Hillary teve 66 milhões, o mesmo que Obama em 2012. Mas Trump ganhou nos estados decisivos para o colégio eleitoral americano, por isso foi eleito. Só esse dado já mostra que ele não foi escolhido pela maioria. Mas dá para ir além. Os Estados Unidos têm uma população de 320 milhões de pessoas. Portanto, Trump recebeu apoio de 20% dos americanos. Vinte por cento!

Ou seja, apenas um em cada cinco americanos demonstrou apoio a Trump com seu voto, mas eles tinham muito mais motivação para ir às urnas do que os 90 milhões de eleitores que decidiram ficar em casa. E o que os motivou tanto? Medo. Insegurança. Desespero. Preconceito. Os eleitores de Trump se iludiram com a ideia do “Make America great again”. Xô, muçulmanos! Vade retro, mexicanos! Lugar de preto é na cadeia, não na presidência, e de mulher é na cozinha, não na Casa Branca.

Ó, Senhor, dai de volta a América para os americanos! Infelizmente, para os trumpistas, a humanidade só anda para frente, apesar dos solavancos pelo caminho.

Não, as mulheres não vão voltar para a cozinha. As mulheres não só estão presentes em massa em todas as universidades, mas agora estão exigindo ser tratadas com o respeito devido — homens que adotam o “grab them by the pussy” não passarão. Em 2016, uma mulher teve um total de votos para presidente maior do que qualquer candidato branco na história, só perdendo para Obama em 2008. Outra é presidente do FMI. São mulheres as CEOs de ícones empresariais como HP, IBM, Yahoo. O abuso contra mulheres no meio empresarial é cada vez menos aceito. A empresa-sensação Uber tem colhido sérios danos à sua imagem pelo modo como trata as mulheres nos seus quadros. Exemplos de abuso no Vale do Silício têm levado a uma contínua reflexão e a ações para minimizar esse tipo de violência. Roger Ailes, fundador da Fox News — a TV americana em grande parte responsável por difundir o pensamento retrógrado por trás da eleição de Trump — foi afastado da empresa após um escândalo de assédio sexual com uma apresentadora. Grandes estrelas da TV estão percebendo que não têm licença para abusar só porque são famosos — Bill Cosby está prestes a ser julgado e provavelmente condenado à prisão.

Outra coisa que faz o cisne cantar: o mundo dos negócios não está colaborando para que as coisas importantes da “América” estejam nas mãos de americanos (de bem). Das três maiores empresas americanas, Google e Microsoft são conduzidas por executivos imigrantes da Índia. E a maior delas, a Apple, tem um CEO assumidamente gay. Oh, Lord! Pior do que isso só mesmo outro ícone do capitalismo americano, a Pepsi, que é comandada por uma mulher indiana…

Falando em ícones, dois dos mais famosos prédios de Nova York, Chrysler Building e The Plaza, estão em mãos estrangeiras. O primeiro é de um fundo de Abu Dhabi. O segundo, que foi comprado por Donald Trump em 1988, já foi repassado por ele para investidores árabes e agora é propriedade de um grupo indiano. Shame on you, Trump, por não ter achado um comprador local! E o que dizer de marcas que são a quintessência do American way of life, como Budweiser, Burger King e Heinz? Estão todas nas mãos atrevidas de um grupo comandado por (argh) brasileiros… O mundo está mesmo de cabeça para baixo. Alguém nos acorde desse pesadelo de ter um negro que nem americano é como presidente? In Trump we Trust.

Mas, afinal, quem é que confia(va) no Trump para ser o leader of the free world? Nem os próprios líderes do partido republicano queriam sua candidatura — e esses mesmos políticos com um mínimo de bom-senso já estão fazendo fortes críticas a Trump nesse início de mandato. As principais cidades americanas, como Nova York, Chicago e San Francisco, estão desafiando as ações de Trump contra os imigrantes e reforçando seu papel de cidades-santuário onde os infiéis estão a salvo das garras da Inquisição Federal.

Quem botou fé e assinou embaixo dos planos sectários de Donald Trump foram as pessoas brancas, mais velhas, menos educadas, das cidades pequenas e áreas rurais dos EUA. E elas precisavam aproveitar essa chance. Era agora ou nunca. Já em 2020, com ou sem muro, a proporção de latinos entre os eleitores crescerá, os mais velhos morrerão, um novo contingente de jovens votará pela primeira vez. Trump dificilmente seria eleito com a população americana de 2020, e dificilmente será reeleito — se chegar até lá. O canto do cisne tem prazo de validade. Então é bom tuitar, digo, cantar bem alto, quanto mais ofensivo melhor.

Ao comentar os inúmeros absurdos ditos por Trump durante a campanha, o republicano de carteirinha Clint Eastwood minimizou seu conteúdo, dizendo algo como “quando eu cresci, falar essas coisas não era considerado racista”. Claro, Clint. Quando você cresceu, existiam escolas, banheiros e ônibus SEPARADOS para brancos e negros. O casamento entre pessoas de “raças” diferentes era PROIBIDO por lei. Se você não evoluiu, Clint, azar o seu. Isso não se chama ditadura do politicamente correto, como você pensa; isso se chama progresso. Olhando the big picture, como dizem por aí, nós estamos evoluindo como raça — a raça humana.

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Sempre me vi como um artista trágico, mas esse é um lugar-comum para quem procura coisas numa cidade que não nega variados níveis de violência. No entanto, conforme avanço nas minhas pesquisas urbanas, me pego desenhando florzinhas.



Essa atividade aparentemente pacata se dá por estudar a cidade do ponto de vista de um naturalista, explorando a paisagem e plantas, que, todos sabem, não têm voz nem olhos, mas se comunicam de forma lenta e sutil com quem tem a disposição de desacelerar-se das rotinas cotidianas.

Engana-se quem imagina uma busca pela harmonia e pelo murmúrio apaziguador. As plantas urbanas, em geral, costumam gritar alto.

Faz dois anos que estou à frente do projeto Cerrado Infinito, um trabalho de arte que consiste em descolonizar a paisagem vegetal da cidade por meio da construção de uma trilha de terra, onde planto, nas suas margens, espécies dos Campos de Piratininga, a paisagem de cerrado onde São Paulo se desenvolveu.

As plantas sobrevivem esparsas pela cidade, encontradas em condições de alta vulnerabilidade, e são coletadas e agrupadas para recriar essa paisagem esquecida. O processo é semanal, contínuo e aberto, feito com a colaboração de uma comunidade de pessoas que se formou ao redor, disposta a ajudar a plantar, semear e pensar por que substituímos 95% da nossa vegetação por espécies estrangeiras.

A descolonização sugerida vai além da dimensão material. Ao criar o local, desenvolvemos relações de intimidade com essas plantas, ressignificando e tomando conhecimento do chão onde vivemos e do processo de desenvolvimento que escolhemos ter.

É uma mudança de percepção que ocorre lentamente e que se torna explícita ao promover piqueniques aleatórios chamados de Descolonization!, onde fazemos associações artísticas, compartilhamos memórias, histórias e culturas mortas, pensando junto a importância do cerrado.

O Cerrado Infinito se torna, então, um processo de subversão do urbanismo que devolve ao território o estado de terreno baldio de onde as plantas vieram, zelando pela sua inutilidade, para que nada mais seja construído ali. Na cidade que não para de acelerar, comandada pela especulação imobiliária, o assunto tem um papel central se quisermos repensar o país.

Exagero? Poderíamos começar pelo básico: sem cerrado não teremos água, mas, como o nome do projeto diz, são assuntos infinitos que não cabem aqui e que são melhor entendidos visitando as plantas, ajudando na terra, tomando sol e batendo papo. Ou simplesmente desenhando flores.

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Desde o início da computação nos anos 1950 e 1960, diversos artistas vêm realizando experimentos com computadores. Foi nessa época que surgiram as primeiras obras de arte computacional pelas mãos de pioneiros como Frieder Nake, Michael Noll e o brasileiro Waldemar Cordeiro.

Recentemente, a arte computacional vem tomando novas formas nas obras de artistas como Casey Reas, Golan Levin, Aaron Koblin e dos brasileiros Jarbas Jácome e Fabrizio Poltronieri, dentre outros. Esses artistas usam o software como material artístico e as linguagens de programação são seu instrumento de trabalho. Enquanto um pintor cria com tela, pincel e tinta, por exemplo, esses artistas produzem arte com software.

A computação e, consequentemente, o software se expandiram, desde seu surgimento, de maneira a permear diversos aspectos das nossas vidas. Até aqueles que não estão incluídos no mundo digital (por diferentes motivos) são influenciados pelo software, mesmo que de maneira indireta, pois ele está presente no funcionamento da sociedade — no governo, na logística da circulação de produtos, nos mercados de ações, no entretenimento, na comunicação e em tantos outros setores. Vivemos no que Lev Manovich chama de Sociedade do Software. Todavia, nossa interação com o software se dá, na maior parte do tempo, nos smartphones e nos computadores por meio de interfaces que escondem o código-fonte. Assim, nos tornamos apertadores de botões dos diversos dispositivos que alguns poucos sabem como programar.

Contudo, diversos pesquisadores têm procurado, desde o início da computação, criar interfaces, ferramentas e linguagens para tornar a programação mais simples e levá-la para além dos limites da engenharia, facilitando o uso e o aprendizado para pessoas de idades e formações diversas, inclusive artistas. Algumas dessas iniciativas são o Max, o Pure Data, o Processing e o Arduino. Na década de 1980, surgiu o Max, muito usado para composição musical e, principalmente, para performances ao vivo. Na década de 1990, foi lançado o Pure Data, uma versão open source do Max. Em 2001, surgiu a linguagem Processing, destinada às artes visuais. Em 2005, foi lançado o Arduino, um microcontrolador projetado para a programação de interação física entre o ambiente e o computador e muito utilizado em instalações artísticas.

Apesar de o software ser inerente a toda arte produzida ou reproduzida digitalmente, ele é comumente esquecido como um material artístico e um fator na estética da obra. Segundo Cramer e Gabriel, isso acontece devido à progressão do uso dos computadores, que passaram de máquinas acessíveis apenas aos programadores a interfaces gráficas onde se camufla o código que está realmente operando o computador.

Há, no entanto, artistas que trabalham diretamente com linguagens de programação, utilizando o código-fonte como material artístico. E as linguagens que surgiram com o objetivo de facilitar a programação nas artes são muito usadas por esses artistas e por estudantes de arte e tecnologia. Esse tipo de artista que não utiliza somente ferramentas prontas, mas que trabalha diretamente no algoritmo da arte computacional, pode ser chamado de artista-programador. Pensar que um artista é capaz de ser também programador pode, por vezes, causar um estranhamento ou soar como um conceito inusitado. Por que a necessidade de denominá-lo artista-programador e não somente artista, colocando ênfase na técnica utilizada? Uma chave para essa questão pode estar nos conceitos de técnica e tecnologia.

A palavra técnica tem sua raiz na palavra grega téchne, que significa técnica, arte ou ofício. Os gregos não faziam distinção entre arte e técnica. Um escultor ou um sapateiro tinham uma téchne. Já a palavra tecnologia surgiu na combinação dos conceitos de téchne e lógos, que significa racionalidade. Pode ser compreendida, então, como a sistematização de um ofício ou de uma técnica. Esse conceito tem relação com a Revolução Industrial e a produção capitalista, quando técnicas começaram a ser aplicadas com o objetivo de gerar resultados em larga escala.

Sabemos, portanto, com base no conceito de téchne, que nem sempre arte e técnica foram tratadas como conceitos apartados. A separação entre elas está muito atrelada ao surgimento da visão romântica do artista no final do século 18. No romantismo, a arte passou a se referir à subjetividade e à vida interior, enquanto que a técnica passou a ser percebida como mecânica e objetiva. Com uma visão de mundo centrada no indivíduo, nas emoções subjetivas, no sonho e na fantasia, o conceito romântico da arte se opunha à racionalidade e à objetividade. Essa dicotomia tem reflexos até hoje. Não é raro o pensamento de que um engenheiro não tem habilidade para a arte ou de que um artista não sabe matemática. De acordo com Cramer, a separação entre o que é técnico e o que é a inteligência humana subjetiva, ou entre o “gênio” e o “engenheiro”, abriu caminho para as controvérsias que ainda persistem sobre a arte e até que ponto ela pode ser formalizada e automatizada. Daí o estranhamento que pode ocorrer em relação ao conceito de artista-programador, esse artista que domina tanto a estética quanto a técnica computacional.

Um exemplo interessante do século 16 para pensar sobre como a criação de arte e o domínio de técnicas que atualmente pertenceriam ao campo das Ciências Exatas podem estar conectados são os perspectógrafos de Albrecht Dürer, máquinas para facilitar a percepção da perspectiva. Dürer começou a estudar pintura artística aos quinze anos e interessado pelos fundamentos teóricos da arte, dedicou-se também a pesquisar ótica e matemática. Após dominar esses conhecimentos, criou os perspectógrafos com o objetivo de facilitar o aprendizado da perspectiva por artesãos e artistas na Alemanha.

Outro artista que pode nos ajudar a compreender esse universo é o poeta brasileiro Erthos Albino de Souza. Erthos era engenheiro da Petrobrás quando os computadores chegaram ao Brasil e logo se especializou em operar as novas máquinas. Parte do movimento da poesia concreta, na década de 1970, editor da revista Código, Erthos foi um poeta experimentador e para isso utilizava o seu instrumento de trabalho: o computador.

Harold Cohen foi outro artista-programador que trabalhou com computação desde a década de 1970. Cohen criou no início da sua carreira o programa AARON, que utiliza princípios de inteligência artificial para pintar. Cohen programou o AARON para desenhar diferentes formas, desde abstrações até formas figurativas, como elementos naturais e humanos. Foi a parceria entre AARON e Cohen, por quatro décadas, que deu origem à obra do artista.

A arte feita em software levanta questões importantes sobre a automatização da criação artística. Esse tipo de produção traz à tona a tensão gerada por essa relação criativa entre homem e máquina. Uma parte do processo o artista domina, mas outra parte a máquina realiza “independentemente”. A automatização do processo artístico acaba despertando questionamentos sobre a validade da obra de arte e também sobre a sua autoria.

Em 2015, o Google lançou o Deep Dream, um software que utiliza redes neurais para gerar imagens a partir de outras imagens e que acabou provocando uma discussão sobre automatização computacional e arte. Alguns artistas utilizaram a nova técnica na sua produção, como é o caso de Alexander Mordvintsev, que expôs seu trabalho na exposição Deep Dream: the art of neural networks, que aconteceu em 2016 em São Francisco. Na medida em que a computação avança na direção da automatização, com machine learning e inteligência artificial, essa discussão tende a ficar mais acirrada. Se o computador produz a arte, quem a criou? Pode o computador se tornar o artista? Pode a criatividade ser automatizada? Ficamos por agora somente com as perguntas. E produzindo arte.

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Estamos no futuro. A Los Angeles de 2019 nasceu do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), mas tornou-se popular a partir da adaptação de Ridley Scott para o cinema, em 1982. Blade Runner se cristalizou no imaginário do público ao dar contornos para um medo abafado durante o século XX. E se a aposta cega em tecnologia não nos guiar para um futuro melhor? E se perdermos o controle, como sugeriu Mary Shelley em Frankenstein, e nos tornarmos reféns das próprias criações? E se, quem sabe, o progresso irrestrito nos impuser uma realidade da qual seja impossível retornar?

A ficção científica é a arte de perguntar “e se” e nos entregar respostas improváveis. Neste campo, Philip K. Dick foi a mente mais pródiga por trás das especulações do que a realidade poderia ser. Dick nasceu em Chicago, em 1928. Aos quatro anos, os pais se separaram e ele foi morar com a mãe, em Berkeley. Estimulado pelo ambiente intelectual, o menino passava tardes inteiras ao som de música clássica, trilha perfeita para acompanhar os enredos de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Tímido e pouco sociável, nas raras vezes em que era visto fora de casa se poderia apostar que estava a caminho do trabalho, em uma loja de discos, ou da Faculdade de Filosofia. Suportaria a vaidade acadêmica por um semestre, fato que lhe renderia a imagem de figura peculiar. Digamos que os EUA dos anos 40, com toda a paranoia comunista, não era o país mais adequado para quem se distanciasse do sonho americano. Criado em um lar não tradicional, Dick ficou conhecido como o jovem excêntrico que largou os estudos para vender discos e passar as noites escrevendo. Havia boatos de que escrevia ficção científica.

Depois de anos como escritor lado B, sobrevivendo às custas da esposa, Androides se tornou o principal título de uma fase fértil e vigorosa. Ainda que não tenha lhe rendido fama, a publicação lhe propiciou alguma dignidade. O livro arquiteta uma distopia muito bem transposta em Blade Runner. Na trama, Los Angeles deixara de ser a cidade ensolarada para se transformar em um lugar soturno, em que a chuva e a noite são as únicas certezas. Os carros ocupam o céu e letreiros de neon gigantes guiam habitantes desnorteados por ruas sujas e apertadas. Todos os idiomas são aceitos na Babel pós-bíblica e pré-apocalíptica. Neste urbanismo opressor, conheceremos Rick Deckard, um policial que volta à ativa para ganhar dinheiro a fim de trocar a sua ovelha elétrica por um animal de estimação de verdade. Para isso, precisa eliminar os androides que fugiram do novo planeta habitado pelos humanos.

A literatura de Dick chama atenção porque suas elucubrações não são meros rompantes de engenhosidade. Por trás de temas que abordam governos autoritários, o monopólio das corporações, universos paralelos e alterações de consciência, reside o interesse pela sociedade e a preocupação genuína pela natureza humana. Escrever sobre mundos semirreais foi a maneira de denunciar que operamos em uma realidade pré-programada, que vivemos em um mundo falso. Teoria menos acessível, porém similar à ideia platônica das sombras. O que era luz, no mito da caverna, assume para Dick a configuração de uma realidade paralela, a qual somente acessamos a partir de um ação que rompa o automatismo diário. Se Walter Benjamin denunciava a perda da experiência nas sociedades de massa, Philip irá além. A convicção do caráter invasivo da tecnologia lhe permitiu hipóteses nas quais o progresso não apenas artificializaria a experiência como também turvaria as características que nos identificam como seres humanos — inteligência, sentimentos e empatia.

Dick costumava repetir uma fábula que lhe fora contada na infância. A história trata de um casal de camponeses que recebe de um gênio três desejos. A aparição inusitada desorienta o casal, tornando o primeiro pedido um desastre. Como reparo, utilizam o segundo desejo, que corrige o primeiro mas causa novo problema. E assim sucessivamente. Dick contava a passagem com empolgação, pois no centro dela encontra-se a sua visão sobre o progresso. Assim como o casal, também parecemos despreparados.

Ex-Machina. de Alex Garland (2014)

Adentrada a carcaça futurista, Blade Runner apresenta uma reflexão antecipada por Dick 50 anos antes de filmes como Ela (2014) e Ex Machina (2015). Os debates sobre o que é ser humano e os limites entre homem e máquina circundam o protagonista, um sujeito perdido que tem de aniquilar robôs tão ou mais humanos do que ele. Avançamos convictos, sem considerar o paradoxo de que os homens são desnecessários em um mundo pós-humano. Diferentemente dos heróis de outrora, Deckard precisa salvar a humanidade dela mesma. O que se destaca na missão é a capacidade do policial de duvidar dos próprios méritos. Afinal, a paixão do protagonista de Ela por um robô é falha dele ou defeito da máquina?

Philip K. Dick nos revela um futuro no qual não se fala em avanço. Avançar é o destino dos que sabem para onde vão, e esse não parece o nosso caso. Progredir é pensar uma tecnologia que antes de nos prometer um mundo melhor, um lugar perfeito e correto, nos permita acesso a uma realidade não automatizada. E será nesse instante, nesse futuro, que nos depararemos com os nossos medos e limitações pela primeira vez — e os aceitaremos.

Ela, de Spike Jonze (2013)

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