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Carl Gustav Jung em frente ao Hospital Burghölzi, em Zurique, em 1909.
#49SonhoCultura

Sonhos não envelhecem

por Luciana Branco

Tive um sonho na madrugada de 31 de março de 2022. Eu andava pela casa um tanto ansiosa, procurando minha bolsa. Quando a achei, abri a carteira e, dentro dela, não encontrei minha identidade. Acordei assustada, e logo senti o sorriso aliviado da compreensão, já que, a partir da manhã seguinte, eu não teria mais o contrato de trabalho ao qual tinha me associado nos últimos vinte anos. Senti também medo do tamanho da mudança que o sonho desenhava para meu entendimento.

Estaria, então, livre para sonhar novas formas, encontrar novas imagens, compreendê-las e, ainda, simultaneamente, me permitir não as decifrar, observá-las sem pressa, vê-las ganhar significados e ressignificados inéditos com o tempo. Na manhã seguinte, eu poderia sonhar acordada com a nova vida que desejaria construir e experimentar. Com uma nova identidade.

“De onde vem a canção?”, canta Lenine. É comum nos perguntarmos quase todas as manhãs, ou madrugadas, de onde vêm os sonhos com aquelas mais encantadoras, assustadoras e bizarras imagens, conexões e desconexões.

Carl Gustav Jung (1875-1961), considerado pela revista Time o maior pensador do século em capa de 1955, afirma que os sonhos são expressões do inconsciente. Poço inato e infinito de histórias e significados — coletivos, familiares e pessoais.

Vale aqui diferenciar o conceito de inconsciente freudiano do junguiano, um dos aspectos responsáveis pela cisão dos pensadores, depois de um período de cerca de cinco anos de trabalho em conjunto.

Se, para Freud, o inconsciente é um depositário de aspectos reprimidos da personalidade, no qual é guardado tudo aquilo que não se sustenta na consciência, para Jung, o inconsciente é a origem de tudo, até mesmo da consciência.

Não à toa, no primeiro parágrafo de sua autobiografia, Memórias, sonhos e reflexões, escrita nos últimos anos de vida em parceria com a colaboradora Aniela Jaffé e publicada após sua morte, o pensador sintetiza, de uma só vez, sua experiência e fé: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.

A análise junguiana convida, de diversas formas, o interessado ao diálogo com informações inconscientes: por meio da ampliação dos sonhos (repare: ampliação, e não interpretação), da associação das palavras, das expressões simbólicas (técnica usada pela psiquiatra brasileira Nise da Silveira em contraponto aos eletrochoques no tratamento de pacientes esquizofrênicos) e da atenção e do significado às sincronicidades.

Como num sonho recorrente, vale a pena repetir: “De onde vem a canção?”.

No prefácio brasileiro de Uma investigação sobre a imagem, de James Hillman, o escritor e psicólogo Gustavo Barcellos propõe que as imagens oníricas precisam de respostas imaginativas, e não de explicação. Ousemos aqui, então, mergulhar com palavras nesse mar sem fundo do qual os sonhos emergem.

Hillman faz uma analogia que, em mim, ecoa sem, felizmente, encontrar contorno: “(…) os cheiros não podem ser evocados. Embora eles possam evocar lembranças de coisas passadas, não podemos recordá-los intencionalmente, assim como poderíamos recordar uma sala ou uma música. Estamos sujeitos a eles, somos assaltados por eles, transportados para seu mundo”. O autor segue: “A espontaneidade sem ego do cheiro é similar àquela da imaginação”.

Para mim, esse é um bom jeito de descrever sonhos pela perspectiva junguiana, pelo faro, pelas possibilidades infinitas, abandonando qualquer ideia materialista ou redutiva causal e ainda, ao mesmo tempo, considerando que o sonho pode ser, sim, consequência de um episódio vivido na vigília. Seu entendimento, porém, não deve ser reduzido ao fato.

Se dispostos a embarcar nesse convite de diálogo com o inconsciente, sem o desejo estreito de enquadrar as imagens, a ampliação dos sonhos pode virar um exercício diário de encontro consigo mesmo, com a possibilidade de sonhar, de imaginar a vida em muitas dimensões e de responder à vida com imagens, poesia, música, ficção. Com arte.

O analista junguiano Waldemar Magaldi explica, em inúmeras aulas, textos e vídeos do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), que os sonhos podem ser ampliados a partir de três diferentes perspectivas: a compensatória, a pedagógica ou a antecipadora de tendências, de transformação (que vulgar e equivocadamente chamamos de premonitória). Esta última talvez seja a mais fascinante e amedrontadora das possibilidades.

O sonho da identidade desaparecida da carteira pode ser ampliado a partir da perspectiva dos sonhos pedagógicos. Observemos, então, as demais possibilidades.

A tônica do pensamento junguiano contempla a integração dos opostos. Dor e prazer, luz e sombra, bem e mal. Não há, na origem dessas potencialidades, diferenciação de valor. Todo oposto é complementar e precisa existir na mesma proporção, em busca do equilíbrio. Por isso, quando uma experiência é unilateralizada, seja no indivíduo ou na sociedade, há, em igual medida, o desenvolvimento de seu oposto complementar — a polarização política encontra aqui uma explicação.

No universo onírico, imagens compensatórias podem realizar aspectos impedidos de serem vividos na vigília. Ofereço mais um encontro despudorado com imagens que me assaltaram para ampliação: andava às voltas com questões complexas com um parente, que não se mostrava aberto para receber o apoio que eu estava disposta a dar, porém com o qual eu deveria, moralmente, colaborar.

Por semanas refleti sobre essas questões, afirmando que estava surpresa por não sentir raiva da situação, lidando com tudo (embora fossem assuntos chatíssimos) de forma objetiva e até leve. Eis que a seguinte cena me acorda de sobressalto no meio da noite: esfaqueio o parente pelas costas, giro a faca encravada em sua carne e ainda olho para ver se o sangue está mesmo jorrando.

Já que, felizmente, eu não fiz isso tudo na vigília, a compensação inconsciente aconteceu no sonho. Desta forma, minha psique integrou a compaixão das ações concretas ao horror da raiva inconsciente. E, ufa!, me livrou de anos de cadeia!

De olhos bem abertos, pude dar mais limites às tentativas de ajudar, me respeitando e incluindo o oposto complementar (nesse caso, a raiva) que, de uma forma ou de outra, merece se manifestar. Pude, também, aprender a respeitar o desejo do outro de não ser ajudado.

Jung inspira seus estudiosos a compartilhar a própria biografia e aspectos psíquicos pois ele mesmo foi um empirista acima de tudo. As mais de vinte mil páginas que escreveu tiveram origem, essencialmente, em sua experiência pessoal com o inconsciente. Ele descreveu tais experiências em livros lançados apenas após sua morte: os Livros negros e o Livro vermelho. Neste último, o autor revisa as anotações de sonhos e imaginações dos primeiros e acrescenta desenhos criados a partir das imagens que o invadiram diretamente do inconsciente.

Quando já havia chegado à criação da psicologia profunda, que depois foi chamada de analítica, tendo o caminho da individuação como meta a ser percorrida pelo indivíduo na realização do arquétipo do si mesmo (assunto para muitos outros ensaios), Jung passou a ter sonhos repetitivos com alquimistas. Como, para ele, os sonhos eram expressões que mereciam toda atenção e respeito, passou a comprar e traduzir manuais de alquimia. Ele então compreendeu, com o passar de anos de estudo, que o caminho da individuação era a realização, na psique e na vida, do grande objetivo alquímico: simbolicamente, transformar chumbo em outro.

Jung reafirmou, então, com os conceitos da alquimia, o que sentiu no estudo de si mesmo: ao longo da vida humana, é necessário passar por diferentes fases, assim como no processo alquímico. Todos nós, em algum momento, especialmente após a metade da vida, somos convidados a entrar num processo de transformação de si, de criação de uma “tintura-mestre”, uma sabedoria capaz de existir como essência, servir a si mesmo e ao mundo.

O processo da alquimia parte da calcinação, quando estamos, do ponto de vista emocional, cristalizados em formas de existir e de sofrer. Para sair desse estado, precisamos passar para a sublimação, acrescentando ar, ou seja, pensamento sobre o que estava cristalizado. Tal processo resulta num líquido, torna-se uma solução e pode ganhar novas formas. Para se obter ainda mais pureza, o líquido pode passar pela fermentação, quando aspectos que ainda precisam se transformar o fazem pela morte, pela putrefação. O material fermentado pode, então, ser destilado, quando mais impurezas evaporam, e depois é novamente coagulado. Com a matéria mais purificada pode-se, enfim, criar a tintura-mestre, o essencial, o ouro.

Eu ando sonhando com gestações, partos, animais selvagens que se metamorfoseiam. Ando sonhando com arrepios causados por uma respiração delicada que percorre da minha bochecha à orelha. Seriam prenúncios de novas possibilidades, depois daquele sonho em 2022?

“A vida tem que ser conquistada sempre e de novo”, disse Jung.

Milton Nascimento e Lô Borges disseram que os sonhos não envelhecem. Que basta contar compasso, contar consigo, que a chama não tem pavio.

Que os sonhos possam inspirar nossos processos de desenvolvimento pessoal, de transformação, de expansão da consciência. Que possam ser recebidos como sussurros de sabedoria das almas a cada nova manhã! 

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Foi no restaurante Sublime que encontrei meu destino pela primeira vez.

Aconteceu numa tarde de outono bem típica de Florianópolis, uma dessas tardes opacas em que a excitação quente do verão dá lugar a uma morna aura fantasmagórica. Todo mundo sabe que as verdadeiras profecias só podem acontecer na época outonal, e foi nesse espírito que, por volta das 15 horas, as duas mulheres atravessaram a porta de bambu e sentaram-se à mesa 11. 

Era nossa melhor mesa: um canto de dois lugares à esquerda da estátua fluorescente do Buda, sob a luminária de vitrais coloridos. Assim que penduraram as bolsas em uma das cadeiras, deram-se as mãos e fecharam os olhos por cinco minutos antes de abrir o maço de cartas sobre um lenço violeta. A lâmpada espalhava cacos de luz nos rostos sem que se dessem conta; o restaurante agora era um templo secreto, só delas. 

Lindas, foi o pensamento que me ocorreu, Duas amigas se encontrando numa quarta-feira para descobrir o futuro. O cabelo preto da mais nova vinha preso num coque. A mais velha, grisalha, tinha modos aristocráticos e um broche de penas e pérolas que parecia uma galinha despenteada.

Ninguém que as visse no fim daquela tarde poderia adivinhar-lhes os poderes. As bruxas hoje em dia são discretas. Só notei que eram diferentes dos outros clientes por causa do olhar, um jeito de quem vê por dentro das pessoas. Fora isso, eram normais em tudo, até no modo de vestir — saias compridas cobertas por blusas de lã em tons de terra. Marrom, vermelho, laranja, ocre. 

Observei-as de longe, esperando o momento certo para me apresentar. Elas só tinham olhos para a mesa. A jovem de coque estendeu o baralho à frente, a amiga cortou três, quatro, cinco, seis, sete vezes. De volta ao maço, as cartas começaram a aparecer lentamente, uma a uma, viradas pelos dois pares de mãos na superfície do pano roxo. Como se o jogo fosse de ambas, como se estivessem lendo um futuro compartilhado. 

Ou de outra pessoa. 

A Torre, O Enforcado, O Louco —– de relance, reconheci o desenho dos arcanos maiores em cartas de morte e vida. A Torre é mudança brusca, O Enforcado pede desapego, O Louco liberta potencial desgovernado. O caminho de alguém estava mudando para sempre, sem volta.

Seria demais interrompê-las para apresentar os pratos do dia antes da cozinha fechar? Fingi casualidade e dirigi-me à mesa com um par de menus:

— E hoje, vão querer o quê?

Com olhos que perfuram o espírito e uma voz imperturbável, pediram chá preto indiano —– black chai, por favor — e duas fatias de bolo de chocolate.

Falavam num tom meio cordial, meio distante; não me deram mais atenção do que a etiqueta recomenda. Confesso que as achei um pouco frias. Registrei o pedido, levei-lhes tudo na bandeja e, por um tempo 

— só por um tempo —, 

o turno transcorreu

normalmente. 



O restaurante Sublime costuma esvaziar depois do almoço. Quando os clientes terminam a sobremesa e voltam ao trabalho, as mesas são ocupadas por outro tipo de clientela. As pizzas e as saladas desaparecem, substituídas por sorvetes e cafés. Os vasos de plantas e as estátuas do Buda nos corredores ganham mais vida sem o trânsito dos advogados e funcionários públicos que vêm atrás de comida vegetariana.

Das duas às sete, somos três pessoas cuidando dos clientes: eu, meu outro colega garçom de natureza irritadiça e Balarã, o menino nepalês que às vezes esqueço que existe. Balarã não gosta de se envolver nas pequenezas do cotidiano no restaurante. É um jovem de grande sabedoria; enquanto lava a interminável pilha de louça do Sublime, contempla em silêncio o sentido profundo da vida.

A tarde é o turno da doçura. Se fosse uma cor, seria lilás. Tardes lilás. Enquanto os escritórios se enchem de clientes e funcionários, as mães vêm ao Sublime comer bolo com seus bebês. Buscam a paz de algum lugar que não seja o 

lar. A tarde é o turno das escritoras que gastam horas mastigando palavras e tomando café com leite, e é também o período dos que trabalham online, computadores e fones de ouvido ligados.

À tarde, o tempo se estende feito um leque aberto, deixando ver os detalhes que o movimento do almoço esconde. O ar fica mole. Turistas estrangeiros chegam da praia e afundam a colher numa mousse de chocolate lavada em café americano —– sempre o café americano dos alemães —, deixam gorjetas gorduchas e voltam para seus apartamentos com a leveza de uma torta perfeita, sem reparos.

Quer dizer, no verão. No outono, tudo muda: os turistas são poucos, e o Sublime se transforma em convite para o invisível. As estátuas de Buda e as plantas dos vasos conspiram no silêncio dos corredores,: é hora. Entre março e junho, sob o disfarce lilás das tardes outonais de Floripa, no restaurante Sublime tudo pode 

acontecer.



As duas mulheres com o tarô eram aquele tipo de cliente que pede um café e nunca mais vai embora. A tarde, que ia virando noite, corria como sempre para os outros, mas a verdade é que o tempo tinha parado na mesa 11. Três horas depois, as xícaras de chá estavam ainda pela metade. 

O black chai abandonado. O restaurante enchendo, a mesa ocupada. A 11. A do maior Buda, recanto da luminária colorida. Nossa melhor mesa. 

— Gostaram da sobremesa?

— …

Fui recolhendo tudo sem esperar resposta. Empilhei canecas, pratos e garfos sujos na bandeja e cruzei a porta basculante que dá para a área de serviço. Uma montanha de pratos e tigelas do almoço esperava a vez de entrar na lava-louça enquanto Balaram de costas para mim lavava as panelas com tanta concentração que não se deu conta da minha presença. 

Está ouvindo uma partida de críquete nos fones de ouvido de novo, certeza. 

Lancei os garfos sujos no balde de talheres usados, raspei os farelos de bolo no lixo e, quando estava prestes a jogar fora o primeiro saquinho usado de chá, a mensagem apareceu. Ali mesmo

na frente da louça suja

ele se anunciou. 

Soube sem hesitação que se tratava do meu destino. 

Meu destino vinha escrito na etiqueta do saquinho de black chai que uma das bruxas tinha deixado pela metade. Dizia:

Believe something higher.



Quem é que pode afirmar com certeza o preciso lugar no qual o destino nos espera?

Quem tem autoridade para dizer que uma mensagem é profética, e outra não?

Posso dizer hoje, com toda convicção, que o meu destino foi desvelado numa xícara de black chai. A profecia escrita em letras brancas me subiu à cabeça em calafrios. Vinha casual, disfarçada de mensagem positiva ou dica do dia que, no mais das vezes, só presta para repetir a desesperança do senso comum. Mas a verdade é que nunca me enganou, a mensagem. Sabia que tinha sido escrita para mim, especialmente, para aquele dia, para sempre. 

A gente sabe quando chega a nossa vez. 

Desde quando havia something higher? Fiz-me a pergunta, mas era uma pergunta que não cabia dentro de si. O que vinha escrito no papel de chá não era hipótese. O escrito na xícara de chá era uma afirmação

Believe something higher 

um mantra

Believe something higher

uma ordem.



O garçom que dividia o turno da tarde comigo entrou na área de serviço com uma pilha imensa de copos sujos:

— Tudo bem? Tá com cara de quem viu espírito, baby.

E saiu. Pelo vão da porta que abria e fechava, ouvi uma criança chorando. Ouvi um latido de cachorro e a música de fundo, um mantra que não lembro ter ouvido antes.

Tentei negar o que naquela altura já era inevitável. Tentei negar porque encontrar o destino é ser apresentado ao novo sem a garantia de que, ao aceitá-lo, poderemos manter as conveniências do presente. 

Aceitar o destino é aceitar ganhar e aceitar perder. 

Hesitei. Não deve ser nada, é só uma mensagem estúpida. Tratei de continuar com as tarefas. Ainda havia a segunda xícara para lavar, afinal de contas, e uma meia dúzia de mesas para servir. A tarde ia virando noite, e os clientes da janta chegavam. Levantei o braço para atirar a caneca na pia, e foi só quando ela estava no alto, pronta para entrar debaixo da torneira, que encontrei a outra mensagem. A mensagem, que estava ali, no saquinho da segunda xícara de black chai inacabada, dizia também

Believe something higher.

As cartas do tarô viravam na minha direção, o jogo era meu.




Era mesmo a confirmação. 

As canecas azul-escuras de um profundo, misterioso abismo.

As mulheres com roupas cor de terra numa tarde lilás. 

O filtro de água me olhou da estante

triste

já sabia da minha 

partida. 

Às vezes somos os últimos a saber do nosso destino

anunciado secretamente em borras de café

na trilha sonora dos restaurantes

na pelagem do gato

no fim de um amor

ou de uma amizade

no perdedor de uma partida de críquete. 

Por quanto tempo ficaremos ignorantes do nosso destino verdadeiro? 

Naquele dia, entendi que o destino tinha sempre me esperado.

Falava pelos objetos e seres, procurando tradução.

Naquele dia, por uma razão que ainda não compreendo

(por uma razão que jamais compreenderei)

a mensagem na xícara de chá. 

Na área de serviço, intoxicada pelo cheiro do black chai que as duas tinham deixado pela metade, ao som das panelas sujas que encontravam o detergente cristalino nas mãos do colega que adora críquete, firmei meu acordo com o Destino. Tomei o resto de chá de cada uma das xícaras 

aceito

arranquei os papeizinhos

— os dois —–

coloquei-os no bolso da calça

Experience something higher

e deixei a área de serviço. A porta basculante ficou balançando com a força da minha 

passagem.

Andei pelo restaurante em passos rápidos, na direção da saída.

Deu para ouvir as mulheres chamando

— Você pode trazer a conta e a maquininha do cartão?

Mas não virei para trás. Ainda vestida com o uniforme e o avental,
cruzei a porta 
decidida
something higher
alcancei a varanda
não voltar 
segui para a rua
continuei
caminhando.

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Falar de sonhos é algo central para quem acredita em dias melhores; o sonho normalmente tem marcas de utopia, uma realidade que nunca chega, mas que temos sede e fome de ver se materializar em nossas vidas. Algumas perguntas, entretanto, permeiam a minha mente, como jovem negro que vive em uma nação que foi escravista durante 388 anos e hoje assassina a juventude negra a cada 23 minutos: é possível sonhar enquanto se sofre dores inexprimíveis? Será que um povo que historicamente teve seu direito à dignidade roubado sistematicamente consegue ter sonhos de liberdade e esperança? Talvez o sonho, nesse caso, se torne uma fuga, uma maneira de não aceitar a realidade, e o mais poderoso: uma forma de reafirmar quem realmente somos, apesar de alguns se levantarem achando que são nossos senhores, donos das nossas vidas ou de quem somos. Sonhar é um instrumento possível para enfrentar a realidade: enquanto o racismo diz que não somos humanos, os sonhos que nascem do povo negro ecoam na história, dando ao mundo exemplos radicais de uma humanidade negra que insiste na construção de uma realidade de vida.

Martin Luther King talvez seja a voz mais conhecida quando pensamos em sonhar. Em seu profundo discurso conhecido como I Have a Dream (Eu tenho um sonho), o pastor batista, nas escadarias de Washington, na maior marcha da história do povo afro-americano estadunidense, começa afirmando: “o Negro ainda não é livre”. Antes de pensar em sonhar, King conta o motivo de precisarmos romper com o real. Quase como uma marcha, ele vai construindo a sua fala histórica em direção ao alvorecer, mas antes faz questão de falar de uma grande e longa noite que o povo negro estava passando, quando diz que “cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação”. Pensando a realidade norte-americana dos anos 60 e conectando com o atual contexto do Brasil do século XXI, podemos afirmar que a vida do negro brasileiro ainda é tristemente exterminada pelos caveirões da morte, que a dor que King sentia e as forças que tentavam interditar o alvorecer negro de um mundo mais justo para os condenados da terra são as mesmas que estão há séculos no mundo ocidental.

“A América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”. Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. (…) Assim, nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.” (Martin Luther King, 1963)

Diante da longa noite que o povo negro ainda vivencia, enquanto leio o discurso de King, fico pensando, quase que em uma conversa direta com o próprio líder do movimento dos direitos civis: “será que ainda é possível sonhar, pastor? Eles continuam nos matando, nos roubando, nos separando. Nossas crianças são fuziladas, nossos homens são encarcerados, nossos jovens são assassinados e nossas mulheres morrem de doenças crônicas diante do abandono social e do desemprego. A terra continua sendo deles, o Congresso tem os mesmos donos de sempre e quem manda no nosso sistema de justiça tem cor. Martin, nós estamos em um beco sem saída, rendidos, desarmados, as leis realmente avançaram, os nossos direitos fundamentais até existem no papel, mas eles não param, parecem máquinas que precisam colocar esse sistema para funcionar, e o preço é o nosso sangue. Esse cheque sem fundo e esse saldo insuficiente permanecem como marca das Américas, não somente do Norte, mas se estende por todo o continente, como uma praga que não para de crescer”.

Este texto, assim como o discurso de King, é sobre sonhos, mas, com tanta dor e desesperança, quando estes nascem? Quando nós começamos a sonhar? Queria me arriscar dizendo que, segundo o pensamento de Luther King, os sonhos começam na recusa. Na mesma hora em que recusamos o que foi imposto para nós como verdade absoluta e acreditamos na liberdade e na justiça como valores que são nossos, também temos direito de acessar. Temos o direito de ser integralmente livres e plenamente saciados com a justiça, e por isso começamos a exigir mudança! O sonho negro, neste caso, começa na teimosia, na insistência de sabermos quem de fato somos, de não nos deixarmos definir por aqueles que tentam fabricar pesadelos com a nossa realidade, que tentam eternizar a afirmação de que “o Negro ainda não é livre”. Por isso o velho hino spiritual Oh Freedom, cantado desde os tempos de escravidão pelas igrejas negras, vai dizer:

“Oh, liberdade, oh, liberdade, oh, liberdade sobre mim. E antes de me tornar um escravo, serei enterrado em meu túmulo, e irei para casa, para meu Senhor, e serei livre.”

O grito de liberdade que ecoava no sonho de Luther King não nasce de um incômodo simples e de algo momentâneo. Esse sonho é coletivo e navega por gerações. Os negros sempre escolheram cantar sobre liberdade, preferiram o céu às algemas, queriam ir para casa, voltar para o seu lar; o sonho era o cessar das dores, era a plena liberdade ou qualquer realidade em que a prisão, a violência ou a supremacia não tivesse lugar. Para sonhar, é preciso gritar, bradar alto, marchar e, no caso do contexto negro, encarar a morte face a face e falar. Como disse King, “Nós nos recusamos”. Os sonhos surgem da recusa das injustiças, da luta contra os pesadelos, da consciência de quem somos realmente. Sonhar é um exercício que começa dentro de nós, conhecendo quem somos, de onde viemos, quem lutou por nossas vidas, e Luther King sabia muito bem quem ele era. Por isso, o sonho dele se parece muito com o nosso, por isso a utopia que King expressava naquele púlpito, diante de mais de duzentas mil pessoas, ainda se conecta com a realidade das pessoas negras afrodescendentes do mundo inteiro.

“Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo.” (Martin Luther King, 1963)

A urgência manifestada no discurso I Have a Dream atravessa o povo negro na sua mais íntima existência, pois o racismo faz os nossos sonhos serem urgentes. Afinal, viver, comer e ter uma casa, um emprego e condições iguais dentro do mercado de trabalho, as crianças negras serem protegidas e tratadas como crianças, ter educação e saúde de qualidade e ser considerado gente não deveria ser um sonho. Por esse motivo, a fome tem pressa, os que estão sob a mira do fuzil da polícia não podem mais esperar. O sonho que King nos apresenta tem o seu próprio tempo e sempre será o “agora”, só deixará de ser urgente quando a injustiça racial não for mais uma realidade. Afinal, como ele diz nesse discurso, “nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial (…) e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza”. O começo desse sonho só é possível com o fim do racismo, por isso o sonho de King e das pessoas negras, na verdade, não é apocalíptico, não é sobre o fim dos tempos, mas sobre o início de uma nova realidade. O povo negro não sonha com um mundo melhor, ele sonha com um novo mundo, com novas maneiras de olhar e afirmar a humanidade em toda a sua diversidade. Diante de uma realidade construída e fundamentada no racismo, o discurso de King dá início a uma peregrinação, quase um chamado nos convocando para caminhar para uma nova realidade.

​​”Eu tenho um sonho de que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje! “(…)” Nesse justo dia, no Alabama, meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos.” (Martin Luther King, 1963)

É preciso continuar dizendo: nós temos um sonho. O sonho de King era a derrubada do racismo, dos que tentavam definir o povo negro, dizer o seu destino, onde e como poderiam andar, comer e sentar, quais lugares poderiam ocupar ou nos quais poderiam viver. É bom dizer aos brancos que leem esse discurso que o sonho de King não era retirar a importância de quem nós somos ou o orgulho negro em prol de uma paz neutra e uma falsa equidade, mas ele sonhava que, sendo nós orgulhosamente negros em um mundo dominado pelo racismo branco, nossos direitos como seres humanos fossem garantidos. Assim, as leis segregacionistas e os muros que nos separam até hoje iriam cair por terra.

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(É manhã cedinho, será preciso cavoucar na terra de dentro.

Como responder ao convite para escrever sobre sonhos e infâncias? Nos atropelos do hoje, abre-se tempo e espaço para permanecer. E, como a vida tem me acariciado com pedidos assim, escolho aceitar.

É preciso envolver-se de si, respirar para a voz desaguar no papel. Banho quente, leite quentinho feito no escuro, somente com a chama do fogo aceso na cozinha. Foi escutando a fervura, com o calor subindo no rosto, que os sinais sutis vieram. O formigamento no peito. O leite já está fervilhando, o bebê pode despertar. Um movimento involuntário, sensível, que deságua no agora. A escrita é processo, e, quando há fome em dizer, tem momentos que chega até a vazar. O que deseja ser papel é revelador do corpo, como também são os sonhos. Seria o sutil nos atravessando?

Ligo o computador. O corpo emudece, soam-se alarmes.)

Durante meu tempo de infância, tinha certa repulsa às escritas. Eram de fora para fora, descoladas de mim, autoritárias, pasteurizadas por perguntas e respostas que valiam nota. Em suas sentenças (quase de morte) de certo e errado, perdiam significâncias, esvaziavam-se de seus sopros, de seus caminhos de vir a ser, dessensibilizando meu corpo de fala.

Acordar a escrita leva tempo. E é no amanhecer do dia, no despertar que ela se tece. Silencio e escuto.

Chego na sala de aula com uma caixinha de fósforo miudinha nas mãos. Num movimento preciso, balanço de um lado para o outro para que as crianças, ao escutar o tilintar, aos pouquinhos e, no seu tempo, se acheguem e aterrem em si.

Mas, em tempos em que a exaustão é o destino, somos pegos de surpresa pelas alças dos sovacos, colocados ao chão com pernas cruzadas. A professora solicita: “Começou a aula, é hora de sentar”. “Eu vou dizer onde cada um vai ficar”. “Lucas aqui, Tomás do outro lado. Vocês não conseguem sentar perto”.

Baque. Atropelamento. Intromissão. Sobra pressa quando educar deixa de ser uma questão de sensibilidade.

Essa cena é um sintoma da aridez, uma mostra do adoecimento que tomou as organizações sociais, que insistem em dizer que não há outra forma de viver o hoje.

Michelle Prazeres nos relembra: “As regras da vida nas plataformas se espraiaram para toda a nossa existência”. O excesso de estímulos, ofertas, tarefas, entretenimento que trazem não é preenchimento, é turvamento. O cuidado com as crianças foi tomado pelos ideais de eficiência, excelência de atendimento, excesso de prontidão. O “tão pronto a ajudar”, muitas vezes, nos embotam. Sobra controle. Sobra artificialidade. A contenção, a regulação de fora pra dentro nubla a expressão das infâncias, o vital. Será que tudo isso não tem distanciado as crianças de seus sonhos?

Como se sonha com pressa? Como se cria na era da distração? Como se sente quando todo sentir é perigoso?

Perde-se o olhar para o instante, para o inusitado. Anestesiam-se os movimentos pueris, os sentidos. O olho no olho que comunica se dissipa.

A expressão “não há tempo a perder” já nos doutrinou. Encaixotaram o tempo das crianças na gavetinha das funcionalidades, da produtividade máxima.

O pequeno fragmento de instante em que todo corpo se volta para onde o coração aponta se esvai. O que será que continha aquela pequena caixinha? Será que algum olhar encarteirado ainda procura pelo tilintar?

A minha memória deixa a sala de aula, caminha pela praia, uma cena me aventa. Pouso. Vejo uma criança mexendo nas pedras e em um buraco cavado ali no chão, ao lado de um canteiro verde. Segundo Walter Benjamin, “onde as crianças brincam, existe um tesouro enterrado”.

Ao tirar com as mãos um pouco de terra e colocar uma pedra, em um movimento de pôr, tirar, se misturar, chega seu pai e lhe diz:. “Filho, aí não pode, você vai se machucar”. Escuto seus gritos de quem foi arrancado de seu chão pelas alças do sovaco, arrancado de seu existir. Ouço o choro distante acender meus ouvidos, ecoando um pedaço da minha menina. “Ali certamente estava o mundo inteirinho, as sutilezas e as preciosidades do agora.”

O brincar é que fia o tempo presente das crianças, nessa mistura do pensar sentindo e do sentir pensando. A criança, ao cavar, encontra e é encontrada pelo brincar miúdo, um fazer que dialoga com o inesperado e o subversivo. Alargam-se os tempos, abrem-se buracos, espaços de imensidão para os estados de infância.

Enquanto acontece, a brincadeira se faz, e certamente a natureza é o maior disparador dos brincantes. Permanecer ali é transformar, ir além é desver, transver, romper com as próprias mãos os ciclos de mesmice, explorar a nós mesmos. Pausa-se o usufruir, comunga-se.

É a comunhão das naturezas: um pouquinho de mim, um tantinho de nós, uma conversa com o mundo. Esse brincar que comunga permanece no corpo mesmo quando já vai longe a infância. Sonhamos.

A natureza da infância nos leva a sentir, a conceber outros modos de viver. Estejamos atentos. E é apenas através de atos criativos que a vida se sustenta, frutifica, ganha sentidos. São as crianças que avivam nossos continentes do pensamento, da linguagem, do sensível, não como um fim, mas como experimentação. O eterno começo de tudo.

E, acordados, encontramos a folha no meio-fio sendo levada pela água corrediça da chuva, uma nuvem de vaga-lume no enlace do agora com o infindável. Alcançamos enfim a dimensão poética do cotidiano.

Já dizia Mia Couto: sonho é uma porta que dá acesso à poesia. No enredamento dos afetos, das importâncias, dos silêncio é que o sonho vai e vem, balança.

A entrega, o corpo como confluente, o vagar sem propósito — a criança se constitui desses movimentos. O à toa, a troco de nada, os buracos encontrados na terra precisam ser redescobertos, revelados, experimentados. É o tilintar que desperta o corpo atravessado pelas experiências que adentramos no imaginário, no simbólico, que alcançamos uma consistência própria. Pegando emprestado de Mario Quintana: sonhar é acordar-se para dentro.

Criançar, brincar e sonhar são três palavras de uma organicidade só, e é preciso enraizar-se nelas.

(Me preparo para enviar o texto, já é hora de lavar a caneca. Te devolvo agora o convite: como temos cuidado dos chãos das infâncias? Cabe o sonhar? E quão fértil está a sua terra dos sonhos? Afinal, são por eles que se chega às nascentes.)

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Para meu professor
Wagner Cafagni Borja,
com gratidão

À noite, todos os gatos são pardos. E a fera que nos visita na escuridão da madrugada é perigosa, insiste em nos rodear. O gato da insônia afia suas garras numa bandeja de prata, onde moram nossos maiores medos. A fome do felino, na escuridão, é tamanha que ele devora nosso corpo, cansado, moído. E quanto mais tentamos fugir, mais longa se torna a noite. Na madrugada, nosso desamparo mia na imensidão noturna. De dia, o bichano é manso, domável; os medos diminuem de tamanho quando o sol teima em raiar, as memórias esfriam, sem qualquer vestígio de terror.

Lembro como se fosse hoje. Celebrávamos o fim do colegial, às vésperas do vestibular, nos despedíamos daquele local que era uma segunda casa, a escola. O horizonte dos sonhos da vida adulta acenava com a promessa de que nossos desejos seriam realizados, já que estávamos crescidos. Meu professor de história (que outra matéria poderia ser, afinal?) propôs, em sala de aula, uma discussão sobre o capítulo da peste da insônia narrada em Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Meu coração despertou para a literatura com esse livro, e nunca mais adormeceu. A narrativa da enfermidade que acomete Macondo, local onde se desenrola a história dos Buendía, tem elementos essenciais para pensarmos sobre o risco de nos afastarmos da vida onírica.

O capítulo começa com a chegada da pequena Rebeca. Logo após ser adotada pela família, ela é encontrada acordada, numa madrugada, na sala, sentada numa cadeira, chupando o dedo com os olhos fluorescentes “como os de um gato na escuridão”. Ela é quem traz o bacilo da insônia ao povoado. Uma enfermidade contagiosa, que condena os doentes a permanecerem num constante estado de vigília.

Num primeiro momento, o patriarca da família Buendía, José Arcadio, diz: “se não dormirmos, melhor, assim nos rende mais a vida”. Por isso, no começo, os habitantes da cidade não se incomodam, pelo contrário, acham que a vigília os tornaria mais produtivos. Começam então a trabalhar sem cessar. A partir daí, passam a viver num constante estado desperto, numa “alucinada lucidez”. Os dias e as noites seguem numa inesgotável produção, mas logo os habitantes se entediam e passam a conversar durante a madrugada, procurando algum esgotamento. Aqueles que sentem saudades dos sonhos propõem uma brincadeira oral sem fim: a história do galo Capão. O jogo consiste em perguntar se os ouvintes haviam pedido pela história do galo Capão, e àqueles que diziam que não era questionado se queriam ouvir a história do galo Capão, e àqueles que diziam que sim, era questionado porque queriam ouvir a história do galo Capão. E assim a brincadeira segue, num ciclo infindável.

Com o passar do tempo, os dias no vilarejo tornam-se uma constante repetição, e tudo passa a ser vivido sem pausa ou pouso. Uma vez que os doentes se acostumam ao estado de vigília, estão condenados ao avanço da enfermidade: o esquecimento. Aos poucos, os nomes de objetos vão perdendo o significado, e, além da insônia, o povo começa a sofrer evasões de memória. Com o decorrer do tempo, etiquetas são colocadas nos objetos para que seus nomes sejam lembrados, assim como suas funções. E o mesmo se dá com os animais, as pessoas e as casas. É preciso colar uma etiqueta na vaca: esta é a vaca, produz leite. E no leite: este é o leite, mistura-se com açúcar e café… E assim por diante. Buscam a preservação da memória. A cartomante, que lia nas cartas o futuro, passa a ler o passado, pois, sem que os habitantes possam sonhar, não há a possibilidade de futuro. Macondo fica condenada à peste do esquecimento.

Resumir a escrita soberana do autor me parece uma heresia. Reescrevo as linhas acima com certo constrangimento. Mas a alegoria nos serve como metáfora e nos ajuda a refletir sobre a importância de sonhar para o nosso aparelho psíquico.

Sonhar e agir

Freud já dizia que nada acontece antes de ser sonhado e que são os sonhos a fonte da imaginação, a via régia do inconsciente. Uma espécie de portal que nos revela algo de nós mesmos que ignoramos. Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, o sonho é essencial para o ser humano desenvolver a habilidade de fazer planos. A capacidade de imaginar na vigília e executar as coisas tem a ver com o processo onírico, pois as mesmas regiões cerebrais são ativadas.

Na terra dos sonhos, somos livres e realizamos desejos — muitas vezes, inconfessáveis para nós mesmos. Suportamos a realidade porque sonhamos. Quantas vezes o enlutado sente alívio ao sonhar com a pessoa que perdeu?

É no livro A interpretação dos sonhos que Freud descreve o sonho como a realização de um desejo. Porém, nem todo desejo pode ser explícito, e muitas vezes ele se apresenta com certo disfarce.

A censura está baixa quando sonhamos, e temos, assim, um terreno fértil para sentimentos ocultos e fantasias. Mesmo assim, alguns são censurados por nós mesmos — e, para se revelarem, juntam uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico pessoal, somando vivências e experiências singulares e individuais, com significado único. Em resumo, certas coisas se dão em nossa mente de forma disfarçada ao adormecermos. É como se, dormindo, nossos desejos acordassem no sonho, apresentando-se de forma mascarada. Tal mecanismo é denominado condensação.

Uma amiga, após encontrar o ex-namorado, acorda assustada: havia sonhado com uma múmia que saía do sarcófago, toda empoeirada, e a perseguia. Ao acordar, levou o sonho para a análise e se deu conta: seu inconsciente revelava-lhe o impacto daquele encontro. A múmia que a perseguia era esse sentimento do passado que, pelo sonho, ela percebeu ainda estar vivo dentro dela.

Mas, para cada pessoa, os símbolos que aparecem num sonho têm um significado específico, que só pode ser decifrado pelo próprio sonhador. Mesmo que apareça de maneira torta, dá notícias de algo que, acordado, pode ser muito ameaçador. Por isso, o dicionário de sonhos não deve ser levado muito a sério. Como dito por Freud: o sonho pertence ao sonhador.

Eventos ocorridos durante o dia e que dão formas construtivas aos sonhos são chamados restos mnêmicos. É como se o inconsciente “pescasse” elementos na realidade para trabalhar durante o sonho. Logo, haveria um pensar inconsciente durante o estado de vigília que vai selecionando elementos do dia, levando materiais para a vida onírica.

Existem também os sonhos de repetições traumáticas — uma tentativa do nosso aparelho psíquico de dar conta de um trauma. A pessoa sonha o evento diversas vezes, em busca de elaborar aquilo que foi excessivo. Como se, ao dormir, tentasse acomodar algo extremamente incômodo, revivendo a cena madrugada adentro. Tal ideia é sustentada por Ferenczi — o sonho seria uma tentativa de reparação do trauma.

O psicanalista Thomas Ogden associa a capacidade de sonhar ao crescimento e ao aprendizado com as experiências. A literatura é um lugar de sonho, assim como a arte, que nos tira de um estado zumbi e nos acorda para outros mundos quando a realidade mais parece uma terra árida.

Sonhar acordado também é extremamente importante. Poder fantasiar nos possibilita uma tolerância maior à realidade. A fantasia é um dos veículos pelo qual o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. É um terreno no qual tudo pode acontecer.

O sonho captura a fluidez do tempo

Há algo precioso no sonho: podemos voltar a ser crianças, encontrar pessoas perdidas, visitar casas que há muito abandonamos. No sonho, temos a percepção da atemporalidade do inconsciente e transitamos na fluidez desse tempo.

Quando perdi minha mãe, sonhei que a colocava boiando numa cachoeira. Dava-lhe um beijo na testa, abria os braços e a entregava para a água. Ela estava de branco, como se estivesse sendo batizada. Quando acordei, entendi. Uma mãe de santo havia me dito certa vez que eu era filha de Oxossi, filha da água doce. Minha mãe agora tinha sido devolvida para a mãe natureza e estava mergulhada dentro de mim para sempre.

Nós nunca vivemos essa memória, mas ela habita em mim, como qualquer experiência que eu tenha vivido na vigília. Foi o final feliz que eu inventei para ela na noite em que foi velada. Um presente que meu inconsciente ofereceu ao meu coração órfão.

O sonho é o antídoto para a peste da insônia, mas também para a peste da saudade, pois através dele podemos reencontrar pessoas perdidas, abraçar-lhes forte e inventar mais uma memória para viver junto. O sonho talvez seja a máquina de memória que José Arcadio Buendía tanto quis fabricar em Cem anos de solidão. Tomara que, nesta noite, meu inconsciente me ofereça um passeio de mãos dadas com ela.

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Em 2009, Edwin Rist, então um jovem de 22 anos, subiu no parapeito de uma das janelas do museu de Tring, uma extensão do Museu de História Natural de Londres. Carregava consigo uma mala vazia, um cortador de vidro e uma lanterna. Ao tentar subir na janela, Rist derrubou o cortador de vidro. A noite estava escura, e ele não o encontrou novamente. Então agarrou uma pedra do chão, mesmo, e quebrou o vidro, abriu a janela — cortando, sem querer, o braço — e entrou no museu. Seguiu para a ala dos pássaros conservados. Abrindo as gavetas, roubou mais de 299 espécimes do museu. Furto completo, pulou a janela, pegou o trem e voltou para o seu apartamento em Londres.

Rist usou uma pinça para depenar os pássaros, colocando as penas em saquinhos plásticos estilo zip lock. Tirou fotografias. Entrou em um fórum especializado para amantes da pesca com mosca, ou fly fishing, um estilo de pesca que usa iscas que imitam insetos para atrair peixes. Essas iscas, ou moscas, podem conter penas de diversas espécies de pássaro, assim como outros materiais. São pequenas obras de arte, e requerem muita paciência e habilidade. Quanto mais raras as penas, mais valiosas as moscas.

As penas de Edwin chamaram a atenção dessa comunidade. Afinal, eram penas raríssimas, algumas de espécies de pássaros extintos há mais de um século. Era o sonho de qualquer “mosqueiro”. A demanda foi tão grande que Edwin decidiu que seria mais rápido e eficiente vendê-las através do eBay. Usou a sua própria conta, com o nome de usuário FlutePlayer 1989. O Tocador de Flauta. Quando foi rendido pela polícia, alguns meses depois, ele confessou que estava vendendo as penas para realizar um sonho.

Nascido em 1988 no estado de Nova Iorque, em uma família de classe média — seus pais eram jornalistas e donos de um canil de labradoodles que suplementava a renda da família —, Edwin não frequentava a escola. Sua mãe, Lynn, o educava em casa, e ele seguia livremente seus interesses. Logo cedo, desenvolveu duas paixões: a primeira, pela música, tornando-se um prodígio na flauta ainda jovem; a segunda, pela pesca, uma paixão herdada de seu pai. Não pela pesca em si, mas pela arte de criar as moscas, desde criança. Ele usava penas e materiais encontrados nos arredores da sua casa, e logo passou a ser uma figura conhecida na comunidade local de fly fishing. Edwin estudava técnicas de fly tying, ou a criação das moscas, em livros antigos, da era vitoriana. Esses livros continham instruções passo a passo, e muitas receitas pediam o uso de penas exóticas. Infelizmente, muitos dos pássaros mencionados haviam sido extintos, sacrificados pela obsessão dos vitorianos pela moda de chapéus com penas. Como não tinha acesso aos leilões privados nos quais colecionadores vendiam penas raras por centenas de dólares. Edwin usava penas substitutas, de pássaros comuns. A frustração pesava. Sem as penas raras, ele não conseguia alcançar o patamar de fly tying no qual sonhava estar.

Optou, então, por se dedicar à música. Recebeu uma bolsa para tocar flauta na Academia Real de Música, em Londres. Passou a sonhar em comprar uma flauta nova, um instrumento da melhor qualidade. Uma flauta dourada. Mas Edwin não tinha dinheiro suficiente. Uniu, então, seu conhecimento do submundo das moscas com sua ganância. Sentou-se à frente do computador e criou um documento chamado “InvasãoMuseu.doc”. E, apesar de as coisas não terem corrido exatamente de acordo com o plano na noite do furto, teve êxito. Mas o menino prodígio da flauta e do fly tying não era exatamente o gênio do crime, e, depois de alguns meses, foi pego. Graças a seu advogado, que convenceu o juiz de que Edwin era autista e não tinha capacidade de diferenciar o certo e errado, ele não foi para a cadeia.

Foi um crime bizarro — um homem que roubou centenas de pássaros mortos para comprar uma flauta dourada. Mas e daí? E daí que Edwin cometeu um crime maior ao arrancar as etiquetas dos pássaros, que continha informações como o nome da espécie, sua origem, a data em que foi preservada e por quem. Assim, os animais deixaram de ser espécimes científicas e passaram a ser apenas… penas. Toda a informação relevante sobre essas espécies raras, algumas extintas, havia se perdido. O mundo empobreceu, nosso conhecimento esvaeceu, e os pobres pássaros foram vítimas de humanos obcecados em ter, colecionar, estudar, exibir, pescar e roubar. Tudo por uma flauta dourada.

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Com capa de Gleeson Paulino, registrada durante a festa de bate-bolas, no Rio de Janeiro, a Revista Amarello lança a edição Sonho.

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Como uma pessoa nascida nos anos 80, cresci escutando que o Brasil era o país do futuro.

Depois de quarenta anos, oito presidentes, dois impeachments, um sem-fim de escândalos, injustiças, impunidades e uma pandemia traumática, esse sonho ruiu. Não existe mais. E acredito que isso seja bom.

A perda da esperança nos coloca em um lugar de ação. É uma saída forçada da inércia tropical — algo que talvez tenha nos faltado nas últimas décadas.

Diante da tragédia moral e institucional que vivemos, gosto de me apegar à delicada imagem da inocência de uma criança, que continua acreditando em seu sonho mesmo depois de acordada.

É com essa delicadeza que tento olhar para o mundo ao meu redor, apesar da impermeabilidade causada pelos algoritmos digitais. Com lealdade aos que gosto, com um olhar carinhoso para os animais e para a natureza, sendo fiel à minha essência e acreditando nesta revista que você tem em mãos, há quinze anos. Assim, me jogo no abismo de sonhar um país mais igualitário entre raças, gêneros e classes. Um país que eu gostaria de viver e nunca vivi. Um país melhor, brasileiro como tem que ser, e não “um país do futuro”.

Chegou a hora de pararmos de sonhar, dormindo individualmente, e vivermos o sonho acordados coletivamente.

— Tomás Biagi Carvalho

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A mobilidade urbana é uma ferramenta de inclusão social imprescindível. Oferecer acesso facilitado e acessível a diferentes regiões e serviços é desempenhar um papel fundamental na garantia dos direitos de mobilidade e oportunidade para todos os cidadãos, independentemente de sua condição socioeconômica. Como prova de que a mobilidade urbana sempre chegará em quaisquer futuros com um tanque de importância cheio, ela segue sendo extremamente relevante à sociedade contemporânea, ganhando novas camadas de relevância na medida em que a sociedade avança de maneira desembestada. Em um mundo cada vez mais interconectado e marcado por desafios — tais quais a urbanização acelerada, a poluição e o congestionamento excessivo —, transporte público e companhia surgem como uma solução eficaz para promover a sustentabilidade, a equidade e a qualidade de vida nas cidades. 

O trânsito em São Paulo impacta a vida dos seus habitantes.

Nesse contexto, a necessidade de um sistema de transporte público eficiente e abrangente é mais premente do que nunca. 

Das possibilidades exploradas atualmente, parece inevitável pensar na implementação de novas políticas, como a famigerada Tarifa Zero, que só se nacionalizou de fato por aqui com as chamadas Jornadas de Junho de 2013. Essa abordagem, com a qual o transporte público seria gratuito para a população, busca enfrentar desafios como a congestão de tráfego, a poluição do ar e a desigualdade no acesso ao transporte. No panorama brasileiro, as dificuldades para a implementação da Tarifa Zero são acentuadas, principalmente em cidades de grande porte como São Paulo, palco principal das manifestações do Movimento Passe Livre ocorridas há uma década. As cidades brasileiras enfrentam barreiras estruturais, como a falta de investimento adequado em transporte público, a deficiência na infraestrutura e a falta de integração eficiente entre os modos de transporte. Além disso, a dependência do automóvel particular e a resistência política à mudança também são obstáculos significativos.

Um dos principais argumentos contrários ao transporte público gratuito é o financiamento. A gratuidade do transporte público demandaria um substancial investimento público, que poderia ser encarado como um ônus para os cofres municipais. Há preocupações de que a falta de receita proveniente das tarifas possa levar a uma deterioração dos serviços e a uma sobrecarga financeira para as autoridades responsáveis pelo transporte público. Outra dificuldade é conseguir atender o esperado aumento de demanda, o que exige investimento não apenas no aumento de frota, mas em infraestrutura urbana — incluindo faixas exclusivas, eliminação de vagas de estacionamento em vias onde passam ônibus, criação de sistemas de integração e transferência.

Tarifa Zero é uma proposta que ganhou destaque no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e um dos nomes associados a ela é o da política Luiza Erundina, prefeita da cidade de São Paulo entre 1989 e 1992 e uma defensora ardente do transporte público gratuito. Durante seu mandato, que aconteceu com o Partido dos Trabalhadores, foram realizados estudos e debates sobre a viabilidade da Tarifa Zero em São Paulo, o que popularizou a questão e fez com que a ideia fosse vista como uma possibilidade pelas pessoas. Antes, pouco se pensava sobre soluções como essas, descartadas de partida por serem tidas como inviáveis. A proposta foi amplamente discutida e despertou tanto apoio entusiasmado quanto críticas acaloradas. No entanto, toda ideia que desafia forças maiores sofre forte resistência e, devido a questões financeiras e políticas — e, não para a surpresa de ninguém, até pressão midiática —, a Tarifa Zero não foi implementada integralmente na cidade durante o mandato de Erundina. 

Apesar disso, como a boa iniciativa que é, o debate sobre a Tarifa Zero continuou a ecoar no cenário político brasileiro. Espera-se, inclusive, que tenha forte impacto nas eleições municipais deste ano. 

Luiza Erundina, com seu apoio à Tarifa Zero e outras iniciativas relacionadas à mobilidade urbana, deixou um legado de discussão e conscientização sobre a importância do transporte público acessível e de qualidade. Sua contribuição ajudou a colocar a questão em pauta, estimulando a busca por soluções inovadoras para os desafios da mobilidade urbana. 

E ela não está sozinha nessa. Há tanto políticos quanto pesquisadores que fazem coro à Erundina.

Enrique Peñalosa é um político colombiano conhecido por sua veia urbanista. Foi prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, e novamente entre 2016 e 2019. Peñalosa defende fortemente a isenção de tarifas como uma medida para garantir a equidade social e promover cidades mais inclusivas e sustentáveis. Durante seus mandatos, ele implementou políticas para tornar o transporte público acessível a todos os cidadãos.

“Uma cidade avançada não é aquela em que até os pobres usam carros, mas sim aquela em que até os ricos usam transporte público.”
Peñalosa na Ted Talk Why buses represent democracy in action (2013)

Bogotá tem uma população de 7,181 milhões de pessoas (2018). Getty Images

Susan Shaheen é uma pesquisadora estadunidense especializada em mobilidade compartilhada e inovação no transporte. Ela argumenta que o passe livre pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a utilização do transporte público, especialmente quando combinada com outras medidas, como o compartilhamento de veículos. Aprofundando-se no assunto, ela também chama a atenção para os cuidados que devemos tomar na automatização de processos, já que muitas vezes eles reproduzem imperfeições humanas.

“Precisamos pensar cuidadosamente sobre o que queremos dizer com equidade. (…) Se entrarmos em um futuro automatizado, onde temos aprendizado de máquina e inteligência artificial aprendendo com o motorista, preconceitos raciais podem ser incorporados aos algoritmos.”
Shaheen em entrevista para Iomob, em 2018

Judith Dellheim, que já esteve no Brasil algumas vezes em fóruns sobre mobilidade urbana, é uma pesquisadora alemã da Fundação Rosa Luxemburgo que aborda a questão da Tarifa Zero como uma forma de promover a justiça social e a sustentabilidade. Ela tem acompanhado as propostas de políticas de passe livre na Alemanha e estudado a dependência de seu país em relação à indústria automotiva.

“Na sociedade atual, com muita frequência, as cidades são planejadas de acordo com as necessidades dos proprietários de automóveis. E os poderes públicos – altamente endividados – investem anualmente muito mais por habitante em transporte individual motorizado do que em transporte público local.”
Delheim, no texto Tarifa Zero, a experiência europeia (2019)

No panorama global, aliás, a utilização do transporte público varia entre os países. Em algumas nações, como Alemanha, Suíça e Holanda, o transporte público é amplamente utilizado e bem integrado, com altos níveis de qualidade e eficiência. Em alguns casos, os sistemas de transporte público são parcialmente subsidiados pelo governo, o que reduz os custos para os usuários. No entanto, não existe uma abordagem única em relação à gratuidade do transporte público. Cada país adota diferentes modelos de financiamento e cobrança de tarifas, que vão de acordo com a viabilidade política, financeira e cultural daquela nação.

Na capital da Estônia, Tallinn, uma medida interessante foi implementada em 2013: os residentes da cidade podem usar o transporte público, incluindo ônibus, bondes e trens, mediante o pagamento de uma taxa de registro anual. Já a França, conhecida pela forte presença do Estado na vida prática dos seus cidadãos, tem o caso de Dunkirk: o transporte público na cidade, incluindo ônibus e trens regionais, tornou-se gratuito para todos os passageiros. Em um outro tipo de abordagem, a cidade de Bonn, na Alemanha, oferece um modelo híbrido de transporte público gratuito. Os estudantes e os passageiros com mais de 65 anos podem utilizar o transporte público gratuitamente, enquanto outros passageiros pagam uma tarifa reduzida. Essas abordagens têm como objetivo incentivar a utilização do transporte público e promover a sustentabilidade.

Um dos exemplos que mais chama a atenção, porém, é o de Estocolmo, capital da Suécia, que adotou uma abordagem diferente para tornar o transporte público mais acessível. A cidade introduziu um sistema de tarifas progressivas, em que o preço da passagem é calculado com base na renda dos passageiros. Dessa forma, aqueles com menor renda pagam menos ou até mesmo têm acesso gratuito ao transporte público.

O futuro da mobilidade urbana envolve a exploração de novas políticas, e cada caso deve ser pensado e planejado de maneira específica. Isso inclui a adoção ou não de novidades e tendências que estão moldando o futuro do transporte.

Veículos elétricos que produzem energia limpa são um exemplo: com a transição para veículos elétricos ganhando impulso em todo o mundo, as montadoras estão investindo pesadamente no desenvolvimento de carros elétricos e a infraestrutura de carregamento está sendo expandida. A mobilidade compartilhada é uma outra possibilidade: os serviços de compartilhamento de veículos, como carros, bicicletas e patinetes, estão se tornando cada vez mais populares. As pessoas estão optando por compartilhar veículos em vez de possuí-los individualmente, o que ajuda a reduzir o número de carros nas ruas e a diminuir a poluição. Além disso, estão surgindo plataformas que integram diferentes modos de transporte para oferecer soluções de mobilidade mais completas.

Mas, acima de tudo, a inteligência artificial é quem mais deve pesar nessas decisões e discussões. A tecnologia de veículos autônomos está progredindo rapidamente, e empresas de tecnologia e montadoras estão investindo nela para uso compartilhado de táxis autônomos e ônibus sem motorista. Essa tecnologia tem o potencial de melhorar a eficiência e a segurança do transporte, além de reduzir o congestionamento nas estradas. Da mesma maneira, a inteligência artificial está sendo aplicada ao gerenciamento de tráfego e ao planejamento urbano para otimizar o fluxo de veículos e melhorar a eficiência do transporte. Algoritmos avançados podem ajudar a prever padrões de tráfego, otimizar rotas de ônibus e sincronizar semáforos para reduzir o congestionamento e melhorar a fluidez do tráfego. 

Por essas e outras, as cidades estão investindo em infraestrutura conectada para melhorar a mobilidade urbana. Sensores e dispositivos inteligentes estão sendo usados para coletar dados em tempo real sobre o tráfego, qualidade do ar e uso de transporte público. Esses dados são usados para tomar decisões informadas sobre o planejamento urbano e melhorar a eficiência dos sistemas de transporte. À medida que a tecnologia avança e as demandas das cidades evoluem, é provável que novas inovações surjam, buscando criar sistemas de transporte mais sustentáveis, eficientes e acessíveis. 

Tomando os cuidados preconizados por Susan Shaheen, e sempre tendo a ética como fio condutor, a inteligência artificial pode levar a caminhos eficazes e mais abrangentes. 

No tecido intrincado das ruas urbanas, onde se cruzam sonhos, destinos e histórias, encontra-se a essência do direito de ir e vir do cidadão. Como cidade, tem-se o dever de tornar tangível essa aspiração, pavimentando caminhos que transcendam a mera mobilidade física. Nesse emaranhado de linhas, surge uma sinfonia de vidas em movimento, dançando em harmonia com o pulsar da cidade. 

Quando reconhecemos que a liberdade de deslocamento é mais do que uma necessidade prática, mas sim a própria poesia das nossas existências, somente então estaremos plenamente vivendo a verdadeira essência de uma mobilidade urbana inclusiva. Faz lembrar da frase da celebrada e saudosa Toni Morrison: “Eu sonho um sonho que me sonha de volta para mim.”

É possível. Mas é preciso fazer com que assim seja.

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“Temos que reconhecer que, apesar de estarmos na era das Grandes Recessões, da austeridade e da estagnação, o que define a vida no Ocidente são os problemas de excesso, não da falta. Nem sempre a sensação é essa — afinal, quem não quer, ou mesmo precisa, de mais dinheiro? —, mas o fato é que, comparados a nossos antepassados, vivemos em meio à superabundância.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Sinais dos tempos: antes, usávamos a palavra “conteúdo” para nos referirmos a uma abordagem de tema mais aprofundada ou mesmo como algo positivo que alguém possuía; hoje em dia, como um aceno cínico ao estado geral em que estamos, usamos a palavra para designar tudo aquilo, não importa o quê, que as redes sociais produzem. O “conteúdo”, feito bexiga de festa, vem se esvaziando, não sem fazer questão de soltar um barulho ao mesmo tempo estridente e moribundo.

Michael Bhaskar, em 2014. Foto: Bernd Hartung/ Frankfurter Buchmesse

Incrustados no excesso de informações dos dias atuais, envoltos sem direito de escolha nessa verdadeira contenda pela nossa atenção que faz com que cada visita ao celular se assemelhe a um desembarque violento em terras ocupadas, é essencial reconhecer a importância de se fazer escolhas conscientes que dizem respeito a conteúdo. Sob a névoa da guerra, o que consumir e o que não consumir? 

Existem duas razões principais que fundamentam essa necessidade: o gerenciamento do tempo (cada vez mais valioso) e a avaliação da relevância, qualidade e validade das informações recebidas. 

Considerando a limitação do tempo que temos disponível, é fundamental direcionar nossa atenção para aquilo que nos interessa e consideramos pertinentes. Se alguém se deixa levar, lá se vão horas e horas por dia num scroll infinito de informações extremamente descartáveis e pouca, para não dizer nenhuma, retenção de qualquer elucidação que em outro contexto seria válida. Nos tempos modernos — não exatamente iguais aos de Charles Chaplin, mas talvez mais análogos do que imaginamos num primeiro momento —, a inércia das redes sociais pode ser cruel. Com uma quantidade cada vez maior de conteúdos disponíveis, é inviável absorver tudo indiscriminadamente. Para que se cultive a saúde mental e se priorize alguma praticidade, desviar dos muitos dos estilhaços — numa lista rápida: postagens que retratam uma vida irreal e tóxica, influencers de qualquer tipo, pautas pouco desenvolvidas que se resumem às manchetes, notícias inexpressivas sobre o pé dessa ou daquela celebridade —, evitar que o jogo vire e que tudo nos consuma, é um mínimo.

Aos poucos estamos aprendendo, mas, sim, é verdade: nem tudo que chega até nós é factual ou representa uma opinião válida. Curioso pensar como muitas vezes obter uma informação em algum perfil do Instagram ou em qualquer site se assemelha ao que, antes, era ler algo no jornal, apesar deste estar cada vez mais desvalorizado. A lógica, ora, é praticamente a mesma: se está ali, se chegou até mim, então deve ser verdade. Porém, a lógica pregressa era um tanto mais sensata, já que, naqueles tempos — no vendaval do mundo digital, dizer “naqueles tempos” é pensar em praticamente tudo que está a mais de dois ou três anos de distância —, havia uma responsabilidade maior com o que era ou não noticiado, muito embora o poder manipulativo proveniente disso seja tão assustador quanto o das fake news atuais que nem se preocupam em parecer reais. A disseminação de desinformação e opiniões enviesadas é uma das realidade mais aterradores dos nossos tempos.

Desde o surgimento da internet e das mídias sociais, somos constantemente bombardeados por uma quantidade inimaginável de conteúdo. Notícias, artigos, vídeos, músicas, livros e tantos outros produtos, que, pelo volume exacerbado, chegam a ser nocivos, estão disponíveis em uma escala sem precedentes. Eleições já foram decididas tomando proveito disso e quem negar que elas têm papel crucial na formação de opiniões estará sendo, no mínimo, ingênuo. Portanto, é imprescindível desenvolver habilidades de avaliação crítica e discernimento para filtrar o conteúdo que encontramos. Isso envolve questionar a fonte das informações, verificar sua credibilidade, analisar diferentes perspectivas e considerar o contexto em que a informação está inserida. Ao fazer escolhas conscientes sobre o que ler, estamos adotando uma postura crítica e responsável em relação ao conhecimento que absorvemos.

Calma lá. Essa seleção criteriosa não significa fechar-se em uma bolha informativa ou limitar-se a apenas um ponto de vista. Pelo contrário, implica em buscar diversidade de fontes e opiniões, mas de forma consciente e fundamentada. Mais do que nunca, é de suma importância expor-se a diferentes perspectivas e ter acesso a informações confiáveis e embasadas, a fim de ampliar nossa compreensão e formar opiniões com base em ponderação, mas com um pequeno adendo: direcionar para o que nos é mais relevante, tanto pelas nossas predileções quanto pela necessidade de avaliar a qualidade e a validade das informações que nos chegam. Ao adotarmos uma abordagem consciente e crítica em relação à seleção de conteúdos, podemos otimizar nosso tempo, obter conhecimentos relevantes e desenvolver uma visão mais informada e equilibrada do mundo ao nosso redor.

Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso (2020), escrito por Michael Bhaskar, é um livro que explora a importância da curadoria, como uma forma de seleção proativa, em um mundo invadido por agentes com propósitos diversos, por vezes escusos. Como podemos navegar nesse oceano de excessos e encontrar valor e significado por meio da seleção? Como dar um sentido à loucura que é o bombardeamento de informações? Como é possível a abundância ser esmagadora e causar, paradoxalmente, uma sensação de esvaziamento?

“No contexto de excesso, curadoria não é só um modismo. Ela dá sentido ao mundo.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Bhaskar é um profissional reconhecido na área da curadoria e do mundo editorial. Sua experiência prática o levou a explorar a importância da seleção como um meio de filtrar e dar significado em meio ao fluxo constante de informações disponíveis. À medida que somos inundados por uma quantidade avassaladora de informações, produtos e opções, a seleção se torna um poderoso mecanismo de autopreservação, filtragem e atribuição de valor.

Nos últimos duzentos e poucos anos, projetamos sociedade e negócios para que não parem de crescer, para que continuem somando. Mas, atualmente, os acréscimos provocam mais mal do que bem. Se muitos problemas são decorrentes de criar mais, não teríamos motivos para questionar esse pressuposto? Vivemos em um mundo fragmentado: nossas vidas se espargem por essas e aquelas redes sociais, com porções que se rompem cada vez mais e causam um danoso desmembramento de vivências, de personalidades, de visões de mundo. No fim, neste mundo estilhaçado, somos nós retalhos, frações, meros vestígios. Versões que gostaríamos de ser, mas não somos.

Ao criar um certo ideal de vida plena e satisfatória que muitas vezes parece inalcançável, uma ideia que se vê salpicada aqui e ali, a cultura e a sociedade amplificam um sentimento generalizado de perda. Perda daquilo que nunca se teve; perda daquilo que nunca se foi — fragmentos que nunca serão o todo. 

Adam Phillips, um renomado psicanalista britânico, escreveu O que você é e o que você quer ser (2012), um livro que explora a natureza humana e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Partindo da ideia de que todos nós temos uma vida não vivida, uma vida alternativa que imaginamos ter se tivéssemos feito escolhas diferentes, ele argumenta que essa vida não vivida é uma fonte de angústia e sofrimento para muitas pessoas, pois dá a sensação de que estamos perdendo algo essencial e valioso. Mas questiona se devemos realmente nos lamentar por aquilo que não vivemos e propõe uma reflexão sobre a importância de abraçar as escolhas que fizemos e encontrar significado e satisfação na vida que temos.

“Como sabemos agora mais do que nunca sobre os tipos de vida que é possível viver (…), somos sempre assombrados pelo mito de nosso potencial, do que poderíamos ter em nós mesmos para ser ou fazer. Então, quando não estamos pensando, como o personagem do poema de Randall Jarrell, que ‘As maneiras pelas quais sentimos falta de nossas vidas é a vida’, estamos sofrendo, lamentando ou nos ressentindo por não sermos nós mesmos como imaginamos que poderíamos ser. Compartilhamos nossas vidas com as pessoas que deixamos de ser.”
Adam Phillips em O que você é e o que você quer ser

Adam Phillips, em 2017. Foto: Richard Saker/The Observer

Pensando nas escolhas que temos que fazer no que diz respeito ao que lemos e o que não lemos, aos vídeos que assistimos e aos que não assistimos, temos que saber que nem todas as vidas podem ser vividas. Inevitavelmente, algum assunto do momento passará batido — o que é bom. A curadoria motivada pela sobrevivência vai além da simples escolha, envolvendo também a capacidade de dar contexto, criar conexões e despertar emoções por meio das escolhas feitas. Talvez pareça algo simples, mas, diante do muito que vemos nas redes sociais e na mania que temos de optar pela manifestação célere ao invés de um momento de reflexão, não é algo que vem naturalmente. O natural é opinar sobre tudo, ao mesmo tempo, sempre que algum assunto amplamente discutido surgir — e, sim, ele vai surgir. Mas e se não fizéssemos isso?

É inevitável, e preocupante, o tanto que é possível nos enxergar na seguinte provocação: “Temos entretenimento constante, mas somos cada vez mais distraídos.”

Pensar no papel da seleção em um mundo abarrotado de informações é também refletir sobre como uma habilidade e um processo que pode nos auxiliar, e muito, na sinuosa navegação do mundo contemporâneo do excesso. 

“A curadoria é mal interpretada porque raramente é vista em todo o seu contexto. Curadoria tornou-se um modismo porque a ser resposta para uma série de problemas que antes não existiam: os problemas decorrentes do excesso. Há duzentos anos, vivemos num mundo que promove a criatividade, que busca o crescimento acima de tudo, que aumenta a produtividade sem dar trégua e que quer sempre mais: mais gente, mais recursos, mais dados, mais tudo. A cada dia que passa, porém, fica mais claro que estamos sobrecarregados.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais do que selecionar: dar contexto e significado aos conteúdos escolhidos. Bons curadores, no contexto artístico em que estamos acostumados, são capazes de contar histórias, criar conexões e despertar emoções por meio de suas seleções, certo? Não seria ótimo poder aplicar isso à vida cotidiana?

“Por sorte, a natureza do problema sugere uma resposta: já estamos vendo uma revolução na forma como abordamos o valor. Se o valor, pecuniário ou de outro tipo, antes tinha a ver com a produção primária, agora, num mundo que deixou de ser dominado pela escassez, ele mudou. Hoje o valor está em resolver esses problemas e reduzir a complexidade. Curadoria tem a ver com construir empresas e economias em menos opções — mais apropriadas, mais personalizadas. Essa é a diferença fundamental e a grande tendência subjacente que ainda estamos começando a entender.” 
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais e mais também pode significar menos e menos. Esse, na verdade, é um paradoxo comum da vida. Se você tem muitas amizades, isso talvez signifique que você não tem amizades profundas; se você consumir 7 livros por semanas, isso talvez signifique que você não vai lembrar de nenhum deles daqui a uma semana. 

O excesso, afinal, também é o vazio cada vez maior de espaços livres. Talvez, com um pouco de seleção, o cenário abarrotado possa se inverter. 

Menos é mais, less is more, e nem sempre pingar é melhor do que secar.

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Devido à pandemia, pela primeira vez em muito tempo nos vimos forçados a desafiar um modelo de trabalho há muito não questionado. Antes de tudo acontecer como aconteceu, o trabalho remoto estava fadado a eventualidades, guardado somente para casos extremos, como algum problema de saúde ou aquelas grandes chuvas capazes de parar metrôs e trens, impossibilitando o deslocamento do funcionário ao local de trabalho. Mas depois de um ano e pouco de pura ansiedade, a vacina e as suas doses de reforço vieram para acalmar os ânimos. Ainda que num contexto para lá de ruim, uma nova possibilidade foi apresentada às pessoas: ao contrário do que se imaginava, é possível trabalhar de casa — e com eficiência (até maior, a depender das circunstâncias). Como, então, voltar 100% ao trabalho presencial? Não se volta. Pelo menos não com a mesma soberania. Os números mostram que esse modelo de trabalho, antes uma maioridade acachapante, não voltou a reinar. O modelo preferencial de hoje em dia é o híbrido, que balança entre o remoto e o presencial, adotado amplamente por empresas do mundo todo. 

Presume-se que esse seja o futuro do trabalho e que, a partir dessa primeira grande mudança, outras virão, num processo contínuo de desencadeamento. 

Mas isso, claro, gera impactos relevantes na economia, tão assentada na logística que força as pessoas a usarem o transporte público, a comerem fora de casa e a frequentarem os comércios que circundam o local de trabalho. E quando a economia é afetada para pior, independentemente do quão positiva possa ser a mudança em termos humanos, a tendência é que a resistência seja das mais fortes, vindo inclusive de políticos poderosos pressionados por lobistas de todos os tipos. A título de exemplo, em janeiro deste ano a prefeita de Washington, Muriel Bowser, que atualmente cumpre o seu terceiro mandato no cargo, fez forte apelo ao presidente Joe Biden, dizendo que o trabalho remoto estaria “matando” a capital norte-americana. E no começo de 2022, o prefeito de Nova York, Eric Adams, direcionou um forte discurso à população novaiorquina, dizendo que “vocês não podem ficar de pijamas o dia inteiro”, pois “não é isso que somos enquanto cidade”.

Em parte, faz todo o sentido do mundo que os prefeitos de duas das maiores cidades dos EUA advoguem a favor daquilo que, num primeiro momento, parece melhor para a economia. Uma economia ruim, obviamente, não serve a ninguém e leva a problemas sociais sérios. Mas, ao mesmo tempo, é justamente por serem os prefeitos de duas megacidades que as falas ácidas chegam a impressionar. Seria de se esperar fossem estar um tanto mais abertos às novidades da vida profissional, ainda mais quando elas representam, em muitos casos, aumentos na produtividade e satisfação dos funcionários. 

Dentre os muitos argumentos em prol do trabalho remoto — como a liberdade e a comodidade para trabalhar de onde a pessoa bem entender —, um que ganha destaque é a economia, que chega perto de 40 mil reais anuais. Economiza-se um bocado com descolamento (seja ele feito com transporte público, carros de aplicativos ou com o combustível do automóvel próprio), outro bocado com alimentação e até um bocadinho com lazer. E é por conta dessa redução palpável de gasto, que, muito embora tenha o poder de colocar a vida financeira de alguém nos trilhos, o trabalho remoto representa um perigo para a economia das cidades, em especial as mais caras, como Nova York ou São Paulo. 

A política vem tentando entrar em jogo para interceder a favor dos seus e desacelerar aquilo que veem como uma ameaça à economia, mas o que mais paira no ar é a dúvida: será que o processo é mesmo reversível?

Antes da pandemia de Covid-19, apenas cerca de 7% dos negócios no país tinham empregados trabalhando à distância. Hoje, porém, de acordo com estudo feito pela FGV, o home office é adotado por 33% das empresas no Brasil. O número, claro, é menor do que era nos dois anos anteriores, quando a pandemia ainda estava no auge. Em 2021, 57,5% das empresas no Brasil  estavam trabalhando de forma remota, de forma parcial ou total, incluindo as que já adotavam essa modalidade antes de 2020. Em outubro de 2022, o percentual caiu para 32,7%.

Nos EUA, até 2019 apenas 4,7% do trabalho era feito em casa. Hoje, mais de um quarto dos estadunidenses cumprem jornada nessa modalidade. Em janeiro deste ano, 27,2% dos dias trabalhados cumpridos foram de forma remota, segundo a pesquisa Working From Home Research, um relatório mensal sobre o trabalho remoto.

Fato é que cabe aos líderes pensarem em estratégias para lidarem com as transformações inevitáveis da sociedade. Ao que tudo indica, o trabalho híbrido veio para ficar e, portanto, se o impacto na economia é uma realidade, os esforços devem ser direcionados para a elaboração de mecanismos de adaptação àquilo que é tido como problema. Solucionar não é barrar, e vice-versa. Se considerarmos que cada transformação tem seus próprios resultados, seja fortalecendo ou possivelmente enfraquecendo a economia, tentar frear todas as mudanças que se anunciam talvez não seja inteligente. Não em 2023. Num mundo altamente tecnológico que muda a cada dia, não é possível preconizar os modelos ultrapassados só por que eles operam a seu favor. 

O futuro do trabalho está com a boca cheia de promessas e, cada vez mais, ele tende a se distanciar daquilo tudo que vivemos até aqui, fazendo com que os reinados durem por menos tempo e aumentando a velocidade com que modus operandis e mentalidades entram na lista do “passado” do trabalho. Um tópico que vem ganhando força nos últimos tempos é a semana de 4 dias, certo? Se nem mesmo a semana de trabalho de 5 dias está segura nessa revolução, então nada está. Os símbolos que por tanto tempo reverenciamos começam a desbotar, tal qual a produtividade acima de tudo, e o melhor é abraçar os novos momentos, tomando deles o que potencializa as virtudes de uma empresa, de uma cidade, de uma pessoa. 

O que mais vem pela frente?

Wirearchy — O termo, que brinca com a palavra hierarchy (hierarquia), sugere uma fuga dos organogramas rígidos. Trata de empresas em que as pessoas, a partir da colaboração e da conexão possibilitada pela tecnologia, assumem a responsabilidade individual e coletiva, em vez de dependerem da hierarquia. É um fluxo dinâmico, de mão dupla de poder e autoridade, com base no conhecimento, confiança, credibilidade e foco em resultados. 

Inteligência Artificial — Talvez nenhum outro tema esteja tão em voga quanto esse. O Chat GPT mal chegou e já há um sentimento de estafa em cima dele. Quem abrir o LinkedIn e, numa primeira batida de olhos, não se deparar com matérias e comentários sobre essa IA que atire a primeira pedra. É só uma questão de tempo até que a automatização faça parte de mais e mais empresas, fazendo com que o toque humano seja buscado em áreas que a inteligência artificial ainda não chega. Devemos, então, desenvolver competências e capacidades tecnológicas necessárias para o sucesso da colaboração e convivência entre os seres humanos e robôs.

9h às 18h? — O que realmente importa é a entrega, não os horários em que se bate o ponto. Parece simples, mas até há pouco isso soava como um sonho distante. Atualmente, a tendência é que as pessoas tenham cada vez mais liberdade para definir os horários e até os dias de sua jornada de trabalho. É claro que, para funcionar, esse é um modelo que passa pelo bom senso das pessoas também, que precisam ter em mente que, mesmo com toda a liberdade do mundo, nem sempre a agenda própria vai ser seguida. De vez em quando será necessário se fazer disponível, seja em momentos críticos ou quando o trabalho conjunto é imperativo, independentemente que isso fuja da rotina pré-estabelecida.

Tudo isso, semana de 4 dias inclusa, tem um impacto. Nem sempre será positivo, nem sempre será negativo. Mas será. Se nenhum desses novos capítulos representar uma recessão econômica, melhor ainda. O capitalismo, aliás, também está sendo posto à prova na medida em que, a galope, entramos na quarta revolução tecnológica. O quadro de transformações aponta uma renovação de valores que já não condiz com o arcabouço ideológico que fez o capitalismo prosperar por tanto tempo. Nada está garantido, a não ser que novos tempos batem à porta.

Vivemos um importante momento de transição e de definição. E, em termos de progresso, não há nada pior do que fechar os olhos para os fatos.

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A Casa de Marimbondo é uma nova e promissora marca sergipana de mobiliários e artefatos brasileiros. Emergindo como uma ode à tradição entrelaçada com uma visão contemporânea, ela traz consigo um vínculo íntimo entre o artesanato ancestral e a expressão moderna do design. Sua primeira coleção, de objetos do cotidiano e da cultura do pantanal sergipano, carrega muito desse propósito, sendo inspirada na natureza orgânica e comunitária do povoado do Tigre, em Pacatuba, onde mantemos a tradição originária de viver no tempo e do que a natureza oferece. 

Prometendo carregar o bastião do design trançado em tradições atemporais, a marca floresce sob a parceria entre a multiartista Naná Oliveira e a arquiteta Giovanna Arruda.

Giovanna é responsável por traduzir o bioma, concretizando o sentir do ambiente em artefatos e mobiliários. Como arquiteta, indica o espaço, direciona os tamanhos e formas do que está sendo produzido.

“No caso da Casa de Marimbondo”, conta a arquiteta, “falar sobre tradição não está diretamente ligado ao desenho e funcionalidade do mobiliário de forma isolada, nós prezamos pela singeleza da estrutura para que o trabalho artesanal seja o protagonista. Ele traz a preservação dos modos de vida, manualidades e memórias, antecedendo a chegada dos mobiliários ao Brasil durante os processos migratórios, que foram sendo adaptados à disponibilidade de nossas matérias primas.

Em um período em que tudo pode ser replicado de forma muito rápida, lidar com os processos artesanais, o tempo das pessoas e da natureza é um desafio. São nesses processos de produção, principalmente os que não têm o auxílio de maquinário, onde cada artesão imprime sua personalidade nas peças. É inegável perceber a riqueza de autenticidade e originalidade das artesanias produzidas nas comunidades tradicionais do país, sobretudo no norte e nordeste. Neste espaço, queremos ser protagonistas tanto na fabricação quanto na narrativa do que se é produzido aqui.”

E se Giovanna cuida da parte mais técnica do empreendimento, Naná é quem cuida da parte mais espiritual. Junto com a comunidade na feitura das peças, ela traça a palha, trama ideias e comunica o passado de tradição com o presente de preservação.

“Sem a comunidade e sua bagagem histórica”, diz ela, “não haveria criação de mobiliário e artefatos. É a partir dos modos de vida e da influência direta do bioma local que a comunidade do povoado Tigre manifesta sua arte. Para explicar de forma mais didática, precisamos compreender a formação das famílias e detalhar como as pessoas lidam com a natureza ao seu redor. Naquele território, se pesca na costa oceânica, se marisca nos muitos e grandes lagos, extraem taboa dos pântanos e lagoas, se planta e se cria animais. Para toda lida baseada no extrativismo e agricultura familiar, é necessário a criação de artefatos e é nesse momento que se percebe a sabedoria e criatividade de um povo. Foi a esse cenário que a Casa de Marimbondo trouxe um olhar contemporâneo.”

Nesse universo de criação que evoca energias de épocas e entidades distintas, cada objeto é mais do que uma simples peça — é um testemunho da relação simbiótica entre o artesão e a matéria-prima, entre a tradição e a inovação. No caso da coleção de Pacatuba, símbolos do cotidiano da comunidade são transmutados em artefatos que transcendem sua utilidade original: o puçá que as mulheres usam para mariscar, o tear onde é trançada a taboa e o barco utilizado para retirar as fibras naturais das lagoas transformam-se em ícones de um legado vivo.

“Sempre dizemos que o artesanato é o fio condutor entre um povo e sua cultura”, escreve a marca em suas redes sociais. “É através da manualidade que materializamos o que vemos ao nosso redor, que transformamos a necessidade da vida em arte.”

Naná Oliveira em foto de Victoria Araújo.

A jornada criativa da Casa de Marimbondo é tecida com fios de taboa e o suporte do vergalhão. A taboa é uma planta aquática que vive de mãos dadas em suas raízes, envolvendo-se umas com as outras. Sua flor é um espigão de farta quantidade de sementes, que se dissipam com o sopro do vento. Em sua exuberância natural, passa por três etapas para compor as formas e texturas das peças. 

Na colheita, é preciso ter força e sabedoria para dar um talho na taboa, com precisão, rente ao chão. No desfiar, usa-se o método mais condizente com o que será produzido: o desfiar de cabeça, um trabalho mais denso, é usado para cestos e esteiras, ao passo que o desfiar fino e preciso na lateral da planta é para tranças em sua delicadeza natural. A etapa final é o trançar, momento pessoal do processo, em que todas essas histórias são contadas em forma artesanal. Enquanto isso, o vergalhão, haste de aço que faz parte dos mobiliários interioranos pelo seu baixo custo e longevidade, molda a estrutura dos mobiliários com sua simplicidade e robustez, conferindo-lhes durabilidade e caráter.

E a esses processos e materiais se soma a vontade superior e inquestionável da vida natural. Como também escreve em suas redes sociais, a marca “trabalha no tempo da natureza. É a chuva que enche as lagoas e o sol que baixa as águas. É a natureza que nos diz o tempo do corte, do desfiar, secar, de criar e trançar nossos mobiliários.” Há nas produções da Casa de Marimbondo, portanto, aquela aura mística e insubstituível do que vem das entranhas verdes de nossas terras. Independentemente de onde elas estejam, o espírito do biossistema se faz presente, pronunciando-se através de uma forma final que respeita seu poderio intrínseco.

A colaboração entre Naná e Giovanna adentra um território onde a história e a identidade se entrelaçam. Cada etapa do processo de criação é permeada por uma profunda devoção pela tradição, enquanto simultaneamente se busca explorar novas possibilidades e interpretações. Das mãos habilidosas das artesãs à mente visionária da arquiteta, surge uma síntese harmoniosa entre passado e presente.

“A arte é a representação do cotidiano de cada comunidade, de cada povo. É necessário viver para compreender o território. O povo que vive ali cria seus modos de viver e sua própria estética a partir da necessidade cotidiana. Tudo está conectado, a natureza e a comunidade. O artesanato existe para suprir as necessidades cotidianas. Quando a arte popular da comunidade é preservada, toda a história do lugar se mantém viva.”
— Naná Oliveira

Ao contemplar as peças da Casa de Marimbondo, somos convidados a mergulhar em um universo onde a beleza reside na simplicidade, onde a herança cultural se mescla com a estética contemporânea. Cada cadeira, espreguiçadeira e tamborete é um elo entre gerações, uma manifestação exuberante da resiliência e da criatividade de um povo.

“Assim como a culinária e a música, o artesanato é uma das formas de conhecer mais sobre um povo. Por meio dele é possível verificar se sua origem é fruto de inquietações artísticas comunitárias ou pessoais, se surgiu para suprir alguma necessidade cotidiana. Percebemos o porquê da mesma matéria prima ser esmiuçada em um determinado local de um jeito e em outro lugar de outro completamente diferente. Também quais as lutas e anseios daquele povo e a forma como vivem.”
— Giovanna Arruda

Assim, a Casa de Marimbondo ergue-se como um farol de esperança e prosperidade, oferecendo sobretudo oportunidades de empoderamento e sustento para as mulheres das comunidades tradicionais nordestinas. Em cada trançado, ecoa o espírito resiliente e vibrante de Pacatuba e outros pontos, convidando-nos a celebrar a riqueza da cultura brasileira em sua forma mais autêntica e inspiradora.

Como a própria marca carrega em seu slogan: aquilo que se convencionou ser chamado de design, elas preferem chamar de tradição.

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Esse cenário tão prolífico e indispensável de não tanto tempo atrás está passando por uma mudança sísmica, onde os números estrondosos de visualizações estão sendo substituídos por uma paisagem mais fragmentada e desafiadora. Após o declínio das vendas de CDs no final dos anos 2000, o YouTube emergiu como uma métrica crucial de sucesso e os números de visualizações de videoclipes pareciam estar em constante ascensão. No entanto, agora nos encontramos em um momento em que até mesmo os gigantes do pop estão lutando para manter a relevância e o engajamento com suas produções visuais.

Um exemplo marcante desse declínio é o contraste entre os videoclipes de artistas como BTS, Beyoncé e Drake, que conseguiram no passado atingir cifras estratosféricas de visualizações mas que, no presente, já não conseguem reproduzir tamanha relevância com esse formato. A grande questão é: eles continuam tão populares quanto antes. E isso só pode significar uma coisa: houve uma mudança de mentalidade, mesmo para as pessoas mais fanáticas. Algumas dessas estrelas, inclusive, já decidiram parar de fazer clipes tradicionais. O novo álbum da Queen B, Cowboy Carter, foi lançado recentemente e… nada de clipe. Ou melhor, ela lançou o que a indústria chama de “visualizers”, que, no fim, não deixam de ser videoclipes, mas são consideravelmente menos complexos e sem muitas pretensões. Com Texas Hold ‘Em, uma música central de trabalho do novo disco, foi assim. Nada daquele clipe elaborado que seria de se esperar há 10 anos, quando canais de videoclipes resistiam na televisão, na era que antecedeu o boom dos streamings e do reinado TikTok.

Foi-se o tempo de grandes clipes musicais como Thriller do Michael Jackson, dirigido por John Landis, ou Dancing in the Dark, hit de Bruce Springsteen, dirigido por Brian De Palma. Essas obras tinham a liberdade para serem o que quisessem ser e, por conta disso, ditavam tendência e definiam toda uma época. Os anos 1980 foram marcados por inúmeros clipes dessa estirpe: Take On Me, A-Ha; Like A Prayer, da Madonna; Once in a Lifetime, do Talking Heads; Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler; Welcome to the Jungle, do Guns N’ Roses; e tantos outros. Aqui no Brasil, os anos 1990 tiveram o seu auge de videoclipes marcantes, como Diário De Um Detento, dos Racionais, dirigido por Maurício Eça, e Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero), canção d’O Rappa com direção de Luciano Vidigal. 

Há não muito tempo, os clipes reinavam com ainda mais força do que nos anos 80 e 90, devido à abrangência sem precedentes do YouTube, que permitia com que as pessoas assistissem aos clipes que desejavam, na hora que quisessem, quantas vezes lhes desse na telha. Mas algo no meio do caminho mudou tudo. O quê?

Uma das razões por trás desse fenômeno é a mudança no comportamento do público. Em um mundo inundado de informações e entretenimento instantâneo, manter a atenção do espectador por toda a duração de um videoclipe tornou-se uma tarefa hercúlea, mesmo que você seja uma Billie Eilish ou uma Olivia Rodrigo. Se o vídeo matou a estrela do rádio, o scrolling matou as estrelas dos videoclipes. Se lançado nos dias de hoje, ninguém saberia os passinhos feitos pelos zumbis de Thriller e as marias-chiquinhas colegiais de Britney Spears em Baby One More Time não causariam tanto furor. A ascensão do TikTok como uma plataforma dominante para o compartilhamento de conteúdo musical contribuiu ainda mais para essa mudança de paradigma, onde os vídeos curtos e virais dominam a paisagem digital. Hoje em dia, mais vale uma dancinha de segundos feita no quarto de casa do que um grande número musical de quatro minutos. Da perspectiva de um artista popular, é compreensível, já que esse tipo de divulgação natural dá muito mais retorno e não custa nada. 

Além disso, a própria indústria musical está passando por uma transformação radical. Há uma contenda famosa e contínua entre artistas e serviços de streaming: os artistas ganham quase nada com Spotify, mesmo aqueles com bilhões de plays, mas, sem a plataforma, sem dúvida a mais popular delas, não são tão ouvidos. E, se isso vale para os gigantes, vale em dobro para os pigmeus, que se agarram aos seus poucos ouvintes para fazer shows menores em casas locais. O conflito por si só gera um atrito que acaba mudando o modus operandi geral, criando um senso de cautela maior. Os orçamentos para videoclipes, quando existem, estão encolhendo, e os diretores estão sendo desafiados a fazer mais com menos — eis os tais visualizers. Outra solução para isso, que entrega tanto economia quanto eficiência, é o lyric video, uma produção de motion design que apresenta a letra da música com alguma elaboração gráfica. Claro que, enquanto produto artístico, nem os visualizers e nem os lyric videos chegam aos pés das ambições por trás dos videoclipes tradicionais. Então, fica uma sensação de perda.

“A própria indústria musical está passando por uma transformação radical. Há uma contenda famosa e contínua entre artistas e serviços de streaming”

No entanto, mesmo diante desses desafios, há uma crença persistente na importância dos videoclipes como uma forma de arte. As novas gerações podem estar distraídas demais para assistir a um clipe, e elas são as que costumam jogar números nas alturas, mas muita gente que já se impactou por esse ou aquele videoclipe ainda está aí, como mercado consumidor. Talvez, hoje, um videoclipe não valha mais tanto a pena. Mas o que se pensa é que, nos ciclos inevitáveis da cultura, eles voltem à baila. Assim esperamos, ao menos, porque eles têm o poder de criar momentos visuais que ressoam com os espectadores e transcendem o tempo e o espaço. Por que outra razão se não essa ainda estamos assistindo ao clipe de Gangnam Style ou de Bad Romance? Ou de Bohemian Rhapsody? Dos visuais icônicos de artistas como Spike Jonze, que dirigiu clipes para bandas como os Beastie Boys, aos cenários deslumbrantes feitos para Bjork nas colaborações com Michel Gondry, os videoclipes têm o potencial de se tornarem marcos culturais que definem uma geração.

Fica a dúvida: os videoclipes podem sobreviver e prosperar neste novo cenário digital? Claro que sim. Mas adaptações precisarão ser feitas. Uma delas foi anunciada recentemente: o Spotify agora está passando clipes. Muito embora isso queira dizer que essas produções serão consumidas pela tela de um celular, o que incomodaria muitos realizadores, a tendência é que sejam mais vistas. Ao menos parte delas. É um sinal dos tempos, mas é o que é.

No final das contas, acima de lucros ou prejuízos, a indústria musical deveria continuar a apoiar e investir na produção de videoclipes de alta qualidade. Por quê? Mais do que nunca, precisamos de algo que nos fascine verdadeiramente. No TikTok, não acharemos isso. À medida que nos aprofundamos no vórtex sem fim de pequenos vídeos vistos pela tela do celular, sem ver ou sentir a vida passar, esquecemos da intensidade e complexidade dos nossos sentimentos — algo que um videoclipe tem o poder de traduzir, visto que sua função primária é representar as principais sensações contidas naquela canção. Precisamos nos entregar novamente ao que quer que esteja dentro de nós, deixando a passividade de lado. 

Precisamos disso, nem que seja por míseros três minutos e meio

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“Além da extraordinária perspicácia, a grande amplitude de visão desse homem e o fato de que ele mesmo estava de tal maneira no controle de um grande movimento se faziam sentir, especialmente em público. Presenciei esse aspecto de Freud nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, nas quais esse homem aparentava ser um gigante em meio a pigmeus.”

Sigmund Freud por Max Halberstadt (Domínio público via Wikimedia Commons).

Ler isso, e tendo ouvido o nome “Freud” pipocar aqui e ali nos mais variados contextos, faz surgir a pergunta: como devia ser a experiência dos pacientes do criador da psicanálise? Abram Kardiner, psiquiatra e psicanalista americano, mata um pouco dessa curiosidade no livro Minha Análise com Freud, lançado recentemente pela editora Quina. 

É verdade que, no caso de Kardiner, ele teve a oportunidade por ser um prodígio no mundo da psicologia e sua análise, portanto, serviria mais como um testemunho de como Freud aplicava sua psicanálise na prática e menos como uma terapia contínua. Mas, ainda assim, foi uma jornada que gerou um contato próximo com uma das pessoas mais influentes da história recente da humanidade.

“Poucas pessoas tiveram o privilégio de ser analisadas pelo próprio Freud. (…) Se eu fosse mais jovem, hesitaria em revelar os fatos biográficos necessários para essa empreitada. Em minha idade, no entanto, o que importa não é tanto dar uma contribuição à Freudiana, sobre a qual já existe material abundante. Minha motivação é um pouco diferente – revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.”

O psiquiatra Abram Kardiner (Bernard Gotfryd | Library of Congress)

Para se ter uma ideia de quem foi Abram Kardiner e entender o porquê dele ter sido selecionado para uma experiência como essa, basta citar alguns de seus feitos posteriores: foi responsável por promover estudos revolucionários sobre as interseções entre a psicanálise e a antropologia, além de ter feito contribuições seminais para a compreensão dos efeitos psicológicos do trauma e do estresse social, ajudando a estabelecer os fundamentos para o estudo moderno do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Embora nem sempre tão reconhecido, ajudou a expandir a psicanálise para além das fronteiras da psicoterapia individual.

Minha Análise com Freud, lançado fora do Brasil originalmente nos anos 1970, tem como força os trechos pessoais e reveladores do próprio autor, que compartilha suas experiências durante a análise entre 1921 e 1922, assim como suas reflexões sobre Freud enquanto analista e pessoa. Como o autor escreve no prefácio, a obra se caracteriza não como uma especulação sobre a teoria freudiana, mas por “revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.” Não à toa, um dos aspectos mais interessantes do livro é a análise crítica que Kardiner faz da própria análise que o dr. Freud está conduzindo. Ele discute sua técnica, apontando tanto suas virtudes quanto suas limitações. 

Revela, por exemplo, como Freud utilizava o complexo de Édipo como estrutura central da análise, mas também como se desviava de sua teoria da libido em determinados momentos. “Ele praticamente não falou nada sobre o erotismo anal, exceto de passagem (…). Em outras palavras, a análise foi iniciada com o complexo de Édipo, a derivação da constelação de dependência, com sua homossexualidade inconsciente, como uma das resoluções dos fracassos para resolver o complexo de Édipo satisfatoriamente, em cujo estado Freud me encontrou.”

Porém, ainda que cutuque uma ou outra atitude do psicanalista, Kardiner reconhece o “gigante entre pigmeus” quando escreve sobre a abordagem terapêutica de Freud, destacando sua habilidade única na interpretação dos sonhos e nas associações livres. Diferente dos outros, ele não lançava mão dos discursos inacessíveis, a genialidade de Freud também se manifestava ao fazer interpretações em linguagem comum, sem se prender excessivamente a formulações teóricas: “O que tornou Freud um analista extraordinário foi o fato de, pelo menos naquela época, ele nunca utilizar formulações teóricas, fazendo suas interpretações em linguagem comum.”

Ao longo do texto, Kardiner compartilha insights valiosos não apenas sobre Freud, mas também sobre o contexto histórico e cultural da Viena do início do século XX. Ele destaca a influência da psicanálise na sociedade da época e levanta a bola para falar das tensões e rivalidades entre os principais nomes do movimento psicanalítico, como Alfred Adler. Chega a ser curioso imaginar essas pessoas carregando qualquer tipo de rivalidade, mas acaba sendo um deleite. “Na verdade, não havia muitos psicanalistas – talvez uns quinze ou vinte –, mas todos eles tinham de passar por Freud, de modo que ele tinha um grande controle tanto sobre os aspectos econômicos quanto sobre o progresso do grupo. Não se podia deixar de reconhecer que essa influência era perniciosa, uma vez que também criava um bocado de rivalidade, brigas internas e manobras entre seus discípulos, levando a que se bajulasse aquele que era o grande provedor.”

Com sua narrativa envolvente e análises perspicazes, Abram Kardiner nos leva pelas profundezas da mente humana, principalmente na sua. No meio disso, nos convida a refletir sobre o legado duradouro de Sigmund Freud, o que talvez seja o que a obra tenha de mais instigante. 

Hoje em dia, a psicanálise continua a ser uma influência significativa no campo da psicologia e da psicoterapia, embora tenha enfrentado críticas e desafios ao longo dos anos. Muitos terapeutas ainda utilizam conceitos fundamentais da psicanálise, como o inconsciente, a transferência e a interpretação dos processos mentais, como base para sua prática clínica. A psicóloga Karin Silva1 acredita “ser importante considerar que Freud rompeu com paradigmas científicos muito fortes da sociedade da qual fazia parte e daquele cenário histórico”, sendo inegável “que a teoria psicanalítica freudiana trouxe contribuições singulares para o campo da psicologia em geral ao propor um método que valorizasse mais a singularidade e a complexidade dos processos subjetivos.”

No entanto, a abordagem psicanalítica evoluiu e se diversificou, incorporando ideias de outras escolas de pensamento, como a psicologia humanista, a terapia cognitivo-comportamental e a psicologia positiva. Essa integração de diferentes perspectivas permite uma abordagem mais holística e flexível, adaptada às necessidades individuais dos pacientes.

Dentro da comunidade científica e acadêmica, a psicanálise tem sido objeto de críticas e debates, especialmente em relação à sua eficácia em comparação com abordagens mais orientadas para evidências. Apesar disso, muitos defensores da psicanálise argumentam que sua ênfase na compreensão profunda dos processos mentais e emocionais, bem como na relação terapêutica, oferece benefícios únicos que podem não ser captados por métodos exatos. Na visão de Karin, “a psicanálise é injustiçada no campo das ciências quando dizem que ela não é científica devido ao fato dela não reproduzir um modelo de ciência parecido com o das ciências naturais e exatas.” 

Ao refletir sobre o futuro da psicanálise, isso nos anos 1970, o próprio Abram Kardiner escreve: “Devemos aprender a diagnosticar as doenças do nosso tempo e aquilo que está acontecendo na mente humana, numa cultura cujos padrões básicos estão se alterando a uma velocidade estrondosa.”

E Karin endossa sua opinião, voltando os olhos, inclusive, para o Brasil: “O fato da psicanálise ter sido criada no período Moderno em uma sociedade europeia voltada para as elites, pouco foi considerado na disseminação desta abordagem no Brasil. Por essa razão, por muito tempo e muitas vezes ainda na atualidade, a psicanálise pode apresentar uma leitura reducionista e individualista da subjetividade. Isso porque a realidade da maior parte da população brasileira, que é negra e/ou pertencente a classes populares, vivencia dilemas e problemáticas muito diferentes do público considerado por Freud na elaboração das suas teorias. Não é à toa que, por muito tempo com o aval da psicanálise freudiana, a psicologia no Brasil foi reduzida à psicologia clínica e acessada somente pelo público elitizado, os únicos com condição financeira e tempo para falar sobre suas aflições.”

O Sigmund Freud pintado por Kardiner de fato temia pelo futuro da psicanálise. Ele tinha medo de que ela fosse ficar restringida — daí a importância das adaptações temporais, culturais e socioeconômicas. Portanto, para além de sua leitura agradável e acessível, Minha análise com Freud serve como um lembrete de que, mesmo em uma era de avanços tecnológicos e mudanças sociais rápidas, as questões fundamentais da psique humana permanecem profundamente arraigadas e requerem uma exploração contínua e sensível para alcançar uma compreensão mais profunda e um bem-estar emocional duradouro. 

Com esse livro, publicado no Brasil pela primeira vez, conseguimos vislumbrar um pouco da experiência de ser analisado por um fundador do seu campo de conhecimento — e, a partir daí, vislumbramos também a ressignificação sempre necessária de seu corpo teórico.

Mesmo presentemente, a psicanálise carrega uma responsabilidade para com as pessoas, sendo a oportunidade para um renascimento depois que todos os impedimentos tivessem sido removidos. Adaptando-se a novos divãs e a novas realidades, ela pode “fazer o bem”, da forma como Freud e Kardiner acreditavam que ela era capaz.


1Karin Silva, mestre e doutoranda em psicologia, é psicóloga clínica e social (psicologakarinjuliana@gmail.com / @_profpsi)

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Em sua busca de desvendar as narrativas do Brasil, a Amarello apresenta Deságue, um filme de Pedro Perdigão.

Se você quer mergulhar em uma história legitimamente brasileira, Deságue é uma bela oportunidade. Realizado em película, o filme de Pedro Perdigão nada pelas águas do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, onde a natureza exuberante da região serve como pano de fundo para um enredo enraizado em mitos e mistérios brasileiros. Narrando a jornada de dois pescadores cujas vidas são entrelaçadas por uma figura mítica, a obra lida com temas que estão cravados na tessitura da cultura nacional. 

A proposta de se debruçar sobre uma parte importante do imaginário coletivo do país direciona nossos olhos para uma narrativa ancestral, profundamente conectada à própria essência do rio. As lendas do Rio São Francisco, transmitidas oralmente através das gerações, desempenham um papel crucial no ideário brasileiro, servindo como uma fonte de identidade cultural e conexão com o passado.

Estas lendas, muitas vezes envolvendo seres mitológicos como Boitatá, Curupira e Iara, são fundamentais para a compreensão da relação do povo brasileiro com a natureza e com suas próprias origens. Elas não apenas enriquecem as narrativas regionais, mas também refletem a riqueza e diversidade da cultura brasileira como um todo. Assim, o filme não apenas conta uma história singular, pouco traduzida para o formato audiovisual, mas também se insere em um contexto mais amplo de tradição e folclore, contribuindo para a preservação e celebração dessas lendas tão preciosas para a identidade nacional.

Além da narrativa e da poesia visual, Deságue é enriquecido pela poesia que permeia cada cena, com a narração de um sonoro poema dividido em três partes: “Nasceu pro rio”, “A água sussurrou” e “Segredos que só o rio sabe”. A título de exemplo, em um desses momentos, o poema evoca a emoção e a conexão dos habitantes ribeirinhos com o Rio São Francisco:

“O menino escuta a história de um tio ou de uma avó
O pai saiu de jangada e a jangada voltou só”

Essas seções, entrelaçadas com as imagens deslumbrantes captadas em película, transportam os espectadores para um universo mágico onde o tempo parece desacelerar, permitindo uma imersão completa nas histórias e mistérios do rio.

Para falar sobre o filme e refletir sobre os seus desafios e significados, conversamos com o diretor Pedro Perdigão.

Qual o significado de fazer um filme como esse, que evoca a mitologia das águas, em tempos tão rápidos e tão propensos a esquecer do passado como os atuais?

Pedro Perdigão: Colaborar com a Amarello, principalmente em um tema como esse, nos coloca em uma posição de proximidade com as raízes do nosso país. É lindo pensar quantas histórias existem ou ainda podem existir no nosso imaginário como território. Mais lindo ainda é pensar como elas são capazes de atravessar gerações e provocar múltiplas interpretações. Nosso filme é apenas mais uma dessas possíveis interpretações.

O Rio São Francisco, claro, desempenha um papel central na narrativa. Como entrar em contato com o espírito do Rio São Francisco? E a pergunta vale tanto em termos pessoais quanto de realização audiovisual, se é que não são os mesmos. 

PP: Realmente esses termos se confundem, se embaralham – formam um grande borrão. Sempre aprendi a ter um respeito enorme pela força das águas. Seja no mar ou em rios. O Rio São Francisco tem segredos que só ele sabe, ele é um universo grandioso. Foram duas maneiras principais que me pegaram: escutando as pessoas que ali vivem e navegam; e mergulhando no Rio aberto ao seus atravessamentos. 

Conte um pouco sobre os porquês da escolha de filmar em película.

PP: Venho da fotografia, de uma prática que valoriza as texturas, sensações e atmosferas. Filmar em película me ajuda a encontrar esses caminhos. Outro motivo fundamental são as restrições que a película promove. No set precisamos ser precisos. Valorizo muito o improviso, mas a película nos faz escolher bem o que rodar, nos faz estar atento ao que o lugar nos apresenta em relação a luz, atmosfera e paisagem. Faz os atores estarem próximos do que precisam transmitir. Faz com que todos os colaboradores do filme estejam perto de suas funções.

Pensando que o roteiro divide a história em 3 partes, quais os desafios de se filmar cada uma delas com características particulares mas, ao mesmo tempo, fazer com que elas se conversem e se complementem?

PP: O filme precisa estar na cabeça durante todo o processo. Isso amarra tudo. O projeto vai levantando perguntas o tempo todo. São as pequenas escolhas em todas as etapas que vão moldando o filme. Usamos alguns recursos diferentes para evidenciar as diferentes atmosferas que gostaríamos de transmitir em cada parte. Essas escolhas podem vir durante a filmagem ou nas etapas de pós. 

O filme tem elementos que você explorou em outros momentos da sua carreira, como a vermelhidão que se apodera da tela quando a figura mítica aparece. Aqui esses elementos são elevados a níveis mais profundos. Você vê “Deságue” como um ponto culminante da sua trajetória profissional?

PP: Todo exercício me leva a uma direção. ‘Deságue’ tem uma grande importância para mim por todo seu processo. Ele me lembra a maneira que mais gosto de fazer filmes – uma história que provoca, perto de pessoas inspiradoras, em contato com um lugar de força maior, poucas pessoas no set e muita vontade de todos em realizar – do pré ao pós. Fazer um filme é algo muito colaborativo, e isso me move. Agradeço muito a todos que entraram nesse processo conosco. 

Como você entende o papel do cinema, e da arte como um todo, em explorar e preservar as tradições e mitologias culturais?

PP: Entendo como algo que faz você querer chegar perto.


DESÁGUE
Um filme de Pedro Perdigão
Narrado por Zé Manoel

Roteiro – Tadeu Bijos
Direção criativa – Tomás Biagi Carvalho
Direção de fotografia – Daniel Venosa
Elenco Nirvana Gonçalves de Souza, Alan Fontes e Luciano Pedro Ferreira de Lima 
Beleza – Dindi Hojah
Figurino – David Pollak
Cauda sereia – Thiá Sguoti
Trilha sonora – Fred Demarca e Marcelo Gerab
Sonorização e Mixagem Final – Marcelo Gerab
Músicas – Fred Demarca
Montagem – Luca Narracci, edt.
Cor e Animações – Flip
VFX – Cajamanga
Produção executiva – Marina Ferriani
Gráficos – Mateus Acioli
Assistente de roteiro – Antônio Pedro Ferraz
Primeiro assistente de câmera – Gabriel Moska
Assistente de direção/produção – Matheus Nascimento Monteiro
Ordem do dia – Rodrigo Lacerda e Rafael Lundgren
Produção local – André Fontes Torres
Participações especiais – Yasmin Pereira dos Santos, Livia Gomes Fontes, Paulo Lima dos Santos, João Marco Teixeira e Mike Nascimento dos Santos

Agradecimentos – Dan, Adriana, Alef, Joaci do Pandeiro, Gedevaldo Bezerra, Thiago Fontes Barros, Fagner Almeida Bezerra, Caru Magano, Handred e Victor Hugo Mattos

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A linha Amarello Rituais Em Brasileiro chegou para celebrar os rituais particulares que constituem a parte mais fundamental da nossa existência. Tanto a Água de Colônia Folha de Tomate quanto a Água de Colônia Mel de Cacau foram lançadas justamente para promover esse encontro entre nós e a nossa essência, com ambos os aromas trazendo a calmaria singular daquilo que é frequente e seguro. Mas como traduzir as ideias por trás desses estímulos olfativos em uma embalagem?

No vasto espectro da criação, existe um desafio que transcende a mera materialidade: a tradução de um aroma e um conceito, ambos intangíveis, em algo palpável. Esse é o território onde a magia do design de produtos se entrelaça com a complexidade dos sentidos humanos em um intricado jogo de formas e significados. É desde os primórdios da civilização que os seres humanos têm buscado meios de dar forma às suas ideias mais profundas, seja através de esculturas, pinturas, arquiteturas ou, mais recentemente, produtos. Hoje em dia, os símbolos são mais abundantes, mas também parecem durar menos — o que pode ser um desafio, especialmente se o objetivo for criar algo duradouro.

É nesse contexto que conversamos com Bárbara Bareca, designer de produto das duas águas de colônia. Em suas palavras e experiências, encontramos insights sobre o processo criativo e reflexões sobre a busca pela extensão da beleza e como os processos podem variar de país a país.

Pensando nas garrafas das águas de colônia, qual foi o processo para chegar a um resultado final?

Bárbara Bareca: Acho que o processo começa já com algumas coisas entrelaçadas e a gente já tem uma ideia do que quer fazer. No caso, a gente já sabia que queria fazer uma colônia e tinha algumas informações técnicas. Por exemplo, a volumetria. A partir disso, a gente tinha que tentar traduzir o que a gente queria do aroma para a garrafa. A gente estava querendo fazer uma garrafa nada parecida com o que a gente vê hoje em dia nas perfumarias. Como a gente sabia que o nosso produto era um produto de perfumaria de luxo, a gente tinha que ter um desenho atrelado a isso. Ao mesmo tempo, esse desenho teria que causar um desejo de compra, mesmo pensando numa questão de mercado. O processo aconteceu a partir daí. 

Foram muitos desenhos e os desenhos também traziam dificuldades técnicas, porque, como a produção seria 100% brasileira, a gente também tinha que entender isso enquanto produção. A gente até fala que todo desenho cabe no papel, mas para fazer é uma coisa totalmente diferente. Partimos para alguns desenhos, conversando com algumas pessoas em conjunto, como fabricantes de moldes, os fabricantes de vidro, desenhistas e técnicos, para a gente conseguir adequar essas nossas vontades de desenho ao que cabia na produção. Nisso, a gente fez algumas impressões 3D para entender esses volumes, para poder pegar, sentir na mão, entender o tamanho, entender se a gente aumentava o diâmetro, se a gente aumentava a altura, se a pegada estava boa. Para isso, a gente fez dez mockups. Foram dez protótipos para a gente ir entendendo as mudanças a partir do momento em que via essas peças prontas. Passamos por tudo isso para conseguir chegar na garrafa que a gente tem hoje.

Como foi sua experiência com pequenos ateliês de vidro?

BB: Ainda existem alguns ateliês de vidro no Brasil, mas, obviamente, um número muito menor do que tinha na década de 60 e 70. Era um material muito usado e hoje foi muito substituído pelo plástico. Fiquei surpresa, e grata também, por conseguir ter acesso a isso. São ateliês, são lugares pequenos, são produções pequenas, mas eu acho que é uma manufatura muito possível. Eu, particularmente, nunca tinha trabalhado com vidro dessa forma. A Amarello já tinha alguns outros produtos feitos em vidro, mas com uma técnica muito diferente, mais manual. As garrafas passam por um processo de molde de vidro soprado. Ou seja, você precisa entender quais desses ateliês conseguem fazer o tipo de produto que você deseja, porque não são todos. A gente passou por dois para poder chegar em um que conseguiria entregar a garrafa do jeito que a gente queria. 

Mas é interessante saber que a gente consegue ainda produzir esse tipo de produto no Brasil, em pequenos ateliês ou pequenas fábricas. A nossa produção não é grande, mas é algo totalmente possível. Temos algumas restrições, mas eu acho que o mais importante de tudo é essa noção de que é, sim, possível produzir vidro aqui.

O que deve ser considerado para chegar a uma estética que converse com aquele produto, com aquele aroma? 

BB: É preciso saber principalmente qual é a identidade do aroma e qual é a estética dessa identidade. Só assim a gente consegue fundir uma coisa com a outra e fazer com que isso converse. Quando foi definido quais seriam os nossos aromas, a gente teve que buscar a identidade desses aromas, a identidade da Amarello, a identidade dessa pesquisa, desse projeto e dessa linha dos rituais, para conseguir desenvolver um desenho que fosse esteticamente compatível a essa identidade. As coisas precisam conversar. Entender a identidade do que se deseja é sempre o principal.

O processo seria muito diferente se estivéssemos em outro país? Tanto em aspectos geográficos quanto culturais.

BB: Seria totalmente diferente! O Brasil é um país de manufaturas. A gente é muito rico em manufatura, em artesanato, em técnicas identitárias. Então, eu acho que a gente detém essa riqueza, que é um grande luxo. Mas, se tratando de uma escala industrial, a gente apanha muito. A produção aqui é caríssima. Precisa-se fazer quantidades absurdas para que a gente consiga um bom preço. A gente não tem muita viabilidade técnica. Igual eu disse, a gente conseguiu chegar em duas empresas que faziam vidro soprado e, mesmo assim, elas não detinham todas as técnicas. 

Se a gente tivesse em um país desenvolvido, obviamente a gente teria essa facilidade industrial. De quantidade de cor, de molde, de opções de ateliês, opções de profissionais. Mas aqui no Brasil isso é muito, muito limitado. É um pouco difícil, mas não é impossível. Ainda é possível com que a gente fabrique aqui. Mas temos muitas, muitas, muitas limitações. É uma indústria muito cara. 

O que mais fez seu olho brilhar na história toda?

BB: Conseguir traduzir numa coisa física tanto o aroma quanto o líquido. Traduzir numa coisa física um projeto que começa com os rituais do dia a dia. Isso fez meu olho brilhar. E também o fato da gente conseguir fechar o ciclo de vida de um produto. Eu acho que isso é muito importante também. Desde quando a gente começou a falar em fazer colônia? Há muito tempo. Tem que definir os cheiros, definir as notas, definir os nomes, a identidade visual, o desenho da garrafa, se adequar à produção, definir as embalagens, ao mercado, aos valores de custo, aos valores de venda. É um mega processo. Conseguir traduzir fisicamente um conceito e um aroma, somado ao fechar um ciclo longo com sucesso, fez com que tudo fosse especial.

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“O perfume é sobre relacionamentos”, diz o perfumista François Demachy no documentário Nose. “Sempre há uma conexão humana”.

François Demachy. Reprodução

O filme é uma produção encomendada pela Parfums Christian Dior e agora está disponível para streaming na Apple TV. A figura central é o maravilhoso processo criativo por trás de alguns dos aromas mais icônicos do mundo e, claro, a pessoa por trás deles, o renomado Demachy. Criador de perfumes da Dior desde 2006, Demachy tem um currículo que inclui fragrâncias de sucesso para marcas como Chanel, mas seu trabalho na Dior abrange algumas das maiores franquias da famosa casa francesa. Como mostrado no documentário, ele é conhecido pela dedicação tocante ao trabalho, desde misturar notas em seu laboratório até sujar as mãos nos campos de flores e instalações de produção onde essas notas começam sua jornada do solo para a garrafa.

Já de partida, o filme oferece algo que vimos poucas vezes: um aprofundamento nos complexos meandros por trás das produções de perfume. Como tantas outras coisas, os perfumes acabam não ganhando muito a nossa atenção diária, ainda que usemos um frasco com frequência. Quais são as histórias por trás daquela combinação? Por que esse cheiro e não aquele? De onde vêm esses aromas que têm tanto poder?

Seguindo Demachy ao longo de dois anos, o filme revela sua incansável busca pelos ingredientes perfeitos, desde jasmim e bergamota até patchouli, em locais tão diversos quanto a Indonésia e a Itália. Clément Beauvais, diretor do filme, destaca a determinação de Demachy, descrevendo-o como um “perfumista viajante” disposto a explorar os cantos mais remotos do mundo em busca da excelência.

O que o filme tem de mais interessante é o fato de que as jornadas de Demachy em busca do perfume perfeito não se limitam aos glamourosos tapetes vermelhos ou às lojas de perfumes de luxo. O filme captura momentos menos romantizados, como a meticulosa mistura de notas aromáticas em seu laboratório e as cenas rústicas de trabalhadores agrícolas colhendo flores à mão. Esses instantes revelam a complexidade e a paixão que o perfumista investe em sua arte, oferecendo uma visão autêntica do mundo da perfumaria.

A capacidade do filme de revelar essas cenas menos glamorosas, enquanto fornece uma espécie de introdução para os não iniciados por meio de comparações úteis com composição musical, vinificação e um rápido desvio para uma oficina de katana em Tóquio, lhe confere um apelo mais amplo. São os momentos menos “elevados” que ficam com a gente, como trabalhadores destilando óleo perfumado em grandes tanques industriais e agricultores colhendo flores à mão em campos aparentemente intermináveis. Nada é tão elucidador quanto essas sequências que estabelecem a complexidade, e a beleza, da perfumaria. 

Em um misto de cinebiografia e publicidade requintada, Nose consegue também, ao menos em algum nível, descentralizar o holofote, reconhecendo que Demachy é apenas uma parte de uma equipe maior que contribui para a criação de cada fragrância. Se ele é o gatilho de muitos processos, a mão na massa que faz acontecer não é a dele. Em Grasse, o berço da perfumaria no sul da França, o próprio perfumista defende o legado das fazendas locais e destaca a herança centenária da região. Ainda que não fuja absolutamente da mística de seu personagem principal, o filme destaca a importância do savoir-faire tradicional.

A colaboração e o respeito são valores fundamentais que refletem a visão de Demachy sobre a perfumaria como uma forma de arte que une as pessoas. Uma fragrância é uma evocação de uma memória, uma experiência e um momento no tempo. E a busca de Demachy pela fragrância perfeita lhe confere uma aura quase divina. Ao proporcionar sua visão intimista, tal qual um aroma transcendental, Nose atinge além do nariz e revela a verdadeira essência por trás das fragrâncias mundialmente reconhecidas da Dior, além de nos fazer pensar sobre os processos que envolvem outras marcas. 

Se os perfumes são “sobre relacionamentos”, como diz Demachy, então nada como ver as entranhas dessas conexões.

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Meus desenhos partem da sedução que a imagem do outro exerce sobre mim. Sempre dediquei a minha atenção à linguagem encoberta nos corpos que não habito: sua intrincada complexidade mitológica, poética e política.

Sou fascinado pelas aquarelas de Rodin, pelos desenhos de Jean Cocteau, Ismael Nery e Tunga. Também pelas fotos de esculturas antigas feitas por Alair Gomes a partir de ângulos obtusos (eróticos) durante seus passeios pela Europa. Recentemente, me encantaram as figuras múltiplas retratadas por Lorenza Böttner.

Mas, uma de minhas obras de favoritas é o desenho de Leon Bakst representando Vaslav Nijinsky de fauno, feito para os Ballets Russes. A figura dançante e satânica desse bailarino fantasiado de divindade romana sempre ofereceu visões maravilhosas. Me interessa, dessa forma, essa fantasia do corpo, ou, ainda, esse enigma do corpo e sua penumbra ficcional. Não me interesso tanto pela arte e pelos corpos idênticos e reduzidos ao “inferno do igual”, para pegar emprestado uma expressão do filósofo Byung-Chul Han.

O sagrado tem algo a ver com esse enigma. O sagrado é erótico, uma entidade misteriosa que não se revela tão facilmente para nós. É a imagem do cupido que sorri com alguma malícia pois sabe que, para oferecer prazer, precisa necessariamente flechar a carne. É o mesmo sagrado do êxtase de Santa Teresa e por ela mesma narrado quando reencenava suas experiências místicas para as freiras do seu convento. O sagrado é o anjo de mármore, na escultura de Bernini, que atinge e faz contorcer a carne de Santa Teresa com uma flecha sagrada. O ritual religioso é indissociável da carne, pois é na carne que o sagrado se manifesta.

Ao desenhar, tento entrar em contato com esse erotismo sagrado e sua natureza contraditória: “as lágrimas de Eros” como nos falou Bataille. Ao desenhar, tento me distanciar do que é profano: do que é explícito, transparente e excessivamente luminoso. Precisamos das feridas eróticas, pois elas se opõem à matemática do regime da informação, desprovido de alteridade e narração.

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“Sobre o tesão nada podemos saber”.

Garanta a sua Amarello Erótica aqui

A mais recente Amarello investiga nossas pulsões e nossos desejos em sua edição Erótica, número 48. Para o tema, recebemos como editor convidado o cantor e compositor Bruno Cosentino, com capa do artista Alvaro Seixas.

“a casa é o corpo. sentimos toda sua força não racionalizável — o tesão — que vibra desde nosso centro. sobre o tesão, nada podemos saber. podemos, no entanto, conviver com ele, encará-lo e deixá-lo agir. não devemos negá-lo”, nos instrui Cosentino, em seu editorial.

Leia a Amarello Erótica na íntegra. Garanta a sua aqui.

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Arte de Alvaro Seixas, capa da Amarello Erótica.
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Bruno Cosentino é o editor convidado da Amarello Erótica, edição 48.

a erótica é uma matéria sitiada. em torno dela, nos quedamos agitados, cercando-a, contemplando-a. nela podemos até tocar, mas nunca penetrar. é como a definição de hermetismo dada certa vez por um teórico italiano: estamos confinados ao átrio, de onde nos chega a vibração vinda de dentro da casa, mas esta, porém, é inalcançável.

a casa é o corpo. sentimos toda sua força não racionalizável — o tesão — que vibra desde nosso centro.

(outro dia meu filho me perguntou o que significava a imagem do homem vitruviano. fui olhar de novo aquela figura circunscrita a um quadrado e a um círculo de mesma área cujo centro é o umbigo. fiquei pensando que se colocássemos o sexo no centro, onde imagino que esteja, o homem perderia a cabeça, sambando com o cânone geométrico. andré masson se inspirou em da vinci para desenhar seu acéfalo, que trazia o crânio entre as pernas e as tripas no ventre.)

sobre o tesão, nada podemos saber. podemos, no entanto, conviver com ele, encará-lo e deixá-lo agir. não devemos negá-lo, como o fez santo agostinho, que, lascivo inveterado, após se converter ao catolicismo, lançou mão de um estratagema intelectual para arrazoar contra sua tara persistente. e o pior, contra a alheia também. inventou, por exemplo, o pecado hereditário, do qual não livrou nem as criancinhas. ou a teoria da vontade, duelo dignificante entre a cabeça de cima e a cabeça de baixo, o bem e o mal, a alma e o corpo. mais de quinze séculos depois, o delírio engenhoso do santo ainda regula a vida sexual de muitos. desse grande recalcado, freud, mais recentemente, partiu para tentar entender o tesão, ao qual deu o nome de pulsão, definida como uma força constante que se move no limiar entre o psíquico e o somático. salvou a cabeça: tratou das vibrações do tesão na vida psíquica, pois sabia ser tarefa difícil, se não impossível, transpor os limites do átrio.

mas, sim, parece que há uma passagem. ela é estreita. não se sabe quando, não se sabe onde, não se sabe se. é chamada êxtase, graça, mística, pequena morte, gozo etc. imagem fugaz, aparece e desvanece sem que possamos apreendê-la. por isso a perseguimos obsessivamente, santos e putas, e repetimos o ato e vamos e voltamos e até nos multiplicamos para que novos seres possam repetir como nós o mesmo gesto sem sentido, a mesma pergunta sem resposta — este deus ecumênico.

o corpo é o prisma. o tesão é a luz que incide sobre os corpos-prismas, que, ao se desejarem, se iluminam, refratando-se em uma miríade de cores. cada matiz, uma pergunta, cada resposta, um devaneio. a fantasia é o vórtice que traga qualquer um que afirme seu tesão. a fatura erótica.

daí, esta edição dever ser isto que vibra e não diz nada — uma intumescência.

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Sentada à minha frente, uma só perna esticada, esfregando o pé de cima a baixo na minha língua de fora, eu imóvel, teso, só resistindo à pressão que seu pé fazia. Cheiros junto com saliva iam se espalhando pelo meu rosto, boca, nariz, testa, queixo, aí olho, bochecha e tudo de novo outra vez. De vez em quando ela para e distribui tapinhas em meu rosto com a palma e o peito do pé, olhos avisando pra eu nem tentar me esquivar ou buscar proteção. Obediência era o que se esperava de mim, obediência, apenas, e era eu me distrair um pouco, deliciado com os encantos daqueles pés, ora um de cada vez vindo pra cima de mim, ora os dois juntos, e lá vinha um golpe surpresa pra eu não ficar nunca muito acomodado. Tapinha de leve, que aquilo era um pé batendo num rosto, mas, por mais leve que fosse, mexia com os meus medos todos. E o engraçado é eu em dúvida, hoje, se gostei mais de ter os pés dela ao alcance dos meus cinco sentidos ou se dela brincando de distribuir tapinhas surpresas com esses mesmos pés. As duas coisas, talvez? Defender-se é reação inconsciente, em minha mente alarmes a que toda uma vida fui condicionado soando, perigo!, perigo!, e eu precisando aprender a ignorá-los, já que desligá-los não era uma simples questão de querer. Eu queria era o quê, aliás? Estar totalmente rendido, à mercê das vontades dela? Se sim, então era mais do que necessário aprender a estar entregue, as minhas defesas todas desarmadas. O frio na barriga que isso não traz! Ela percebe meu desconcerto, acho até que riu dos meus medos, mas sabe também, eu queria crer, que abusar demais, isso não seria lá muito prudente. Naquele momento inicial ao menos, eu ainda tão virgem nos meus sonhos de submissão. Seu pé então se aquieta e a língua precisava agir, cavucando fundo os poros daquele pé atrás do gostinho salgado, esfregando firme cada curvinha mínima, dedos, entrededos, palma, peito, calcanhar, mãos em movimento orquestrado aproveitando o ensejo pra massageá-lo. Pelezinhas soltas no pé, ela aponta, bolhas já secas, língua e dentes logo se revezando em raspar de leve até deixá-la lisa outra vez, eu engolindo os resquícios da esfoliação, assim como tudo o que empelotasse na língua. Me arrepiavam as sensações que eu vivia. Não havia script, não havia horário, nada, eu um poço de timidez, sem saber direito o que fazer com as mãos, se eu podia, ou não, olhá-la nos olhos, envergonhadíssimo da ereção indisfarçável que tomou meu genital logo que ela mandou eu me despir. Seus olhos pareciam nem notar aquele pedaço de carne, pedaço que sempre tratei como o ator principal do tesão, mas que ali encarnava o papel, no máximo, de um figurante espalhafatoso. “Agora que você já se esbaldou”, ela disse, “é minha vez de sentir prazer”. Fiz que sim com a cabeça e ela, dando uma última pancadinha em meu rosto, falou pra eu ficar de pé, mantendo as mãozinhas sempre pra trás. “É um belo pau, você deve ter bastante orgulho dele, não?”, ela falou, enquanto manuseava minhas bolas, apertando-as ora de levinho, ora com mais força para testar o tanto de dor que eu suportava. “Você garantiu que ia me dar prazer, fazer de tudo pelo meu prazer… Espero não me decepcionar”, declarou, por fim, levantando-se da cama e arrastando-me pelas bolas até um canto do quarto. Não transcorreram duas horas desde o bar em que casualmente nos conhecemos até chegarmos àquela espelunca, o hotel mais próximo que havia, onde entramos sem sequer saber nossos nomes, sem ter combinado nada. O que nos ligava eram aqueles pés, pés que me fascinaram, pés pelos quais caí rendido no bar, beijando-os de joelho, em público, sem que a dona dos tais manifestasse qualquer desconforto com a cena. Era como se ela já esperasse a atitude, talvez até estranhasse o tanto que demorei. Foi dela, aliás, a ideia de virmos para o tal hotel, onde eu teria toda a liberdade do mundo para reverenciá-la. Paguei nossas comandas, deixei acertado o pernoite e cá estávamos nós. No entanto, apesar do deleite supremo que eu vinha experimentando, eis-me agora confuso com a atenção que ela dedicava ao meu genital, receio de que aquele encontro mágico com um ser superior se convertesse, de repente, em mais uma transa banal igual a inúmeras outras. Como eu estava enganado. Ela iria se valer, sim, do meu genital, mas não da forma ordinária, com a penetraçãozinha bonitinha e, coroando tudo, uma ejaculação. O tesão se manifestava de formas menos óbvias para essa mulher, algo que eu só percebi no momento em que ela me mandou fechar os olhos e, sem aviso prévio, pá!, acertou um chute forte bem no meio das minhas pernas. Sim, lá mesmo. Caí no chão estrebuchando de dor e, diante da minha acerba indignação, ela se limitou a sentar na cama, rindo, e a dizer: “bom, agora você já sabe o que precisa fazer pra me agradar”. Eu nunca havia vivido nada parecido, nunca havia imaginado receber um chute daqueles, sobretudo num contexto erótico, e, apesar disso, a ereção em meu genital seguia firme e forte, me deixando confuso sobre como interpretar o que eu estava vivendo. Nisso, ela se aproxima de mim, faz carinho em minha cabeça e manda eu me recompor, pois esse era só o primeiro. Avistar seus pezinhos divinos, tê-los tão perto, me lembrou da razão de eu estar ali e da promessa que havia feito. Passado o susto, a dor já não parecia mais tão atroz, momento em que me levantei e, cheio de coragem, falei que, se era assim que ela queria que eu a servisse, assim seria. “No próximo, quero você de olhos abertos, agradecendo cada chute”, ela disse. De olhos abertos como? Seria possível ficar tão entregue? Já havia sido difícil eu não me proteger dos tapinhas de leve que ela dera em meu rosto, imagina assistir indiferente a um chute vindo na direção das minhas bolas, eu tendo que agradecer, ainda. Na primeira tentativa, o medo venceu — fechei as pernas antes que o alvo fosse alcançado e quase fiz com que ela torcesse o pé. Seu olhar transparecia raiva e contrariedade. Pedi para ficar de olhos fechados na próxima vez, seria mais fácil assim, mas ela estava irredutível, queria que eu me entregasse por completo, assistindo a tudo. Ela daria o chute e esperaria eu me recompor antes do novo ataque, mas eu não poderia fechar as pernas nem sair daquela posição, as mãozinhas sempre para trás. Nem me masturbar eu podia. Ela queria descobrir até quando a ereção ia se manter. O desafio era aprender a lidar não só com a dor, mas também com os meus medos, medos que me impediam de vivenciar o prazer de me ver tão rendido, um mero brinquedo nas mãos daquela perversa mulher. Contei oito chutes, talvez tenham sido mais. Minhas pernas tremiam, lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas a ereção se mantinha, e agora era eu quem queria ir até o fim, eu quem queria descobrir o limite. No nono chute, sem eu sequer relar no meu genital, inexplicavelmente gozei. Caí no chão, em prantos. O gozo me trouxe à realidade, o gozo aflorou a dor, fez com que eu me sentisse violentado, humilhado. “Você nunca mais vai conseguir gozar de outra forma”, ela sentenciou enquanto calçava os sapatos. Nunca mais nos vimos, e hoje, escrevendo este texto, só posso dizer que ela estava certa.  

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