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Folhinhas, série de Manuela Costa Lima. A artista assina a capa da edição Amarello Família. Foto de Mario Grisolli.
#50FamíliaSociedade

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

por Helena Cunha Di Ciero

“Só podemos falar nossa própria
língua quando acertarmos
as contas com a língua
de nossos pais
”
— O que é meu, José Bortoluci

Minha avó paterna, quando ficou viúva, achou que um ano “guardando luto”, como mandavam os bons costumes, era tempo demais. Contrariando as fofoqueiras da cidade, encheu a mala com roupas coloridas e batom vermelho e decidiu fazer um cruzeiro. O tempo da dor era determinado por ela, e não pela norma vigente. Era uma mulher moderna para a época: deixou as cartas que enviaria da lua de mel já prontas antes do casamento, para não perder tempo precioso da viagem. Tinha pressa de curtir a vida, sabia que ela passava depressa. Diziam que, quando ia à igreja, o calor do interior era tal que ela erguia a saia na missa para se abanar, e, quando reprimida pelas minhas primas, temendo que mostrasse a calcinha, dizia: “Não quer ver estrela, não olhe para o céu”.

Minha família materna é mineira, e, desde que me entendo por gente, uma cesta com forro de crochê e um punhado de pão de queijo é o jeito mais lindo de ser cuidada por alguém. Quando me casei, decidi dar um almoço para alguns amigos. Em cima da hora, liguei para minha mãe e pedi os tais forrinhos de crochê bordados pela minha tia, pois a casa não estava completa sem eles. Lembro-me tanto dela na cozinha, seus dedos amassando a massa de pão de queijo, sujos de manteiga. Até hoje, quando mexo na massa, recordo a textura das suas mãos. O polvilho preenchia a tigela, sujando seu anel. A pressa em me agradar era tanta que nem se lembrava de tirar a joia, tingindo-a de farinha em um instante. Recordo a voz da minha mãe ecoando pela cozinha, brigando com minha tia por causa do descuido com a joia de família: “Tira o anel da mamãe! Para de mimar essa menina. Você faz tudo o que ela pede”. Outro dia, antes do café da manhã de meus filhos, fui limpar o porta-manteiga e, ao sentir a gordura em meus dedos, era como se estivesse encostando outra vez na sua mão.

Aos domingos, quando era pequena, eu podia escolher: ir à missa com minha mãe ou nadar com meu pai. A verdade é que eu tinha muita dificuldade em prestar atenção no sermão do padre e, às vezes, até fugia para brincar com uma amiga no quintal da igreja. Minha mãe cansou de brigar e acabou cedendo: a piscina vencia. Bem cedo, fazia minha mala com maiô e toalha e íamos aproveitar o dia de sol. Antes de começarmos a brincar na água, eu tinha que aguardar meu pai nadar seus dois mil metros, seu esporte diário. Ele então inventou uma técnica para me ajudar a esperar: a cada piscina que nadava, ele ia até a borda e me contava um pedaço de filme. Depois, nadava outra piscina, voltava e me oferecia mais um pedaço. Eu esperava cada capítulo como quem aguarda uma saborosa fatia de bolo esfriar antes de comer.

Foi assim que conheci a lealdade da amizade. Com Cinema Paradiso, emocionei-me com a história do menino Totó, que salva Alfredo de um incêndio que o deixa cego. Numa manhã de verão, com a história de Cidadão Kane, descobri toda a solidão que grandes fortunas podem trazer. Desde cedo, admirava a valentia de Scarlett O’Hara e o valor do trabalho com sua célebre frase: “Jamais sentirei fome novamente”. Entendi as dores dos desencontros ao conhecer a história do casal de Tarde demais para esquecer, que marcam um encontro no Empire State Building, em Nova Iorque, mas a moça é atropelada antes de atravessar a rua. Compreendi a rivalidade entre irmãos ao assistir Baby Jane. Quando chove, sinto vontade de dançar na chuva à la Gene Kelly, e tenho certeza absoluta de que Fraulein Maria foi minha babá.

São tantos os filmes que nadam de braçada no meu livro de memórias que hoje, adulta, acredito que essas lições tenham sido mais eficientes do que um sermão de missa, pois reverberam dentro de mim com muito mais intensidade do que qualquer oração. Estão em meu altar, como referências pelas quais, muitas vezes, passeio na busca de compreensão do mundo. Hoje, a piscina ainda está lá, mas meu fim de semana tem outros barulhos: crianças correndo pela casa. Às vezes, passo pela piscina olímpica, olho saudosa para a raia e relembro aquela menina sentada na borda, ansiosa pelo próximo capítulo da história. Após tantos anos, há apenas silêncio e águas paradas. A verdade é que essa memória pertence a um outro capítulo da minha história familiar, que foi definitivamente encerrado no ano passado, quando desfiz o apartamento da minha mãe, após sua partida.

Assistir nosso lar se transformar em uma fotografia é uma missão quase impossível. Encaixotar aquilo que nos fazia sentir que havíamos chegado em casa é uma experiência que esmigalha a alma. Uma moldura afetiva se desmantelou quando fechei a porta da casa onde cresci, e todos aqueles objetos tornaram-se resíduos de uma história familiar que não existe mais, da qual sou a única testemunha que sobrou. Ainda temo levar bronca da minha mãe quando vejo suas coisas fora do lugar — quadros no chão, louças embaladas em jornal. Penso que ela brigaria comigo pela desordem e, em seguida, percebo que tanto ela quanto meu pai hoje mudaram-se para a bagunça do meu coração.

Doar os DVDs de filmes clássicos, colecionados por tantos anos pelo meu pai, foi duro demais, assim como as roupas e todos aqueles objetos que um dia me aconchegaram. Antes da chegada do novo inquilino da minha antiga casa, via as caixas de papelão nos cantos e cantarolava em silêncio: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Ninguém sai imune ao tempo, e assistir à nossa sagrada família (com todos os seus sagrados defeitos) evaporar é atravessar o abismo do desamparo. Criamos filhos também para aguentar ver o mundo de onde viemos desaparecer. E, ao mesmo tempo, tentamos recriá-lo, consertá-lo a partir de nossa própria experiência. Teremos nossos erros, que certamente serão apontados pela geração sucessora com a mesma intensidade com que, um dia, apontamos os defeitos de nossos pais. Mas tentaremos acertar, assim como eles tentaram, e inevitavelmente falharemos em muitos aspectos. Porque mães e pais são feitos de material humano, e portanto, imperfeitos.

Na família, aprendemos a amar e a odiar, como disse Freud em Romances familiares. A criança, até certo momento, idealiza os pais e, posteriormente, na adolescência, ao descobrir as falhas dessas figuras parentais anteriormente idealizadas, vai em busca de novos heróis, de outros modelos de identificação. Para o autor, “Todo esforço para substituir os pais é uma expressão de saudade, de um lamento pelos dias felizes que se foram”.

Quando crescemos, contudo, somos surpreendidos pelo fato de que há algo das raízes de nossa infância que nunca nos abandona e que segue sendo replicado na rotina do dia a dia. É como um forro de crochê no qual repousa nossa alma. O filme da nossa família original continua dentro da gente, ainda que estejamos maduros, ainda que eles não mais existam. Nunca é tarde demais para esquecer quem já fomos, e nossas estruturas enquanto indivíduo se perpetuam enquanto existirmos.

Hoje sou adulta, mãe, e ocupo um lugar diferente do que já conheci. A verdade é que nossa posição familiar é dinâmica, assim como a vida. Nossos papéis vão se alternando conforme o trabalho do relógio: a filha torna-se mãe, o pai torna-se avô. E esse dinamismo das estações temporais é fundamental também para nosso crescimento e para a compreensão de que nada é estático, tudo se renova. E sempre há uma possibilidade de recomeço, de futuro.

Acompanho, na clínica psicanalítica, de forma muito próxima, essas possibilidades de renascimento e reorganização das relações. Filhas e mães que viviam em atrito e que, quando a filha vira mãe, se reaproximam; pais que conseguem se separar após a saída dos filhos de casa; e por aí vai.

Como dizia meu pai: a chance de ser feliz existe enquanto a gente está vivo. Novos capítulos, novas histórias sempre podem surgir. E é preciso criar laços para tolerar, razoavelmente, o desamparo de assistir às mudanças e ao desaparecimento da nossa família de origem.

Essa sensação familiar é passível de ser recriada pela nossa capacidade de criarmos laços. Aqui, quando me refiro a laços, não são necessariamente filhos; podem ser amigos, planos, sonhos. Qualquer projeto futuro que nos tire das perigosas garras da nostalgia de um tempo que não mais existe, que nos faz viver a vida de olho no retrovisor e nos aponte o norte de uma nova possibilidade, um novo rumo. Uma mala de vestidos coloridos para que possamos dançar novamente.

Atualmente, tenho um novo ritual dominical: cozinho para as crianças. Quando ponho a mesa para a minha família, coloco a toalha da minha avó, os talheres da minha tia, faço a receita de pesto do meu pai e não empilho pratos ao tirar a mesa, como me ensinou minha mãe: assim encontro todos nós juntos de outra forma. Embora meus domingos já não contem com a presença física desses personagens, tudo o que ganhei deles em vida é, de alguma forma, reproduzido e, silenciosamente, homenageado nessas novas reuniões dominicais, uma nova temporada do filme da minha vida. Essa é a maior herança que quero deixar para meus filhos: a crença de que reencontros no tempo e no espaço são possíveis, que nada se perde por completo se for plantado com uma conexão genuína. E conexões genuínas não precisam ser perfeitas para serem imortais; precisam ser inteiras.

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#50FamíliaSociedade

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Você recebe a caixinha pelo correio. Dentro, um copinho para a sua saliva ou um cotonete para passar por dentro da bochecha. Uma caixinha que pode satisfazer a necessidade primordial do Homo sapiens de pertencer — a uma comunidade, a um grupo, à família, a alguém. Mas também uma caixinha que pode, assim como a de Pandora, soltar uma cambada de males no seu mundo.

Nos últimos anos vivenciamos uma explosão de kits caseiros de DNA. Se pararmos para pensar, é um fato fantástico. Afinal, há poucas décadas, o sequenciamento do genoma humano era inatingível, e mesmo quando foi parcialmente decifrado, o pulo até chegar nas mãos do cidadão em casa, sentado no sofá, querendo descobrir suas raízes genéticas, é de estontear. Afinal, estamos falando de uma descoberta científica recente, que, em menos de duas décadas, pulou dos laboratórios mais sofisticados do mundo até as mãos de qualquer um com acesso à internet e com alguns reais no bolso.

Não é de espantar que esses kits caíram no gosto popular. Afinal, o ser humano é um animal social. A continuação da espécie foi garantida pelo grupo. Um ser humano sozinho não iria durar muito há trezentos mil anos. Nem Raul Seixas. Dependemos uns dos outros, e somos geneticamente predispostos a viver em família e em grupos familiares maiores. Quando olho para minhas filhas, vejo o olhar da minha mãe, o nariz do meu pai, a gargalhada do meu avô. Reconheço ali a minha tribo, o meu pertencer.

É essa vontade de encontrar a quem pertencemos que leva muitos de nós a fazer um teste de DNA caseiro. Saber, num país formado por tantos povos, de onde vieram os nossos ancestrais. Para muitos, os resultados confirmam as lendas familiares. É mesmo verdade que meus bisavós vieram da Itália, ou da Bélgica, ou do Japão, ou de Portugal, e assim por diante. Para outros grupos, que tiveram suas identidades roubadas ou apagadas, através da escravidão, na fuga de guerras, genocídios ou regimes autoritários, é uma forma de resgatar uma identidade perdida.

Para algumas pessoas, a busca é de uma história mais recente. Pessoas, por exemplo, que foram adotadas e buscam seus pais biológicos. Filhos de mães ou pais solteiros que nunca souberam a identidade da mãe ou do pai ausente. Mães forçadas a darem seus filhos para adoção por falta de recursos, por causa da religião, por vergonha da família. Filhos frutos de casos, de mães solteiras ou adolescentes. A lista é longa; as razões, complexas. Existem mil motivos para ir em busca de uma família, de querer se ver nos traços e gestos de alguém mais.

Mas uma advertência: é bom seguir com cautela. A busca pela família desconhecida pode implodir a família existente. À medida que mais e mais usuários disponibilizam seus resultados através de empresas como a 23andMe, AncestryDNA ou FamilyTreeDNA, mais aumentam as chances de que algum segredo enterrado virá à tona. Imagine descobrir que seu pai não é seu pai, que sua irmã é na verdade sua mãe, que seu irmão tem outro pai. Situações que podem ser traumatizantes e desestabilizadoras. Imagine interrogar sua mãe sobre a verdadeira identidade de seu pai e receber uma resposta arrasadora? Ou descobrir apenas após a morte dela que ela levou um segredo para o túmulo e que você nunca terá uma resposta sobre quem você realmente é, de onde você realmente veio. Para algumas pessoas, isso pode ser avassalador.

Agora tente imaginar que você fez um teste desses, e que anos depois recebe um telefonema da polícia, que lhe informa que usou o seu DNA — aquele que você submeteu lá por diversão — para prender um homem suspeito de assassinar dezenas de pessoas. Ou que um belo dia você é preso, acusado de cometer estupro e assassinato. Eles dizem que tem seu DNA na cena do crime. Um mês depois, você consegue provar que o DNA era na verdade do seu pai, que você mal conhece, mas que tem muitos dos mesmos marcadores de DNA que você. Ou imagine abrir os seus resultados do seu teste de DNA e ver que você tem não apenas um ou dois meio-irmãos, mas mais de duzentos. Duzentas pessoas que têm o seu mesmo pai, um doador de esperma. Todos em uma mesma região do país. Imagine descobrir incesto. Que seus pais eram na verdade primos, ou até irmãos. Esses são todos casos verídicos.

Há um provérbio chinês que diz: quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento. Talvez nos dias de hoje tenhamos que emendar para: se cavar muito fundo procurando suas raízes, poderá derrubar a árvore. A sua árvore genealógica.

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E quando a crise climática alcança nossas vidas?

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Já há um bom tempo, os prognósticos ambientais são alarmantes. Muito embora a mentalidade das pessoas tenha mudado em prol de medidas sustentáveis que teriam em mente não só as gerações futuras mas também as de agora, poucas mudanças significativas ocorreram de fato. Podemos atribuir isso a razões diversas, desde políticas macro até o descaso pessoal por problemas aparentemente distantes. No entanto, esses problemas agora batem à porta. Se não agirmos, a entrada será forçada e trágica. O limite temporal parece mais curto e drástico, e os próximos dez anos serão cruciais para evitar que as crises desencadeadas pelo sistema econômico global ultrapassem nossa capacidade de adaptação. 

Foto de Wim van ‘t Einde na Unsplash.

Pode parecer radical dizê-lo, mas a verdade é que nossas opções como sociedade são: 1) um futuro cheio de problemas, mas ainda reversível a longo prazo; ou 2) um futuro terminal. O que fazer, então?

O Decênio Decisivo: Propostas para uma Política de Sobrevivência, livro de Luiz Marques publicado ano passado pela editora Elefante, aborda a emergência climática e as crises cumulativas do antropoceno, propondo mudanças fundamentais nos modos de produção, consumo e exploração dos recursos naturais. Marques, historiador da Unicamp, apresenta uma análise rigorosa das causas e consequências da crise ambiental, destacando a necessidade de ações imediatas e coletivas para evitar um colapso irreversível.

“Um programa político baseado nessa exigência não é só factível, mas também o único possível se quisermos sobreviver como sociedades e, no limite, como espécie. Este é o sentido do subtítulo deste livro: propostas para uma política de sobrevivência. Estas páginas se pretendem, portanto, como um chamado à radicalidade da ação política socioambiental, com a ambição maior de suscitar ou enfatizar o senso de máxima urgência exigido por este decênio decisivo.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo: Propostas para uma Política de Sobrevivência”

No livro, o autor discute a importância de reavaliar o valor da vida humana e das outras espécies em um mundo onde a busca desenfreada por lucro ameaça a sobrevivência de todos os seres vivos. Ele destaca que a natureza está sendo destruída pelas atividades antropogênicas, especialmente pelo capitalismo globalizado. A concentração de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera, resultante do uso de combustíveis fósseis, é um dos principais catalisadores da emergência climática, com efeitos devastadores, desde o aumento da temperatura global até a perda de biodiversidade.

Um futuro que se distancia do ideal é inevitável. Não temos mais o sonho de viver futuramente como já vivemos no passado, sem ter em vista mudanças radicais que decerto acontecerão e demandarão adaptabilidade extrema. Mas ações políticas imediatas podem atenuar a piora, aumentando as possibilidades de reversão de tendências, de adaptação e, portanto, de sobrevivência. Essa palavra, aliás, é chave no pensamento que deve ser preponderante: ela, a sobrevivência, só será possível no caso de a tomarmos não mais como uma condição que é, a priori, garantida, mas como uma realidade ameaçada que só pode ser conquistada de novo em conjunto e aos pormenores. Se agirmos coletivamente, apesar dos cenários catastróficos que se apresentam com alto teor de probabilidade, um futuro melhor pode se descortinar para nós e para a vida no planeta.

“A questão não é mais sobre quais são os limites nem onde situá-los na escala da sustentabilidade. A questão é política: quem pode e deve estabelecê-los e como garantir que sejam implantados e respeitados. (…) As chamadas liberdades individuais — tais como a liberdade de não se vacinar, de não usar máscara numa pandemia, de jogar lixo pela janela do carro, de desperdiçar água, de se armar, de fazer o que quiser com o seu dinheiro etc. (…) Quanto mais as sociedades retardarem a adoção dessas políticas de sobrevivência, mais o ponteiro do equilíbrio entre liberdade individual e coerção estatal penderá para o lado não só da coerção estatal como também da coerção exercida pela natureza, isto é, por vírus, furacões, inundações, picos letais de calor, secas, incêndios etc.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo”

A crise climática do Rio Grande do Sul, que está longe de acabar, ilustra essa situação. O maior problema não foi a falta de previsão, mas a aceitação. Era preciso que se aceitasse o momento do planeta e, a partir daí, tomar as devidas atitudes. Todos os anos, o governo do Rio Grande do Sul se espanta com as chuvas intensas, assim como em Petrópolis, São Sebastião, norte de Minas Gerais, Recife e sul da Bahia. Nos últimos nove anos, as temperaturas do planeta foram as mais quentes já registradas. Ou seja, por falta de aviso não foi. É preciso sempre se preparar. Embora nem sempre seja possível prever a intensidade de um evento extremo, sabemos que se tornarão mais frequentes. Modelos climáticos preveem há décadas um aumento de chuvas extremas no sul da América do Sul, incluindo toda a bacia do Prata. A obra de Marques é uma análise abrangente das advertências de cientistas sobre a emergência ambiental e propõe ações indispensáveis para evitar o colapso da sociedade e a extinção em massa de espécies.

Foto de Ivan Bogdanov na Unsplash

A responsabilidade — que, mesmo em meio aos contextos devastadores, deve ser pensada, para que a situação não se repita — não é apenas dos governos estaduais e federal, mas também do Congresso. As tragédias são resultado da falta de adaptação e combate às mudanças climáticas, áreas onde os Executivos precisam fazer mais e onde o Legislativo tem promovido retrocessos. Ações limitadas às respostas de emergência não são suficientes. Eventos extremos, cada vez mais comuns devido às mudanças climáticas, não podem ser tratados como “imprevistos”. Por essas e outras, Marques defende uma reformulação dos aparatos estatais, que muitas vezes agem como corporações na exploração de combustíveis fósseis, e a necessidade de uma governança global para resolver problemas que transcendem fronteiras nacionais, como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. 

Na visão dele, seria interessante pensar em uma desglobalização da economia aliada a uma globalização democrática da política, para enfrentar os desafios globais com uma abordagem territorial e cooperativa. A crescente desigualdade, impulsionada pelas crises ambientais e financeiras, é criticada, e ele propõe uma renda mínima universal e um limite para a renda máxima para promover maior equidade. A sobrevivência da humanidade depende da definição de limites claros para a acumulação de riqueza e consumo, mudanças possíveis com um novo consenso social fomentado pelas universidades e outras instituições.

Como amplamente sabido, mas minimamente levado em conta, superar o capitalismo é uma medida-chave para enfrentar a crise climática. A produção industrial de carne, por exemplo, contribui para as emissões de metano, desmatamento e uso excessivo de agrotóxicos. Mas, para além das pessoas que consomem carne, vencer o lobby das agropecuárias é missão hercúlea. No cenário ideal, haveria uma mudança para sistemas de produção mais locais e sustentáveis, destacando a autossuficiência alimentar e a redução da distância entre produção e consumo como essenciais para um futuro sustentável. As democracias liberais e conferências internacionais, como as COPs, são ineficazes em implementar medidas para descarbonizar as economias e eliminar o uso de combustíveis fósseis. 

Marques propõe uma governança global democrática que supere a soberania nacional absoluta em favor de uma soberania relativa, subordinada aos interesses de sobrevivência da humanidade e das outras espécies.

“(…) a motivação para escrever este livro nasce de duas apostas otimistas. A primeira é que os anos decisivos para evitar esses cenários futuros extremos ainda estão diante de nós. A segunda aposta é que seremos capazes de agir individual e politicamente ao longo deste decênio, com a radicalidade requerida para reverter o que ainda pode ser revertido, mitigar o que ainda pode ser mitigado e aumentar significativamente nossas chances de adaptação aos impactos do aquecimento global, do empobrecimento da biodiversidade e da poluição.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo”

Para a discussão, três conceitos são importantes: o de mitigação, o de adaptação e a redução de danos. A mitigação envolve atacar o problema, como interromper o desmatamento e substituir fontes poluentes por renováveis. A adaptação é preparar as populações para os impactos inevitáveis, como remover populações de áreas de risco e reforçar a rede de saúde para lidar com o aumento de doenças como a dengue. A redução de danos refere-se a respostas emergenciais às tragédias, como procurar sobreviventes e reconstruir casas após deslizamentos. No entanto, as ações das autoridades federais, estaduais e municipais tendem a se concentrar apenas nesta última etapa de resposta. Sem ações políticas eficazes, as tragédias se intensificarão, exigindo cada vez mais da população.

A emergência climática não é uma possibilidade futura, mas uma realidade presente. Ignorar ou minimizar esse cenário só agravará a situação, aumentando a frequência e a gravidade dos desastres. Com um pouco mais de preparo e aceitação, muitas tragédias poderiam ser evitadas.

O Decênio Decisivo propõe oito medidas concretas para a criação de uma política de sobrevivência:

1. Redução radical e emergencial das diversas desigualdades entre os membros da espécie humana — “Hoje, esses valores precipitam a ruína de nossa civilização. Só há civilização digna desse nome onde a cooperação solidária prima sobre a competição e onde a busca por benefícios individuais não suplanta a percepção da superioridade do bem comum.”

2. Diminuição do consumo humano de materiais e de energia — “Já extrapolamos vários limites de resiliência do planeta, e só estamos começando a pagar o preço disso. É preciso entender (…): não há solução tecnológica miraculosa que nos permita sobreviver, mantidos os níveis atuais de consumo de bens, de energia e de interferência antrópica no sistema Terra.”

3. Extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais — “A biosfera, a água, o solo, o ar, as paisagens e as formas magníficas do mundo não estão para os humanos como meios para o seu fim. É necessário superar a concepção utilitária da natureza (…). O planeta não é um ‘recurso’ a ser explorado ou alocado pela economia.”

4. Restauração e ampliação das reservas naturais, a serem consideradas como santuários inacessíveis aos mercados globais — “Superar o capitalismo é restaurar a possibilidade de que uma dimensão central do mundo permaneça separada da mercadoria.(…) Uma reserva natural deve ser considerada como uma sacra domus.”

5. Desmantelamento da economia global e transição para uma civilização descarbonizada — “Não se transitará para uma civilização descarbonizada enquanto as decisões sobre os investimentos estratégicos no sistema energético e no sistema alimentar forem prerrogativas dos que controlam as corporações e os Estados-corporações. A responsabilidade pelas decisões impostas pela emergência climática tem de ser assumida, global e democraticamente, pelas sociedades. E essas decisões têm de ser tomadas neste decênio, antes que as alças de retroalimentação do aquecimento as tomem por nós.”

6. Desglobalização do sistema alimentar e sua transição para uma alimentação baseada em nutrientes vegetais — “Construir um sistema alimentar baseado em nutrientes vegetais, produzidos por uma agricultura orgânica, local, variada e respeitosa dos habitats selvagens, constitui uma ruptura civilizatória tão premente e crucial quanto a transição do sistema energético para fora dos combustíveis fósseis.”

7. Revisão da soberania nacional — “A soberania nacional deve cessar onde houver ameaça ao interesse comum. O Estado-nação é uma estrutura disfuncional diante de ameaças ambientais de natureza global. (…) A soberania nacional deve ceder o passo a uma autoridade superior, formada pela aliança entre representações populares subnacionais e governança global.”

8. Acelerar a transição demográfica aumenta as chances de sucesso das rupturas enunciadas — “Retornar (…) a uma população em torno de dois bilhões, como éramos havia apenas um século, tornará muito mais fácil avançar nas sete propostas enunciadas. Isso será possível no espaço de poucas gerações se conseguirmos construir uma sociedade sem pobreza e riqueza extremas e com igualdade de gênero, o que começa, repita-se, pelo direito das mulheres a decidir livremente sobre suas funções reprodutivas.”

A questão de saber se é possível realizar essas rupturas civilizacionais no prazo de um decênio é difícil, mas não deve nos paralisar. A enormidade da tarefa, a resistência dos interesses econômicos e a fragmentação dos movimentos sociais são obstáculos reais. No entanto, enfrentar um desafio existencial não é uma questão de probabilidade, mas de necessidade. A humanidade não tem alternativa senão se insurgir contra a ameaça de sua própria extinção, e é nesta falta de alternativa que reside a força dessa insurgência. O futuro guarda energias e mudanças inesperadas. 

A história ensina múltiplas lições, muitas contraditórias, e é por isso que os pontos de inflexão podem e devem ser alcançados. Diante de uma ameaça existencial sem precedentes, a palavra final deve ser buscada nas estruturas sociais que tivermos a coragem de construir, além de nossa memória histórica e da agressividade inerente à nossa herança biológica. O Decênio Decisivo nos convoca a construir essas estruturas, a recusar a inevitabilidade da destruição e a lutar por um futuro onde a sustentabilidade e a justiça prevaleçam. 

 Nossa esperança reside na capacidade humana de transformar e de superar.

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Cada um por si e Deus contra todos: Werner Herzog colecionador de imagens

por Revista Amarello

O cineasta Werner Herzog, de filmes do calibre de Aguirre, a cólera dos deuses (1972) Fitzcarraldo (1982) e O Homem-Urso (2005), galgou um lugar muito específico no ideário contemporâneo. Para muitos, ele transcende a figura do diretor, tornando-se um ícone pela força de seus filmes, mas, curiosamente, também por sua persona excêntrica e intransigente. É como se ele não fosse apenas um dos cineastas vivos mais influentes, mas um personagem em si mesmo (ou, para alguns, de si mesmo). É mais do que ser famoso ou não ser, mais do que ser um diretor importante ou não. Wim Wenders, outro alemão com status de lenda, para bem ou para mal, não evoca essa aura sobre si mesmo. O caso de Herzog é único. Cabelos (hoje ralos) frequentemente despenteados, sotaque bávaro robótico, dizeres sobrecarregados de um gravitas que ninguém mais conseguiria proferir e sair incólume — todas essas características são inconfundivelmente herzoguianas. 

Klaus Kinski em Fitzcarraldo. Reprodução.

E é nesse espectro de mitologia fílmica-sobrenatural que se encaixam suas memórias, Cada um por si e Deus contra todos: memórias, lançadas no Brasil pela editora Todavia. 

Não. É claro que não. Essa não é a autobiografia padrão de uma figura pública, de um artista, de alguém que transitou, e ainda transita, pelos corredores de grandes festivais de cinema. Não há muitos vislumbres do que constitui o âmago do diretor, as descrições que ele oferece nesse estágio da vida, octogenário, são ainda mais do que se vê e até do que se sente, mas nunca por que se sente. A palavra “incorrigível” talvez venha a calhar. Há muito da alquimia presente em fatos e questionamentos arrebatadores do mundo — e, para Herzog, nada é mais exuberante que isso. Os lugares e não-lugares, as perguntas respondidas com perguntas, os impulsos animais que são humanamente dignos de atenção. 

“Tenho uma profunda aversão à introspecção em excesso, à contemplação do próprio umbigo. Eu também preferiria estar morto a ir a um psicanalista, porque sou da opinião de que ali ocorre algo fundamentalmente errado. Se uma casa tem uma iluminação muito clara até o último canto, ela se torna inabitável. É o mesmo com a alma, iluminá-la até sua sombra mais escura torna as pessoas inabitáveis.”

Werner Herzog. Getty Images.

Pensando em obras memoriais de outros diretores de cinema, chega a ser difícil traçar comparação. Não há o compasso cronológico que vai de filme a filme, detalhando um ou outro aspecto da produção e salpicando curiosidades interessantes para quem ama aquele corpo de trabalho. Esqueça, por exemplo, as memórias de Sidney Lumet, o ótimo Making Movies (1995), que segue essa lógica e satisfaz ao entregar bastidores de filmes como 12 homens e uma sentença (1957) e Um dia de cão (1975). Herzog encara sua história como encara seus temas, narrando-a com lentidão e tiradas grandiloquentes, mas com a peculiaridade de fugir das perguntas essenciais que ele próprio faria caso não fosse o objeto de estudo. 

 O resultado? Algo sui generis. “À Herzog”. Por vezes indiferente e distante, por vezes mágico e sedutor — sem nunca deixar de surpreender.

Joana do Prado*, diretora, roteirista e professora de roteiro que criou e dirigiu a série Sociedades Matriarcais, fala sobre a influência de Werner Herzog: “É, sem dúvida, uma das maiores influências no meu trabalho. Além de admirar sua alta produtividade, o que mais me liga a ele são o recorte e o tom que ele dá aos seus filmes. A forma como ele conta histórias com uma curiosidade existencialista, investigando a condição humana em diferentes lugares e situações do mundo, é extremamente potente.”

Assim como em seus filmes, Herzog estabelece uma poderosa relação entre o humano e a natureza. Em Cada um por si e Deus contra todos fica claro de quais experiências vieram a vontade de tratar com essa dualidade. “Minha mãe”, escreve ele sobre a agonia materna depois de um ataque dos Aliados, “me encontrou no berço coberto por uma camada espessa de cacos de vidro, telhas e entulho. Eu saíra totalmente ileso, mas minha mãe, em seu medo, pegou a mim e a meu irmão mais velho, Tilbert, e deixou a cidade fugindo para as montanhas até Sachrang, a mais remota de todas as aldeias na Baviera.” Nesse refúgio remoto, encontrou um terreno fértil para sua imaginação juvenil. A partir daí, Herzog começou a forjar sua visão do mundo, que viria a definir seu trabalho criativo ao longo dos anos. Esses e outros relatos sobre sua infância, especialmente evocativos, falam de um tempo em que o cotidiano se mesclava com o extraordinário. O mundo ali era tão fantástico quanto inventado.

“A filmografia de Herzog é uma celebração da complexidade humana e da luta contra as forças naturais e sociais.”

Pensar nas linhas de força do cinema de Werner Herzog é imergir em um vulcão de complexidade e singularidade. Com uma carreira de meio século (e contando) que já soma mais de cinquenta filmes, Herzog intimida historiadores e críticos com suas variações de registro desde os primeiros passos na direção. Ele diz que, no começo de sua carreira, ficou claro que “por conta do meu quase total desconhecimento do cinema, eu teria que inventá-lo à minha maneira.” Por falta de conhecimento ou não, seguia seus instintos — e esses sempre pareciam acertados. O reconhecimento veio rápido, mas muito mais foi sendo alcançado com o tempo. Não demorou a passar de um cineasta respeitado a uma espécie de evento a ser contemplado, uma presença que transcende seu próprio trabalho para se tornar um fenômeno cultural por direito próprio.

“Seu olhar e o destaque que ele dá à força das imagens”, comenta Joana, “são minhas maiores inspirações em suas obras. Como ele mesmo disse há alguns anos, como diretor ele teve a pretensão de formar uma gramática, uma enciclopédia de imagens do nosso mundo. E conseguiu: ele é o único diretor que filmou em todos os continentes. Mais do que simplesmente colecionar imagens, ele dá protagonismo a elas, posicionando-as sempre em primeiro plano e no centro da narrativa, com o uso da música e de sua narração como suportes. Muitas vezes, ele retira a narração e ficamos apenas com a imagem, que adquire vida própria, um estrelato místico.” 

Junto com a postura espectral de sua voz, e em alguns casos a fantasmagoria de sua presença física, seus documentários foram os principais responsáveis por criar a mitologia herzoguiana. Os exemplos de bons filmes que contam com o próprio Herzog são muitos: Little Dieter needs to fly (1997), A caverna dos sonhos esquecidos (2010), Lições da escuridão (1992), Meu melhor amigo (1999) e tantos outros. Em um relato raro do livro — “raro” porque entendemos, a partir de uma relação causal direta, o início de uma característica marcante de sua obra —, o diretor conta que criou sua persona audiovisual ao ser forçado pelo amigo e jornalista Gerhard Konzelmann a aparecer em sua série de documentários, já que a voz em off não era permitida ali. Isto é, cada cineasta participante tinha que aparecer. 

“Esse foi um passo cujo alcance não pude reconhecer totalmente na época, mas que teve grandes consequências.”, relata Herzog. “Eu havia encontrado a minha voz, a minha voz de palco, por assim dizer.”

Certa feita, François Truffaut chamou Herzog de “o diretor vivo mais importante”. É sintomático que alguém tão influente quanto o francês tenha louvado o trabalho do alemão: grandes obras encantam pessoas planeta afora, pois têm o poder de quebrar barreiras geográficas e temporais. É como conta Joana:

“Ao desenvolver a série documental Sociedades Matriarcais, que foi ao ar no ano passado pelo GNT, inspirei-me muito em dois filmes de Herzog, Happy People: A Year in the Taiga (2010) e Visita ao Inferno (2016), tanto na plasticidade das imagens quanto na presença marcante da narrativa. Esses dois elementos guiaram a concepção do projeto, desde os roteiros até as filmagens. Durante os encontros com as matriarcas e com outros personagens dessas sociedades, refinei não apenas meu olhar para a realidade dessas culturas nas escolhas das imagens que as representam, mas também para a mensagem que gostaria de transmitir sobre elas e como fazê-lo. Assim como nas obras de Herzog, a narração permitiu minha participação como personagem, um espaço fundamental para a reflexão sobre essas sociedades sob a perspectiva de uma mulher que cresceu em uma sociedade patriarcal.”

O menino que morava no ponto mais remoto de toda a Baviera, em condição de miséria, realmente conquistou o mundo.

Nas memórias de Herzog há, sim, relatos sobre a produção de filmes icônicos e os atritos com figuras como o escritor de viagens Bruce Chatwin e o alpinista Reinhold Messner. No entanto, isso não parece ser o centro do livro. Esses relatos, claro, oferecem uma janela para espiar a mente do diretor, mas isso não é suficiente para levar um inquieto como ele a se dedicar à escrita memorial. O que de fato fez com que ele se sentasse em uma cadeira para escrever esse material advém de um desejo sedutor de tergiversar, um prazer incontornável de temperar as bordas de um prato já aquecido com a magma da própria lava.

Aliás, um pensamento que ressoa no fundo da mente de quem lê Cada um por si e Deus contra todos: memórias, quase como um subtexto proposital, é: certo… mas será que é verdade? Isso, talvez, seja um dos resultados do enigma que Herzog conjurou sobre si mesmo ao longo dos anos, mas, sobretudo, é fruto de uma escrita que ressoa como um sonho fabricado, apesar de ou talvez por conta de seu distanciamento autoimposto. 

Se isso soa familiar, é porque seus filmes carregam uma aura similar. Ou seja, ao desafiar as convenções da autobiografia tradicional, optando por uma abordagem mais poética e fragmentada, ele encolhe os ombros e se cobre com o lençol da coerência. Em sua prolífica carreira, sempre foi assim. Aqui, por se tratar de um livro de memórias do autor de O Enigma de Kaspar Hauser (1974), o esperado era o inesperado. Isso é, em sua essência mais pura, Werner Herzog, obcecado pelos misticismos que tornam o planeta um lugar tão interessante de se explorar (sendo ele próprio uma figura mítica desse caldo).

A filmografia de Herzog é uma celebração da complexidade humana e da luta contra as forças naturais e sociais. A escrita contida em suas memórias, por sua vez, é uma batalha particular, não contra a natureza (ainda que essa batalha esteja presente) e nem muito menos contra si mesmo, mas contra o tédio para com o mundo e as pessoas que o circundam. 

“Ele celebra a espontaneidade dos acontecimentos que testemunha ou que são testemunhados por terceiros”, sintetiza Joana. “Está em um constante estado de encantamento pela nossa capacidade, enquanto seres humanos, de criar interações complexas com o ambiente ao nosso redor. No documentário The Fire Within (2022), Herzog presta uma linda homenagem às imagens produzidas pelos Krafft, e faz isso de forma solene e muito poética. No curso que dou sobre roteiros de documentários na Roteiraria, uso este filme como exemplo da forma minuciosa com que Herzog constrói não apenas histórias, mas sensações. Nunca é a imagem pela imagem, mas sim a dialética que ele constrói entre o que tangencia nossa realidade e o que está além do tangível, conferindo um significado mais profundo ao que retrata e aos encontros que narra com seus personagens. Ele convida o espectador a dar um giro no olhar, a ir além da superfície e a ver e sentir o mundo junto com ele em uma nova e mais ampla perspectiva.”

Cada um por si e Deus contra todos é um passeio desafiador e saboroso pela sua filosofia pessoal e artística, à semelhança das romarias de muitos de seus personagens. E vale adiantar que, considerando tudo isso — a inquietude incontornável, a vontade de quebrar paradigmas, a obsessão em fazer com que sua história seja maior que si próprio —, o final do livro é perfeito. 

Dá para se perder nas paisagens interiores de um dos cineastas mais originais e controversos de nosso tempo, um homem cuja vida e obra continuam a desafiar e a intrigar, abrindo novos caminhos no cinema e além dele. 

Mas, se alguém se perder, esse alguém que se vire. Lembre-se: é cada um por si. Cada um por si e Herzog contra todos.

*Joana do Prado é diretora, fotógrafa e roteirista. Dirigiu três séries de TV, uma delas ganhadora do prêmio TelaViva. Em 2023, lançou a série documental ‘Sociedades Matriarcais’ no GNT/ Globoplay. Atua também como professora de roteiros na Roteiraria.

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Tomar café na casa de alguém é um convite para conhecer profundamente essa pessoa. Nossa casa é a casca que nos protege do mundo. Ela é parte importante de nossa cultura particular, e reflete a maneira como enxergamos e gostaríamos de nos inserir no mundo.

Aqui, dividimos casas de pessoas que gostam de casa. Que têm suas casas vivas, cheias de objetos que contam a história de uma vida, sem um lugar perene em seus espaços.

Camila Tariki é arquiteta e designer de interiores. Filha de mãe argentina e de pai neto de japonês, é mãe da Lis, do Ian, o grandão, e da Lila, a filhote. Morou em Nova Iorque por onze anos, onde estudou e trabalhou com o designer egípcio Karim Rashid. Atualmente, ela toca uma equipe de vinte e seis pessoas na Bernardes Arquitetura, escritório da qual é sócia, criando para seus clientes espaços em que as pessoas que moram naquela casa possam formar memórias e identidades.

Adorei muito a sua casa, tem a sua cara. Casa, pra mim, é assim, viva.

Acredito que casa é muito a nossa memória. Acho que é porque tem esses objetos que eu fui coletando durante a vida, e eles vão seguindo de casa em casa. Eu sou uma pessoa apegada, minha casa é o meu caracol. Já mudei muito. Em Nova Iorque, foram seis vezes em doze anos. Em São Paulo, esta é a minha quarta casa.

Me fala um pouco desta sua casa, como começou a sua história com ela?

Foi durante a pandemia. Estava todo mundo trabalhando online, e eu comecei a ir muito para a Bahia. Cheguei lá, aquele horizonte, aquela paz, e pensei “Nossa Senhora, acho que eu preciso disso na minha vida”, sabe? Em dois dias que estava lá, o meu corpo voltou pro sistema biológico normal, eu acordava às 6h, dormia às 21h30, estava com fome nas horas certas, a cabeça estava boa. Foi dessa maneira que escolhi esta casa, demos um tapa no imóvel, uma coisa muito rápida. Pintei uma sala duas vezes, porque não gostei da cor, depois pintei a sala inteira de amarelo e pensei “não estou conseguindo viver com essa parede tão colorida, com esses quadros”. Fiz uma casa feminina, com cortinas e cores claras. Como sou eu e a Liz aqui, fiz uma casa pra ela.

O que é uma casa feminina pra você?

A casa tem muito rosa, tem muito amarelo, acho que tem essa suavidade em tudo. As peças, as cores, os móveis são mais orgânicos. Criei também uma sala mais divertida, mais preto e branco.

O que você acha que essa casa te oferece, em termos de conforto e bem-estar?

Acho que ela tem passarinhos, natureza. Por mais que seja no meio de São Paulo, ela tem uma combinação de introspecção e alegria. Pra onde você olha, tem alguma bagunça. Morei em casas mais zen, essa tem mais vida.

Como você acha que seu gosto mudou com o tempo?

Tudo na vida é acumulativo. Às vezes, você está muito focado em uma coisa, depois “nossa, olha isso, que legal, deixa eu explorar”. É um olhar curioso para as coisas. Eu, por exemplo, prefiro não ver Pinterest de jeito nenhum. Tento manter meu olhar livre de tendências, mais intuitivo do que informativo. Parto muito de compreender, dentro daquela casa, o que funciona para determinada pessoa. O tempo inteiro, eu vou num lugar, eu olho, eu vejo, eu pego amostra, eu testo. Estou o tempo inteiro colocando muito a mão na massa. E viajar, eu amo viajar, a minha alma é viajante, não abro mão de viajar. Eu falo muito pra minha equipe que a gente não tá criando uma imagem, um projeto pra uma foto. A gente tem que pensar na experiência que o cliente vai ter dentro daquele espaço, como é que eu quero que as coisas pareçam, que tipo de materiais, etc.

Qual você acha que é o papel da arte numa casa?

A arte é uma coisa muito pessoal. Ao longo do tempo, fui conhecendo e me educando, com uma relação zero colecionista. Algumas coisas me tocaram, outras foram curiosidade. Quando vim pra esta casa, que montei de uma forma mais experimental, criei uma parede “dos estranhos”, como Da Silva, Leonilson, Marepe. Fui brincando com essas ligações invisíveis que eu achava entre os artistas. Mas é algo que eu amo. Hoje, inclusive, onde eu pesquiso e estudo muito, é nas artes. É exatamente dessa liberdade do pensar que eu gosto, porque, para o artista, ter um papel em branco pode ser uma coisa super assustadora. Acho esse processo muito inspirador e acabo me inspirando até pra minha vida, pro meu trabalho e pra como encaro certas questões. Uma parede toda forrada de quadros é muito divertida, e cria uma troca muito legal com a casa. A Liz é muito observadora, ela vai e fala dos quadros, eu explico quem é o artista, o porquê, do que é feito, o que gera curiosidade nela. Às vezes ela faz uns comentários super pertinentes, ela observa e depois muda de opinião. Então ela mesma já tem essa troca, que é muito bacana.

O que você acha que torna uma casa única?

Acho que o arquiteto, o designer de interiores ou o decorador cria um espaço para que as pessoas que moram naquela casa criem suas memórias, sua identidade. O que traz a personalidade da pessoa é a dinâmica de cada família, a ideia de como cada um quer viver. Não fazemos o projeto para nós, mas para quem vai ocupar e viver nesse espaço. Acredito muito nessa colaboração com os moradores, em personalizar a experiência desse viver.

O que torna uma casa brasileira?

A gente vive num país com um clima maravilhoso, que é generoso, tem a temperatura certa. Então acho que a casa brasileira é uma casa que tem essa oportunidade de estar muito mais integrada com o seu ambiente, seja natureza, seja um jardim ou uma vista. São casas mais extrovertidas, voltadas para fora. Temos a vantagem de ter, por exemplo, beirais longos para proteger do sol, de criar varandas. Podemos viver muito fora de casa. O brasileiro tem esse lado muito despojado de viver e de receber. É óbvio, cada região acaba ditando certas soluções e maneiras de vivência. Mas definiria como sendo generosidade e integração com o externo.

Vindo de uma mistura cultural rica, argentina, japonesa e norte-americana, qual é o papel da comida e da alimentação dentro da sua casa?

Eu vejo a comida muito como uma oportunidade de você estar fazendo bem pra você mesmo. Comida também é um posicionamento de como você quer impactar o meio ambiente. Eu consumo pouca carne vermelha, como mais peixe. Enfim, eu tento ser consciente não somente quanto à saúde, mas à procedência do alimento que eu estou ingerindo.

O que significa a casa pra você?

A casa é seu abrigo, seu espaço, sua referência, seu templo. A casa é o meu local de encontro, de descanso, de ver a minha história ao redor de mim. Gosto muito também de trazer gente, de receber, de estar com os amigos em casa.

Que tipo de projeto ainda não realizou?

Nossa, tantos que eu ainda nem sei. Mas espero realizar projetos cada vez mais diversos e diferentes. Estamos fazendo um museu agora. Era um grande sonho pessoal, preparar uma instituição cultural. Estamos fazendo três, o IMS, uma fundação em Portugal, um para o [Instituto] Burle Marx.

E o que significa falar pra você passar pra tomar um cafezinho com alguém?

É um momento de encontro. O café, o ritual, é o momento que simboliza a pausa no dia pra você simplesmente se conectar com alguém. Às vezes até se conectar com si mesmo. Às vezes paro em meio à correria e tomo meu cafezinho sozinha. Também é gostoso.

Objeto de carinho

Esses objetos ficam na salinha de brinquedos da Lis. Uma escultura do Véio [Cícero Alves dos Santos]; um vaso da Minco Y Turola e uma figura “a alma” (representando o bem nos festejos de Reisado), comprados na loja da Amarello e que eu amo; uma pombinha de artesanato brasileiro; um bowl do Gaetano Pesce; e um Talking Stick, da Tanzânia. As tribos utilizam esse objeto de madeira, todo feito de miçanga, durante as rodas de conversa, para indicar quem tem a vez da fala.

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Menino do rio, de Luiz Zerbini (1988), na exposição Paisagens Ruminadas, retrospectiva do pintor no CCBB Rio. Foto de Pat Kilgore.
ArteArtes Visuais

Paisagens Ruminadas: Luiz Zerbini no CCBB

por Revista Amarello

“Para pintar, é preciso estar em pé no campo, pisando o capim com o olhar vago, fixo no horizonte, e triturar involuntariamente paisagens, sonhos e memórias.” É com tal evocação visual que Luiz Zerbini nos convida a adentrar seu processo criativo, um emaranhado estético em que viver significa ruminar paisagem. O conceito está no coração da exposição Paisagens Ruminadas, a primeira grande retrospectiva do artista no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Até 2 de setembro de 2024, o público terá a oportunidade de mergulhar nos quase 50 anos de trajetória de Zerbini, figura central da Geração 80 da arte brasileira.

Chuva de verão Santo Antônio (2020). Foto de Pat Kilgore

Sob a curadoria de Clarissa Diniz, a exposição ocupa o primeiro andar do CCBB, reunindo 140 obras distribuídas em cinco núcleos temáticos. Algumas dessas obras nunca foram exibidas antes, incluindo uma instalação criada especialmente para a exposição. Acompanhar esses cinco núcleos proporciona uma viagem visual e sensorial pelo universo multifacetado e inovador de Zerbini.

Maré alta – Mangaratiba 1 (2021). Foto de Pat Kilgore

“Como a paisagem é um conceito sociocultural”, comenta a curadora, “os paisagistas estão implicados num exercício interpretativo que é atravessado por transformações não apenas subjetivas, mas também sociais, públicas, históricas e políticas. Com Zerbini não foi diferente. Se nesses 50 anos de trabalhos vemos o artista amadurecer em âmbito pessoal, é também verdade que sua obra e o mundo que ela rumina igualmente se adensaram, abraçando um número cada vez maior de camadas, nuances, interesses, compromissos. Suas estratégias formais e plásticas — bem como seus assuntos e ambições — se transformam continuamente, não numa linearidade evolutiva, mas em espiralados desdobramentos. Um exemplo desse movimento é a dimensão alegórica de sua obra, aspecto presente nas icônicas obras em que, já nos anos 1980, retratou seus amigos artistas, e que foi, mais recentemente, retomada e transmutada na forma de alegorias históricas.”

Maré alta – Mangaratiba 2 (2021). Foto de Pat Kilgore

Luiz Zerbini nasceu em São Paulo, em 1959, e iniciou sua atividade artística no final dos anos 1970. É conhecido por pinturas de grande escala, com cores exuberantes e incursões no abstracionismo geométrico. Mas sua obra é um mosaico de inúmeras formas, cores e narrativas, advindas da inquietude e sensibilidade diante do mundo. Além de pintor, Zerbini é um artista multimídia, explorando os limites entre as artes visuais, a música e o cinema. Há quase 30 anos, ele integra o grupo sonoro Chelpa Ferro, junto com Barrão e Sergio Mekler, produzindo objetos, instalações, performances, shows e CDs.

Mar branco – Mangaratiba (2021).

Não à toa, a exposição inclui diversidade de suportes e estilos em cada um de seus grupos temáticos. “Por ter um caráter panorâmico”, nos lembra Clarissa, “Paisagens Ruminadas é uma exposição que tem o compromisso de apontar para a complexidade da obra de Zerbini. Como um artista criativamente inquieto, Luiz expressa sua paixão pela experimentação de técnicas e mídias, como também nutre um profundo respeito aos acidentes, aos improvisos e aos acontecimentos que, guiados mais pela agência da matéria e do tempo do que pela racionalidade do artista, terminam por produzir arranjos e soluções plásticas que trazem, para o corpo da obra, uma miríade de outros suportes e formas de fazer. É buscando ser fidedigna à pluralidade material e técnica da obra de Luiz Zerbini que a exposição convoca toda essa diversidade para o seu coração, que deixa de ser território exclusivo da vetusta pintura.”

Boipeba (2016).

O primeiro núcleo da exposição, “viver é ruminar paisagens”, afirma a centralidade da paisagem na prática artística de Zerbini. Sua paisagística transcende a pintura, manifestando-se em múltiplas linguagens e experimentações. Uma das obras de destaque é High Definition (2009), peça monumental que marca o retorno de Zerbini às pinturas figurativas após um período dedicado ao trabalho com o grupo Chelpa Ferro. Este núcleo ilustra como a paisagem, para Zerbini, é tanto uma fonte de inspiração quanto um método de experimentação contínua, além de ser uma metáfora para os fluxos, para as energias, para as relações que nos constituem e que, em certo sentido, escapam à nossa compreensão.

High Definition, de Luiz Zerbini (2009). Foto de Eduardo Ortega.

No segundo núcleo, “o lugar de existência de cada coisa”, são exploradas as estratégias de Zerbini para forjar os lugares de existência de sua obra. Ele combina tradições naturalistas com elementos fabulares, memórias e alegorias. A obra Mesa Mar (2017) exemplifica essa abordagem, trazendo para o espaço expositivo objetos que habitam suas pinturas, criando uma sensação de vertigem quando as coisas parecem fora de seus lugares naturais, transformadas em espectros ou fragmentos de si mesmas. Este núcleo também aborda reflexões sobre a morte e o luto, ampliando a dimensão poética e onírica da obra.

“As paisagens”, comenta Diniz, “são compostas pelo que se revela aos olhos, mas também por sons, temperaturas, texturas, cheiros, dentre outros aspectos sensíveis que são radicalmente irredutíveis ao olhar. Há, ainda, presenças da ordem do invisível, como memórias, fungos, espíritos, etc. Nesse sentido, para ‘representar’ paisagens — ou, talvez mais precisamente, evocá-las —, Zerbini tem recorrido a estratégias que vão além do naturalismo do cânone europeu do gênero da paisagem. Sua obra tem se aproximado cada vez mais de problemas tais quais: ‘como evocar o vento?’, ‘como testemunhar, na pintura, a inseparabilidade dos muitos seres que compõem uma mata?’, ‘como fazer ressoar o som das folhas?’, ‘como tangenciar a luz que faz tudo vibrar?’, e por aí vai… Para lidar com esses problemas, o artista tem experimentado e inventado formas de representar que vão além da perspectiva linear, da distinção entre figura e fundo, da matização cromática, dentre outras prescrições naturalistas.”

Primeira Missa (2014). Foto de Jaime Acioli.

No terceiro núcleo, “da natureza alegórica da paisagem: Massacre de Haximu e Primeira Missa”, a retrospectiva destaca a vocação histórica da ruminação paisagística. As pinturas alegóricas revisitam a história brasileira, combinando signos e personagens em grandes composições que desafiam narrativas oficiais e avivam memórias de resistência e insurgência. As obras que dão nome ao núcleo, Massacre de Haximu (2020) e Primeira Missa (2014), confrontam iconograficamente a violência social que caracteriza a constituição colonial do Brasil, oferecendo uma leitura crítica e renovada da história nacional.

Massacre de Haximu (2020). Foto de Pat Kilgore.

O quarto núcleo, “eu paisagem”, desafia a dicotomia cartesiana entre o eu e o outro, a natureza e a cultura. Obras como Paisagem inútil (2020) exploram as inter-relações entre o retratado e o retratante, reconhecendo que a subjetivação é inerente aos territórios, objetos e elementos naturais. Este núcleo também investiga esquemas formais e ontológicos de culturas não-ocidentais, como os kenes Huni Kuin e os tecidos Batik, da Indonésia, que elaboram estéticas vinculadas à cosmovisões holísticas do mundo.

Paisagem inútil (2022). Foto de Pat Kilgore.
Eu paisagem (1998). Foto Vicente de Mello.

O último núcleo, “não é só sobre o que se vê”, estende a inscrição paisagística de Zerbini para além das referências visuais, incorporando leituras sonoras, espaciais e rítmicas. Em Miragem (2004), a paisagem se mescla com a geometria e a musicalidade, refletindo a intensa colaboração do artista com o Chelpa Ferro. Aqui, a arte de Zerbini é apresentada como uma experiência sensorial completa, onde o visual se funde com o sonoro, o espacial e o vibrátil.

Paisagem digital (2003). Foto de Vicente de Mello.

Sobre a integração da sonoridade e musicalidade na obra de Zerbini, a curadora observa: “Nele [no núcleo “não é só sobre o que se vê] vemos obras que lidam com a representação de instrumentos e outras tecnologias musicais (Paisagem digital, 2003) e com a alusão visual a ritmos (Frevo, 2019); brincam com a representação gráfica do som (Miragem, 2004) ou exploram a dimensão visual das ondas, frequências e outras instâncias vibráteis (Frequency of human hearing, 2017), bem como tem, ainda, uma peça (Chuva) que, composta junto ao Chelpa Ferro, é ela mesma uma fonte de emissão sonora.”

Após o CCBB Rio de Janeiro, Paisagens Ruminadas seguirá para o CCBB Brasília, de 17 de setembro a 10 de novembro de 2024, continuando a oferecer ao público a oportunidade de mergulhar nessa paisagem poética. 

Autorretrato (2024), de Luiz Zerbini. Foto de Pat Kilgore.

“Como tem reiterado Zerbini”, relembra Clarissa Diniz, “uma retrospectiva tem a capacidade de oferecer, aos públicos e ao próprio artista, a possibilidade de (re)ver obras que foram pouco exibidas em diálogo com aquelas mais icônicas, que costumam identificar uma poética. Ao fazê-lo, permite uma visada geral sobre o trabalho e suas transformações: perspectiva cuja generosidade costuma ser de fato relevante para a compreensão de uma obra. Esperamos que Paisagens Ruminadas possa trazer essa contribuição através da articulação de trabalhos de épocas, linguagens e intenções distintas em torno da ideia da ruminação, o operador conceitual da mostra que é, ao mesmo tempo, uma chave bastante útil à navegação por entre a complexa e ampla produção de Luiz Zerbini.”

sem Título / “Prata e Rosado” (1999).

Clarissa Diniz é curadora da exposição Paisagens Ruminadas, escritora e educadora em arte. Graduada em artes pela UFPE, mestre em história da arte pela UERJ e doutoranda em antropologia pela UFRJ, Diniz traz um olhar sensível e profundo para a obra de Zerbini. Seu trabalho no Museu de Arte do Rio e em diversas exposições, como Histórias Brasileiras no MASP, destaca sua habilidade em matizar o protagonismo de artistas contemporâneos, revelando as múltiplas camadas de suas criações.

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O que a inteligência das plantas nos diz sobre o futuro do mundo?

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Nos anos 1960 e 1970, surgiram experimentos que alegavam que as plantas possuíam sentimentos e respondiam a estímulos musicais (e faziam até testes de polígrafo!). Embora essas alegações tenham sido desmascaradas a ponto de virarem alvo de chacota, a jornalista climática Zoë Schlanger, em seu livro recente Devoradoras de Luz — que será lançada em novembro no Brasil, pela editora Objetiva —, nos mostra que as plantas são inteligentes de maneiras complexas que desafiam nossa compreensão, muitas vezes limitada às nossas próprias noções de espécie. 

“As plantas demonstram um interesse ativo no resultado de suas vidas. Sabíamos que reagiam ao ambiente, mas não de maneiras tão complexas e inteligentes”

Schlanger descreve essa inteligência como uma “forma de agência”, o que não quer dizer que as plantas vão desenvolver aparatos tecnológicos ou responder questões matemáticas. Quer dizer, na verdade, que as plantas demonstram um “interesse ativo no resultado de suas vidas”. Ou seja, elas sentem as condições às quais estão submetidas e tentam tirar o melhor delas, prezando pela própria sobrevivência. Essa nova visão, resultado de pesquisas e de respostas analisadas a partir de uma perspectiva moderna mais aberta, desafia a percepção tradicional das plantas como seres passivos e inertes, propondo que são afinal entidades ativas e responsivas, totalmente capazes de interagir com o ambiente de maneiras sofisticadas. A palavra “sofisticada”, vale dizer, é chave para entendermos a novidade: já sabíamos que as plantas reagiam ao ambiente, mas não de maneiras tão complexas e inteligentes.

Através de uma série de exemplos fascinantes, a jornalista revela como as plantas utilizam informações do ambiente para tomar decisões críticas. Plantas de tomate, quando atacadas por lagartas, liberam um componente químico que torna suas folhas desagradáveis, forçando as invasoras a se devorarem mutuamente; plantas de milho, por sua vez, analisam a saliva das lagartas predadoras e emitem um químico que atrai vespas parasitas, que então atacam essas lagartas. O nome disso? Inteligência, com todas as letras — esses comportamentos indicam um nível surpreendente de sofisticação na forma como as plantas interagem com o ambiente que lhes circunda, utilizando sinais químicos para se comunicar e se defender. 

Tal comunicação, muitas vezes referida como “sinalização” de plantas, demonstra que as plantas possuem sistemas intrincados para detectar e responder a diversos estímulos, o que sugere uma forma de inteligência e memória.

A ideia de que as plantas possuem uma forma de memória, aliás, é particularmente intrigante. No seu livro, Schlanger explora o conceito da “memória do inverno”, que se refere ao fato de que certas plantas precisam de um período de frio durante o inverno para conseguir florescer na primavera, indicando que elas “contam” os dias frios e quentes para garantir que não floresçam prematuramente. 

A autora Zoë Schlanger.

A explicação expandida é: a maioria das árvores frutíferas precisa “memorizar” um certo número de dias frios durante o inverno para poder florescer na primavera. Não basta apenas que o clima aqueça, elas precisam desse período profundo de frio, o que indica que, de certa forma, estão contando. Elas contabilizam os dias de frio e, em seguida, os dias de calor para garantir que não vão emergir prematuramente durante um aquecimento fora de época. Embora isso ocasionalmente ocorra, resultando na perda de colheitas para muitos agricultores, há evidências de que partes da fisiologia das plantas registram essa informação. No entanto, assim como ocorre com as pessoas, ainda não se sabe exatamente onde ou como essa memória é armazenada.

Essa capacidade de registrar informações ambientais e ajustar seu comportamento subsequente é mais uma forma de adaptação evolutiva que demonstra a complexidade inegável da vida vegetal.

E o que isso nos diz sobre o futuro do mundo? 

“A inteligência das plantas nos obriga a reconsiderar nosso papel no meio ambiente”

Primeiro, a inteligência das plantas nos obriga a reconsiderar nosso papel no meio ambiente. Reconhecer que as plantas possuem formas sofisticadas de comunicação, memória e resposta ao ambiente nos leva a entender, ou começar a entender, a interconexão e a interdependência dos sistemas vivos. Quanto mais nos lembrarmos que existe um grande ecossistema e que, no final, somos apenas parte dele e não o seu centro, melhor. Em um momento em que enfrentamos desafios ambientais cada vez maiores, como as mudanças climáticas que já há tempos apresentam resultados devastadores, essa perspectiva é indispensável. As plantas, com sua capacidade de adaptação e comunicação, oferecem lições valiosas sobre resiliência e, sobretudo, cooperação. Aprender com elas é desenvolver estratégias mais eficazes e sustentáveis para preservar o meio ambiente e enfrentar os problemas globais que ameaçam nossa existência.

A memória das plantas e sua capacidade de adaptação em particular são relevantes. Não seria melhor, especialmente no contexto do aquecimento global antropomórfico, se pudéssemos responder ao mundo ao redor e não forçar o mundo para que ele responda a nós? Plantas que podem ajustar seu comportamento com base em experiências passadas podem ter uma vantagem adaptativa, influenciando estratégias de conservação e agricultura sustentável. O conhecimento sobre como elas se comunicam e se defendem incute em nosso raciocínio a possibilidade do desenvolvimento de novos métodos biológicos para proteger culturas agrícolas de pragas, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

Expandir nossa definição de inteligência e agência para incluir o reino vegetal incentiva a adotar uma visão mais holística e integrada da vida na Terra. Há outras formas de viver. Há outras formas de estar aqui e dialogar com o que mantém o planeta vivo. As plantas nos mostram que a vida é mais interconectada e interdependente do que muitas vezes percebemos. Essa percepção pode ser um catalisador para um futuro mais sustentável, em que a cooperação e a coevolução com o ambiente são reconhecidas como essenciais para a sobrevivência e o bem-estar de todos os seres vivos.

As descobertas sobre a inteligência das plantas também destacam a importância da mente aberta na investigação científica. Muitos botânicos e biólogos ainda recuam diante do estudo da inteligência das plantas devido ao dano causado por alegações não científicas no passado. No entanto, a narrativa de Schlanger ressalta que a validação rigorosa de novas teorias e a disposição para explorar o desconhecido são fundamentais para o avanço do conhecimento.

O que a inteligência das plantas mostra sobre o futuro do mundo é simples: devemos reconhecer e valorizar a complexidade e a interconexão da vida vegetal. Com suas capacidades surpreendentes, as plantas ensinam valores que, embora essenciais para o futuro, parecem estar em baixa. 

Será que, em algum momento, estaremos prontos para aprender com essa outra inteligência e — finalmente — redefinir nossa abordagem na preservação do planeta?

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Em cada bolso, um universo de possibilidades e distrações. Na sala de aula, e em tudo quanto é lugar, o celular, esse pequeno artefato tecnológico, se transforma em ponte e abismo, a um só tempo conectando e dispersando. E, assim, pais e professores enfrentam um dilema moderno: abraçar ou combater? 

“O Brasil é o segundo país no mundo com maior uso compulsivo de celulares. Pesquisas mostram que o uso excessivo pode causar impactos cognitivos.”

O debate sobre o uso de celulares na infância e adolescência, em especial na sala de aula, é um dos temas mais fervorosos na educação contemporânea. Enquanto alguns defendem o potencial educativo e de abrangência de visões de mundo desses dispositivos, que podem facilitar o acesso a informações e a diversas realidades, outros apontam para as distrações constantes e a dificuldade de manter a atenção por mais de alguns minutos. 

Segundo dados apresentados na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), o Brasil é o segundo país no mundo com maior uso compulsivo de celulares, refletindo um alto nível de engajamento digital na vida cotidiana. Segundo a ComScore, empresa de análise de dados na internet, mais de 170 milhões de brasileiros, quase 80% da população, participam regularmente das redes sociais. E pesquisas mostram que o uso excessivo de celulares e tablets pode causar impactos cognitivos e afetar o desenvolvimento psicomotor, levantando preocupações sobre os efeitos de longo prazo dessa intensa exposição à tecnologia desde a infância. 

Diante disso, fica a pergunta: deve-se preservar os jovens de uma exposição tão precoce e intensa às telas?

Ohana Luize*, coordenadora de Educação da COAR Notícias, acredita que “é uma preocupação legítima que merece destaque, pois sabemos como o excesso de telas e conexões pode impactar negativamente, gerando ansiedade e afetando a qualidade das interações pessoais. Observamos isso em nossas próprias famílias, sem necessidade de pesquisas, apenas ao observar nossa realidade. Muitas vezes, a qualidade das interações face a face entre crianças e adolescentes é comprometida pela constante presença dos celulares.”

Mas também salienta que “ao mesmo tempo, não podemos privar as crianças do acesso à informação, à tecnologia e aos aprendizados próprios de seu tempo. Precisamos acompanhar seu desenvolvimento de forma positiva, integrada e produtiva em relação às tecnologias e ferramentas digitais. Isso implica desenvolver um olhar crítico que não desvalorize a presença diária dessas ferramentas na vida das crianças, mas que as incentive a serem cada vez mais elaboradas e benéficas para o desenvolvimento educacional e digital das crianças.”

O Movimento Desconecta, iniciado por um grupo de mães em São Paulo, propõe uma reflexão sobre o uso de smartphones por crianças e adolescentes. Defendendo o adiamento do acesso aos dispositivos até os 14 anos e a restrição ao ingresso nas redes sociais até os 16 anos, o movimento destaca preocupações com o impacto negativo dessas tecnologias na saúde mental e no desenvolvimento social dos jovens. A iniciativa visa criar um ambiente mais seguro e saudável para o crescimento das crianças em uma era digital cada vez mais dominante. As pessoas envolvidas se preocupam com a exposição precoce a conteúdos nocivos e altamente viciantes que podem prejudicar a cognição, memória, saúde mental e relacionamentos das crianças. 

O movimento visa devolver a decisão aos pais, incentivando ações coletivas para minimizar essa pressão. “Queremos trazer a decisão de volta aos pais para iniciar essa transformação. Acreditamos no poder de ações coletivas e queremos inspirar família a família, escola a escola, a se juntarem a nós nessa missão”, afirma o manifesto do movimento.

Enquanto educadores enfrentam desafios para integrar tecnologias de maneira educativa, mães, como as fundadoras do movimento, buscam equilibrar os benefícios e os riscos associados ao uso precoce de smartphones por seus filhos. “Os smartphones”, diz o manifesto, “expõem crianças e adolescentes a conteúdos nocivos e altamente viciantes, acarretando prejuízos individuais na cognição, memória, saúde mental, relacionamentos e prejuízos coletivos como cyberbullying, desinformação, polarização e extremismo”.

Além disso, o movimento sublinha que a pressão social coloca os pais em uma posição desafiadora: “Ou damos aos nossos filhos acesso a algo que abre portas para vários perigos ou corremos o risco de excluí-los socialmente”. A iniciativa busca devolver a decisão aos pais e promover ações coletivas para minimizar a pressão social, inspirando famílias e escolas a se unirem nessa missão de proteger a infância.

“Os dispositivos facilitam a socialização, a expressão criativa e o desenvolvimento de habilidades digitais essenciais para o futuro”

Por outro lado, críticos argumentam que os smartphones são essenciais para a construção da identidade dos jovens — e não só a identidade digital. Os dispositivos facilitam a socialização, a expressão criativa e o desenvolvimento de habilidades digitais essenciais para o futuro dos jovens. A integração precoce às tecnologias digitais também pode preparar os jovens para um mundo cada vez mais digitalizado, onde competências digitais são essenciais para o sucesso acadêmico e profissional.

Especialistas em educação defendem que a chave está em ensinar os jovens a usar essas tecnologias de maneira responsável e produtiva, ao invés de simplesmente restringir seu acesso. Proibir o uso de smartphones pode privar os estudantes de oportunidades de aprendizado e interação social que são vitais para o desenvolvimento de habilidades importantes para o século XXI.

Ohana Luize chama a atenção para outro aspecto da discussão: as diferenças socioeconômicas dos usuários. Ela comenta:

“No final do ano passado, o estudo TIC Kids Online Brasil revelou que 24% das crianças até 6 anos de idade já começavam a se conectar à internet. Esse número aumenta para 95% entre os brasileiros de 9 a 17 anos, mostrando um crescimento significativo na utilização da internet.

O celular é o dispositivo principal para acesso à internet, especialmente nas classes menos favorecidas. Isso cria um fenômeno complexo: enquanto a tecnologia continua a se desenvolver, especialmente no ambiente educacional, proporcionando maior qualidade e robustez, a maioria dos usuários, especialmente os mais vulneráveis social e economicamente, acessa a internet exclusivamente pelo celular. No entanto, essa conexão via celular tem suas limitações de qualidade.

Essas limitações tornam as classes menos favorecidas ainda mais vulneráveis em termos de acesso à informação de qualidade. Muitos estudiosos e pesquisadores defendem um equilíbrio necessário: reconhecer os desafios dos excessos tecnológicos enquanto aproveitam os benefícios que as tecnologias podem oferecer para melhorar o aprendizado, diversificar os métodos educacionais e facilitar o trabalho dos educadores e o processo educativo familiar.”

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites de tempo para o uso de telas: para menores de dois anos, o indicado é nenhum contato com telas ou videogames; dos dois aos cinco anos, o recomendado é até uma hora diária; dos seis aos 10 anos, recomenda-se entre uma e duas horas; dos 11 aos 18 anos: entre duas e três horas. Essas diretrizes, e a necessidade delas, refletem o desafio de equilibrar os benefícios educacionais das tecnologias com os riscos à saúde mental e socialização dos jovens.

O debate sobre o uso de smartphones nas salas de aula e além delas continua a evoluir. Enquanto o Movimento Desconecta destaca a importância de proteger os jovens, a sociedade enfrenta o desafio de encontrar um equilíbrio entre promover um uso responsável das tecnologias e garantir um desenvolvimento saudável e equilibrado.

Refletindo sobre o slogan do Movimento Desconecta — A infância e a adolescência são muito curtas para serem vividas em um smartphone —, somos convidados a considerar profundamente o impacto das telas na jornada de crescimento de nossos filhos. A reflexão poética nos lembra da fragilidade intrínseca da essência da infância e adolescência e, com os avanços tecnológicos que moldam nosso mundo moderno, essa essência parece ainda mais quebradiça.

Para Ohana, “o caminho para o equilíbrio parece ser o mais sensato: promover reflexões contínuas e discussões desde o núcleo familiar até propostas mais amplas. Essa abordagem visa não apenas garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável das crianças e jovens, mas também reconhecer e aproveitar os benefícios que a tecnologia pode oferecer para o avanço e crescimento educacional.”

A busca por um equilíbrio adequado entre a proteção e a integração tecnológica há de seguir. Prepare-se para os novos capítulos: ela promete moldar o futuro das próximas gerações.

*Ohana Luize é jornalista, mestra em Comunicação e pós-graduanda em Educomunicação e Tecnologia.

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A discussão sobre o tabelamento dos preços de livros no Brasil tem gerado debates acalorados, dividindo opiniões entre defensores e críticos. O Projeto de Lei 49/2015, conhecido como Lei Cortez, busca regular o preço dos livros no mercado nacional, impondo um preço fixo para os lançamentos durante os primeiros 12 meses. O projeto, que recentemente avançou no Senado, foi originalmente apresentado pela ex-senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e ressuscitado pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). Inspirado na bem-sucedida Lei Lang, em vigor na França há mais de 40 anos, tem como intenção fomentar a leitura e proteger as livrarias independentes, permitindo que estas possam competir com grandes varejistas, especialmente as plataformas de venda online. Não à toa, a gigante Amazon é o principal alvo da Lei Cortez. 

Atualmente, as grandes redes exigem descontos das editoras sobre o preço sugerido dos livros, podendo praticar um valor final mais baixo para o consumidor. Em contrapartida, as pequenas livrarias não conseguem obter os mesmos descontos e acabam cobrando preços mais altos do consumidor. Órgãos públicos federais, estaduais ou municipais, bem como feiras de livros, também podem obter descontos.

“o desconto não poderá exceder 10% do preço fixado pela editora durante 12 meses após seu lançamento”

Se a Lei Cortez for aprovada, o desconto de qualquer livro não poderá exceder 10% do preço fixado pela editora durante 12 meses após seu lançamento. A partir da segunda edição, o prazo de validade do teto do desconto será reduzido para seis meses. Após esse prazo, a política de descontos fica liberada. Órgãos públicos federais, estaduais e municipais, e feiras de livros serão excluídos da regra geral, podendo obter descontos maiores, desde que a compra seja feita diretamente com as editoras.

As principais argumentações de ambos os lados são:

Contra o Projeto de Lei

Os críticos da Lei Cortez defendem que a fixação de preços para livros prejudica tanto as editoras quanto os consumidores. Argumenta-se que o alto custo dos livros no Brasil se deve às baixas tiragens, resultadas diretamente da baixa demanda. Como efeito, os preços elevados dos livros desestimulam a compra, criando um ciclo vicioso: poucos leitores compram livros, o que mantém as tiragens baixas e, consequentemente, os preços altos.

As editoras — negócio que, como qualquer outro, precisa ser lucrativo — se beneficiariam de uma maior liberdade para ajustar os preços conforme a demanda. Descontos estratégicos, especialmente em plataformas como a Amazon, ajudam a impulsionar as vendas, tornando os livros mais acessíveis ao público e permitindo que editoras e livrarias aumentem sua receita total, mesmo com preços unitários menores.

O jornalista Elio Gaspari, em matéria que leva o título A volta da tunga dos livreiros e o subtítulo Querem tabelar para proibir os descontos, argumenta que:

“É um caso especial de tabelamento, pois enquanto o costume é tabelar uma mercadoria para impedir que se cobre a mais, nessa girafa pretende-se impedir que o comerciante cobre menos. (…) Os livreiros têm uma aura apostolar. Afinal, um livro não seria um sabonete. Ilusão. Livros, sabonetes e caminhões são mercadorias. Tanto é assim que, há muitos anos, quando era mais barato imprimir um livro na China, algumas editoras passaram a rodá-los em Xangai, trazendo os volumes para o Brasil. As duas maiores redes de livrarias nacionais quebraram, muito mais por causa de suas acrobacias financeiras do que pela concorrência. Quando as grandes redes afogavam as pequenas livrarias, ninguém falava em tabelamento.”

A principal crítica ao PL 49/2015, portanto, é que ele impediria preços mais acessíveis ao proibir descontos superiores a 10% durante o primeiro ano de lançamento do livro. A restrição é comparada a políticas de controle de preços do passado, como os infames “fiscais do Sarney”, que muitas vezes resultaram em fracassos econômicos. A preocupação é que o tabelamento levará a uma redução nas vendas, obrigando editoras a diminuir ainda mais as tiragens e, consequentemente, aumentar os preços, criando uma situação insustentável para todo o mercado e ferindo quem já está bem combalido: o leitor.

Gaspari arremata: “Reclama-se que o freguês vai a uma livraria, consulta os volumes e, ao voltar para casa, encomenda-o eletronicamente. Os comerciantes que fazem essa reclamação fazem compras online e não pensam em tabelar os sanduíches. Ademais, todas as grandes editoras têm operações de venda eletrônica. Se cobram mais caro ou forçam a venda de livros físicos em detrimento dos e-books (mais baratos), o problema é delas.”

A favor do Projeto de Lei

Por outro lado, os defensores da Lei Cortez veem nela uma forma de proteger as pequenas livrarias e editoras da concorrência predatória das Amazons da vida. Eles argumentam que as grandes redes conseguem oferecer descontos significativos devido ao seu poder de negociação, o que prejudica as pequenas livrarias que não conseguem competir com esses preços.

O objetivo da Lei Cortez, segundo seus proponentes, é garantir uma maior diversidade no mercado livreiro, permitindo que livrarias de diferentes portes coexistam. Isso criaria uma tapeçaria de opções muito mais diversificada e abrangente, fugindo do monopólio que reduz as possibilidades de todos os envolvidos. Leis similares em países como França, Espanha e Argentina têm sido citadas como exemplos de sucesso, onde a regulação de preços ajudou a diminuir o preço médio dos livros e a preservar a biodiversidade cultural representada por pequenas livrarias.

Alexandre Martins Fontes, diretor-executivo da Editora WMF Martins Fontes e da Livraria Martins Fontes Paulista, rebateu diretamente os argumentos de Gaspari:

“A ideia dessa lei é impedir que empresas gigantescas (…), sem nenhum compromisso com a cultura do nosso país, tratem o livro como isca e deem descontos abusivos.”

A preocupação central dos defensores da lei é que, sem essa regulamentação, o mercado livreiro se tornará um oligopólio dominado por poucas grandes empresas, reduzindo a diversidade de oferta e centralizando o poder de precificação. Eles acreditam que a lei ajudará a manter as livrarias físicas nas cidades, que são importantes espaços culturais e sociais.

“A lei”, escreve Martins Fontes, “limita-se apenas a livros lançados nos últimos 12 meses, que teriam um desconto máximo de 10%. Ou seja, não atinge sequer 5% do total das obras disponíveis no mercado nacional e vale por um período que dará às pequenas livrarias a chance de uma concorrência mais leal, em produtos que atraem clientes e geram um movimento fundamental para as lojas menores. Ao garantir isso, a lei permite que mais livrarias possam coexistir e que mais livros, dos mais variados temas, possam ser descobertos pelos mais variados leitores. Se ficarmos apenas nas mãos de uma empresa (digamos, a livraria Amazon), podemos até comprar livros pela metade do preço, mas serão apenas os livros que ela entender que valem a pena ser vendidos.”

Há quem concorde com Gaspari, há quem concorde com Martins Fontes — mas há quem concorde com os dois. 

“a taxação de livros no Brasil reflete uma tensão clássica entre a liberdade de mercado e a intervenção regulatória”

A discussão sobre a taxação de livros no Brasil reflete uma tensão clássica entre a liberdade de mercado e a intervenção regulatória. De um lado, há a visão de que a regulação excessiva sufoca a inovação e a flexibilidade necessárias para um mercado dinâmico. Do outro, há a preocupação com a proteção das pequenas empresas e a preservação da diversidade cultural.

Ambos os lados apresentam argumentos válidos que merecem consideração. A decisão final sobre a implementação da Lei Cortez deverá levar em conta os impactos econômicos e culturais de longo prazo, buscando um equilíbrio que favoreça tanto o acesso aos livros quanto a sustentabilidade do mercado livreiro no Brasil.

Países como Alemanha e Espanha são exemplos que deixam claro que o projeto pode, sim, ser benéfico não somente às livrarias independentes, mas também aos consumidores. No Reino Unido, no entanto, onde a lei do preço fixo vigorou de 1996 a 2018, houve aumento de cerca de 80% no preço dos livros. 

Com a lei em prática, seríamos um caso que penderia mais para o lado da Alemanha e Espanha, ou para o Reino Unido? Difícil dizer. O contexto brasileiro, afinal, é o contexto brasileiro. Sem a Lei Cortez, o cenário também não é animador, já que o número de leitores no país é baixo. Segundo o Panorama do Consumo de Livros, pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em 2023 e realizada pela Nielsen BookData, mostra que 84% dos brasileiros acima de 18 anos de idade não compraram livros nos últimos 12 meses.

Em outras palavras, que se seja contra ou a favor da Lei Cortez — não é de hoje, mas a maré parece pouco favorável à leitura

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“Desistir é um ato indigno”

E o que isso quer dizer sobre a visão padronizada do que é a desistência? Ela invariavelmente é sinônimo de algo ruim, do fracasso retumbante. É o não-terminar algo positivo, é aquilo que as pessoas fazem quando não estão mais buscando o que as fariam felizes.

Mas, afinal, será que desistir é mesmo tão ruim?

No livro Sobre Desistir, publicado em versão brasileira pela editora Ubu, Adam Phillips escreve um sedutor manifesto a favor da complexidade da natureza humana e contra o binarismo pobre entre triunfo e fiasco, uma reflexão que se distancia do que nos é dado como verdade absoluta ao explorar as várias facetas da desistência e sua influência sobre nossa psique e jornada existencial. O psicanalista e psicoterapeuta britânico se debruça sobre concepções convencionais de sucesso e fracasso para propor uma reflexão tão inovadora quanto libertadora acerca do papel da desistência na formação da identidade e na busca pelo significado na vida.

“Será que conseguimos qualificar o sacrifício sem nos deixar ser indevidamente impressionados por ele, sem glamurizá-lo, seja como tragédia, seja como farsa? Será que conseguimos atentar para a distração do sentimento de superioridade interior gerado pelo sacrifício, sem nos sentirmos superiores por reconhecê-la? Ou melhor, podemos falar sobre desistir — requalificar a desistência — como um útil indício de nossa complexidade moral e emocional, em vez de mais uma de nossas provações prediletas?”

— Adam Phillips, em trecho de Sobre Desistir

O ponto de partida da obra é uma provocação fundamental: o que realmente significa desistir? Com texto suave, fluido e para lá de acessível, o autor recusa o academicismo afetado e consegue nos instigar a questionar nossas noções preconcebidas sobre esse ato tão malfadado, desafiando a ideia de que desistência é igual a fracasso. No lugar, vemos sobreaguar uma perspectiva nova que chega a ser um respiro de alívio: e se tomássemos a desistência como um ato de coragem e discernimento? E se ela fosse uma oportunidade de abandonar aquilo que não nos serve mais e abrir espaço para novas possibilidades de crescimento e descoberta?

“Se encaramos a desistência como uma catástrofe a ser evitada, que imagem formamos da desistência de fato? Quando não nos deixamos afetar demais pela desistência, percebemos aquilo que valorizamos. Criamos todo um mundo a partir disso.”

— Adam Phillips

Ao longo do livro, Phillips tece uma rica tapeçaria de ideias, recorrendo a uma ampla gama de referências literárias, filosóficas e psicanalíticas para enriquecer sua análise (sem parecer que está se esforçando demais para tanto). Autores que vão de Franz Kafka e William Shakespeare a Sigmund Freud, Jacques Lacan, Donald Winnicott e Friedrich Nietzsche são convocados para iluminar diferentes aspectos dessa desistência phillipiana e toda a relação com questões mais amplas, como identidade, liberdade, desejo e autenticidade. 

Desistir, ao contrário do que se prega amiúde, pode ser um ato supremo de livre-arbítrio, uma atitude que pode nos definir não como pessoas perdedoras ou ressentidas, mas como pessoas donas de nós mesmas, verdadeiras conhecedoras de nossas vontades e limites. Entregar os pontos talvez não seja o fim do mundo, mas o começo de um universo que esteja mais de acordo com a essência que nos cabe.

Uma das contribuições mais significativas do livro, portanto, é a exploração da relação entre desistência e autoconhecimento. Phillips argumenta que a desistência pode ser vista como um ato de autoconsciência e maturidade, permitindo-nos priorizar valores mais profundos e significativos em nossas vidas. Ao abandonarmos objetivos que já não nos servem mais, seja lá por qual razão, abrimos espaço para um crescimento autêntico e uma maior integridade pessoal. Essa é uma cena que deveria nos emocionar: quando abrimos mão de alguma coisa para lançá-la a outras empreitadas.

“Talvez não precisemos pensar na vida em termos de perdas e ganhos, ou lucro e prejuízo, como a ideia de desistir pode implicar, reforçando assim uma norma cultural muito apreciada. Talvez não precisemos perder a vida para encontrá-la; podemos simplesmente procurá-la por aí (encarar o luto talvez não seja o que mais queiramos fazer, nem a única coisa a ser feita, nem aquilo que somos obrigados a fazer). Talvez tenhamos subestimado nossas tentações. Pode ser que tenhamos nos distraído com uma analogia.”

— Adam Phillips

Há uma complexidade moral e existencial na desistência, o que causa inúmeras tensões entre desejo e renúncia, liberdade e responsabilidade. A decisão de desistir, como nos lembra Phillips, muitas vezes envolve um delicado equilíbrio entre nossos impulsos individuais e nossas obrigações éticas e sociais. Ao reconhecermos a importância da desistência como um aspecto fundamental do crescimento humano, podemos libertar-nos das expectativas opressivas da sociedade e abraçar uma maior autenticidade e plenitude em nossas vidas.

“Pretendo sugerir neste ensaio que existe uma parte de nós que precisa saber o que está fazendo, e outra parte que precisa não saber. E, na mesma medida, existe uma parte de nós que precisa saber o que quer e outra que precisa não saber. Há liberdades conectadas a ambos os aspectos de nós, que animam um ao outro — nossa vontade depende de sabermos e de não sabermos o que queremos.”

— Adam Phillips

Nas conclusões, como muitos capítulos finais, voltamos a memórias de infância. Será que são autênticas? E quais são suas funções? Na discussão, o autor destaca: “As memórias que temos nem sempre são passíveis de confirmação alheia nem são compartilhadas pelas pessoas que parecem fazer parte delas.” Essa observação levanta dúvidas sobre a confiabilidade das lembranças e ressalta a natureza solipsista e fugidia da infância quando rememorada.

O autor também aponta para a ideia de que as memórias de infância podem ser mais como “sonhos ou cenas simbólicas que simplesmente codificam os desejos da infância”, ao invés de representações precisas de eventos reais. Ele sugere que essas memórias são mais uma “memória do desejo, não de uma verdade histórica”, o que nos leva a questionar o que realmente estamos recordando quando pensamos em nossa infância.

“É na infância que aprendemos pela primeira vez a abrir mão das coisas. É na infância que somos introduzidos aos benefícios e ao sofrimento muito real implicados na frustração. E, sobretudo, é na infância que somos encorajados a abrir mão de nossa megalomania — nossa presunção onisciente e onipotente de que o mundo é organizado pelo que precisamos e queremos — e a reconhecer gradualmente que as pessoas de que precisamos não estão nem podem estar sob nosso controle remoto. Em outras palavras, tornou-se impossível conversar sobre o crescimento sem conversar sobre o sacrifício. A questão é sempre: o que temos de sacrificar para nos desenvolver, para seguir para o próximo estágio de nossa vida?”

— Adam Phillips

A reflexão sobre o propósito e a função da memória também é destacada, com o autor levantando a questão sobre o que as pessoas buscam ao recordar sua infância. Ele pergunta: “Falar sobre a infância é uma maneira de querer o quê? Ou de falar sobre o quê?” Essas perguntas nos convidam a considerar o significado mais profundo por trás de nossas lembranças e a refletir sobre o papel que elas desempenham em nossa identidade e compreensão de nós mesmos — e é aí que o ciclo do livro se fecha.

Sabemos o que queremos? Talvez menos do que estamos dispostos a admitir a nós mesmos. Sendo assim, como seria possível demonizar tanto o ato de deixar de correr atrás de algo? Ou, então, de buscar constantemente aquilo que supostamente nos faz viver. Ao deixar de lado algumas noções criadas a partir da infância, abrimos brechas em nossa vida e nos questionamos sobre o propósito e o significado delas. O que estamos sacrificando ao nos desenvolvermos? E como essas renúncias moldam nossa jornada rumo à idade adulta? 

“Sabemos o que queremos? Talvez menos do que estamos dispostos a admitir a nós mesmos.”

No meio dos pontos de interrogação que inundam toda e qualquer rotina, desistir não parece de todo ruim: é mais um fato da vida. Em determinadas circunstâncias, desistir é a atitude mais heroica que há.

Nossas construções são edificadas sobre bases pouco confiáveis e, muito embora sejam tudo que temos, é importante não depositar nelas todo o nosso peso — é assim que a casa cai.

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Os Millennials e a Geração Z carregam um título que ninguém gostaria de carregar: são a geração mais ansiosa da história. Antes, a expectativa que perdurava no ar era a de que, com avanços médicos e tecnológicos, cada próxima geração se sairia mais completa, mais próxima à perfeição que a anterior. Mas a ironia não deixaria que isso fosse cem por cento verdade. A sensação que predomina é que estamos diante de uma geração em que isso não condiz com a realidade, pois, apesar dos avanços em inúmeras áreas — e em algumas, por causa dos avanços —, questões maiores parecem ficar no caminho da plenitude.

Pessoas nascidas entre 1981 e 1996, no caso dos Millennials, e entre 1997 e 2010, no caso da Gen Z, cresceram em um mundo altamente digitalizado, enfrentando uma somatória de desafios. Entre os fatores que pintam esse quadro estão desde questões globais como mudanças climáticas e polarização política até problemas pessoais como instabilidade financeira e a inevitabilidade perniciosa das redes sociais.

No livro Geração Ansiosa: Um guia para se manter em atividade em um mundo instável, a psicóloga clínica, Lauren Cook, fala abertamente sobre sua experiência pessoal para oferecer uma abordagem honesta e repleta de métodos práticos de como lidar, ou tentar lidar, com a sobrecarga de informações e arapucas da atualidade. Nascida no começo dos anos 1990, ela também carrega o peso de sua geração, tentando esquematizar soluções e, por vezes, tirar algo positivo da história toda. Além de sua própria experiência com a ansiedade, se baseou em pesquisas psicológicas sólidas e vivências diversificadas de seus pacientes para escrever o livro. Cada capítulo tem um personagem-paciente central, que não existe como uma pessoa específica, mas como uma amálgama de relatos de seus pacientes e sensações comuns às temáticas tratadas naquele conjunto de páginas.

Para começo de conversa, Cook reconhece que, embora a tecnologia tenha facilitado o acesso à informação, ela também trouxe um constante bombardeio de notícias preocupantes e a pressão onipresente das redes sociais, um ambiente em que a comparação diária com os “melhores momentos” dos outros pode intensificar sentimentos de inadequação e isolamento. Por mais que se tenha a noção de que as redes não retratam as vidas verdadeiras das outras pessoas, é comum que os stories e as postagens façam com que quem quer que esteja vendo sinta que não está fazendo muito, que não está aproveitando a vida ao máximo, que sua vida profissional não foi para frente como ela sonhava, que seus dias são enfadonhos e pouco compartilháveis. A comparação por si só já é um problema. Sempre foi. Mas a comparação com algo totalmente irreal é ainda mais problemática.

Cook compara a crise de ansiedade à sensação de afogamento — assustadora, avassaladora e, sim, por vezes geradora da sensação de que a vida está por um fio. Muitos jovens hoje descrevem a experiência como se estivessem se afogando, inundando seus pulmões em um mar de inseguranças e desafios. As águas desse mar ficam violentas com os ventos fortes de uma ansiedade que é exacerbada por fatores que não eram tão predominantes ou intensos nas gerações anteriores — Baby Boomers (1946-1964); Geração X (1965-1980) —, o que explica em parte por que os níveis de ansiedade são mais elevados nas gerações Y e Z.

“Estamos cansados. Temos dúvida de que alguma coisa possa fazer diferença. O desgaste da ansiedade ao longo dos anos desenvolveu um tártaro emocional que nos deixou endurecidos. Nosso ceticismo nos deixou isolados em nossas redes sociais e telas da Netflix. Embora todos nós estejamos sofrendo coletivamente, podemos sentir como se ninguém entendesse nossa dor.”
— Lauren Cook, em Geração Ansiosa

Uma explicação popular para tanta insegurança e instabilidade profissional é a tese do “floco de neve”, de que os jovens de hoje foram demasiadamente mimados pelos pais, sendo permitidos a evitar a responsabilidade e a independência que fomentam a resiliência mental. Mas essa visão, claro, subestima esses jovens, ignorando o contexto maior em que eles estão inseridos. Há, de fato, novos desafios a serem superados, desafios que as gerações anteriores não tinham, especialmente quando se trata de preocupações com o futuro, seja por perspectivas de emprego ou por questões socioambientais. Não é sobre ser mais difícil ou menos difícil, mas o fator “tudo ao mesmo tempo no mesmo lugar”, somado à incerteza da existência de um futuro, configura um panorama novo, que demanda adaptação.

É sintomático que os Millennials tardios e a Geração Z estejam adiando muitos dos marcos da vida adulta que as gerações anteriores consideravam indispensáveis: muitos não são proprietários de imóveis, muitos não estão em relacionamentos sérios, muitos não estão se casando por escolha própria. Sem marcos que representam avanço, seus esforços para progredir acabam sendo frustrados, o que faz com que permaneçam inertes em posições fetais confortáveis, que não exigem movimento e, às vezes, se vier a calhar, nem custos financeiros. Por essas e outras, há uma demora cada vez maior para que deixem a casa dos pais. Como um todo, essas gerações têm níveis de escolaridade altos — na verdade, dos mais altos que já existiram —, mas o caminho para o sucesso está bem menos claro. 

Com a promessa de que o trabalho deve ser uma atividade apaixonada, monetizando muitas vezes um hobby ou algo que num contexto pessoal seria uma paixão, há uma enorme pressão para que a vida profissional não seja um mero ganha-pão. Ela tem que ser um prazer. Na teoria, funciona; na prática, nem tanto. O sentimento constante de insatisfação reverbera com força quando se é pressionado a ser feliz e agradecido inclusive nas oito horas diárias (se não forem mais) de labuta. Pois, se uma pessoa não se sente exatamente assim, saltitante com o que faz para viver, a cobrança começa vir dela mesma — algo como: “Naqueles últimos stories, as pessoas pareciam felizes com o trabalho. Por que não estou assim com o meu? Algo deve estar errado.” Fato é que, por mais que se trabalhe com algo que converse com suas afinidades pessoais, nada é mais natural que o desgaste aconteça e nem tudo seja rosas. 

Um efeito colateral disso é que, hoje em dia, para essas gerações, parece não haver mais espaço para atividades que exigem uma certa adaptação. Quando o trabalho é visto como uma extensão do prazer, ele rapidamente será considerado como não adequado. Afinal, estamos falando de cobrança, prazos, compromissos, estresse — e isso faz com que as pessoas troquem de trabalho rápido, sempre em busca desse ideal profissional que nem sempre existe. Há o lado positivo de estarmos mais atentos a ambientes tóxicos de trabalho e a chefes que maltratam seus funcionários. Nesse aspecto, houve um avanço inegável. Mas mesmo os aspectos positivos podem contribuir para a ansiedade, já que, depois de reconhecer um ecossistema ruim, estamos em um período de transição, o que quer dizer que os abusos morais ainda ocorrem com muita frequência e os burnouts estão longe de acabar. 

“Se você está considerando a suposição de que não está sendo uma boa amiga quando já está se virando do avesso para ajudar, ou de que tem ‘sorte’ por conseguir todo esse trabalho extra sem uma mudança de posição e uma compensação, temos que conversar. Não só você está em águas infestadas de tubarões, como temo que tenha vestido uma fantasia de foca, minha amiga. Pior ainda, se seus amigos, seu parceiro ou seu chefe fazem você acreditar que ainda não está fazendo o bastante quando está fazendo tudo o que pode, você agora está oficialmente na gaiola do tubarão, esperando que as grades sejam quebradas. Temos que encontrar uma saída.”
— Lauren Cook

Ao mesmo tempo, os Millennials e a Geração Z estão muito mais conscientes das questões de saúde mental. São mais capazes de articulá-las do que seus pais. Quando gerações mais velhas deixavam empregos, poucos acusavam questões psicológicas. As novas gerações estão mais em sintonia com suas necessidades, dizendo: “Eu tenho ansiedade,” ou, “Fui diagnosticado com depressão.” Mas o estigma persiste. Os jovens podem estar mais conscientes do que os aflige, mas relutam em falar sobre isso no trabalho. Alguns profissionais jovens estão lidando com problemas de saúde mental pela primeira vez, preocupados com a imagem, muitas vezes negligenciando suas necessidades até que se tornem insustentáveis.

Um dos pontos surpreendentes levantados por Cook em Geração Ansiosa é como a ansiedade pode ser transmitida de geração em geração. 

“Podemos ser impactados num nível biológico, microscópico. A investigação dos efeitos de traumas intergeracionais teve início quando pesquisadores começaram a estudar sobreviventes do Holocausto e notaram que, em alguns casos, os filhos de sobreviventes de campos de concentração pareciam ser mais traumatizados do que os próprios sobreviventes. A partir dos anos 1990, esses estudos foram ainda mais longe, examinando o impacto do trauma geracional sobre a expressão gênica, um campo de estudo conhecido como epigenética. Um estudo significativo constatou que crianças podem ser afetadas pela exposição a traumas parentais não apenas antes de nascerem, mas antes mesmo de serem concebidas. Tudo isso para dizer: nosso DNA pode ser literalmente modificado por causa da dor que nossas mães, pais, avós e gerações anteriores suportaram.”

O trauma e o estresse podem alterar fisicamente nossos genes, um fenômeno que tem implicações profundas sobre como entendemos e tratamos a ansiedade. O futuro, se é que existe, não parece promissor para os filhos da geração ansiosa. No entanto, a pesquisa também mostra que mudanças positivas no estilo de vida podem reverter esses efeitos, oferecendo uma visão mais esperançosa para o futuro. Haveria, então, salvação?

Seja como for, tanto os Millennials quanto a Geração Z têm sido lentos para abraçar a vida adulta com entusiasmo, juntamente com a independência que costumava ser atraente para os adolescentes. Adulting, ou “adultar”, agora se tornou um verbo, como se alguém tivesse escolha no assunto. A carteira de motorista é um exemplo — cada vez mais jovens estão renunciando dela, já que estão ou acostumados a usar Uber e transporte público ou pegar caronas com os pais. O que antes era um sinônimo de liberdade e amadurecimento, hoje é algo dispensável. Em números recordes, os jovens simplesmente não veem isso como algo que os preocupa.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, “adultar” está longe de ser prioridade. 

Reconhecendo os desafios, há uma busca por soluções de saúde mental online, impulsionando o crescimento de uma nova indústria bilionária. Aliás, serviços de coaching, mentoria e terapia online estão se expandindo rapidamente para atender a demanda. Relatórios mostram que o mercado global de coaching online deve crescer significativamente, atingindo US$ 11,7 bilhões até 2032, enquanto o mercado de terapia online pode chegar a US$ 16,16 bilhões até 2028.

Talvez haja muitas coisas boas por vir. O difícil vai ser construir a estrutura de saúde mental necessária para que não desmoronem enquanto isso.

Para Lauren Cook, é verdade que a ansiedade é um dos grandes marcos da atualidade e das gerações que carregarão o futuro adiante. Mas, com um misto de preocupação e esperança, a autora acredita que, cedo ou tarde, o mundo oferecerá desafios impossíveis de serem enfrentados sozinhos. E aí a escolha terá que ser feita: ou a geração ansiosa afunda no mar de problemas ou ela os enfrenta de cabeça erguida. Para isso, tem que se transformar na geração unida.

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Quem é Fabio de Souza e o que, como e por que você sonha?

Sou um artista carioca, cenógrafo, diretor de arte stylist e produtor cultural. Sou formado em comunicação social e, durante vinte anos, trabalhei como tour manager de artistas e bandas brasileiras. Quando me mudei pra São Paulo, fui selecionado para entrar na Universidade Antropófaga do Teatro Oficina como ator e cantor, e ali eu reiniciei o contato com a arte. Eu cuidava da arte dos outros, e então passei a me reconectar com a minha própria. Foi nesse momento que despertei para minhas investigações artísticas.

Fafá de Belem por Rafael Catarcione.

A minha questão com o sonho é interessante, porque percebi que eu sonho pouco, fisicamente. Sonho muito mais acordado do que dormindo, e sonhar acordado, pra mim, é como uma investigação das possibilidades de voo. Quando eu estou sendo eu mesmo, quando estou criando narrativas e possibilidades artísticas, estou sonhando. Então eu sonho pra transformar a minha existência em algo iluminado, em uma vida em que me conecto com minhas raízes, com belezas que me façam acreditar em uma vida boa.

Você fez cenografias para artistas como Fafá de Belém, Geraldo Azevedo, Rita Benneditto. Conta um pouco sobre seu processo criativo, sobre criar cenografias e figurinos tão diversos e ao mesmo tempo tão únicos?

O meu processo criativo vem de muita pesquisa e respeito a quem, pra quem ou para o quê estou criando, como uma pesquisa do real propósito. Através da arte, eu busco o encantamento, eu quero dar asas a quem vem ao encontro como um bordado de afetos, um artesanato de encontros. Eu me inspiro na natureza humana, na poesia dos sentidos, em todas as coisas do mundo. Como diz Paulinho da Viola, as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender. Eu busco ver beleza na simplicidade. Em um mundo tão tecnológico, imerso em telas de LED, celulares e máquinas. Quero despertar sinestesias, desejos e o que é onírico em cada pessoa.

Ana Cañas canta Belchior por Iara Marinho.

O sonho, num sentido científico, costuma ser percebido como um processo inconsciente de imaginação. Porém, podemos ter sonhos conscientes também. E podemos, através da arte, propor universos mágicos e de sonhos, como suas cenografias, por exemplo. Qual é o papel do sonho no seu processo de criação?

O papel do sonho no meu processo de criação entra em um lugar de me dar asas pra que eu veja o mundo e as pessoas com os olhos livres, sem julgamento. Tudo é possível no tempo das coisas, no respeito à natureza e nesse lugar de efemeridade da vida.

Então, quando eu estou pensando numa cenografia, quando estou num processo criativo, o sonho vem muito como um aliado. Muitas vezes eu penso que, quando tenho uma caixa cênica, estou vestindo espaços, estou buscando narrativas para novos voos.

Agora pensando nos figurinos: você acha que é possível vestir um sonho? (Porque, quando vejo seu trabalho, sinto que sim)

Quando penso em figurino, eu imagino dar mãos e asas a quem estou criando. Acredito que o figurino tem um poder imenso de consagração a quem estamos vestindo. Então, procuro criar possibilidades para que a pessoa se autocoroe, para que ela se sinta forte, como um escudo. É como a pessoa fechar os olhos e ela se autoencantar. Me interessa que a pessoa se sinta absolutamente à vontade com o que ela está vestindo. Esse é um propósito. Não é o que eu penso como o melhor pra ela, eu quero que ela, nesse lugar de se vestir, se veja em outras possibilidades.

Chico Chico por Michelle Castilho.

Recentemente, você participou de um debate que pensava moda, figurino e cenografia, num caminho entre os resíduos e a criação. Mano Brown diz que “até do lixão nasce flor”. Você acha possível criar essas peças e cenografias a partir de materiais que, num primeiro olhar, poderiam ter sido descartados?

Sim, eu não apenas acho possível criar como acredito que também seja um preceito de divisão pra um mundo em que a gente vê cada vez mais a natureza dando sinais de que a gente precisa ter essa consciência na escolha. Amplificar visões de novas possibilidades de materiais e resíduos visando a sustentabilidade é de extrema importância. E ver beleza no que é visto como lixo, dar novos significados, dar importância a materiais não vistos como belos e possíveis muito me interessa. Há alguns anos, eu utilizo materiais que vão pro lixo e os transformo em arte, caixas de papelão, jornal, plástico, são matérias-primas muito interessantes. Já criei alguns cenários que foram muito especiais nesse sentido. Uma vez, no lançamento de um disco do cantor Chico Chico, me veio a ideia de criar um baobá de cinco metros de altura, todo feito de caixas de papelão. Pensando na trajetória dele, pensando na Cássia Eller e pensando nessa árvore frondosa da arte. E foi muito interessante, ficou muito bonito, aquela árvore toda feita de folhas, caixas de papelão transformadas em folhas de uma árvore frondosa. Outro cenário, que eu criei em 2023 pro cantor Geraldo Azevedo, era um arraial, me veio à cabeça uma obra do Matisse que se chama A dança, que são cinco pessoas dançando em roda. Como era um arraial, e eu fiquei pensando numa ciranda, me vieram vários artistas à cabeça. Eu transformei caixas de papelão e jornal em cinco pessoas de mais ou menos dois metros, que ficavam em cima do Geraldo e da banda, com o mesmo bailado da obra do Matisse, e essas pessoas vestidas com roupas juninas. E isso me despertou um lugar de muita consciência pelos materiais que eu estava usando, dando novas possibilidades a eles. A natureza agradece. E eu me lembro muito de um desfile, Do luxo ao lixo, do Joãosinho Trinta [oficialmente Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia]. O carnaval é uma fonte grande de pesquisa pra mim, nele a gente vê o encantamento que se dá através de muitos materiais que são descartáveis também.

Fabio de Souza por Ana Alexadrino.

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Fotos de Julia Thompson

Sob as inofensivas camadas de cor e traçados que compõem as paisagens produzidas pela arte ocidental, complexos emaranhados de construções simbólicas foram construídos e atualizados ao longo do tempo. Opondo-se à indomável e imponente desmesura da natureza, o gênero paisagem promove a domesticação do natural mediante sua ordenação. O enquadramento da imagem, por vezes bucólica, romântica ou mesmo voraz, pressupõe, no extraquadro, a continuação de uma beleza sublime, tornada tangível ao humano por meio de um enunciado cultural. Seja pela perspectiva renascentista, pela construção simbólica bizantina ou pela transposição fugaz modernista, tal vontade de representação refaz, pela ordem do sensível, um desejo de controle do Ocidente típico ao antropoceno. Ergue para si a máxima: “tudo fazer ver para dominar”.

Sem título, 2022.
Sem título, 2022.

Promovendo a perturbação de tais constructos visuais, a artista Yasmin Guimarães constrói paisagens que ora flutuam por horizontes instáveis e movediços, ora fazem pouco caso de uma verossimilhança com o natural. Mais interessada no aspecto fenomenológico da impressão retiniana da cor em um relevo imaginário, Yasmin faz da dureza da luz tropical o tônus de sua pintura. Refletindo sobre as cores que banham os trópicos em que vive e por onde habitam suas primeiras lembranças de paisagem, a paulistana substitui os tons alaranjados e quentes por uma paleta de cores fria, e assim estabelece com o espectador um encontro honesto, indispensável para a sua obra. Indispensável, sim, pois qualquer imposição de uma outra imagem referencial que se sobreponha às suas telas é um contratempo. É preciso aceitar o tom despretensioso, quase inocente, da cena para se deixar conduzir pela leveza de suas pinceladas.

Vento, 2021.

Das maneiras com as quais Yasmin tece novos horizontes, há três procedimentos que eu gostaria de explorar neste ensaio crítico, pois não denotam necessariamente fases de sua jovem produção pictórica ou escolhas conscientes, mas modos de encarar o vazio que podem ou não coexistir em uma mesma obra. Na primeira delas, a cena se constrói por camadas de tintas que adensam a tela em gradações que variam sutilmente entre tons. Formam uma espécie de nevoeiro cujos movimentos de cor circulam pela superfície em ritmos por vezes serenos (quando funcionam como fundo ou como objeto de reflexão), por vezes enérgicos (ao serem delimitados por bordas acachapantes). Nessas ações, a artista contempla o horizonte pelo acúmulo de sensações retinianas que apreendem, como metonímia, a parte pelo todo — a impressão de um conjunto de cores em tênue variação para aludir à elaboração de uma cena. Cena-paisagem, decerto, mas apenas ancorada à vaga lembrança subjetiva daquele que a vê, pois nenhuma das telas carrega, nem em seu título, nem nas anedotas de sua criadora, a referência a um externo.

Sem título, 2024.

Em outro gesto, Yasmin representa uma divagação poética das qualidades imateriais da natureza por meio de um trabalho de subtração. Nessas pinturas, um certo pontilhismo solto é utilizado, de modo a criar rastros de cor que ora se concentram em partes da cena, ora deslizam pela superfície, podendo ou não extrapolar os limites da tela. Em pontos de cor, raramente sobrepostos de maneira direta, a artista ambiciona representar o vento, a fina camada de cor que recobre as bordas de montanhas e vales, gotículas de chuva ou até formações de nuvens — estas últimas feitas em gestos rápidos de tinta molhada ou em fricções do pincel encharcado em óleo quase seco. A coreografia das partículas varre a pintura de forma enérgica, condensando fenômenos naturais complexos em zonas de cor que fluem pelo espaço pictórico. Dão a ver o fundo cru do suporte, geralmente em linho de cores variáveis, sobre o qual Yasmin propõe uma interação entre a fibra vegetal e os motivos de suas cenas.

Beira do mar, 2022.

Há, ainda, um terceiro procedimento da artista, que, não contente com a dureza do linho, suspende suas pinceladas em delicadas tramas de voil que exibem o seu próprio chassi. Aqui, a construção simbólica da cena como paisagem se desconstrói em alegres e rápidos traços de tons pastel, desvelando àquele que vê o intrínseco artifício da ilusão. Curiosa dicotomia, já que faz desmantelar a qualidade ilusória oriunda de uma tradição pictórica realista comum ao gênero de paisagem, tornando-o opaco como materialidade e enunciado cultural mediante o uso de um anteparo translúcido que revela a sua estrutura. É em um gesto tão sutil e repleto de beleza que, com ele, Yasmin atesta não se atrelar a uma herança ocidental que buscava o domínio do seu entorno pela apreensão visual do mundo, mas em sua experiência estética sensível. Tão modesto quanto espirituoso, o óleo se despe de sua seriedade e flui como o vento, embarcando na onda de sua criadora.

Sem título, 2024.

Nesses gestos, a artista revela, pouco a pouco, que seu interesse pela matéria das coisas que envolvem o mundo é menor do que pelas suas lacunas e bordas. Atraída pelo vazio, suas elaborações pictóricas parecem mais afeitas à construção da natureza sob um cânone visual oriental que, sob a influência do taoísmo, reflete sobre o entorno com a representação da vitalidade das formas e seu movimento rítmico demarcado pelo contorno do pincel, na busca por abstrações que sugiram o extrafísico. A criação surge como possibilidade de revelar o vazio. Contrasta, assim, com os ideais ocidentais, cuja perseguição por uma forma plástica orgânica ainda retém vestígios em nossa maneira de vivenciar o mundo, tanto na pintura como no regime de imagens técnicas, em um completo horror ao vazio. Em sua prática, Yasmin transforma a árdua tarefa diante do vazio em regozijo vital. Amiúde, suas composições mais espirituosas são aquelas em que os lampejos de tinta encontram campo livre para navegar, deleitando-se na fluidez eterna que revolve a placidez.

— Texto originalmente publicado para a exposição da artista na galeria Quadra.

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Na ocasião da morte de David Bowie, um artigo publicado na revista Frieze direcionava ao público a seguinte pergunta: “Você se lembra de quando começou a ler?”. Tal indagação, no entanto, não se referia aos processos de pura alfabetização ou letramento: “Quando você começou a ler o mundo ao seu redor? Quando um objeto ganhou determinada forma?”. O texto, inebriado de certo ethos adolescente, questiona ainda em que momentos decidimos nos vestir de determinada maneira ou quando começamos a entender a importância de emoções evocadas pelo timbre de determinada canção, que cala fundo e evoca memórias?

No artigo Hang on to Yourself, o crítico estadunidense Dan Fox dá pistas de uma função alternativa para a cultura pop no subtítulo de seu texto: David Bowie as art school. Nas suas especulações, Fox continua a imaginar que tal função, que poderia ter sido cumprida por um amigo, por um professor ou pelo irmão mais velho, que lhe ensinou, quando adolescente, como farejar novas ideias. Ou então, como exemplifica o autor, tal função pode ter sido cumprida por uma nota enigmática impressa na contracapa de um álbum de David Bowie. Numa interpretação pessoal, especulo que o autor esteja se lembrando de certo sentimento inaugural de identificação e pertencimento que sentimos ao ouvir a rebeldia alheia: uma ideia de exorbitância, de não caber no mundo. Se tal sentimento de desadequação é comum às adolescências, não se trata de exagero imaginar que elas se revelam por mais tempo nas biografias de pessoas que não se adequam à cisheteronormatividade e aos paradigmas do patriarcado.

I Am Not The Man You Think I Am, título escolhido por Douglas de Souza para sua mostra na galeria Cavalo, bebe da nutritiva fonte do pop — da indústria cultural de massa ao underground e suas subculturas — para citar uma determinada canção do grupo The Smiths: Pretty Girls Make Graves. Na expressão idiomática da língua inglesa que dá título à música e que remonta ao século XIX, somos alertados dos possíveis perigos que residem no belo. Ela é geralmente interpretada como uma observação irônica sobre como a beleza pode ser uma maldição. Na exposição, no entanto, não somos chamados pelo título da canção apenas — pelo perigo da beleza —, mas por um trecho que nos lembra da falência de ideias pré-concebidas. Somos alertados pelo artista que as imagens que se revelam à primeira mirada merecem de nós, espectadores, uma demora, quiçá uma dupla leitura. Em outras ocasiões, o trabalho do artista já foi descrito e interpretado à luz de uma perspectiva queer — com um feliz recurso poético, o texto trazia a ideia de um “verniz bicha” presente nas obras de Douglas de Souza. Para todos os interessados em decodificar por quais desventuras vemos tais objetos representados nas telas, será preciso debruçarmo-nos sobre seus símbolos e signos.

Se lidas, tais informações jogam justamente com uma ideia de engano: o cavalo, o cisne, o veado e o galo. Não se tratam de animais que vemos representados nas telas, mas imagens enquanto ideias, códigos culturais. Entre bibelôs e insígnias da indústria automobilística, sobram objetos de fetiche. Do alto das estantes, guardados com zelo, ou na ponta da lataria de nossas máquinas de velocidade, tais imagens expõem seus poderes simbólicos — e desconfio que é do lidar com esse arcabouço de imagens que surge o desejo do artista em exercitar a sua representação. As imagens revelam-se sedutoras, mas não só: repletas de brilho, além de serem a oportunidade para o exercício técnico de representação da luz que se revela na superfície de um objeto, também é a oportunidade de mostrar, na superfície desses veadinhos, garanhões, cocks e cisnes de pescoços fálicos com gestos graciosos, todas as possibilidades de mundo refletidas. “O principal fato do século XX é o conceito de possibilidade ilimitada.” J. G Ballard, autor dessa frase, escreveu, nos anos 1970, uma obra paradigmática, Crash!, romance que pretendia trazer carros numa simbiose pornográfica aos corpos humanos. “As opções multiplicam-se à nossa volta, vivemos num mundo quase infantil onde qualquer procura, qualquer possibilidade, seja de estilos de vida, viagens, papéis sexuais e identidades, pode ser satisfeita instantaneamente.”

Douglas de Souza mescla, no seu imaginário, uma estética da cultura de massa com cores efervescentes, quentes, pulsantes, exuberantes, sedutoras com cinzas metálicos e refletivos, cromados brilhosos que, por vezes, contrastam com tons ligados culturalmente à doçura, aos estereótipos de um feminino domesticado por tons pastel, que fogem às tonalidades vibrantes, encantados por uma esfera da infantilização. É em tal jogo de justaposições e contrastes que os Raging Stallions do pornô encontram os laços de fita do barroco; que o cisne de Leda é representado sobre a casca protetora de um objeto como o capacete de motociclista; que a superfície de proteção torna-se suporte para o adorno, o artifício, a bichice; que o animal torna-se ponta de lança, signo de potência, estereótipo de masculinidade, medida de força. No vocabulário estético de Douglas de Souza, os bibelôs e as insígnias de escuderia parecem ser profanados igualmente, submetidos à categoria de bric-à-brac de uma sociedade encharcada no desejo de consumir e construir identificações, duplos e pertencimentos. O pintor parece utilizar, com certa ironia, sua capacidade técnica de reproduzir imagens do mundo, como se ousasse construir com tintas de encantamento realidades mais ásperas. Se é bem verdade que tal metafórico verniz bicha está sobre as imagens que pinta, é preciso que atentemos para o fato de que ele não faz isso apenas no entorno de imagens de um pretenso vocabulário queer — ele toma para si, para suas tintas e seu pincel, a possibilidade de retomar motivos da pintura tradicional. Entre a natureza morta e o still life, sustenta-se a tentativa sempre falha — e, justamente por isso, subversiva — de estagnar o tempo das coisas e fazê-las imagem. Como diz o título deste texto, briefly gorgeous.

* Texto originalmente publicado para a exposição do artista na galeria Cavalo.

** Título em livre apropriação do romance homônimo de Ocean Vuong.

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No calor de algumas das mais animadas ruas e vielas do Rio de Janeiro, entre batuques e sorrisos sinceros, desfila uma tradição tão antiga quanto as montanhas que cercam a cidade maravilhosa. Provavelmente você já ouviu falar dos bate-bolas; mas você sabe, de fato, quem são? Esses guardiões da cultura popular carioca emergem das sombras como personagens míticos, vestidos com suas indumentárias coloridas e máscaras exuberantes, para celebrar o carnaval e manter viva uma história que se entrelaça com a própria essência do espírito carioca.

Remontando às raízes do carnaval do Rio, os bate-bolas são herdeiros de uma história rica e multifacetada — e aqui, no meio de uma longa linha do tempo e de um sem-fim de máscaras, o termo “multifacetado” ganha a beleza da literalidade. Originários das camadas populares e suburbanas, eles surgiram como uma forma de expressão cultural e social, carregando consigo o peso da resistência e da identidade de uma cidade em constante transformação. Aconteça o que acontecer, os bate-bolas estarão de volta quando as épocas de folia chegarem, e, como qualquer um que já presenciou essa magia carnavalesca pode provar, capturariam a atenção de multidões, fosse esse o objetivo.

Mas, não, os bate-bolas não acontecem para multidões verem. Se elas aparecerem para vê-los, tudo bem, mas não é isso que move esses grupos. Eles estão mais interessados em dar vida às entranhas da cidade. Cada encontro é uma viagem ao coração da cultura carioca, uma celebração da diversidade e da criatividade que permeiam as ruas estreitas e os becos escondidos.

Quem são?

A pesquisadora Rafaela Pinah, além de ajudar com a direção criativa de muitas turmas de bate-bola, também estuda os grupos desde 2016. Para ela, o fator cultural e financeiro se misturam para criar um panorama social para lá de positivo: “São economias criativas nos bairros, no subúrbio”, conta. “Elas são extremamente interessantes nessa dinâmica de fator financeiro. Como é que gera e circula o dinheiro ali, nesse movimento inteiro, o ano inteiro? Hoje essas pessoas podem vislumbrar o lugar dessa potência cultural, de agentes culturais locais, trabalhando inteiramente para a cultura do governo do Estado do Rio de Janeiro, criando e trocando com as turmas, trazendo um trabalho psíquico e pedagógico também para essas crianças.”

Com barulho, fantasias trabalhadas que demandam meses de preparação e organizados em grupos que podem chegar a duzentas pessoas, os foliões conhecidos como clóvis — outro nome para os bate-bolas — fazem parte de uma tradição que existe há décadas nas ruas do subúrbio carioca.

Quando o carnaval chega, uma coisa é certa: eles estão vestidos com suas máscaras, luvas, talvez um meião, talvez algo que nem seja facilmente identificado, e sempre estão ou empunhando bexigas ou sombrinhas. A prática é antiga, com registros do início do século XX, mas isso não quer dizer que as portas estejam fechadas para a modernidade: os temas das fantasias se inspiram em personagens da cultura pop, além de a confecção dos trajes utilizar alta tecnologia nas estamparias e os hinos serem gravados em estúdios.

“Temos uma dualidade nesse lugar do contemporâneo e da tecnologia”, reflete Rafaela. “É uma roupa cara de ser feita, de ser produzida. Atualmente, há grupos de jovens com mais recursos e criatividade para criar suas vestes, enquanto outros, com menos recursos, também conseguem criar peças suntuosas usando materiais antigos. Então, você vê essa dinâmica, as turmas entrando também para as redes sociais, a fotografia, a documentação, a capa, o catálogo. O festejo também é super importante para isso!”

Em outro momento “sinal dos tempos”, hoje em dia, portais da internet cobrem alguns dos bate-bolas mais famosos, o que seria inimaginável tempos atrás, quando a imprensa (e todo mundo) não dava a mínima para as festas que ocorriam pelas regiões suburbanas da cidade.

Há até histórias que dão um aceno positivo para o novo momento, comprovando que a novidade não passa a borracha no que já foi, mas tem o poder de renová-lo e até melhorá-lo: “Vou falar de uma figura extremamente importante e emblemática neste lugar, aqui em Realengo, que é o seu Hélio, que era a pessoa que fotografava, revelava na quarta-feira de cinzas e colocava isso num painel. Hoje não, hoje a gente tem uma dinâmica muito mais rápida das fotografias e das imagens”. A instantaneidade trabalha a favor da festa proporcionada pelos bate-bolas.

De um jeito ou de outro, as pessoas dão continuidade a essa tradição. Mais do que simples performances carnavalescas, nesses festejos há um legado precioso que merece ser preservado e valorizado, marcados por tradições orais, ritmos ancestrais e histórias contadas ao som dos tambores.

Para compreender a importância e a profundidade dos bate-bolas, é necessário adentrar nos recônditos das comunidades, onde cada grupo tem sua própria história, seus próprios heróis e suas próprias lendas.

De onde vêm?

Os trajes que mesclam as cores vibrantes de sua terra têm resquícios de uma antiguidade distante. As hipóteses sugerem que suas vestimentas são uma metamorfose de fantasias europeias, um eco dos mitos celtas que atravessaram oceanos para encontrar solo brasileiro. E no nome “clóvis”, uma reverberação estrangeira ecoa a essência de um palhaço, um arquétipo universal entrelaçado à alma desses foliões. Ou seja, na essência, essa celebração contém um testemunho da alquimia cultural, da capacidade humana de transformar o estrangeiro em próprio, o desconhecido em familiar.

No início do século XX, os matadouros, como o de Santa Cruz, teceram o cenário para os primeiros passos dessa dança. Ali, onde o couro de bois e porcos era transformado em bexigas, nasceu o símbolo sagrado dos bate-bolas. E em meio à fumaça dos zepelins e à presença efêmera dos militares alemães que cruzavam os céus, ecoaram os primeiros acordes dessa celebração.

Como as águas que fluem e se mesclam nos rios que cortam nossa terra, as tradições estrangeiras encontraram aqui solo fértil para florescer de forma única. O que começou como mitos celtas e brincadeiras de rua europeias, ao se misturarem com a essência vibrante e criativa do povo brasileiro, se transmutou em algo novo, algo que é nosso, e só nosso. Nesse processo de metamorfose, os bate-bolas se tornaram um lembrete de que a identidade não é estática, mas sim fluida, moldada pelas correntes culturais que nos cercam. E, ao abraçarem essas influências estrangeiras e tecê-las em sua própria tapeçaria cultural, os bate-bolas nos convidam a refletir sobre a natureza dinâmica da identidade nacional e sobre a riqueza que advém do encontro e da fusão de diferentes culturas.

Contudo, foram relegados às sombras por décadas, alvos de olhares desconfiados e da mão pesada da repressão, mas sua resiliência nunca vacilou. Diante da adversidade, ergueram-se, desafiaram as trevas e mantiveram viva a chama da tradição que pulsa no ritmo de seus passos.

Com sua ampla vivência pessoal e acadêmica, Rafaela percebe como as coisas mudaram de panorama: “Hoje a gente vê um prefeito da cidade do Rio de Janeiro muito mais engajado com as culturas populares. E uma dessas é a cultura popular dos bate-bolas. Os bate-bolas estão em clipes da Anitta. Nomes como Poze do Rodo e movimentos de trap que surgem e que emergem das favelas e de periferias e subúrbios cariocas colocam o bate-bola em primeiro lugar. Os bate-bolas estão presentes nas instituições acadêmicas, em grupos de estudos nas faculdades, e isso é muito importante, quando a gente vê jovens negros e periféricos acessando um lugar acadêmico e falando da cultura dos bate-bolas. Vejo um caminho muito incrível, um crescente nesse lugar que é fazer a cultura dos bate-bolas. A gente muda a dinâmica de organização, muito mais comprometida, e hoje temos o poder público também, incentivando financeiramente e com espaços para que a festa aconteça”.

Para onde vão?

Os bate-bolas permanecem como uma das expressões mais vibrantes e autênticas da cultura carioca. Sua presença nas ruas, além de um espetáculo visual, é uma manifestação de identidade e resistência, uma prova viva de que, apesar das transformações e dos desafios, as tradições mais profundas e enraizadas continuam a reverberar. Por essas e outras, os bate-bolas se espalharam mais pela cidade, e a quantidade de foliões só cresceu nos últimos anos. O estigma de violência e perigo que acompanhava as fantasias deu lugar ao espírito de celebração das turmas, que apenas buscam brincar o carnaval e espalhar alegria.

O futuro parece brilhante.

“Eu imagino, no futuro, o mesmo caminho das escolas de samba no Rio de Janeiro. O sambódromo bate-bolas, o desfile, uma liga registrada no Rio de Janeiro que vai classificar e entregar prêmios e doações financeiras, a televisão e a imprensa vindo catalogar e falar da importância de popularizar o bate-bola. Tenho certeza de que será num futuro muito próximo.”

Preservar os bate-bolas, portanto, não é apenas uma questão de manter viva uma forma de entretenimento, mas sim de reconhecer e valorizar o papel fundamental que eles desempenham na construção da identidade cultural do Rio de Janeiro. É garantir que as futuras gerações possam continuar a dançar ao som dos tambores e a celebrar a riqueza e a diversidade da cultura carioca. E é também respeitar a pluralidade dessa tradição, compreendendo que ela carrega consigo uma carga histórica e afetiva que se mistura harmoniosamente com a identidade dos bate-bolas, enriquecendo ainda mais a tapeçaria cultural da cidade.

Nos labirintos das comunidades cariocas, tece-se um elo mágico entre o carnaval de rua e os imponentes desfiles das escolas de samba. Clóvis e bate-bolas merecem ser preservados.

Patrimônio imaterial (e ponto final)

Em 2012, a prefeitura do Rio de Janeiro declarou os bate-bolas patrimônio cultural carioca de natureza imaterial. O decreto levou em consideração a importância desses grupos como personagens típicos do carnaval que refletem a forma alegre e irreverente de a população suburbana festejar. A decisão foi histórica e emblemática. Ao serem declarados patrimônio, os bate-bolas alcançaram um novo patamar de reconhecimento e proteção. Não estamos mais falando de meros personagens do carnaval carioca: de 2012 em diante, viraram oficialmente tesouros culturais a serem preservados e valorizados por gerações futuras.

Os porquês de terem recebido a honraria residem na sua profunda ligação com a história e a identidade da cidade. Ao longo dos séculos, os bate-bolas têm sido testemunhas e protagonistas de inúmeras transformações e eventos que moldaram o destino do Rio de Janeiro. Desde os tempos coloniais até os dias atuais, eles estiveram presentes, fazendo jus ao ânimo do carnaval brasileiro e mantendo viva a chama da tradição.

Os bate-bolas, no fim, personificam valores como solidariedade, criatividade e resiliência, que são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Tornar-se parte integrante do legado cultural do Rio de Janeiro não significa apenas garantir a continuidade das festividades carnavalescas, mas também promover ações de salvaguarda e valorização. Um viva ao fortalecimento do vínculo entre passado, presente e futuro.

Enquanto os tambores ecoam, as máscaras ganham vida, contando histórias esquecidas e sonhos adormecidos. Cada passo é um lembrete da força do povo carioca, e as máscaras transcendem sua função primária de adorno, transformando-se em portais para um mundo mágico e memorial. À medida que o ritmo acelera, as máscaras se fundem em uma só, revelando a alma de uma cidade que pulsa com a energia da vida.

Assim, eles seguem seu caminho. Onde quer que haja batuques e risos, lá estarão os eternos bate-bolas do Rio de Janeiro. Materialmente e imaterialmente, estarão vibrando e pulando um carnaval que nunca há de acabar.

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Marissol Mwaba é uma artista brasileira de origem congolesa. Cantora, compositora, multi-instrumentista e estudante de astrofísica, tem livro lançado e vem trilhando uma jornada intergaláctica.

Você estudou astrofísica na Universidade Federal de Sergipe e depois ganhou uma bolsa para estudar física na Sorbonne, em Paris. Paralelamente a isso, estudava no observatório da capital francesa. Tem até um artigo publicado na revista Astronomy & Astrophysics. Como foi isso?

Mandei e-mail pra uma professora, ela me chamou pra conversar, e falei que queria trabalhar com a parte de galáxia, que eu gostei muito dela e tal. E ela já conhecia o Brasil. Aí ela falou assim: “no período que você pode estagiar, eu vou estar de férias, então só vou ter uma semana pra te explicar como fazer, e é um trabalho muito complicado, você provavelmente não vai conseguir terminar, porque é um volume enorme de coisas, eu não sei até que ponto serve você fazer esse estágio”. Eu falei: “mesmo assim, eu quero”. Aí eu fui lá pra fazer a catalogação de galáxias. Ela estava estudando um aglomerado de galáxias chamado Aglomerado de Ofiúco. Ele é interessante, porque é muito grande e muito velho. Então, saber sobre ele significa saber como as galáxias interagem. Só que tem um problema: ele fica num lugar que a gente, observando aqui da Terra, tem dificuldade de ver. Estou tentando simplificar.

Tudo bem, o que eu não entender, te falo.

A Via Láctea tem muitas estrelas, então alguns lugares pra onde a gente olha, tudo aquilo que está aqui vai fazer um ruído nessa imagem. É como tentar ver o pôr do sol em São Paulo com um monte de prédio na frente. Esse aglomerado está numa posição que é muito difícil de ver. Então o que ela estava fazendo junto com outros pesquisadores? Estavam tentando resolver essa questão da visibilidade, só que por mais “prédios” que a gente conseguisse eliminar com a tecnologia, ainda assim precisava de alguém pra pegar galáxia por galáxia e fazer uma limpeza dessa imagem e entender também se aquilo era realmente uma galáxia ou se aquilo era uma estrela da Via Láctea. Eu cataloguei mais de duas mil e quinhentas galáxias. Ela ficou chocada. E eu ainda terminei antes dos dois meses.

E ela achando que você nem ia dar conta, não é?

M — Ela achou que eu não ia nem chegar na metade. Aí ela falou assim: “olha, eu vou ter que te colocar como coautora do artigo, porque o catálogo é seu”. E assim esse artigo saiu na revista Astronomy & Astrophysics.

Que experiência incrível!

Agora, voltando à vida pessoal, pra poder ter essa perspectiva de fazer o curso no observatório de novo, e dessa vez conseguir me formar, e isso coincidir com a minha formação na física, aí eu vou ter um diploma na astronomia e um diploma na física… Enfim, ter um outro lugar de construção um pouco mais firmado, porque é muito difícil trabalhar com música. E eu sinto que o trabalho na arte é muito mais sobre como você para de depender da arte do que sobre você viver de arte, entende? Eu tenho muito essa sensação. Eu fico analisando carreiras, e todas as carreiras longevas e bem-sucedidas, no sentido de felicidade, estabilidade, prática do artista, qualidade de vida… Essas carreiras são sempre carreiras que não têm a dependência contínua do que o artista está fazendo na arte, tem outras fontes que se criam a partir daquele lugar. Porque senão a gente não consegue, não dá, não tem como manter uma coisa assim, que é passageiro. A cultura se transforma. Quantas pessoas eram relevantes em algum momento e agora não são mais? E isso acontece em todas as escalas. O legado fica, a vida continua, a cena se transforma. E se a gente quer continuar tendo condições de deixar o nosso legado, continuar criando e tendo felicidade em fazer isso, a gente precisa ter a renda vindo de um lugar que nos possibilite ter alegria de viver, porque senão a gente não vai ter.

Onde e como acontece a infância da Marisol? 

A infância… Nossa, lembro de muita coisa. Eu lembro de ter uma imaginação muito fértil, viver praticamente um mundo dentro da minha cabeça. De ser musical desde pequena, porque a primeira música que eu fiz, eu tinha seis anos. Desde então, compositora. Eu aprendi a andar, a falar e a cantar, e a criar, veio junto com as coisas básicas que eu aprendi. Quando perguntavam o que eu ia ser quando crescer, eu não falava cantora, mas isso era uma coisa que parecia que fazia parte de mim. Também sempre muito móvel, sempre me mudei bastante, então a infância da Marissol aconteceu em todo lugar.

Você morou em muitos lugares.

É, em muitos lugares, então eu estava sempre me deparando com uma nova realidade e, ao mesmo tempo, também sempre me despedindo de alguma realidade, amigos e tudo. Nisso, eu tive que encontrar um lar dentro de mim já muito cedo. E acho que foi assim que eu aprendi a guardar as coisas na escrita. A preciosidade de guardar os momentos na escrita começa muito nova pra mim, desde pequenininha. Eu lembro que eu tinha um caderninho onde eu ficava rabiscando, como se eu estivesse escrevendo muitas coisas. Depois foram se tornando cadernos onde eu realmente escrevia as coisas da minha vida. E acho que tem a ver com isso, com encontrar refúgio na minha companhia, porque eu tenho muitos irmãos, mas eu sou caçula, então todo mundo foi crescendo e indo embora, e eu fiquei em casa. De repente, eu não tinha mais meus irmãos ali. Na memória de infância, às vezes eu vejo mais os meus irmãos do que os meus pais, porque eles eram muito presentes, e, na nossa cultura, o irmão mais velho tem esse lugar de cuidado e de orientação do irmão mais novo, e até de autoridade sobre o irmão mais novo. Eu nunca morei mais de cinco anos numa cidade, então é isso, sempre muita itinerância. As músicas sempre tiveram um poder muito grande sobre mim. Em muitos momentos, eu considero que a minha vida foi preservada pela música. E como pessoa que cria, eu sempre sonhei um dia ter a minha música disponível pra felicidade e bem-estar ou acolhimento de alguém, da mesma forma que eu tinha tantas músicas disponíveis pra minha felicidade, pro meu bem-estar, pra um abraço. Então esse é um grande sonho. Assim, poder pegar na mão de quem eu nem conheço. Acho que é isso. A minha mãe sempre falava assim: “se veio uma música, para tudo e faz a música”. Ela me deixava faltar aula, deixava me atrasar.

Seu primeiro disco foi lançado em 2015?

Foi, lancei em 2015. Eu tenho muita sorte. Sabe, essa coisa de ser uma pessoa preta, e no Brasil ainda, só que ainda africana, e brasileira, ainda mulher… A fila de coisas que me botam pra trás é bem grande.

É imensa.

Não sou herdeira de nada, não tenho um tio chato pra onde ir. Se estou no Brasil, é nós ali, meus pais e meus irmãos. Então o legado da gente, e nosso amparo, vem muito do presente. Eu tive a sorte de ter dois irmãos mais velhos também na música, e isso me catapultou de um jeito que as pessoas brancas têm por outras vias, pela via do dinheiro, pela via dos contatos, pela via da própria abertura que já tem. Aí teve coisas que eu não precisei passar, porque meus irmãos passaram. Pra fazer a primeira apresentação, as primeiras experiências artísticas foram vivenciadas muito junto com meus irmãos. A preparação para o primeiro álbum foi um período que eu estava muito atribulada com a universidade. Estava em projeto na astrofísica e estava prestes a sair pro intercâmbio, então eu nem tinha condições. E eu era cantora no coro, bolsista no coro de música erudita da Universidade Federal de Sergipe. Tinha acabado de passar por um processo e estava com um problema vocal, e, ao mesmo tempo que estava com problema vocal, eu não podia sair, porque eu precisava da bolsa. Eu tinha sangramento vocal em todos os ensaios. E eu gravei assim. O sabor de muitas faixas do Luz-A-zul é de sangue. A gravação desse álbum foi um milagre da voz. E a partir desse problema que eu comecei mesmo a fazer aula de canto pra canto erudito, comecei a fazer tratamento com um grupo de fonoaudiólogos da universidade, consegui esse tratamento gratuito, mas foi bem desafiador. O desafio que eu tive com esse álbum foi de conseguir cantar e poder manejar com os afazeres que eu tinha pra intercâmbio e na universidade. E como foi importante poder ter ali o François [Muleka] cuidando de tudo. O trabalho do álbum foi o primeiro mais profundo que eu fiz com Alice Assal, que é diretora de arte, e que trabalha comigo até hoje. Ela traz uma coisa interessante, que é a tradução da história da minha música e trajetória através da imagem.

Interessante mesmo, porque você consegue ter uma cartografia da própria jornada.

Total, bem isso mesmo. Ver essa história sendo contada assim é como se eu tivesse registro de muita coisa da minha trajetória. Bom, o Luz-A-zul foi gravado desse jeito, então o meu compromisso era manejar as coisas e conseguir gravar, porque já tinha o Fran cuidando de tudo. Aí eu vim pra França ainda gravando o álbum, uma das faixas eu tive que gravar aqui, e fiz o lançamento aqui também. Depois, quando voltei pro Brasil, fiz um show de lançamento em Floripa. Mas é isso, primeiro álbum é aquela coisa, são músicas que você escolheu de um monte de músicas da vida inteira. Foi bem difícil escolher quais eram as músicas, uma até entrou de última hora, porque eu fiz na semana. Falei: “nossa, quero que ela entre”, aí gravei, e como eu componho muito, quando eu lancei esse álbum, já estava com outro pronto. Eu só fiz o show de lançamento. Depois eu nunca mais fiz esse show.

E a escola de música Mwaba Canto e Expressão, quando é criada?

A escola nasceu em Floripa, no ano de 2018, da necessidade de sobrevivência. Acho que as coisas que eu amo, elas vão entrando na minha vida e fazendo parte de todas as coisas juntas. Astrofísica faz parte da minha música, eu não consigo ver minha trajetória na música sem a minha trajetória na astrofísica. E vice-versa também, não ia achar a astrofísica tão bonita e ter saco pra toda aquela matemática se não fosse a música. Depois, futuramente, comecei a achar bonito também o foco em matemática. Acho que a minha poesia me permite ter esse olhar poético pra ciência, ao mesmo tempo que a ciência me permite ter um olhar físico, um olhar existencial na música também. A dança também entra nesse lugar. Eu faço dança do ventre desde 2013. É uma coisa que me deu sempre prazer. Quando voltei pro Brasil, eu não tinha mais como fazer dança do ventre. Eu não tinha mais como fazer muita coisa, estava sem dinheiro, estava doente. Aí eu conheci a Lídia Pereira, que é uma grande amiga, e ela viu como eu estava. Ela falou “cara, vem dançar” e me chamou pra fazer aula com ela. Então eu fazia aula, ela me carregava pra todas as aulas que ela dava, às vezes eu até ficava na casa dela, dormia na casa dela, ia pra cima e pra baixo, e ela foi a minha primeira professora negra e uma das poucas pessoas negras da dança do ventre. Hoje em dia, a gente vê até mais, mas antes não tinha referência negra nenhuma. Era muito foda ver ela dançando, porque, na dança do ventre, tem muito da moda que dita ali também. Na época do liso, era aquela coisa, joga o cabelo, cabelo liso. Então ter ela ali foi incrível. E ela me adotou mesmo, e nisso a gente também fez uma amizade muito bonita. Hoje ela é tipo uma irmã pra mim, e também trabalha comigo na produção. Aí ela um dia falou pra mim: “por que você não dá aula de canto?” Eu falei: “nossa, será que eu posso dar aula de canto? Não sou capaz de dar aula de canto”. Ficava me sentindo assim, “não tenho capacidade de dar aula de canto”. Aí ela falou: “olha, eu comecei a dar aula de dança dando aula. Eu também não achava que ia conseguir, mas, quando eu comecei a dar aula, vi que conseguia”. Ela botou uma sementinha na minha cabeça a partir da dança. Aí veio pro Brasil uma cantora estadunidense chamada Jessica Cohen, e a gente fez amizade. Ela é muito legal, e ela teve estudo formal de música. Isso também me travava. A gente conversou. Ela ficou uns dias na minha casa, então a gente pode se conhecer bem mais e tal, até que, no final, ela falou isso, que eu tinha total capacidade pra dar aula de canto e que eu podia estudar e fazer isso. O fato dela ter falado me fez acreditar. Então eu comecei a estudar, e um tempo depois eu tomei coragem e divulguei as aulas. Eu pensei: seja o que Deus quiser. Aí comecei a dar aula. E foi muito bonito poder me conectar com outros corações artistas, em outros momentos, em outras intenções com a música, em outras realidades, e nisso fui identificando uma missão também nesse lugar de partilha. Então, aos poucos, foi se estruturando mais esse formato de escola em torno da ideia mesmo de ser um lugar onde a gente estuda a partir do que é ser um artista independente. Eu continuei estudando cada vez mais, hoje já tenho várias certificações em pedagogia vocal, pra poder atender meus estudantes. Fui estudar teoria musical, fui estudar coisas que eu precisava, da parte mais formal da música, pra ter cada vez mais capacidade de atender. Inclusive, comecei a atender também profissionais da música, que estavam com carreiras estruturadas. Então dar aula me puxa bastante pra parte do estudo, da formação, do aprimoramento. Mas dar aula também é uma coisa que me alimenta no lugar da inspiração. Porque sentir o frescor que tem a música e a arte no coração dos estudantes alimenta algo dentro de mim. É muito mais do que ficar convivendo com um monte de profissionais.

Recentemente você teve um lançamento muito especial. Conta um pouco como foi a produção de Frase única.

Sim. Essa obra é um milagre. É uma música que eu já cantava há muito tempo, uma música minha, que eu compus há bastante tempo, mas em 2023, participei das atividades da diversidade, foi a Maratona da Diversidade, e teve várias falas, palestras e mesas. E aí a professora Letícia Carolina fez uma fala.

Isso foi em São Paulo?

Foi em São Paulo. Ela é professora, doutora, negra, trans, enfim. Ela escreveu um livro e é ativista da diversidade. Eu estava passando por um momento de muitas dores, muitas questões, e ela falando sobre a sua conquista do doutorado. Na hora que ela foi falando, eu fui anotando no bloco de notas. Ela diz assim: “precisamos transmutar a dor pra ir além, mas o que me trouxe até aqui não foi a dor, foi o sonho, precisamos de inspiração pra sonhar”. Eu fiquei refletindo, e vejo também o tanto que o sonho já me moveu. Essa reflexão me fez ter certeza de que eu queria lançar Frase única, eu queria fazer uma versão bem simples, tipo voz e piano. Aí o Zé Manoel, que eu conheci, já ouvia falar muito dele, mas quando eu conheci fiquei muito encantada pela pessoa, e depois eu vi ele cantando e tocando em Salvador. E eu fiquei assim, tipo… Ele toca com uma sensibilidade muito grande, e eu sou muito admiradora das pessoas que se exibem sem perder a sensibilidade. Enfim. Uma vez, do nada, eu ouvi a voz do Chico [César] cantando o trecho “se encontrar, jamais deixarei”. Eu pensei: “poxa, nunca tive coragem de chamar o Chico pra nada”. Escuto ele desde muito pequena, desde os meus sete, oito anos, e aquela história toda, eu sempre falo que não sabia que ele era brasileiro, a gente ouvia pra caramba sem saber, e eu ficava lá, toda encantada

Como o Chico tem uma importância, como ele atravessa gerações com sua autenticidade e sensibilidade.

As palavras dele… Acho que é isso, ele é muito lúdico, as palavras que ele vai inventando e falando, e abre um portalzão de permissões. Quando eu tinha uns 14 anos eu fui pela primeira vez em um show dele, em Jequié, “meu Deus do céu, eu vi ao vivo Chico César!”. E aí, anos depois, ele me chamou pra gravar as vozes, junto com François, no álbum dele, O amor é um ato revolucionário. E aí já foi a realização de um grande sonho ver o Chico no estúdio. Ele me hospedou, ele apadrinhou a minha ida pra São Paulo. Eu fiquei muitas vezes na casa dele, muitas vezes ele viajava e deixava a chave comigo, e eu podia ficar lá, ficava à vontade. Mas claro que eu nunca ia ter coragem de pedir pra ele cantar uma coisa comigo, porque é reverência. E quando me veio a voz dele cantando, na intuição, eu pensei: preciso falar. Aí eu mandei a mensagem pra ele, mandei a música e ele topou. A gente teve muitas conversas. E eu sei que ele não faz nada que ele não queira, não faz só porque conhece essa pessoa, ele faz se ele está a fim de fazer. Então, pra mim, sabendo desse background também, foi muito importante. Nessa coisa de eu sempre ter um caderno, agora também o bloco de notas, no dia que ele respondeu falando que topava, eu escrevi no meu bloco de notas: “7 de junho de 2023. No dia de hoje, Chico César aceitou gravar uma composição minha comigo. Um milhão de exclamações. Estou radiante. Às 21h35h”. E ele falou que a música era belíssima, agradeceu por eu ter pensado nele. Cara, que pessoa. Nossa, fico emocionada só de falar. Aí eu convidei o Zé Manoel pra gravar com a gente o piano desse encontro, fechando o trio de possibilidades.

Trinca de ases.

É, trinca de ases.

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1.

Berlim, 1917: em prisão militar, um búfalo deportado da Romênia como “espólio de guerra” move uma carroça com uniformes ensanguentados. Soldados estão mortos. Os uniformes, lavados e remendados, vestirão outros soldados que também morrerão na Grande Guerra. O búfalo, chicoteado pelo guarda (“ninguém tem pena de nós humanos”), olha para o nada com “olhos escuros” de um ser abusado. A prisioneira Rosa Luxemburgo vai às lágrimas. “Eram as lágrimas dele”, escreveu ela em carta a Sophie Liebknecht. Búfalo, uniformes sangrados, guardas violados e violentos eram o “panorama da guerra” aos olhos abertos, lacrimejados, de Rosa Luxemburgo.   

2.

Berlim, 2024: de manhã, abro os olhos, desbloqueio meu iPhone. Vejo imagens do cavalo Caramelo, cascos e quartelas brancas suportando o peso do costado por quase quatro dias, o dorso marrom na telha ilhada, a água densa acuando o bicho esgotado. No Caramelo, vejo mais que instinto de sobrevivência. Vejo mais que uma vítima da enchente de 24 no Rio Grande do Sul. Vejo o panorama do fim do fim da história.

3. 

Fim da História: lendas sobre Messias e Juízo Final falam em evento depois do qual a sociedade mudará essencialmente. Mesmo no mundo “desencantado” da ciência e da materialidade do presente, o tempo continuou a ser visto como portador de sentido por olhos que veem na História com H uma marcha inexorável. Como a semente que se completa na flor, a história se realizaria no seu fim em duplo sentido, finalidade e término. Sociedade sem classes, progresso técnico, paz perpétua: seja qual fosse o conteúdo, a história teria último capítulo.

4.

Berlim, 1933: agentes do destino racial prendem Hannah Arendt. Depois, refugiada em Nova York, a autora criticaria fatalismos que postulam “leis” históricas irresistíveis às quais humanos devem se adaptar. Saída do abismo dos 1940, Arendt escreveu: a história não é “processo com monopólio de universalidade e significação”. História é um monte de estórias vividas, vistas, lembradas, discutidas.

5.

Rosa Luxemburgo, presa por discutir o sistema no qual vivia, e Karl Liebknecht, único parlamentar a votar contra o orçamento de guerra, denunciaram a desmesura imperialista e ideias que convenciam trabalhadores alemães a matar trabalhadores franceses. Em 1915, trens com soldados não partiam mais sob acenos de noivas emocionadas. Igrejas viravam “estábulo de cavalos”.  Populações mendigavam. “O espetáculo acabou”, Luxemburgo disse. A sociedade burguesa, “pingando sujeira”, estava em “forma nua”, sem os vestidos da ordem, da ética, do direito etc. Dessa sociedade, Luxemburgo não esperava nada novo. Ela esperava dos trabalhadores, açoitados, que veriam na “experiência histórica” uma “professora”.

6.

Porto Alegre, 1991: sentado em frente à TV, torrada de presunto e Nescau nas mãos, assisto ao Pedro Bial, sentado também, parlamento russo às costas: “estou moído, minha cabeça e meu corpo estão exaustos, mas meus olhos não se cansam de ver a história”.

7.

Em 1919, Luxemburgo foi apunhalada, atirada no rio, não pela história, mas por milicianos Freikorps sob vista grossa da social-democracia. Kurt Tucholsky protestou contra a falta de protesto. Acusou a “velha dança” militar e celebrou a coragem da mulher assassinada (“quão rara”). A salvação, Tucholsky disse, não se encontrava nas ruas, no povo.

Uma década depois, com apoio do povo ao racismo apresentado aos gritos em cervejarias bávaras, Leon Trotsky tentou compreender como a história, após Hegel e Marx, tinha produzido o “materialismo zoológico” de Hitler, Hess e Rosenberg, o “delírio” do império que aniquilaria o tempo (“mil anos”), sem teoria econômica, apenas com “excrementos culturais” regurgitados e vomitados pela garganta de agitadores. A história seria guiada por um barbarismo não digerido.

8.

Sozinho, Walter Benjamin, antes de sair do tempo histórico em Portbou, criticou a “barbárie” no útero da sociedade que tinha gestado Verdun e bombardeiros, e não conseguia ver o lado negativo do avanço material (“desastrosa recepção da técnica”). Essa sociedade se deixava arrastar pela “tempestade” do progresso.

9.

Nas notas do iPhone, eu rascunho o panfleto A vitória do showcialismo. Diferente do previsto por materialistas dialéticos, a modernidade não resolveu suas contradições na vitória do socialismo, mas as aguçou (conectividade/solidão, ciência/fake news, globalização/neonacionalismo). Agora cada um tem um Pravda digital para chamar de seu e socializar fragmentos de vidas alienadas.

10.

Berlim, 1989: troços do Muro são arrancados, no que parecia ser o último ato. Nas ruínas do fascismo e do nazismo, a Europa tinha se dividido em dois sistemas: capitalismo versus socialismo. Chris Gueffroy, morto, ao saltar no muro, por vinte e dois tiros dos soldados da RDA, queria viajar aos Estados Unidos. Visafrei bis Hawaii – manifestantes pediam liberdade de opinião e de movimento (“até o Havaí”). Dissidentes e a história pareciam caminhar, fugir, na mesma direção, a da democracia liberal capitalista. Alemães orientais, como Žižek diria em 1998, foram de opositores “heroicos” a consumidores de “bananas e pornografia barata”. Em o Fim da história e o último homem, Francis Fukuyama afirmou que a história intelectual tinha, sim, chegado ao clímax, com a democracia consolidada como melhor sistema para oferecer liberdade, igualdade e reconhecimento. E bananas.

11.

Com o copo de Nescau na mão e o Bial na TV, eu assistia a um ato triplamente simbólico: nossos olhos olhavam a história; olhávamos a história chegando ao fim; eu, apartamento na 24 de Outubro, torrada, achocolatado, videogame, direitos fundamentais em estado liberal tropical, sentia o fim da história em mim – eu era o “último homem”, ou o último guri de apartamento.

Ainda assim, perguntado o que eu “queria ser” na minha história pessoal, eu respondia, correspondente estrangeiro. Queria ver a história. Queria viajar a cantos onde o extraordinário, fora do tempo democrático, ainda insistia em acontecer – como se no meu Brasil não existisse mais história. O meu Brasil, a minha Porto Alegre eram uma bolinha de vidro onde a vida seguiria roteiro cíclico (universidade, trabalho, família) num tempo político acabado. Um ano depois, Fukuyama classificaria o Brasil com um dos países “pós-históricos”.

12. 

Hoje, não moro em Porto Alegre. Moro em Neukölln, Berlim. Segui minha história pessoal colocando-me no proletariado estrangeiro (vestido de freelancer). Na pós-graduação como guia de turismo, trafico a turistas troços da obra de Arendt, “questões alemãs” e visões fatalistas. Na linha do U8, escuto Berlim, Bom Fim. Penso na queda do Muro de Berlim, no aumento do Muro da Mauá, não mais “vergonhoso”. Penso em Porto Alegre, na Estação de Tratamento de Águas Moinhos de Vento, penso em Muçum e no Sarandi, na minha irmã evacuada do Humaitá, na tempestade de areia em Beijing, no ciclone em Myanmar, no calor cada vez mais quente no Chile, na Europa, na Ásia. Penso nas direções contraditórias da história, estórias, sentidos confusos, pulverizados num tempo que, em vez de parar, acelerou. Entre vendavais de areia, vejo explosões: olho para Kharkiv, Crimeia, Be’eri, Rafah, e vejo os séculos XII e XIX armarem barracas militares no século XXI. Vejo estupros ideologicamente motivados e a banalidade de bombas guiadas por GPS (“errando” o alvo) e penso que história não acabou nem vai acabar.

Eu leio restos de história arruinada nas linhas de Benjamin, profeta negativo, para quem memórias viram “flashes em momento de perigo”. O momento é de perigo. A história, lida por olhos modernistas “relutantes”, não ensina, não é professora, mas recomenda ficar alerta.

13.

Cansado, fecho o Fim da história e abro Ressentimentos, em que Jean Améry pede que “feridas” históricas não cicatrizem. A secreção de injustiça, da irracionalidade vira lembrança da responsabilidade humana. “O poder moral de resistir contém o protesto, a revolta contra a realidade, que só é racional se for moral”. Crimes contra povos, culturas, ecossistemas devem ser lembrados como eventos acontecidos que não deviam ter acontecido.  

14.

O homem “agiu na natureza” (Arendt), tornando chuvas, ventos e níveis de rios agentes ingovernáveis. A história natural invadiu a história humana, potencializando o imprevisível. O domínio da natureza se realizou na natureza descontrolada, história sem rumo, sem sonho nem utopia, sem novos princípios. No fim do fim da história, fronteiras nacionais e muros mentais continuam em pé, mas linhas entre natureza e artifício seguem desmoronando. E a distância entre poesia e realidade foi abolida: Quer morrer no mar. Mas o mar secou.

15. 

“Os negócios”, Rosa Luxemburgo escreveu em 1915, “prosperam nas ruínas”.

16. 

O fim do fim da história: a história não tem fim, e o melhor sistema é o sistema no qual os olhos, ainda que cansados, estejam abertos. Estórias terminam, mas cada fim é um novo começo, parafraseando Arendt e recomendando “pensar o que fazemos”, em 1915, em 1941 (na enchente, no genocídio), em 1991, em 2024, nas hipóteses alarmantes de 2030 e 2050.

17.

Não virei correspondente internacional. Como guia, visito muros e flashes de passados reprisados de segunda a domingo. Turistas falam em “lições da história”. Uma turista disse que não se aprende com história “porque ninguém mais lê história”.  Passamos pelo Museu Histórico Alemão. The Roads Not Taken. Ou: as coisas poderiam ter sido diferentes trata de anos cruciais e de alternativas concretas que foram perdidas. Cada momento, com ou sem perigo, contém caminhos potenciais, visíveis, invisíveis. A história não é linha reta. Construir muros, fronteiras, erguer barragens, desmatar, matar porco e fazer presunto, reconstruir ou revolucionar, banalizar ou “ampliar a imaginação”, fechar ou abrir os olhos: o fim do fim da história significa que a realidade pode ser diferente, para pior ou para melhor.

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Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

(Sonho meu, de Délcio Carvalho e Yvonne Lara da Costa)

Os sonhos, essas vivências sentidas na mente e no corpo, muitas vezes bizarras, que povoam nossas mentes durante o sono, há séculos fascinam e intrigam a humanidade. Envoltos em mistério, eles desafiam interpretações simples e abrem portas para um universo onírico de simbolismos e reflexões profundas sobre nós mesmos.

Do ponto de vista científico, os sonhos são eventos mentais que ocorrem principalmente durante a fase conhecida como REM (rapid eye movement) do sono, quando a atividade cerebral se intensifica e se assemelha à vigília. Nessa etapa, o cérebro processa informações, consolida memórias e libera emoções reprimidas, tecendo narrativas complexas que podem ser vívidas, emocionantes ou até mesmo perturbadoras.

Embora a ciência ainda busque desvendar segredos dos sonhos, algumas teorias tentam explicar sua função e seus significados. Para a psicanálise, os sonhos são a janela para o subconsciente, revelando desejos, conflitos e medos reprimidos que, por vezes, se manifestam de forma simbólica ou distorcida. Já a neurociência propõe que os sonhos sejam uma forma do cérebro se livrar de toxinas e processar informações acumuladas durante o dia, consolidando memórias e aprendizados. Os sonhos, muitas vezes vistos como meras fantasias da mente adormecida, também podem ser a força motriz por trás de grandes mudanças sociais e políticas. São eles que alimentam a esperança por um futuro melhor, inspiram a luta por justiça e igualdade e impulsionam a inovação e o progresso.

Sendo  assim, cabe traçar um paralelo entre os sonhos já citados — aqueles fenômenos que ocorrem enquanto dormimos e o sonho num sentido simbólico e político, no sentido de projeções de algo que se tem desejo de concretizar, ver, ter ou fazer.

Em O dono da dor, música lançada em 1997, composta por Nelson Rufino e conhecida na voz de Zeca Pagodinho, canta-se que:

“Ninguém pode imaginar
O que não viveu”

Esse verso, cantado a plenos pulmões em milhares de rodas de samba, abre despretensiosamente o caminho para refletirmos: como imaginar ou sonhar com aquilo que não vivemos ou que não nos foi permitido viver? Essa vida vivida e sonhada sem permissão é algo que comumente perpassa a existência e a produção intelectual e artística de pessoas negras.

A literatura negra tem sido um espaço vital para a exploração de temas profundos e complexos, incluindo os sonhos e a imaginação. Autores negros, em diversos contextos históricos e culturais, têm usado esses elementos como ferramentas para desafiar narrativas opressoras, reimaginar realidades alternativas e afirmar suas identidades. A imaginação, para muitos deles, não é apenas um exercício criativo, mas uma forma de posicionamento e sobrevivência.

Toni Morrison, por exemplo, em  Amada (Beloved), utiliza elementos do sobrenatural e do sonho para explorar traumas passados e a memória coletiva dos afro-americanos. A presença do fantasma de Amada (Beloved) simboliza não apenas a perda e o luto, mas também uma forma de retomar a agência sobre um passado doloroso. Morrison cria um espaço no qual o real e o imaginário se entrelaçam, permitindo que a história de uma comunidade seja contada de forma não linear, desafiadora e profundamente humana.

Os sonhos, na literatura negra, muitas vezes servem como projeções de esperança e desejos para um futuro outro. No romance Homem invisível (Invisible Man), de Ralph Ellison, o protagonista sonha com uma sociedade em que ele é visto e valorizado, contrastando com sua realidade de invisibilidade social. Esses sonhos não são meramente escapistas, mas funcionam como críticas contundentes às estruturas sociais existentes e como expressões de um desejo profundo por mudança e reconhecimento.

Octavia Butler, uma das mais proeminentes escritoras de ficção científica negra, utiliza a imaginação para reconfigurar identidades e explorar possibilidades alternativas para a humanidade. Em Kindred, Butler mistura elementos de viagem no tempo com uma narrativa profundamente enraizada na experiência afro-americana. Através da protagonista Dana, a autora explora como as identidades são moldadas e reconfiguradas pelo passado e pelo presente, utilizando a imaginação para criar uma narrativa que transcende as limitações temporais e espaciais.

Nas literaturas africanas, o sonho frequentemente assume uma dimensão coletiva, refletindo as aspirações de comunidades inteiras. Chinua Achebe, em O mundo se despedaça (Things Fall Apart), captura o espírito de uma sociedade à beira da mudança. Embora o romance se concentre principalmente nas realidades sociopolíticas de uma comunidade igbo, os sonhos e as visões das personagens revelam um anseio por equilíbrio entre tradição e modernidade. Esses sonhos, muitas vezes fragmentados e intercalados com realidades duras, oferecem uma visão sobre as tensões e esperanças dentro da comunidade.

Autores contemporâneos, como N. K. Jemisin, têm expandido ainda mais os limites da imaginação na literatura negra. Em sua trilogia A terra partida (Broken Earth), ela constrói um universo complexo no qual a geologia e a magia se entrelaçam, criando um mundo que é ao mesmo tempo familiar e radicalmente diferente. Através de uma narrativa que mistura elementos de fantasia e ciência, Jemisin explora temas como opressão, sobrevivência e transformação, utilizando a imaginação para questionar e desafiar as realidades do nosso próprio mundo.

Passear pelo universo dos sonhos e da imaginação na literatura negra não é apenas um testemunho da criatividade e resiliência da autoria negra, mas também uma poderosa ferramenta de proposição social, incidência e afirmação cultural. Através das obras de Morrison, Ellison, Butler, Achebe, Jemisin e muitos outros, podemos perceber e experimentar formas para reimaginar identidades, desafiar estruturas opressivas e projetar esperanças para o futuro.

Os sonhos não são apenas retrospecções ou formas de escapismo, mas também projeções de futuros possíveis e desejáveis. Para o movimento negro, a capacidade de sonhar com um futuro melhor tem sido fundamental para a motivação e mobilização. Martin Luther King Jr., em seu famoso discurso Eu tenho um sonho (I Have a Dream), encapsula a essência desse impulso. Seu sonho de uma sociedade justa e igualitária serviu como um poderoso catalisador para a luta pelos direitos civis, inspirando milhões a acreditar e trabalhar por essa visão de futuro.

Quando Dona Ivone Lara fala de “buscar quem mora longe, sonho meu” podemos fazer uma leitura óbvia sobre um amor perdido ou distante. Mas também podemos ir além e pensar esse sonho e essa busca como banzo. O banzo pode ser entendido como um fenômeno histórico e cultural que afetou profundamente a população africana escravizada no Brasil. Trata-se de um estado de melancolia profunda, nostalgia e depressão experimentado por escravos africanos, muitas vezes levando-os à morte por inanição ou ao suicídio.

Do ponto de vista psicológico contemporâneo, o banzo pode ser compreendido como uma forma extrema de depressão. Estudos em psicologia e psiquiatria mostram que a perda de laços sociais e culturais, combinada com condições de vida abusivas, pode levar a estados severos de depressão. A ausência de perspectivas de liberdade e o tratamento desumano contribuíam para um estado de desespero tão profundo que muitos escravizados perdiam a vontade de viver. Clinicamente, o banzo pode ser comparado a transtornos depressivos maiores, com sintomas como perda de apetite, insônia, apatia e pensamentos suicidas. Politicamente, o banzo evidencia a crueldade do sistema escravocrata e serve como testemunho da resistência física e espiritual dos escravizados. Embora frequentemente interpretado como uma forma de desistência, o banzo também pode ser visto como um ato de resistência silenciosa. Ao se recusar a participar do sistema que os oprimia, os escravos que sucumbiam ao banzo estavam, de certa forma, reivindicando autonomia sobre suas vidas e mortes.

O banzo, esse estado de melancolia profunda, e o sonho, tanto como forma de resistência quanto de esperança, são conceitos interligados na experiência da diáspora africana. Essa relação é complexa e multifacetada. Ambos são respostas ao mesmo conjunto de circunstâncias opressivas, mas manifestam-se de maneiras diferentes. Numa visão mais superficial, o banzo pode ser visto como um colapso da esperança, um diálogo com o desespero, enquanto o sonho pode representar a projeção de uma outra realidade. No entanto, mesmo no banzo, pode haver traços de sonho: a nostalgia e o desejo de retorno à terra natal podem ser vistos como uma forma de sonhar com uma realidade perdida ou que pode ser (re)inventada.

A imaginação tem papel central na reconfiguração das identidades negras, desafiando estereótipos e preconceitos. E assim voltamos a Zeca. Se ninguém pode imaginar o que não viveu, inventamos! Ao longo de séculos, a existência negra tem alternado entre a concretude de sociedade racistas e a projeção de universos outros, nos quais se pode existir de forma menos cruel e cristalizada. No contexto do movimento negro, os sonhos e a imaginação não são apenas individuais, mas coletivos. Eles ajudam a fortalecer a coesão comunitária, criando um senso de propósito e solidariedade. O movimento Black Lives Matter, por exemplo, utiliza a imaginação para vislumbrar um mundo sem racismo sistêmico e violência policial. Esse sonho coletivo fornece um quadro para a ação política e social, inspirando protestos, políticas e mudanças comunitárias. São essas projeções que têm impulsionado lutas concretas com resultados palpáveis e mensuráveis.

O poder dos sonhos não se limita a escritores, artistas, grandes líderes e movimentos sociais. Ele reside também em cada indivíduo que ousa imaginar um futuro diferente, que se recusa a aceitar o status quo e que luta por um mundo equânime.

Sonhos podem ser subversivos, desafiando as estruturas de poder existentes e questionando as normas sociais, especialmente quando falamos de trajetórias negras. Eles podem ser a faísca que inicia revoluções, as vozes que denunciam injustiças e a força que impulsiona a busca por um mundo mais justo e sonhado.

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Podemos falar abertamente? A sociedade brasileira está rasgada por dentro e por fora. Temos dificuldade de vislumbrar um futuro conjunto. Não almejamos um futuro compartilhado. O coletivo deixou de ser âmbito de diálogo, de convivência, de aspirações comuns. Tornou-se um problema, um dilema, um enigma. Os outros — aqueles que não pensam como nós, que não vivem como nós, que não percebem o mundo como nós — são vistos como fonte de embate. Causam-nos irritação, indignação, desprezo.

Essa abolição do coletivo — o desmoronamento da percepção de comunidade — é muito mais grave do que a tão falada polarização ideológica ou as muitas disfuncionalidades do poder público. Ela é a origem, a causa primária da nossa crise política, do cansaço por tudo o que é público, da indiferença pelo que não é pessoal, palpável, imediato. Perdeu-se a alteridade.

O coletivo tornou-se uma abstração sobre a qual — quando muito — se pensa, se raciocina. Mas não se sonha com ele. Não se cultiva, no íntimo, um futuro possível comum. Não se imagina. Sobram ideias, slogans, lugares-comuns. Falta partilha. Falta desejo.

Não é que o afeto tenha sumido do âmbito coletivo. Nota-se a presença da raiva, do ressentimento, da inveja. Mas o carinho, a empatia, a afeição, tudo isso sumiu do espaço público. Cada vez mais, esses sentimentos estão restritos à esfera privada. A uma reduzida esfera privada: aos amigos, aos iguais. Sequer são orientados aos familiares, que, não raro, são percebidos como inimigos, como diferentes, como a parte de nós — da nossa história, da nossa identidade — que nos desperta vergonha. Uma vergonha com a qual não sabemos lidar.

Também os iguais — aqueles dos quais nos consideramos próximos —, seja por uma leve mudança de circunstâncias, seja pela descoberta de alguma característica inesperada, são facilmente transportados para o campo dos diferentes, dos rejeitados. Há uma contínua ampliação da rejeição.

Nota-se um abismo no mapa do Brasil. Somos uma sociedade desencontrada, que tem dificuldade de se reconhecer, de se entender. Ao pensar, usa-se o fígado, num processo presunçosamente intitulado de racionalidade, de objetividade, de maturidade, de realismo. Mas não há isenção, não há lógica, não há método. O que há é o despejo de um mundo interior não socializado, não dialogado, não entendido, não refletido. É uma matéria-prima bruta, que produz atrito, que gera ruído, que causa divisão. Paradoxalmente, essa brutalidade convive com a hipersuscetibilidade. Dos outros, exige-se suavidade e consideração, ao mesmo tempo em que se distribuem socos, pontapés, cusparadas.

Menos desigualdade. Mais educação. Mais saúde. Mais segurança. Mais liberdade. Menos preconceito. Sim, sabemos elencar os elementos desejáveis para uma coletividade saudável. Mas o próprio anúncio desses tópicos traz a marca da frustração, da desesperança. Temos medo dos sonhos. Medo de sermos ingênuos. Medo de pedirmos paz e parecer que estamos sendo condescendentes com retrocessos, com abusos, com injustiças. Tudo se tornou complicado, cansativo, angustiante.

A imaginação — a possibilidade de uma resposta criativa às questões da vida e do mundo — está bloqueada. Foi lacrada pelo olhar alheio e pelo nosso próprio olhar, pelas nossas inseguranças, pelas nossas incompreensões, pelos nossos afetos.

Qual é o nosso futuro? Há possibilidade de futuro?

Nada é imutável, tudo é humano

Visto sob essas luzes, o cenário brasileiro assusta. Mas — no humano, sempre existe a conjunção adversativa — esse quadro não é a única resposta, a única possibilidade. A realidade não é um monolito definitivo. Suas condições não são imutáveis. Nada é um dado inexorável. Trata-se sempre de uma construção, de uma escolha.

Talvez isto seja o mais desafiador: reconhecer que esse presente, tão marcado por embates, tensões e divisões, não é simples resultado da ação de terceiros. É fruto da nossa própria conduta, das nossas ações, das nossas omissões. Também nós somos responsáveis por esse presente problemático, desigual, violento.

Essa constatação pode nos envergonhar, nos paralisar, mas também pode ser libertadora. Admitir nossa responsabilidade pelo presente é vislumbrar que o futuro não está determinado. Ele está disponível para nós. Está por ser tecido com nossas agulhas, com nossas linhas.

Talvez alguém pense que aqui se romantiza. Somos pequenos. Somos frágeis. Somos incapazes, tantas vezes, da nossa própria vida, que nos supera, que nos engole. Se é difícil ver autonomia em nossa própria trajetória, frequentemente moldada mais pelas circunstâncias do que propriamente por escolhas, como assumir, numa espécie de passe de mágica, o protagonismo pelo futuro do coletivo?

O questionamento é pertinente e nos ajuda a ver outra camada do problema. Não estamos diante de uma mera crise da coletividade. Há uma crise da própria individualidade, da identidade pessoal. Quem nós somos? Como nos enxergamos?

Talvez isso soe teórico; concretizemo-lo, pois. Como educamos nossas crianças? Quanto tempo dedicamos a elas? Como acompanhamos os idosos? Que admiração temos por quem os acolhe e cuida deles? Quem somos para quem vive uma situação social menos privilegiada? Como nos relacionamos? Como cuidamos da nossa calçada? Como gastamos nosso tempo livre? Quais são os nossos desejos? Como cantamos? Como usamos os nossos olhos? O que lemos? Ao que assistimos?

Sociedade não é abstração. É convivência, tempo gasto, cozinha compartilhada, abraço, aperto de mão, beijo, olho no olho. É confiança, é conversa, é confidência, é estranhamento, é aprendizado, é troca. Para viver tudo isso, temos de estar inteiros, minimamente inteiros. Conscientes de quem somos, da nossa história e do nosso presente. De outra forma, o futuro será simples repetição, reprodução de velhos hábitos — ainda que estejamos vestidos com roupas diferentes.

Reimaginar o humano

Não é questão de voluntarismo. De achar que basta querer. Que basta se esforçar. Não é questão de motivação, de pensar positivo. Decide-se o jogo — melhor dito, a aventura — em outra esfera.

É preciso reimaginar o humano sem encaixotar tudo em nossas lentes, em nossas percepções, em nossas sensibilidades. O humano é diverso, plural. E talvez aqui esteja o fio possível para costurar o tecido Brasil: a diversidade, o respeito pelo outro, com suas maravilhosas idiossincrasias.

Nada disso é tarefa intelectual, que se ensina com método e argumentos. É feito com a generosidade de olhar o outro em sua integridade, sem atribuir intenções distorcidas a quem pensa de forma diferente.

Mais do que simples altruísmo, isso é humanidade. Só vendo o outro com generosidade — abdicando de medi-lo com a nossa própria régua — é que saberemos nos enxergar. Só assim poderemos captar nossas limitações e lidar em paz com elas. Só assim poderemos nos transformar.

A preocupação com o coletivo não é uma espécie de sofisticação. É item de primeira necessidade para que possamos viver como humanos. Não se pode tapar o sol com a peneira. Os seres humanos sonham: o presente não é definitivo. Somos seres temporais, abertos à mudança, à transformação. Por isso, uma sociedade dividida é também uma sociedade paralisada, a desperdiçar sua energia com pequenezes.

Os seres humanos sonham, e, se não sonhamos, – se estamos incapacitados de detectar os sonhos profundos que permeiam nosso interior –, algo não vai bem. E é preciso enfrentar o sintoma de maneira genuína.

Vivemos hoje a utopia da tecnologia. Tem-se a expectativa de que, com suas engenhosidades e múltiplas inteligências, ela nos oferecerá as soluções. Mas soluções para quê? Não sabemos sequer formular para nós mesmos as questões que verdadeiramente nos inquietam.

Essa utopia é paralisante, preguiçosa: o futuro torna-se obra dos outros. A nós caberia acompanhar as tendências, aproveitar as novidades, usufruir dos novos gadgets. Mas será que não vemos que a tecnologia, espetacular, por si só, é incapaz de tecer o humano, de costurar o coletivo? Usuário massivo das redes sociais, o Brasil contemporâneo é prova cabal dessa disfunção.

O futuro não é obra dos outros. A vida tem uma dimensão coletiva, mas é sempre também profundamente pessoal. São planos interconectados. Não basta a tendência macro. Não bastam as decisões de Estado. Não basta o que os outros fazem, sentem, dizem. A sociedade é um tecido diariamente costurado por todos – e por cada um.

Falar em sonho não é enganar-se com uma fantasia. É resgatar o que há de mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais coletivo, mais relacional. Vivendo nos conectamos. Sonhos não são meras imagens dentro da nossa cabeça. São motores: entusiasmo, impulso de vida. São frestas de futuro, que acendem o desejo de trabalhar mais, de realizar mais, de se conectar mais genuinamente com as pessoas, de contribuir mais.

Sonhos são desejo de vida, imaginação de caminhos. Ao sonhar, ao construir as condições para o sonho, abre-se a possibilidade de se tecer um novo sentido, mais genuíno, menos solitário, mais solidário. Sonhemos, pois, corajosa e suavemente.

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Na efervescência do Carnaval do Rio de Janeiro, surge uma figura marcante: os bate-bolas, também conhecidos como clóvis, pierrots ou clowns. Originários dos subúrbios ou das periferias cariocas, principalmente nas Zonas Norte, Oeste e Baixada Fluminense, esses foliões mascarados carregam consigo uma rica tradição, que se entrelaça com a história da própria festa.

Acredita-se que suas raízes remontam aos colonizadores portugueses e à Folia de Reis, mas o nome “clóvis” teria surgido no início do século XX, inspirado na palavra inglesa “clown”, que significa “palhaço”. Uma interpretação popular teria transformado o termo em um apelido para os foliões fantasiados.

Vestidos com fantasias vibrantes e máscaras que mesclam o cômico com o macabro, os bate-bolas se organizam em turmas, dedicando-se durante todo o ano à criação de seus trajes e à organização de eventos carnavalescos. Fogos de artifício, festas e churrascos animam a comunidade, ao som de hinos, marchinhas e funks próprios de cada grupo.

A diversidade marca a presença dos bate-bolas. Seus estilos variam, desde o clássico “bola e bandeira” até o criativo “evolution’, passando por “leque e sombrinha”, “bicho e sombrinha”, “pirulito” e “de capa”. As fantasias também apresentam diferenças regionais: na Zona Oeste, predominam os modelos “bujão”, com mais tecido, enquanto na Zona Norte a criatividade impera.

Os nomes das turmas refletem essa multiplicidade, carregando sentimentos, atitudes, personagens fictícios ou até mesmo o barulho e a desordem que acompanham a folia. Humildade, Emoção, Explosão, Alegria, Bom Gosto, Tirania e Fascinação são alguns exemplos. Na Zona Oeste, nomes de personagens como Mario, Urtigão e Kuka se destacam, enquanto turmas de “bola e bandeira” homenageiam a agitação com títulos como Tropa Embrazada, Zorra Total e Barulho.

Mais do que simples foliões, os bate-bolas representam a cultura popular carioca em sua essência. Sua tradição, preservada ao longo de décadas, foi reconhecida em 2012, quando os grupos foram declarados Patrimônio Cultural Carioca. Hoje, os bate-bolas continuam a encantar e desafiar estereótipos, colorindo o Carnaval com a alegria, a irreverência e a vibração única do subúrbio carioca.

Convidamos Mayara Assis, pesquisadora e brincante da cultura bate-bola, para um breve papo-vivência:

Muitos trabalhos que discutem ou apresentam a cultura bate-bola o fazem por um viés estético visual. Porém, seu trabalho extravasa essa fronteira e leva o bate-bola para uma dimensão do corpo. Que corpo é esse? 

Esse corpo é do medo ou respeito, aquele que coloca em dúvida os discursos da moralidade. E esse corpo, que está na dimensão da cultura dos bate-bolas, também, mas está em outros lugares, e é aí que a gente vai chegar. Porque, na minha perspectiva, eu não pretendo somente estar dentro, inserindo a minha pesquisa na cultura dos bate-bolas, se é um lugar pelo qual eu passo para ir de encontro. É ali que eu digo: existe esse corpo estanque, ele se reproduz aqui também. Que é esse corpo que, ao passar pela rua, ao entrar numa sala, parece sempre estar prestes a arruinar com tudo, com tudo que foi feito, com tudo que foi construído? Esse corpo que é estranho, esse corpo que, quando chega, já anunciou certo desconforto no espaço.

O meio bate-bola acaba sendo um espaço com muito protagonismo masculino. Como você vê o papel e a importância das mulheres nesses espaços? 

Mesmo não sendo a minha questão principal de debates, o protagonismo na expressão de gênero masculino nas turmas de bate-bola, vou falar sobre isso e trazer pra questão que eu não compro essa briga. Eu acredito que tem muito protagonismo feminino, da expressão de gênero feminino, na turma de bate-bola. Eu acho que o ponto que é importante de ser falado, quando a gente questiona e traz esse questionamento necessário sobre esse lugar, um espaço ocupado ou com a presença do protagonismo  masculino ao feminino, é que as nossas relações estão em crise, e essa crise precisa ser estampada. A principal crise que precisa ser estampada é que sempre, quando a gente conta a história da cultura popular brasileira, a gente diminui a importância do trabalho das mulheres, e principalmente das mulheres negras dentro das culturas. Eu comecei a ter interesse na cultura das turmas de bate-bola por conta de costureiras, e essas costureiras se sentem as primeiras pessoas que dão continuidade à turma de bate-bolas. São fazedoras de bate-bola, fazedoras de casaca, imprensa, fazedoras de máscara. Quem faz a indumentária, quem está com as mãos no trabalho, se sente totalmente responsável pela continuidade da cultura. E isso você vê de memória e de presença mesmo em cada cultura que é mantida por um grupo tradicional, seja no perímetro urbano ou até mesmo no perímetro rural. Eu vi que isso se replica, e que a importância feminina é subtraída quando a gente fala, às vezes, da nossa própria cultura. Existem turmas inteiras de bate-bolas só de mulheres,e também existem turmas em que, majoritariamente, o grupo que sai fantasiado é um grupo de homens, mas o carnaval não se encerra nesse grupo, é toda uma comunidade em torno disso, tem famílias dos bate-bolas. Gera renda também, circula a renda entre os pequenos produtores desses elementos que compõem a turma, e muitos desses fazedores são fazedoras, na verdade. Muitos desses trabalhadores são mulheres.

Então as mulheres são essenciais nessa cultura, certo?

Não que o papel das mulheres esteja encerrado, que a importância das mulheres nessas culturas dos bate-bolas ou até na cultura brasileira esteja encerrado ao espaço de organização, confecção, produção dos conteúdos, dos elementos. O papel das mulheres é de responsável pela continuidade do divertimento. E isso eu vejo em toda a cultura brasileira. Na cultura dos bate-bolas, elas já vêm encontrando espaços pra que elas mesmas possam também dizer desde o princípio o que elas querem que visualmente seja entregue, e esse é, vamos dizer, um outro caminho que vem sendo redesenhado pelas mulheres mais novas juntamente com mulheres mais antigas, que já frequentam turmas de bate-bola de outras datas e que têm feito turmas femininas e promovido ainda mais a voz das mulheres nesse contexto, no contexto em que elas também dispõem, vamos dizer assim, do mesmo desejo de manifestar o seu interesse pela liberdade, pelo prazer e pelo divertimento que é você confeccionar desde o princípio uma roupa e uma turma, toda uma organização de uma turma de bate-bola. Isso é algo que eu vejo agora. Na verdade, eu acho que esse é um protagonismo que eu vejo surgindo, emergindo mais forte agora, mas não acho que não existisse.

O carnaval muitas vezes é um momento em podemos experimentar outras subjetividades e formas de existir. E assim, também, sonhar. Você acha que nas favelas, nos subúrbios e nas periferias (espaços onde costumamos ver mais a cultura bate-bola), ser bate-bola é realizar um sonho?

Pra responder essa pergunta, eu vou começar dizendo que, se a gente tirar o bate-bola da cultura estética, de você ter poder e comprar, adquirir, obter, sei lá, comprar um tênis, comprar uma roupa, se a gente tirar ele desse lugar e pensar pela perspectiva da formação de uma turma, da formação de um núcleo que se comunica com outro núcleo, e com outro, e que são famílias juntas e que têm as suas denominações, que se reconhecem com ou sem os seus elementos em diversos cotidianos que não são somente o carnaval, isso por si só funciona como uma realização coletiva de um sonho, de um sonho de estar e fazer parte de uma comunidade, de ser aceito em um lugar. Isso é muito quem são também essas pessoas do bate-bola. Quem são eles é muito isso também, sentir-se parte de uma coisa, e cada um ali é fundamental, todo mundo bota a mão pra trabalhar na confecção das coisas, na realização, na concretização do sonho. Estar numa coletividade dessa forma, em que você se entrega desse jeito pra além dos mecanismos funcionais da estrutura global do mercado, de como o mercado funciona, ali dentro se constrói uma outra forma política, e essa forma política é o ideal coletivo, mas também é a realização de um sonho, de estar e fazer parte de uma comunidade. Eu já vi acontecer, em saídas de turmas de bate-bola, por exemplo, da pessoa responsável ter confeccionado umas roupas que poderiam equivaler pra crianças, e aí as crianças, que não participaram de nenhum dos outros movimentos que as pessoas mais velhas participaram desde o início do ano, naquele dia, do carnaval, estavam ali desde cedo em cima das pessoas da turma, querendo saber. Aquelas crianças ali ganham um bate-bola e saem. Essa sensação, essa memória da infância, essa relação com a cultura também é a realização de um sonho coletivo, de um sonho coletivo que se encontra dentro das periferias urbanas e da forma como a cultura pode ter continuidade nesses espaços das favelas e dos subúrbios, que é através da criança, estimulando o próximo, o mais jovem, o mais novo. E esse estímulo também é uma forma de realizar um sonho. Não sei se necessariamente todos que estão ali estão sendo coletivamente com essas questões subjetivas que eu estou trazendo, mas é o que a gente vê acontecer. Muitos ali só chegam com o único pensamento de construir. Quem é líder dentro da turma, quem é liderança, vai pensar o carnaval desde o princípio e querer que ele aconteça da forma como foi planejado. Tem gente que vai entrar que o sonho é só sair de bate-bola. E essas pessoas vão sair, porque é a realização de um sonho também. Mas não é só o sonho de comprar um bate-bola, de comprar um tênis, é o sonho de fazer parte de uma grande coisa. Eu sinto muito, às vezes, vindo dos corpos com os quais a gente está se direcionando, com os quais a gente está se comunicando, que são esses corpos que parecem estar andando por aí como se estivessem prestes a arruinar tudo. São muitas essas pessoas, muitas dessas pessoas procuram essas culturas, as culturas que impõem medo ou respeito, a cultura do funk, a cultura do bate-bola que, pra mim, estão muito atravessadas, e muito atravessadas às culturas negras, cujas origens são africanas. Eu falo isso porque isso me lembra o sentimento do quilombo, que, já diria Abdias Nascimento, é o sentimento de uma comunhão existencial negra. Ainda que nem todos ali sejam negros, essa cultura vibra nesse mesmo tambor, ela tem essa mesma vibração.

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