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#46Tempo VividoSem editoria

Dois e dois são dois: Dom Filó e Helena Theodoro

por Revista Amarello

Dom Filó, é o carioca Asfilófio de Oliveira Filho, engenheiro civil, jornalista, produtor cultural e cine-documentarista. Nos anos 70, foi um dos mentores e protagonistas do Movimento Black Rio. É responsável pela Cultne.TV, primeiro canal da televisão brasileira dedicado à cultura negra e idealizador do Instituto Cultne, maior acervo virtual de audiovisual de cultura negra da América Latina, que reúne mais de 3.000 horas de conteúdo audiovisual autoral e inédito, ao longo de mais de 40 anos de registro e memória do Movimento Negro contemporâneo. 

Helena Theodoro nasceu no dia 12 de junho de 1943. É professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e integra a Coordenadoria de Experiências Religiosas Tradicionais Africanas, Afro-brasileiras, Racismo e Intolerâncias Religiosas (ERARIR), do Laboratório de Histórias das Experiências Religiosas. É Conselheira do FUNDO ELAS, o único fundo brasileiro de investimento social voltado exclusivamente para a promoção do protagonismo das mulheres. Responsável pela biografia de Martinho da Vila, Helena é uma referência na pesquisa sobre cultura negra, carnaval, samba e arte.

Helena — Quando olho para trás, o que acontece é que me percebo no hoje. Hoje eu sou uma senhorinha de 80 anos que teve a felicidade de nascer de um casal de militantes negros, Jurandir Theodoro e Lea de Araújo Theodoro, que me deram desde muito cedo a noção de ser uma neguinha de classe média com uma responsabilidade muito grande, com a consciência de que a maioria da comunidade negra no Brasil era negra e pobre, e que a gente tinha que fazer muita força pra mudar essa situação. Papai era economista, mamãe era intérprete de inglês, e eu deveria lutar o tempo inteiro para conquistar o conhecimento do mundo judaico-cristão sem perder as referências dos nossos saberes negros africanos, que tinham mais de dez mil anos e que eram a fonte do saber e do conhecimento do mundo. Eu procurei seguir os passos deles, me formei professora no Instituto de Educação, estudei 11 anos de piano, seis de balé, estudei francês, eles sempre me apoiando muito, porque eram fundadores do Renascença Clube, eram apoiadores do Teatro Experimental do Negro, inclusive, sócios apoiadores da orquestra do maestro Abigail Moura, que era uma orquestra afro-brasileira, com instrumentos africanos, música afro-brasileira, e me deram uma referência muito grande de toda uma militância daquela época, os anos 50, 60. De almoço, participar de feijoadas em casa de Sebastiana Arruda, de todo o pessoal que fundou o Renascença, que conheceu todo o movimento da família da minha mãe, que era família salgueirense — meu primo Dauro era compositor do Salgueiro e minha avó fazia roupa pras baianas do Salgueiro. Minha tia Alice, mãe do meu primo, tinha uma família muito grande, muito festeira. Foi numa das festas, inclusive, que aprendi a dançar com Dondom, que jogava no Andaraí, que virou até samba de Nei Lopes. E foi uma experiência de infância muito boa e muito consciente de todo o processo racista e autoritário desse país, com um pai que tinha uma formação muito boa, era de esquerda, além de estar ligado a todo um processo da Maçonaria e que fazia questão absoluta de me colocar sempre a par do que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Minha mãe o acompanhava, escrevia poesias pra Ciência Popular e, professora de inglês, acompanhava o movimento dos negros norte-americanos. Então eu tive uma infância muito voltada para a música popular brasileira e para conhecer as coisas que você, Dom Filó, me propiciou na juventude — o soul, algumas coisas que eu já conhecia da minha infância, da relação da minha mãe, que cantava muito bem em inglês e que conhecia os Estados Unidos, os negros americanos, além das músicas negras de Angola. Depois eu me formei em direito, fiz pedagogia, mestrado em educação e doutorado no setor luso-brasileiro, comparando a filosofia de um terreiro nagô em relação ao ideal de pessoa com a escola idealista alemã. Concluindo, da visão mais ampla, muito mais abrangente da comunidade negra em relação às pessoas do que do mundo judaico-cristão. Eu escrevia também pra Rádio MEC, fazia programas voltados pra cultura negra, fui militante do movimento negro por muito tempo e comecei no programa Tarde Estudantil, depois criei uma série de programas valorizando o samba, Samba na palma da mão, programa Origens, com mestre Didi, de Salvador, radiofonizando contos africanos, falando dos orixás, falando da nossa tradição negra no Brasil, da nossa resistência, entrevistando as grandes lideranças do movimento negro, inclusive você, Dom Filó, com todo seu trabalho, Lélia González, Maria Beatriz. Sou professora universitária, dando uma disciplina sobre o princípio feminino nas diferentes tradições negras no Brasil, levando pra dentro da universidade a sabedoria negra, a filosofia negra e toda literatura da comunidade negra. Porque um país só cresce quando olha para quem o habita, e a educação no Brasil não é feita pra brasileiros pretos. 

Filó — Assim como você, Helena, eu também sou filho de um casal negro. Esse casal é de origem bem humilde, tradicionalmente família pobre. Sou da segunda geração, porque a primeira geração foi exatamente o pai, meu avô, que foi um escravo livre. Ele, como escravo livre, junto com um médico branco grego, formava uma profissão que na época era o médico legista. Então tinha o prático, que era o meu avô, e tinha esse médico, que era grego, e os dois formavam a medicina legal. Eram tão amigos, tão unidos que meu pai resolveu homenagear esse médico, e esse médico, por sua vez, também homenageando meu pai, cedeu que meus tios e meu pai tivessem nomes de origem grega. Então entre meus tios tem lá o Aristóteles e o Benjamin, e tem o Asfilófio, que foi meu pai, e agora eu herdei esse nome também. Originalmente de Minas Gerais, meu pai veio para o Rio de Janeiro trabalhando como mecânico da polícia, onde conheceu minha mãe, que trabalhava como empregada doméstica para uma família de Laranjeiras. Eu vivi toda a minha adolescência praticamente embaixo do Morro do Jacaré. Então a minha relação com a família preta era muito próximo da comunidade do Jacaré e, ao mesmo tempo, com o asfalto, como a gente chamava, porque eu morava no asfalto, morava na rua Paim Pamplona, onde hoje é a Favela do Rato. Eu lembro que era garoto, era complicado, comia muito angu, até hoje eu não consigo comer angu, era angu todo dia, era angu doce, angu salgado, tudo de angu. Ainda tinha que fazer angu pro cachorro. Quando chegou os meus 18 anos, se dá meu letramento racial. Aí eu viro um ativista, por conta do racismo. Já na Escola Técnica Nacional, prestes a entrar na universidade, eu começo a circular no estado do Rio de Janeiro e ver as coisas acontecendo. E quando você vê, você começa a ganhar conhecimento. Nessa época eu começo a frequentar o clube que você citou, Helena, o Renascença. Aquele pólo de negros ali faz com que haja uma inspiração a mais, ou seja, a gente pode juntos, a gente pode fazer algo, a gente pode crescer. E, na minha época, eu via assim. Roda de samba do Renascença bombando, comandada por Elizeth Cardoso, nascendo ali João Nogueira, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Agostinho Silva, grandes orquestras.

Helena — Que tempo bom, não é, Filó?

Filó — Tempo maravilhoso.

Helena — Eita tempo maravilhoso de Renascença, Deus do céu.

Filó — Baile do Azul e Branco, Baile de Primavera, os grandes bailes. Só que tinha uma juventude que, como toda juventude, todo jovem, quer buscar algo mais, sempre está propondo algo mais. E surge, dentro do Renascença, um grupo que desenvolve uma companhia de teatro. Olha só o pessoal envolvido nessa companhia, pilotado pelo saudoso Haroldo de Oliveira, que aos 14 anos já estava na tela com Rio 40 graus. Então Haroldo de Oliveira cria essa companhia e traz Zózimo Gugu, Cléa Simões, Jacyra Silva, Léa Garcia, cria Geraldo Rosas, cria Cidinho, Antônio Pompêo, José Araújo, Zezé Motta, e por aí vai. Esse grupo foi a minha grande inspiração. A partir daí o Renascença cresce, e nós vamos para o movimento soul. O movimento soul me envolve de tal maneira que eu começo a ter o letramento racial a partir de duas frentes, já como ativista, já pensando em movimento negro, tendo ali o professor na Cândido Mendes. Tinha um grupo que se reunia na Universidade Cândido Mendes e tinha um professor, eu esqueci o nome dele agora.

Helena — Joel Rufino, José Maria Nunes Pereira, o grande Zé Maria.

Filó — José Maria Nunes Pereira. Ele fez a cabeça, foi muito importante.

Helena — Eu fui do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Cândido Mendes. A vantagem da maioridade é, primeiro, a gente, como preto, conseguir chegar vivo e lúcido a uma idade mais pesada. É um negócio muito bom poder olhar pra trás e ver como a gente conseguiu continuar participando e dialogando com outras gerações e com jovens, filhos, netos, bisnetos. É uma glória muito grande, porque, pra Lei dos Sexagenários, do tempo da escravidão, era uma brincadeira que ninguém conseguia chegar aos 60 anos. O tempo de longevidade da comunidade preta era 35 anos. Aos 40 anos as pessoas já estavam praticamente acabadas. E a gente tem uma tradição muito grande de ter esperança, alegria de viver, não é, Filó?

Filó — Exatamente.

Helena — O que foi a grande lição que eu tive? Eu tive uma infância muito parecida com a sua, do ponto de vista do carro, do seu pai ser mecânico, porque o meu avô era motorista de praça na Praça Saenz Peña. Minha família é toda tijucana. Ele tinha um Ford Bigode preto por que ele tinha o maior carinho. Ele lustrava aquele carro como ninguém. Tinha sido cozinheiro de navio, tinha aprendido, ele chegou a ser cozinheiro de almirante, aprendeu a fazer comidas sofisticadíssimas. Tanto que, na minha infância, ele foi morar conosco depois que ficou viúvo e me ensinava todas as coisas de comida, de entrada, de pratos principais. Eu gosto de cozinhar até hoje. Cozinha pra mim tem cheiro, cara e gosto de avô. E ter avô é muito bom.

Filó — Eu não tive contato com meu avô. Eu tinha as matriarcas. Por exemplo, sabe quem é que convivia com a gente? Ela se foi agora, nossa querida Léa Garcia. 

Helena — Nem fala. A Léa Garcia faz parte da história da minha vida, ela era amiga da minha mãe. Eu conheci Léa Garcia quando tinha 12 anos. Senti  demais a perda dela, porque hoje estou usando o teatro como meio de mostrar a vivência da comunidade preta. Então eu fiz uma trilogia das matriarcas falando na primeira mãe de santo, que está com a Vilma Melo. A gente vai encenar uma nova temporada agora em setembro no Glauce Rocha. Tivemos uma temporada no ano passado, no Centro de Cultura Laura Alvim, tivemos uma outra temporada agora em agosto no Teatro Ipanema, e em setembro vamos ter uma outra temporada no Glauce Rocha, no centro da cidade. E nessa trilogia das matriarcas eu coloco a visão de mulher no princípio feminino bantu Jeje-Nagô, que é a visão da mulher sagrada que faz do seu corpo um verdadeiro altar, secreto, porque ela tem o segredo da vida, da maternidade e da política, porque ela resolve as coisas através do papo.

Filó — Esse papo, você está falando agora, eu viajei lá atrás. Antes de vir pra Pequena África, a tia Henriqueta morava perto do Cristo, aí tinha uma cachoeira, eu lembro disso até hoje, era garoto, e a gente colocava todo domingo toda a família que estava no Rio de Janeiro pra ir pra casa dela. Aquele mesão comprido cheio de comida. Todo mundo sentava, comia, aí tinha aquelas falas, e tinha uma vitrola. A vitrola era pra depois ouvir Nelson Gonçalves, aquelas coisas todas.

Helena — A mesma coisa na casa da minha tia Pequenina. Todo final de semana a gente ia na casa de uma tia. Tia Pequenina morava perto da gente, no Lins, mas a família da minha mãe era basicamente da Tijuca, e tia Alice morava na Rua Dona Maria, na casa do Dalmo da Salgueiro. Tinha um quintal grande, e a família toda se reunia nos aniversários, no Natal, na casa de tia Alice. E ainda tinha uma variação, o primo Sussinha, que morava na Ilha do Governador, casado com tia Conceição, que eram da União da Ilha, escola de samba. Porque eu sou salgueirense desde que me entendo por gente, porque a família toda era salgueirense. Através do meu primo Luiz Cláudio, que era compositor, que eu conheci o Franco e os compositores da União da Ilha do Governador, e era uma farra esse encontro. As comidas de tia Conceição à beira-mar e as festas na casa da tia Alice, onde todo mundo se reunia, comia, e com Santinha, que era a grande inspiradora de todas as mulheres, do Dondom, que jogava no Andaraí. E Dondom organizava as coisas com as crianças, ele fazia concurso de dança, ele era de um elegância!

Filó — Sabe qual era a roupa da época? Eu lembro que os coroas chegavam com S120, linho.

Helena — Olha, o meu tio Valdir andava num chique, porque eram todos negros urbanos, sindicalizados, lutando por reforma agrária, por direitos trabalhistas, era todo mundo muito consciente da política nacional. Eu tive uma vivência com negros muito militantes. E eles se reuniam nos almoços dançantes com Moacyr Silva no Clube Municipal.

Filó — Bons tempos. Eram grandes orquestras.

Helena — Ia a família toda, inclusive as crianças. A gente ia nos bailes dançantes.

Filó — Severino Araújo.

Helena — Severino Araújo. Eu tenho fotos do meu pai, da minha mãe, dos meus tios, de todo mundo dançando. Alegria sempre fez parte da minha história. Tanto que eu chego aos 80 anos com muita alegria de viver, porque tive uma lição na minha vida toda no sentido de saber que a vida é feita de coisas boas e ruins, mas que se a gente se ativer às coisas ruins, a gente perde o prumo.

Filó — Exatamente. Você quer ver uma coisa interessante? Na minha família, ninguém tinha curso superior, o grande lance era ser professora ou enfermeira-chefe do Hospital Gaffrée e Guinle, esse era o top. Eu fui o primeiro da família a ter curso superior. Disseram “você tem que ser” e eu assumi aquela responsabilidade. Eu vou fazer o que eles querem, eu tenho que fazer, mas o meu negócio era música, meu negócio era teatro. Mas eu fiz, me formei, etc. Só que chegou uma hora que eu falei: “Eu vou pra outra praia”. “Mas como é que você vai sair de A pra B?” Eu falei: “Eu vou fazer uma ponte”. Aí fui fazer cursos. Naquela época eram cursos de extensão que se chamava. Aí eu fiz Escola Superior de Propaganda e Marketing, na década de 90, FGV, pra justificar que não estava parado. Mas sempre caindo mais pra humanas. E não parei mais.

Helena — É isso. Eu também fiz universidade, mas nunca deixei de acompanhar essa vertente da alegria, da arte e da cultura, porque toda quinta-feira mamãe ia pras conferências da Academia Brasileira de Letras. Ela escrevia, adorava cantar, a família toda salgueirense ou na União da Ilha do Governador, a relação direta com a música, com o samba. Mamãe adorava cantar, uma voz linda.

Filó — Helena, não sei se aconteceu contigo… Teve uma fase que meu pai queria porque queria que eu tivesse o curso de datilografia.

Helena — Foi o primeiro curso que eu fiz.

Filó — Eu lembro que tinha lá uma tampa em cima daquela máquina Olivetti ou Remington, eu lembro até hoje, “asdfgh”, espaço, tinha que bater…

Helena — Não é só isso, não. Não é só datilografia, não. O papai e a mamãe diziam: “Pra você mandar, você tem que saber fazer, não tem que pensar que vai ser neguinha de classe média, dondoca. Não, você tem que saber quanto custa”. Eu aprendi a cozinhar, fizeram de tudo pra eu aprender a costurar, eu aprendi a costurar até fazendo aqueles modelos de papel, e cortando no papel, mas eu detesto costurar, uma coisa que eu não gosto é essa parte de roupa. Do resto tudo eu gostava muito. Cozinhar eu cozinho até hoje, gosto muito. Mas essa coisa de cozinhar, arrumar a casa, fazer uma boa faxina, fazer uma boa comida, deixar a casa toda nos trinks, aprender a receber as pessoas e achar sempre muito bom fazer boa de boca, sabe? Oferecer almoços, jantares, sempre comida fazendo parte de todo um processo de encontro, de pensamento, desenvolvimento. “Ah, queremos elogiar alguém? Vamos fazer um almoço, vamos fazer um jantar.” “Vamos reunir a família? Vamos sair pra fazer um almoço conjunto, vamos almoçar na rua, vamos fazer alguma coisa.” Sempre sabor e saber juntos.

Filó — Era muito coletivo.

Helena — Muito. Coisa tribal mesmo, vem da nossa ancestralidade. E havia um processo muito grande de interação, porque minha mãe era amiga de Léa, tanto que quando eu estava falando da trilogia que eu fiz, o Mãe santo foi com a Vilma Melo, que é um monólogo, conta um pouco da minha história, a perda do meu filho, e de todas as mulheres que sofrem uma série de discriminações, mesmo conseguindo galgar altos postos. O primeiro, Mãe Santo, fala sobre isso, que a gente diz que não é mãe de santo, é mãe do santo, somos mães, somos mulheres que têm relações com o mundo tendo muito prazer em sermos mulheres. Na segunda peça, Mãe baiana, dona Léa gravou com a gente o vídeo, e ela só aceitou fazer Mãe baiana, que é um diálogo entre avó e neta, porque era comigo. Porque ela estava com uma peça em São Paulo, e ela tinha que regravar Os arcanjos na Globo quando ela terminasse a temporada dela em São Paulo. Aí no final do ano passado ela leva um tombo e quebra a bacia e tem que ficar em cadeira de rodas. A gente tinha pensado nela. Nesse segundo semestre nós primeiro gravamos, e a gravação com ela foi maravilhosa, fizemos uma vídeo-peça com um tempo menor do Mãe baiana e gravamos com ela. Ela é maravilhosa. Tanto que nós oferecemos de graça e vamos continuar oferecendo nessa temporada lá no Glauce Rocha, antes do espetáculo da Vilma, gratuitamente para o público, o Mãe baiana com dona Léa Garcia e Luana Xavier, que é a neta da Chica Xavier. E a gente vai tratar nesse Mãe preta exatamente de um papel muito político, integração das diferentes gerações, da visão do mundo capitalista, que deixa as pessoas mais velhas colocadas de lado, enquanto na nossa tradição negra os velhos representam livros. Quando uma pessoa mais velha falece, é uma biblioteca que se queima, essa é a nossa visão. Então, nas nossas famílias, a gente ouve os mais velhos, a gente conversa com eles. Inclusive, dentro da universidade eu tenho feito muito isso, fazendo com que os jovens bolsistas entendam que não adianta entrar na universidade e entrar no matching do mundo judaico-cristão de olhar pro mais velho como sendo aquele que está ultrapassado, porque o jovem tem resposta pra tudo. É preciso entender que nem sempre a gente pode enfiar o pé na porta, que a ponderação, que a sabedoria tem o seu espaço e é muito importante. Nós somos apenas jovens há mais tempo.

Filó — Agora, Helena, mais próximo da ancestralidade.

Helena — Exatamente.

Filó — Sempre que eu estou com essa garotada, fico provocando eles, porque eu acho que é o caminho. Provocá-los significa que eles vão realmente partir pra continuar nosso legado. Agora, eu questiono eles com o seguinte: “Você aprende todo esse conhecimento, vai pra universidade, aprende isso tudo, vai, sai da universidade, vai pro mercado de trabalho e não devolve nada pra comunidade, de fato?”. Entendeu? Isso aqui é o nó. Então não adianta, saiu da comunidade, cresce, mas não devolve de fato.

Helena — Exatamente. Porque o sistema estabelece uma relação não comunitária. Eu sou porque nós somos. Fica parecendo aquela coisa da meritocracia, quando, na verdade, há interesse de você calcar determinado esporte ou estar em determinados lugares. Inclusive, a educação tem estado muito numa caminhada não de pensamento crítico, mas de você dizer o que é conveniente. Se as pessoas aprendessem a ser sinceras e a dizer exatamente o que pensam, o mundo seria muito melhor. Mas todo o processo educacional brasileiro ensina as pessoas a dizerem o que é interessante, conveniente para manter o seu status e pra ser bonzinho diante de quem interessa.

Filó — Vou provocar você. Você é sábia, essa resposta só você poderá dar com propriedade. Onde estaremos daqui a um século, nós, negros? Quer dizer, quem vem aí, pode ser que a gente volte aqui.

Helena — Tenho certeza que daqui a um século nós, negros, estaremos lutando ainda para que esse mundo nos deixe ser como somos. Por quê? Veja bem, um século são cem anos. Nós tivemos… Eu estou com 80 anos, faltam 20 pra completar um século, mas eu nasci em 1943, quando acabou a Segunda Guerra Mundial. Eu nunca imaginei que a gente pudesse ter uma guerra novamente, nos dias atuais, como a gente está tendo na Ucrânia, o ataque de Ucrânia, de Rússia, as torres gêmeas de Nova York, determinados aspectos de violência. Se você olhar a vida nos anos 50, ela era um pouco menos violenta do que agora. Então qual é a perspectiva que a gente tem do desenvolvimento do mundo? Se continuarmos cuidando apenas do desenvolvimento tecnológico, sem pensar no desenvolvimento das pessoas, se cada vez mais as pessoas forem tratadas apenas como dados num papel ou pontinhos num mapa, eu acho que a gente acaba chegando no Planeta dos Macacos, acaba destruindo, o que a gente já está fazendo com o meio ambiente. Então vê, a gente já está tendo calorão no inverno, uma friaca incrível no inverno no Brasil como a gente nunca sentiu.

Filó — Em 24 horas nós tivemos um calorão e, agora, 20°C.

Helena — Um calorão como a Europa nunca sentiu.

Filó — Uma loucura.

Helena — Incêndios, nevascas, chuvas torrenciais, todo um problema de desencontro, porque o homem não se olha como natureza e, na verdade, Filózinho, nós somos o ar que respiramos, nós somos a água que corre no nosso corpo, é o nosso sangue, nossos hormônios. Nós somos a terra, ela constitui nosso corpo e nossos órgãos, e nós somos o calor gerado pelos movimentos desses órgãos e pelo batimento cardíaco. E como é que a gente, no mundo judaico-cristão, tem a qualificação de homem e natureza? Homem é a natureza.

Filó — Você tocou em uma questão central que parece ainda hoje silenciada: o homem não se vê como natureza.

Helena — Não se vê. Se o ser humano não pensar na importância do afeto, da amizade, em como é bom olhar você, como é bom lembrar as coisas todas que a gente viveu na nossa juventude, como é interessante a gente poder trocar com os nossos jovens e entender… Meu Deus, que pena Mc Marcinho ter ido tão cedo, como é importante o hip-hop. Isso não impede de eu ser uma mulher beethoviana, ter estudado 11 anos de piano, entender de música clássica, gostar de ópera, sair sambando na avenida, fazer enredo pra escola de samba. Porque todos esses elementos mostram diferentes momentos na vida da humanidade: a música clássica é uma música antiga, que estava lá atrás como os ancestrais, mas toda sabedoria que a gente tem no mundo moderno é a partir de coisas que vêm de outros lugares. Então é importante a gente entender que se não nos voltarmos para a humanidade da humanidade, se a gente não colocar o sentimento como sendo básico e fundamental, se a gente aprender a não sorrir, a não olhar as coisas desarrumadas e entender que a gente passou por ali, é muito bom. Do que adianta estar sempre tudo muito bonitinho, arrumadinho, no lugar, se a gente não souber que nós não temos todas as respostas, que a gente precisa do outro pra crescer? 

Filó — Ouço você e olho para trás. Quando penso no que mais mudou no meu tempo vivido, fico em dúvida. Mas aí me vem a certeza do que não mudou. Vou te dizer uma coisa que não mudou desde a minha primeira chegada neste mundo: o afeto familiar, a questão da família. Pode acontecer o que acontecer, a família flutua na vida humana. Acho que a família vai nos moldando, a família nos molda. Isso que eu trago de diferencial nessa trajetória toda.

Helena — Eu assino embaixo. Porque meu marido, meu filho, meus netos, meus primos, meu pai, minha mãe e meus avós continuam fazendo parte da minha vida hoje, no sentido de que eu não posso estar aqui se não fosse meu pai e minha mãe. As coisas que eu faço hoje, se eu não me reportar ao meu avô, à minha preocupação com a educação… Pensando que hoje nós temos cotas, temos uma universidade um pouquinho mais aberta, mas ainda muito fechada, muito retrógrada, tem muito que caminhar, muito o que fazer. Mas respeitar o outro, independente de ser longevo que nem eu ou não, saber que eu aprendo com ele, que eu tenho necessidade dessa relação com outra pessoa, porque nenhum ser humano é uma ilha, a gente precisa realmente ter contato com outras pessoas, diversidade é riqueza. E eu fico entendendo como as pessoas ficam tão nervosas de verem outro diferente. Por que tanto preconceito com homem trans, mulher trans, com LGBTQIA+, por que isso? Cada um tem que ser feliz ao seu modo, e a gente deve respeitar o outro, que é diferente da gente, porque cada um de nós é completamente diferente. E a família nos ensina isso, como gostar do outro apesar das diferenças, apesar dos pesares. Só a família nos ensina isso.

Filó — Verdade. E há a família na qual nascemos e a família que construímos e formamos, com amigos e amores.

Helena — Concordo plenamente com você. Inclusive no sentido da nossa tradição, que é a família extensiva. Você é minha família, você é um irmão, você é um elemento que faz parte da minha vida, da minha história. É um prazer muito grande encontrar você. Pode não ser da família biológica, mas é da minha família afetiva, como diz Martinho. Nós temos um éthos comum, nós temos um axé comum, que é um sentido dessa harmonia entre as pessoas que impede a guerra, que impede a disputa, que faz com que a gente possa entender que uns são muito bons numas coisas, outros são muito bons em outras, mas todos são absolutamente necessários.

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Era 13 de janeiro de 1854 em Santo Amaro. Nascia Hilária Batista de Almeida. Desde muito jovem, Hilária já se destacava por seus feitos. Com apenas 16 anos teve  papel fundamental na criação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, no Recôncavo baiano. As irmandades eram organizações que agregavam indivíduos de diversas origens sociais, estabelecendo laços de solidariedade que se organizavam com o propósito de promover a devoção a um santo padroeiro e também para fins beneficentes para os membros que se comprometeram a participar das atividades da irmandade. Os benefícios oferecidos – como assistência em caso de doença, invalidez ou morte – variavam de acordo com os recursos disponíveis na irmandade, sendo proporcionais às posses financeiras de seus membros. Num período de total ausência de direitos e políticas voltadas para as populações negras, as irmandades foram essenciais na garantia da dignidade destes indivíduos. Essa irmandade, que é fundamental nas historicidades negras até os dias de hoje, faz parte do seu legado. Como filha de Oxum, foi iniciada nas tradições religiosas da nação Ketu na casa de Bambochê.


Aos  22 anos, mudou-se  para o Rio de Janeiro, onde construiu uma nova família ao casar-se com João Baptista da Silva, um funcionário público. Segundo relatos históricos, tiveram quatorze filhos. Ela continuou a seguir as práticas e os ensinamentos religiosos na casa de João Alabá,  onde foi Mãe Pequena. Hilária passa a ser conhecida por outro nome. E, assim, firma-se o legado cultural e religioso de Tia Ciata.


Ciata finca raízes na região que hoje conhecemos como centro do Rio de Janeiro. Morando primeiramente na Pedra do Sal, passando pelo Beco João Inácio, posteriormente residindo no número 304 da Rua da Alfândega, com passagens pelas ruas General Pedra e Rua dos Cajueiros. Entre 1899 e 1924, residiu na Rua Visconde de Itaúna. O centro da cidade do Rio de Janeiro tem muito de Ciata. Durante esse tempo, ela desempenhou um papel crucial na solidificação do samba carioca e tornou-se uma figura de destaque nas comunidades negras da Pequena África e do Rio de Janeiro como um todo.

Ciata desempenhou um papel crucial como uma das tias baianas pioneiras na introdução da tradição das baianas quituteiras no Rio de Janeiro. Essas mulheres, as tias baianas, foram responsáveis ​​por estabelecer esta tradição e por uma estética própria e africanizada, com suas roupas coloridas, colares, contas e pulseiras enquanto mantinham uma base sólida religiosa e política que permeava suas atividades. Foi nos quintais de baianas como Tia Ciata que nasceu o samba, e nesses mesmos espaços eclodiram movimentações culturais e simbólicas que forjaram identidades negras na diáspora brasileira. Considerado o primeiro samba, “Pelo telefone” foi composto numa roda de samba no  quintal-terreiro de candomblé de Tia Ciata.

O século XX teve seu início marcado por uma grave crise habitacional. A população aumentou, e a quantidade de habitações não. Nessa equação, os mais fragilizados faziam parte da população de baixa renda. Isso resultou no aumento constante da superlotação e na interferência das casas alugadas. A ausência de habitações populares a preços acessíveis forçou uma grande parcela de trabalhadores com baixo poder aquisitivo a viver em condições insalubres e precárias, amontoados em casas e cortiços no antigo centro da cidade. Essas eram habitações coletivas que tinham deixado uma marca profunda na paisagem urbana da cidade ao longo do século XIX, sendo alvos da chamada “ação modernizadora” da República. A localização central desses cortiços despertou grande interesse entre os setores envolvidos na especulação imobiliária, que viram ali uma oportunidade de negócios lucrativos. Além disso, as teorias higienistas viam nos cortiços a grande causa para epidemias de doenças respiratórias, contagiosas e toda sorte de má saúde que assolava a cidade. Era um caso evidente de racismo e preconceito de classe mascarado de política pública de saúde e urbanização.

Segundo essa perspectiva, dos cortiços emanavam não apenas doenças e epidemias, mas também indivíduos desocupados, dependentes químicos, praticantes de jogos de azar, delinquentes, pessoas embriagadas e “marginais”. Consequentemente, esses locais eram vistos como territórios perigosos, habitados por indivíduos com potencial para representar ameaças. Assim, era necessário traçar estratégias para conter essa população e os efeitos por ela causados na cidade. Começa o processo de erradicação das habitações populares por meio de sua remoção física e deslocamento de seus moradores da área central da cidade. O primeiro alvo da ação de demolição da modernização republicana foi o famoso cortiço conhecido como “Cabeça de Porco”. Situado na Rua Barão de São Félix, era o maior cortiço da cidade. Os cortiços e seus moradores deveriam abrir espaço para a construção de amplas avenidas destinadas ao trânsito comercial e para a edificação de novos edifícios de escritórios, armazéns, cafés, teatros e cinemas. Porém, não houve preocupação com os novos locais de moradia desta população e nem foram propostas políticas de longo prazo para resolver as questões de habitação no Rio de Janeiro.

Assim, famílias inteiras que precisavam manter-se próximas da região central para trabalhar, começaram a subir os morros. Como os moradores tinham as mesmas origens dos que habitavam os antigos cortiços – é importante notar a carga de preconceito embutida em toda essa “História” – os estigmas subiram o morro também. Então, para as elites, era imperativo exigir a luta que havia começado contra os antigos cortiços, uma vez que o “adversário” – ou seja, as “classes perigosas” – permanecia o mesmo, apenas se manifestando em maneira e localidade diferentes. Começa assim uma série de movimentos, às vezes incisivos e diretos e por vezes ambíguos, para “resolver o problema das favelas”. Um que merece destaque foi promovido pelo prefeito à época: Pedro Ernesto. Ele foi um dos pioneiros em adotar uma política de aproximação com as favelas e seus moradores, registrando as dificuldades enfrentadas e, ao mesmo tempo, buscando capitalizar politicamente a partir dessas mesmas adversidades. Um exemplo disso: Pedro Ernesto tinha pelo menos 100 afilhados em várias favelas da cidade e se colocava como uma espécie de intermediário entre os interesses dos moradores de favelas e o governo. Esse mesmo Pedro Ernesto foi figura emblemática e importante para pensarmos a história das baianas no Brasil.

A partir de 1929, o poder público começa a organizar o carnaval popular, que acontecia em periferias da cidade e também era visto como manifestação cultural das ditas “classes perigosas”. Cortiço, favela, carnaval e baiana têm muito em comum. Nesse processo são definidas as rotas dos desfiles, o apoio financeiro às associações, bem como a criação de estatutos e regulamentos para a distribuição desses fundos, e é nesse contexto que se firmam no âmbito carnavalesco figuras como a baiana e o malandro. Em 1933, o prefeito Pedro Ernesto criou a ala das baianas nas escolas de samba, através de decreto de lei. Assim, ela passa a ser oficialmente incorporada aos desfiles das escolas de samba. Desde então, o grupo de baianas passa a ser elemento significativo que dialoga entre a tradição e as inovações dos carnavais das escolas de samba. Essa ala carrega não somente uma tradição carnavalesca. Ela simboliza também um pedaço da história do Brasil e apresenta um repertório estético específico.

O uso do termo “baiana” para se referir às mulheres negras trabalhadoras da Bahia começou a surgir no final do século XIX e foi associado mais ao estilo de vestimenta de origem africana e às tradições culturais que essas mulheres mantinham, como suas crenças em religiões afro-brasileiras e habilidades culinárias, do que à sua procedência geográfica. As baianas extrapolaram as fronteiras de cidades, estados e países. A representação da baiana é formada por elementos visuais que se relacionam com a variabilidade  de contextos sociais e históricos.

O traje tradicional da baiana, tal como conhecemos atualmente, é composto por diversos acessórios e elementos visuais diversos, incluindo uma saia longa e redonda, que por vezes esconde uma anágua ou armação. Saia essa enriquecida com rendas, turbante ou torço na cabeça, pano da costa, batas rendadas e balangandãs. Essa vestimenta é uma evocação às roupas usadas pelas “tias baianas”, mulheres que migraram da Bahia para o Rio de Janeiro com suas famílias, muitas das quais eram vendedoras de acarajé e iguarias, e que estabeleceram comunidades com sua própria expressão cultural nesse novo ambiente e fizeram brotar, em seus quintais, ervas, incidência política e muito samba.

Assim como o primeiro samba, “Pelo Telefone”, o Império Serrano nasce na casa de uma mulher negra, liderança local, Dona Eulália do Nascimento. Fundou-se em 23 de março de 1947, durante uma reunião na Rua Balaiada, número 142, no Morro da Serrinha.

A agremiação surge de uma dissidência da escola de samba Prazer da Serrinha. Entre os seus fundadores há nomes essenciais no cenário do samba carioca como Sebastião Molequinho, Elói Antero Dias, Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira, Aniceto Menezes, Antônio dos Santos (Mestre Fuleiro) e Eulália do Nascimento. O nome “Império Serrano” foi sugerido por Sebastião Molequinho e faz alusão ao Morro da Serrinha. As cores da escola, verde e branco, foram escolhidas por Antenor Rodrigues de Oliveira. O símbolo do Império é a Coroa Imperial Brasileira. São Jorge é reverenciado como o santo padroeiro da agremiação.

E é essa miscelânea que nos leva à Avenida Edgard Romero, 114, em Madureira, no Rio de Janeiro. Lá, Geni Lopes, presidente da ala das baianas, recebe-nos com sorriso e braços abertos. Chegar ao Reizinho de Madureira – forma carinhosa de chamar o Império Serrano – e ser recebida pelas baianas é como mergulhar num mar verde e branco. Cheio de histórias, movimentos, cheiros e sorrisos. As baianas são o coração de qualquer Escola de Samba, e no Império Serrano não é diferente. São senhoras, idosas, mães, avós, tias que carregam a ancestralidade e o axé do samba. A ala teve muitas personagens emblemáticas como Jovelina Pérola Negra, Tia Maria do Jongo e Dona Ivone Lara. Segundo Marta D’Oyá, baiana do Império:

“A baiana é a mãe do samba e o Império sempre foi uma escola democrática, cantando a democracia. Nós tivemos mulheres importantíssimas na ala das baianas. Se estamos aqui é porque essas mulheres botaram o pé. Elas foram pastoras da escola, foram baianas. O samba só era aprovado quando passava pelas pastoras. Pastoras e baianas sempre andaram lado a lado. A religiosidade que existe aqui é muito forte. Isso tem que ser falado.

”Assim, agradecemos as Yabás Dalva Reis (59 anos), Sônia Conceição (68 anos), Lucia Iara (65 anos), Márcia Helena (60 anos), Marta D’Oyá (56 anos),  Lucimar da Silva (61 anos), Maria de Lourdes (67 anos), Maria Elisabeth (75 anos), Maria Lúcia (74 anos), Sandra Maria (69 anos), Regina Antunes (79 anos), Vera Lúcia dos Reis (68 anos), Vera Lúcia Cunha (61 anos), Geni Lopes (57 anos) e Vera Lúcia do Nascimento (76 anos). São essas algumas das guardiãs do samba imperiano e, mais do que isso, guardiãs da história, do tempo e da memória daquelas que plantaram a semente da cultura brasileira. 

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Roxinha é Maria José Lisboa da Cruz, artista nascida no povoado de Lagoa de Pedra, em Pão de Açúcar, no Alagoas. De origem humilde, ocupou-se durante décadas com trabalhos braçais para ajudar no sustento da família. Mãe de sete filhos, alternou profissões, ora nas roças da região, ora como gari, tendo como única certeza a companhia do sol sertanejo.

Em uma cena que se repete à exaustão no Brasil, os filhos cresceram e partiram para o Sudeste em busca de melhores condições de vida. A síndrome do ninho vazio afeta todas as classes sociais, e o melancólico tempo livre, resultante da partida das crianças crescidas, precisou ser preenchido de alguma forma. A atividade escolhida foi a pintura. Roxinha começou a desenhar aos 59 anos como uma possibilidade de passar o tempo. Sem qualquer educação artística formal, seus desenhos eram realizados com os materiais e formatos disponíveis. Quando a atividade extrapolou o espaço das folhas de papel, os desenhos passaram a ocupar as paredes e a fachada de sua casa, divulgando de maneira insólita sua visão sobre o amor, o afeto e a sua experiência como mulher. Aos 66 anos, Roxinha embarcou pela primeira vez em um avião para conhecer o Rio de Janeiro e apresentar Roxinha, uma vida de novela, exposição com curadoria de André Dantas, Angela Mascelani e Lucas Van de Beuque, no Museu do Pontal.

Ao preparar Minha Vida, obra original que ilustra a capa desta edição, Roxinha foi provocada a pensar no seu tempo vivido. “Fui representar minha mãe e meu pai, para a capa, e parece mentira. Fui terminando e os olhos cheios d’água. Outro desses eu não faço, não, sabe? Porque eu não tenho essa coisa de chorar. Mas nesse dia eu chorei.”

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Os mais antigos sinos datam do ano 3000 a.C. e foram encontrados na China. Por ser um objeto considerado pagão, ele foi incorporado ao Cristianismo somente no século II d.C., com a função de anunciar o evangelho e chamar as pessoas para as assembleias. Apesar da funcionalidade, sua popularização aconteceria somente no século VI, com os monges missionários difundindo o seu uso na Europa Central. 

A história da tradição da família Angeli começa na Itália, quando Giuseppe Angeli inicia a fabricação de sinos, em 1770 ─ época em que a produção ainda tinha o estatuto de arte. Foi seu filho, Ângelo Angeli, que, como muitos da sua geração, trocou o Velho pelo Novo Mundo, desembarcando no Brasil para “fazer a América” junto da esposa, Elvira Butassi, e dos seus filhos, no começo do século XX. Na São Paulo impulsionada pela elite cafeeira, Ângelo passou a lecionar no consagrado Liceu de Artes e Ofícios. 

Após a morte de seu fundador, a Sinos Angeli conservou a técnica familiar na fabricação artesanal dos sinos, passando o conhecimento de geração em geração, sem deixar que a modernização ofuscasse a tradição. 

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07:15 
Acordo.
Olho-me no espelho. 
Tenho 44 anos.
Sorrio. Um leve franzir de testa. 
Apesar do breve contentamento, sei bem que a toxina botulínica não irá cessar a passagem do tempo em minha face. Os tratamentos estéticos podem ser eficientes para prevenir temporariamente o surgimento das rugas de expressão, mas o tempo urge em minhas células, que não param de se movimentar em seu ciclo de vida — nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.

O processo de envelhecer nos lembra que somos finitos e nos faz confrontar, cedo ou tarde, a nossa transitoriedade. 

Em Sobre a transitoriedade (1915), Freud descreve o diálogo com um jovem e famoso poeta enquanto os dois caminhavam em um ensolarado dia de verão. O poeta admirava a beleza da paisagem, mas, porque era efêmera e logo desapareceria, com a chegada do inverno, não conseguia extrair dela qualquer alegria. O psicanalista argumentava que a beleza, justamente por ser transitória, deveria ser apreciada.

Esse pensamento me fez lembrar do meu tempo vivido — e o espelho que me encara, parece me perguntar:
— Como se sente?
— Às vezes eu sinto que o tempo da vida flui mais rapidamente do que as batidas do meu coração. 

Preciso me arrumar. O tempo foge. É hora de ir para ir para o trabalho. 

Ao caminhar para o consultório, me ocorre uma cena do filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino. Aparece uma sorridente mulher, de jaleco. Ela segura um grande espelho. Em uma sala suntuosa, pessoas de diferentes idades esperam ansiosas pelo médico e o restante de sua equipe — ovacionados avidamente quando chegam. Inteligente e ácida, a cena nos presenteia com a fala do médico a uma de suas pacientes, uma senhora idosa. Em sua onipotência, confundindo-se com alguma grandiosa divindade, o médico, durante a aplicação de botox nos lábios da senhora, questiona:
 — Quer voltar trinta anos, quando chovia no fim de agosto? Eu levo você lá.

O cenário imaginado pelo cineasta italiano, embora fantasioso, não me parece muito distante do que observo em meu dia a dia, nas redes sociais. Deparar-se com as perdas que o envelhecimento traz é difícil, por isso, muitas vezes consciente e outras tantas inconscientemente, mascaramos, burlamos ou mesmo negamos essa condição.

Acredito que precisamos cotidianamente cultivar o sentimento de aceitação do envelhecer, que é um processo contínuo inerente à vida. Será que nos tornaríamos mais cuidadosos com a nossa saúde e com as nossas relações afetivas? Ficaríamos menos assombrados com as mudanças que nos são impostas pelo tempo? Reconheceríamos com mais facilidade o potencial criativo ainda existente nessa fase?
Viveríamos melhor?

***

Abro a porta do meu consultório. O sol avança pela janela e, ao fundo, vejo o divã. São nove horas da manhã.

***

14:40 
Laura estaciona o carro próximo ao parque Ibirapuera e, apressada, caminha em direção ao consultório do seu analista. Não sabe bem o motivo, mas observa que está quase correndo. Do que estaria correndo? Finalmente, chega e aguarda pela sessão, conferindo o relógio a cada minuto. 

— Laura!

Cumprimentam-se à distância. Ela deita no divã, encanta-se ao notar a bela orquídea que traz cor à sala austera. 

— Hoje faço 45 anos.
Silêncio.

Ela fecha os olhos e se vê transportada para o momento em que se deu conta de que se tornara uma mulher adulta. Ocasião de profunda alegria. 

Agora, ao completar mais um ano de vida, esse sentimento vem acompanhado de algo novo: pensa nos cabelos brancos que começaram a aparecer quando ela tinha 42 anos, pensa na dor do joelho que sentiu na última viagem que fez com seu marido, pensa amorosamente nos filhos crescidos e em seus pais. 

Um poema que fez aos 20 anos lhe vem à mente. Resolve declamá-lo.

Não se mova!
O céu está estrelado, lindo!
Mamãe caminha na quadra…Não se mova!
Papai, deitado na rede, ao som do silêncio da noite escura, dorme.
Sonha?
Não se mova?
Sinto medo do amanhã.

Depois, com a voz embargada, complementa:

— Sabe, Zé Francisco, tenho a impressão de que sempre vivi em descompasso com o tempo. É assustador perceber a finitude em tudo o que amo e em mim mesma, assim como é estranho perceber que meu corpo, por exemplo, que me é tão familiar, está se modificando. Movimento invisível que me escapa e desorienta. O que me espera?

 — E não estamos sempre em misteriosa travessia? — ele responde, de forma terna.
Laura se deixa transbordar.
O analista se comove ao pensar que ele, um homem de 75 anos de idade, e ela, uma mulher trinta anos mais jovem, compartilhavam, naquele instante, a percepção de sua frágil condição humana. 
Cada qual em sua impermanência.Uma emoção rara ocupou o clima da sessão, que estava próxima do fim. 

*** 

16:20 

Combinei de encontrar um amigo na frente do Auditório Ibirapuera. Preciso achar uma vaga de estacionamento. Vejo uma mulher entrar em seu carro. Eu não a conheço — é Laura. Ela parte e estaciono o meu veículo onde antes estava o seu. Aproveito que tenho alguns minutos de sobra e sigo pelo parque, deixando o sol tocar a minha pele. 

Avisto o Renato.

Durante o tempo que passamos juntos ele desabafa questões pessoais relacionadas à sua experiência de paternidade. A força com que entoa suas palavras sinceras e ásperas me faz perceber o quanto sofre. Diz sentir que a pessoa que um dia foi havia morrido com o nascimento do filho.

O menino, que tem cinco anos de idade, é uma criança amorosa e cheia de energia. O pai o ama profundamente e se dedica a ele com todo afinco, mas também se ressente, segundo ele. A chegada do filho levou sua liberdade e independência. Em paralelo, vive com pesar as mudanças físicas e emocionais de um homem de quase cinquenta anos. 

A vitalidade exuberante do menino coexistia com a vivência dolorida da perda da sua. Esse pai — em luto e nostálgico de um tempo passado — frustrava-se com o tempo presente, distinto daquele que desejava. Vivia uma profunda sensação de estranhamento em relação a si mesmo e a sua vida atual. 

Despeço-me do meu amigo e passo a refletir sobre o teor de nossa conversa.

Estaria se dando conta da passagem do seu tempo ao se defrontar com o alvorecer de seu filho? Poderá renascer? 

Torço para que ele elabore seu luto — talvez possa lembrar-se de viver a beleza do seu momento presente.

***

20:30

À noite, recebo a ligação de uma grande amiga, Manoela, que admiro tanto por sua capacidade de lidar com as agruras da vida quanto por seu humor irreverente. Pergunta se eu seria uma das testemunhas do seu testamento. 
Inusitado lembrete?
Despojada e livre de julgamentos, ela me falou: 

— Na manhã do meu aniversário, acordei mexida ao perceber que já era mais velha do que minha mãe jamais foi. Espero viver por muitos anos, mas, se o câncer voltar, quero deixar tudo organizado.

 Depois, me pergunta: 
—  Você acha esse convite fúnebre? A gente precisa quebrar o tabu que é falar sobre a morte… 
Minha amiga sabe bem que não é eterna. Ela fez 48 anos, e aos 35 teve câncer de mama. Recuperada há anos, segue saudável. Perdeu sua mãe, Ana, para essa doença. Recordo-me bem desse dia: eu tinha 12 anos e estava estudando matemática quando o telefone tocou. Eu gostava muito da Ana.
 
***

23:00 

Hoje, 18 de agosto, minha querida avó, Iracema, faria aniversário. Dizem que herdei as suas feições e seu corpo longilíneo. Vovó Cema morreu dois anos depois do meu nascimento — pouco a conheci. Como eu gostaria de, agora adulta, poder conviver com ela!

Sinto esse tipo estranho de saudade. 
É bom saber que sou parte dela e que a sua existência, de certa maneira, continua através da minha. 
Alcanço um dos livros à cabeceira da cama e me emociono com um poema de Walt Whitman.

Pleno de vida agora, consistente, visível, 
Eu, quarenta anos vividos, no oitenta e três dos Estados, 
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.
Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e dará realidade a meus poemas, voltando-te para mim,
Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu amigo:
Faz de conta que estou contigo (e não duvides muito, porque eu estou aí nesse momento).

***

Encontros transitórios que nos marcam — no infinito movimento do tempo.

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Roxinha Lisboa (Maria José Lisboa da Cruz) é uma preciosidade humana, rara e singular. Encontrei-a, quase por acaso, no sertão de Alagoas, no povoado de Lagoa de Pedra, Município de Pão de Açúcar, na margem esquerda do rio São Francisco. Sua casa tem fachada inusitada, com pinturas na parede que chamam a atenção de quem passa atento ao diferente.

Nasceu e vive até hoje no mesmo povoado, cercada pela vegetação sertaneja, acostumada a um sol de permanente verão. É casada com Domingos, também sertanejo, a quem chama de Binga. O casal tem sete filhos (Edilma, Adilmo, Adeilso, Débora, Eudes e Ilma) e uma história de vida dura, voltada para o trabalho braçal nas roças de macaxeira, feijão, milho e o que mais fosse preciso para garantir a sobrevivência da família. Roxinha trabalhou em uma pedreira local por vários anos, “quebrando brita”, e foi gari por duas décadas pelas ruas ensolaradas do povoado.

Bati à sua porta em 2021, e ela me chegou com o sorriso largo de quem acolhe à primeira vista. A sintonia foi imediata e, desde então, estreitamos laços de amizade e admiração. Perguntei o porquê do apelido. Ela me disse que foi um mimo de família que pegou; todos no povoado só a conhecem por Roxinha. Até ela mesma não se reconhece mais por seu nome próprio: “Sabe, André, quando alguém me chama de Maria José, eu olho de lado achando que estão falando com outra pessoa. Eu sou é Roxinha Lisboa e pronto”.

Domingos, falante e brincalhão, está sempre ao seu lado, participando da conversa. A parceria e o estímulo mútuo entre marido e mulher foi o pontapé inicial na carreira da artista.

Sobre a ida dos filhos para o sudeste do país, em 2012, disse o marido: “A casa pareceu vazia. Faltava a algazarra, o entra e sai dos meninos, a risada de Adilmo… Baixou uma tristeza em Roxinha, que vivia chorando pelos cantos”. Domingos, sabendo o quanto ela gostava de rabiscar, até com pedaços de carvão, trouxe folhas de papel, lápis e borrachas e começou a promover uma brincadeira entre eles: desenharem todos os dias para preencher o tempo e matar a saudade.

Em 2021, quando nos conhecemos, o marido e o filho Adeilson, que ficou com eles, saiam à cata em lixões, no acaso, de pedaços de chapas de fibra de madeira, madeira de demolição, telhas, placas de alumínio e tudo mais que pudesse servir de suporte para Roxinha pintar. Fiquei encantado com a singularidade das peças.

A artista estava pronta. Talento, imaginação fértil, estilo definido, paleta de cores de gosto local, muito prazer em pintar e atenção a tudo ao seu redor.

Em maio deste ano, aos 66 anos, ela fez sua primeira exposição individual, no Museu do Pontal, no Rio de Janeiro. Sua inspiração nos dramas das novelas que assiste na TV foi o tema da mostra, mas sua temática vai bem além das tramas novelescas. Ela retrata momentos que lhe chamam a atenção e coloca frases nos quadros, dando asas à imaginação, em um exercício lúdico de sutil sagacidade.
No quadro Minha vida, que ilustra a capa desta edição, Roxinha foi a pontos demarcatórios de sua história pessoal. As lembranças correndo soltas por entre ilustrações e palavras, trazendo à tona desejos realizados e sonhos abafados que mexeram com seu emocional, a ponto de me dizer que não quer mais abrir essas “caixinhas do passado”. Prefere o viço de hoje, despreocupada nas manhãs sertanejas, flanando pelas histórias dos outros, recortando frases de pessoas que passam pela sua casa para conhecê-la no entorno familiar.

Tudo é muito puro, livre e natural na alma e na arte de Roxinha. E é esse descompromisso com regras, estética e cor que faz de sua pintura uma fonte de originalidade e delicadeza.

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(…)
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os dedos na sandália sempre gastas de unhas grossas e esmalte por tirar.
Por onde passaram esses pés?
Quanta sola já foi gasta,
quanto a pé já não andou,
quanto aperto não passaram esses pés
para que o luxo dos sapatos novos
fosse dado somente aos tantos filhos.
E quanto aos seus filhos,
qual deles ainda lhe faz a gentileza
de cortar suas unhas?
Quanto pescoço e pé de galinha comeu
fingindo que gosta
para deixar as outras partes do ensopado
a quem mais ama?
Ninguém gosta de pescoço de galinha, senhora.
Enquanto caminha no sol
por ser calor sua pele sua
e a toalha de mão arrasta naquela testa
O que pensa aquela testa?
Quanto de pensamento não esquentou aquela testa além do sol?
Esse suor que toca salgado a raiz do cabelo na testa.
Quem ainda te alisa o cabelo?
Quem ainda te obriga a fazer isso?
Quanta ordem esse cabelo já recebeu?
Quanto tempo de sua vida ali em frente ao espelho infeliz com ele
Onde deita essa cabeça, senhora?
E quando deita, qual teto enxerga até adormecer?
O que sonhou essa cabeça?
Quanta inteligência nessa cabeça
A do cozinhar, a do costurar, a do resolver tudo por conta própria
foi substituída pela vergonha do não saber como ensinam nas escolas
Do não saber falar.
Quanta timidez senhora, por não saber falar.
Quanta vergonha sob essa testa que a toalha de mão arrasta foi obrigada a passar.
Eu vejo uma dor que é suada e seca,
Como se mesmo chorando, essa senhora preta nunca tivesse sentido pena de si do jeito que a gente chora.
Quanta pena de mim eu já senti
por perder um ônibus na minha pressa,
Quanta pena de si ela deixou de ter
por não ter podido mesmo se dar esse luxo.
Quanto choro silencioso e seco já chorou nesses seus setenta,
Sessenta, sessenta e oito anos.
Quanta simplicidade contemplou como se ouro fosse
Quanta alegria te deu a laje pronta,
a festa que a filha foi de sandália nova,
porque a sua já tão gasta ainda aguenta esse passo firme.
Em direção a quem caminham esses pés?
Qual o seu desejo pra hoje, senhora?
É que seus filhos sejam felizes?
É que tenha lugar na condução?
Qual seu lugar, senhora, explica.
Porque me entristece a injustiça dos que não te enxergam aqui passando majestosa.
Onde puseram seu trono, senhora?
E de repente, já terminei aquela rua e aquela senhora já caminhou
pra não sei onde
E aquela energia pendente como rastro no caminho
me faz indagar coisas como:
Quem cortará minhas unhas quando eu for senhora?
Quanto ainda caminharei até encontrar meu trono?

— Luciene Nascimento, em Tudo nela é de se amar.

Na primeira vez que li esse poema, ele me rasgou. Me partiu ao meio. Na segunda também. E na terceira. E na quarta, na quinta, em todas. Porque ele tem cheiro, tem gosto e tem rosto. O da minha avó. O da minha mãe. O de tantas nós.

Eu sou neta de duas mulheres negras. Maria Teixeira de Carvalho e Maria Aparecida Leite Nunes. A primeira nasceu em Campos dos Goytacazes, município do interior do estado do Rio de Janeiro. A segunda, nasceu na Comunidade Quilombola Sítio dos Crioulos, situado na zona rural da cidade de Jerônimo Monteiro, região sul do Espírito Santo. Ambas migraram para a cidade do Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. As similaridades entre elas não param por aí. As duas começaram a trabalhar muito cedo em “casas de família”, tomando conta de outras crianças enquanto eram crianças também, limpando a sujeira que os mais abastados não queriam limpar. Essas duas mulheres negras se encontraram no Morro do Juramento, zona norte do Rio de Janeiro, onde meus pais se conheceram e constituíram a família que me origina.

No poema Vozes-mulheres, Conceição Evaristo escreve:

A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A linha narrativa desenhada pela autora retrata o caminho percorrido por muitas famílias negras. Em meio a violações, processos de escravidão e racismo contemporâneo, tentamos construir possibilidades outras de existir. Quando leio Conceição e Luciene, me recordo de uma conversa que tive com Dona Miguelina, minha parente do coração. Ela nasceu em Maceió, capital do estado de Alagoas. Veio para o Rio, como minhas duas avós. Ainda muito jovem, foi empregada doméstica. Alguns dos trabalhos desempenhados não eram remunerados financeiramente. A casa, a alimentação e por vezes um sapato ou vestidinho novos eram “a paga” pelos serviços prestados. Essa conversa mudou algo dentro de mim. Dona Miguelina não tinha dimensão da exploração que tinha vivido. Também não tinha o ódio que me surgiu ali, naquele momento, ao ouvir que a família era “até carinhosa”. Eu não conheci essa família, mas, de longe, eu a odiei, devo confessar. Não me senti digna de falar para uma senhora de mais de 70 anos que algo que ela guarda como memória afetiva era exploração. Não houve militância, leitura ou acúmulo acadêmico que desse conta do que aconteceu ali naquele quarto-sala na favela Nova Holanda. Mas desde então me pus a pensar nisso.

De tempos em tempos, emergem nos veículos de comunicação e redes sociais casos de situações de trabalho análogo à escravidão, nas quais geralmente senhoras negras foram as vítimas. Isso falando dos casos que ganham visibilidade. Sabemos que há milhares de histórias como essas soterradas. Um desses casos veio à tona em abril de 2022 e aconteceu em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. Madalena Santiago da Silva tinha oito anos quando começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família de classe média alta baiana. Durante todo esse tempo, Madalena não recebeu salário. Em muitos momentos, sofreu violências e maus tratos, sem contar o racismo. Além disso, a filha dos patrões fez empréstimos no nome dela e ficou com R$ 20 mil da aposentadoria da empregada doméstica. Esse caso evidencia a falta de fiscalização eficaz por parte das autoridades, bem como a exploração impiedosa e o desrespeito aos direitos humanos mais básicos. Após ser resgatada, Madalena foi entrevistada por Adriana Oliveira, repórter da TV Bahia. Durante a conversa, a jornalista pegou na mão de Madalena, que disse: “Fico com receio de pegar na sua mão branca”. Adriana insistiu no toque, afirmando que não havia diferença entre as duas.

Quando tinha 61 anos, Leda Lúcia dos Santos foi resgatada de uma casa onde trabalhava desde os nove anos, no bairro Patamares, também em Salvador, sem receber pagamento. A idosa, que já havia tentado fugir diversas vezes — sendo ameaçada em todas — não sabia que tinha o direito de ganhar dinheiro pelos serviços prestados. Após o resgate, Leda passou a receber um salário mínimo e vive em um abrigo municipal.

Na cidade de Fortaleza, em maio de 2023, uma senhora de 78 anos, de nome não divulgada, foi encontrada em situação de trabalho análogo à escravidão. Ela prestava serviços há mais de 40 anos para a mesma família. A “remuneração” era casa e comida. Ela não recebia salário. Além disso, a senhora não tinha folgas ou férias. O trabalho era de domingo a domingo, por 40 anos a fio.

De forma geral, a “terceira idade” ou velhice costuma ser o momento em que nós, mais novos, vislumbramos o tão sonhado descanso após anos de trabalho. É quando esperamos ter o reconhecimento por nossas contribuições para a sociedade e sonhamos com o gozo pleno de direitos, um pouco menos amarrados pelas cordas da produção capitalista. Mas, falando de pessoas negras, muitas vezes o tão sonhado descanso não chega em vida.

Os três casos citados expõem uma ferida aberta nas sociedades ocidentais: a falta de cuidado com os mais velhos, especialmente os negros, indígenas e empobrecidos. As condições de trabalho enfrentadas por essas senhoras, bem como as encontradas pelas minhas avós e por Dona Miguelina são herança de uma mentalidade colonial que vê em mulheres negras de mais idade o lugar da abdicação, do cuidado e, por que não, da exploração. Os quartos de empregada são senzalas pintadas de modernidade.

Assim, é importante nos questionarmos: quem tem direito a envelhecer? Conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizada em 2019, em Santa Catarina, um dos estados brasileiros com uma das maiores rendas médias per capita, a expectativa de vida média era de 79,9 anos. Já no Maranhão, o estado com a menor renda média do país, a expectativa de vida média naquele ano foi de 71,4 anos. É relevante ainda a informação levantada no Relatório Anual das Desigualdades Raciais do Núcleo de Estudos de População, elaborado pela Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp), de que os brancos vivem seis anos a mais que os negros, em média.

A maior parte da população brasileira é composta por pessoas negras (pretas e pardas). Porém, esses grupos enfrentam maiores desafios em relação ao acesso à educação, à saúde e ao saneamento básico e estão mais expostos a condições de trabalho degradantes, o que resulta em limitações no acesso a direitos básicos, como salário-mínimo e aposentadoria. Além disso, pessoas negras sofrem com níveis mais elevados de violência e são as principais vítimas de processos de genocídio, especialmente os homens negros.

Quando li o poema de Luciene Nascimento, além de sentir o cheiro da minha avó, me lembrei de uma pergunta que me perturbava a cabeça quando era criança e assistia ao Sítio do Picapau Amarelo na TV: porque a marca da farinha de trigo se chama Dona Benta, se quem faz as receitas é a Tia Anastácia? Eu mesma espantava a pergunta de minha mente, pois achava que era bobagem. Não é.

É histórico o processo de roubo de histórias de nossas mais velhas, negras. É histórico o roubo de suas vidas. Tia Nastácia é frequentemente retratada como cozinheira da família, caracterizada por sua pele escura e por seu corpo gordo, sendo muitas vezes rotulada como a “negra de estimação”. Sua posição, marcada pela subordinação e pelo serviço à família da fazenda, ilustra o estereótipo da mulher negra que dedica sua vida a uma família branca, conhecida como “mãe preta”. Esse estereótipo é recorrente em produções cinematográficas, novelas e séries. Ele contribui para um imaginário que faz parecer natural explorar a mão de obra de mulheres negras por anos e não lhes pagar um único centavo.

Há um provérbio africano que diz que, quando um velho morre, é uma biblioteca que queima. Isso porque são os mais velhos e as mais velhas que, por seu tempo acumulado e vivido nesta terra, guardam uma maior quantidade de vivências e saberes. Afinal, percorreram muitos caminhos que podem ajudar quem está chegando agora na estrada da vida. Porém, para que essas bibliotecas possam compartilhar seus conhecimentos e desfrutar da leveza do ser ainda precisamos avançar enquanto sociedade e quebrar o paradigma de vivermos num tempo em que muitos querem envelhecer, mas poucos respeitam aqueles que já chegaram lá.

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A mente envelhece?

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Hoje já existem alguns autores, médicos psiquiatras pesquisadores, que propõem que deixemos de lado o termo “mente”, que pode induzir a equívocos, e passemos a utilizar somente o termo “cérebro”. É razoável se o viés for estritamente médico. Afinal, a medicina se ocupa do organismo, de seu funcionamento e suas alterações, e dedica-se a propostas de como agir para que consigamos restaurar ou melhorar as condições das estruturas que estejam prejudicando o seu funcionamento. As alterações são perceptíveis nos sintomas e nas queixas e são comprovadas e registradas através dos exames laboratoriais e de imagem, que adquirem precisões tecnológicas admiráveis.

A psicanálise, criada por Sigmund Freud, que foi neurologista em Viena no início do século XX, considera que muitos dos problemas e sofrimentos humanos vêm do fato de termos uma mente ou vida mental ou psíquica. A vida do espírito. Isso nos aproxima das constatações e formulações de filósofos, poetas, literatos, artistas e mesmo de religiosos de que a condição humana nos tira da natureza. Nossa vida não é comandada por leis naturais, não estamos submetidos aos instintos que garantem tão perfeitamente a vida dos animais, mas temos uma vida mental. Nossas questões se dão nesse plano, que costumamos chamar de simbólico, que é o da cultura. Da fantasia, da imaginação, mas também dos valores, das proibições, das regras. Da vivência cotidiana de conflitos — conflito e angústia integram o nosso funcionamento.

Nascemos frágeis e desamparados. Precisamos de cuidado e precisamos evoluir, amadurecer. Uns têm sorte, encontram isso em casa, com os pais; outros, mais tarde, podem ter a sorte de encontrar um bom psicanalista.

Cada um de nós tem o desafio e a possibilidade de evoluir, aprender, adquirir sabedoria ou jogo de cintura.  A vida humana não é fácil.  Precisamos de outras pessoas, nos envolvermos com elas, nos relacionarmos. Precisamos ser recebidos com muito amor, nos desvencilhar de pais e cuidadores, acharmos cada um o próprio caminho. E se permitir ousar, arriscar, inovar, inventar, numa busca que é de autonomia e liberdade. Porém, vivendo em grupo, em sociedade, temos que nos tornar também responsáveis. Emancipar pessoas não é corrompê-las! 

Essa trajetória já evidencia o quanto de dificuldades podemos encontrar — e também o quanto de sorte precisamos para toparmos com condições que nos favoreçam e não obstaculizem esse desabrochar e essa busca.

Tomo a citação de Sêneca, do ano 62 d.C.: “somos, no mais das vezes, mais vítimas do nosso terror do que dos perigos reais, e sofremos mais com a ideia que fazemos das coisas do que com as próprias coisas”.

Nossa imaginação, que pode ser muito criativa, fértil, se estivermos com medo, vai preencher nossa mente com conjecturas e hipóteses apavorantes, que vão nos inibir, nos conter, nos reprimir.Um poeta grego que viveu em Alexandria, contemporâneo de Fernando Pessoa, Konstantínos Kavafis, escreveu, no poema Ítaca: 

“Quando, de volta, viajares para Ítaca,
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Ciclopes,
ao colérico Poseidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrarás em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões, nem Ciclopes,
nem o áspero Poseidon encontrarás,
se não tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de ti.

Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez, num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas:
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.

Detém-te nas cidades do Egito — nas muitas cidades —
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo o tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhaste no decurso do caminho,
sem esperares, de Ítaca, riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.

Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.”

Sofremos, portanto, em grande parte, com ideias e suposições. E ficamos com medo. Podemos, porém, mobilizar coragem dentro de nós. Para envelhecer é preciso coragem; sabemos que tudo acabará mal. Sabemos, aparentemente, de maneira distinta aos animais, que vamos morrer.

Tudo é transitório. Há começo, meio e fim. Entretanto, enquanto o fim não ocorre, temos o que está à nossa disposição. Vamos perdendo coisas materiais, físicas, e pessoas queridas, mas sempre haverá algo que nos interessará. Somos desejantes, animais desejantes, como Lacan, um psicanalista importante, afirmou, mas podemos ficar fortemente inibidos nessa capacidade e possibilidade de liberarmos e autorizarmos nosso desejo. 

Fatores de diversas ordens podem nos obstaculizar e nos precipitar numa depressão, num estado de melancholia. Nada mais interessa na vida. Os valores recebidos, a moral, a religião podem nos afastar de nossas buscas por nossos interesses, interditando-os. É necessária e vital, nesse jogo, a transgressão, a liberdade para ousar e experimentar. Idosos não namoram? Não transam?

Penso que nada é mais interessante para pessoas do que outras pessoas. Relacionamentos, relações amorosas, mesmo que não possam mais ser sexuais, nos alimentam, nos fazem sonhar, nos dão vida.

O tempo todo queremos respostas, soluções, alívios. E o mundo contemporâneo, altamente tecnologizado e medicalizado, parece prometê-las.

O que gostaria de trazer para reflexão aqui é a necessidade de se conseguir e manter, mesmo na velhice, o espaço interno, mental, da imaginação, da fantasia, da curiosidade, além da possibilidade de se conviver com o desconhecido, o mistério, o sem explicação. Fazer isso sem anteciparmos as catástrofes, uma vez que há uma dimensão trágica nessa vida, a de ter começo, meio e fim. Abrindo espaço para o desejo e a imaginação, porém, aproveitamos o precioso tempo disponível.

Capacidade amorosa, perceber a existência do outro separado de nós, necessitado de cuidado e atenção, é algo a ser cultivado.

Começamos gostando de nós mesmos, mas vamos nos voltando para os outros, percebendo-os como distintos de nós. Se os perdemos, é doloroso efetuar essa separação. É a tristeza do luto. Parece que voltamos temporariamente essa energia ou libido, como nós psicanalistas chamamos, de novo para nós, mas é possível que ela se disponibilize para novos vínculos. O luto acaba, e então ficamos disponíveis para novos envolvimentos. 

Também se pode desenvolver uma tolerância à frustração. Aprender desde cedo que nada é como gostaríamos que fosse nos habilita a enfrentar a vida como ela é. Nos angustiamos, tememos, mas isso não precisa ser um fator de antecipação de catástrofes e precipitar ações inadequadas.

Nos envolvemos com outras pessoas, mas também com ideias, com sonhos. 

A vida psíquica ou mental se alimenta, por exemplo, com arte, música, literatura. O cinema é fantástico também. São alimentos para a alma. Uma instituição ou espaços para encontros e trocas devem ser pensados, organizados, mantidos e disponibilizados para diferentes grupos humanos.

Penso que mesmo perdas relacionadas ao funcionamento cerebral propriamente dito, como nas demências e doenças cerebrais, avaliadas e tratadas pelos médicos como condições trágicas, podem ser suportadas por alguém que aprendeu a tolerar as perdas num exercício que nos é exigido muito cedo, logo de saída.

Antecipar e se entregar a restrições me parece catastrófico e algo a ser evitado com coragem e esforço. E se pode ter ajuda nessa empreitada. É o que a análise pode fazer por alguém, através de um vínculo que responde a uma necessidade de amor e a torna consciente para ser buscada e vivida, ao invés de se sair correndo desse mundo, se matando ou se drogando, ou ficar revoltado com nosso trágico destino, o da transitoriedade. Temos princípio e fim; temos o tempo. Toda criatividade e atividade, toda ideia de progresso se relaciona com o tempo. Se não houvesse nascimento e morte, princípio e fim, tudo estaria estagnado. Haveria o desinteressante absoluto, no dizer de Thomas Mann em Louvor à transitoriedade.

A vida não está desvalorizada pela passagem do tempo e pela eminência de seu fim. Pelo contrário: ela ganha valor. Mas precisamos atentar para isso. Nós temos consciência dessa transitoriedade, que pode nos animar ao invés de apavorar ou entristecer. É o que nos lembra Drummond em Mãos dadas, publicado em Sentimento do mundo:

“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”


Este texto foi originalmente apresentado em formato de fala com o título A (a)ventura da envelhescência: a mente envelhece?

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Ophelia, de Sir John Everett Millais, uma das obras mais emblemáticas dos pintores pré-Rafaelitas

Dizem que conviver com as avós é uma sofisticação evolutiva que poucos animais desenvolveram — humanos, alguns macacos e baleias, por exemplo. Suspeito que que isso se dá pelo enriquecimento do nosso repertório emocional e afetivo provocado pela convivência com elas.

E já que é para falar sobre avós, é preciso falar delas próprias, porque avó tem que ser específica e real. O afeto vem do particular, e não do geral. No meu caso, a convivência com minhas duas avós me trouxeram a relação com a literatura, as artes visuais e a fotografia e alimentaram minhas fantasias com viagens. Também tive estímulos de outras partes, é claro, mas quando é de vó, a coisa tem um peso diferente. É como se a relação com elas fosse preparando a gente para a grande ausência que a partida delas vai deixar, e tudo que elas nos dão vira insumo para uma saudade que vai ser a principal relação que a gente vai ter com elas em grande parte da nossa vida.

Como eu já gosto de navegar na saudade e investigar a relação com nossos sentimentos através da arte, aproveitei a oportunidade para fazer um passeio com a ajuda de inteligência artificial pela minha relação com elas, passando pelas influências artísticas e os vestígios que elas deixaram no meu imaginário.

Vó Elba

Obra original pré-rafaelita.

Minha avó Elba era fã dos pintores pré-rafaelitas e vivia me dizendo pra visitar a Tate Gallery quando fui morar em Londres. Quando ela faleceu, eu ainda estava morando lá e não pude ir ao seu velório, por isso resolvi finalmente visitar os quadros de que ela tanto gostava e me conectar com a sua partida.

Serigrafia do pintor gaúcho Glauco Rodrigues.

Uma gaúcha da fronteira, que além do sotaque, tinha memorabilias gaúchas, como uns quadros do pintor Glauco Rodrigues — com gaúchos cavalgando e a paisagem dos pampas — que permearam minha infância, junto de minha irmã, em sua casa. Os quadros também já se foram e deixam saudades, mas, curiosamente, contemplar essa rememoração artificial dele com a gaúcha e seus netos no Rio consegue dar conta do vazio da ausência original.

Elba tinha uma relação de amor e ódio com o videocassete, pelas maravilhas que ele podia fazer e pela incapacidade dela de ajustar o relógio ou programá-lo para fazer qualquer coisa — o que obviamente ficava a cargo do neto tecnológico.

Criada no sul do Brasil, sua relação com carne e bois era muito peculiar, e ela ficava particularmente emocionada com as touradas que passavam à tarde nos canais de TV a cabo.

Ela falava muito sobre livros com a gente, estimulando a leitura e comentando sobre seus favoritos, como Neruda ou Proust. Deste, eu sempre ouvia a história da famosa madeleine que ele tinha comido e que, num jorro epifânico, deu origem a todo seu livro monumental. A madeleine era uma espécie de portal do Proust para a infância, o que, no meu caso, com certeza seria o pão de queijo, remetendo aos que eu comia na casa dela — a única comida capaz de fazer brotar memórias e um fluxo de lembranças suficiente para preencher três mil páginas.

Seus slides de viagem eram fascinantes e alimentaram muito minha curiosidade de morar fora do Brasil e conhecer outras culturas.

Acredito que obras que nos marcam profundamente oferecem pistas importantíssimas para desvendar quem somos de verdade. No caso dela, tinha um poema do poeta chileno Pablo Neruda que sempre a deixava muito emocionada: La mamadre. Ela adorava recitá-lo com seu espanhol porteño: “La mamadre viene por ahí, / con zuecos de madera (…)”.

Vó Meri

Minha avó Meri era uma fanática por fotografia, que sempre me estimulou e me deu minha primeira câmera digital. Um de seus muito bordões era: “Se você não fotografou, você não esteve lá!”. Minhas fotos como Cartiê Bressão vêm dessa simples tentativa de registrar os momentos e sentimentos de que eu quero me lembrar.

Além de estimular a fotografia, ela também incentivava o aprendizado de línguas e a autossuficiência. Um exemplo clássico era a coleção de fitas cassete com aulas de francês que ela tinha e adorava compartilhar.

Na minha cabeça, tudo em sua casa tinha decorações náuticas, uma grande paixão dela e do meu avô, que acho que contribuíram para este meu estado permanente de viagem. Ela era cheia de truques para viagens, como sua máxima de só ficar duas semanas fora de casa para que a volta não fosse muito dolorosa e o segredo que aproveitou de Principe Charles: ele nunca sabia quanto tempo podia ficar preso num cerimonial, então, assim como ele, quando tiver a oportunidade de ir ao banheiro, vá!

Sua gigantesca coleção de corujas era mitológica e, em retrospecto, sem dúvida já era um bom indício de sua excentricidade — característica extremamente inspiradora para a conexão com minha autoralidade e individualidade artística.

Definitivamente, Meri não era adepta do minimalismo na hora de se vestir, e sua intensidade nas estampas às vezes lhe rendiam o não muito lisonjeiro apelido de “dragão da independência” pela patrulha familiar. Sua capacidade de ignorar esses ataques à sua liberdade de expressão, porém, garantiam que ela sempre estivesse pronta para brilhar.

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Marcelo Steiner é médico ginecologista, integrante da Associação Brasileira de Climatério.

Na primeira metade dos anos dois mil, a publicação dos resultados de uma pesquisa clínica que incluiu mais de vinte e sete mil mulheres fez eclodir uma questão polêmica: a terapia de reposição hormonal para mulheres no período do climatério é arriscada? A diminuição do estrogênio, característica que marca o período que vai da perimenopausa à pós-menopausa, pode causar sintomas como calorões e labilidade emocional, além de aumentar o risco de doenças crônicas, como as cardiovasculares. Até esta publicação, a literatura científica demonstrava que a reposição do estrogênio estava associada a respostas benéficas para a saúde feminina, sendo considerada, inclusive, um protetor para doenças cardiovasculares. Porém, os resultados do estudo apontavam não só para um aumento dos casos de doenças cardiovasculares, mas também para o aumento dos casos de câncer de mama. Muito embora haja consenso de que diversos equívocos metodológicos determinaram resultados incorretos, receios advindos dessa pesquisa ainda ecoam no imaginário das pessoas.

Para que a reposição hormonal aconteça da maneira adequada, o quadro deve ser favorável, o início deve ter o timing ideal e tudo deve ser acompanhado de perto por um especialista. Por essas e outras, o SUS não cobre a reposição do estrogênio. Para explicar melhor o porquê disso e nos guiar por outros conceitos importantes, conversamos com Marcelo Steiner, ginecologista com quase 20 anos de prática que faz parte da Associação Brasileira de Climatério (Sobrac).

Revista Amarello: Quais são as diferenças entre pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa? 

Marcelo Steiner: Menopausa significa a data da última menstruação da vida da mulher. Significa que o ovário perdeu totalmente a capacidade de produzir hormônio e ovular. Então, a partir desse momento, a mulher deixa de ter capacidade reprodutiva e tem a produção de hormônios diminuída. Logicamente, isso não acontece de um dia para o outro. O ovário vem perdendo essa capacidade ao longo do tempo, principalmente nos cinco anos prévios à menopausa. As mulheres começam a sentir alguns sintomas relacionados a essa insuficiência de capacidade na produção de hormônio pelo ovário, e o primeiro é a irregularidade menstrual. Alguns ciclos começam a mudar de padrão. E aí, quando começa a se aproximar cada vez mais da menopausa, os sintomas mais clássicos, como a onda de calor e a labilidade emocional, começam a aparecer. 

A gente considera o período dos primeiros sintomas — que, em média, começam cinco anos antes da pós-menopausa — até um ano após a menopausa como perimenopausa ou transição menopausal. A partir daí, vem o que a gente chama de pós-menopausa. Ela, em tese, se estende até por volta dos 65 anos, quando o impacto da perda do hormônio deixa de ser tão relevante e os efeitos do envelhecimento se tornam mais importantes. 

RA: Você citou alguns sintomas. Existem outros?

MS: Para além da irregularidade menstrual, existem os sintomas relacionados à perda da produção do estrogênio, como sudorese e sintomas relacionados tanto à secura vaginal quanto à perda urinária. Não tem muita regra: tem mulheres que são pouco sintomáticas, tem mulheres que são extremamente sintomáticas. Nessa fase, a mulher tem propensão à alteração do colesterol, com risco de dislipidemia e aumento do acúmulo de gordura abdominal, em um padrão masculino. Todos esses fatores aumentam o risco de aterosclerose, que é o depósito de gordura nos vasos e que, no futuro, pode levar ao infarto. Perder o estrogênio também eleva a taxa de perda de massa óssea, aumentando o risco futuro de osteoporose. O estrogênio está envolvido no metabolismo energético dos neurônios e, quando cai, o neurônio precisa se adaptar ao novo status. Esse processo está envolvido nos diversos sintomas relacionados ao sistema nervoso central, como os calores e a labilidade emocional. Quando há uma adaptação, esses sintomas diminuem. São sintomas de transição, mas que tornam esse período desafiador para a mulher. 

RA: Muito se fala, até de maneira preconceituosa, da questão emocional ligada à menstruação. Mas, ligando à menopausa, nem sempre, né? O quadro todo é bem complexo. 

MS: De maneira geral, as mulheres encaram esse período de maneira muito negativa. Eu vejo um outro lado que é muito legal: o amadurecimento. É um período de reflexão que, às vezes, pode levar a mulher a tomar decisões que podem até melhorar a sua vida. Há bastante coisa positiva relacionada a esse período também.

RA: Considerando os seus anos de prática, pacientes costumam fazer um acompanhamento até a menopausa, para já chegar nela entendendo a situação, até de uma perspectiva psicológica? 

MS: Normalmente, após os 40 anos, a mulher começa a pensar que precisa ter mais cuidado com a sua saúde. Antes, o foco era, principalmente, os filhos, a vida profissional. Depois, ela começa a pensar no autocuidado e reflete sobre o que é esse período que está por vir. Diferentemente dos homens, a maioria das mulheres têm essa preocupação.

Os 40 anos são uma janela importante para se chegar bem na menopausa. As mulheres que estão fazendo exercício físico, têm uma boa alimentação e uma boa qualidade de sono passam por essa transição de maneira mais tranquila e menos sintomática. Já as mulheres que não estão comendo nem dormindo bem, que estão estressadas, acima do peso, tendem a ser mais sintomáticas. Mas não há uma regra. Algumas doenças têm um fundo genético mais importante. Existe uma coisa individual, mas, em geral, aquela que entra nesse período com uma melhor qualidade de saúde vai ter uma transição mais tranquila e os riscos associados a entrar na menopausa vão ser menores. Por isso, é importante o médico pesar a vida pessoal da paciente com o quadro clínico dela. 

RA: Considerando os malefícios da falta de estrogênio, pensar na reposição desse hormônio parece algo simples, mas é uma questão difícil, até polêmica. Qual é o quadro geral da história?

MS: Quando estava no internato, no começo dos anos dois mil, os ambulatórios de ginecologia tratavam a mulher no climatério com a terapia de reposição hormonal até o fim da vida. E, naquela época, se tinha que a terapia de reposição hormonal era muito benéfica para uma série de fatores, principalmente a diminuição de sintomas. 

Em 1994, começou um estudo chamado Women’s Health Initiative. Foi um marco na terapia de reposição hormonal, feito com dois grandes grupos: um de mulheres que tinham útero e um grupo que não tinha útero. Das mulheres que tinham, metade foi medicada com terapia de reposição hormonal oral combinada de estrogênio e progestagênio, porque quem tem útero precisa fazer a terapia combinada para proteção do endométrio, e outra metade recebeu placebo. Ao grupo que não tinha útero foi dado estrogênio isolado ou placebo. O objetivo principal desse estudo era demonstrar que a reposição hormonal diminuía o risco de doenças cardiovasculares, mas ele foi interrompido antes do programado, porque o grupo que estava recebendo a terapia de reposição hormonal começou a apresentar maior risco para câncer de mama. E, apesar da literatura científica até aquele momento mostrar benefício relacionado às doenças cardiovasculares, o estudo também revelou aumento no risco para essas doenças. Foi um banho de água fria. A partir da divulgação dos resultados, muitos deixaram de prescrever ou utilizar terapia de reposição hormonal.

O estudo do outro grupo, o de mulheres que não tinham útero, foi interrompido com mais ou menos sete anos, por um aumento de risco de acidente vascular cerebral. Mas, nessas mulheres, o risco de câncer de mama não aumentou. Na verdade, o uso do estrogênio isolado mostrou quase uma proteção para câncer de mama, ainda que ele aumentasse o AVC.

Depois de observar melhor a metodologia do estudo, pesquisadores avaliaram que a população estudada era mais envelhecida, com a média de 63 anos. A grande maioria dessas mulheres já estava há mais de dez anos na pós-menopausa. E aí o que se viu foi que, analisando os resultados de acordo com a estratificação da idade, a população mais jovem, entre 50 e 59 anos, tinha uma tendência à proteção cardiovascular. Dessa análise, saiu um conceito que hoje é muito importante, chamado de janela de oportunidade. Ele diz que quanto mais próximo da menopausa for iniciada a terapia hormonal, menor o risco para doenças cardiovasculares. O raciocínio por trás é que, quando você perde o estrogênio, esses vasos sem o hormônio tendem a envelhecer e desenvolver placas de gordura, que é o que a gente chama de aterosclerose. Depois de dez anos de pós-menopausa, a grande maioria das mulheres já desenvolveu essa doença, e utilizar estrogênio nesse momento tem um efeito inflamatório, aumentando a chance de ruptura da placa e o risco de infarto e AVC. Por outro lado, caso o início do uso do estrogênio aconteça antes do estabelecimento da placa, ele vai ter um papel protetor, impedindo o desenvolvimento da placa e diminuindo a chance de doença cardiovascular. 

O outro ponto é o câncer de mama, que hoje eu acho que é o principal receio. O estrogênio não é carcinogênico, ele não gera câncer. O que pode acontecer é ele estimular a proliferação de células doentes já existentes na mama. O estrogênio tem o papel de proliferar o tecido mamário. Então, se eu der estrogênio, vou estimular o crescimento dessas células na mama. Caso já exista uma célula doente, vou acelerar a evolução do câncer — é o efeito chamado de carcinocinético. 

Em dez mil mulheres na faixa de 50 anos que não fazem terapia de reposição hormonal, costumam ocorrer cerca de 30 casos de câncer de mama por ano. Com terapia de reposição hormonal, esse número passa a ser 37. Ou seja, há um acréscimo de sete casos por ano em dez mil mulheres avaliadas. É um aumento, mas ele é pequeno. É isso que a gente tem que pôr na balança do risco quando compartilhamos a opção de realizar ou não terapia hormonal.

RA: Essas células que eventualmente podem virar câncer e que podem ser estimuladas pela terapia hormonal são detectáveis? 

MS: Você não tem um screening para identificar aquela única célula que pode trazer problema. O que você tem hoje são estudos genéticos, feitos para identificar ou definir grupos de maior risco. Uma pessoa pode ter o gene, mas não expressar e não ter o câncer de mama. Se uma paciente te disser que todas as parentes dela de primeiro grau tiveram câncer de mama, provavelmente ela é uma candidata a ter câncer de mama. É uma paciente de risco. Para ela, fazer terapia de reposição hormonal talvez seja mais complicado. Os benefícios precisam valer a pena para correr o risco. 

RA: Por que o SUS não cobre a terapia de reposição hormonal?

MS: O seguimento é um pouquinho mais detalhado. Mas é claro que diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia, essas e outras doenças que também demandam acompanhamento estão no SUS. Então, acredito que os possíveis efeitos colaterais geram um receio muito grande. O que havia antigamente, que era estrogênio conjugado, deixou de ser utilizado. Ele foi descontinuado e aí não entrou nada no lugar. Acredito que seja mais uma questão das sociedades médicas e associações da comunidade feminina se organizarem para ter essa opção no SUS. É inacreditável que um grande número de mulheres não tenha nenhuma opção de tratamento hormonal.

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— Annie Ernaux, em “O Jovem”.

Arte da alagoana Roxinha.

Envelhecimento é palavrão no universo da beleza. Geralmente acompanhando de cifras bilionárias que movimentam uma indústria irrefreável em busca de tecnologia para atenuar sinais do tempo e também de um vocabulário excessivamente bélico. Você já deve ter cruzado com embalagens, campanhas publicitárias e rótulos com promessas de combater o tempo, enfrentar a guerra contra as rugas, ou vencer a batalha contra o relógio. 

Se não anda acompanhado de armas de guerra, esse território ganha ares metafísicos de quem pode voltar no tempo, frear o passar dos anos, operar milagres e conservar a juventude eterna. Juventude vende, e muito. Sonho mágico, já que a única certeza que temos é que vamos envelhecer – e, na melhor das hipóteses, vivendo mais e melhor do que as gerações que nos antecedem.

Nos últimos anos, há um esforço de quem pensa o tema em olhar para o léxico em torno do envelhecimento nessa seara da estética. Mas não só, este é um movimento global, que vai além da beleza e ganhou termos específicos, como ageshaming, ageísmo, idadismo ou velhofobia, como a antropóloga brasileira Mirian Goldenberg gosta de dizer. E mobiliza mais do que especificamente essa indústria – um relatório recente da Organização Mundial de Saúde, somente sobre o tema, coloca luz à importância de discutirmos o preconceito contra idade em instituições, leis e políticas do mundo todo porque nega às pessoas direitos de viverem de acordo com o seu pleno potencial em uma sociedade que, no mundo ideal, não deveria deixar ninguém para trás.

Perla Servan Schreiber, intelectual francesa de 78 anos e cofundadora da revista Psychologies, é uma das autoras que fala sobre a passagem do tempo de forma realista, lembrando que vivemos uma fase global de revisão e rompimento com conceitos sociais e políticos que atravessam a nossa concepção de idade. “Ainda temos uma noção imaginária de idade que não corresponde mais à realidade de envelhecer nos dias de hoje. Por isso, quero dizer, em alto e bom som: sim, ainda somos sedutoras, ativas, populares, cheias de desejos e sexualidade”.

Há essa ideia, especialmente no universo de beleza, que envelhecer merece desculpas ou disfarce. Faz, sobretudo as mulheres, em busca da juventude eterna, sentirem vergonha ou lamentarem quando as rugas aparecem, a menopausa dá as caras, o corpo e a libido se transformam em comparação aos 20 e poucos anos. Sophie Fontanel, jornalista francesa de moda, despontou nas redes sociais com mais de 50 anos quando resolveu não disfarçar que queria assumir o cabelo grisalho (história que virou até livro best-seller). Em uma conversa, ela me contou que decidiu passar pela transição dos fios tingidos de castanho para o branco total assumindo a “fase zebra”, como nomeou, porque queria que, nas ruas, as pessoas vissem que atravessava a mudança sem precisar disfarçar que envelhecia. “Muitas vezes, pela manhã, olho no espelho e penso ‘parece que tenho 80’. Acho importante aceitar a verdade, você não é a mesma pessoa todos os dias do ano. Alguns dias me sinto muito jovem, meu corpo está diferente, a pele está melhor. Em outros está pior. E o modo como você se olha muda tudo”, me disse.

Numa outra ocasião, enquanto acompanhava uma série de retratos da Cecília Dean, de 54 anos, que construiu uma carreira como modelo antes de fundar a Visionaire, uma das publicações mais inovadoras quando o assunto é moda, arte e design, ela me disse que sempre ficava em dúvida se sorria, ou não, nas fotos. Porque sorrir deixava a pele dos olhos mais enrugada, mas a expressão séria e controlada de modelo não tinha mais tanta relação como ela se sentia. “Quando não sorrio e vejo as imagens penso ‘pareço tão séria, mais velha’. É isso: sorrir te faz parecer automaticamente mais alegre e mais bonita. Acredito que a idade só incomoda quando você não está feliz com o lugar que ocupa no mundo. Eu, ao menos, nunca gostaria de voltar aos meus 20 anos. Tive momentos maravilhosos e memoráveis, mas não desejo fazer o caminho de volta. Me sinto tão mais esperta hoje, tão mais experiente. Tenho conhecimento sobre coisas que eu não tinha, consigo enxergar detalhes que não poderia antes, tomar decisões mais rapidamente. Tenho uma clareza genuína que só melhora com o passar do tempo, mesmo que você sinta as mudanças físicas.”

Há mais de uma década, quando vi Patti Smith no palco pela primeira vez, fiquei encantada com a forma como ela se movimentava. Hoje, ela continua sexy, graciosa, à vontade, confiante enquanto canta. Com o cabelo branco cheio de textura, a calça jeans, camisa e tênis característicos. Descrições que não comumente fazem associação direta aos seus 76 anos. 

A atitude de todas elas me faz pensar que não há uma trilha única ou maniqueísta. A memória de um rosto mais jovem é sedutora, mas tão cara quanto as lembranças do que vivemos. Só não deveria figurar como a única métrica de valor ou objetivo central de aceitação e autoestima femininas. Essa consciência também não torna o processo de envelhecimento estritamente positivo. Não há a ilusão da ”melhor idade” quando a decadência e transformação física ficam mais evidentes. Mas a combinação de saberes, desejo por longevidade e aspectos emocionais intrínsecos a envelhecer pode ser tão valiosa quanto ao corpo que enxergamos no espelho. 

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No atribulado cenário da sociedade contemporânea, um preconceito às vezes sutil, às vezes explícito se manifesta, sempre de maneira indigesta, em um dos espaços mais cruciais para a significação e a realização humana: o ambiente de trabalho. O etarismo — nome dado à discriminação baseada na idade — revela-se como um desafio persistente que permeia diversas esferas, com particular intensidade em setores profissionais altamente mutáveis, como os da comunicação e o da tecnologia, que se transformam a cada dia, com as inovações que não param de chegar e que clamam por implementação urgente. Enfrentar esse preconceito exige não apenas compreensão profunda dos problemas subjacentes, mas também uma mudança de paradigma que valorize a diversidade etária e reconheça as contribuições únicas trazidas por aqueles com mais de 50, 60, 70 anos.

O mercado de trabalho atual demonstra uma inclinação notável ao etarismo — um pendor que não é de hoje, mas foi acentuado nos últimos anos. A muitos setores, jovialidade e inovação parecem ser qualidades inerentes, tidos quase como sinônimos de qualidade e retorno (em um caso ou outro, até de economia), levando à marginalização dos trabalhadores mais experientes. Não é necessário recorrer a exemplos extremos: o jornalismo, agora sem contar muito com a mídia impressa, precisa se adaptar a cada instante para sobreviver; a publicidade, diante de um mar de possibilidades, tem que estar por dentro de todos os novos formatos e linguagens para ser efetiva; os programadores, já frutos tecnológicos, têm que aprender códigos e mais códigos para responder a demandas que há seis meses simplesmente não existiam; e por aí a banda toca, com as notas de um ciclo sem fim. Nesse processo, o preconceito subestima talentos, ao gerar uma atitude generalizada que não só perpetua estereótipos negativos sobre a capacidade de aprendizado e adaptação dos profissionais mais velhos, como também desperdiça os reservatórios de sabedoria — que podem, sim, ser aplicados às novidades de qualquer mercado.

A experiência é uma fonte inestimável de insights e discernimento. Uma pessoa com mais de 50 anos pode contribuir para um ambiente de trabalho de maneiras profundas e transformadoras, como, por exemplo, com sua capacidade de discernir padrões, resolver problemas complexos e orientar equipes, qualidades que se baseiam em um conhecimento que foi adquirido (veja só!) ao longo dos anos, o que a torna dificilmente substituível por alguém mais jovem. Os muitos anos de labuta não necessariamente vão ancorar um profissional a um determinado jeito de fazer as coisas, a um know-how antiquado, pois o acúmulo de vivências profissionais pode, na verdade, se juntar aos novos tempos e resultar até em metodologias aperfeiçoadas. 

O preconceito baseado na idade constitui um paradoxo enorme, se lembrarmos que estamos vivendo cada vez mais. É o encurtamento da vida profissional em meio ao alargamento da expectativa de vida. Tomando como parâmetro os avanços da medicina e as mudanças de atitude que privilegiam a nossa saúde mental e física, estima-se que, a cada ano, aumentamos essa expectativa. Ray Kurzweil, renomado pesquisador futurista dos EUA, acredita que, em breve, a mortalidade será apenas uma questão de acesso à tecnologia certa. Verdade ou não, na medida em que as pessoas vivem mais e mais, a ideia de alguém atinge o auge de sua carreira aos 30 ou 40 anos é cada vez mais absurda — e é uma pena que o bom senso de Kurzweil não seja disseminado. 

Como abraçar uma fatia tão pequena e presumir que só nela alguém tem algo a oferecer profissionalmente, esquecendo todo o resto? A ampla acessibilidade de informação da vida moderna permite que as pessoas continuem a aprender, crescer e contribuir além das fronteiras tradicionais da idade de aposentadoria. A crueldade — aqui e em todos os preconceitos, que têm o vil costume de operar de maneira similar — é incutir na pessoa-alvo a ideia de que ela não tem o necessário para se especializar em quaisquer que sejam os novos ditames do momento, tornando-a uma pária de si mesma. Isso para não falar da questão mais prática: essa pessoa precisa de dinheiro para sobreviver, e tirar seu ganha-pão, paulatina ou repentinamente, constitui uma atrocidade aviltante. Diante de uma aposentadoria possivelmente comprometida, o que fazer?

No contexto de descartabilidade insensata e contumaz, entra a difícil função social dos profissionais de recursos humanos. Eles, em tese, têm a capacidade de moldar a cultura organizacional de uma empresa, promovendo uma mentalidade inclusiva e diversificada. É claro que a dificuldade é maior quando são as pessoas do alto escalão que mais estão a bordo da barca do etarismo (mesmo quando não são assim tão jovens). É necessário, muitas vezes, que a mudança ocorra passo a passo, com profissionais de RH transformando, aos poucos, as práticas tanto de contratação quanto de promoção e fomentando a aprendizagem contínua e o desenvolvimento ao longo da vida. 

Para além das razões óbvias, que vão do social ao moral, motivos negociais estratégicos também dizem que as oportunidades de desenvolver uma carreira significativa não deveria ser negada a ninguém com base em preconceitos etários. Empresas que valorizam a diversidade etária não apenas promovem a justiça social, mas também abocanham uma fonte inexplorada de vantagem competitiva. A diversidade é boa para os negócios, certo? E isso inclui a diversidade de idade. Além do que nenhum mercado se restringe completamente a produtos e serviços destinados a pessoas dos 20 aos 40 anos, certo? Eis, então, mais um motivo: chegar a mais pessoas a partir desses possíveis funcionários.

O etarismo no ambiente de trabalho, infelizmente, é uma questão de relevância global. O Brasil, assim como muitas partes do mundo, tem a discriminação etária como uma barreira significativa para profissionais com mais de 50 anos. Dados revelam que a indústria de tecnologia, aclamada por sua vanguarda inovadora, é uma das mais propensas à discriminação etária. De acordo com uma pesquisa realizada pelo The Center for Digital Future, nos Estados Unidos, mais de 50% dos profissionais de tecnologia nessa faixa etária relatam ter enfrentado algum tipo de discriminação ou preconceito relacionado à idade. No Brasil, uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) apontou que 73% dos profissionais com mais de 45 anos sentem que a idade é um obstáculo na busca por emprego.

Não é necessário fazer grandes contas para concluir que não há bons motivos para a idade ser fator excludente. De onde, então, vem essa ideia? O etarismo no ambiente de trabalho é um fenômeno complexo que está enraizado em uma série de fatores interconectados que têm impacto tanto no nível individual quanto no organizacional. O etarismo é uma ideia que não pediu licença para entrar, mas que também não abusou de sua estadia: adentrou o recinto calmamente, pelas sombras, e se acomodou sem fazer barulho. Ele está impregnado em nossas visões, favorecendo, consequentemente, os mais jovens quando processos seletivos acontecem. Isso perpetua, a partir das vias pessoais, um ciclo de discriminação, como se não bastasse o culto à juventude visto na mídia e nas indústrias de entretenimento, criando uma narrativa de que, em contraponto à velhice, a juventude tem mais a oferecer. 

Essa não é uma questão isolada, mas sim reflexo de narrativas culturais mais amplas. Muitas vezes, não é apenas a idade que importa. A interseccionalidade com gênero, raça ou outras características também pode desempenhar papel fundamental. Uma pesquisa publicada no jornal Ageing & Society, da Universidade de Cambridge, feita em nove países europeus, constatou que o acesso a oportunidades de treinamento foi afetado pela interação de idade e gênero, sendo as trabalhadoras mais velhas as mais desfavorecidas. Além disso, as taxas de mobilidade descendente de cargos gerenciais e profissionais eram maiores entre os trabalhadores mais velhos negros em relação aos brancos. Ou seja, o acúmulo de preconceitos tende a desfavorecer ainda mais as parcelas que já são desfavorecidas sem o fator idade.

A presença de estereótipos negativos relacionados à idade, porém, não resulta apenas em discriminação: ela também produz baixo desempenho, que pode ocorrer por dois mecanismos, o externo e o interno. O externo se manifesta quando um trabalhador mais velho fica tão preocupado em desacreditar um estereótipo negativo que isso impede sua capacidade de concentração, prejudicando, assim, o seu desempenho. O mecanismo interno se dá quando o trabalhador internaliza um estereótipo por meio da exposição repetida a ele — se você cresce ouvindo como verdade absoluta que, na medida em que ficam mais velhas, as pessoas deixam de ser produtivas e se tornam inválidas para o mercado de trabalho, quando é sua vez de envelhecer, você pode acreditar que é menos competente.

De uma perspectiva pessoal, há inúmeras respostas a isso: desafiar o preconceito no ambiente de trabalho e estar pronto para os conflitos que nascerão daí; redefinir a posição profissional; se resignar e acreditar que seus melhores dias de carreira já passaram. Em qualquer uma delas, há um peso. Cruel, não?

Cada empresa terá necessidades diferentes, não haverá uma solução única. Qualquer que seja a abordagem adotada, será importante medir sua eficácia ao longo do tempo, e não apenas presumir que a introdução de uma ou mais mudanças significa que o problema foi resolvido. Programas de conscientização e treinamento para identificar e combater o viés inconsciente sempre são válidos. Promover a colaboração entre profissionais de diferentes faixas etárias pode resultar em uma troca mais rica de conhecimentos e perspectivas. Projetos colaborativos, mentorias cruzadas, workshops intergeracionais — vale tudo. As possibilidades são muitas, basta que as empresas queiram fazer isso acontecer.

Desafiar o etarismo no local de trabalho é construir uma cultura mais rica, inclusiva e capaz de aproveitar ao máximo a experiência humana em todas as suas fases, rejeitando o papel de virarmos párias de nós mesmos.

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Para pessoas que nasceram antes dos anos dois mil, o controle remoto da televisão era um grande agente de interação com os avós. A dificuldade com o dispositivo às vezes era tanta — seja por inabilidade ou por problemas de visão que impediam que os avós enxergassem os números do controle — que a solução mais simples para os netos era pegar o controle e, aos sons da clássica reclamação de que aquela “porcaria” não estava funcionando, mudar para o canal desejado. Bem ou mal, o problema se resolvia, mas ele voltava a aparecer, muito possivelmente já nas próximas horas; na melhor das hipóteses, no dia seguinte. A impaciência, é verdade, vinha dos dois lados. Ensinar e aprender eram incumbências árduas. Para as pessoas que nasceram nos anos dois mil, há uma profusão de inovações que, tais quais aqueles controles remotos (que ainda existem e vão muito bem, obrigado), parecem indispensáveis e podem causar confusão a quem não está acostumado a aprender a mexer em um novo aparelho com tanta frequência. Direta ou indiretamente, com mais ou menos drama e belicosidade, todos já vivemos cenas similares a essa.

Por um lado, negligencia-se a tarefa atávica de auxiliar pessoas idosas a compreender e utilizar dispositivos, de promover algum tipo de engajamento com inovações digitais. Por outro, pessoas idosas resistem em aprender e se adaptar a essas novidades. Surge, então, a grande questão: onde começa e onde termina isso tudo? Essa é uma dinâmica tão intrigante quanto problemática. É como se houvesse certa irresponsabilidade compartilhada entre as gerações, cada uma considerando apenas o contexto próprio, fechando os olhos para um cenário maior de integração sadia. A pressa pelo futuro digital bate mais rápido e mais forte do que a vontade de incluir; a acomodação, que se faz de rogada, inviabiliza qualquer mergulho no vasto oceano de gadgets e inovações.

A falta de colaboração e compreensão vista amiúde em lares que abrigam gerações distintas provoca uma crescente exclusão digital sistêmica, algo que vai muito além de alguém não conseguir usar um smartphone ou navegar na internet. Ela também se traduz em um descompasso cultural enorme, uma desconexão entre faixas etárias que extrapola o que seria tido como normal e que pode afetar seriamente — se é que já não está afetando — a coesão social, comprometendo a transmissão de conhecimento e experiência de uma geração para a próxima. Um fator que aumenta esse descompasso para além da conta e faz com que esse seja um problema maior hoje em dia do que sempre foi é o rápido ritmo de mudança na tecnologia e, consequentemente, na sociedade. Nunca estivemos em marcha tão alta. Nunca antes levantamos tanta poeira com os pneus da modernidade. Novos dispositivos, aplicativos e corpos de ideias vêm se multiplicando — e isso é um desafio constante para pessoas de todas as idades, não só para os idosos. Nem sempre a adaptação acontece de maneira natural, e quanto mais distante você se sentir de um momento da história, mais improvável é que isso ocorra organicamente. Muitas vezes, porém, os que cresceram imersos nesse ambiente digital e que conseguem processar novidades com mais facilidade presumem que os mais velhos devem acompanhá-los na absorção das coisas. Essa presunção ignora o fato de que os idosos podem não ter tido a mesma exposição ou oportunidade de aprender a lidar com essas ferramentas.

Existem muitos motivos para a possível rejeição de novas tecnologias por parte dos idosos. Entre eles, destacam-se: o medo do desconhecido (porque, sim, o mundo digital pode assustar qualquer um que não o conhece); o receio de serem deixados para trás (por mais paradoxal que possa parecer, é um receio circular que também causa aquilo que se teme); as dificuldades cognitivas relacionadas à idade (que, por mais que tentemos evitar, vêm e geram complicações); ou, simplesmente, a sensação de que suas formas tradicionais de interação e comunicação são mais autênticas. Essa resistência pode, inclusive, ser amplificada pela sensação de que a sociedade está se afastando de valores e práticas mais antigas. Antes, os valores que tocavam a sociedade pareciam mais intransponíveis, blindados contra novas opções. Agora, para o bem de todos nós, a conjuntura é outra: as mudanças socioculturais estão em ritmo tresloucado e, hoje em dia, estão muito ligadas a novas plataformas, que promovem um diálogo mais aberto e inquisitivo. Quem considerar que não faz parte dessa mudança de mentalidade geral, inconscientemente, também se fecha para muitas das novidades que poderiam ser interessantes a ela em diferentes esferas.

Evidentemente, não dá para dizer que é culpa de um ou de outro. A responsabilidade — supondo que essa seja a palavra certa — recai sobre ambas as partes. Os mais jovens podem se beneficiar ao reconhecer a importância de ensinar e apoiar os mais velhos nessa jornada digital; os mais velhos podem tirar muita coisa boa de tudo que está acontecendo, explorando ferramentas que podem auxiliar sua saúde, seu bem-estar e sua vida tanto pessoal quanto profissional. Essa atitude não apenas capacitaria as pessoas idosas, mas também poderia levar a uma maior conexão intergeracional e ao compartilhamento de experiências valiosas. A população idosa pode considerar a aprendizagem contínua como uma maneira de se manter envolvida na sociedade em constante evolução. Para que isso aconteça, é necessário desatar alguns nós, a começar com um dos maiores: a negação.

A negação dessa realidade é uma camada densa do complexo tecido social que envolve a relação entre as gerações. Os mais jovens muitas vezes estão imersos em suas próprias vidas, aprofundados em uma existência que tem a tecnologia como uma extensão natural de si mesmos. Para eles, é difícil entender por que os mais velhos não conseguem, ou não querem, acompanhar o ritmo. Essa falta de empatia pode levar à frustração e até mesmo à impaciência, levando-os a abandonar quaisquer tentativas de ensinar — é a conveniência danosa de pegar o controle remoto, mudar de canal e, pronto, missão cumprida. Em contrapartida, muitos idosos resistem a admitir que precisam aprender algo novo, especialmente quando isso implica reconhecer que estão envelhecendo — constituindo a mesma conveniência prejudicial, agora no formato de chamar, esperar entrar no canal e encerrar por aí. A negação, que é uma defesa psicológica comum, pode se manifestar como uma recusa obstinada em abraçar a tecnologia moderna. Isso muitas vezes é alimentado pela sensação de que suas experiências de vida são menos valorizadas em uma sociedade obcecada pelo novo.

A negação mútua só serve para agravar a exclusão. Enquanto os mais jovens negam sua responsabilidade de guiar os mais velhos através do labirinto digital, as pessoas idosas negam a si mesmas a oportunidade de se conectar mais profundamente com realidades diferentes. Essa polarização cria um fosso cada vez mais amplo entre as gerações, corroendo a coesão social e minando a compreensão mútua. A contradição chega a ser quase palpável quando percebemos que essa retroalimentação entre as gerações não só dá perenidade à exclusão digital, mas também pode limitar a evolução da sociedade como um todo. Se não houver um esforço conjunto para envolver as populações idosas nessa jornada, perdemos perspectivas e sabedoria que poderiam enriquecer decisões e até inovações. Somos todos passageiros em uma mesma jornada temporal, e este agora, por mais que soe como má poesia, é o que nos liga. Será que podemos mesmo nos dar ao luxo de deixar para trás aqueles que nos precederam? Será que nossa obsessão pelo futuro está obscurecendo a importância de preservar o passado?

É importante lembrar que a negação é uma resposta natural a mudanças significativas. Portanto, reconhecer essa resistência e abordá-la com compaixão e paciência é fundamental para romper ciclos que acabam funcionando como verdadeiros tiros no pé. Neste caso, a negação nada mais é do que um reflexo do medo do desconhecido e do desejo humano universal de pertencer e ser valorizado. Ao enfrentar essa negação com compreensão e solidariedade, inicia-se a construção de largas travessias, transformando o fosso geracional em um ponto de partida para a troca de ideias e a construção de um futuro minimamente mais inclusivo.

Toda a questão da irresponsabilidade compartilhada nos leva a refletir sobre como a nossa sociedade valoriza e integra as diferentes gerações. É natural pensar que, ainda que já mais versadas no mundo tecnológico, com a velocidade com que tudo vem mudando, mesmo as gerações que hoje caminham com naturalidade pelas mudanças também sofram exclusão na medida em que forem envelhecendo. É natural que se pense nisso, mas não deveria ser. Encontrar maneiras de garantir que ninguém seja deixado para trás é vital. A inclusão digital não é apenas uma questão de acessar a tecnologia, mas também de cultivar entendimento, respeito e colaboração entre as gerações. No final das contas, a verdadeira evolução não está apenas no domínio de novas tecnologias, mas também na capacidade de nos conectar através das eras, tecendo a história de nossa humanidade com fios de compreensão e respeito. Um controle remoto por vez.

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Caetano o descreve como um senhor tão bonito, como o tambor de todos os ritmos. Para Gilberto Gil, ele é rei. David Bowie acha que é aquilo que nos muda, mas que não conseguimos enganar. Para Proust, ele é perdido, e para Lacan, lógico. Winnicott considera que dele dependemos para darmos continuidade aos processos de maturação. E Cazuza canta que ele não para. Nas palavras de Aline Bei, ele “leva as nossas coisas preferidas no mundo e nos esquece aqui, olhando para a vida sem elas”. Einstein o descreve como relativo, não podendo ser medido exatamente do mesmo modo e por toda parte. 

Procuro uma frase para este ensaio. Não há. Afinal, é possível que a força imperativa do tempo seja descrita em uma única frase? Ainda que a procuremos, não encontramos nenhuma que seja suficiente — então surge algo que apazigua minha fome de escrita. Talvez o caráter maior do tempo seja este: a insuficiência. Ensaiamos para agarrá-lo, dominá-lo, compreendê-lo, mas ele vence sempre. A soberania de cronos é inquestionável. 

Tempos doloridos são longos, tempos felizes parecem passar num piscar de olhos. Não são contados na dureza dos ponteiros, e sim na fluidez das asas. Voam. Em O mal-estar na civilização, Freud afirma que a felicidade é um estado do qual nos damos conta, uma vez que está no passado.

O tempo do futuro parece distante na juventude. Temos todo o tempo do mundo enquanto somos tão jovens, dizia Renato Russo — mera ilusão. Tal fantasia é necessária para que possamos encontrar alguma urgência de construção. Nossa onipotência da mocidade é essencial (e ao mesmo tempo perigosa), pois nos lança na aventura do viver. Abraçamos as causas com mais entrega, paixão e ousadia exatamente porque não contamos com os riscos. Ainda somos um pouco ingênuos, e as vivências têm o tempero perigoso (e saboroso) e apaixonado da intensidade.

Na música, assim como na vida, o tempo é aquilo que marca a pulsação e o movimento da melodia de uma canção. A dança da existência do homem se desenrola no palco de um espetáculo de duração limitada. Sem a temporalidade que circunda e limita nossa vida, tudo estaria à deriva. Convoco outra vez Legião Urbana: o pra sempre sempre acaba. Nossa permanência se dá no “por enquanto”, e nosso pulsar do coração encerra-se um dia, levando consigo nossa história. Simples assim.

Karl Ove Knausgård começa seu livro A morte do pai com um parágrafo inesquecível: “Para o coração, a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de acordo de cavalheiros que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território. Por outro lado, é um processo inexorável.”

Esse movimento vem antes de nosso desejo e nossa racionalidade, é decidido pela natureza. O acontecer humano se dá no tempo e com o tempo. Winnicott diz que o ser humano é uma amostra da natureza humana. Somos, portanto, comandados pela ação cíclica da natureza e suas estações. E nela o que há de mais constante é a impermanência. Assim como nosso existir. Tudo que é vivo em algum momento vai se desfazer.  A morte seria, então, parte da saúde, do processo maturacional — só morre quem existiu —, e essa existência seria nosso acontecer no tempo. A realização final. 

No ensaio Sobre a transitoriedade, Freud considera que o valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo: “A limitação da possibilidade de fruição eleva o valor da fruição (…). Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela”. Sintetizando: a urgência em viver seria, então, o que dá valor à vida. Nosso “por enquanto” é uma dádiva do tempo: o presente. Viver para sempre talvez tirasse o valor da vida. Contardo Calligaris, em O sentido da vida, declara, inclusive, que o sentido da vida é a própria vida, e que, nesse processo, a morte seria aquilo que dá significado ao viver.

Recentemente, escutei em um podcast a  entrevistada dizer que, ao invés de perguntarmos a alguém sobre sua idade, o correto seria perguntarmos “quanto tempo você já viveu?”. Talvez eu dissesse ainda: “há quanto tempo a vida anda dentro de você?”.

Nos partos e nas partidas, a janela da temporalidade se abre: “Apenas em nascimentos e mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades com que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar durante um instante pela fresta da verdade — monumental, ardente e impassível”, escreveu Rosa Monteiro. Nascimento e morte são movimentos antagônicos, mas com a mesma trilha sonora tocando de fundo: o ventar do tempo. Só é possível sair do tempo duas vezes: na porta de entrada e na porta de saída. Ponto. Não há como negociar nossa submissão à impermanência do existir. 

Os minutos perdidos deixam vestígios tanto em nosso interior quanto em nosso corpo. Embora invisível, o pulsar do tempo se revela dentro e fora de nós. Nosso corpo é a tela da sua passagem, e há beleza na transitoriedade. A vida acontece dentro de nós, mas um dia nossa existência “desacontece”, e a partir daí acontecemos em forma de saudade.

Sigmund Freud, aos 70 anos, em sua célebre entrevista O valor da vida, parece resignado frente às perdas derivadas do processo de envelhecimento: “Por que eu devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com seus visíveis desconfortos, chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá. O seu golpe sempre atinge uma parte vital”.

Como psicanalista, tendo a observar a repetição, e em todas as citações da introdução encontro algo em comum: o homem como refém do tempo. Não há como permanecer vivo e não se curvar à sua passagem, à sua velocidade e às transformações decorrentes da sua continuidade. O ritmo do tambor da temporalidade é furioso, e sua passagem veloz anda de mãos dadas com as perdas. 

Não há escapatória: quem teima em segurar o tempo inevitavelmente fracassa e vai se desumanizando. Aqui me recordo do personagem Dorian Grey, de Oscar Wilde, que faz um trato com o demônio para não envelhecer, e passa de belo e poderoso para uma figura monstruosa, eternamente jovial e, por isso, assustadora e repulsiva (qualquer semelhança com a realidade das vítimas de harmonização facial não é mera coincidência.) Há algo de demoníaco naqueles que tentam perpetuar a juventude a qualquer custo em corpos que já são naturalmente antigos.

Aceitar aquilo que o ponteiro do relógio nos leva sem nos desinteressarmos pelo presente talvez seja a única forma de nos mantermos vivos, sem cair nas garras sombrias da melancolia. Aceitar a escassez do tempo e suas dores é talvez uma maneira de tentar dominar o presente. Embora haja um aspecto do tempo do qual somos cativos, ele também nos liberta, uma vez que nos ajuda a cicatrizar, cria distancias de vivências dolorosas, nos auxilia a ressignificar, elaborar, sublimar dores. Tempo e transformação são inseparáveis.

Como disse Freud, nosso ego é um precipitado de catexias abandonadas. A identidade é, portanto, marcada pelos objetos que já amamos e por aqueles que nos amaram. Dentro de nós, eles estão sempre preservados e imunes ao tempo, se tornam imortais. A revanche possível: a única casa que consegue capturar verdadeiramente o tempo é a memória.

Pensar e escrever sobre o tempo inclui a ausência, a falta e a saudade. E o coro de autores e poetas escolhidos para acompanhar essas linhas nos mostra que a experiência de tentar compreender e capturar esse senhor tão bonito é inesgotável, enquanto estivermos vivos, nunca é solitária. Nessa busca e captura, nessa brincadeira de esconde-esconde dos dias que escorregam e desaparecem em direção à noite, seguimos dançando — enquanto ainda dá tempo e enquanto nossa existência ainda não anoiteceu.


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Num dia você é jovem, produtivo, tem sonhos e projetos de vida na pauta de sua agenda semanal. No outro, descobre, da maneira mais estranha possível, que seus assuntos versam sobre a morte de familiares queridos e pessoas públicas; adoecimentos e tratamentos de saúde; medicações de última tecnologia para tratamentos de saúde e suplementação para a manutenção de um corpo saudável — em um esforço constante na tentativa de mantê-lo afastado dos adoecimentos e das dores do viver neste corpo.

O tempo tem passado de maneira veloz, e não estamos conseguindo elaborar as mudanças integradas que acontecem no corpo, na mente e no espírito. As dimensões do tempo vivido têm sido borradas por um passado que se tenta resgatar de modo compulsivo, com a função de cumprir um prescritivo de vida jovem e produtiva, desconsiderando as passagens do tempo, inevitáveis a todo corpo humano. Por mais que a biotecnologia se esforce e as condições econômicas favoreçam ao ser humano avançar no envelhecimento ativo e saudável, uma verdade é nua: se viver e viver de fato é muito bom, o preço a se viver é o envelhe-ser deste templo chamado corpo e cuja humanidade parece ter caído no esquecimento moderno. O fato é que a conta não fecha; estamos desumanizando nossa condição mais humana: a vulnerabilidade, aquilo que não estamos contando, o inesperado. 

Vivemos no mundo da modernidade líquida, como apontou Zygmunt Bauman, sociólogo idealizador da obra Amor líquido e de tantas outras que versam sobre o efeito do capitalismo no corpo e no tempo. Corpo e tempo que, segundo a sua interpretação, são transformados em esferas do ser humano voltadas ao consumo — especialmente o consumo que nos entrega a satisfação do bem-estar imediato, alcançado por meio do acesso fácil a serviços, pessoas e bens de consumo. Na busca por maximizar nossa satisfação instantânea, a dopamina gerada a cada like de aprovação externa nas redes sociais se tornou o maior reforçador da existência humana e de sua visibilidade social. 

Em tempos idos, em que a racionalidade predominava como o paradigma de um plano diretor da existência, a máxima ideológica era “penso, logo existo”. Essa premissa migrou um pouco para “posto, logo existo” e gerou uma compulsão pela criação de perfis nas redes sociais como validação de uma existência ativa e interessante, reconhecida por meio de produção de conteúdos e imagens que emocionam e conectam pessoas por meio do afeto gerado pela identificação. Nasce, então, uma rede social virtual que predomina em todas as classes sociais, com uma diversidade humana conectada por nichos de interesse, configurando-se uma rede de apoio e criando-se vínculos baseados em laços profissionais, de amizade e de relacionamentos íntimos.

Não seria problema existir nas redes sociais; seria até uma solução para os viventes apressados, já que estaríamos encurtando fronteiras entre nossos interesses, singularizando aquilo que nos diz respeito e trazendo para perto nossos vínculos distantes (inclusive de forma geográfica), eliminando as distâncias a serem percorridas e facilitando as conexões humanas. A questão que precisamos tratar é outra, tão importante quanto silenciada em nossa sociedade: o quanto estamos mais solitários, individualistas e fechados para relacionamentos que convocam a força do encontro presencial. Isso foi naturalizado e potencializado com a pandemia de covid-19, que fez com que se aprimorassem inúmeros aplicativos de relacionamento como uma maneira de resolver o problema do isolamento social imposto pela crise sanitária. 

Até aqui, a questão do envelhe-ser não seria tão inflamada, pois é possível maquiar selfies, criar perfis hedonistas e até personagens de vida interessante, que pareçam uma ótima companhia. Porém, o desencontro humano e a falta de permanência dos vínculos também se anunciam como um gerador de angústia cada vez mais recorrente nos consultórios médicos e psicológicos. Estamos vivendo uma era do hiperespetáculo, conceito descrito pelos filósofos Gilles Lipovetsky e Jean Serroy em A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista, em que os autores afirmam que o novo regime de produção traz críticas ao mau gosto e à feiura da produção industrial. Nesse âmbito, aparecem ainda diversas correntes ambicionando a melhoria da qualidade estética dos objetos fabricados em série, reconciliando a criação com padronização, beleza e indústria, com arte e técnica modernas.

Embelezar, seduzir, inovar e distrair são as novas ideias do bronze do capitalismo artista. Cria-se uma nova geração treinada no consumo para a arte, para o belo, para o prazer, para o entretenimento full time, para a cultura e para uma existência baseada no melhor aproveitamento do tempo. E o que esse cenário tem a ver com a nossa passagem do tempo vivido? Tem a ver que a vida sonhada com base num sucesso padronizado e na realização humana não comporta uma vida de fato humana, que contém diversas tonalidades afetivas: frustrações, dores, lutos, perdas — de saúde, financeiras, afetivas, sociais. Uma vida que abriga todas as mazelas humanas de descobrir-se vivo em um tempo em que não se pode ser frágil, que abriga inclusive a parte mais vulnerável do tempo: a velhice. Invisível, ela se instala, mostrando a face cinza da vida: aquela que não produz, não seduz e ainda causa dor, afinal, é doloroso pensar na passagem do tempo e em suas possíveis facticidades já presumidas e primas da dependência, como ter que contar com quem nos dê suporte e tome decisões por nós em caso de incapacidade; com a possibilidade de ter que ser tutelado — mesmo que essa tutela se baseie em vínculos afetivos. Mas cadê as pessoas que ficam disponíveis ao cuidado daqueles que não são mais moeda de troca?

 A questão maior é que nós que vivemos a crise da meia-idade — e digo “nós” porque me encontro nela —, geralmente com idade entre 40 e 55 anos, estamos no auge da potência produtiva na realização de vínculos familiares, fraternos, filiais e conjugais e construímos uma boa rede de relacionamentos, compatíveis com nossos interesses, que se tornaram vínculos sólidos e que nos transmitem a segurança de que seremos cuidados. Esse cuidado geralmente se dá no grupo familiar sem maiores problemas, sendo pré-estabelecido organicamente pela sucessão familiar, afinal, os membros desse núcleo já preveem que a família seja responsável pelos cuidados com os mais velhos até a morte.

A questão que precisamos tratar, dentro do contexto do tempo hipermoderno, com todas as mudanças nos valores, nos modos de existir e na forma como se dão as relações sociais, é que os relacionamentos passaram do estado sólido para o pastoso, líquido ou gasoso. Adquirir o status de relacionamento já é algo em falta, quando a pauta é a formação de vínculos, inclusive entre gerações mais jovens, entre 20 e 40 anos — precursores da meia-idade, em que os valores são pautados pela experiência de vida e por uma maior intensidade e diversidade possível no que se refere aos momentos vividos. É uma lógica que torna o projeto de vida algo planejado quase arquitetonicamente para não se perder tempo, pois este é um recurso escasso e que não se renova.

Crises da meia-idade nos despertam para a finitude, nos fazem atentar para o fato de que não se volta no tempo. Algumas pessoas começam, nesse momento, com os cuidados estéticos e o controle da saúde, de forma a se ter um corpo que drible as marcas do envelhecer. Isso resulta, sim, em algum ganho estético, fazendo parecer que ser mais jovem mantém portas abertas, afinal, ser jovem é a marca de nosso tempo. Alguns vão cuidar de um novo projeto, abandonam as carteiras assinadas e se lançam em novos desafios profissionais. Para a síndrome do ninho vazio (quando os filhos crescem ou quando se constata que não os teve), há uma oferta de atividades que o mercado do entretenimento oferece ao tédio sentido por quem se aproxima dessa fase. Para o grupo de divorciados, há uma gama de pessoas no mercado da repescagem, com suas notórias histórias, com uma bagagem de experiências e traumas sendo curados na esperança de se voltar ao equilíbrio mínimo. 

Mas até agora temos toda a ocupação vinda de fora, do material, do mundo do consumo. E o que farei com as minhas faltas de dentro? Quem vai preencher minha fome de presença, de escuta, de sentir junto comigo a vida? Quem vai estar comigo até o fim da vida adulta? Sim, precisamos falar sobre como um dia vamos morrer e nossa notória identidade cairá em esquecimento em até dois anos — isso se lembrarem de registrar que morremos, pois envelhecer traz consigo a invisibilidade de nossa passagem na terra. Triste, cru, indigesto e mal temperado, esse é o tom do desespero, da solidão que envolve essa época da vida. O etarismo é a marca hermenêutica que escancara a dor do envelhecer, fazendo cair num vazio toda a experiência viva que porta a passagem do tempo e que é negada em nossa contemporaneidade eternamente desejosa por fazer morada na adolescência. Porque, afinal, fazer família, ampliar custos e diminuir tempo ao ter filhos, nossos dependentes, em tempos de singularidade máxima, é para loucos.

Essa nudez humana e demasiada que apresento não se cura pelo material visível ofertado, pelas viagens que podemos eventualmente realizar e pela coleção de memórias. A grande memória da vida são os encontros humanos, inclusive aqueles malsucedidos, porque assim não romantizamos os desencontros e os colocamos como parte da totalidade do existir. Encontro é linguagem afetiva, presença e memória. Mas estes, tão preciosos, precisam ser construídos, em nossa época, com a urgência de quem trata o desmatamento dos vínculos pela modernidade e a escassez de tempo dedicado ao outro. Só assim podemos nos confrontar com a grande questão humana: quem sou eu a partir do encontro com o outro? Afinal, somente na construção bem cimentada do afeto é que será possível mantermos uma rede de apoio fraterna de adultos órfãos de vínculos sanguíneos, para sermos adotados “ombro a ombro” pelos amigos, companheiros de jornada que cativamos ao longo da vida. Estão inclusos aqui os amigos de infância, para quem tem a sorte de tê-los, pois eles são portadores de nosso maior bem: a identidade e a essência de uma época não corrompida pelas ideologias modernas do viver. Eles portam nossas risadas e vergonhas mais genuínas, e estas não estão em negociação para quem guardou a sete chaves os segredos da juventude.

Se é inevitável que o resultado, no grand finale, seja que tudo passa, sobrevive a isso a nossa capacidade inesgotável de amar. Se soubermos a chave para mantê-la na maturidade, teremos amor de sobra para historiar junto aos nossos companheiros de envelhe-ser. Teremos um celeiro de memórias sempre prontas para serem recordadas: do tempo que passamos juntos, dos choros, dos erros, das perdas. O mais incrível de minha rede de apoio é a diversidade: colegas de trabalho, amigos, amores e filhos. O importante, parafraseando Roberto Carlos, é que emoções eu vivi, e sem todos essas pessoas eu não teria o que contar. Vale muito a pena se vincular! 

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A partir do olhar de quem vive o envelhecimento, o etarismo vem sendo reconhecido como um preconceito contra a própria vida, autoinduzido pela falta de confiança nas capacidades de desempenho físico, emocionais, papéis sociais e profissionais e até mesmo dentro da família. A pessoa que envelhece se percebe numa imensa responsabilidade individual para enfrentar a própria jornada de vida e refletir sobre isso ao mesmo tempo que enfrenta as adversidades decorrentes da passagem do tempo. Esse cenário acaba por ser fonte inesgotável de ansiedade e preocupação sobre se tornar inadequado ou julgado como ultrapassado no seu modo de pensar, se expressar e agir por causa da idade que o tempo revela. A pessoa que está há mais tempo viva, lúcida e consciente precisa se dar conta que tem muito mais chance de perceber-se em um momento único para descobrir a si mesma, com a capacidade de abraçar novas ideias e aptidões, e de ensinar aos mais jovens, trazendo novas perspectivas para todos. É também o momento para admirar as capacidades adquiridas ao longo do tempo e sentir-se verdadeiramente responsável por aquilo que contribuiu para alcançar os objetivos. O etarismo é um contexto sério que está aqui no nosso dia a dia para lembrar a toda a gente que a idade é apenas uma parte da pessoa e suas várias capacidades estão presentes ao longo da vida, propagando um novo significado à palavra maturidade. Por isso, é importante lembrar que a responsabilidade de se dedicar a estas novas capacidades não está só nos outros, e sim em cada uma de nós (aqui neste texto vou usar sempre como contexto o artigo feminino para denominar todos os seres humanos como “pessoas humanas”).

Mas vamos ao que interessa neste nosso encontro: preciso contar rapidamente que não estamos falando das “outras pessoas”. Abre o celular agora, liga a câmera, faz uma selfie. A foto que você vê é a de uma pessoa que está envelhecendo. Pode ter 20, 30 ou 70…se passou de hoje, chega amanhã mais velha. Diante da possibilidade real de viver seu envelhecimento, como você se sente? A maioria das pessoas parece não estar bem com esta ideia, mas a realidade do envelhecimento está ao nosso lado a cada dia que passa. Talvez fosse melhor que pudéssemos compreender este processo que acontece conosco e fazer parte desta decisão e não apenas escolher ser uma vítima do tempo.

No início do século passado, em 1900, nossa expectativa de vida ao nascer não passava muito longe dos 40 anos. Hoje, nossa vida pode encontrar muito mais sentido a partir dos 40 e 50 anos e aí sim, acreditamos que o melhor está por vir. O problema maior que nos ronda é que para chegarmos aos 80 ou 90 anos ou mais precisamos envelhecer. Dizem que a pessoa que vai viver 150 anos já nasceu. E aqui vem a pergunta que eu quero explorar: e se essa pessoa que vai morrer com 150 anos for você? Você vai viver tanto tempo fazendo o que? Aos 100 anos você vai sentir que está jovial e com muita disposição para recomeçar vida ao lado de alguém? Ou você vai estar na vida com a mesma pessoa que está ao seu lado agora? Tem amor que dure tanto para todo mundo? E o trabalho? Atualmente a aposentadoria é considerada em tempo adequado quando já vivemos algo em torno de dois terços da vida que poderia ter uma duração considerada ideal na opinião de muita gente. Morrer perto dos 90 anos hoje em dia já nos parece um bom momento de partir? Se o raciocínio se manter, permaneceríamos produtivos e ativos até os 100 anos e ficaríamos 50 anos na aposentadoria. Faz sentido você manter seu ritmo atual de trabalho por 100 anos? E se você não vê sentido no tipo de trabalho que tem, teria coragem de recomeçar a vida com um novo projeto aos 100 anos? 

Imaginamos que provavelmente você deve adoecer em algum momento, mas não se preocupe demais com isso, afinal a medicina está avançando bastante em habilidades de manter alguém vivo mesmo à custa de aparelhos. Talvez não tenha ninguém que possa sorrir feliz de imaginar ficar dependente por algumas décadas talvez.  E tomara que você já tenha uma resposta cheia de alívio quando pensar em quem vai cuidar de você. E agora pensa na pessoa que você vai cuidar quando ela adoecer aos 120 anos e viver com necessidade de amor, carinho e cuidados físicos por 30 anos. Isso sim é amor, não acha?

 O mérito (ou a responsabilidade) de envelhecer bem depende muito, eu diria até quase que exclusivamente das nossas escolhas de comportamentos internos e externos realizados a cada dia, a cada momento da nossa vida. Se uma pessoa for vista apenas sob o ponto de vista físico, dificilmente vamos ter um envelhecimento de sucesso. Diante deste engano, vemos as pessoas sendo escravizadas por regras abusivas de dietas, medicamentos, vitaminas e suplementos, além da crueldade da ditadura da beleza física permanente. Assim fica impossível chegar bem nem aos 40 anos, que dirá aos 80. Imagine então viver mais 70 anos depois dos 80 na escravidão desta manutenção de figurino e desempenho tentando parecer ter menos idade ou encaixado num padrão de beleza ou comportamento considerado adequado para os dias da sua idade? 

A realidade de viver mais de cem anos talvez não seja tão sedutora depois das perguntas difíceis que fiz. Perguntas inocentes que a minha inocência infantil ainda preserva como uma capacidade nata de saber perguntar o que ninguém tem coragem e perguntar. Só vai ser possível chegar com companhias boas em idades tão avançadas se a gente for capaz de respeitar e cuidar de cada parte da nossa existência e também da existência de quem nos transforma em pessoas felizes. Felicidade genuína vem das relações humanas e não de coisas que acumulamos por usar todo o nosso tempo trabalhando e sendo produtivos. 

Os avanços da ciência e da medicina têm papel indiscutível sobre a melhora da nossa expectativa de vida. Mas existe o lado B de tudo isso: parece que as pessoas menos comprometidas com a saúde passaram a acreditar que temos fórmulas mágicas que podem resgatar todas as atitudes erradas frente às escolhas sobre os cuidados com nosso corpo. Existe uma falsa proposta de que tudo o que fizemos de errado pode ser resolvido por remédios de última geração, vitaminas e soros milagrosos, plásticas e tratamentos estéticos caros e de risco muito maior do que os benefícios oferecidos. Só envelhece bem quem viveu em plenitude cada dia da sua vida. 

Não precisa ser alegria em plenitude, precisa ser um tempo de vida. E então vamos para a angústia de metas impossíveis de controle das emoções, treinamentos mentais exaustivos sobre afirmações positivistas, crenças e mitos sobre o uso abusivo e sem fundamento dos antidepressivos e remédios para ansiedade, vão levando as pessoas não ao conforto, mas sim a mais um sofrimento: a ditadura da felicidade ou da estabilidade emocional constante: uma escravidão permanente que priva as pessoas de simplesmente viver tudo o que a vida pode oferecer. Na maioria das nossas crises, temos condições emocionais de superação, mas não temos paciência para esperar o tempo de transformação. As pesquisas cada dia mais mostram que envelhecer de maneira socialmente ativa é muito favorável. Um estudo incrível feito na Universidade de Harvard mostrou que chegar ao fim da vida feliz depende quase que exclusivamente da qualidade das relações humanas que desenvolvemos ao longo de toda a vida. Gente boa, o que faz sentido na vida não é chegar longe, mas chegar junto. E não vai ter outro caminho para viabilizar esses encontros quase eternos que não seja através da nossa capacidade natural de cuidar e nossa determinação incansável de aprender a receber cuidados. 

Sigamos valentes e amorosos com nosso corpo, nossa mente, nossa existência. Façamos o mesmo com as pessoas que amamos. E vai ser fundamental que possamos também oferecer o mesmo respeito e amorosidade com a existência de outras pessoas que nem conhecemos. Nunca saberemos em qual momento a gente vai precisar de um ato de cuidado que pode salvar nossa vida. O etarismo visto por esse outro lado pode nos despertar para um novo caminho: transformar o abandono e o preconceito através de um movimento vital: a cultura do cuidado. Vamos envelhecer bem de mãos dadas e com atenção na estrada para não descer a ladeira muito rápido, combinado?

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Com capa da artista alagoana Roxinha, a Amarello Tempo Vivido recebe a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes como editora convidada, a fim de pensar novas formas de olhar para a passagem do tempo.

Garanta a sua aqui.

Em uma época em que o “novo” é frequentemente confundido com o “melhor” e os mais novos são mais valorizados do que aqueles com mais acúmulo de vida, o tempo vivido, aquilo que temos de tão precioso, passa a não valer muito.

Quando criança, me lembro de pedir para os meus pais convidarem os amigos deles para a nossa casa e ficar escutando as tais “conversas de adulto”. Adorava ficar no canto da sala, ouvindo por horas e horas aqueles papos, que, na maioria das vezes, fugiam da minha compreensão. Ainda que não os entendessem, eles tinham a capacidade de ganhar toda a minha atenção.

Penso que essa vivência despertou em mim o interesse por pessoas mais velhas, e, desde então, busquei naturalmente esse convívio. Tenho perto de mim pessoas que são 30, 40 anos mais velhas do que eu, e nelas deposito minha total confiança.

Hoje, aos 41 anos, percebo que conviver e ter convivido com pessoas com mais experiência me trouxe referência e esteio. No mundo em que vivemos, que percebe a dificuldade das pessoas de lidar com o seu reconhecimento interno e incita suas vulnerabilidades para que sejam mantidas consumidoras ativas, isso é imprescindível. É assim que se cria a resistência para perdurar numa cultura que vende o eldorado de se chegar bem e com saúde aos 100 anos de vida, mas que não está estruturada para ninguém que passe dos 70.

O tempo é a única coisa que temos. E se engana quem pensa que, quanto mais ele passa, menos o possuímos. O axioma deveria ser: o acúmulo dos nossos anos de vida faz com que sejamos mais de nós mesmos, e, no fim, nós mesmos é o que temos de mais precioso.

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“Qualquer pessoa que pegar a história da Chic Show, vai saber que, no momento em que eles não podiam, eles fizeram”, resume o músico Thaíde, no ato de abertura do documentário Chic Show, sobre a revolucionária festa paulistana que teve seu auge nos anos setenta e oitenta.

Nelson Triunfo, dançarino da Chic Show. Foto: Penna Prearo / Divulgação.

Pense no espírito luminescente de libertação e diversão da Motown, a gravadora norte-americana responsável por produzir os mais influentes discos de soul da história, mas dê a ele, tanto em termos musicais quanto de lifestyle, uma demão ainda mais forte de resistência político-social. Em um Brasil ainda desolado e aos estilhaços da meia-vida que se sucedeu ao Golpe de 1964, talentos similares, ou até maiores, aos de Stevie Wonder e Marvin Gaye — afinal, estamos falando de divindades como Gilberto Gil e Tim Maia — ajudavam a reivindicar em alto e bom som um espaço de dignidade, reconhecimento, empoderamento e celebração, algo que simplesmente não existia para a população negra na cidade de São Paulo daqueles tempos. 

Luiz Alberto da Silva, o Luizão, criador da equipe de bailes ‘Chic Show’, é o protagonista do documentário de Emílio Domingos e Felipe Giuntini — Foto: Divulgação / Globoplay

Luiz Alberto da Silva, popularmente conhecido como Luizão, é o personagem central dessa história. Depois de entrar em contato com festas que geravam renda ao promover a exaltação da cultura negra, com sua percepção privilegiada, percebeu que, ao contrário do que se pensaria em um primeiro momento, havia uma abertura para festas maiores, ainda mais glamorosas e difíceis de ignorar — festas feitas por pessoas negras e para pessoas negras. Do seu tino aguçado de empreendedor e de seu interesse profundo pelas pessoas, Luizão foi capaz de fazer uma leitura sociocultural complexa, identificando naqueles ao seu redor, em plena Ditadura Militar, um alarido interno, silenciado muitas vezes à força, que clamava por momentos de extravasamento. A vida era dura, mas a vontade de vivê-la nunca deixou de existir, e o mínimo necessário para isso era colocar tudo para fora. Cantar alto para se livrar dos gritos presos na garganta. Era o começo de uma revolução que permitiu que pessoas negras se reconhecessem umas nos olhos das outras.

Cinquenta anos mais tarde, percebe-se que foi um movimento de resistência, reinvenção e enaltecimento da cultura negra, alavancando carreiras de jovens artistas e ditando tendências de todo o tipo. 

Disponível na Globoplay, o filme de Felipe Giuntini e Emílio Domingos adota o formato clássico de imagens e depoimentos. Mas não só depoimentos de quem esteve lá. O rol de pessoas que emprestam a palavra ao documentário é formado por artistas que se apresentaram na Chic Show — como Jorge Ben Jor, Sandra de Sá e Carlos Dafé, para citar alguns —, mas também por pessoas de gerações mais novas que, ou por serem frequentadoras ou por terem tido contato com pessoas que iam à festa (ainda que elas mesmas nunca tenham ido ao evento), testemunham a favor do impacto gigantesco da Chic Show. Essa lista vai do sambista Péricles, ex-integrante do Exaltasamba, aos ícones do rap Mano Brown e Ice Blue, do Racionais MC’s.

O cantor James Brown em cena do documentário ‘Chic Show’, de Emílio Domingos e Felipe Giuntini — Foto: Divulgação.

A Chic Show era a representação de algo bem maior, uma ideia fogosa que crepitava decibéis que nem mesmo as maiores caixas de som poderiam reproduzir. Falar sobre ela não é falar somente sobre música, cultura, hábitos e moda; na verdade, acima de tudo, é falar sobre a história do negro paulistano. “A memória, ela é poder”, diz Emicida, que presta depoimento como o filho de um pai negro que, em meio às turbulências da vida, encontrava na Chic Show um momento de finalmente aterrissar os pés no chão. “E, se essa memória começa a ficar cada vez mais distante, as pessoas começam a esquecer quem elas são. A gente precisa saber disso, mano! Se não, a gente acha que só existe tradição nos bagulho da Europa. Existe uma tradição aqui. E uma tradição muito bonita.”

Com isso em mente, o filme serve ao fortalecimento de uma memória coletiva que, pela inércia de uma sociedade racista, sempre tende a ser esquecida. O que aconteceu com Emicida — que, apesar de não ter vivido a Chic Show no tempo em que ela acontecia, herdou a vivência do pai e hoje carrega aquilo na memória — deveria acontecer com mais e mais pessoas, sejam elas negras ou não. Por sua diversidade e inventividade, a riqueza cultural brasileira dos anos setenta e oitenta salta aos olhos de qualquer um e, grande parte dessa vastidão, passa por pessoas negras. E muito disso não foi registrado devidamente, deixando-nos sobretudo com o registro memorial. Pois, então, com o auxílio do trabalho de pesquisa feito pela equipe do doc, lembremos, ao menos um pouco, dessa tradição enorme.

A Chic Show teve seu início nas periferias da Zona Sul de São Paulo, mais precisamente no bairro do Jabaquara. O evento rapidamente ganhou destaque devido à sua mistura única, em uma escala sem precedentes, de música, dança, moda e cultura negra. Chegou, inclusive, a locais que “pertenciam” a parcelas majoritariamente brancas da população paulistana, como foi o caso da Sociedade Esportiva Palmeiras, notoriamente dominada por ítalo-brasileiros. O clube, que não muito antes chamava Palestra Itália, abriu as portas para a Chic Show. Muito embora fosse pensado para a comunidade negra de São Paulo, a Chic Show atraiu uma ampla gama de pessoas de diferentes classes sociais, raças e origens. Era a comprovação do reboar abrangente da cultura que se construía. A mensagem era clara: fosse quem fosse, se você estivesse ali, tinha que compreender que aquele era o momento e o espaço para celebrar culturas e identidades que por muito tempo foram rechaçadas, escanteadas quase como um projeto de país.

Com lambe-lambes colados por toda a cidade — uma estratégia de divulgação pensada também por Luizão —, não havia ninguém na cidade que não reconhecesse aquela junção chiquérrima de palavras. O nome, portanto, que o próprio idealizador define como um “nome-irmão” do grupo Chic Samba Show, não era apenas um deleite aos ouvidos, algo que evocava uma boa sonoridade e um sex appeal forte. Para além disso, ele atribuía aos frequentadores características raramente atribuídas à população negra, refletindo a sofisticação e a elegância conclamadas em cada uma das festas, que de tão elegantes tinham pinta de tapete vermelho. Se alguém negasse o poder de qualquer um daqueles bailes blacks, de duas uma: ou não passava de mera ingenuidade ou tratava-se da velha (e não tão boa) negação preconceituosa.

A lista de artistas que contribuíram para o sucesso do Chic Show chega a impressionar. Figuras notáveis da música brasileira marcaram presença, como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá e Elza Soares. Mas a lista não é formada somente por grandes nomes do Brasil: como bem lembra o documentário, ninguém mais ninguém menos que James Brown, o rei-mor do funk e do soul, se apresentou no festejo em 1979. Nada poderia expressar melhor do que esse fato o tamanho da relevância do evento. Esses artistas não apenas entretiveram o público, mas também contribuíram para a afirmação da música negra e da cultura afro-brasileira. E não custa lembrar: tudo isso aconteceu no meio de uma ditadura militar, que, entre muitas outras coisas, era institucionalmente racista. As inúmeras dificuldades impostas ao movimento negro da época, cujas mãos estavam atadas demais para qualquer tipo de atuação, foram perpassadas por algo tão simples e revolucionário como um baile black: ali, o dedo estava em riste, mas também estava na estica.

Gilberto Gil em “Chic Show” (2023)

Outro parêntesis que o filme abre, sendo até elucidador se pensarmos nos caminhos da música black nacional, é o pioneirismo da Chic Show na discotecagem, inaugurando a era de samples feitos a partir de músicas brasileiras. Easy Nylon, renomado DJ e radialista, é quem diz: “O Easy Lee (…) pediu qualquer disco nacional para poder ensaiar e aí deram para ele o LP do Tim Maia, que tinha aquela música Você Mentiu”. E Luciano Rocha, DJ da Chic Show, arrebata: “[Ele] soltou o Tim Maia e, meu, o Palmeiras veio abaixo!” Era a cultura negra estadunidense sendo aplicada, pela primeira vez, à feição dos brasileiros. A cena relatada pelos dois DJs é capaz de arrepiar até quem não estava lá, mesmo considerando que ela não foi registrada em imagem. Basta imaginar a experiência transcendental de presenciar essa cerimônia de casamento entre a discotecagem e uma das mais fortes vozes que o Brasil já produziu.

Muito embora o filme deixe um certo gostinho de “quero mais” — seria satisfatório, por exemplo, ver mais das apresentações —, esbarrando nas limitações que os registros têm, ele consegue dar um panorama geral do que foi, e representou, a Chic Show. Em termos de empoderamento cultural, o baile proporcionou um contexto de celebração e autonomia cultural para a sempre marginalizada comunidade negra, fortalecendo a autoestima e a identidade racial. Se pensarmos em visibilidade artística, a Chic Show promoveu artistas negros, muitos dos quais conquistaram sucesso nacional e internacional após suas apresentações no evento, contribuindo para a visibilidade da produção cultural negra. Até no que diz respeito à moda e ao estilo, a festa influenciou a moda afro-brasileira, popularizando penteados afro, roupas coloridas e acessórios que celebravam a herança africana.
Tudo isso se resume bem na fala de Rappin’ Hood: “Hoje em dia, eu sou um empreendedor desse caminho. Eu tenho o meu próprio selo. Tenho minha grife de roupas. E esses caras foram inspiração para isso!”

A Chic Show serviu como estopim de uma consciência coletiva de resistência e conscientização. Não era apenas um baile, mas um movimento cultural que transcendeu gerações e continuou a inspirar a população negra brasileira a se orgulhar de sua herança e a lutar por igualdade e reconhecimento em todos os aspectos da sociedade. As batidas tocavam alto e os passos de dança eram inigualáveis, mas aquele também era um espaço para discussões sobre a luta contra o racismo e a desigualdade, construindo uma consciência e uma resistência político-social compasso a compasso. Era como se cada um presente estivesse dizendo: “Não estamos brigando, estamos dançando.” Trata-se de um legado e tanto: sem saber que era impossível, foram lá e fizeram.

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Viajando de férias, minha filha recebe uma mensagem da sua melhor amiga, coincidentemente chamada Helena. Fica contente com a lembrança e me diz: “Mamãe, quando eu voltar, quero brincar na casa da Helena. Ela é minha saudade mais favorita.” 

Fiquei um tempo pensando. O lugar da saudade dentro da gente é sempre de honra. Para ser digno de saudade, algo precisa ter sido intensamente costurado na nossa alma, com fios do metal mais precioso que existe — que nem o tempo ou a distância são capazes de apagar.

Tenho muitas saudades favoritas que me fazem companhia. São memórias nas quais passeio com frequência e me alimento em dias sombrios. Algumas pessoas me dizem que minha memória é boa. Eu concordo, até porque preciso muito dela no meu ofício para ajudar pessoas a entender que ter uma saudade favorita não é ser esburacado, mas muito pelo contrário. Saudades favoritas podem ser lugares para sorrirmos secretamente. Isso porque são exclusivos, propriedade privada. Algumas saudades favoritas são pessoas, por vezes uma cena, uma viagem, um livro, um filme. Gosto da cena do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, na qual se tenta apagar a ex-namorada da mente. Eis, então, que o personagem se reencontra com uma lembrança de ambos fazendo anjos na neve, deitados, mexendo os braços e as pernas. Gorros coloridos, o branco da neve, seus corpos fazendo formato de “x”. Ao visitar essa cena, antes de seu apagamento, insiste: “Posso ficar só com essa cena da minha namorada? Por favor: Let me just keep this memory“.

Uma vez, num passeio turístico pela Itália, o navio parou e os passageiros podiam pular no mar. Todos do barco se trocaram e se jogaram. Já eu, desavisada, não tinha maiô nem toalha. Porém decidi mesmo assim mergulhar de roupa e tudo. Era verão. Meus pais, num ato impulsivo (coisa rara lá em casa), pularam atrás de mim, também vestidos. Éramos nós três, o mar azul de Capri e o sol que batia na água que a deixava estrelada. Quando retornamos a bordo, rimos de nosso trio encharcado. Era uma travessura em conjunto. Eu tinha 25 anos e me casaria em seguida. Era uma despedida do que éramos nós três, daquela família de onde eu vinha. Essa é, definitivamente, uma das minhas saudades favoritas. Foi a primeira lembrança que pulou da gaveta da memória quando pousei no título desse texto. Minha mãe foi embora há um mês e meu pai há 11 anos. Fiquei sozinha a bordo. O difícil é não poder contar com ninguém para reviver esse momento. Eu fiquei para contar essa história. Sobrei como testemunha de que um dia não fomos só saudade. Um dia saímos juntos de férias e pulamos nessa água, éramos três. Coloquei na parede do meu consultório um quadro com esse mar, feito com um cartão postal por uma amiga artista: a água azulada, as pedras, os barcos branquinhos cheios de turistas. Eu não tenho foto dessa cena que vivi, mas tenho o quadro para recordar dessa memória quando me sentir sozinha. De vez em quando eu mergulho nessa cena, nós três de mãos dadas no mar de água gelada, refrescante, rindo como crianças da nossa inconsequência.

É que nossas memórias são como roupas penduradas no varal, no fundo da nossa mente. Às vezes, passeando por elas encontramos conforto. Uma lembrança pode nos vestir como uma roupa quentinha que o sol acabou de secar. Ou, talvez, como um casaco felpudo antigo que pule de uma gaveta num dia de frio. Foi, porém, a minha filha quem colocou a etiqueta nessa gaveta com um nome pertinente. Os meus filhos são o meu presente favorito, assim como o meu futuro azulado, tal como o mar de Capri.

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Enquanto a cultura escrita tem sido historicamente valorizada como fonte de conhecimento, a cultura visual tem experimentado um aumento significativo de atenção nos últimos tempos.

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Pinturas na Caverna de Chauvet. Imagem: Arquivo Ancient Art Archive.

É bem verdade: se considerarmos que as pinturas rupestres são as formas de comunicação mais antigas que se tem registro — as pinturas da Caverna de Chauvet, por exemplo, datam de 30 a 32 mil anos —, ou mesmo que a escrita se dá por símbolos, a cultura visual veio antes. Mas, na medida em que as sociedades foram avançando, a escrita exerceu um papel incomensurável em todo o desenvolvimento, criando uma cultura que evoluiu mais aceleradamente do que a visual. Isso pelo menos até o começo do século XVIII, quando os primórdios da fotografia já anunciavam uma revolução. Algum tempo mais tarde, foi a vez do audiovisual surgir e se aprimorar rapidamente. A televisão também entrou em campo sob aplausos e tudo que veio daí mudou o jogo por completo. Na sociedade moderna, a cultura visual se transformou naquela grande ventania que abala as estruturas e, na contemporaneidade, essa ventania virou um verdadeiro tufão. 

Impulsionada pela revolução digital, a dinâmica entre cultura visual e cultura escrita sofreu transformações profundas, refletindo mudanças na maneira como consumimos e compartilhamos informações. A escrita ainda é uma ferramenta central de expressão e comunicação, mas a cultura visual emergiu como um meio que esbanja o poder e a persuasão para se conectar com as massas. E, como não podia ser diferente, essa mudança de enfoque suscita discussões acaloradas sobre os impactos positivos e negativos da transição.

Autores como o canadense Marshall McLuhan (1911-1980) e o estadunidense Walter Ong (1912-2003), pensadores modernos canônicos que entenderam a comunicação tão bem que foram capazes de antever alguns resultados maiores a partir do que eram apenas indícios, ofereceram insights fundamentais sobre essa dicotomia. McLuhan, em seu livro Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem, de 1964, argumentou que cada meio de comunicação carrega consigo uma “mensagem” que influencia a percepção e a organização da realidade, sendo, assim, o próprio meio é uma mensagem. Ele destacou como a cultura escrita, caracterizada pela linearidade e análise discursiva, deu lugar a uma cultura visual mais imersiva e simultânea com a ascensão de mídias eletrônicas — se isso valia para 1964, imagine então para quase 60 anos adiante. 

“Se a pergunta ‘Qual é o conteúdo da fala?’ for feita, é necessário responder: ‘É um processo real de pensamento, que é em si não-verbal’. Uma pintura abstrata representa a manifestação direta de processos de pensamento criativo como eles podem aparecer em projetos de computador. O que estamos considerando aqui, no entanto, são as consequências psíquicas e sociais dos designs ou padrões conforme eles ampliam ou aceleram os processos existentes. Pois a ‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, ritmo ou padrão que ela introduz nos assuntos humanos. A ferrovia não introduziu movimento, transporte, roda ou estrada na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas anteriores, criando tipos totalmente novos de cidades, trabalhos e lazer.”

— Marshall McLuhan em Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem

“Mao”, de Andy Warhol, (1972).

Aplicando a imagem da ferrovia ao mundo virtual, percebemos como a digitalização acelerou e apresentou diversas novas possibilidades àquilo que já estava por aí antes, além de viabilizar novos formatos, surgidos como ramificações do que acelerou o pré-existente. E é seguro dizer que novos ainda virão a existir saindo desse e outros pontos de partidas, porque, no final das contas, trata-se de um trem desenfreado capaz de alçar voo a qualquer momento e abandonar os trilhos sobre os quais nasceu. 

Para Walter Ong, em Oralidade e Cultura Escrita, de 1982, as transformações cognitivas e epistemológicas acompanham a transição da cultura oral para a escrita, realçando as maneiras distintas pelas quais a palavra falada e a palavra escrita moldam o pensamento.

“Nossa compreensão das diferenças entre oralidade e alfabetização desenvolveu-se apenas na era eletrônica, não antes. Os contrastes entre mídia eletrônica e impressa nos sensibilizaram para o contraste anterior entre escrita e oralidade. A era eletrônica é também uma era de ‘oralidade secundária’, a oralidade dos telefones, rádio e televisão, que depende da escrita e da impressão para sua existência. A mudança da oralidade para a alfabetização e para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais, econômicas, políticas, religiosas e outras.”

— Walter Ong em Oralidade e Cultura Escrita

É como se a existência de uma nova era ressignificasse a era anterior. E é importante notar como a tal “oralidade secundária” acaba se repetindo, de algum jeito, nos novos formatos de hoje. Quando matérias de portais de notícia vêm acompanhadas de sua versão-podcast, reproduzimos o rádio com um verniz cibernético; quando fazemos pequenos vídeos nos TikTok, reproduzimos vinhetas publicitárias usando uma falsa máscara de pessoalidade. É difícil, portanto, pensar em quando começa e quando termina a cultura visual e a cultura escrita. É quase impossível determinar quando é uma e quando é outra, já que as duas andam tão juntas, mesmo que somente com um texto no papel ou somente com uma imagem sem palavras. 

Se o cinema e a televisão representaram uma nova era cultural, o advento do mundo digital e das mídias sociais trouxe uma nova dimensão às intersecções das culturas visual e escrita. A proliferação de imagens, vídeos e emojis na comunicação cotidiana evidencia uma crescente utilização de símbolos no dia a dia, de uma maneira sem precedentes. Em vez de “eu te amo”, um emoji de coração ou um gif com aquele personagem do That ’70s Show fazendo um coração com a mão; ao invés de “estou bravo”, um emoji com carinha vermelha ou um gif de Divertida Mente, com o personagem Raiva explicitando descontentamento. 

As comunicações, no geral, têm se voltado cada vez mais para os apelos visuais, mesmo quando auxiliadas pela linguagem escrita. Essa mudança é amplificada pela velocidade com que as informações são transmitidas e consumidas nas redes sociais, onde a instantaneidade das imagens muitas vezes prevalece sobre a reflexão textual profunda. Uma preocupação que nasce dessa nova realidade é que a migração para uma cultura voltada majoritariamente para o visual possa levar a uma diminuição na capacidade de concentração e reflexão crítica. Hoje em dia, quem tem tempo para ler um livro inteiro? Ou mesmo ler uma postagem mais extensa no Instagram ou um texto de blog falando bem sobre uma pousada nos Alpes Suíços?

Isso quer dizer que a escrita está fadada ao esquecimento? Evidentemente que não. A cultura escrita não está completamente desvalorizada e não está com os dias contados. A produção literária, acadêmica e jornalística continua a desempenhar um papel crucial na disseminação do conhecimento e na preservação da memória cultural. Aliás, a intersecção entre cultura visual e escrita é evidente na mídia impressa, publicidade, cinema e design gráfico, espaços em que ambas as formas de comunicação são usadas de maneira sinérgica para criar significado. Mas, ainda que o foco crescente na cultura visual não deva ser interpretado como uma rejeição completa da escrita, deve ser visto como uma mudança significativa na forma como a informação circula. O que não anula o grande desafio que já se apresenta há algum tempo: o de encontrar um equilíbrio saudável entre essas duas formas de expressão, reconhecendo as vantagens e desvantagens de cada uma. 

Vivemos na era da imagem rápida, tempo em que as plataformas digitais são os pilares da cultura. O compartilhamento instantâneo de fotos, vídeos curtos e memes permitiu que as pessoas se expressassem de maneiras novas e criativas, comunicando ideias complexas em uma linguagem visual acessível. Esse, aliás, é um fator de sedução digno de nota: na linguagem visual atual, a inventividade tem forte presença, muitas vezes respondendo a eventos midiáticos maiores ou explorando características dessa ou daquela geração. Cria-se, assim, um engajamento altamente atrativo. Além da criatividade, temos a concisão também como fator determinante para o sucesso de uma linguagem, passando a mensagem de maneira rápida, divertida e de fácil entendimento. A efetividade é a marca de algo que evoluiu até chegar aos moldes que estão de acordo com aquilo que as pessoas querem e estão dispostas a receber.

“Não pensamos mais na história do cinema como uma marcha linear rumo a uma única linguagem possível, nem como uma progressão rumo à verossimilhança perfeita. Pelo contrário, passamos a ver a sua história como uma sucessão de linguagens distintas e igualmente expressivas, cada uma com as suas próprias variáveis estéticas, cada nova linguagem fechando algumas das possibilidades da anterior (…). Da mesma forma, cada estágio na história da mídia computacional oferece suas próprias oportunidades estéticas”

— Lev Manovich em The Language of New Media

A dicotomia entre cultura visual e cultura escrita não é uma batalha pela supremacia, mas uma interação complexa e em constante evolução. Ao reconhecer os méritos e as limitações de ambas as formas de comunicação e promover uma abordagem equilibrada, podemos navegar com sucesso na era digital, aproveitando o poder da cultura visual enquanto mantemos a riqueza da palavra escrita. Tudo é fruto de seu tempo. Pensar nas características da comunicação atual revela aspectos tanto positivos quanto preocupantes do nosso comportamento coletivo e da forma como nos relacionamos com a informação, a comunicação e a expressão.

A cultura visual é uma linguagem global que transcende barreiras linguísticas e culturais, permitindo que as mensagens alcancem audiências em todo o mundo. Isso pode refletir uma sociedade mais conectada e globalizada. Mas nem tudo são flores. Enquanto celebramos a acessibilidade e a criatividade proporcionadas pelo visual, também precisamos enfrentar os desafios potenciais que podem afetar características humanas fundamentais para o desenvolvimento de futuros melhores, como o pensamento analítico. É crucial encontrar um balança entre imagem e texto para garantir que possamos navegar com sucesso nas complexidades do mundo contemporâneo. É dançar para não dançar.

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