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#47Futuro AncestralCulturaSociedade

Uma experiência coronária da filosofia africana: amor, futuro e ancestralidade

por Katiúscia Ribeiro

A filósofa Katiúscia Ribeiro é a editora convidada da edição Futuro Ancestral.

“A espiritualidade, a vida espiritual nos dá força para amar”
— bell hooks

Amar sempre permeou o sentido primeiro da nossa existência. Em uma sociedade alicerçada pelo desamor, amar passou a ser o antídoto primordial para a manutenção da vida e para a promoção de um futuro vivo. Em Vivendo de amor, a escritora ancestral bell hooks sinaliza que as violências coloniais impactaram diretamente os povos africanos na diáspora, fazendo uma contenção do amor, construindo um modelo de humanidade moldado no não amor, para que se violentas sem e assim pudessem ser dominados. A epígrafe acima da autora é contundente e diz muito sobre as questões apresentadas ao longo desta conversa escrita. Ao afirmar que a espiritualidade “dá força para amar”, me atrevo a dizer que a extensão dessa força nos ajuda a seguir, a viver, a recriar e a modelar o futuro.

Amar é um sentido vivo nas filosofias africanas, pois está ligado à maneira como essas filosofias estão vivas em nossas vidas, correndo em nosso sangue, seguindo os ritmos compassados do coração. Para entender essas duas dimensões, do amor e das filosofias africanas, que são inerentes uma à outra, é preciso sentir. Sentir o soar do som que vem do coração, esse elemento sensorial que nos conecta com nossa maneira de perceber a realidade presente. É preciso sentir as águas que banham nossos espíritos, a terra que fertiliza nossas histórias, é preciso mergulhar no todo e sentir-se parte dele. Nesse sentido, a filosofia se conecta simbioticamente com a ancestralidade, sendo um exercício que começa na alma e se expande. Assim, para essa filosofia, é preciso abandonar a ideia restritiva da cosmovisão e assumir integralmente a agência[1] africana e a “cosmossensação”, um fazer filosófico que a partir dos sentidos traz à tona a necessidade de resgatar e valorizar o conhecimento ancestral africano como uma fonte de sabedoria e inspiração para a construção de um futuro sustentável e humano.

A filosofia africana possui elementos para uma “reontologização”[2] a partir do paradigma centrado no poder das narrativas cosmológicas e em suas complementaridades. Compreender esse paradigma passa pelo reconhecimento de que a relação harmônica entre os elementos são da ordem de “uma relação científica, uma ciência inteira de integração e harmonização da existência material da Terra com a existência humana, garantindo a saúde a longo prazo de ambas” (NEUSI, 2019, p. 4).

Nessa orientação cosmológica, o Ser se relaciona no interior do universo de uma forma íntima, tendo uma concepção de ser humano em sua totalidade física, espiritual e metafísica. A compreensão de qualquer fenômeno deve passar pela totalidade, por um todo organizado de acordo com “os ciclos da vida e os ritmos circulares da natureza” (MONTEIRO-FERREIRA, 2014, p. 177), o universo em perfeita harmonia e cuja manutenção é o próprio sentido da existência. Além disso, a totalidade implicada na cosmogonia africana é uma totalidade espiritual, e isso significa que existir é viver como um ser espiritual. Há, portanto, uma relação intrínseca de espelhamento entre a ordenação cósmica e o ser humano em suas relações sociais, de modo que a realidade material é entendida como uma manifestação espiritual, uma relação ancestral.

A ancestralidade aparece, nas realidades africanas, como um agente de reconhecimento e construção da realidade a partir do seu caráter de conexão. Uma base que sedimenta os modos culturais, que forma indispensavelmente os sistemas de valores e é a espinha dorsal de todos os elementos: culturais, sociais, educacionais etc. Essa noção ancestral, compreendida filosoficamente desta forma, corporifica e configura quem somos enquanto unidade, por isso pensar o futuro a partir das filosofias africanas desde os tempos imemoriais pode ser um caminho possível para repensar as relações da humanidade.

Esta edição apresenta um percurso alicerçado nas filosofias africanas e em cada texto exibido será possível perceber isso. Esta curadoria se responsabilizou por apresentar outras e novas noções de realidade e propostas de mundo que rompem com os muros do absolutismo ocidental. O absoluto é essa verdade inquestionável, esse saber imposto e incontestável, uma razão irrefreável à qual se supõe que devemos nos submeter. Entretanto, cabe a nós, estudiosos, pensadores e sociedade como um todo desenvolver a capacidade de questionar esses sistemas de verdade e estruturas sólidas e intransigentes de saberes na busca por novos horizontes.

Assim, as filosofias africanas, a partir da herança ancestral, são fundamentadas na ideia de que a vida humana está intrinsecamente ligada à vida dos antepassados e nela há respostas, exemplos, modelos, estruturas, epistemologias e caminhos para pensar e construir o futuro. Os ancestrais são seres espirituais que continuam a influenciar e guiar a vida dos vivos, transmitindo conhecimentos, valores e princípios que são essenciais para a sobrevivência e o bem-estar da comunidade, eles são filósofos além do espaço-tempo. Essa percepção de mundo valoriza a conexão entre passado, presente e futuro, reconhecendo a importância de honrar e preservar a memória dos antepassados como forma de fortalecer a identidade cultural e promover a coesão social.

Na incerteza do futuro, temos uma base sólida e muito bem estruturada no passado das filosofias africanas, ressaltando a importância de reconhecer e valorizar a diversidade cultural africana, entendendo que elas possuem um vasto repertório de saberes e práticas que podem contribuir para a resolução dos desafios contemporâneos.

Uma das principais contribuições para a construção de um futuro mais justo e igualitário está na valorização da comunidade e do coletivo. Ao contrário da visão individualista predominante na sociedade ocidental, que visa a noção de TER, temos nesse saber a noção do SER, enfatizando a importância do cuidado mútuo, da solidariedade e da cooperação como princípios fundamentais para nos conectar de volta à natureza e não mais tratá-la como o diferente. Mais do que a convivência harmoniosa entre os seres humanos e a natureza, é preciso reconectar a humanidade à natureza, nos colocar como parte dela.

No Brasil podemos tomar como exemplo a Filosofia Quilombista, apresentada por Abdias Nascimento, ou o pensamento contracolonial baseado nos saberes quilombolas do Mestre Nêgo Bispo, ambos presentes nesta edição. Essa perspectiva coletiva é essencial para enfrentar os desafios globais, como as desigualdades sociais, a degradação ambiental e a violência estrutural. Temos nos quilombos brasileiros um exemplo vivo, como reforça a Dra. em Filosofias Africanas Lorena Silva Oliveira: “O conceito quilombismo tornou-se uma ideia-força para o povo negro brasileiro, pois esses territórios são a maior referência de agência política, manutenção e valoração à vida, à ancestralidade e à liberdade”.

Outro aspecto relevante é a valorização da espiritualidade e da conexão com a natureza. Para os povos africanos, a natureza é vista como um ser vivo e sagrado, com o qual os seres humanos, mesmo sendo parte dela, devem estabelecer uma relação de respeito, cuidado e harmonia. Essa visão holística da vida é fundamental para repensar a forma como nos relacionamos com a terra e seus múltiplos ecossistemas. A urgência da sustentabilidade, no marco temporal do ocidente, não é uma questão nova aos povos africanos e originários, por isso podemos nos espelhar nesses povos, que em suas espiritualidades entendem a natureza como fonte, origem da vida.

Um dos aspectos mais importantes das casas de Àṣẹ no Brasil é a não dicotomia entre Ser/Universo, Humano/Natureza, relações de mutualidade que interligam todos os seres vivos, recompõem e promovem uma rede de colaboração entre todos. É no todo harmônico e equilibrado que ações de mulheres e homens, que concebem a natureza como elo de sabedoria, conhecimento e vida, transformam o presente e modelam o futuro. Esse conceito vivo do cosmos, presente nos terreiros de candomblé, é uma herança ancestral que compreende o universo como algo em sua totalidade quando está integrado também pelo espiritual.

Ancestralizar o futuro implica, portanto, em reconhecer a importância do passado na construção do presente e do futuro, valorizando a diversidade cultural africana, promovendo a solidariedade e o cuidado mútuo, estabelecendo uma relação de respeito e harmonia com a natureza e questionando os padrões de pensamento eurocêntricos. Essa abordagem pode ser uma fonte de inspiração e orientação para enfrentar os desafios contemporâneos e construir uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável. Por isso, cada texto desta linda edição é um convite de um vir a ser!

Uma das formas de colocar em prática as filosofias africanas da ancestralidade é por meio da valorização e promoção da cultura africana. Isso envolve o reconhecimento da importância das tradições, rituais, danças, músicas e línguas africanas como expressões culturais valiosas que devem ser preservadas e celebradas. Além disso, é fundamental garantir a inclusão e a participação ativa das comunidades africanas na construção das políticas públicas e na tomada de decisões que afetam suas vidas.

Outro aspecto importante é a educação, também em destaque nesta edição. É necessário incluir nos currículos escolares o estudo das filosofias africanas da ancestralidade, para que as gerações futuras possam conhecer e valorizar as riquezas dos conhecimentos ancestrais africanos. Além disso, é fundamental promover a diversidade cultural nas escolas, garantindo a representatividade e o respeito às diferentes culturas e tradições, como sinaliza o mestre João Paulo Ignacio nesta edição em um potente texto que nos convida a uma travessia de saber, educar e ancestralizar.

A promoção da justiça social também é um elemento central nas filosofias africanas da ancestralidade, encontrados em Maat[3], a figura de uma deusa negra, com um dos seus joelhos no chão, os braços abertos e uma pena de avestruz em sua cabeça, como coroa. Mas essa é apenas uma imagem alegórica que não define a complexidade de Maat[4], que, de princípio tão complexo e integrativo, não é possível traduzir em uma só palavra, mas sim em três: verdade, justiça e harmonia. Assim, na ancestralidade encontramos um modelo ético de uma justiça integrativa. Isso implica dizer que em combater as desigualdades sociais, econômicas e raciais, garantindo o acesso igualitário a recursos e oportunidades para todos os membros da sociedade. Além disso, é necessário enfrentar as estruturas de poder e os sistemas de opressão que perpetuam a marginalização e a discriminação das comunidades africanas e afrodescendentes.

Por fim, é importante ressaltar que pensar um futuro a partir das filosofias africanas da ancestralidade não significa ignorar ou rejeitar os avanços da ciência e da tecnologia ocidentais. Pelo contrário, trata-se de integrar diferentes formas de conhecimento, a partir de um paradigma pluriversal, reconhecendo a validade e a complementaridade de diferentes perspectivas. É necessário buscar um diálogo intercultural e interdisciplinar, que permita a troca de saberes e a construção conjunta de soluções para os desafios contemporâneos.

Em suma, pensar um futuro na ancestralidade é reconhecer a importância do passado na construção do presente e do futuro, valorizando a diversidade cultural africana, promovendo a solidariedade e o cuidado mútuo, estabelecendo uma relação de respeito e harmonia com a natureza e questionando os padrões de pensamento eurocêntricos. Essa abordagem pode ser uma fonte de inspiração e orientação para enfrentar os desafios contemporâneos e construir uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável.

Ancestralidade, enquanto princípio filosófico, é de ordem coronária sair do campo da materialidade racional e pensar com o coração, sentir com o coração e analisar a vida pulsante, que possibilita se reconhecer e continuar um legado que nasce a todo tempo e se mantém vivo no pulsar de nossa existência materializada em diversas ações e oralituras. Assim, aceite o convite com que a Revista Amarello lhe presenteia neste momento para refletir nossos rumos e sentidos de viver. Porque como sinalizei em outro texto há algum tempo: “Pensar a ancestralidade não está em compreender qual o sentido da vida, a partir de texto complexo e termos difíceis, está em viver em movimento com a vida, este eterno vir a ser, é uma roda, sem fim, porque o futuro é ancestral”.

Notas:

[1] A agência é a capacidade de dispor dos recursos psicológicos e culturais necessários para o avanço da liberdade humana (…) estou fundamentalmente comprometido com a noção de que os africanos devem ser vistos como agentes em termos econômicos, culturais, políticos e sociais. O que se pode analisar

em qualquer discurso intelectual é se os africanos são agentes fortes ou fracos, mas não deve haver dúvida de que essa agência existe. Quando ela não existe, temos a condição da marginalidade — e sua pior forma é ser marginal na própria história (…) Os africanos têm sido negados no sistema

de dominação racial branco. Não se trata apenas de marginalização, mas de obliteração de sua presença, seu significado, suas atividades e sua imagem. É uma realidade negada, a destruição da personalidade espiritual e material da pessoa africana (ASANTE, 2008, p. 94). –

[2] Conceito apresentado pelo Me. e Teólogo Jayro Pereira, propondo uma reformulação no sentido de Ser a partir dos saberes ancorados nos saberes africanos.

[3] Maat é reconhecida como Ntr (Neteru), força simbólica feminina que organiza os princípios de justiça, retidão, equilíbrio, harmonia e reciprocidade; divindade suprema que governa a realidade e, para além da realidade, força motriz que organiza o universo. Suas 42 provisões são a base do Shetaut Neter, ciência espiritual da África antiga alicerçada nas leis físicas e naturais, responsável pela manutenção das ordens cósmica e social. Maat é filha de Rá, e estava ao seu lado no barco celeste quando emergiu das águas matriciais ao lado das demais neterus, sendo também conhecida como “o olho de Rá”. (Ribeiro, Katiúscia. Tese de doutorado. UFRJ 2022).

[4] A deusa Maat, usando uma alta pena de avestruz em sua cabeça como seu símbolo, era chamada de filha de Rá, ou o olho de Rá. Ela também era conhecida como dama dos céus, rainha da terra, senhora do submundo e amante de todos os deuses. Cenas rituais retratam reis egípcios apresentando uma estatueta de Maat aos deuses como um dom supremo. (OBENGA,2017, p. 24)

Bibliografia:

ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade: Notas sobre uma posição disciplinar. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin. (Org.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009a, p. 93-110.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.

MONTEIRO, Ana Maria. Da Ontologia à Antropologia de Mata: A Dimensão Metafísica e Ética da Alma. 2014. Gaudium Sciendi, Número 6, 2014

 NEUSI, Kimani. “Humanity and the Environment in Afrika: Environmentalism before
the Environmentalists” in M. Muchie, P. Lukhele-Olorunju and O. Akpor (eds.) The African Union Ten Years After: Solving African

OBENGA, Théophile. Egypt: Ancient History of African Philosophy. In: WIREDU, Kwasi (Org.). A Companion to African Philosophy. Massachusetts: Blackwell Publishing, 2004. p. 31-49.

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Le Corbusier (1887-1965) foi possivelmente o mais influente arquiteto do século XX. Não só o mais influente: o mais controverso também. Com o centenário de seu clássico manifesto Por uma arquitetura (Vers Une Architecture, no francês), vale refletir sobre o que a tapeçaria teórica e a prática contida na obra representou, e representa, para a arquitetura contemporânea. Tanto a obra em questão quanto a carreira de Le Corbusier foram construídas a partir de ideias realmente inovadoras, mas ideias que, de acordo com muitos especialistas (munidos, claro, com o distanciamento temporal), não tinham em vista o mundo assim como ele. 

Independentemente disso, fato é que há um pré-Corbusier e pós-Corbusier. Não é sempre que vemos esse papel de divisor de águas atribuído à uma única pessoa, e isso vale para qualquer área. Ou seja: controverso, sim; irrelevante, jamais.

Nascido em 1887 na Suíça, Le Corbusier começou sua vida profissional como pintor e designer de móveis. Foi em seus tempos de aprendiz de relojoeiro, aliás, que começou a desenvolver uma consciência de estrutura e sua apurada precisão, algo fundamental em tudo que produziu posteriormente. Seu interesse por arquitetura, o levou a se matricular na Escola de Artes de La Chaux-de-Fonds, onde estudou sob a orientação de Charles L’Eplattenier (1874-1946), um mentor crucial que o introduziu ao pensamento vanguardista da época. Em 1907, se embrenhou profundamente na cena artística parisiense ao se mudar para a capital francesa. Lá, trabalhou com arquitetos proeminentes, como Auguste Perret (1874-1954) e Peter Behrens (1868-1940), adquirindo uma compreensão profunda da aplicação de materiais modernos em projetos arquitetônicos. Essas experiências o ensinaram a enxergar beleza em uma abordagem funcionalista do design, quando a forma segue a função e não ao contrário — eis a filosofia que se tornaria um pilar fundamental da arquitetura moderna.

Le Corbusier não apenas revolucionou a forma física dos edifícios, mas também introduziu novos materiais e técnicas construtivas. Ele foi pioneiro em adotar o concreto armado como material de construção principal, o que permitiu a criação de estruturas mais esbeltas, abertas e flexíveis. Essa abordagem inovadora influenciou a estética da arquitetura moderna e contribuiu para a rapidez e eficiência da prática da construção. 

Tendo em vista essa sua veia radicalmente transformadora, logo se imagina que, por trás de tudo (ou na frente de tudo), houvesse uma pessoa detentora de um arcabouço teórico amplo capaz de estruturar ideias de maneira clara e sedutora. Além de seus projetos arquitetônicos e urbanísticos, Le Corbusier era um prolífico escritor e teórico — o que nos leva ao famoso Por uma arquitetura.

Publicado como livro há cem anos, em 1923, baseado parcialmente em artigos anteriores, Por uma arquitetura é um manifesto do modernismo que defendia a aplicação tecnológica a projetos de edifícios, tomando a beleza e a lógica das máquinas e da engenharia de viadutos, transatlânticos e silos de grãos como a mais importante. O manifesto também promove — há quem diga “acima de tudo” — o próprio Le Corbusier, como um homem (quiçá, o único) habilitado a dar vida ao novo mundo proposto. É um caso clássico de um egocentrismo que, de boca cheia, diz: “O mundo precisa disso e ninguém melhor do que eu para fornecê-lo”. Em defesa de Corbusier, se havia alguém que podia fazer isso à época, era ele. E, de um jeito ou de outro, Le Corbusier o fez. 

Usando combinações de fotografias, desenhos medidos e esboços, o livro mostra imagens de carros e aviões ao lado do Partenon e da catedral de Notre Dame, considerando as cidades como receptáculos inevitáveis de toda e qualquer tecnologia. Estabelece, assim, cinco princípios-mor de design, que propõem novas formas de construir cidades, com torres de 60 andares implantadas entre vastos jardins e campos desportivos, servidas por auto-estradas de múltiplas faixas, e também blocos de “vilas-apartamentos” de vários andares onde cada casa tem o seu próprio jardim.

Os cinco princípios são:

Os pilotis — Le Corbusier propunha elevar os edifícios do chão, apoiando-os em pilotis (colunas). Essa abordagem permitia a criação de espaços abertos no térreo, liberando o solo para jardins, estacionamentos e uma maior circulação. Os pilotis também enfatizavam a separação entre o edifício e o solo, criando uma sensação de leveza e permeabilidade visual.

A planta livre — Espaços internos de um edifício deveriam ser flexíveis e livres de paredes estruturais, possibilitando uma adaptação fácil dos espaços de acordo com as necessidades dos ocupantes. Com a estrutura sustentada pelos pilotis e sem paredes de suporte, os interiores poderiam ser organizados de forma mais eficaz.

A fachada livre — A fachada de um edifício não deveria mais desempenhar um papel estrutural. Isso permitia a criação de grandes janelas e uma fachada mais leve, enfatizando a relação entre o interior e o exterior. As fachadas poderiam ser projetadas com aberturas generosas para a entrada de luz e ventilação naturais.

A janela em fita — Janelas em faixas horizontais ao longo das fachadas dos edifícios. Simples. Isso não apenas fornecia uma vista panorâmica do ambiente externo, mas também garantia uma distribuição uniforme de luz natural em todo o espaço interno. Essa abordagem transformou a qualidade dos espaços interiores.

O telhado jardim — Le Corbusier acreditava na utilização dos telhados como espaços habitáveis ou de lazer. Essa ideia promovia uma melhor utilização do espaço e incentivava a integração da natureza na arquitetura. Os telhados podiam ser transformados em jardins, áreas de recreação ou até mesmo espaços para atividades ao ar livre.

A maneira como apresentava tais preceitos era também um grande chamariz. Um dos muitos motivos para o sucesso, a abrangência e a longevidade de Por uma arquitetura, é o fato de que a obra conta com um manancial de frases marcantes, dignas de serem usadas facilmente como um ardil que se leva na bolsa ou como palavras que estampam uma camiseta. A mais conhecida delas é a que diz, em tom futurista, que “Uma casa é uma máquina de morar”. Além dela, “A paixão faz das pedras inertes um drama” e “A arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz” também entram na lista de citações memoráveis e persuasivas. Para além desse caráter progressista da maioria delas, a veia frasista mostra a importância que mensagens fortes têm, em especial na apresentação de ideias inovadoras que não necessariamente tem uma aplicação prática boa e imediata.

Mas justiça seja feita: Le Corbusier colocou, sim, suas teorias em prática. Para citar algumas obras, ele projetou a Unité d’Habitation em Marselha, um monumental bloco de apartamentos que tirava do papel suas ideias sobre habitação coletiva. Temos também as Maisons Jaoul, um par de casas em um subúrbio de Paris construídas com tijolos de barro e abóbadas robustas. Muitos, no entanto, defendem que ele criou as regras para desrespeitá-las e, portanto, muito do trabalho posterior a Por uma arquitetura se distanciou do que o próprio preconizou anos antes. Mais tarde em sua carreira, especialmente de 1945 adiante, ele rompeu com seu apego a linhas limpas e formas primitivas, explorando concreto áspero e formas curvas de forma livre. Exemplo disso é sua igreja de Notre-Dame du Haut, no topo de uma colina, em Ronchamp, no leste da França.

Unité d’Habitation em Marselha, França. Imagem: Gili Merin

Goste ou não, Le Corbusier foi uma força criativa imponente — e, talvez, egomaníaca — que transformou para sempre a sua disciplina. Seus edifícios inspiraram admiração, às vezes devoção. Como todo ícone, também foi, e é, vigorosamente atacado, como um fanático mecanicista cujas ideias inspiraram torres desumanas e selvas de concreto. Sua visão de planejamento urbano às vezes negligenciava as nuances culturais e as necessidades específicas das comunidades locais. Se, a título de exemplo, analisarmos mais atentamente a ideia de erguer edifícios sobre pilotis para permitir que o jardim se estenda por baixo da residência, logo se percebe que ela é um tanto estranha. Pode mesmo haver um jardim natural sem chuva e luz solar? Simbolicamente, você poderia ver o pilotis como um dispositivo para separar o edifício do solo e uma negação da dependência da terra, ou mesmo como uma afirmação de domínio e controle sobre a natureza. 

Villa-Savoye. Imagem: Paul Kozlowski/FLC/ADAGP

Outro fator muito criticado hoje em dia é que os planejamentos urbanos de Le Corbusier tinham o automóvel como centro. A arquitetura do movimento moderno baseava-se na presunção de combustíveis fósseis baratos e ilimitados, além de outros recursos finitos. É claro que, somente 50 anos depois da publicação de Por uma arquitetura, a consciência começou a ser formada e tal ideia passou a ser questionada. Mas isso em nada ajuda a visão em retrospecto que, para o bem ou para o mal, se dá nestes tempos em que a nossa relação com a natureza é o principal desafio da continuidade humana. Enquanto tentamos, cem anos depois, fazer as pazes com o mundo tanto em termos ambientais quanto sociais, Por uma arquitetura utilizava uma linguagem de limpeza, limpeza e eficiência, de um tipo que tende a apagar tudo o que é esteticamente diferente ou espacialmente diferente. Na argumentação corbusiana, “diferença” ganha conotações extremamente negativas e problemáticas. 

Notre-Dame du Haut. Imagem: Luke Stearns

Além disso, seu envolvimento com regimes autoritários sempre levanta questões éticas e políticas. Ele se tornou cidadão francês em 1930, aliando-se à extrema-direita. Fez parte do comitê de urbanismo da França de Vichy, liderada pelo marechal Philippe Pétain (1856-1951), que colaborou com a Alemanha nazista durante a Segunda Grande Guerra. Argumenta-se que os envolvimentos políticos de Corbusier tinham menos a ver com ideais e mais a ver com uma estratégia para conseguir produzir suas ideias, percebendo que, para tanto, tinha que ter amigos poderosos que lhe concedessem licitações. Isso justificaria a troca de correspondência não só com Adolf Hitler (1889-1945), mas também com Benito Mussolini (1883-1945) e Joseph Stalin (1878-1953). A contra-argumentação, porém, é das mais simples: seja com qual propósito, apertou mãos que não devia.

A fala de Denise Scott Brown, pioneira da arquitetura e arquiteta pós-moderna, sintetiza bem a maneira como Le Corbusier é visto sob a ótica contemporânea: “Amo as casas dele, mas ele não entendia como as cidades funcionam.” Essa é uma boa amostra, acima de tudo, porque respinga para os dois lados, o da admiração e o da rejeição, duas instâncias bem presentes quando o arquiteto é mencionado atualmente em qualquer roda de discussões. Ela continua: “Ele olhou para Nova York e disse que, quando as ruas estão retas, a mente fica clara. Adoro isso, mas quando ele diz que tudo deve ser retangular, está completamente errado. Ele não sabia relacionar nada com nada, não sabia como funcionavam os sistemas de movimento. Le Corbusier escreveu que as cidades da Europa foram construídas por burros, com as ruas moldadas em torno dos seus trilhos. Ele insulta o burro, diz que ele é preguiçoso e anda em círculos quando deveria ir direto. Mas o burro segue o caminho que faz sentido, contornando uma elevação no terreno em vez de passar por cima dela, e é assim que se obtêm os lindos padrões das cidades antigas. O burro não é preguiçoso, é um funcionalista.”

Embora muitas de suas visões tenham enfrentado críticas e desafios práticos — não só no presente, mas desde que foram apresentadas —, elas deixaram uma marca duradoura no pensamento urbanístico e inspiraram discussões sobre como projetar cidades para atender às necessidades das pessoas e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente. Diante do centenário de Por uma Arquitetura, é essencial reconhecer que Le Corbusier não apenas moldou a arquitetura moderna, mas também contribuiu significativamente para a maneira como pensamos sobre o espaço e o ambiente construído. Seu legado perdura como um testemunho de como a visão e a inovação podem transformar radicalmente nossa relação com o mundo construído, ainda que com problemáticas vindo de todos os lados. 

Onde quer que ele esteja — possivelmente em um projeto urbanístico que aplica à outra dimensão os 5 princípios-chave da arquitetura — deve estar pensando: “Qu’on parle de moi en bien ou en mal, peu importe.” Ou: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim.”

Le Corbusier em 1953. Imagem: Willy Rizzo.

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Era uma vez uma menina curiosa chamada Alice, que meteu o nariz onde não devia e encontrou-se perdida no país das maravilhas, que – diga-se de passagem – era também um país perigoso, com chapeleiros malucos, gatos risonhos e rainhas assassinas. 

Em dado momento, Alice se encontra encolhida a meros sete centímetros de altura. Uma lagarta fumando um cachimbo lhe diz, “um lado fará você crescer, o outro fará você diminuir”. Um lado de quê, Alice indaga. Do cogumelo, responde a lagarta. Alice mordisca o cogumelo, cautelosa. Ela diminui rapidamente, mas antes de desaparecer por completo, consegue mordiscar o outro lado. Ela cresce vertiginosamente, ficando com um pescoço enorme. Um pássaro lhe confunde com uma serpente e ataca seu rosto. Ela morde um pouco de lá e um pouco de cá do cogumelo, e assim volta ao seu tamanho normal.

Que cogumelo mágico seria esse, que dá à Alice o poder de crescer e diminuir? Que, em doses alternadas, lhe permite calibrar seu crescimento e lhe faz sentir-se normal em um mundo todo virado do avesso? É impossível saber o que Lewis Carroll, o autor do clássico da literatura infantil, teria a dizer sobre a recente onda de interesse nos cogumelos psicodélicos. Mas ao que tudo indica, podemos seguir a moral da história da Alice e seu cogumelo – o importante é acertar a dose.

Há milhares de anos, povos indígenas dos quatro cantos do mundo fazem uso de substâncias psicodélicas encontradas na natureza, em cogumelos, cactos, sementes, folhas e árvores, para fins cerimoniais e medicinais. No século XX, estas substâncias começaram a ser reproduzidas sinteticamente em laboratórios. Imagine o susto do suíço Albert Hoffmann, que “descobriu” o efeito alucinógeno do LSD após ingerir, sem querer, uma quantidade desconhecida do químico, quando trabalhava como pesquisador para uma empresa farmacêutica. Sua descoberta logo disseminou-se pelo mundo, despertando o interesse do campo da psiquiatria, ainda em seu início.

Os psicodélicos, cujo nome vem do grego psico (mente) e delo (visível), logo caíram nas graças da contracultura hippie. Consequentemente, muitos governos passaram a classificá-los como substâncias controladas, na busca de controlar o movimento paz e amor. Os anos 70 viram uma onda de proibição, e os estudos médicos com substâncias alucinógenas cessaram.

Agora, estão voltando com atenção ao tema. A mais recente onda de interesse espalhou-se a partir do Vale do Silício, onde profissionais criativos começaram a praticar a microdosagem, ingerindo uma dose tão pequena que os efeitos psicodélicos não são ativados, mas que supostamente traz benefícios como o aumento da produtividade, criatividade e energia, e afasta males como a ansiedade e a depressão. A prática foi ganhando adeptos, que buscam aumentar a performance no trabalho, mas principalmente por aqueles que visam melhorar a saúde mental.

Vivenciamos um momento em que a depressão e ansiedade estão saindo das sombras e sendo abertamente discutidas. A pauta da saúde mental está em alta. O uso de antidepressivos a partir da década de 1950 revolucionou o tratamento dos transtornos de humor, mas sabemos hoje que esses medicamentos podem causar efeitos colaterais adversos. A psiquiatria busca novas avenidas para tratar as milhões de pessoas sofrendo mundo afora, e um possível caminho é o uso de psicodélicos. Tanto os presentes na natureza, como a mescalina encontrada em algumas espécies de cactos e a psilocibina derivada dos cogumelos da Alice, quanto os fabricados em laboratório, como o MDMA, vulgo ecstasy, e dietilamida do acido lisérgico, o famoso LSD.

Mas o que diz a ciência sobre os supostos benefícios dessas substâncias? Infelizmente, não muito. Por enquanto, existem poucos estudos abrangentes, e aqueles realizados contam com uma amostragem pequena. Por serem substâncias altamente regulamentadas pela lei, estudos em que possam ser administradas em um ambiente controlado, como em um hospital, por exemplo, são poucos. A grande maioria dos testes, portanto, depende do autorrelato de pacientes. Estes, por sua vez, não são sempre de confiança, nem podem ser controlados para descontar o efeito placebo.

Sem estudos controlados, em que se possa padronizar o ambiente, a dosagem e eliminar outros fatores que possam influir o resultado, não há um consenso médico sobre os benefícios de tal tratamento. No Brasil a terapia com a microdosagem de psicodélicos não é regulamentada pelos órgãos de saúde, e, portanto, a sua prescrição médica é proibida. Além do mais, muitas das substâncias continuam ilegais por aqui.

É difícil dizer, portanto, qual o futuro do tratamento psiquiátrico com o uso de psicodélicos. Qualquer que seja, devemos lembrar que perder-se no país das maravilhas pode ser perigoso se não soubermos nos dosar. 

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Era 13 de janeiro de 1854 em Santo Amaro. Nascia Hilária Batista de Almeida. Desde muito jovem, Hilária já se destacava por seus feitos. Com apenas 16 anos teve  papel fundamental na criação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, no Recôncavo baiano. As irmandades eram organizações que agregavam indivíduos de diversas origens sociais, estabelecendo laços de solidariedade que se organizavam com o propósito de promover a devoção a um santo padroeiro e também para fins beneficentes para os membros que se comprometeram a participar das atividades da irmandade. Os benefícios oferecidos – como assistência em caso de doença, invalidez ou morte – variavam de acordo com os recursos disponíveis na irmandade, sendo proporcionais às posses financeiras de seus membros. Num período de total ausência de direitos e políticas voltadas para as populações negras, as irmandades foram essenciais na garantia da dignidade destes indivíduos. Essa irmandade, que é fundamental nas historicidades negras até os dias de hoje, faz parte do seu legado. Como filha de Oxum, foi iniciada nas tradições religiosas da nação Ketu na casa de Bambochê.


Aos  22 anos, mudou-se  para o Rio de Janeiro, onde construiu uma nova família ao casar-se com João Baptista da Silva, um funcionário público. Segundo relatos históricos, tiveram quatorze filhos. Ela continuou a seguir as práticas e os ensinamentos religiosos na casa de João Alabá,  onde foi Mãe Pequena. Hilária passa a ser conhecida por outro nome. E, assim, firma-se o legado cultural e religioso de Tia Ciata.


Ciata finca raízes na região que hoje conhecemos como centro do Rio de Janeiro. Morando primeiramente na Pedra do Sal, passando pelo Beco João Inácio, posteriormente residindo no número 304 da Rua da Alfândega, com passagens pelas ruas General Pedra e Rua dos Cajueiros. Entre 1899 e 1924, residiu na Rua Visconde de Itaúna. O centro da cidade do Rio de Janeiro tem muito de Ciata. Durante esse tempo, ela desempenhou um papel crucial na solidificação do samba carioca e tornou-se uma figura de destaque nas comunidades negras da Pequena África e do Rio de Janeiro como um todo.

Ciata desempenhou um papel crucial como uma das tias baianas pioneiras na introdução da tradição das baianas quituteiras no Rio de Janeiro. Essas mulheres, as tias baianas, foram responsáveis ​​por estabelecer esta tradição e por uma estética própria e africanizada, com suas roupas coloridas, colares, contas e pulseiras enquanto mantinham uma base sólida religiosa e política que permeava suas atividades. Foi nos quintais de baianas como Tia Ciata que nasceu o samba, e nesses mesmos espaços eclodiram movimentações culturais e simbólicas que forjaram identidades negras na diáspora brasileira. Considerado o primeiro samba, “Pelo telefone” foi composto numa roda de samba no  quintal-terreiro de candomblé de Tia Ciata.

O século XX teve seu início marcado por uma grave crise habitacional. A população aumentou, e a quantidade de habitações não. Nessa equação, os mais fragilizados faziam parte da população de baixa renda. Isso resultou no aumento constante da superlotação e na interferência das casas alugadas. A ausência de habitações populares a preços acessíveis forçou uma grande parcela de trabalhadores com baixo poder aquisitivo a viver em condições insalubres e precárias, amontoados em casas e cortiços no antigo centro da cidade. Essas eram habitações coletivas que tinham deixado uma marca profunda na paisagem urbana da cidade ao longo do século XIX, sendo alvos da chamada “ação modernizadora” da República. A localização central desses cortiços despertou grande interesse entre os setores envolvidos na especulação imobiliária, que viram ali uma oportunidade de negócios lucrativos. Além disso, as teorias higienistas viam nos cortiços a grande causa para epidemias de doenças respiratórias, contagiosas e toda sorte de má saúde que assolava a cidade. Era um caso evidente de racismo e preconceito de classe mascarado de política pública de saúde e urbanização.

Segundo essa perspectiva, dos cortiços emanavam não apenas doenças e epidemias, mas também indivíduos desocupados, dependentes químicos, praticantes de jogos de azar, delinquentes, pessoas embriagadas e “marginais”. Consequentemente, esses locais eram vistos como territórios perigosos, habitados por indivíduos com potencial para representar ameaças. Assim, era necessário traçar estratégias para conter essa população e os efeitos por ela causados na cidade. Começa o processo de erradicação das habitações populares por meio de sua remoção física e deslocamento de seus moradores da área central da cidade. O primeiro alvo da ação de demolição da modernização republicana foi o famoso cortiço conhecido como “Cabeça de Porco”. Situado na Rua Barão de São Félix, era o maior cortiço da cidade. Os cortiços e seus moradores deveriam abrir espaço para a construção de amplas avenidas destinadas ao trânsito comercial e para a edificação de novos edifícios de escritórios, armazéns, cafés, teatros e cinemas. Porém, não houve preocupação com os novos locais de moradia desta população e nem foram propostas políticas de longo prazo para resolver as questões de habitação no Rio de Janeiro.

Assim, famílias inteiras que precisavam manter-se próximas da região central para trabalhar, começaram a subir os morros. Como os moradores tinham as mesmas origens dos que habitavam os antigos cortiços – é importante notar a carga de preconceito embutida em toda essa “História” – os estigmas subiram o morro também. Então, para as elites, era imperativo exigir a luta que havia começado contra os antigos cortiços, uma vez que o “adversário” – ou seja, as “classes perigosas” – permanecia o mesmo, apenas se manifestando em maneira e localidade diferentes. Começa assim uma série de movimentos, às vezes incisivos e diretos e por vezes ambíguos, para “resolver o problema das favelas”. Um que merece destaque foi promovido pelo prefeito à época: Pedro Ernesto. Ele foi um dos pioneiros em adotar uma política de aproximação com as favelas e seus moradores, registrando as dificuldades enfrentadas e, ao mesmo tempo, buscando capitalizar politicamente a partir dessas mesmas adversidades. Um exemplo disso: Pedro Ernesto tinha pelo menos 100 afilhados em várias favelas da cidade e se colocava como uma espécie de intermediário entre os interesses dos moradores de favelas e o governo. Esse mesmo Pedro Ernesto foi figura emblemática e importante para pensarmos a história das baianas no Brasil.

A partir de 1929, o poder público começa a organizar o carnaval popular, que acontecia em periferias da cidade e também era visto como manifestação cultural das ditas “classes perigosas”. Cortiço, favela, carnaval e baiana têm muito em comum. Nesse processo são definidas as rotas dos desfiles, o apoio financeiro às associações, bem como a criação de estatutos e regulamentos para a distribuição desses fundos, e é nesse contexto que se firmam no âmbito carnavalesco figuras como a baiana e o malandro. Em 1933, o prefeito Pedro Ernesto criou a ala das baianas nas escolas de samba, através de decreto de lei. Assim, ela passa a ser oficialmente incorporada aos desfiles das escolas de samba. Desde então, o grupo de baianas passa a ser elemento significativo que dialoga entre a tradição e as inovações dos carnavais das escolas de samba. Essa ala carrega não somente uma tradição carnavalesca. Ela simboliza também um pedaço da história do Brasil e apresenta um repertório estético específico.

O uso do termo “baiana” para se referir às mulheres negras trabalhadoras da Bahia começou a surgir no final do século XIX e foi associado mais ao estilo de vestimenta de origem africana e às tradições culturais que essas mulheres mantinham, como suas crenças em religiões afro-brasileiras e habilidades culinárias, do que à sua procedência geográfica. As baianas extrapolaram as fronteiras de cidades, estados e países. A representação da baiana é formada por elementos visuais que se relacionam com a variabilidade  de contextos sociais e históricos.

O traje tradicional da baiana, tal como conhecemos atualmente, é composto por diversos acessórios e elementos visuais diversos, incluindo uma saia longa e redonda, que por vezes esconde uma anágua ou armação. Saia essa enriquecida com rendas, turbante ou torço na cabeça, pano da costa, batas rendadas e balangandãs. Essa vestimenta é uma evocação às roupas usadas pelas “tias baianas”, mulheres que migraram da Bahia para o Rio de Janeiro com suas famílias, muitas das quais eram vendedoras de acarajé e iguarias, e que estabeleceram comunidades com sua própria expressão cultural nesse novo ambiente e fizeram brotar, em seus quintais, ervas, incidência política e muito samba.

Assim como o primeiro samba, “Pelo Telefone”, o Império Serrano nasce na casa de uma mulher negra, liderança local, Dona Eulália do Nascimento. Fundou-se em 23 de março de 1947, durante uma reunião na Rua Balaiada, número 142, no Morro da Serrinha.

A agremiação surge de uma dissidência da escola de samba Prazer da Serrinha. Entre os seus fundadores há nomes essenciais no cenário do samba carioca como Sebastião Molequinho, Elói Antero Dias, Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira, Aniceto Menezes, Antônio dos Santos (Mestre Fuleiro) e Eulália do Nascimento. O nome “Império Serrano” foi sugerido por Sebastião Molequinho e faz alusão ao Morro da Serrinha. As cores da escola, verde e branco, foram escolhidas por Antenor Rodrigues de Oliveira. O símbolo do Império é a Coroa Imperial Brasileira. São Jorge é reverenciado como o santo padroeiro da agremiação.

E é essa miscelânea que nos leva à Avenida Edgard Romero, 114, em Madureira, no Rio de Janeiro. Lá, Geni Lopes, presidente da ala das baianas, recebe-nos com sorriso e braços abertos. Chegar ao Reizinho de Madureira – forma carinhosa de chamar o Império Serrano – e ser recebida pelas baianas é como mergulhar num mar verde e branco. Cheio de histórias, movimentos, cheiros e sorrisos. As baianas são o coração de qualquer Escola de Samba, e no Império Serrano não é diferente. São senhoras, idosas, mães, avós, tias que carregam a ancestralidade e o axé do samba. A ala teve muitas personagens emblemáticas como Jovelina Pérola Negra, Tia Maria do Jongo e Dona Ivone Lara. Segundo Marta D’Oyá, baiana do Império:

“A baiana é a mãe do samba e o Império sempre foi uma escola democrática, cantando a democracia. Nós tivemos mulheres importantíssimas na ala das baianas. Se estamos aqui é porque essas mulheres botaram o pé. Elas foram pastoras da escola, foram baianas. O samba só era aprovado quando passava pelas pastoras. Pastoras e baianas sempre andaram lado a lado. A religiosidade que existe aqui é muito forte. Isso tem que ser falado.

”Assim, agradecemos as Yabás Dalva Reis (59 anos), Sônia Conceição (68 anos), Lucia Iara (65 anos), Márcia Helena (60 anos), Marta D’Oyá (56 anos),  Lucimar da Silva (61 anos), Maria de Lourdes (67 anos), Maria Elisabeth (75 anos), Maria Lúcia (74 anos), Sandra Maria (69 anos), Regina Antunes (79 anos), Vera Lúcia dos Reis (68 anos), Vera Lúcia Cunha (61 anos), Geni Lopes (57 anos) e Vera Lúcia do Nascimento (76 anos). São essas algumas das guardiãs do samba imperiano e, mais do que isso, guardiãs da história, do tempo e da memória daquelas que plantaram a semente da cultura brasileira. 

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07:15 
Acordo.
Olho-me no espelho. 
Tenho 44 anos.
Sorrio. Um leve franzir de testa. 
Apesar do breve contentamento, sei bem que a toxina botulínica não irá cessar a passagem do tempo em minha face. Os tratamentos estéticos podem ser eficientes para prevenir temporariamente o surgimento das rugas de expressão, mas o tempo urge em minhas células, que não param de se movimentar em seu ciclo de vida — nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.

O processo de envelhecer nos lembra que somos finitos e nos faz confrontar, cedo ou tarde, a nossa transitoriedade. 

Em Sobre a transitoriedade (1915), Freud descreve o diálogo com um jovem e famoso poeta enquanto os dois caminhavam em um ensolarado dia de verão. O poeta admirava a beleza da paisagem, mas, porque era efêmera e logo desapareceria, com a chegada do inverno, não conseguia extrair dela qualquer alegria. O psicanalista argumentava que a beleza, justamente por ser transitória, deveria ser apreciada.

Esse pensamento me fez lembrar do meu tempo vivido — e o espelho que me encara, parece me perguntar:
— Como se sente?
— Às vezes eu sinto que o tempo da vida flui mais rapidamente do que as batidas do meu coração. 

Preciso me arrumar. O tempo foge. É hora de ir para ir para o trabalho. 

Ao caminhar para o consultório, me ocorre uma cena do filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino. Aparece uma sorridente mulher, de jaleco. Ela segura um grande espelho. Em uma sala suntuosa, pessoas de diferentes idades esperam ansiosas pelo médico e o restante de sua equipe — ovacionados avidamente quando chegam. Inteligente e ácida, a cena nos presenteia com a fala do médico a uma de suas pacientes, uma senhora idosa. Em sua onipotência, confundindo-se com alguma grandiosa divindade, o médico, durante a aplicação de botox nos lábios da senhora, questiona:
 — Quer voltar trinta anos, quando chovia no fim de agosto? Eu levo você lá.

O cenário imaginado pelo cineasta italiano, embora fantasioso, não me parece muito distante do que observo em meu dia a dia, nas redes sociais. Deparar-se com as perdas que o envelhecimento traz é difícil, por isso, muitas vezes consciente e outras tantas inconscientemente, mascaramos, burlamos ou mesmo negamos essa condição.

Acredito que precisamos cotidianamente cultivar o sentimento de aceitação do envelhecer, que é um processo contínuo inerente à vida. Será que nos tornaríamos mais cuidadosos com a nossa saúde e com as nossas relações afetivas? Ficaríamos menos assombrados com as mudanças que nos são impostas pelo tempo? Reconheceríamos com mais facilidade o potencial criativo ainda existente nessa fase?
Viveríamos melhor?

***

Abro a porta do meu consultório. O sol avança pela janela e, ao fundo, vejo o divã. São nove horas da manhã.

***

14:40 
Laura estaciona o carro próximo ao parque Ibirapuera e, apressada, caminha em direção ao consultório do seu analista. Não sabe bem o motivo, mas observa que está quase correndo. Do que estaria correndo? Finalmente, chega e aguarda pela sessão, conferindo o relógio a cada minuto. 

— Laura!

Cumprimentam-se à distância. Ela deita no divã, encanta-se ao notar a bela orquídea que traz cor à sala austera. 

— Hoje faço 45 anos.
Silêncio.

Ela fecha os olhos e se vê transportada para o momento em que se deu conta de que se tornara uma mulher adulta. Ocasião de profunda alegria. 

Agora, ao completar mais um ano de vida, esse sentimento vem acompanhado de algo novo: pensa nos cabelos brancos que começaram a aparecer quando ela tinha 42 anos, pensa na dor do joelho que sentiu na última viagem que fez com seu marido, pensa amorosamente nos filhos crescidos e em seus pais. 

Um poema que fez aos 20 anos lhe vem à mente. Resolve declamá-lo.

Não se mova!
O céu está estrelado, lindo!
Mamãe caminha na quadra…Não se mova!
Papai, deitado na rede, ao som do silêncio da noite escura, dorme.
Sonha?
Não se mova?
Sinto medo do amanhã.

Depois, com a voz embargada, complementa:

— Sabe, Zé Francisco, tenho a impressão de que sempre vivi em descompasso com o tempo. É assustador perceber a finitude em tudo o que amo e em mim mesma, assim como é estranho perceber que meu corpo, por exemplo, que me é tão familiar, está se modificando. Movimento invisível que me escapa e desorienta. O que me espera?

 — E não estamos sempre em misteriosa travessia? — ele responde, de forma terna.
Laura se deixa transbordar.
O analista se comove ao pensar que ele, um homem de 75 anos de idade, e ela, uma mulher trinta anos mais jovem, compartilhavam, naquele instante, a percepção de sua frágil condição humana. 
Cada qual em sua impermanência.Uma emoção rara ocupou o clima da sessão, que estava próxima do fim. 

*** 

16:20 

Combinei de encontrar um amigo na frente do Auditório Ibirapuera. Preciso achar uma vaga de estacionamento. Vejo uma mulher entrar em seu carro. Eu não a conheço — é Laura. Ela parte e estaciono o meu veículo onde antes estava o seu. Aproveito que tenho alguns minutos de sobra e sigo pelo parque, deixando o sol tocar a minha pele. 

Avisto o Renato.

Durante o tempo que passamos juntos ele desabafa questões pessoais relacionadas à sua experiência de paternidade. A força com que entoa suas palavras sinceras e ásperas me faz perceber o quanto sofre. Diz sentir que a pessoa que um dia foi havia morrido com o nascimento do filho.

O menino, que tem cinco anos de idade, é uma criança amorosa e cheia de energia. O pai o ama profundamente e se dedica a ele com todo afinco, mas também se ressente, segundo ele. A chegada do filho levou sua liberdade e independência. Em paralelo, vive com pesar as mudanças físicas e emocionais de um homem de quase cinquenta anos. 

A vitalidade exuberante do menino coexistia com a vivência dolorida da perda da sua. Esse pai — em luto e nostálgico de um tempo passado — frustrava-se com o tempo presente, distinto daquele que desejava. Vivia uma profunda sensação de estranhamento em relação a si mesmo e a sua vida atual. 

Despeço-me do meu amigo e passo a refletir sobre o teor de nossa conversa.

Estaria se dando conta da passagem do seu tempo ao se defrontar com o alvorecer de seu filho? Poderá renascer? 

Torço para que ele elabore seu luto — talvez possa lembrar-se de viver a beleza do seu momento presente.

***

20:30

À noite, recebo a ligação de uma grande amiga, Manoela, que admiro tanto por sua capacidade de lidar com as agruras da vida quanto por seu humor irreverente. Pergunta se eu seria uma das testemunhas do seu testamento. 
Inusitado lembrete?
Despojada e livre de julgamentos, ela me falou: 

— Na manhã do meu aniversário, acordei mexida ao perceber que já era mais velha do que minha mãe jamais foi. Espero viver por muitos anos, mas, se o câncer voltar, quero deixar tudo organizado.

 Depois, me pergunta: 
—  Você acha esse convite fúnebre? A gente precisa quebrar o tabu que é falar sobre a morte… 
Minha amiga sabe bem que não é eterna. Ela fez 48 anos, e aos 35 teve câncer de mama. Recuperada há anos, segue saudável. Perdeu sua mãe, Ana, para essa doença. Recordo-me bem desse dia: eu tinha 12 anos e estava estudando matemática quando o telefone tocou. Eu gostava muito da Ana.
 
***

23:00 

Hoje, 18 de agosto, minha querida avó, Iracema, faria aniversário. Dizem que herdei as suas feições e seu corpo longilíneo. Vovó Cema morreu dois anos depois do meu nascimento — pouco a conheci. Como eu gostaria de, agora adulta, poder conviver com ela!

Sinto esse tipo estranho de saudade. 
É bom saber que sou parte dela e que a sua existência, de certa maneira, continua através da minha. 
Alcanço um dos livros à cabeceira da cama e me emociono com um poema de Walt Whitman.

Pleno de vida agora, consistente, visível, 
Eu, quarenta anos vividos, no oitenta e três dos Estados, 
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.
Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e dará realidade a meus poemas, voltando-te para mim,
Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu amigo:
Faz de conta que estou contigo (e não duvides muito, porque eu estou aí nesse momento).

***

Encontros transitórios que nos marcam — no infinito movimento do tempo.

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Onde puseram o seu trono, senhora?

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Não existe senhora preta sem história triste pra contar
(…)
Quantas vezes já parei pra refletir
que os seus passos são pesados
quase sempre esparramados
os dedos na sandália sempre gastas de unhas grossas e esmalte por tirar.
Por onde passaram esses pés?
Quanta sola já foi gasta,
quanto a pé já não andou,
quanto aperto não passaram esses pés
para que o luxo dos sapatos novos
fosse dado somente aos tantos filhos.
E quanto aos seus filhos,
qual deles ainda lhe faz a gentileza
de cortar suas unhas?
Quanto pescoço e pé de galinha comeu
fingindo que gosta
para deixar as outras partes do ensopado
a quem mais ama?
Ninguém gosta de pescoço de galinha, senhora.
Enquanto caminha no sol
por ser calor sua pele sua
e a toalha de mão arrasta naquela testa
O que pensa aquela testa?
Quanto de pensamento não esquentou aquela testa além do sol?
Esse suor que toca salgado a raiz do cabelo na testa.
Quem ainda te alisa o cabelo?
Quem ainda te obriga a fazer isso?
Quanta ordem esse cabelo já recebeu?
Quanto tempo de sua vida ali em frente ao espelho infeliz com ele
Onde deita essa cabeça, senhora?
E quando deita, qual teto enxerga até adormecer?
O que sonhou essa cabeça?
Quanta inteligência nessa cabeça
A do cozinhar, a do costurar, a do resolver tudo por conta própria
foi substituída pela vergonha do não saber como ensinam nas escolas
Do não saber falar.
Quanta timidez senhora, por não saber falar.
Quanta vergonha sob essa testa que a toalha de mão arrasta foi obrigada a passar.
Eu vejo uma dor que é suada e seca,
Como se mesmo chorando, essa senhora preta nunca tivesse sentido pena de si do jeito que a gente chora.
Quanta pena de mim eu já senti
por perder um ônibus na minha pressa,
Quanta pena de si ela deixou de ter
por não ter podido mesmo se dar esse luxo.
Quanto choro silencioso e seco já chorou nesses seus setenta,
Sessenta, sessenta e oito anos.
Quanta simplicidade contemplou como se ouro fosse
Quanta alegria te deu a laje pronta,
a festa que a filha foi de sandália nova,
porque a sua já tão gasta ainda aguenta esse passo firme.
Em direção a quem caminham esses pés?
Qual o seu desejo pra hoje, senhora?
É que seus filhos sejam felizes?
É que tenha lugar na condução?
Qual seu lugar, senhora, explica.
Porque me entristece a injustiça dos que não te enxergam aqui passando majestosa.
Onde puseram seu trono, senhora?
E de repente, já terminei aquela rua e aquela senhora já caminhou
pra não sei onde
E aquela energia pendente como rastro no caminho
me faz indagar coisas como:
Quem cortará minhas unhas quando eu for senhora?
Quanto ainda caminharei até encontrar meu trono?

— Luciene Nascimento, em Tudo nela é de se amar.

Na primeira vez que li esse poema, ele me rasgou. Me partiu ao meio. Na segunda também. E na terceira. E na quarta, na quinta, em todas. Porque ele tem cheiro, tem gosto e tem rosto. O da minha avó. O da minha mãe. O de tantas nós.

Eu sou neta de duas mulheres negras. Maria Teixeira de Carvalho e Maria Aparecida Leite Nunes. A primeira nasceu em Campos dos Goytacazes, município do interior do estado do Rio de Janeiro. A segunda, nasceu na Comunidade Quilombola Sítio dos Crioulos, situado na zona rural da cidade de Jerônimo Monteiro, região sul do Espírito Santo. Ambas migraram para a cidade do Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. As similaridades entre elas não param por aí. As duas começaram a trabalhar muito cedo em “casas de família”, tomando conta de outras crianças enquanto eram crianças também, limpando a sujeira que os mais abastados não queriam limpar. Essas duas mulheres negras se encontraram no Morro do Juramento, zona norte do Rio de Janeiro, onde meus pais se conheceram e constituíram a família que me origina.

No poema Vozes-mulheres, Conceição Evaristo escreve:

A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A linha narrativa desenhada pela autora retrata o caminho percorrido por muitas famílias negras. Em meio a violações, processos de escravidão e racismo contemporâneo, tentamos construir possibilidades outras de existir. Quando leio Conceição e Luciene, me recordo de uma conversa que tive com Dona Miguelina, minha parente do coração. Ela nasceu em Maceió, capital do estado de Alagoas. Veio para o Rio, como minhas duas avós. Ainda muito jovem, foi empregada doméstica. Alguns dos trabalhos desempenhados não eram remunerados financeiramente. A casa, a alimentação e por vezes um sapato ou vestidinho novos eram “a paga” pelos serviços prestados. Essa conversa mudou algo dentro de mim. Dona Miguelina não tinha dimensão da exploração que tinha vivido. Também não tinha o ódio que me surgiu ali, naquele momento, ao ouvir que a família era “até carinhosa”. Eu não conheci essa família, mas, de longe, eu a odiei, devo confessar. Não me senti digna de falar para uma senhora de mais de 70 anos que algo que ela guarda como memória afetiva era exploração. Não houve militância, leitura ou acúmulo acadêmico que desse conta do que aconteceu ali naquele quarto-sala na favela Nova Holanda. Mas desde então me pus a pensar nisso.

De tempos em tempos, emergem nos veículos de comunicação e redes sociais casos de situações de trabalho análogo à escravidão, nas quais geralmente senhoras negras foram as vítimas. Isso falando dos casos que ganham visibilidade. Sabemos que há milhares de histórias como essas soterradas. Um desses casos veio à tona em abril de 2022 e aconteceu em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. Madalena Santiago da Silva tinha oito anos quando começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família de classe média alta baiana. Durante todo esse tempo, Madalena não recebeu salário. Em muitos momentos, sofreu violências e maus tratos, sem contar o racismo. Além disso, a filha dos patrões fez empréstimos no nome dela e ficou com R$ 20 mil da aposentadoria da empregada doméstica. Esse caso evidencia a falta de fiscalização eficaz por parte das autoridades, bem como a exploração impiedosa e o desrespeito aos direitos humanos mais básicos. Após ser resgatada, Madalena foi entrevistada por Adriana Oliveira, repórter da TV Bahia. Durante a conversa, a jornalista pegou na mão de Madalena, que disse: “Fico com receio de pegar na sua mão branca”. Adriana insistiu no toque, afirmando que não havia diferença entre as duas.

Quando tinha 61 anos, Leda Lúcia dos Santos foi resgatada de uma casa onde trabalhava desde os nove anos, no bairro Patamares, também em Salvador, sem receber pagamento. A idosa, que já havia tentado fugir diversas vezes — sendo ameaçada em todas — não sabia que tinha o direito de ganhar dinheiro pelos serviços prestados. Após o resgate, Leda passou a receber um salário mínimo e vive em um abrigo municipal.

Na cidade de Fortaleza, em maio de 2023, uma senhora de 78 anos, de nome não divulgada, foi encontrada em situação de trabalho análogo à escravidão. Ela prestava serviços há mais de 40 anos para a mesma família. A “remuneração” era casa e comida. Ela não recebia salário. Além disso, a senhora não tinha folgas ou férias. O trabalho era de domingo a domingo, por 40 anos a fio.

De forma geral, a “terceira idade” ou velhice costuma ser o momento em que nós, mais novos, vislumbramos o tão sonhado descanso após anos de trabalho. É quando esperamos ter o reconhecimento por nossas contribuições para a sociedade e sonhamos com o gozo pleno de direitos, um pouco menos amarrados pelas cordas da produção capitalista. Mas, falando de pessoas negras, muitas vezes o tão sonhado descanso não chega em vida.

Os três casos citados expõem uma ferida aberta nas sociedades ocidentais: a falta de cuidado com os mais velhos, especialmente os negros, indígenas e empobrecidos. As condições de trabalho enfrentadas por essas senhoras, bem como as encontradas pelas minhas avós e por Dona Miguelina são herança de uma mentalidade colonial que vê em mulheres negras de mais idade o lugar da abdicação, do cuidado e, por que não, da exploração. Os quartos de empregada são senzalas pintadas de modernidade.

Assim, é importante nos questionarmos: quem tem direito a envelhecer? Conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizada em 2019, em Santa Catarina, um dos estados brasileiros com uma das maiores rendas médias per capita, a expectativa de vida média era de 79,9 anos. Já no Maranhão, o estado com a menor renda média do país, a expectativa de vida média naquele ano foi de 71,4 anos. É relevante ainda a informação levantada no Relatório Anual das Desigualdades Raciais do Núcleo de Estudos de População, elaborado pela Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp), de que os brancos vivem seis anos a mais que os negros, em média.

A maior parte da população brasileira é composta por pessoas negras (pretas e pardas). Porém, esses grupos enfrentam maiores desafios em relação ao acesso à educação, à saúde e ao saneamento básico e estão mais expostos a condições de trabalho degradantes, o que resulta em limitações no acesso a direitos básicos, como salário-mínimo e aposentadoria. Além disso, pessoas negras sofrem com níveis mais elevados de violência e são as principais vítimas de processos de genocídio, especialmente os homens negros.

Quando li o poema de Luciene Nascimento, além de sentir o cheiro da minha avó, me lembrei de uma pergunta que me perturbava a cabeça quando era criança e assistia ao Sítio do Picapau Amarelo na TV: porque a marca da farinha de trigo se chama Dona Benta, se quem faz as receitas é a Tia Anastácia? Eu mesma espantava a pergunta de minha mente, pois achava que era bobagem. Não é.

É histórico o processo de roubo de histórias de nossas mais velhas, negras. É histórico o roubo de suas vidas. Tia Nastácia é frequentemente retratada como cozinheira da família, caracterizada por sua pele escura e por seu corpo gordo, sendo muitas vezes rotulada como a “negra de estimação”. Sua posição, marcada pela subordinação e pelo serviço à família da fazenda, ilustra o estereótipo da mulher negra que dedica sua vida a uma família branca, conhecida como “mãe preta”. Esse estereótipo é recorrente em produções cinematográficas, novelas e séries. Ele contribui para um imaginário que faz parecer natural explorar a mão de obra de mulheres negras por anos e não lhes pagar um único centavo.

Há um provérbio africano que diz que, quando um velho morre, é uma biblioteca que queima. Isso porque são os mais velhos e as mais velhas que, por seu tempo acumulado e vivido nesta terra, guardam uma maior quantidade de vivências e saberes. Afinal, percorreram muitos caminhos que podem ajudar quem está chegando agora na estrada da vida. Porém, para que essas bibliotecas possam compartilhar seus conhecimentos e desfrutar da leveza do ser ainda precisamos avançar enquanto sociedade e quebrar o paradigma de vivermos num tempo em que muitos querem envelhecer, mas poucos respeitam aqueles que já chegaram lá.

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Numa tarde em Capri, diante do espetáculo de moças jovens bronzeadas atravessando a piazzetta na qual bebíamos nossos Camparis, lancei-lhe a pergunta: “A juventude te seduz?”
— Annie Ernaux, em “O Jovem”.

Arte da alagoana Roxinha.

Envelhecimento é palavrão no universo da beleza. Geralmente acompanhando de cifras bilionárias que movimentam uma indústria irrefreável em busca de tecnologia para atenuar sinais do tempo e também de um vocabulário excessivamente bélico. Você já deve ter cruzado com embalagens, campanhas publicitárias e rótulos com promessas de combater o tempo, enfrentar a guerra contra as rugas, ou vencer a batalha contra o relógio. 

Se não anda acompanhado de armas de guerra, esse território ganha ares metafísicos de quem pode voltar no tempo, frear o passar dos anos, operar milagres e conservar a juventude eterna. Juventude vende, e muito. Sonho mágico, já que a única certeza que temos é que vamos envelhecer – e, na melhor das hipóteses, vivendo mais e melhor do que as gerações que nos antecedem.

Nos últimos anos, há um esforço de quem pensa o tema em olhar para o léxico em torno do envelhecimento nessa seara da estética. Mas não só, este é um movimento global, que vai além da beleza e ganhou termos específicos, como ageshaming, ageísmo, idadismo ou velhofobia, como a antropóloga brasileira Mirian Goldenberg gosta de dizer. E mobiliza mais do que especificamente essa indústria – um relatório recente da Organização Mundial de Saúde, somente sobre o tema, coloca luz à importância de discutirmos o preconceito contra idade em instituições, leis e políticas do mundo todo porque nega às pessoas direitos de viverem de acordo com o seu pleno potencial em uma sociedade que, no mundo ideal, não deveria deixar ninguém para trás.

Perla Servan Schreiber, intelectual francesa de 78 anos e cofundadora da revista Psychologies, é uma das autoras que fala sobre a passagem do tempo de forma realista, lembrando que vivemos uma fase global de revisão e rompimento com conceitos sociais e políticos que atravessam a nossa concepção de idade. “Ainda temos uma noção imaginária de idade que não corresponde mais à realidade de envelhecer nos dias de hoje. Por isso, quero dizer, em alto e bom som: sim, ainda somos sedutoras, ativas, populares, cheias de desejos e sexualidade”.

Há essa ideia, especialmente no universo de beleza, que envelhecer merece desculpas ou disfarce. Faz, sobretudo as mulheres, em busca da juventude eterna, sentirem vergonha ou lamentarem quando as rugas aparecem, a menopausa dá as caras, o corpo e a libido se transformam em comparação aos 20 e poucos anos. Sophie Fontanel, jornalista francesa de moda, despontou nas redes sociais com mais de 50 anos quando resolveu não disfarçar que queria assumir o cabelo grisalho (história que virou até livro best-seller). Em uma conversa, ela me contou que decidiu passar pela transição dos fios tingidos de castanho para o branco total assumindo a “fase zebra”, como nomeou, porque queria que, nas ruas, as pessoas vissem que atravessava a mudança sem precisar disfarçar que envelhecia. “Muitas vezes, pela manhã, olho no espelho e penso ‘parece que tenho 80’. Acho importante aceitar a verdade, você não é a mesma pessoa todos os dias do ano. Alguns dias me sinto muito jovem, meu corpo está diferente, a pele está melhor. Em outros está pior. E o modo como você se olha muda tudo”, me disse.

Numa outra ocasião, enquanto acompanhava uma série de retratos da Cecília Dean, de 54 anos, que construiu uma carreira como modelo antes de fundar a Visionaire, uma das publicações mais inovadoras quando o assunto é moda, arte e design, ela me disse que sempre ficava em dúvida se sorria, ou não, nas fotos. Porque sorrir deixava a pele dos olhos mais enrugada, mas a expressão séria e controlada de modelo não tinha mais tanta relação como ela se sentia. “Quando não sorrio e vejo as imagens penso ‘pareço tão séria, mais velha’. É isso: sorrir te faz parecer automaticamente mais alegre e mais bonita. Acredito que a idade só incomoda quando você não está feliz com o lugar que ocupa no mundo. Eu, ao menos, nunca gostaria de voltar aos meus 20 anos. Tive momentos maravilhosos e memoráveis, mas não desejo fazer o caminho de volta. Me sinto tão mais esperta hoje, tão mais experiente. Tenho conhecimento sobre coisas que eu não tinha, consigo enxergar detalhes que não poderia antes, tomar decisões mais rapidamente. Tenho uma clareza genuína que só melhora com o passar do tempo, mesmo que você sinta as mudanças físicas.”

Há mais de uma década, quando vi Patti Smith no palco pela primeira vez, fiquei encantada com a forma como ela se movimentava. Hoje, ela continua sexy, graciosa, à vontade, confiante enquanto canta. Com o cabelo branco cheio de textura, a calça jeans, camisa e tênis característicos. Descrições que não comumente fazem associação direta aos seus 76 anos. 

A atitude de todas elas me faz pensar que não há uma trilha única ou maniqueísta. A memória de um rosto mais jovem é sedutora, mas tão cara quanto as lembranças do que vivemos. Só não deveria figurar como a única métrica de valor ou objetivo central de aceitação e autoestima femininas. Essa consciência também não torna o processo de envelhecimento estritamente positivo. Não há a ilusão da ”melhor idade” quando a decadência e transformação física ficam mais evidentes. Mas a combinação de saberes, desejo por longevidade e aspectos emocionais intrínsecos a envelhecer pode ser tão valiosa quanto ao corpo que enxergamos no espelho. 

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No atribulado cenário da sociedade contemporânea, um preconceito às vezes sutil, às vezes explícito se manifesta, sempre de maneira indigesta, em um dos espaços mais cruciais para a significação e a realização humana: o ambiente de trabalho. O etarismo — nome dado à discriminação baseada na idade — revela-se como um desafio persistente que permeia diversas esferas, com particular intensidade em setores profissionais altamente mutáveis, como os da comunicação e o da tecnologia, que se transformam a cada dia, com as inovações que não param de chegar e que clamam por implementação urgente. Enfrentar esse preconceito exige não apenas compreensão profunda dos problemas subjacentes, mas também uma mudança de paradigma que valorize a diversidade etária e reconheça as contribuições únicas trazidas por aqueles com mais de 50, 60, 70 anos.

O mercado de trabalho atual demonstra uma inclinação notável ao etarismo — um pendor que não é de hoje, mas foi acentuado nos últimos anos. A muitos setores, jovialidade e inovação parecem ser qualidades inerentes, tidos quase como sinônimos de qualidade e retorno (em um caso ou outro, até de economia), levando à marginalização dos trabalhadores mais experientes. Não é necessário recorrer a exemplos extremos: o jornalismo, agora sem contar muito com a mídia impressa, precisa se adaptar a cada instante para sobreviver; a publicidade, diante de um mar de possibilidades, tem que estar por dentro de todos os novos formatos e linguagens para ser efetiva; os programadores, já frutos tecnológicos, têm que aprender códigos e mais códigos para responder a demandas que há seis meses simplesmente não existiam; e por aí a banda toca, com as notas de um ciclo sem fim. Nesse processo, o preconceito subestima talentos, ao gerar uma atitude generalizada que não só perpetua estereótipos negativos sobre a capacidade de aprendizado e adaptação dos profissionais mais velhos, como também desperdiça os reservatórios de sabedoria — que podem, sim, ser aplicados às novidades de qualquer mercado.

A experiência é uma fonte inestimável de insights e discernimento. Uma pessoa com mais de 50 anos pode contribuir para um ambiente de trabalho de maneiras profundas e transformadoras, como, por exemplo, com sua capacidade de discernir padrões, resolver problemas complexos e orientar equipes, qualidades que se baseiam em um conhecimento que foi adquirido (veja só!) ao longo dos anos, o que a torna dificilmente substituível por alguém mais jovem. Os muitos anos de labuta não necessariamente vão ancorar um profissional a um determinado jeito de fazer as coisas, a um know-how antiquado, pois o acúmulo de vivências profissionais pode, na verdade, se juntar aos novos tempos e resultar até em metodologias aperfeiçoadas. 

O preconceito baseado na idade constitui um paradoxo enorme, se lembrarmos que estamos vivendo cada vez mais. É o encurtamento da vida profissional em meio ao alargamento da expectativa de vida. Tomando como parâmetro os avanços da medicina e as mudanças de atitude que privilegiam a nossa saúde mental e física, estima-se que, a cada ano, aumentamos essa expectativa. Ray Kurzweil, renomado pesquisador futurista dos EUA, acredita que, em breve, a mortalidade será apenas uma questão de acesso à tecnologia certa. Verdade ou não, na medida em que as pessoas vivem mais e mais, a ideia de alguém atinge o auge de sua carreira aos 30 ou 40 anos é cada vez mais absurda — e é uma pena que o bom senso de Kurzweil não seja disseminado. 

Como abraçar uma fatia tão pequena e presumir que só nela alguém tem algo a oferecer profissionalmente, esquecendo todo o resto? A ampla acessibilidade de informação da vida moderna permite que as pessoas continuem a aprender, crescer e contribuir além das fronteiras tradicionais da idade de aposentadoria. A crueldade — aqui e em todos os preconceitos, que têm o vil costume de operar de maneira similar — é incutir na pessoa-alvo a ideia de que ela não tem o necessário para se especializar em quaisquer que sejam os novos ditames do momento, tornando-a uma pária de si mesma. Isso para não falar da questão mais prática: essa pessoa precisa de dinheiro para sobreviver, e tirar seu ganha-pão, paulatina ou repentinamente, constitui uma atrocidade aviltante. Diante de uma aposentadoria possivelmente comprometida, o que fazer?

No contexto de descartabilidade insensata e contumaz, entra a difícil função social dos profissionais de recursos humanos. Eles, em tese, têm a capacidade de moldar a cultura organizacional de uma empresa, promovendo uma mentalidade inclusiva e diversificada. É claro que a dificuldade é maior quando são as pessoas do alto escalão que mais estão a bordo da barca do etarismo (mesmo quando não são assim tão jovens). É necessário, muitas vezes, que a mudança ocorra passo a passo, com profissionais de RH transformando, aos poucos, as práticas tanto de contratação quanto de promoção e fomentando a aprendizagem contínua e o desenvolvimento ao longo da vida. 

Para além das razões óbvias, que vão do social ao moral, motivos negociais estratégicos também dizem que as oportunidades de desenvolver uma carreira significativa não deveria ser negada a ninguém com base em preconceitos etários. Empresas que valorizam a diversidade etária não apenas promovem a justiça social, mas também abocanham uma fonte inexplorada de vantagem competitiva. A diversidade é boa para os negócios, certo? E isso inclui a diversidade de idade. Além do que nenhum mercado se restringe completamente a produtos e serviços destinados a pessoas dos 20 aos 40 anos, certo? Eis, então, mais um motivo: chegar a mais pessoas a partir desses possíveis funcionários.

O etarismo no ambiente de trabalho, infelizmente, é uma questão de relevância global. O Brasil, assim como muitas partes do mundo, tem a discriminação etária como uma barreira significativa para profissionais com mais de 50 anos. Dados revelam que a indústria de tecnologia, aclamada por sua vanguarda inovadora, é uma das mais propensas à discriminação etária. De acordo com uma pesquisa realizada pelo The Center for Digital Future, nos Estados Unidos, mais de 50% dos profissionais de tecnologia nessa faixa etária relatam ter enfrentado algum tipo de discriminação ou preconceito relacionado à idade. No Brasil, uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) apontou que 73% dos profissionais com mais de 45 anos sentem que a idade é um obstáculo na busca por emprego.

Não é necessário fazer grandes contas para concluir que não há bons motivos para a idade ser fator excludente. De onde, então, vem essa ideia? O etarismo no ambiente de trabalho é um fenômeno complexo que está enraizado em uma série de fatores interconectados que têm impacto tanto no nível individual quanto no organizacional. O etarismo é uma ideia que não pediu licença para entrar, mas que também não abusou de sua estadia: adentrou o recinto calmamente, pelas sombras, e se acomodou sem fazer barulho. Ele está impregnado em nossas visões, favorecendo, consequentemente, os mais jovens quando processos seletivos acontecem. Isso perpetua, a partir das vias pessoais, um ciclo de discriminação, como se não bastasse o culto à juventude visto na mídia e nas indústrias de entretenimento, criando uma narrativa de que, em contraponto à velhice, a juventude tem mais a oferecer. 

Essa não é uma questão isolada, mas sim reflexo de narrativas culturais mais amplas. Muitas vezes, não é apenas a idade que importa. A interseccionalidade com gênero, raça ou outras características também pode desempenhar papel fundamental. Uma pesquisa publicada no jornal Ageing & Society, da Universidade de Cambridge, feita em nove países europeus, constatou que o acesso a oportunidades de treinamento foi afetado pela interação de idade e gênero, sendo as trabalhadoras mais velhas as mais desfavorecidas. Além disso, as taxas de mobilidade descendente de cargos gerenciais e profissionais eram maiores entre os trabalhadores mais velhos negros em relação aos brancos. Ou seja, o acúmulo de preconceitos tende a desfavorecer ainda mais as parcelas que já são desfavorecidas sem o fator idade.

A presença de estereótipos negativos relacionados à idade, porém, não resulta apenas em discriminação: ela também produz baixo desempenho, que pode ocorrer por dois mecanismos, o externo e o interno. O externo se manifesta quando um trabalhador mais velho fica tão preocupado em desacreditar um estereótipo negativo que isso impede sua capacidade de concentração, prejudicando, assim, o seu desempenho. O mecanismo interno se dá quando o trabalhador internaliza um estereótipo por meio da exposição repetida a ele — se você cresce ouvindo como verdade absoluta que, na medida em que ficam mais velhas, as pessoas deixam de ser produtivas e se tornam inválidas para o mercado de trabalho, quando é sua vez de envelhecer, você pode acreditar que é menos competente.

De uma perspectiva pessoal, há inúmeras respostas a isso: desafiar o preconceito no ambiente de trabalho e estar pronto para os conflitos que nascerão daí; redefinir a posição profissional; se resignar e acreditar que seus melhores dias de carreira já passaram. Em qualquer uma delas, há um peso. Cruel, não?

Cada empresa terá necessidades diferentes, não haverá uma solução única. Qualquer que seja a abordagem adotada, será importante medir sua eficácia ao longo do tempo, e não apenas presumir que a introdução de uma ou mais mudanças significa que o problema foi resolvido. Programas de conscientização e treinamento para identificar e combater o viés inconsciente sempre são válidos. Promover a colaboração entre profissionais de diferentes faixas etárias pode resultar em uma troca mais rica de conhecimentos e perspectivas. Projetos colaborativos, mentorias cruzadas, workshops intergeracionais — vale tudo. As possibilidades são muitas, basta que as empresas queiram fazer isso acontecer.

Desafiar o etarismo no local de trabalho é construir uma cultura mais rica, inclusiva e capaz de aproveitar ao máximo a experiência humana em todas as suas fases, rejeitando o papel de virarmos párias de nós mesmos.

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Para pessoas que nasceram antes dos anos dois mil, o controle remoto da televisão era um grande agente de interação com os avós. A dificuldade com o dispositivo às vezes era tanta — seja por inabilidade ou por problemas de visão que impediam que os avós enxergassem os números do controle — que a solução mais simples para os netos era pegar o controle e, aos sons da clássica reclamação de que aquela “porcaria” não estava funcionando, mudar para o canal desejado. Bem ou mal, o problema se resolvia, mas ele voltava a aparecer, muito possivelmente já nas próximas horas; na melhor das hipóteses, no dia seguinte. A impaciência, é verdade, vinha dos dois lados. Ensinar e aprender eram incumbências árduas. Para as pessoas que nasceram nos anos dois mil, há uma profusão de inovações que, tais quais aqueles controles remotos (que ainda existem e vão muito bem, obrigado), parecem indispensáveis e podem causar confusão a quem não está acostumado a aprender a mexer em um novo aparelho com tanta frequência. Direta ou indiretamente, com mais ou menos drama e belicosidade, todos já vivemos cenas similares a essa.

Por um lado, negligencia-se a tarefa atávica de auxiliar pessoas idosas a compreender e utilizar dispositivos, de promover algum tipo de engajamento com inovações digitais. Por outro, pessoas idosas resistem em aprender e se adaptar a essas novidades. Surge, então, a grande questão: onde começa e onde termina isso tudo? Essa é uma dinâmica tão intrigante quanto problemática. É como se houvesse certa irresponsabilidade compartilhada entre as gerações, cada uma considerando apenas o contexto próprio, fechando os olhos para um cenário maior de integração sadia. A pressa pelo futuro digital bate mais rápido e mais forte do que a vontade de incluir; a acomodação, que se faz de rogada, inviabiliza qualquer mergulho no vasto oceano de gadgets e inovações.

A falta de colaboração e compreensão vista amiúde em lares que abrigam gerações distintas provoca uma crescente exclusão digital sistêmica, algo que vai muito além de alguém não conseguir usar um smartphone ou navegar na internet. Ela também se traduz em um descompasso cultural enorme, uma desconexão entre faixas etárias que extrapola o que seria tido como normal e que pode afetar seriamente — se é que já não está afetando — a coesão social, comprometendo a transmissão de conhecimento e experiência de uma geração para a próxima. Um fator que aumenta esse descompasso para além da conta e faz com que esse seja um problema maior hoje em dia do que sempre foi é o rápido ritmo de mudança na tecnologia e, consequentemente, na sociedade. Nunca estivemos em marcha tão alta. Nunca antes levantamos tanta poeira com os pneus da modernidade. Novos dispositivos, aplicativos e corpos de ideias vêm se multiplicando — e isso é um desafio constante para pessoas de todas as idades, não só para os idosos. Nem sempre a adaptação acontece de maneira natural, e quanto mais distante você se sentir de um momento da história, mais improvável é que isso ocorra organicamente. Muitas vezes, porém, os que cresceram imersos nesse ambiente digital e que conseguem processar novidades com mais facilidade presumem que os mais velhos devem acompanhá-los na absorção das coisas. Essa presunção ignora o fato de que os idosos podem não ter tido a mesma exposição ou oportunidade de aprender a lidar com essas ferramentas.

Existem muitos motivos para a possível rejeição de novas tecnologias por parte dos idosos. Entre eles, destacam-se: o medo do desconhecido (porque, sim, o mundo digital pode assustar qualquer um que não o conhece); o receio de serem deixados para trás (por mais paradoxal que possa parecer, é um receio circular que também causa aquilo que se teme); as dificuldades cognitivas relacionadas à idade (que, por mais que tentemos evitar, vêm e geram complicações); ou, simplesmente, a sensação de que suas formas tradicionais de interação e comunicação são mais autênticas. Essa resistência pode, inclusive, ser amplificada pela sensação de que a sociedade está se afastando de valores e práticas mais antigas. Antes, os valores que tocavam a sociedade pareciam mais intransponíveis, blindados contra novas opções. Agora, para o bem de todos nós, a conjuntura é outra: as mudanças socioculturais estão em ritmo tresloucado e, hoje em dia, estão muito ligadas a novas plataformas, que promovem um diálogo mais aberto e inquisitivo. Quem considerar que não faz parte dessa mudança de mentalidade geral, inconscientemente, também se fecha para muitas das novidades que poderiam ser interessantes a ela em diferentes esferas.

Evidentemente, não dá para dizer que é culpa de um ou de outro. A responsabilidade — supondo que essa seja a palavra certa — recai sobre ambas as partes. Os mais jovens podem se beneficiar ao reconhecer a importância de ensinar e apoiar os mais velhos nessa jornada digital; os mais velhos podem tirar muita coisa boa de tudo que está acontecendo, explorando ferramentas que podem auxiliar sua saúde, seu bem-estar e sua vida tanto pessoal quanto profissional. Essa atitude não apenas capacitaria as pessoas idosas, mas também poderia levar a uma maior conexão intergeracional e ao compartilhamento de experiências valiosas. A população idosa pode considerar a aprendizagem contínua como uma maneira de se manter envolvida na sociedade em constante evolução. Para que isso aconteça, é necessário desatar alguns nós, a começar com um dos maiores: a negação.

A negação dessa realidade é uma camada densa do complexo tecido social que envolve a relação entre as gerações. Os mais jovens muitas vezes estão imersos em suas próprias vidas, aprofundados em uma existência que tem a tecnologia como uma extensão natural de si mesmos. Para eles, é difícil entender por que os mais velhos não conseguem, ou não querem, acompanhar o ritmo. Essa falta de empatia pode levar à frustração e até mesmo à impaciência, levando-os a abandonar quaisquer tentativas de ensinar — é a conveniência danosa de pegar o controle remoto, mudar de canal e, pronto, missão cumprida. Em contrapartida, muitos idosos resistem a admitir que precisam aprender algo novo, especialmente quando isso implica reconhecer que estão envelhecendo — constituindo a mesma conveniência prejudicial, agora no formato de chamar, esperar entrar no canal e encerrar por aí. A negação, que é uma defesa psicológica comum, pode se manifestar como uma recusa obstinada em abraçar a tecnologia moderna. Isso muitas vezes é alimentado pela sensação de que suas experiências de vida são menos valorizadas em uma sociedade obcecada pelo novo.

A negação mútua só serve para agravar a exclusão. Enquanto os mais jovens negam sua responsabilidade de guiar os mais velhos através do labirinto digital, as pessoas idosas negam a si mesmas a oportunidade de se conectar mais profundamente com realidades diferentes. Essa polarização cria um fosso cada vez mais amplo entre as gerações, corroendo a coesão social e minando a compreensão mútua. A contradição chega a ser quase palpável quando percebemos que essa retroalimentação entre as gerações não só dá perenidade à exclusão digital, mas também pode limitar a evolução da sociedade como um todo. Se não houver um esforço conjunto para envolver as populações idosas nessa jornada, perdemos perspectivas e sabedoria que poderiam enriquecer decisões e até inovações. Somos todos passageiros em uma mesma jornada temporal, e este agora, por mais que soe como má poesia, é o que nos liga. Será que podemos mesmo nos dar ao luxo de deixar para trás aqueles que nos precederam? Será que nossa obsessão pelo futuro está obscurecendo a importância de preservar o passado?

É importante lembrar que a negação é uma resposta natural a mudanças significativas. Portanto, reconhecer essa resistência e abordá-la com compaixão e paciência é fundamental para romper ciclos que acabam funcionando como verdadeiros tiros no pé. Neste caso, a negação nada mais é do que um reflexo do medo do desconhecido e do desejo humano universal de pertencer e ser valorizado. Ao enfrentar essa negação com compreensão e solidariedade, inicia-se a construção de largas travessias, transformando o fosso geracional em um ponto de partida para a troca de ideias e a construção de um futuro minimamente mais inclusivo.

Toda a questão da irresponsabilidade compartilhada nos leva a refletir sobre como a nossa sociedade valoriza e integra as diferentes gerações. É natural pensar que, ainda que já mais versadas no mundo tecnológico, com a velocidade com que tudo vem mudando, mesmo as gerações que hoje caminham com naturalidade pelas mudanças também sofram exclusão na medida em que forem envelhecendo. É natural que se pense nisso, mas não deveria ser. Encontrar maneiras de garantir que ninguém seja deixado para trás é vital. A inclusão digital não é apenas uma questão de acessar a tecnologia, mas também de cultivar entendimento, respeito e colaboração entre as gerações. No final das contas, a verdadeira evolução não está apenas no domínio de novas tecnologias, mas também na capacidade de nos conectar através das eras, tecendo a história de nossa humanidade com fios de compreensão e respeito. Um controle remoto por vez.

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Num dia você é jovem, produtivo, tem sonhos e projetos de vida na pauta de sua agenda semanal. No outro, descobre, da maneira mais estranha possível, que seus assuntos versam sobre a morte de familiares queridos e pessoas públicas; adoecimentos e tratamentos de saúde; medicações de última tecnologia para tratamentos de saúde e suplementação para a manutenção de um corpo saudável — em um esforço constante na tentativa de mantê-lo afastado dos adoecimentos e das dores do viver neste corpo.

O tempo tem passado de maneira veloz, e não estamos conseguindo elaborar as mudanças integradas que acontecem no corpo, na mente e no espírito. As dimensões do tempo vivido têm sido borradas por um passado que se tenta resgatar de modo compulsivo, com a função de cumprir um prescritivo de vida jovem e produtiva, desconsiderando as passagens do tempo, inevitáveis a todo corpo humano. Por mais que a biotecnologia se esforce e as condições econômicas favoreçam ao ser humano avançar no envelhecimento ativo e saudável, uma verdade é nua: se viver e viver de fato é muito bom, o preço a se viver é o envelhe-ser deste templo chamado corpo e cuja humanidade parece ter caído no esquecimento moderno. O fato é que a conta não fecha; estamos desumanizando nossa condição mais humana: a vulnerabilidade, aquilo que não estamos contando, o inesperado. 

Vivemos no mundo da modernidade líquida, como apontou Zygmunt Bauman, sociólogo idealizador da obra Amor líquido e de tantas outras que versam sobre o efeito do capitalismo no corpo e no tempo. Corpo e tempo que, segundo a sua interpretação, são transformados em esferas do ser humano voltadas ao consumo — especialmente o consumo que nos entrega a satisfação do bem-estar imediato, alcançado por meio do acesso fácil a serviços, pessoas e bens de consumo. Na busca por maximizar nossa satisfação instantânea, a dopamina gerada a cada like de aprovação externa nas redes sociais se tornou o maior reforçador da existência humana e de sua visibilidade social. 

Em tempos idos, em que a racionalidade predominava como o paradigma de um plano diretor da existência, a máxima ideológica era “penso, logo existo”. Essa premissa migrou um pouco para “posto, logo existo” e gerou uma compulsão pela criação de perfis nas redes sociais como validação de uma existência ativa e interessante, reconhecida por meio de produção de conteúdos e imagens que emocionam e conectam pessoas por meio do afeto gerado pela identificação. Nasce, então, uma rede social virtual que predomina em todas as classes sociais, com uma diversidade humana conectada por nichos de interesse, configurando-se uma rede de apoio e criando-se vínculos baseados em laços profissionais, de amizade e de relacionamentos íntimos.

Não seria problema existir nas redes sociais; seria até uma solução para os viventes apressados, já que estaríamos encurtando fronteiras entre nossos interesses, singularizando aquilo que nos diz respeito e trazendo para perto nossos vínculos distantes (inclusive de forma geográfica), eliminando as distâncias a serem percorridas e facilitando as conexões humanas. A questão que precisamos tratar é outra, tão importante quanto silenciada em nossa sociedade: o quanto estamos mais solitários, individualistas e fechados para relacionamentos que convocam a força do encontro presencial. Isso foi naturalizado e potencializado com a pandemia de covid-19, que fez com que se aprimorassem inúmeros aplicativos de relacionamento como uma maneira de resolver o problema do isolamento social imposto pela crise sanitária. 

Até aqui, a questão do envelhe-ser não seria tão inflamada, pois é possível maquiar selfies, criar perfis hedonistas e até personagens de vida interessante, que pareçam uma ótima companhia. Porém, o desencontro humano e a falta de permanência dos vínculos também se anunciam como um gerador de angústia cada vez mais recorrente nos consultórios médicos e psicológicos. Estamos vivendo uma era do hiperespetáculo, conceito descrito pelos filósofos Gilles Lipovetsky e Jean Serroy em A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista, em que os autores afirmam que o novo regime de produção traz críticas ao mau gosto e à feiura da produção industrial. Nesse âmbito, aparecem ainda diversas correntes ambicionando a melhoria da qualidade estética dos objetos fabricados em série, reconciliando a criação com padronização, beleza e indústria, com arte e técnica modernas.

Embelezar, seduzir, inovar e distrair são as novas ideias do bronze do capitalismo artista. Cria-se uma nova geração treinada no consumo para a arte, para o belo, para o prazer, para o entretenimento full time, para a cultura e para uma existência baseada no melhor aproveitamento do tempo. E o que esse cenário tem a ver com a nossa passagem do tempo vivido? Tem a ver que a vida sonhada com base num sucesso padronizado e na realização humana não comporta uma vida de fato humana, que contém diversas tonalidades afetivas: frustrações, dores, lutos, perdas — de saúde, financeiras, afetivas, sociais. Uma vida que abriga todas as mazelas humanas de descobrir-se vivo em um tempo em que não se pode ser frágil, que abriga inclusive a parte mais vulnerável do tempo: a velhice. Invisível, ela se instala, mostrando a face cinza da vida: aquela que não produz, não seduz e ainda causa dor, afinal, é doloroso pensar na passagem do tempo e em suas possíveis facticidades já presumidas e primas da dependência, como ter que contar com quem nos dê suporte e tome decisões por nós em caso de incapacidade; com a possibilidade de ter que ser tutelado — mesmo que essa tutela se baseie em vínculos afetivos. Mas cadê as pessoas que ficam disponíveis ao cuidado daqueles que não são mais moeda de troca?

 A questão maior é que nós que vivemos a crise da meia-idade — e digo “nós” porque me encontro nela —, geralmente com idade entre 40 e 55 anos, estamos no auge da potência produtiva na realização de vínculos familiares, fraternos, filiais e conjugais e construímos uma boa rede de relacionamentos, compatíveis com nossos interesses, que se tornaram vínculos sólidos e que nos transmitem a segurança de que seremos cuidados. Esse cuidado geralmente se dá no grupo familiar sem maiores problemas, sendo pré-estabelecido organicamente pela sucessão familiar, afinal, os membros desse núcleo já preveem que a família seja responsável pelos cuidados com os mais velhos até a morte.

A questão que precisamos tratar, dentro do contexto do tempo hipermoderno, com todas as mudanças nos valores, nos modos de existir e na forma como se dão as relações sociais, é que os relacionamentos passaram do estado sólido para o pastoso, líquido ou gasoso. Adquirir o status de relacionamento já é algo em falta, quando a pauta é a formação de vínculos, inclusive entre gerações mais jovens, entre 20 e 40 anos — precursores da meia-idade, em que os valores são pautados pela experiência de vida e por uma maior intensidade e diversidade possível no que se refere aos momentos vividos. É uma lógica que torna o projeto de vida algo planejado quase arquitetonicamente para não se perder tempo, pois este é um recurso escasso e que não se renova.

Crises da meia-idade nos despertam para a finitude, nos fazem atentar para o fato de que não se volta no tempo. Algumas pessoas começam, nesse momento, com os cuidados estéticos e o controle da saúde, de forma a se ter um corpo que drible as marcas do envelhecer. Isso resulta, sim, em algum ganho estético, fazendo parecer que ser mais jovem mantém portas abertas, afinal, ser jovem é a marca de nosso tempo. Alguns vão cuidar de um novo projeto, abandonam as carteiras assinadas e se lançam em novos desafios profissionais. Para a síndrome do ninho vazio (quando os filhos crescem ou quando se constata que não os teve), há uma oferta de atividades que o mercado do entretenimento oferece ao tédio sentido por quem se aproxima dessa fase. Para o grupo de divorciados, há uma gama de pessoas no mercado da repescagem, com suas notórias histórias, com uma bagagem de experiências e traumas sendo curados na esperança de se voltar ao equilíbrio mínimo. 

Mas até agora temos toda a ocupação vinda de fora, do material, do mundo do consumo. E o que farei com as minhas faltas de dentro? Quem vai preencher minha fome de presença, de escuta, de sentir junto comigo a vida? Quem vai estar comigo até o fim da vida adulta? Sim, precisamos falar sobre como um dia vamos morrer e nossa notória identidade cairá em esquecimento em até dois anos — isso se lembrarem de registrar que morremos, pois envelhecer traz consigo a invisibilidade de nossa passagem na terra. Triste, cru, indigesto e mal temperado, esse é o tom do desespero, da solidão que envolve essa época da vida. O etarismo é a marca hermenêutica que escancara a dor do envelhecer, fazendo cair num vazio toda a experiência viva que porta a passagem do tempo e que é negada em nossa contemporaneidade eternamente desejosa por fazer morada na adolescência. Porque, afinal, fazer família, ampliar custos e diminuir tempo ao ter filhos, nossos dependentes, em tempos de singularidade máxima, é para loucos.

Essa nudez humana e demasiada que apresento não se cura pelo material visível ofertado, pelas viagens que podemos eventualmente realizar e pela coleção de memórias. A grande memória da vida são os encontros humanos, inclusive aqueles malsucedidos, porque assim não romantizamos os desencontros e os colocamos como parte da totalidade do existir. Encontro é linguagem afetiva, presença e memória. Mas estes, tão preciosos, precisam ser construídos, em nossa época, com a urgência de quem trata o desmatamento dos vínculos pela modernidade e a escassez de tempo dedicado ao outro. Só assim podemos nos confrontar com a grande questão humana: quem sou eu a partir do encontro com o outro? Afinal, somente na construção bem cimentada do afeto é que será possível mantermos uma rede de apoio fraterna de adultos órfãos de vínculos sanguíneos, para sermos adotados “ombro a ombro” pelos amigos, companheiros de jornada que cativamos ao longo da vida. Estão inclusos aqui os amigos de infância, para quem tem a sorte de tê-los, pois eles são portadores de nosso maior bem: a identidade e a essência de uma época não corrompida pelas ideologias modernas do viver. Eles portam nossas risadas e vergonhas mais genuínas, e estas não estão em negociação para quem guardou a sete chaves os segredos da juventude.

Se é inevitável que o resultado, no grand finale, seja que tudo passa, sobrevive a isso a nossa capacidade inesgotável de amar. Se soubermos a chave para mantê-la na maturidade, teremos amor de sobra para historiar junto aos nossos companheiros de envelhe-ser. Teremos um celeiro de memórias sempre prontas para serem recordadas: do tempo que passamos juntos, dos choros, dos erros, das perdas. O mais incrível de minha rede de apoio é a diversidade: colegas de trabalho, amigos, amores e filhos. O importante, parafraseando Roberto Carlos, é que emoções eu vivi, e sem todos essas pessoas eu não teria o que contar. Vale muito a pena se vincular! 

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A partir do olhar de quem vive o envelhecimento, o etarismo vem sendo reconhecido como um preconceito contra a própria vida, autoinduzido pela falta de confiança nas capacidades de desempenho físico, emocionais, papéis sociais e profissionais e até mesmo dentro da família. A pessoa que envelhece se percebe numa imensa responsabilidade individual para enfrentar a própria jornada de vida e refletir sobre isso ao mesmo tempo que enfrenta as adversidades decorrentes da passagem do tempo. Esse cenário acaba por ser fonte inesgotável de ansiedade e preocupação sobre se tornar inadequado ou julgado como ultrapassado no seu modo de pensar, se expressar e agir por causa da idade que o tempo revela. A pessoa que está há mais tempo viva, lúcida e consciente precisa se dar conta que tem muito mais chance de perceber-se em um momento único para descobrir a si mesma, com a capacidade de abraçar novas ideias e aptidões, e de ensinar aos mais jovens, trazendo novas perspectivas para todos. É também o momento para admirar as capacidades adquiridas ao longo do tempo e sentir-se verdadeiramente responsável por aquilo que contribuiu para alcançar os objetivos. O etarismo é um contexto sério que está aqui no nosso dia a dia para lembrar a toda a gente que a idade é apenas uma parte da pessoa e suas várias capacidades estão presentes ao longo da vida, propagando um novo significado à palavra maturidade. Por isso, é importante lembrar que a responsabilidade de se dedicar a estas novas capacidades não está só nos outros, e sim em cada uma de nós (aqui neste texto vou usar sempre como contexto o artigo feminino para denominar todos os seres humanos como “pessoas humanas”).

Mas vamos ao que interessa neste nosso encontro: preciso contar rapidamente que não estamos falando das “outras pessoas”. Abre o celular agora, liga a câmera, faz uma selfie. A foto que você vê é a de uma pessoa que está envelhecendo. Pode ter 20, 30 ou 70…se passou de hoje, chega amanhã mais velha. Diante da possibilidade real de viver seu envelhecimento, como você se sente? A maioria das pessoas parece não estar bem com esta ideia, mas a realidade do envelhecimento está ao nosso lado a cada dia que passa. Talvez fosse melhor que pudéssemos compreender este processo que acontece conosco e fazer parte desta decisão e não apenas escolher ser uma vítima do tempo.

No início do século passado, em 1900, nossa expectativa de vida ao nascer não passava muito longe dos 40 anos. Hoje, nossa vida pode encontrar muito mais sentido a partir dos 40 e 50 anos e aí sim, acreditamos que o melhor está por vir. O problema maior que nos ronda é que para chegarmos aos 80 ou 90 anos ou mais precisamos envelhecer. Dizem que a pessoa que vai viver 150 anos já nasceu. E aqui vem a pergunta que eu quero explorar: e se essa pessoa que vai morrer com 150 anos for você? Você vai viver tanto tempo fazendo o que? Aos 100 anos você vai sentir que está jovial e com muita disposição para recomeçar vida ao lado de alguém? Ou você vai estar na vida com a mesma pessoa que está ao seu lado agora? Tem amor que dure tanto para todo mundo? E o trabalho? Atualmente a aposentadoria é considerada em tempo adequado quando já vivemos algo em torno de dois terços da vida que poderia ter uma duração considerada ideal na opinião de muita gente. Morrer perto dos 90 anos hoje em dia já nos parece um bom momento de partir? Se o raciocínio se manter, permaneceríamos produtivos e ativos até os 100 anos e ficaríamos 50 anos na aposentadoria. Faz sentido você manter seu ritmo atual de trabalho por 100 anos? E se você não vê sentido no tipo de trabalho que tem, teria coragem de recomeçar a vida com um novo projeto aos 100 anos? 

Imaginamos que provavelmente você deve adoecer em algum momento, mas não se preocupe demais com isso, afinal a medicina está avançando bastante em habilidades de manter alguém vivo mesmo à custa de aparelhos. Talvez não tenha ninguém que possa sorrir feliz de imaginar ficar dependente por algumas décadas talvez.  E tomara que você já tenha uma resposta cheia de alívio quando pensar em quem vai cuidar de você. E agora pensa na pessoa que você vai cuidar quando ela adoecer aos 120 anos e viver com necessidade de amor, carinho e cuidados físicos por 30 anos. Isso sim é amor, não acha?

 O mérito (ou a responsabilidade) de envelhecer bem depende muito, eu diria até quase que exclusivamente das nossas escolhas de comportamentos internos e externos realizados a cada dia, a cada momento da nossa vida. Se uma pessoa for vista apenas sob o ponto de vista físico, dificilmente vamos ter um envelhecimento de sucesso. Diante deste engano, vemos as pessoas sendo escravizadas por regras abusivas de dietas, medicamentos, vitaminas e suplementos, além da crueldade da ditadura da beleza física permanente. Assim fica impossível chegar bem nem aos 40 anos, que dirá aos 80. Imagine então viver mais 70 anos depois dos 80 na escravidão desta manutenção de figurino e desempenho tentando parecer ter menos idade ou encaixado num padrão de beleza ou comportamento considerado adequado para os dias da sua idade? 

A realidade de viver mais de cem anos talvez não seja tão sedutora depois das perguntas difíceis que fiz. Perguntas inocentes que a minha inocência infantil ainda preserva como uma capacidade nata de saber perguntar o que ninguém tem coragem e perguntar. Só vai ser possível chegar com companhias boas em idades tão avançadas se a gente for capaz de respeitar e cuidar de cada parte da nossa existência e também da existência de quem nos transforma em pessoas felizes. Felicidade genuína vem das relações humanas e não de coisas que acumulamos por usar todo o nosso tempo trabalhando e sendo produtivos. 

Os avanços da ciência e da medicina têm papel indiscutível sobre a melhora da nossa expectativa de vida. Mas existe o lado B de tudo isso: parece que as pessoas menos comprometidas com a saúde passaram a acreditar que temos fórmulas mágicas que podem resgatar todas as atitudes erradas frente às escolhas sobre os cuidados com nosso corpo. Existe uma falsa proposta de que tudo o que fizemos de errado pode ser resolvido por remédios de última geração, vitaminas e soros milagrosos, plásticas e tratamentos estéticos caros e de risco muito maior do que os benefícios oferecidos. Só envelhece bem quem viveu em plenitude cada dia da sua vida. 

Não precisa ser alegria em plenitude, precisa ser um tempo de vida. E então vamos para a angústia de metas impossíveis de controle das emoções, treinamentos mentais exaustivos sobre afirmações positivistas, crenças e mitos sobre o uso abusivo e sem fundamento dos antidepressivos e remédios para ansiedade, vão levando as pessoas não ao conforto, mas sim a mais um sofrimento: a ditadura da felicidade ou da estabilidade emocional constante: uma escravidão permanente que priva as pessoas de simplesmente viver tudo o que a vida pode oferecer. Na maioria das nossas crises, temos condições emocionais de superação, mas não temos paciência para esperar o tempo de transformação. As pesquisas cada dia mais mostram que envelhecer de maneira socialmente ativa é muito favorável. Um estudo incrível feito na Universidade de Harvard mostrou que chegar ao fim da vida feliz depende quase que exclusivamente da qualidade das relações humanas que desenvolvemos ao longo de toda a vida. Gente boa, o que faz sentido na vida não é chegar longe, mas chegar junto. E não vai ter outro caminho para viabilizar esses encontros quase eternos que não seja através da nossa capacidade natural de cuidar e nossa determinação incansável de aprender a receber cuidados. 

Sigamos valentes e amorosos com nosso corpo, nossa mente, nossa existência. Façamos o mesmo com as pessoas que amamos. E vai ser fundamental que possamos também oferecer o mesmo respeito e amorosidade com a existência de outras pessoas que nem conhecemos. Nunca saberemos em qual momento a gente vai precisar de um ato de cuidado que pode salvar nossa vida. O etarismo visto por esse outro lado pode nos despertar para um novo caminho: transformar o abandono e o preconceito através de um movimento vital: a cultura do cuidado. Vamos envelhecer bem de mãos dadas e com atenção na estrada para não descer a ladeira muito rápido, combinado?

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O mundo contemporâneo é hospedeiro de um emaranhado de conteúdos sem precedentes. Em meio aos stories e reels que se multiplicam no Instagram feito Gremlins, há produções artísticas — literárias, audiovisuais, musicais — emergindo em uma escala massiva. Pelo menos em tese, hoje em dia é mais fácil criar e divulgar conteúdo, uma vez que o acesso às ferramentas está mais amplo e facilitado. Diante dessa perspectiva, o contexto que se apresenta é: geração constante e inclusiva de cultura, mas, concomitantemente, debilitação alarmante na circulação e na preservação do que foi e está sendo produzido. Diante da proliferação de plataformas de streaming, da extinção das locadoras, do crescimento do comércio digital de livros e mais tantos outros adventos que sabemos e não sabemos nomear, surge a importante questão: onde encontrar, acessar e preservar o vasto acervo cultural do nosso tempo?

Depois de quase fechar nos últimos anos, a locadora Blockbuster estuda expandir suas atividades. Imagem: Newsday

O modelo dos streamings está passando por uma crise existencial e a grande reviravolta da história é que isso não vale somente para as Netflix e Amazon Primes da vida, vale também para as pessoas que as assistem. Estamos em crise também com o que consumimos. Aquele fuzuê que embaçava a visão com os ventos de uma bem-vinda revolução, um festejo confortável e promissor em que ficamos com o surgimento dos streamings, à espera de uma mudança para melhor, tudo aquilo logo foi interrompido. Por ter dado muito certo, e ter rapidamente alterado a forma como consumimos e produzimos, o otimismo não tardou a cair por terra na medida em que a onda inicial de expansão quase ilimitada foi sobrepujada por uma onda de megafusões e uma crescente insatisfação com os catálogos, especialmente quando estes reduzem suas ofertas apesar de os preços das assinaturas continuarem subindo.

A verdade é que todos nós já fomos seduzidos pela promessa aveludada da era do streaming: ter tudo em qualquer lugar e ter tudo de uma vez. “Tô dentro”, certo? Essa fantasia maravilhosa contrastava com a maneira antiga de consumir televisão, batendo de frente com a lógica que hoje parece tão ultrapassada em que você se sentava para assistir ao programa no momento em que ia ao ar ou então, azar o seu, você não o veria a menos que tivesse a sorte de assisti-lo em reprises. Com o streaming surgindo como uma versão aprimorada do on demand, tudo isso ficaria para trás: nada mais de fitas ou DVDs, ainda bem; nada mais de ter que se adequar aos horários dos programas, para o alívio geral. Agora, quem estaria no comando, quem comandaria a grade de programação, era o espectador.

Mas nem tudo são rosas e a fantasia era uma fantasia por um motivo. 

Crise? Que crise?

Nos últimos meses, grandes estúdios começaram a retirar conteúdo de suas plataformas de maneira mais acintosa. A Disney+, por exemplo, largou mão de Y: The Last Man e Willow, séries que decerto não foram baratas aos seus cofres. E, inclusive, chegou ao cúmulo de sequer lançar Batgirl, programado para 2023. Ué… Mas por que fazer isso? Se o conteúdo em questão está parado em qualquer disco rígido ou nuvem, ainda que não seja um grande hit como Stranger Things ou o que o valha, qual é o problema de deixá-lo lá?

Acontece que as empresas — pasmem! — se preocupam, acima de tudo, com os seus balanços financeiros e os seus acionistas. Essa remoção de conteúdos dos catálogos dos principais serviços de streaming, então, tem acontecido por nada mais nada menos que corte de gastos. O que nem todo mundo sabe é que, mesmo no cenário digital, manter filmes e séries circulando significa pagar taxas de licenciamento e outros valores diversos. Ou seja, há um custo alto contar com os títulos disponíveis, até mesmo produções originais.

O problema, no final, é que muitos streamings ainda não apresentam lucros suficientes para que seja viável continuar com diversas produções em seus catálogos e ainda produzir novos títulos originais, que também precisam ser licenciados. É como se o feitiço se virasse contra o feiticeiro: o grande acervo, argumento de venda que mais seduz as pessoas, é também o tiro que sai pela culatra quando ele faz com que esse custo adicional tenha que ser pago. Ou seja: estamos produzindo mais do que nunca, como se dependêssemos disso para evoluir enquanto espécie, mas também estamos descartando esses produtos com uma facilidade, ou mesmo indiferença, que chega a assustar.

O que nos leva às greves que estão causando um verdadeiro rebuliço em Hollywood e que prometem obstruir as engrenagens do mercado audiovisual estadunidense por um bom tempo — e por bons motivos.

O que a greve de atores e roteiristas significa?

O SAG-AFTRA (Screen Actors Guild – American Federation of Television and Radio Artists), que representa mais de 160 mil profissionais nos Estados Unidos, incluindo os Brad Pitts e as Meryl Streeps, entrou em greve em julho. O WGA (Writers Guild of America), por sua vez, já está em greve desde 2 de maio. A paralisação impacta Hollywood de inúmeras formas, não só na inviabilidade de se trabalhar em sets de filmagens: entre as restrições dos sindicatos, estão as participações em qualquer evento de divulgação, material publicitário ou cerimônia de premiação envolvendo os filmes. E só de alguém ter lido essa última frase, em voz alta ou mentalmente, o cabelo na nuca de algum magnata de estúdio levantou, já que, diferentemente dos roteiristas — desvalorizados, dentre tantos outros motivos, por não terem caras conhecidas ao grande público —, os atores têm um peso comercial inigualável nas campanhas de lançamento. 

Protesto SAG-AFTRA em Nova York. Imagem: Charles Sykes/Invision/AP).

Imagine, a título de exemplo, a premiére de um filme com Leonardo DiCaprio — invariavelmente, chamado de “o novo filme do Leonardo DiCaprio”, independentemente do grande diretor que assina a obra — sem a presença de Leonardo DiCaprio. Seria, no mínimo, anticlimático.

A grande questão é que os tempos vêm mudando e os modelos de negócio também, mas os contratos oferecidos pelos grandes estúdios a muitos profissionais já não refletem as inúmeras mudanças recentes da indústria. O SAG-AFTRA bem que tentou negociar com o Alliance of Motion Picture and Television Producers (AMPTP) por semanas, mas nada foi para frente, explicitando uma convicção inabalável dos grandes mestres titereiros desse mercado. Dá até para imaginar eles falando, em bom brasileiro, “é que em time que está vencendo não se muda, né?”, esquecendo do bem-estar de todos os jogadores em campo, da vontade dos espectadores de ver aqueles jogadores em campo, e, assim, dando um categórico tiro no próprio pé. Fran Drescher — lembrada sempre pelo icônico papel em The Nanny (1993-1999) —, presidente do SAG-AFTRA, disse que entrar em greve não foi uma decisão fácil, mas que ela foi uma unanimidade entre os associados.

Fran Drescher, presidente do SAG-AFTRA, em discurso. Imagem: Frazer Harrison/Getty Images.

Atores e roteiristas estão de mãos dadas, pedindo pagamentos que julgam ser mais adequados. O que mudou, e justifica o presente levante, foi que, quando uma produção audiovisual chegava a mercados internacionais ou era reprisada, além da remuneração original, a entrada de receita era repartida com profissionais envolvidos na obra, o que gerava pagamentos residuais — os tão famosos residuals — aos atores e roteiristas. Desde a popularização do streaming, no entanto, a arrecadação de filmes e séries ficou menos transparente, e não gera pagamentos residuais conforme distribuição ou exibições, já que esses serviços têm alcance global e acervos que possibilitam reprodução irrestrita. Passando tudo para o papel, os estúdios e produtores continuam tendo lucro — mesmo com os problemas apresentados pelas plataformas de streaming —, mas outras pessoas perderam a sua fatia. 

Outro ponto em que atores e roteiristas dão as mãos é o que diz respeito à inteligência artificial. Com as possibilidades de reprodução da imagem de artistas e produção de textos com essas ferramentas, as categorias alegam que seu uso pelos estúdios deve ser discutido com os profissionais, coisa que a AMPTP, por atualmente se beneficiar demais com isso, se recusa a fazer. 

A crise está instaurada sem muitas perspectivas de resolução. Cada lado tem sua reivindicação, que, na maioria das vezes, é sensata. Isso quer dizer que o buraco é mais embaixo e os modelos negociais da era digital, antes celebrados, agora começam a apresentar rachaduras. Os streamings não estão felizes em gastar para manter um bom catálogo; a comunidade de atores e roteiristas também não está feliz em ser deixada de lado. Nessa história toda, poucos estão satisfeitos e, no final das contas, todos saem perdendo — incluindo a gente. No vai e vem, ficamos à mercê daquilo que nos é oferecido, tendo que lidar com o fato de que o que está disponível hoje não necessariamente estará disponível amanhã. E o pior: o que não está disponível no streaming, vai para onde? O cenário é desastroso se pensarmos em termos de preservação e circulação. 

Se o filme não for Barbie e nem Oppenheimer, ou então se a série não for Euphoria ou The Last Of Us, é melhor começar a pensar no dia de amanhã, porque, nas mãos escorregadias que ditam esse vendaval, nada está garantido.  

O mesmo se aplica à literatura, com o aumento do comércio digital de livros e o crescimento do mercado de e-books. A facilidade de acesso aos e-books e a conveniência das compras virtuais são indiscutíveis, mas isso também levanta questões sobre a preservação de clássicos literários e obras menos populares, que podem não ser digitalizadas ou disponibilizadas nas plataformas.

O que tudo isso significa para a circulação e os acervos culturais?

Hoje, temos uma ampla gama de opções, cada uma com seu próprio catálogo de filmes e séries, tornando difícil encontrar uma plataforma que contenha tudo o que desejamos assistir. Isso levanta a preocupação de que muitos filmes e programas, principalmente aqueles menos populares, possam ser deixados de lado e até mesmo esquecidos, resultando em uma lacuna na preservação da cultura cinematográfica. Para enfrentar esses desafios, é essencial pensar em estratégias que promovam a preservação e a circulação equitativa da cultura no mundo digital. Algumas hipóteses e possíveis soluções podem (e devem) ser consideradas. 

E se as plataformas de streaming fossem colaborativas? A criação de um consórcio entre empresas de streaming para compartilhar seus acervos poderia permitir um acesso mais abrangente a filmes e séries. Isso poderia garantir que obras menos conhecidas não fossem tão negligenciadas e que a diversidade cultural fosse mais bem representada. E se tivéssemos bibliotecas digitais acessíveis? Governos e instituições culturais poderiam investir em bibliotecas digitais de acesso público, contendo uma ampla variedade de livros, revistas, filmes e música. Isso proporcionaria um espaço centralizado para a preservação da cultura e incentivaria a produção artística.

Não seria ótimo ter incentivo à preservação local? Estímulo à criação de arquivos locais que visem preservar a produção cultural de uma região específica, valorizando suas tradições e identidade. Esses acervos poderiam ser digitalizados e disponibilizados para consulta pública. E já pensou se existissem projetos de preservação colaborativa? Iniciativas conjuntas entre produtores de conteúdo, instituições culturais e o público em geral poderiam ser criadas para identificar e preservar obras culturalmente relevantes que corram o risco de serem esquecidas.

O que dizer, então, de um possível incentivo à educação cultural. Investir em programas educacionais que promovam a apreciação e o entendimento da cultura incentivaria as pessoas a buscar e valorizar uma diversidade maior de produções artísticas. E claro: leis de preservação cultural. Governos podem implementar políticas para garantir que produções culturais relevantes sejam preservadas e não fiquem perdidas ao longo do tempo.

A questão da circulação e preservação da cultura no mundo atual é complexa por ter que lidar com o âmago de um mecanismo que parece extremamente arraigado ao redor do mundo e abraçado pelas pessoas. Portanto, ela requer abordagens mais inovadoras e colaborativas. A era digital trouxe benefícios inegáveis para a disseminação da cultura, mas também trouxe desafios significativos em relação à preservação de produções menos populares. O trabalho conjunto entre governos, empresas, instituições culturais e o público em geral é fundamental para garantir que a rica diversidade cultural que estamos produzindo seja devidamente valorizada e preservada para as gerações futuras.

O momento atual é delicado. Para onde a coisa toda vai, não se sabe. Mas a sensação que paira periclitantemente no ar é a de que o futuro da produção cultural, assim como o seu consumo e sua preservação, depende muito dos próximos capítulos. 

Estaremos atentos, como se assistíssemos à mais nova série do momento.

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    A humanidade e as suas formas de organização já eram tidas como eternos trabalhos em progresso. 

    Na opinião do pensador francês Gilles Lipovetsky, as grandes utopias coletivas caducaram. Elas perderam a guerra para as utopias de cunho individualista — tema de sua obra-prima, A era do vazio, de 1983 — ou, então, para as utopias que não são tocadas pela esperança, mas sim pelo medo. É o caso das reivindicações feitas pelos ambientalistas: se não mudarmos logo, o mundo há de explodir. Simples assim, sem meio-termo. Desse medo para lá de compreensível, sentimos a necessidade de buscar soluções para evitar o fim de tudo, correndo atrás de um objetivo que estamos longe de alcançar. Há algumas décadas, fala-se à exaustão sobre o assunto, e com o devido tom alarmista, mas, desde que ele ganhou esse lugar cativo nos debates ao redor do mundo e virou pauta imprescindível para qualquer discurso político (ainda que, por ventura, esse discurso vá contra medidas ambientais), dá para dizer de boca cheia que algo realmente mudou? As previsões do futuro seguem aterradoras, talvez mais amedrontadoras que nunca, apontando mais para uma distopia digna de sci-fi. 

    Seria esse tal mundo sustentável, sobrevivente da invasiva conduta humana, a grande utopia da modernidade?

    Ao contrário do que aparenta num primeiro momento, a fala de Lipovetsky não é um ataque contra ambientalistas. O medo que os discursos sobre mudanças climáticas geram são provenientes de ciência. Não é condenável, portanto, adotar discursos pessimistas e insurgir nas pessoas um senso de responsabilidade emergencial para com o amanhã. O que o pensador francês sugere é que, na cambiante sociedade atual, em que a esperança sistemática soa cada vez mais como ingenuidade, não há muito espaço para se ter fé nas instituições. Numa era em que as pessoas fazem questão de evidenciar as inúmeras problemáticas estruturais que temos (sejam sociais, políticas e/ou culturais), não parece inteligente sonhar com grandes transformações que dizimarão o mal e farão florescer um planeta equânime. A ordem do dia pende mais para a metamorfose individual, uma versão hiperconectada e repaginada, bem menos gandhiana, de “seja a mudança que quer ver no mundo”.

    A não ser, claro, que o medo esteja envolvido.

    A ânsia por mudar o mundo jamais sairá de voga, isso é verdade. O que passa por um processo de remodelação, no entanto, é a maneira com que isso é sonhado, além dos porquês pelos quais esse impulso perdura na essência humana. Os projetos pessoais também têm forte poder de transformação e podem, sim, ser vistos como versões utópicas de nós mesmos, como impulsos para que melhoremos e façamos a nossa parte. É uma espécie de individualismo conveniente e que, no final das contas, é mais “pé-no-chão”. Quando isso se soma ao medo real proporcionado pela crise climática, a última grande utopia se apresenta como a única resolução (im)possível: a partir do conjunto de ações e transformações individuais, chega-se, quem sabe, à solução que salvará o planeta do proclamado colapso ambiental. Reciclagem, vegetarianismo, veganismo, conscientização sobre o desmatamento desenfreado, discursos inflamados nas redes sociais, tudo parte de uma lógica essencialmente individualista. Se isso tem o condão ou não de realmente proporcionar as mudanças estruturais necessárias, só o tempo dirá. 

    Apesar dos indícios de que as coisas não vão bem, não dá para dizer que nada mudou. Mas, como os passos são pequenos (por vezes, menores do que as passadas céleres rumo à destruição), toda vez que uma nova marca é atingida, mais demandas surgem, nos afastando desse mundo saudável e verde, em cuja natureza é tratada como se deve. Fazemos pelo bem próprio apesar de ver pouco impacto prático no coletivo, com um grande medo do que pode acontecer agora e no futuro, mas com um medo maior ainda de nos perguntar: neste ponto, depois de anos de usar e abusar dos recursos naturais, será que dá para chegar lá?

    “Diz-se o tempo todo que se as coisas continuarem como estão o planeta vai explodir. As utopias clássicas falavam de esperança. Temos, porém, muitas pequenas utopias à la carte, pessoais, particulares, singulares, sonhos de cada um: combater a miséria, preservar o patrimônio histórico, proteger a infância, melhorar o mundo, diminuir o sofrimento, ajudar os desfavorecidos, enfim. As utopias coletivas e sistemáticas é que desapareceram. Nada disso elimina o sonho de fazer coisas, de empreender, de reformar, de criar. As grandes utopias ideológicas, que pretendiam mudar o mundo como totalidade, cederam lugar às pequenas utopias realistas num mundo flexível e mutante.”

    — Gilles Lipovetsky

    Há vinte anos, o filósofo francês Jean Baudrillard (1929 – 2007) afirmava que os desafios que a humanidade enfrentaria no início do século XXI seriam de importância vital, implicando em nada menos que a responsabilidade de garantir as condições de vida das gerações futuras. Deparamo-nos, todos os dias, com notícias sobre o último desastre ecológico, sobre os cataclismos políticos cotidiana, crises econômicas, escassez de recursos retornáveis e tantas outras notícias que pesam no nosso peito e formam nuvens sobre nossas cabeças. Existem três atitudes principais, e talvez complementares, às quais podemos recorrer como mecanismos de autodefesa frente à hostilidade de nossos tempos: o cinismo, o hedonismo e o ativismo (se é que esse é o termo mais adequado). Um: se o mundo está condenado por uma catástrofe iminente, por que eu deveria me preocupar com algo? Dois: ora, se o mundo está condenado por uma catástrofe iminente, o melhor a fazer é aproveitar a vida enquanto podemos. E três: se o mundo está condenado por uma catástrofe iminente, vou fazer o que posso para ajudar. 

    Em Reality of the Virtual, o filósofo esloveno Slavoj Žižek desenvolve a ideia de que, perante o gozo imperativo que constitui o nosso atual ecossistema social, devemos aprender a sonhar com utopias e a viver nelas ativamente. A psicanálise moderna seria “o espaço onde é permitido não se divertir”. Isto é, uma hora completa em que você não precisa tirar fotos, postar, comprar e dar opiniões. Uma raridade no mundo de hoje. É a partir dela, ou de qualquer que seja o método de escape, que se cria o impulso autêntico para esse cinismo, o hedonismo e o ativismo. Sem interferência externa, como uma postura nascida de um contexto pessoal. 

    A crítica de Žižek, claro, tem a ver com o “regulamento” total do capitalismo que nos diz “divirta-se” com o tapa de uma mão e “mas não coma demais, não fume, cuide da saúde física” com a outra. A sociedade capitalista não apenas nos manda desfrutar, mas dita os percursos adequados para fazê-lo. São percursos regulamentados que fazem parte da jaula dourada do nosso presente. Se partirmos da visão de Gilles Lipovetsky e reconhecermos que não existem mais utopias coletivas, muito do que nos é vendido perde força. Tudo que é demandado de nós enquanto indivíduos responde a uma demanda mercadológica, os valores e o zeitgeist de determinados tempos são ideais em constante metamorfose. Algo que vai de acordo com a moda da vez. A tarefa do pensamento atual é se opor ao imperativo intrínseco do capitalismo e das estruturas de poder, assumir que o estado atual das coisas não pode seguir esse caminho para sempre.

    A principal tarefa hoje é reinventar a Utopia. Claro que não é a grande utopia antiquada de imaginar mundos irreais que sabemos de antemão que nunca serão realizados, essa é a utopia clássica. Devemos ousar realizar o impossível, devemos redescobrir como, não imaginar, mas realizar utopias. A questão não é planejar utopias; o objetivo é praticá-los. E acho que não é uma questão de ‘devemos fazer ou devemos persistir na ordem existente’? É uma questão muito mais radical, uma questão de sobrevivência: o futuro será utópico ou não haverá futuro.”

    — Slavoj Žižek

    Ou seja, uma utopia que não é teoricamente acabada antes de ser criada: uma utopia da prática individual e cotidiana.

    Para que se criem novas utopias coletivas, hoje praticamente em extinção, a utopia do ambientalismo deve ser uma ambição de todos nós, seja ela impossível ou não. Muito embora o conceito de utopia seja frequentemente usado como uma ideia aspiracional, ela carrega em si a crueldade, e a força, daquilo que não vai se concretizar. Parece desarrazoado, mas, na verdade, a impossibilidade é a força motriz da coisa toda.

    Se a cada dez passos que damos em direção às utopias elas cuidam de se distanciar dez passos mais, as utopias tem um propósito claro: fazer andar para frente.

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    Dizer que algo ou alguém é criativo — via de regra — é um elogio. Dentre os elogios, aliás, é dos mais lisonjeiros, digno de fazer com que rostos fiquem enrubescidos. Isso porque a criatividade ganhou uma importância monumental, um tanto por oportunismo mercadológico e político, outro tanto por um rol de gritos presos na garganta de uma ou duas gerações. 

    Wheat Field with Cypresses, de Vincent van Gogh (1889)

    Toda essa relevância, de tão imensa, faz com que esqueçamos, ou sequer comecemos a pensar, que a criatividade como a entendemos é, na verdade, uma noção relativamente nova. Muito se debate sobre de onde ela vem — é inata, cultivada, uma combinação dos dois? —, porém antes de entrar em tais méritos é pertinente definir o que é a criatividade. A questão não é tão simples quanto aparenta. O que logo vem à cabeça, claro, é aquela força motriz capaz de produzir arte, que, por sua vez, é o epítome de um “pensamento fora da caixa”, também alardeado como uma característica louvável para qualquer pessoa. O ser criativo, então, é comumente associado a todo tipo de criação artística. Certo. No entanto, o conceito pode ir muito além: desde atividades que se apropriam de técnicas e dão outro propósito para as artes, à exemplo do que fazem as agências de publicidade, passando pelo mercado financeiro e chegando — por que não? — em consultórios médicos. 

    Dá para criar um layout, fazer um investimento e receitar um remédio, tudo dentro do mesmo campo, que, de acordo com o Dicionário Houaiss, pode ser definido como “inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar, inovar, quer no campo artístico, quer no científico, esportivo etc.” — e não necessariamente com um sendo mais criativo do que o outro.

    No fim, criatividade lato sensu é também aquela solução arrojada para qualquer que seja a bricolagem de domingo, do mesmo jeito que é aquele caminho inusitado mas efetivo até a estação de metrô mais próxima. Ou será que, nesses casos, já estamos falando de outra coisa? Muito embora o Houaiss tenha uma leitura mais ampla, é verdade que esses tipos de soluções cotidianas não são tão valorizadas como as de cunho artístico e as de caráter corporativo. Isso quer dizer que vêm de um lugar diferente ou é somente mais uma construção cultural? Difícil dizer.

    Voltemos algumas décadas. 

    Os primeiros estudos sobre a criatividade foram realizados por psicólogos, como William James (1842-1910) e Alfred Binet (1857-1911), que buscavam entender como as pessoas criavam ideias novas e originais. Mas o conceito de criatividade, como essa manifestação quase divina que conhecemos hoje, surgiu nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. O que a princípio era mais um objeto de estudo reservado ao campo da psicologia logo se proliferou para inúmeras outras áreas. Como a medição de atributos mentais era importante nas abordagens da época, numa visão extremamente rasa do que era ou poderia ser a criatividade, depois de pesquisas psicólogos sugeriram que as pessoas mais criativas tinham pensamento divergente e tolerância à ambiguidade, além de preferirem arte abstrata e imagens assimétricas. No entanto, esses estudos pareciam condicionados a atribuir o dom da criatividade principalmente às classes mais altas, já que elas eram privilegiadas o suficiente para, a partir da instrução que tinham, elaborar interpretações de mundo um tanto mais complexas — compreendidas à época como sinais de inventividade. 

    Mas a tentativa de justificar a criatividade por meio de uma causa psicológica somada à predisposição a fazer vista grossa diante dos diferentes níveis de escolaridade aprisionou a comunidade dos pesquisadores em um vai-e-vem tautológico. Os sintomas levavam às causas e as causas levavam aos sintomas. A frustração foi inevitável.

    Enquanto isso, um pouco depois de 1945, a criatividade fervia no caldo de outros contextos. As organizações do pós-guerra — não só empresas, mas até mesmo as forças militares — valorizavam novas maneiras de pensar e agir. Não muito mais tarde, o pós-guerra virou a Guerra Fria e a competição com os soviéticos, estimulada pela ansiedade sobre uma lacuna tecnológica, levou o país a buscar melhores maneiras de obter o máximo de seus recursos humanos. Enquanto a URSS oferecia uma vida monocromática, cujos valores mais fechavam portas do que abriam, os estadunidenses fizeram de tudo para se mostrar como o contraponto colorido e cheio de possibilidades. A propósito, apesar de acontecerem ao mesmo tempo, as demandas de negócios surgiram independentes das pesquisas psicológicas, como resultado de um momento específico de um país que precisava chacoalhar a maneira com a qual crescia economicamente e culturalmente. 

    O american way of life ainda era relevante, mas já não pulsava com a mesma força. Os EUA eram a terra da criatividade e dos sonhos (“the land of the free and the home of the brave”, como proclama o hino); a URSS, por outro lado, era a representação da existência sem imaginação. 

    Para se ter uma noção, em 1956 o número de trabalhadores de colarinho branco (que não envolve trabalho físico) excedeu o número de trabalhadores de colarinho azul (que envolve trabalho físico) pela primeira vez na história norte-americana. O momento pode ser resumido em uma palavra: consumismo. Como nunca se tinha visto antes. E não demorou para que o fenômeno atingisse escala global.

    No centro dessa revolução, o que borbulhava era a capacidade de incutir inventividade em soluções mercadológicas. Novas ideias mudariam o mundo. Como a criatividade está ligada ao conceito de autenticidade, ela é, em sua essência, um meio de autoexpressão. Numa época em que a dicotomia ressoava com vigor pelos alto-falantes dos noticiários e pelo lero-lero da vizinhança, valorizar a individualidade era valorizar a liberdade. A indústria que, com unhas e dentes, mais se agarrou à insurgência do “criativo” para glamourizar o seu modus operandi foi a da publicidade. Nas décadas de 1950 e 1960, as agências de publicidade abandonaram toda e qualquer ingenuidade na hora de anunciar um produto, substituindo-a pelo branding, termo repetido à exaustão na atualidade e que, apesar de naqueles tempos ainda estar em fase de engatinhar, era uma ideia que engatinhava às pressas. Eles não estavam mais vendendo um produto, estavam vendendo uma ideia sobre um produto. Os argumentos agora tinham ares de abstração e projeção, deixando para trás o simplório “este produto faz xis coisas e por isso você deveria comprá-lo” para preconizar o “este produto representa algo para o seu status social e fará com que você se sinta bem consigo mesmo”. 

    A apresentação sedutora e persuasiva dessa lógica ficava a cabo dos Don Drapers da época, símbolos de uma agitação sociocultural que ainda ecoa (as Peggy Olsons, infelizmente sabemos, eram minoria).

    No entanto, à guisa da precisão conceitual, não é verdade que o glamour e o prestígio do artista estavam relacionados a uma crença popular de que esses Artistas, com “A” maiúsculo, não se interessavam por coisas mundanas ou práticas? De que se tratavam de mentes que funcionavam por outros parâmetros e era isso o que as tornava especiais? Sim. Mas o contrasenso era benéfico. A criatividade levada ao ambiente de trabalho era boa para os negócios, aumentava a produtividade e fazia mais e mais dinheiro. Os negócios, no fim do dia, poderiam cooptar a reputação das artes plásticas e literárias, conectando a alegria da criação a uma boa renda. Artistas emprestavam o seu know how, mandachuvas preenchiam cheques que não lhe fariam falta: satisfação de ponta a ponta. Uma transação perfeita. Foi o melhor dos dois mundos.

    Jon Hamm interpretando Don Draper, o icônico protagonista da série Mad Men.

    Curiosamente, o ponto de partida para tal aceleramento do consumismo e a construção de impérios propagandísticos foi a contracultura. Os valores contraculturais que protestavam contra a Guerra do Vietnã e erguiam a voz pelo movimento dos direitos civis — para além do “paz e amor” e dos dedos em V pelos quais costumam ser reconhecidos — revelaram-se inteiramente compatíveis com o capitalismo de consumo na era da informação. O culto à criatividade do pós-guerra foi impulsionado pelo desejo de transmitir à ciência, à tecnologia e à cultura de maneira geral algumas das qualidades reivindicadas pelos artistas, como o inconformismo, a paixão pelo trabalho, a humanidade perante à sociedade, a sensibilidade moral e, claro, talvez acima de tudo, o gosto pelo novo. Esbarramos, então, em outro aparente paradoxo. É do capitalismo, o vetor-mor do consumismo, que nasce a criatividade movedora de montanhas. Mas ela não existe só de uma maneira que faz as engrenagens girarem, alimentando as máquinas que produzem dinheiro sem parar, ela se manifesta também como um meio de fuga da austeridade do próprio sistema que a pariu. 

    Em meio a realidades cada vez mais rígidas, a criatividade ganha ares de romantismo. O termo escapa até hoje de uma definição clara por promover justamente a ampliação de ideias e o questionamento de verdades absolutas, permitindo que todos os tipos de pessoas e instituições o tomem como uma solução para os seus problemas, desde a monotonia corporativa até o declínio urbano. Considerando o quadro, nada poderia ser mais justo. Talvez flanar sobre contradições seja o grande poder da criatividade.  

    Como um dos principais valores da sociedade, há quem diga que a criatividade é o nosso grande diferencial enquanto humanos. Na medida em que as inteligências artificiais se aperfeiçoam, a criatividade é a nossa única vantagem competitiva (ao menos por enquanto). Estima-se que empregos de execução mais mecânica serão progressivamente perdidos para a tecnologia, o que quer dizer que exercer a individualidade será mais necessário do que nunca para sobreviver em qualquer mercado de trabalho. A guerra entre criador e criatura já começou e o alento é que a mesma criatividade que ajudou a desenvolver IAs é também a que, possivelmente, vai vencê-las — outro paradoxo? 

    O tempo do conhecimento — puro, simples, factual — está com os dias contados. Se as ferramentas de busca já vinham cavando essa cova, o Chat GPT e seus congêneres chegaram para jogar a pá de cal. O que fazer, então? Coloquemos a imaginação para jogo. Sejamos complexos, contraditórios, únicos, com um pé no sistema e outro na revolução. Responder “o que é a criatividade” não é possível — ou mesmo interessante, partindo de um ponto de vista mais filosófico e menos de dicionário. Refletir sobre de onde ela veio ajuda a entender o momento em que estamos, mas, inevitavelmente, o pensamento morre na praia. Agora, saber que há um sem-fim de mundos habitáveis aos quais as criatividades, com ésse no final, podem nos levar? Isso tem um potencial multiplicador. 

    E nada é mais criativo do que abrir páginas em branco, lotadas de possíveis definições.

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    Políticas públicas: como são (ou deveriam ser) feitas

    por Revista Amarello

    Ao término dos primeiros 100 dias do novo governo Lula, completados no último 10 de abril, é natural que se faça um levantamento mais detalhado do que foi e do que não foi feito ao longo desse período. É, afinal, um marco temporal significativo, em especial por se tratar de uma transição aprofundada do Brasil-catástrofe que aconteceu de janeiro de 2019 a dezembro de 2022. Entre as inúmeras mudanças que se fazem necessárias, dentro do tanto que se esperava mudar, um aspecto em particular arrepiava o cabelo de muita nuca por aí: para mandar uma mensagem clara e categórica à população brasileira, e ao restante do mundo, era urgente que o campo das políticas públicas passasse por um processo ardente de renovação. Isso, felizmente, se confirmou no trimestre que passou e vê-se no horizonte um punhado bem servido de propostas — em sua maioria, relançamentos de programas desmontados — que visam o combate à fome, a preservação do meio-ambiente, a luta contra o racismo e mais um mar de outras finalidades político-sociais. 

    Foto: Getty Images

    A despeito do hiato recente, no século XXI o Brasil segue a tendência progressista ocorrida na América Latina. Como conta Suzana Maria Loureiro Silveira1, advogada popular e mestra em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, desde o fim dos anos 1990 os países do continente vêm, no geral, valorizando a gestão democrática — de Hugo Chávez, na Venezuela, até Fernando Lugo, no Paraguai —, universalizando condições de vida mais adequadas àqueles situados em vulnerabilidades socioeconômicas causadas por problemáticas históricas. 

    “Desde seu primeiro mandato como Presidente, Lula tem buscado construir uma agenda política voltada ao reconhecimento das desigualdades sociais e históricas. No mesmo sentido, tem buscado alinhamento internacional sobretudo com países vizinhos. Esse movimento também ocorreu nos anos 2000 com a chamada ‘Onda Progressista’ ou ‘Onda Rosa’ que representou uma base de sólidas articulações entre Estados latino-americanos por ocasião de vitórias presidenciais na virada do milênio. Em termos de integração houve um sentido de identidade para formulações de políticas voltadas à realidade regional. Esse recorte histórico não está alheio às políticas institucionais tomadas em cada país.”

    As políticas públicas, então, dão as caras para promover o fortalecimento da participação social e a garantia de não retrocesso. O programa relançado que mais ganhou destaque nos noticiários brasileiros foi o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), uma iniciativa que garante compra de produção de pequenos produtores e oferece para pessoas em situação de insegurança alimentar. A mensagem por trás do programa e de toda a sua planejada repercussão? O combate à fome volta a ser uma das prioridades do governo. 

    Evidentemente, uma política pública não se faz tão somente de boas intenções e posicionamento humanista. De tais discursos, a gaveta de projetos descontinuados ou ineficazes está cheia. Políticas públicas nada mais são do que ações governamentais para assegurar os direitos previstos na Constituição Federal, além de, com uma construção macro que se faz a cada programa, estabelecer uma linha geral de como fazer valer os valores que deveriam tocar a sociedade e servir, assim, de ferramenta para implementar mudanças progressivas. É por meio dessas políticas que o governo aborda algumas questões como a equidade de gêneros, estabelece diretrizes nacionais e providencia recursos necessários para alcançar tanto objetivos específicos quanto amplamente definidos. Se bem planejadas, podem fazer toda a diferença tanto para o presente quanto para o futuro. Com a ajuda de pesquisas científicas, por exemplo, as políticas públicas podem levar o Brasil a se tornar referência em energia limpa.

    Como elas são feitas no Brasil?

    O processo de elaboração de uma política pública é sempre complexo e multifacetado — dois adjetivos que, apesar de enclichezados, seguem sendo palavras-chaves para a compreensão do panorama brasileiro. De acordo com Suzana,

    “No Brasil, para que haja um mínimo de legitimidade das ações estatais, reveste-se no discurso das políticas públicas a necessidade da criação de instrumentos pelos quais serão promovidas as prestações que induzam ao ‘trajeto’ previsto pelo programa ou meta, previamente prescritos, sujeitos, inclusive, à intervenção de órgãos de controle (legalidade, constitucionalidade e orçamentário) como é o caso do Poder Judiciário e tribunais de contas. Pragmaticamente, as políticas públicas enquanto essas ações estatais funcionariam como um meio. Nesse contexto, as políticas públicas atuam como instrumentos necessários à efetivação de direitos fundamentais, refletindo-se em uma ação do Poder Público tendente à realização gradativa de programas ou metas definido em norma jurídica, sob a qual pode recair controle jurisdicional quanto à eficiência relativa entre os meios utilizados e os fins ou resultados, produto da atuação estatal. Assim, toma-se como uma peregrinação em que é inerente percorrer um caminho, compreendido, dentro do ordenamento jurídico brasileiro, como imprescindível à prestação estatal, isto é, é essencial que haja a definição de uma política pública dentro de uma previsão orçamentária (votada e aprovada) e a execução do programa social aos moldes de sua definição.” 

    Presentes no Brasil, podemos pensar em 4 tipos de políticas públicas: a política pública distributiva, construída com o orçamento público contemplando ações que fornecem serviços para a população (ou parte dela) por meio do Estado; as políticas públicas redistributivas visam reduzir a disparidade social (um bom exemplo atual é a isenção do imposto de renda, que, a partir do ano que vem, aumenta a sua régua e passa a ser aplicada a quem recebe até R$2.640); as políticas públicas regulatórias estão diretamente relacionadas com as leis, criando, aprimorando ou fiscalizando o cumprimento de leis que asseguram direitos e o bem da sociedade; já as políticas públicas constitutivas têm como objetivo estabelecer as responsabilidades das esferas de poder, distribuindo e determinando se a responsabilidade sobre algo é do governo municipal, estadual ou federal. 

    Na primeira etapa para a elaboração de uma política pública, identifica-se problemas e desafios que precisam ser abordados. Esses problemas podem surgir de diversas fontes, incluindo demandas da sociedade civil, diagnósticos técnicos e avaliações de resultados de políticas existentes. Como a educação é pouco, ou quase nada, democratizada, um ProUni (conhecido também como Programa Universidade Para Todos) se faz necessário para ampliar o acesso ao ensino público. Como a violência contra mulher atinge números cada vez maiores, uma Lei Maria da Penha precisa existir.

    Com base na identificação dos problemas, as propostas são desenvolvidas por meio de consulta, negociação e articulação com diferentes atores sociais e institucionais. Essas propostas podem ser elaboradas por grupos de trabalho, comissões ou ministérios especializados. Depois que são formuladas, elas precisam ser implementadas por meio de ações concretas. Isso geralmente envolve a alocação de recursos financeiros, humanos e materiais, a definição de marcos regulatórios e a criação de instituições e mecanismos de gestão. Por fim, as políticas públicas precisam ser monitoradas e avaliadas para avaliar sua eficácia e efetividade. Isso envolve a coleta de dados, a análise de resultados e a revisão das políticas existentes para garantir que elas estejam alcançando seus objetivos.

    Mas há alguns problemas na simplificação de processos que muitas vezes ocorre por aqui. O que fazer se, digamos, uma política pública não vingar? Não é difícil de acontecer, principalmente em um país gigantesco como o Brasil, que naturalmente impõe um sem-fim de obstáculos na implementação de qualquer medida ou programa. Como diz o economista Marcos Lisboa, inovações fracassadas do setor privado duram pouco no mercado, já as estatais perduram. Isso, por si só, levanta uma outra questão: o que é o sucesso ou o fracasso de um projeto? É comum que isso não seja definido de antemão, o que dificulta a tomada de decisões lá na frente, diante dos resultados. A política pública no Brasil por vezes não embasa suas ações em evidências disponíveis.

    Mas, então, como deveriam ser feitas?

    No mundo ideal, as políticas públicas deveriam ser feitas com base em princípios de transparência, participação, fiscalização e efetividade. Ou seja, as políticas públicas deveriam ser desenvolvidas em um processo aberto e participativo, com o envolvimento ativo de diferentes atores sociais e institucionais. Deveriam, também, ser avaliadas regularmente, e de maneira efetiva, para garantir que estão atingindo seus objetivos e contribuindo de fato para o bem-estar da população.

    Nesse mesmo mundo ideal, a promoção da equidade e da justiça social deve ser o objetivo-mor, mas sempre com a adoção de políticas baseadas em evidências e a busca pela eficácia na implementação. As políticas públicas devem ser desenvolvidas de maneira estruturada e consistente, levando em consideração as necessidades da sociedade e as condições políticas, econômicas e sociais do país, incluindo possíveis barreiras. 

    “Há diversos elementos limitadores da ação, elementos jurídicos que atuam de modo a justificar as limitações de outras ordens (econômica, política etc.). As leis e planos orçamentários determinam a formulação e o alcance das políticas públicas. As alternâncias políticas e de projetos de governos impõem à população incertezas, uma vez que é suficiente que se altere a posição de um governante com relação a outro para que o cenário de formulações públicas em seu caráter progressista e mais social seja alterado. A universalização de garantias sociais tomada enquanto política de Estado representaria maior garantia aos grupos sociais subalternizados.

    No entanto, a todo momento estamos trabalhando em nossa narrativa no âmbito do dever ser. No espaço amistoso e confortável do Direito, o de suas ficções e abstrações. Temos tantos e vários direitos reconhecidos, ratificados, internalizados, positivados, contudo sem muita garantia. Ironicamente, direitos que apesar de fundamentais parecem não ser encarados como tão fundamentais assim. Basta lermos o artigo 7º, 6º e 5º da Constituição.” , nos lembra Suzana.

    Com isso em mente, o caminho básico deveria ser mais ou menos o seguinte:

    Identificação do problema sempre em primeiro lugar. Pode parecer uma obviedade, é válido apontar que essa identificação sempre deve ser baseada em pesquisas e isso quer dizer que nada adianta se essas pesquisas só buscarem evidências que dizem respeito aos fins específicos daquele projeto e fechem os olhos para boa parte da população. 

    Definição de objetivos: como saber se foi ou não foi bem-sucedida? A partir da identificação do problema, é indispensável definir os objetivos que a política pública deve alcançar. Esses objetivos devem ser claros, mensuráveis e, claro, realistas.

    Elaboração de alternativas. Com os objetivos definidos, é hora de desenvolver alternativas para atingi-los, considerando o corpo de elementos que constituem nosso sistema jurídico. Essas alternativas podem incluir diferentes estratégias, programas, ações e investimentos.

    Análise de custo-benefício. Antes de escolher a alternativa mais adequada, para fins de viabilidade é importante realizar uma análise de custo-benefício. Isso significa avaliar os custos e os benefícios das diferentes opções e escolher aquela que oferece a melhor relação custo-benefício.

    A implementação da política talvez seja o ponto mais complicado. Pensar fora do papel, mas, ao mesmo tempo, fazer isso com o pé no chão para visualizar as viabilidades do Brasil real. Depois de escolhida a alternativa mais adequada, é hora de implementar a política pública. Isso pode envolver a criação de leis, regulamentos, programas e outras ações.

    Monitoramento e avaliação: por fim, é importante monitorar e avaliar os resultados da política pública. Isso permite que os responsáveis possam identificar o que está funcionando bem e o que precisa ser ajustado ou modificado para que a política possa ser ainda mais efetiva e longeva.

    Nada disso é necessariamente linear, tudo pode ser adaptado de acordo com o contexto e a natureza da política pública em questão. A participação e o diálogo com a sociedade civil e os grupos afetados pela política são fundamentais para garantir que ela seja efetiva e atenda às necessidades da população.

    Devemos ser otimistas?

    Quando comparamos o Brasil com outros países, temos ao nosso favor uma Constituição progressista que garante direitos sociais e trabalhistas, além de políticas públicas importantes que têm contribuído para a redução da pobreza e da desigualdade; por outro lado, o Brasil também enfrenta desafios significativos, como a corrupção, que afeta a efetividade e a transparência das políticas públicas, e a desorganização política, que implementa medidas de maneira descoordenada e sem uma avaliação adequada de resultados, o que pode levar ao desperdício de recursos e a um cenário de ineficiência.

    “O impulsionamento de um conjunto de condições materiais de existência (categoria podemos inserir os direitos fundamentais positivados na Constituição de Federal de 1988) às necessidades do capitalismo se dá independentemente da base ideológica do governo ou da plataforma política do momento em que as decisões são tomadas, que posteriormente decorre na definição de agenda, implementação de políticas públicas, pois a forma do Estado representa a forma social desta determinação histórica e não de outra. As políticas públicas experimentam variações com base nas vocações político-ideológicas no grupo que ocupa as mais altas cúpulas. Não se trata apenas de seu funcionamento, mas da essência da política pública que se almeja em um determinado recorte histórico.” 

    A eficácia das políticas públicas de um país é algo complexo de se avaliar e depende de diversos fatores, como o contexto político, social e econômico do país em questão. Um país frequentemente citado como exemplo de eficácia das políticas públicas é a Noruega. Mas como comparar a Noruega ao Brasil? 

    Enquanto um é um país latino-americano emergente de 8.516 milhões de km², o outro é um país nórdico consideravelmente menor que a Bahia, cujo IDH é o segundo melhor do mundo. De maneira geral, a Noruega é conhecida por suas políticas públicas progressistas e bem-sucedidas, com um sistema de bem-estar social abrangente, que oferece saúde, educação e assistência social universais e de alta qualidade; políticas ambientais rigorosas, que visam reduzir as emissões de gases do efeito estufa e promover a transição para uma economia de baixo carbono; investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento, que têm ajudado a impulsionar a inovação e o crescimento econômico; políticas de igualdade de gênero, que têm levado a uma maior participação feminina no mercado de trabalho e em posições de liderança. Talvez isso pareça um verdadeiro oásis quando posto ao lado do país que ocupa somente a 87ª posição no ranking de desenvolvimento. Porém, lembremos das diferenças.

    “Para analisar criticamente qualquer assunto sobre a realidade do Brasil e da América Latina, devemos considerar alguns determinantes históricos que ainda continuam a produzir efeitos na forma pelas quais as condições de vida de diversos grupos sociais são construídas. Tais determinantes decorrem de eventos históricos como colonização, que implicou na condição de periferia suportada na região, por exemplo. De certa forma, toda problemática que envolve a temática de escolhas, decisões e elaboração de mecanismos que operem em um mínimo de alteração na realidade social de pessoas historicamente excluídas possuem um denominador comum: a especificidade histórica do direito no capitalismo. 

    Em outras palavras, as demandas são diferentes, as realidades são diversas. A adoção por relativização de problemas sociais se realiza sob duas racionalidades distintas, em momentos históricos e conjunturais que não se confundem, ou deveriam ser confundidos. O que dá certo para um específico problema em uma localidade, não deve ser utilizado como modelo à outra.”

    Ainda que a comparação não seja o caminho indicado, a taxa brasileira de desenvolvimento humano relativamente baixa indica que há espaço para melhorias em áreas como saúde, educação e segurança pública. Não é de hoje que o país tem potencial para avançar e melhorar suas políticas públicas. À semelhança das próprias políticas públicas, tão limitadas pelo contexto jurídico-institucional, sendo muitas vezes incapazes de promover as mudanças pretendidas, perdura a sensação de que o Brasil é o Brasil que consegue ser e não o que deveria ser. Um país do futuro demasiadamente preso às agruras tanto do passado quanto do presente. 

    No entanto, um certo otimismo pode subsistir sob tudo isso. Não chegaremos ao IDH da Noruega tão cedo, é verdade, mas estamos mais perto disso em 2023 do que estávamos nos quatro anos que vieram antes. “Agora”, finaliza Suzana, “é tempo para que nós, sobreviventes de uma gestão de extermínio, organizemo-nos politicamente e pautemos as nossas lutas e bandeiras. A saída é pelo povo.”

    O mundo, e os muitos mundos que cabem no Brasil, precisam que a eterna promessa vire realidade.


    1Suzana Maria Loureiro Silveira é Mestra e Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PPGD/PUCC). Doutoranda em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM/USP). Integrante do Grupo de Pesquisa Crítica do Direito e Subjetividade Jurídica (USP). E-mail: suzanamlsilveira@gmail.com

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    O termo “consciência de classe” foi cunhado no início do século XIX pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel e posteriormente popularizado pelos pensadores socialistas Karl Marx e Friedrich Engels. Para Hegel, a consciência de classe se referia à compreensão que os indivíduos têm de si mesmos como membros de uma determinada classe social, abarcando aí as formas com as quais essa compreensão afeta suas visões de mundo e ações político-sociais. Já a dupla Marx e Engels atribuiu ao conceito um significado mais específico, argumentando que a ideia traduzia um entendimento consciente e crítico dos interesses de classe e da posição social de um indivíduo na sociedade capitalista. Segundo eles, essa compreensão é um processo histórico que se desenvolve à medida que os trabalhadores percebem que seus interesses são distintos dos interesses da classe capitalista dominante, e que a luta de classes é necessária para alcançar a emancipação social e econômica.

    Dito isso, pensemos no Brasil. Por aqui, há uma clara distinção entre a classe dominante e a trabalhadora. De acordo com o relatório World Inequality Report 2022, elaborado pelo World Inequality Lab, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, ocupando a “honrosa” 9ª posição no ranking global de desigualdade de renda. Em alguns pontos do país, esse cenário se faz gritante. Bom exemplo desse berro é o bairro do Morumbi, que comporta em si, num raio bem menor do que seria de se imaginar, a maior favela da América Latina e uma das maiores concentrações de renda do país. Você já deve ter visto a imagem que registra a divisa entre uma sequência de condomínios de luxo e uma sequência de moradias de baixa renda, ilustrando com perfeição essa dualidade do bairro e evidenciando, sobretudo, os altos índices de má distribuição de renda do país. Tirada no começo dos anos 2000, a foto já virou quase um clichê ao redor do globo: de tão eloquente, por escancarar uma realidade exageradamente desequilibrada, ela acaba sendo fácil de ser usada como exemplo. Trocando em miúdos, para o mundo inteiro somos uma amostragem de desigualdade.

    Foto de Tuca Vieira.

    Existe uma noção geral dessa realidade?

    Pela lógica, a tendência é que a consciência de classe seja mais forte nos países em que a desigualdade de renda é mais alta, porque trata-se de um contexto em que as pessoas são mais propensas a se identificar com um grupo social, reconhecendo, ainda que inconscientemente, que pertence a um determinada estrato da sociedade. Ou seja, se tomarmos essa tendência como referência, estando no top 10 de países com maior desigualdade social, no Brasil essa consciência deveria ser alta. Mas, no fim, estamos conjecturando em cima de um conceito complexo e subjetivo, difícil (senão impossível) de medir e comparar entre países. Às vezes, parece irreal pensar na população brasileira como um corpo social totalmente ciente de seus próprios contrastes, ainda que estes sejam vividos diariamente; às vezes, no entanto, é impossível pensar o contrário. Ficamos um tanto reféns de nossas impressões pessoais, baseadas na vivência ou não.

    Vários movimentos sociais e políticos demonstram que há, sim, uma forte consciência de classe no Brasil: lutas pelos direitos e interesses das classes trabalhadoras denotam isso, como sindicatos, partidos políticos de esquerda e grupos de defesa dos direitos humanos. Ela também pode ser captada na crescente mobilização e conscientização dos jovens e das minorias sociais, que enfrentam desigualdades históricas e estruturais em relação à classe dominante. Por mais louca e perigosa que as redes sociais possam ser, ela cumpre bem a função de conscientizar gerações mais novas — o que, em décadas passadas, ou nunca aconteceria ou, quando muito, aconteceria tardiamente.

    É claro que vale ressaltar que nem sempre essa consciência é forte e coesa, já que muitas vezes — quiçá sempre — é influenciada por fatores culturais, políticos e econômicos complexos. Além disso, as desigualdades sociais e econômicas no Brasil são profundas e persistentes, o que significa que a consciência de classe pode ser difícil de se desenvolver e de ser mantida em algumas regiões do país.

    E os impostos, o que nos dizem sobre isso tudo?

    Como os impostos são uma forma importante de financiamento das políticas públicas e de redistribuição de renda, a consciência de classe pode influenciar a percepção dos cidadãos em relação aos impostos e como eles são utilizados pelo Estado. Em geral, dança-se o baile ao som das cornetas douradas do privilégio: a classe trabalhadora paga uma parcela significativa de impostos em relação à sua renda, enquanto a classe mais rica paga proporções menores. Isso pode levar a uma percepção de injustiça fiscal e a uma falta de confiança nas instituições governamentais. Por outro lado, quando os cidadãos têm uma consciência de classe mais desenvolvida, eles tendem a ter uma visão crítica das políticas fiscais e a exigir uma maior progressividade fiscal, ou seja, que os impostos sejam mais elevados para os mais ricos e que os recursos arrecadados sejam direcionados para programas sociais que beneficiem a classe trabalhadora.

    A consciência de classe pode influenciar a percepção dos cidadãos em relação ao papel do Estado na economia. Enquanto os defensores de uma consciência de classe mais aguçada tendem a acreditar que o Estado deve desempenhar um papel mais ativo na promoção da justiça social e na redução das desigualdades, aqueles com uma visão menos crítica da classe tendem a favorecer políticas que reduzam o tamanho do Estado e a carga tributária. No Brasil, o sistema tributário é bastante complexo e o pagamento de impostos pode ser uma questão delicada para muitos cidadãos e empresas. Há uma grande quantidade de normas, leis e regulamentações que regulam a cobrança de impostos, o que pode dificultar a compreensão e o cumprimento das obrigações fiscais.

    Existem diversos tipos de impostos, que são cobrados tanto pelo governo federal quanto pelos governos estaduais e municipais. Alguns dos principais são: o Imposto de Renda (IR), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) e Imposto sobre Serviços (ISS).

    O dinheiro arrecadado com os impostos no Brasil é destinado a diversas áreas e serviços públicos, tais como saúde (SUS), educação, segurança pública: assistência social, previdência social e outros. A alocação dos recursos públicos pode variar de acordo com as prioridades estabelecidas pelo governo em cada período. 

    Sistemas tributários progressistas

    Pensar na consciência de classe e na tributação específica de países pode ser interessante por, diante da postura de cada um, analisar as maneiras como cada um lida com a respectiva desigualdade social. Existem vários países que adotam políticas tributárias progressivas e buscam taxar as maiores riquezas de maneira justa. Alguns exemplos europeus, cuja realidade, sabemos, é diferente do Brasil, incluem:

    Dinamarca — Conhecido por ser um dos sistemas tributários mais progressivos do mundo, tem uma taxa máxima de imposto de renda de 55,9% sobre os rendimentos mais elevados. Além disso, a Dinamarca também cobra impostos sobre heranças e doações, e possui um imposto sobre a propriedade que incide sobre imóveis e outros ativos.

    Suécia — Taxa máxima de imposto de renda de 57,1%. Além disso, a Suécia cobra impostos sobre a propriedade, heranças e doações, e tem um imposto sobre a riqueza que incide sobre os patrimônios líquidos mais elevados.

    Noruega — Taxa máxima de 39%. A Noruega também cobra impostos sobre a propriedade, heranças e doações, e possui um imposto sobre a riqueza que incide sobre os patrimônios líquidos mais elevados.

    Alemanha & França — Com sistemas parecidos, a taxa máxima do imposto de renda alemão é de 42%, enquanto a francesa é de 45%. Ambos os países cobram impostos sobre a propriedade, heranças e doações. Além disso, têm impostos sobre a fortuna que incide sobre os patrimônios líquidos mais elevados.

    Marx e um futuro almejado há mais de um século

    “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.” Essa é uma das muitas frases famosas de Karl Marx. Entender a qual grupo pertencemos é determinante para tornar qualquer luta legítima. A falta de consciência de classe é capaz de criar cenários tenebrosos, como muitos que vivemos no mandato presidencial passado, em que os capatazes particulares nadaram de braçadas para sair à frente de qualquer sociedade igualitária. 

    Para além de uma história formativa repleta de desigualdade e crueldade, temos uma história recente que faz ecoar com força essa triste realidade clássica brasileira.

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    Do que é feita uma democracia participativa?

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    Tanto Israel quanto a França vêm sendo palco de manifestações populares relevantes, cada semana mais divulgadas pelos noticiários ao redor do mundo. Em Israel, as reivindicações gritam contra a reforma judicial proposta pelo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu; na França, a voz popular está contra a reforma da Previdência, uma das principais pautas do presidente Emmanuel Macron. Na medida em que as ruas dos dois países recebem mais e mais protestos — sim, com a violência infelizmente se fazendo presente —, os estadistas em questão seguem um tanto distantes do vozerio, respondendo a tudo com certa indiferença, a despeito das proporções enormes que as ondas de protestos tomaram. 

    Casa do Senado francês.

    Antes de nos darmos conta, por essas e outras, adotamos uma atitude cética quanto à real participação popular nas decisões políticas do Estado.

    Em uma democracia participativa, os cidadãos são ativamente envolvidos no processo de tomada de decisão política, seja por meio de votação, debates, consultas populares, audiências públicas, fóruns e outros mecanismos de participação popular. Em muitos países, a democracia representativa tradicional tem sido criticada por não conseguir representar de forma adequada as necessidades e desejos da sociedade, especialmente de grupos minoritários ou marginalizados. Um equilíbrio entre a representativa e participativa, em tese, teria o poder de aumentar a confiança dos cidadãos nas instituições políticas e a construir uma sociedade mais inclusiva. Como garantir que todas as vozes sejam ouvidas e que as decisões sejam tomadas com mais de um grupo social em mente? O conceito de democracia parece divergir se analisarmos suas aplicações em diferentes contextos político-sociais, cada qual com seus conflitos e divisões. 

    Se cada um tem a sua, do que é feita uma democracia? E do que é feito o espírito político de um país?

    “do que é feita uma democracia?”

    Alguns países são mais politizados do que outros e existem várias razões para isso. Primeiro, e possivelmente antes de qualquer outro fator, temos o histórico específico daquela nação — ainda que seja difícil, ou quase impossível, compreender totalmente de que maneira o passado vai se reverberando por entre as épocas. A verdade é que ele não vai só passando, como também se alterando. Se um país teve uma longa tradição de democracia e participação política, por exemplo, talvez seja mais provável que seus cidadãos estejam envolvidos em assuntos políticos.  Por outro lado, se um país teve uma história de autoritarismo e instabilidade política, talvez haja menos interesse e participação política. O “talvez” é a palavra-chave. Não é verdade que países mais desenvolvidos economicamente tendem a ter mais recursos para investir em educação, mídia e outras formas de envolver a população em assuntos políticos? Sim. E que, além de, dotados de todo o desenvolvimento, esses cidadãos têm mais acesso à informação e podem, assim, criar mais naturalmente um senso crítico em relação ao governo? Sim. Mas nada garante que as linhas dessas digitais serão assim ou assado. O que não quer dizer que devemos ignorar esses ou outros indicativos. 

    Populações de países com maior liberdade política, incluindo liberdade de imprensa e de expressão, são mais propensas a serem mais politizadas, já que, em um contexto no qual as pessoas sentem que têm voz e poder para influenciar a política, elas tendem a se envolver mais. O mesmo acontece em países com maior polarização, por se tratar de uma pauta rotineira e difundida: guardadas as devidas proporções, é como quando somos pequenos brasileiros e nos sentimos forçados a dizer para que time de futebol torcemos, Palmeiras ou Corinthians, Flamengo ou Fluminense. Quando as questões são controversas e polarizadas, as pessoas tendem a se identificar mais fortemente com um lado ou outro e se mobilizar para defender seus pontos de vista. 

    Se os “propensas a…” e os “tendem a…” deixam clara a imponderabilidade, as conjunções de cada caso deixam claros os caminhos a serem seguidos. Tomando como referência a história da França, por exemplo, não precisa de muito para que logo se veja um espírito democrático aflorado. 

    Por mais que se questione o lugar-comum que nomeia o país como o “berço da democracia”, é inegável que se trata de uma cultura política que valoriza e naturaliza manifestações populares contra medidas do governo ou seja qual for o tema social. Só na última década, podemos citar vários protestos que aconteceram na França, como em 2016, quando o governo francês propôs uma reforma trabalhista que, entre outras coisas, tornaria mais fácil para as empresas demitir funcionários e facilitaria a negociação de acordos de trabalho. Ou, então, como em 2018, quando ocorreram as manifestações dos coletes amarelos, um movimento espontâneo de pessoas vestindo coletes e protestando no país todo contra o aumento dos impostos sobre combustíveis e os custos de vida em geral. 

    Podemos até citar os protestos contra a reforma da Previdência de 2019 — opa, bateu um déjà vu aí? Já no final daquele ano, o governo francês propôs uma reforma vista como uma ameaça aos direitos trabalhistas. Agora, pela segunda vez em pouco tempo, a população francesa testemunha um aumento na idade de aposentadoria: o objetivo da nova lei previdenciária é, de maneira gradual (mas rápida), subir a idade de 62 para 64 anos, até 2030. A última mudança havia sido recente, em 2010 — antes disso, a idade de aposentadoria era 60. A reforma também adianta para 2027 a exigência de contribuir 43 anos para obter uma pensão, e não 42 anos como acontecia até agora. Além disso, a nova lei elimina os privilégios de aposentadoria de alguns funcionários do setor público, como os trabalhadores do metrô de Paris. Os protestos e greves de setores trabalhistas vêm acontecendo desde 19 de janeiro, quando a proposta foi apresentada. Desde então, centenas de milhares de pessoas se mobilizaram e foram às ruas — o que, ao menos por ora, tem se mostrado insuficiente. 

    Knesset, o parlamento de Israel.

    No caso de Israel, que também vive um contexto conturbado, basta uma rápida passada de olho pelas últimas décadas para perceber que as manifestações políticas, assim como na França, fazem parte do gene da população. A polêmica e infindável questão da Palestina decerto exerce influência sobre esse aspecto, uma vez que a mentalidade das pessoas israelenses é cultivada com a normalização de protestos, tendo os seus respectivos eu-políticos lembrados constantemente. Não é difícil encontrar exemplos recentes: em 2019, milhares de israelenses protestaram contra a crescente violência em comunidades árabes do país e pediram ações do governo para combater o crime; em 2018, manifestações em Tel Aviv gritavam contra a lei de imigração de Israel, que muitos argumentaram ser discriminatória contra os refugiados africanos. Os protestos populares são um aspecto importante da vida política em Israel e, com a reforma judicial israelense de 2023, não está sendo diferente. 

    O plano apresentado pelo vice-primeiro-ministro e ministro da justiça, Yariv Levin, com o apoio do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tem como objetivo mudanças fundamentais no ordenamento jurídico de Israel. Alguns aspectos da proposta dão ao governo influência decisiva sobre a escolha de juízes, além de impedir que a Suprema Corte do país revise leis aprovadas pelo Parlamento. A medida é considerada controversa por causa do sistema político de Israel, que não tem uma Constituição formal e usa leis básicas para definir o papel das instituições e Poderes. O parlamento teria o poder de anular as decisões da Suprema Corte por maioria simples, além de dar ao governo o poder de nomear juízes — algo que, atualmente, fica a cabo de um comitê composto por juízes, juristas e políticos. A reforma judicial é uma das principais apostas do governo Netanyahu. Porém, em meio à gigantesca onda de protestos, que dura praticamente 3 meses e parece não ceder, anunciou na última segunda-feira de março (27) uma pausa no andamento do projeto de reforma.

    É claro, no entanto, que a criação de uma cultura política é um processo complexo e que nem sempre se serve de uma leitura linear. A espinha dorsal de uma nação é composta também pelo intangível. O que dizer do famoso paradoxo político argentino? Talvez não exista exemplo melhor para ilustrar a contradição que muitas vezes faz parte da construção da política de um país. Na Argentina, ao mesmo tempo em que há uma forte tradição que valoriza a democracia e a participação popular, mas, há também uma curiosa tendência histórica de líderes populistas autoritários que governam com mão de ferro.

    “a criação de uma cultura política é um processo complexo e que nem sempre se serve de uma leitura linear”

    Durante grande parte da história argentina, houve um forte apelo popular por governos que prometiam justiça social e participação democrática, como foi o caso do Movimento Nacional Justicialista, mais conhecido como peronismo, um movimento político fundado nos anos 1940 pelo então presidente argentino Juan Domingo Perón. No entanto, muitos desses governos populistas também foram caracterizados por um estilo autoritário e uma concentração de poder em torno de uma figura carismática — caso do próprio Perón e sua esposa, Evita —, o que levou a períodos de repressão e violência política. O paradoxo político argentino se tornou evidente em várias ocasiões históricas, como durante a ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983. Desde a redemocratização do país na década de 1980, a Argentina tem passado por altos e baixos em sua história política, com governos mais populistas e autoritários e outros mais democráticos e reformistas.

    Quando comparamos a Argentina ao Brasil, vemos similaridades e diferenças, cada qual com seu jeito latino de ser. Da tradição política mais fragmentada, com muitos partidos políticos e ideologias diferentes, nem sempre se vê com bons olhos os protestos de rua no Brasil. Eles existem, claro, mas, pela difusão de ideais, existem em proporções humildes e raramente em escala nacional. Numa lógica mais polarizada, a Argentina tem uma longa história de confrontos entre o peronismo e o antiperonismo, e acaba gravitando em torno de greves e mobilizações sindicais. Os dois países tiveram períodos de governos militares autoritários, mas a forma como a transição para a democracia ocorreu foi diferente: na Argentina, houve uma reação forte e prolongada contra a ditadura, além da busca profunda pela justiça e responsabilização pelos crimes cometidos; já no Brasil, a transição para a democracia foi mais calma e gradual, com menos esforços para julgar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Em suma, de um lado temos 1985, filme com Ricardo Darín; do outro, temos a avenida Presidente Castelo Branco, uma das maiores de São Paulo. 

    Os protestos populares seguirão reverberando aqui, ali, em espanhol, português, francês, hebraico, nesta e em qualquer outra época. Isso é fato. A constituição histórico-cultural de cada canto há de definir os comos e porquês. 

    O poder do povo na política é um conceito que remonta às origens da democracia, onde a voz do cidadão comum era tão importante quanto a dos líderes. No entanto, ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais evidente que a influência dos mais poderosos muitas vezes vence os interesses da maioria. No mundo ideal, viveríamos onde os governados não temam falar e os governantes não temam ouvir. Mas não é bem assim. A riqueza e o poder político são recursos que muitas vezes estão nas mãos de uma pequena elite, que tem acesso aos corredores de poder e aos tomadores de decisão. A capacidade dos mais poderosos de moldar o processo político em seu favor muitas vezes resulta em políticas que beneficiam a eles próprios e prejudicam a maioria. Muitas pessoas acreditam que a política é corrupta e que as mudanças reais são difíceis de serem alcançadas por meio dos mecanismos democráticos tradicionais. Mas a descrença e o desencanto com a política, que desestimulariam a participação em protestos, não foi o bastante para impedir o atual contexto conturbado de Israel e da França. 

    “ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais evidente que a influência dos mais poderosos muitas vezes vence os interesses da maioria”

    Com a crescente conectividade e o avanço tecnológico, a democracia participativa pode se tornar ainda mais acessível e eficaz. A internet e as redes sociais, por exemplo, possibilitam a participação de cidadãos em debates e consultas populares sem a necessidade de estar fisicamente presente. A democracia participativa — ou a ideia de uma democracia participativa — continua sendo relevante, e deve ser incentivada como uma forma de promover a inclusão cívica e a justiça social.

    Do que, afinal, a democracia é feita? Sobretudo, de força de vontade. De muita força de vontade.

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    Para o arquiteto, a falta importa. A inexistência de matéria, mais propriamente entendida como vazio, pode ser melhor compreendida a partir das considerações adiante expostas.

    A construção do vazio é um dos pontos principais que o arquiteto deve dominar. Isso porque, em primeiro lugar, habitamos o vazio. Nossa experiência com o espaço, seja ela práticaou subjetiva, acontece nele. Assim como um escultor, a partir de um bloco monolítico, esculpe a figura pretendida através da remoção da matéria, o arquiteto se depara com um exercício semelhante em diversas escalas e contextos.

     A expressão “vazios urbanos”, por sua vez, é usualmente empregada pelos urbanistas como espaços negligenciados pela cidade, áreas sem uso, lotes vazios, obstruções físicas que impedem, parcial ou totalmente, a integração urbana. Esses comprometimentos da fluência dos espaços dificultam o acesso e a relação de áreas residenciais com setores comerciais e de serviços, e, o que é mais grave, em alguns casos, criam barreiras e acentuam desigualdades sociais.

    Panteão, em Roma.

    Quero, porém, ressaltar os necessários — e desejados — vazios que melhoram a qualidade de vida dos habitantes. Por exemplo, um projeto de urbanismo pode ser desenvolvido a partir do reconhecimento dos vazios, como no caso de uma praça, de calçadas mais largas, de um recuo de edificações ou mesmo do recuo das construções em relação ao passeio público, e assim por diante. O respiro, a pausa, o maior espaço e a permeabilidade na circulação dos pedestres se torna fundamental no contexto de nossas cidades mais densas. Ao analisar Manhattan, em lugar de inúmeras praças espalhadas pela cidade, foi idealizado um grande vazio central, o Central Park. Em contrapartida, Londres foi desenhada pontuando jardins menores e fragmentados pela malha urbana, alguns inclusive fechados para uso exclusivo dos moradores das casas que os circundam. Os grandes parques de Londres eram, em sua maioria, campos de caça que posteriormente se transformaram em parques. Evidentemente, as estratégias adotadas nessas cidades para os vazios planejados geram impacto nas dinâmicas sociais.

    As cidades brasileiras, por sua vez, são colchas de retalhos de estratégias inspiradas nas principais correntes urbanísticas, a depender da época em que foram implantadas — na maioria das vezes, apenas em áreas privilegiadas da cidade. Nossa carência de vazios planejados é evidente, e os poucos existentes resultam de boas intenções pontuais e muito empenho, como o Parque Augusta e a abertura do Minhocão nos finais de semana,no caso da cidade de São Paulo.


    Santa Paula Iate Clube, projetado pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas na década de 1960.

    Os vazios planejados são fundamentais para que a vida urbana aconteça em sua plenitude e têm impacto direto na qualidade de vida e na saúde mental de seus habitantes. As cidades precisam ser densas(que não haja equívoco quanto a isso), as pessoas devem morar onde desejam e preferencialmente próximas de onde trabalham. As demandas precisam ser atendidas, mas, tão importante quanto a alta densidade das áreas urbanas, deve haver o contraponto, há que se dimensionar e locar adequadamente os vazios e requalificaraqueles que nos separam.

    O vazio também merece protagonismo na escala das construções, seja numa casa, numa capela ou num museu. A proporção do vazio no espaço construído e sua dimensão em relação ao pé direito projetado, somadas as aberturas para a entrada de luz natural, têm influência direta na psique humana, evocando desde o acolhimento e a serenidade até a grandiosidade dos monumentos.

    A magnitude do Panteão, em Roma, impacta não pela altura da construção, mas sim pela dimensão de seu vazio interno, coroado pela abertura de luz no topo.

    Em um de seus últimos projetos, a reforma da Bolsa do Comércio de Paris, o arquiteto japonês Tadao Ando, que possui grande sensibilidade para o vazio, através de intervenção precisa de empenas de concreto, organizou a circulação em torno do vazio central e reforçou seu protagonismo.

    Bolsa do Comércio de Paris, de Tadao Ando.

    Vale aqui referir David Byrne, vocalista do Talking Heads, que em uma palestra muito interessante, correlaciona o desenvolvimento de alguns tipos de música ao espaço onde foram criadas, essencialmente a melhor propagação da música no vazio em que surgiram. Cantos gregorianos em catedrais góticas, jazz em ambientes pequenos, rock e punk nos porões.


    Planta e corte de uma casa projetada por Felipe Hsu, no interior de São Paulo, em torno de um vazio central.

    Nas casas brasileiras, em função das dimensões recorrentes dos lotes de meio de quadra, o vazio em forma de pátio interno, central ou lateral, recurso utilizado desde a Antiguidade Clássica, é ferramenta que permite a entrada de luz, confere permeabilidade visual à construção e agrega vantagens térmicas na implantação do projeto.


    Casa em Santa Teresa, projetada pelo arquiteto Angelo Bucci. Foto: Nelson Kon

    A ausência de materialidade em determinados pontos da construção é recurso que traz leveza ao objeto edificado. O que em princípio seria pesado e volumoso, pela ausência de matéria no encontro das formas, torna-se delicado e singelo.

    O arquiteto brasileiro Angelo Bucci, um dos mestres em transformar o peso do concreto em construções leves que parecem apenas pousar no solo, utiliza empenas que não se tocam — vazios internos e externos que dialogam para criar uma construção rica, essencialmente através dos vazios e da ausência de encontros.

    Nos dias atuais, marcados pela velocidade do mundo digital, pelo excesso de informação e pelas rotinas apressadas, o vazio, enquanto elemento chave do projeto, tem essa qualidade imaterial, muito própria e intrínseca, que traz bem-estar, proporciona oportunidade de contemplação e leveza e traz serenidade e respiro para aqueles que têm o privilégio de habitar, trabalhar e circular nos espaços assim projetados.

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    A precisão e a preciosidade dos têxteis brasileiros.

    Renascença, labirinto, filé, redendê, boa noite, singeleza… O que essas palavras têm em comum, além de serem encantadoras? São técnicas têxteis que compartilham suas origens europeias, mas que encontraram no Brasil a potência e a criatividade para criarem-se novas no trabalho de milhares de rendeiras, bordadeiras e tecelãs.

    Os têxteis tradicionais brasileiros, que resistem hoje especialmente em territórios nordestinos, rurais, são reconhecidamente ofícios femininos e domésticos. Em localidades que têm essas produções como principal fonte de renda e expressão cultural, é no cotidiano silenciado do lar, entre uma tarefa e outra, que as construções tão admiradas se dão. A cada nó cruzado na linha forma-se a estrutura que acarinha e sustenta toda a família.

    Nas histórias de vida compartilhadas, aos poucos entendemos o espaço central que esses ofícios ocupam na construção econômica, social e cultural das artesãs. Eles apareceram para elas, desde a infância, como oportunidade de fazerem-se independentes, de circularem e conhecerem o novo para além do ambiente doméstico. Muito além de produtos, suas autoras cultivam um modo de vida com um trabalho que constitui a realidade e a elabora, por ser um aspecto importante para a reprodução material e social do lugar. A estética das peças revela uma complexa trama de saberes tradicionais, combinação incessante entre valores subjetivos e objetivos de quem as produz.

    Com nosso trabalho, saímos da casa e fomos para a rua passear, juntas. Essa rua que é o fora, o assombro e o assunto do mundo. Viemos juntas e aqui estamos, com você.

    Segundo a mestra Dinoélia Trindade, rendeira de bilros baiana e presidente da Rendavan, a Associação das Rendeiras de Dias D’Ávila, “empoderar a vida de uma mulher é oferecer condições para que ela venha a reconhecer que é capaz”. Foi com isso em mente que decidi, em 2020, reunir forças e dar corpo a um trabalho que já vinha realizando há mais de dez anos. Assim nasceu a Ómana, que é fruto, é filha, é mãe e é mana. É um trajeto a ser sempre percorrido, descoberto, cheio de encontros. É tanto trabalho e tantos nós que precisamos conhecer e reconhecer.

    Ómana é uma interjeição de admiração e também um convite: “Ó, mana! Vem com a gente, que sempre somos juntas”. Mana é como muitas das artesãs se chamam, reconhecendo na irmandade profissional o caminho que percorrem.

    Assim, propomos dar um giro com essa produção, deixá-la mais amostrada e valorizada através da atuação em três principais frentes: registro das técnicas e dos seus modos de fazer, difusão de saberes para que sigam adiante e experimentação técnica, com design participativo, voltado à criação de novos produtos, únicos e expressivos.

    O aprendizado

    Quando as artesãs, em sua maioria entre os quarenta e sessenta anos, nos contam sobre como aprenderam seus ofícios, percebemos muitos pontos comuns. Em geral, elas recordam que foi com nove ou dez anos que, de tanto olharem as mais velhas trabalhando, recriaram no gesto o conhecimento que muitas vezes não era repassado em palavras.

    Em cenários de muita precisão, o trabalho iniciava já na infância, com sentimentos de curiosidade e fascínio que se misturavam com a necessidade de fazerem-se produtivas desde muito novas para auxiliarem os pais na gestão do lar. Percebemos isso em muitas falas, como a da mestra Suelene Cavalcanti, de São João do Tigre, que conta: “Comecei a me desenvolver com a renda na casa das vizinhas. Visitava a casa de umas moças e ficava lá olhando. Ninguém me ensinou, comecei desenvolvendo com meu olhar. Na época, meu pai e minha mãe não tinham condições de comprar o material pra eu aprender, foi aí que eu tive um pensamento de pegar a ourela de tecido, de onde eu tirava o fio e a fitinha pra treinar”.

    Esse relato, para além de demonstrar a determinação de uma mulher que renda há mais de cinquenta anos, evidencia uma criatividade intrínseca ao fazer artesanal brasileiro, que adequa a realidade ao desejo e à necessidade do momento.

    Construir um cenário de maior valorização econômica e reconhecimento para as artesãs é criar condições para que essas técnicas sejam percebidas em sua grandeza, oportunizando sua continuidade. Esse é um dos pontos mais destacados por muitas das mulheres que dominam esses conhecimentos e que veem as mais jovens desinteressadas em aprender. Seja pelo ainda presente desvalor ou pela expansão das oportunidades, o repasse e a consequente subsistência dessas práticas depende da criação de estratégias e políticas públicas para esse fim.

    Assim, quando Suelene diz “tenho uma história muito longa com a renda renascença, eu me sinto assim como se fosse minha praia, minha vida. Meu sonho é que as pessoas tivessem mais o acreditar, tivessem mais visão pra não deixar morrer, pra que essa nossa história que já vem há tão longo tempo, uma história tão bonita, se prolongasse”, ela fala por todas nós.

    Esse relato é complementado pelo depoimento de Risolange Rodrigues da Silva Melo, presidente da ASTALC, a Associação das Tapeceiras de Lagoa do Carro. Para ela, “a artesã precisa ser valorizada com políticas públicas voltadas ao artesanato, e que ela, se sentindo valorizada, possa inspirar as mais novas. Eu sou turismóloga por formação, mas antes disso eu sou artesã, antes de tudo eu sou artesã, por querer, por amor e por resistência”.

    Precisão: da falta ao rigor na execução

    Seguimos com as histórias de vida das mestras como fio que estrutura e conduz nossa trama. Compreendemos, a partir delas, que a precisão, tão relatada pelas mulheres, diz respeito aos momentos de maior carência pelos quais passaram. Porém, é com precisão, no sentido do rigor na execução, que executam seus trabalhos e superam essas condições. Jeruza Gomes, mestra rendeira do Sítio Mimoso de Jataúba, conta: “A renascença pra mim foi uma história, aprendi com as minhas irmãs e com o pessoal da minha comunidade, do Sítio Mimoso, quando tinha sete anos. Era uma época muito difícil, porque o trabalho que tinha era na agricultura. Meus pais trabalhavam na cata de algodão, de mamona, porém não era todo o tempo. Faz 43 anos que eu conheci a renascença e me adaptei fazendo, e com ela foi que eu consegui, a gente comprava comida, roupa e calçado. Não era valorizada como está sendo hoje, porque a gente vendia aos atravessadores que passavam por aqui no sítio Mimoso, e essas pessoas já vendiam pra outras lá fora e pra gente ficava sem valor. Mas conheci minha amiga Helena, e através da nossa parceria com a Ómana eu vi que a renascença tem valor. É um trabalho manual que antes a gente só conhecia alguns tipos de pontos, hoje eu posso considerar que eu tenho conhecimento de uns cinquenta tipos de pontos, sei que hoje é valorizado, um trabalho de muita importância, garantido”.

    Nossa criação

    Em uma relação direta com as artesãs e partindo de intensa pesquisa de campo, identificamos fragilidades e potencialidades na cadeia produtiva de determinada técnica para, a partir daí, buscarmos coletivamente novos caminhos possíveis. Pesquisando a fundo suas histórias e métodos, buscamos, através do design participativo, solucionar questões fundamentais para o encontro de um mercado mais justo, promovendo a manutenção e salvaguarda dos conhecimentos tradicionais.

    Dessa forma, a reativação de pontos já pouco conhecidos e aprimoramento do acabamento foram centrais para projeto. A Luminária Caju é um exemplo disso; trabalho resultante da união entre Amarello, Ómana, a artista Aline Vilhena e rendeiras do Cariri Paraibano, coordenadas pela mestra Suelene Cavalcanti de Oliveira, é um dos resultados dessa atuação que apresentamos aqui. Seguimos, dessa forma, estabelecendo laços e trabalhando lado a lado com as artesãs em todo território nacional, potencializando toda capacidade criativa e produtiva existente.

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    Um repertório emocional carregado a tiracolo serve ora como a shoulder bag da qual tiramos um ou outro item de enorme importância, tal qual um guarda-chuva, ora como a espingarda que cospe fogo à menor ameaça, tomada por um déjà vu daquilo que já nos fez sofrer. Não queremos passar por aquele sufoco de novo, então cada silhueta sombreada na parede se configura à semelhança do passado. Como ignorar o que já foi e colocar os óculos escuros para pisar na estrada de um futuro ensolarado? Há quem não consiga. As projeções sempre estarão lá, minando todo tipo de relação, sendo uma presença que respira pelo pulmão da ausência.

    No meio de tanta erupção, “projeção” ganha o formato daquilo que estabelecemos como ideal para nós. O famoso “para mim tem que ser assim e assado”, cuja base, teoricamente, é empírica, mas que sempre vem com uma pitada de capricho pessoal. Procurar um modelo exato no meio de humanos inexatos é a fórmula da decepção. Mas e se essa busca pudesse ser expandida? Digamos, a novos receptáculos de interação. Estamos entrando na era das inteligências artificiais, as IAs — se é que já não estamos afundados nela —, e tudo é possível.

    No filme Ela, clássico moderno de Spike Jonze, Theodore está passando por um difícil divórcio. Talvez não especialmente difícil, considerando o quão brutal um divórcio pode ser, mas, de partida, uma separação é algo que por algum tempo nos consome carga emocional. O personagem de Joaquin Phoenix, um escritor (nem um romancista, nem um autor de autoajuda, mas um ghostwriter de cartas pessoais), vem passando por maus bocados depois que anos ruins culminaram no final de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Mesmo no meio da enorme massa populacional da megalópole onde vive e da boa vontade de alguns amigos, a solidão é sua maior companhia durante o processo.

    Ela, de Spike Jonze

    Em dado momento, ele até vai num encontro às cegas, mas a tentativa acaba não vingando. É nesse estado camuflado, escondido na geografia da cidade grande, que conhece Samantha, seu mais novo sistema operacional. De cara os dois se dão bem, sendo boas companhias um para o outro. Ela é uma voz sem forma física, é verdade, mas isso não impede um relacionamento amoroso. No mundo criado por Jonze, a prática não é incomum, e os temores que afligiam Theo parecem se apequenar perto da cumplicidade oferecida por Samantha. Na medida em que vão se conhecendo e que Samantha vai se descobrindo, ela demonstra insegurança sobre si mesma — mas “you feel real to me”[SBC1] , rebate o escritor. Até certo ponto, ela era a projeção do relacionamento perfeito que ele nunca teve e uma supressão do que ele não conseguiu manter. E sim, o sexo também está lá, como demonstrado numa inspirada sequência em que uma tela preta representa não só o pináculo sexual de ambos, mas a conexão entre os dois atingindo seu estado mais puro.

    Theo sabe bem: estatisticamente, relacionamentos com sistemas operacionais são raros, e é por isso, conclui, que o que tem com Samantha é real. As feridas começam a se deixar fechar aos sopros suaves da voz de Scarlett Johansson. Em contraponto à sua felicidade, ele ouve sua amiga (Amy Adams) relatar o fim de um relacionamento de oito anos, engatilhado por uma discussão boba, e muito humana, sobre onde colocar os sapatos. Se “o passado é uma história que contamos a nós mesmos”, ele finalmente sente que está no controle da narrativa.

    Quanto mais Samantha se desenvolve, porém, mais humana ela fica. A eficiência normalmente atribuída às inteligências artificiais aqui significa mais suscetibilidade e uma ampliação progressiva do desejo de explorar mundos e sensações. Muito embora não veja problema nisso a priori, a projeção idealística que Theo tinha no começo passa a desvanecer, e seus erros reverberam, como fariam em uma relação unicamente humana. Quando enfim assina os papéis de seu divórcio, ele acusa o golpe e volta ao estado de isolamento do qual a duras penas saiu, não compartilhando com Samantha suas angústias, a despeito das inúmeras tentativas de aproximação dela. Se um dia ela foi ideal para ele, talvez agora ele não seja mais o ideal para ela. E assim eles se despedem.

    Em uma carta para a ex-esposa, a primeira que o vemos assinar com o próprio nome, ele escreve: “Sempre terei um pedaço seu em mim”. De maneira similar a uma inteligência artificial que acumula informações e se aperfeiçoa com o tempo, sempre tentando preencher as lacunas de seu sistema, Theo carregará Samantha e Catherine em si.

     “Pode a consciência existir sem interação?”

    Já o filme Ex Machina, dirigido e roteirizado por Alex Garland, dá ares mais fatalistas à ideia de eficiência. É essa competência que nos vem à mente quando pensamos em IA e procedimentos cirúrgicos ou IA e um chat de respostas. Mas e quando isso é aplicado a uma relação, uma troca entre dois seres? Ao passo que nós, no auge de nossa humanidade, temos que lidar com demônios internos, uma inteligência artificial opera para conseguir aquilo que foi programada para conseguir. É uma dinâmica que constitui uma curiosa “vantagem competitiva”.

    Ex Machina, de Alex Garland

    Ciente desse conceito, o magnata da tecnologia Nathan (Oscar Isaac) sai em busca de um programador da sua empresa: quer alguém de coração mole para conhecer Ava (Alicia Vikander), a versão mais recente de seus experimentos com robôs humanoides. Seu objetivo é ver se ela se aproveitará do ponto fraco do humano para escapar da jaula em que está aprisionada. Escolhe a dedo o traumatizado Caleb (Domhnall Gleeson), que perdeu os pais na adolescência num acidente de carro, sob o falso pretexto de que ele aplicará nela um Teste de Turing — mas em uma versão mais complexa, já que ele não somente tentaria identificar em Ava traços humanos, como também avaliaria a consciência que se conhece o suficiente para saber que não é uma pessoa. Na relação de pai e filha que Nathan tem com Ava, Caleb é uma mera engrenagem, um meio para um fim. Domhnall Gleeson, sempre capaz de evocar profunda empatia, e Alicia Vikander, em seu primeiro grande tour de force, proporcionam interações vibrantes.

    Ao encontrar prazer nas conversas, Caleb se depara com o que ele mesmo define como the chess problem: ela tem sentimentos reais ou está simulando? Só mais para frente junta os pontos e descobre as verdadeiras intenções de Nathan, entendendo que até o modelo de Ava foi feito com base no seu histórico de pornografia. Vendo os dois, é difícil cravar quem é mais sozinho: o CEO beberrão que se embriaga diante do original de Jackson Pollock que tem no quarto de sua mansão isolada e hermética, ou Caleb, que, apesar de se considerar uma pessoa boa, ainda sente falta dos pais? O que destrói mais, o vazio orgânico deles ou o artificial-mas-inflexível ímpeto de viver de Ava?

    “Tornei-me a Morte, a destruidora de mundos” é uma famosa fala de Robert Oppenheimer (1904 – 1967), criador da bomba atômica, como Caleb lembra em conversa com Nathan. Não à toa.

    Se em Ela há uma voz de camadas tão palpáveis quanto qualquer gadget, e em Ex Machina, uma representação ardilosamente física que age conforme os interesses próprios, A.I. — Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence) tem em si um combinado desses dois. Essa trinca fílmica, de bases científicas e físicas sólidas, representa bem como o conturbado mundo em que vivemos pode, exatamente como ele é, servir de trampolim para mundos que ainda não aconteceram: mais sci-fi, menos sci-fun. Como veio antes, em 2001, A.I. é como se fosse o pai, ou o irmão bem mais velho, de uma dupla que tomou caminhos divergentes (seguindo a analogia, o filme-pai, inevitavelmente, é Blade Runner — O Caçador de Androides). Ainda que não tenha sido vista assim à época de seu lançamento, a obra de Steven Spielberg é tão sensível quanto ambiciosa.

    A.I. — Inteligência Artificial é fruto de uma parceria de Spielberg com um de seus ídolos, Stanley Kubrick (1928 – 1999). Baseado em um conto do escritor Brian Aldiss (1925 – 2017), esse era um projeto de estimação de Kubrick, que por anos o desenvolveu. Ele criou argumentos, fez designs de produção, buscou investimento e, por tudo estar assim tão próximo ao seu coração, reconheceu que não era o nome mais indicado para a empreitada. Quando fez contato com Spielberg, disse que aquela ideia tinha mais a ver com a sensibilidade do diretor, talvez pensando em obras como E.T. ― O Extraterrestre e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que injetam à ficção científica uma grande (e rara) carga emocional. Juntos, foram aos estúdios, apresentando o projeto como “uma mistura de Blade Runner com Campo dos Sonhos”.

    “A Fada Azul faz parte da maior falha humana, que é desejar coisas que não existem, ou então do maior dom humano, que é a capacidade de perseguir sonhos“

    A família Swinton vive uma tragédia: Martin, o primogênito, está em coma e os médicos não demonstram muita esperança. Monica e Henry, pais de primeira viagem, tentam se reerguer, mas é claro que os buracos na estrada dificultam tudo. Paralelamente, o laboratório do professor Hobby desenvolveu o primeiro robô-menino programado para amar e, ansiosos para testar a invenção, procuram os voluntários ideais. O caso dos Swinton parece perfeito, e Henry, sem que sua esposa saiba, adota David — interpretado pelo jovem e já indicado ao Oscar Haley Joel Osment. Com exceção de sua falta de costume e seus movimentos duros, David parece um menino qualquer, assim como o filho que está momentaneamente ausente. E se, no começo, a mãe se mostra incomodada com aquela presença estranha na casa, ela logo se deixa levar pelo enorme carinho que o filho adotivo demonstra. Considerando a linda visão de Hayao Miyazaki sobre o que é uma expressão verdadeira de amor, definida por ele como “quando duas pessoas se inspiram mutuamente a viver”, temos uma manifestação genuína de afeto entre os dois. Ela volta a sorrir, e ele, em seu primeiro contato com o mundo, não faz ideia do que é tristeza.

    Para David, deveria ser assim: ele e sua mãe sendo felizes. E isso, ao menos por um período, acontece ― até que Martin volta, depois de um milagre inesperado.

    Como um garoto que nem à puberdade chegou, Martin fica às turras com David, criando uma rivalidade fraterna que explora a inocência do irmão, sempre que possível o lembrando que eles não são iguais. Sentindo-se acuado, cada vez mais David quer provar que é humano, chegando ao cúmulo de lotar a boca de espinafre, numa atitude que prejudica seu mecanismo. O médico (ou o mecânico) adverte: “Espinafre é para coelhos, pessoas e o marinheiro Popeye. Não para meninos-robô”. Além de Popeye, outra figura conhecida que ganha destaque é Pinóquio. Monica lê a fábula e David logo se encanta com a possibilidade de, como o boneco de madeira de Gepeto, virar um menino de verdade. Para isso, precisa da Fada Azul, que realizará o seu desejo.

    Eventualmente, depois de conflitos que são vistos como ameaças à segurança da família, o casal decide abrir mão de David, devolvendo-o ao laboratório. No caminho até lá, porém, sabendo que mandá-lo de volta significa fazer com que seja descartado, Monica prefere abrir o carro e mandar o filho correr para a floresta, para bem longe do laboratório. Jogado ao mundo, David só consegue pensar na mãe. Agora, custe o que custar, encontrará a Fada Azul. Quer de todo jeito ser um menino de verdade, pois julga que só assim sua mãe o amará de verdade. A longa jornada de David envolve um robô-gigolô (Jude Law), uma carnificina mecânica chamada de Flash Fair e uma Manhattan inundada; uma série de eventos que gira em torno de uma única obsessão: ser amado.

    Como Theo foi amado por Catherine. Como Caleb foi amado pelos pais. Como sua mãe chegou a amá-lo, nem que por uma fração de segundo.

    O que os traumas nos ensinam é que sempre haverá uma versão melhor da vida, por mais inalcançável que ela seja, e que essa versão vai nos perseguir continuamente com unhas e dentes, nos seduzindo e nos jogando em um estado perpétuo de saudade. Nada pode ser amado com mais intensidade do que aquilo que nos faz falta. E quanto mais artificial se torna o mundo, mais incessante é a nossa busca pelo real.

    No fim, estamos todos em busca da Fada Azul.

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