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Obra de Yasmin Guimarães, artista publicada na edição Amarello Sonho.
Sociedade

Geração ansiedade e a crise do mundo adulto

por Revista Amarello

Os Millennials e a Geração Z carregam um título que ninguém gostaria de carregar: são a geração mais ansiosa da história. Antes, a expectativa que perdurava no ar era a de que, com avanços médicos e tecnológicos, cada próxima geração se sairia mais completa, mais próxima à perfeição que a anterior. Mas a ironia não deixaria que isso fosse cem por cento verdade. A sensação que predomina é que estamos diante de uma geração em que isso não condiz com a realidade, pois, apesar dos avanços em inúmeras áreas — e em algumas, por causa dos avanços —, questões maiores parecem ficar no caminho da plenitude.

Pessoas nascidas entre 1981 e 1996, no caso dos Millennials, e entre 1997 e 2010, no caso da Gen Z, cresceram em um mundo altamente digitalizado, enfrentando uma somatória de desafios. Entre os fatores que pintam esse quadro estão desde questões globais como mudanças climáticas e polarização política até problemas pessoais como instabilidade financeira e a inevitabilidade perniciosa das redes sociais.

No livro Geração Ansiosa: Um guia para se manter em atividade em um mundo instável, a psicóloga clínica, Lauren Cook, fala abertamente sobre sua experiência pessoal para oferecer uma abordagem honesta e repleta de métodos práticos de como lidar, ou tentar lidar, com a sobrecarga de informações e arapucas da atualidade. Nascida no começo dos anos 1990, ela também carrega o peso de sua geração, tentando esquematizar soluções e, por vezes, tirar algo positivo da história toda. Além de sua própria experiência com a ansiedade, se baseou em pesquisas psicológicas sólidas e vivências diversificadas de seus pacientes para escrever o livro. Cada capítulo tem um personagem-paciente central, que não existe como uma pessoa específica, mas como uma amálgama de relatos de seus pacientes e sensações comuns às temáticas tratadas naquele conjunto de páginas.

Para começo de conversa, Cook reconhece que, embora a tecnologia tenha facilitado o acesso à informação, ela também trouxe um constante bombardeio de notícias preocupantes e a pressão onipresente das redes sociais, um ambiente em que a comparação diária com os “melhores momentos” dos outros pode intensificar sentimentos de inadequação e isolamento. Por mais que se tenha a noção de que as redes não retratam as vidas verdadeiras das outras pessoas, é comum que os stories e as postagens façam com que quem quer que esteja vendo sinta que não está fazendo muito, que não está aproveitando a vida ao máximo, que sua vida profissional não foi para frente como ela sonhava, que seus dias são enfadonhos e pouco compartilháveis. A comparação por si só já é um problema. Sempre foi. Mas a comparação com algo totalmente irreal é ainda mais problemática.

Cook compara a crise de ansiedade à sensação de afogamento — assustadora, avassaladora e, sim, por vezes geradora da sensação de que a vida está por um fio. Muitos jovens hoje descrevem a experiência como se estivessem se afogando, inundando seus pulmões em um mar de inseguranças e desafios. As águas desse mar ficam violentas com os ventos fortes de uma ansiedade que é exacerbada por fatores que não eram tão predominantes ou intensos nas gerações anteriores — Baby Boomers (1946-1964); Geração X (1965-1980) —, o que explica em parte por que os níveis de ansiedade são mais elevados nas gerações Y e Z.

“Estamos cansados. Temos dúvida de que alguma coisa possa fazer diferença. O desgaste da ansiedade ao longo dos anos desenvolveu um tártaro emocional que nos deixou endurecidos. Nosso ceticismo nos deixou isolados em nossas redes sociais e telas da Netflix. Embora todos nós estejamos sofrendo coletivamente, podemos sentir como se ninguém entendesse nossa dor.”
— Lauren Cook, em Geração Ansiosa

Uma explicação popular para tanta insegurança e instabilidade profissional é a tese do “floco de neve”, de que os jovens de hoje foram demasiadamente mimados pelos pais, sendo permitidos a evitar a responsabilidade e a independência que fomentam a resiliência mental. Mas essa visão, claro, subestima esses jovens, ignorando o contexto maior em que eles estão inseridos. Há, de fato, novos desafios a serem superados, desafios que as gerações anteriores não tinham, especialmente quando se trata de preocupações com o futuro, seja por perspectivas de emprego ou por questões socioambientais. Não é sobre ser mais difícil ou menos difícil, mas o fator “tudo ao mesmo tempo no mesmo lugar”, somado à incerteza da existência de um futuro, configura um panorama novo, que demanda adaptação.

É sintomático que os Millennials tardios e a Geração Z estejam adiando muitos dos marcos da vida adulta que as gerações anteriores consideravam indispensáveis: muitos não são proprietários de imóveis, muitos não estão em relacionamentos sérios, muitos não estão se casando por escolha própria. Sem marcos que representam avanço, seus esforços para progredir acabam sendo frustrados, o que faz com que permaneçam inertes em posições fetais confortáveis, que não exigem movimento e, às vezes, se vier a calhar, nem custos financeiros. Por essas e outras, há uma demora cada vez maior para que deixem a casa dos pais. Como um todo, essas gerações têm níveis de escolaridade altos — na verdade, dos mais altos que já existiram —, mas o caminho para o sucesso está bem menos claro. 

Com a promessa de que o trabalho deve ser uma atividade apaixonada, monetizando muitas vezes um hobby ou algo que num contexto pessoal seria uma paixão, há uma enorme pressão para que a vida profissional não seja um mero ganha-pão. Ela tem que ser um prazer. Na teoria, funciona; na prática, nem tanto. O sentimento constante de insatisfação reverbera com força quando se é pressionado a ser feliz e agradecido inclusive nas oito horas diárias (se não forem mais) de labuta. Pois, se uma pessoa não se sente exatamente assim, saltitante com o que faz para viver, a cobrança começa vir dela mesma — algo como: “Naqueles últimos stories, as pessoas pareciam felizes com o trabalho. Por que não estou assim com o meu? Algo deve estar errado.” Fato é que, por mais que se trabalhe com algo que converse com suas afinidades pessoais, nada é mais natural que o desgaste aconteça e nem tudo seja rosas. 

Um efeito colateral disso é que, hoje em dia, para essas gerações, parece não haver mais espaço para atividades que exigem uma certa adaptação. Quando o trabalho é visto como uma extensão do prazer, ele rapidamente será considerado como não adequado. Afinal, estamos falando de cobrança, prazos, compromissos, estresse — e isso faz com que as pessoas troquem de trabalho rápido, sempre em busca desse ideal profissional que nem sempre existe. Há o lado positivo de estarmos mais atentos a ambientes tóxicos de trabalho e a chefes que maltratam seus funcionários. Nesse aspecto, houve um avanço inegável. Mas mesmo os aspectos positivos podem contribuir para a ansiedade, já que, depois de reconhecer um ecossistema ruim, estamos em um período de transição, o que quer dizer que os abusos morais ainda ocorrem com muita frequência e os burnouts estão longe de acabar. 

“Se você está considerando a suposição de que não está sendo uma boa amiga quando já está se virando do avesso para ajudar, ou de que tem ‘sorte’ por conseguir todo esse trabalho extra sem uma mudança de posição e uma compensação, temos que conversar. Não só você está em águas infestadas de tubarões, como temo que tenha vestido uma fantasia de foca, minha amiga. Pior ainda, se seus amigos, seu parceiro ou seu chefe fazem você acreditar que ainda não está fazendo o bastante quando está fazendo tudo o que pode, você agora está oficialmente na gaiola do tubarão, esperando que as grades sejam quebradas. Temos que encontrar uma saída.”
— Lauren Cook

Ao mesmo tempo, os Millennials e a Geração Z estão muito mais conscientes das questões de saúde mental. São mais capazes de articulá-las do que seus pais. Quando gerações mais velhas deixavam empregos, poucos acusavam questões psicológicas. As novas gerações estão mais em sintonia com suas necessidades, dizendo: “Eu tenho ansiedade,” ou, “Fui diagnosticado com depressão.” Mas o estigma persiste. Os jovens podem estar mais conscientes do que os aflige, mas relutam em falar sobre isso no trabalho. Alguns profissionais jovens estão lidando com problemas de saúde mental pela primeira vez, preocupados com a imagem, muitas vezes negligenciando suas necessidades até que se tornem insustentáveis.

Um dos pontos surpreendentes levantados por Cook em Geração Ansiosa é como a ansiedade pode ser transmitida de geração em geração. 

“Podemos ser impactados num nível biológico, microscópico. A investigação dos efeitos de traumas intergeracionais teve início quando pesquisadores começaram a estudar sobreviventes do Holocausto e notaram que, em alguns casos, os filhos de sobreviventes de campos de concentração pareciam ser mais traumatizados do que os próprios sobreviventes. A partir dos anos 1990, esses estudos foram ainda mais longe, examinando o impacto do trauma geracional sobre a expressão gênica, um campo de estudo conhecido como epigenética. Um estudo significativo constatou que crianças podem ser afetadas pela exposição a traumas parentais não apenas antes de nascerem, mas antes mesmo de serem concebidas. Tudo isso para dizer: nosso DNA pode ser literalmente modificado por causa da dor que nossas mães, pais, avós e gerações anteriores suportaram.”

O trauma e o estresse podem alterar fisicamente nossos genes, um fenômeno que tem implicações profundas sobre como entendemos e tratamos a ansiedade. O futuro, se é que existe, não parece promissor para os filhos da geração ansiosa. No entanto, a pesquisa também mostra que mudanças positivas no estilo de vida podem reverter esses efeitos, oferecendo uma visão mais esperançosa para o futuro. Haveria, então, salvação?

Seja como for, tanto os Millennials quanto a Geração Z têm sido lentos para abraçar a vida adulta com entusiasmo, juntamente com a independência que costumava ser atraente para os adolescentes. Adulting, ou “adultar”, agora se tornou um verbo, como se alguém tivesse escolha no assunto. A carteira de motorista é um exemplo — cada vez mais jovens estão renunciando dela, já que estão ou acostumados a usar Uber e transporte público ou pegar caronas com os pais. O que antes era um sinônimo de liberdade e amadurecimento, hoje é algo dispensável. Em números recordes, os jovens simplesmente não veem isso como algo que os preocupa.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, “adultar” está longe de ser prioridade. 

Reconhecendo os desafios, há uma busca por soluções de saúde mental online, impulsionando o crescimento de uma nova indústria bilionária. Aliás, serviços de coaching, mentoria e terapia online estão se expandindo rapidamente para atender a demanda. Relatórios mostram que o mercado global de coaching online deve crescer significativamente, atingindo US$ 11,7 bilhões até 2032, enquanto o mercado de terapia online pode chegar a US$ 16,16 bilhões até 2028.

Talvez haja muitas coisas boas por vir. O difícil vai ser construir a estrutura de saúde mental necessária para que não desmoronem enquanto isso.

Para Lauren Cook, é verdade que a ansiedade é um dos grandes marcos da atualidade e das gerações que carregarão o futuro adiante. Mas, com um misto de preocupação e esperança, a autora acredita que, cedo ou tarde, o mundo oferecerá desafios impossíveis de serem enfrentados sozinhos. E aí a escolha terá que ser feita: ou a geração ansiosa afunda no mar de problemas ou ela os enfrenta de cabeça erguida. Para isso, tem que se transformar na geração unida.

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No calor de algumas das mais animadas ruas e vielas do Rio de Janeiro, entre batuques e sorrisos sinceros, desfila uma tradição tão antiga quanto as montanhas que cercam a cidade maravilhosa. Provavelmente você já ouviu falar dos bate-bolas; mas você sabe, de fato, quem são? Esses guardiões da cultura popular carioca emergem das sombras como personagens míticos, vestidos com suas indumentárias coloridas e máscaras exuberantes, para celebrar o carnaval e manter viva uma história que se entrelaça com a própria essência do espírito carioca.

Remontando às raízes do carnaval do Rio, os bate-bolas são herdeiros de uma história rica e multifacetada — e aqui, no meio de uma longa linha do tempo e de um sem-fim de máscaras, o termo “multifacetado” ganha a beleza da literalidade. Originários das camadas populares e suburbanas, eles surgiram como uma forma de expressão cultural e social, carregando consigo o peso da resistência e da identidade de uma cidade em constante transformação. Aconteça o que acontecer, os bate-bolas estarão de volta quando as épocas de folia chegarem, e, como qualquer um que já presenciou essa magia carnavalesca pode provar, capturariam a atenção de multidões, fosse esse o objetivo.

Mas, não, os bate-bolas não acontecem para multidões verem. Se elas aparecerem para vê-los, tudo bem, mas não é isso que move esses grupos. Eles estão mais interessados em dar vida às entranhas da cidade. Cada encontro é uma viagem ao coração da cultura carioca, uma celebração da diversidade e da criatividade que permeiam as ruas estreitas e os becos escondidos.

Quem são?

A pesquisadora Rafaela Pinah, além de ajudar com a direção criativa de muitas turmas de bate-bola, também estuda os grupos desde 2016. Para ela, o fator cultural e financeiro se misturam para criar um panorama social para lá de positivo: “São economias criativas nos bairros, no subúrbio”, conta. “Elas são extremamente interessantes nessa dinâmica de fator financeiro. Como é que gera e circula o dinheiro ali, nesse movimento inteiro, o ano inteiro? Hoje essas pessoas podem vislumbrar o lugar dessa potência cultural, de agentes culturais locais, trabalhando inteiramente para a cultura do governo do Estado do Rio de Janeiro, criando e trocando com as turmas, trazendo um trabalho psíquico e pedagógico também para essas crianças.”

Com barulho, fantasias trabalhadas que demandam meses de preparação e organizados em grupos que podem chegar a duzentas pessoas, os foliões conhecidos como clóvis — outro nome para os bate-bolas — fazem parte de uma tradição que existe há décadas nas ruas do subúrbio carioca.

Quando o carnaval chega, uma coisa é certa: eles estão vestidos com suas máscaras, luvas, talvez um meião, talvez algo que nem seja facilmente identificado, e sempre estão ou empunhando bexigas ou sombrinhas. A prática é antiga, com registros do início do século XX, mas isso não quer dizer que as portas estejam fechadas para a modernidade: os temas das fantasias se inspiram em personagens da cultura pop, além de a confecção dos trajes utilizar alta tecnologia nas estamparias e os hinos serem gravados em estúdios.

“Temos uma dualidade nesse lugar do contemporâneo e da tecnologia”, reflete Rafaela. “É uma roupa cara de ser feita, de ser produzida. Atualmente, há grupos de jovens com mais recursos e criatividade para criar suas vestes, enquanto outros, com menos recursos, também conseguem criar peças suntuosas usando materiais antigos. Então, você vê essa dinâmica, as turmas entrando também para as redes sociais, a fotografia, a documentação, a capa, o catálogo. O festejo também é super importante para isso!”

Em outro momento “sinal dos tempos”, hoje em dia, portais da internet cobrem alguns dos bate-bolas mais famosos, o que seria inimaginável tempos atrás, quando a imprensa (e todo mundo) não dava a mínima para as festas que ocorriam pelas regiões suburbanas da cidade.

Há até histórias que dão um aceno positivo para o novo momento, comprovando que a novidade não passa a borracha no que já foi, mas tem o poder de renová-lo e até melhorá-lo: “Vou falar de uma figura extremamente importante e emblemática neste lugar, aqui em Realengo, que é o seu Hélio, que era a pessoa que fotografava, revelava na quarta-feira de cinzas e colocava isso num painel. Hoje não, hoje a gente tem uma dinâmica muito mais rápida das fotografias e das imagens”. A instantaneidade trabalha a favor da festa proporcionada pelos bate-bolas.

De um jeito ou de outro, as pessoas dão continuidade a essa tradição. Mais do que simples performances carnavalescas, nesses festejos há um legado precioso que merece ser preservado e valorizado, marcados por tradições orais, ritmos ancestrais e histórias contadas ao som dos tambores.

Para compreender a importância e a profundidade dos bate-bolas, é necessário adentrar nos recônditos das comunidades, onde cada grupo tem sua própria história, seus próprios heróis e suas próprias lendas.

De onde vêm?

Os trajes que mesclam as cores vibrantes de sua terra têm resquícios de uma antiguidade distante. As hipóteses sugerem que suas vestimentas são uma metamorfose de fantasias europeias, um eco dos mitos celtas que atravessaram oceanos para encontrar solo brasileiro. E no nome “clóvis”, uma reverberação estrangeira ecoa a essência de um palhaço, um arquétipo universal entrelaçado à alma desses foliões. Ou seja, na essência, essa celebração contém um testemunho da alquimia cultural, da capacidade humana de transformar o estrangeiro em próprio, o desconhecido em familiar.

No início do século XX, os matadouros, como o de Santa Cruz, teceram o cenário para os primeiros passos dessa dança. Ali, onde o couro de bois e porcos era transformado em bexigas, nasceu o símbolo sagrado dos bate-bolas. E em meio à fumaça dos zepelins e à presença efêmera dos militares alemães que cruzavam os céus, ecoaram os primeiros acordes dessa celebração.

Como as águas que fluem e se mesclam nos rios que cortam nossa terra, as tradições estrangeiras encontraram aqui solo fértil para florescer de forma única. O que começou como mitos celtas e brincadeiras de rua europeias, ao se misturarem com a essência vibrante e criativa do povo brasileiro, se transmutou em algo novo, algo que é nosso, e só nosso. Nesse processo de metamorfose, os bate-bolas se tornaram um lembrete de que a identidade não é estática, mas sim fluida, moldada pelas correntes culturais que nos cercam. E, ao abraçarem essas influências estrangeiras e tecê-las em sua própria tapeçaria cultural, os bate-bolas nos convidam a refletir sobre a natureza dinâmica da identidade nacional e sobre a riqueza que advém do encontro e da fusão de diferentes culturas.

Contudo, foram relegados às sombras por décadas, alvos de olhares desconfiados e da mão pesada da repressão, mas sua resiliência nunca vacilou. Diante da adversidade, ergueram-se, desafiaram as trevas e mantiveram viva a chama da tradição que pulsa no ritmo de seus passos.

Com sua ampla vivência pessoal e acadêmica, Rafaela percebe como as coisas mudaram de panorama: “Hoje a gente vê um prefeito da cidade do Rio de Janeiro muito mais engajado com as culturas populares. E uma dessas é a cultura popular dos bate-bolas. Os bate-bolas estão em clipes da Anitta. Nomes como Poze do Rodo e movimentos de trap que surgem e que emergem das favelas e de periferias e subúrbios cariocas colocam o bate-bola em primeiro lugar. Os bate-bolas estão presentes nas instituições acadêmicas, em grupos de estudos nas faculdades, e isso é muito importante, quando a gente vê jovens negros e periféricos acessando um lugar acadêmico e falando da cultura dos bate-bolas. Vejo um caminho muito incrível, um crescente nesse lugar que é fazer a cultura dos bate-bolas. A gente muda a dinâmica de organização, muito mais comprometida, e hoje temos o poder público também, incentivando financeiramente e com espaços para que a festa aconteça”.

Para onde vão?

Os bate-bolas permanecem como uma das expressões mais vibrantes e autênticas da cultura carioca. Sua presença nas ruas, além de um espetáculo visual, é uma manifestação de identidade e resistência, uma prova viva de que, apesar das transformações e dos desafios, as tradições mais profundas e enraizadas continuam a reverberar. Por essas e outras, os bate-bolas se espalharam mais pela cidade, e a quantidade de foliões só cresceu nos últimos anos. O estigma de violência e perigo que acompanhava as fantasias deu lugar ao espírito de celebração das turmas, que apenas buscam brincar o carnaval e espalhar alegria.

O futuro parece brilhante.

“Eu imagino, no futuro, o mesmo caminho das escolas de samba no Rio de Janeiro. O sambódromo bate-bolas, o desfile, uma liga registrada no Rio de Janeiro que vai classificar e entregar prêmios e doações financeiras, a televisão e a imprensa vindo catalogar e falar da importância de popularizar o bate-bola. Tenho certeza de que será num futuro muito próximo.”

Preservar os bate-bolas, portanto, não é apenas uma questão de manter viva uma forma de entretenimento, mas sim de reconhecer e valorizar o papel fundamental que eles desempenham na construção da identidade cultural do Rio de Janeiro. É garantir que as futuras gerações possam continuar a dançar ao som dos tambores e a celebrar a riqueza e a diversidade da cultura carioca. E é também respeitar a pluralidade dessa tradição, compreendendo que ela carrega consigo uma carga histórica e afetiva que se mistura harmoniosamente com a identidade dos bate-bolas, enriquecendo ainda mais a tapeçaria cultural da cidade.

Nos labirintos das comunidades cariocas, tece-se um elo mágico entre o carnaval de rua e os imponentes desfiles das escolas de samba. Clóvis e bate-bolas merecem ser preservados.

Patrimônio imaterial (e ponto final)

Em 2012, a prefeitura do Rio de Janeiro declarou os bate-bolas patrimônio cultural carioca de natureza imaterial. O decreto levou em consideração a importância desses grupos como personagens típicos do carnaval que refletem a forma alegre e irreverente de a população suburbana festejar. A decisão foi histórica e emblemática. Ao serem declarados patrimônio, os bate-bolas alcançaram um novo patamar de reconhecimento e proteção. Não estamos mais falando de meros personagens do carnaval carioca: de 2012 em diante, viraram oficialmente tesouros culturais a serem preservados e valorizados por gerações futuras.

Os porquês de terem recebido a honraria residem na sua profunda ligação com a história e a identidade da cidade. Ao longo dos séculos, os bate-bolas têm sido testemunhas e protagonistas de inúmeras transformações e eventos que moldaram o destino do Rio de Janeiro. Desde os tempos coloniais até os dias atuais, eles estiveram presentes, fazendo jus ao ânimo do carnaval brasileiro e mantendo viva a chama da tradição.

Os bate-bolas, no fim, personificam valores como solidariedade, criatividade e resiliência, que são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Tornar-se parte integrante do legado cultural do Rio de Janeiro não significa apenas garantir a continuidade das festividades carnavalescas, mas também promover ações de salvaguarda e valorização. Um viva ao fortalecimento do vínculo entre passado, presente e futuro.

Enquanto os tambores ecoam, as máscaras ganham vida, contando histórias esquecidas e sonhos adormecidos. Cada passo é um lembrete da força do povo carioca, e as máscaras transcendem sua função primária de adorno, transformando-se em portais para um mundo mágico e memorial. À medida que o ritmo acelera, as máscaras se fundem em uma só, revelando a alma de uma cidade que pulsa com a energia da vida.

Assim, eles seguem seu caminho. Onde quer que haja batuques e risos, lá estarão os eternos bate-bolas do Rio de Janeiro. Materialmente e imaterialmente, estarão vibrando e pulando um carnaval que nunca há de acabar.

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O fim do fim da História

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1.

Berlim, 1917: em prisão militar, um búfalo deportado da Romênia como “espólio de guerra” move uma carroça com uniformes ensanguentados. Soldados estão mortos. Os uniformes, lavados e remendados, vestirão outros soldados que também morrerão na Grande Guerra. O búfalo, chicoteado pelo guarda (“ninguém tem pena de nós humanos”), olha para o nada com “olhos escuros” de um ser abusado. A prisioneira Rosa Luxemburgo vai às lágrimas. “Eram as lágrimas dele”, escreveu ela em carta a Sophie Liebknecht. Búfalo, uniformes sangrados, guardas violados e violentos eram o “panorama da guerra” aos olhos abertos, lacrimejados, de Rosa Luxemburgo.   

2.

Berlim, 2024: de manhã, abro os olhos, desbloqueio meu iPhone. Vejo imagens do cavalo Caramelo, cascos e quartelas brancas suportando o peso do costado por quase quatro dias, o dorso marrom na telha ilhada, a água densa acuando o bicho esgotado. No Caramelo, vejo mais que instinto de sobrevivência. Vejo mais que uma vítima da enchente de 24 no Rio Grande do Sul. Vejo o panorama do fim do fim da história.

3. 

Fim da História: lendas sobre Messias e Juízo Final falam em evento depois do qual a sociedade mudará essencialmente. Mesmo no mundo “desencantado” da ciência e da materialidade do presente, o tempo continuou a ser visto como portador de sentido por olhos que veem na História com H uma marcha inexorável. Como a semente que se completa na flor, a história se realizaria no seu fim em duplo sentido, finalidade e término. Sociedade sem classes, progresso técnico, paz perpétua: seja qual fosse o conteúdo, a história teria último capítulo.

4.

Berlim, 1933: agentes do destino racial prendem Hannah Arendt. Depois, refugiada em Nova York, a autora criticaria fatalismos que postulam “leis” históricas irresistíveis às quais humanos devem se adaptar. Saída do abismo dos 1940, Arendt escreveu: a história não é “processo com monopólio de universalidade e significação”. História é um monte de estórias vividas, vistas, lembradas, discutidas.

5.

Rosa Luxemburgo, presa por discutir o sistema no qual vivia, e Karl Liebknecht, único parlamentar a votar contra o orçamento de guerra, denunciaram a desmesura imperialista e ideias que convenciam trabalhadores alemães a matar trabalhadores franceses. Em 1915, trens com soldados não partiam mais sob acenos de noivas emocionadas. Igrejas viravam “estábulo de cavalos”.  Populações mendigavam. “O espetáculo acabou”, Luxemburgo disse. A sociedade burguesa, “pingando sujeira”, estava em “forma nua”, sem os vestidos da ordem, da ética, do direito etc. Dessa sociedade, Luxemburgo não esperava nada novo. Ela esperava dos trabalhadores, açoitados, que veriam na “experiência histórica” uma “professora”.

6.

Porto Alegre, 1991: sentado em frente à TV, torrada de presunto e Nescau nas mãos, assisto ao Pedro Bial, sentado também, parlamento russo às costas: “estou moído, minha cabeça e meu corpo estão exaustos, mas meus olhos não se cansam de ver a história”.

7.

Em 1919, Luxemburgo foi apunhalada, atirada no rio, não pela história, mas por milicianos Freikorps sob vista grossa da social-democracia. Kurt Tucholsky protestou contra a falta de protesto. Acusou a “velha dança” militar e celebrou a coragem da mulher assassinada (“quão rara”). A salvação, Tucholsky disse, não se encontrava nas ruas, no povo.

Uma década depois, com apoio do povo ao racismo apresentado aos gritos em cervejarias bávaras, Leon Trotsky tentou compreender como a história, após Hegel e Marx, tinha produzido o “materialismo zoológico” de Hitler, Hess e Rosenberg, o “delírio” do império que aniquilaria o tempo (“mil anos”), sem teoria econômica, apenas com “excrementos culturais” regurgitados e vomitados pela garganta de agitadores. A história seria guiada por um barbarismo não digerido.

8.

Sozinho, Walter Benjamin, antes de sair do tempo histórico em Portbou, criticou a “barbárie” no útero da sociedade que tinha gestado Verdun e bombardeiros, e não conseguia ver o lado negativo do avanço material (“desastrosa recepção da técnica”). Essa sociedade se deixava arrastar pela “tempestade” do progresso.

9.

Nas notas do iPhone, eu rascunho o panfleto A vitória do showcialismo. Diferente do previsto por materialistas dialéticos, a modernidade não resolveu suas contradições na vitória do socialismo, mas as aguçou (conectividade/solidão, ciência/fake news, globalização/neonacionalismo). Agora cada um tem um Pravda digital para chamar de seu e socializar fragmentos de vidas alienadas.

10.

Berlim, 1989: troços do Muro são arrancados, no que parecia ser o último ato. Nas ruínas do fascismo e do nazismo, a Europa tinha se dividido em dois sistemas: capitalismo versus socialismo. Chris Gueffroy, morto, ao saltar no muro, por vinte e dois tiros dos soldados da RDA, queria viajar aos Estados Unidos. Visafrei bis Hawaii – manifestantes pediam liberdade de opinião e de movimento (“até o Havaí”). Dissidentes e a história pareciam caminhar, fugir, na mesma direção, a da democracia liberal capitalista. Alemães orientais, como Žižek diria em 1998, foram de opositores “heroicos” a consumidores de “bananas e pornografia barata”. Em o Fim da história e o último homem, Francis Fukuyama afirmou que a história intelectual tinha, sim, chegado ao clímax, com a democracia consolidada como melhor sistema para oferecer liberdade, igualdade e reconhecimento. E bananas.

11.

Com o copo de Nescau na mão e o Bial na TV, eu assistia a um ato triplamente simbólico: nossos olhos olhavam a história; olhávamos a história chegando ao fim; eu, apartamento na 24 de Outubro, torrada, achocolatado, videogame, direitos fundamentais em estado liberal tropical, sentia o fim da história em mim – eu era o “último homem”, ou o último guri de apartamento.

Ainda assim, perguntado o que eu “queria ser” na minha história pessoal, eu respondia, correspondente estrangeiro. Queria ver a história. Queria viajar a cantos onde o extraordinário, fora do tempo democrático, ainda insistia em acontecer – como se no meu Brasil não existisse mais história. O meu Brasil, a minha Porto Alegre eram uma bolinha de vidro onde a vida seguiria roteiro cíclico (universidade, trabalho, família) num tempo político acabado. Um ano depois, Fukuyama classificaria o Brasil com um dos países “pós-históricos”.

12. 

Hoje, não moro em Porto Alegre. Moro em Neukölln, Berlim. Segui minha história pessoal colocando-me no proletariado estrangeiro (vestido de freelancer). Na pós-graduação como guia de turismo, trafico a turistas troços da obra de Arendt, “questões alemãs” e visões fatalistas. Na linha do U8, escuto Berlim, Bom Fim. Penso na queda do Muro de Berlim, no aumento do Muro da Mauá, não mais “vergonhoso”. Penso em Porto Alegre, na Estação de Tratamento de Águas Moinhos de Vento, penso em Muçum e no Sarandi, na minha irmã evacuada do Humaitá, na tempestade de areia em Beijing, no ciclone em Myanmar, no calor cada vez mais quente no Chile, na Europa, na Ásia. Penso nas direções contraditórias da história, estórias, sentidos confusos, pulverizados num tempo que, em vez de parar, acelerou. Entre vendavais de areia, vejo explosões: olho para Kharkiv, Crimeia, Be’eri, Rafah, e vejo os séculos XII e XIX armarem barracas militares no século XXI. Vejo estupros ideologicamente motivados e a banalidade de bombas guiadas por GPS (“errando” o alvo) e penso que história não acabou nem vai acabar.

Eu leio restos de história arruinada nas linhas de Benjamin, profeta negativo, para quem memórias viram “flashes em momento de perigo”. O momento é de perigo. A história, lida por olhos modernistas “relutantes”, não ensina, não é professora, mas recomenda ficar alerta.

13.

Cansado, fecho o Fim da história e abro Ressentimentos, em que Jean Améry pede que “feridas” históricas não cicatrizem. A secreção de injustiça, da irracionalidade vira lembrança da responsabilidade humana. “O poder moral de resistir contém o protesto, a revolta contra a realidade, que só é racional se for moral”. Crimes contra povos, culturas, ecossistemas devem ser lembrados como eventos acontecidos que não deviam ter acontecido.  

14.

O homem “agiu na natureza” (Arendt), tornando chuvas, ventos e níveis de rios agentes ingovernáveis. A história natural invadiu a história humana, potencializando o imprevisível. O domínio da natureza se realizou na natureza descontrolada, história sem rumo, sem sonho nem utopia, sem novos princípios. No fim do fim da história, fronteiras nacionais e muros mentais continuam em pé, mas linhas entre natureza e artifício seguem desmoronando. E a distância entre poesia e realidade foi abolida: Quer morrer no mar. Mas o mar secou.

15. 

“Os negócios”, Rosa Luxemburgo escreveu em 1915, “prosperam nas ruínas”.

16. 

O fim do fim da história: a história não tem fim, e o melhor sistema é o sistema no qual os olhos, ainda que cansados, estejam abertos. Estórias terminam, mas cada fim é um novo começo, parafraseando Arendt e recomendando “pensar o que fazemos”, em 1915, em 1941 (na enchente, no genocídio), em 1991, em 2024, nas hipóteses alarmantes de 2030 e 2050.

17.

Não virei correspondente internacional. Como guia, visito muros e flashes de passados reprisados de segunda a domingo. Turistas falam em “lições da história”. Uma turista disse que não se aprende com história “porque ninguém mais lê história”.  Passamos pelo Museu Histórico Alemão. The Roads Not Taken. Ou: as coisas poderiam ter sido diferentes trata de anos cruciais e de alternativas concretas que foram perdidas. Cada momento, com ou sem perigo, contém caminhos potenciais, visíveis, invisíveis. A história não é linha reta. Construir muros, fronteiras, erguer barragens, desmatar, matar porco e fazer presunto, reconstruir ou revolucionar, banalizar ou “ampliar a imaginação”, fechar ou abrir os olhos: o fim do fim da história significa que a realidade pode ser diferente, para pior ou para melhor.

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Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

(Sonho meu, de Délcio Carvalho e Yvonne Lara da Costa)

Os sonhos, essas vivências sentidas na mente e no corpo, muitas vezes bizarras, que povoam nossas mentes durante o sono, há séculos fascinam e intrigam a humanidade. Envoltos em mistério, eles desafiam interpretações simples e abrem portas para um universo onírico de simbolismos e reflexões profundas sobre nós mesmos.

Do ponto de vista científico, os sonhos são eventos mentais que ocorrem principalmente durante a fase conhecida como REM (rapid eye movement) do sono, quando a atividade cerebral se intensifica e se assemelha à vigília. Nessa etapa, o cérebro processa informações, consolida memórias e libera emoções reprimidas, tecendo narrativas complexas que podem ser vívidas, emocionantes ou até mesmo perturbadoras.

Embora a ciência ainda busque desvendar segredos dos sonhos, algumas teorias tentam explicar sua função e seus significados. Para a psicanálise, os sonhos são a janela para o subconsciente, revelando desejos, conflitos e medos reprimidos que, por vezes, se manifestam de forma simbólica ou distorcida. Já a neurociência propõe que os sonhos sejam uma forma do cérebro se livrar de toxinas e processar informações acumuladas durante o dia, consolidando memórias e aprendizados. Os sonhos, muitas vezes vistos como meras fantasias da mente adormecida, também podem ser a força motriz por trás de grandes mudanças sociais e políticas. São eles que alimentam a esperança por um futuro melhor, inspiram a luta por justiça e igualdade e impulsionam a inovação e o progresso.

Sendo  assim, cabe traçar um paralelo entre os sonhos já citados — aqueles fenômenos que ocorrem enquanto dormimos e o sonho num sentido simbólico e político, no sentido de projeções de algo que se tem desejo de concretizar, ver, ter ou fazer.

Em O dono da dor, música lançada em 1997, composta por Nelson Rufino e conhecida na voz de Zeca Pagodinho, canta-se que:

“Ninguém pode imaginar
O que não viveu”

Esse verso, cantado a plenos pulmões em milhares de rodas de samba, abre despretensiosamente o caminho para refletirmos: como imaginar ou sonhar com aquilo que não vivemos ou que não nos foi permitido viver? Essa vida vivida e sonhada sem permissão é algo que comumente perpassa a existência e a produção intelectual e artística de pessoas negras.

A literatura negra tem sido um espaço vital para a exploração de temas profundos e complexos, incluindo os sonhos e a imaginação. Autores negros, em diversos contextos históricos e culturais, têm usado esses elementos como ferramentas para desafiar narrativas opressoras, reimaginar realidades alternativas e afirmar suas identidades. A imaginação, para muitos deles, não é apenas um exercício criativo, mas uma forma de posicionamento e sobrevivência.

Toni Morrison, por exemplo, em  Amada (Beloved), utiliza elementos do sobrenatural e do sonho para explorar traumas passados e a memória coletiva dos afro-americanos. A presença do fantasma de Amada (Beloved) simboliza não apenas a perda e o luto, mas também uma forma de retomar a agência sobre um passado doloroso. Morrison cria um espaço no qual o real e o imaginário se entrelaçam, permitindo que a história de uma comunidade seja contada de forma não linear, desafiadora e profundamente humana.

Os sonhos, na literatura negra, muitas vezes servem como projeções de esperança e desejos para um futuro outro. No romance Homem invisível (Invisible Man), de Ralph Ellison, o protagonista sonha com uma sociedade em que ele é visto e valorizado, contrastando com sua realidade de invisibilidade social. Esses sonhos não são meramente escapistas, mas funcionam como críticas contundentes às estruturas sociais existentes e como expressões de um desejo profundo por mudança e reconhecimento.

Octavia Butler, uma das mais proeminentes escritoras de ficção científica negra, utiliza a imaginação para reconfigurar identidades e explorar possibilidades alternativas para a humanidade. Em Kindred, Butler mistura elementos de viagem no tempo com uma narrativa profundamente enraizada na experiência afro-americana. Através da protagonista Dana, a autora explora como as identidades são moldadas e reconfiguradas pelo passado e pelo presente, utilizando a imaginação para criar uma narrativa que transcende as limitações temporais e espaciais.

Nas literaturas africanas, o sonho frequentemente assume uma dimensão coletiva, refletindo as aspirações de comunidades inteiras. Chinua Achebe, em O mundo se despedaça (Things Fall Apart), captura o espírito de uma sociedade à beira da mudança. Embora o romance se concentre principalmente nas realidades sociopolíticas de uma comunidade igbo, os sonhos e as visões das personagens revelam um anseio por equilíbrio entre tradição e modernidade. Esses sonhos, muitas vezes fragmentados e intercalados com realidades duras, oferecem uma visão sobre as tensões e esperanças dentro da comunidade.

Autores contemporâneos, como N. K. Jemisin, têm expandido ainda mais os limites da imaginação na literatura negra. Em sua trilogia A terra partida (Broken Earth), ela constrói um universo complexo no qual a geologia e a magia se entrelaçam, criando um mundo que é ao mesmo tempo familiar e radicalmente diferente. Através de uma narrativa que mistura elementos de fantasia e ciência, Jemisin explora temas como opressão, sobrevivência e transformação, utilizando a imaginação para questionar e desafiar as realidades do nosso próprio mundo.

Passear pelo universo dos sonhos e da imaginação na literatura negra não é apenas um testemunho da criatividade e resiliência da autoria negra, mas também uma poderosa ferramenta de proposição social, incidência e afirmação cultural. Através das obras de Morrison, Ellison, Butler, Achebe, Jemisin e muitos outros, podemos perceber e experimentar formas para reimaginar identidades, desafiar estruturas opressivas e projetar esperanças para o futuro.

Os sonhos não são apenas retrospecções ou formas de escapismo, mas também projeções de futuros possíveis e desejáveis. Para o movimento negro, a capacidade de sonhar com um futuro melhor tem sido fundamental para a motivação e mobilização. Martin Luther King Jr., em seu famoso discurso Eu tenho um sonho (I Have a Dream), encapsula a essência desse impulso. Seu sonho de uma sociedade justa e igualitária serviu como um poderoso catalisador para a luta pelos direitos civis, inspirando milhões a acreditar e trabalhar por essa visão de futuro.

Quando Dona Ivone Lara fala de “buscar quem mora longe, sonho meu” podemos fazer uma leitura óbvia sobre um amor perdido ou distante. Mas também podemos ir além e pensar esse sonho e essa busca como banzo. O banzo pode ser entendido como um fenômeno histórico e cultural que afetou profundamente a população africana escravizada no Brasil. Trata-se de um estado de melancolia profunda, nostalgia e depressão experimentado por escravos africanos, muitas vezes levando-os à morte por inanição ou ao suicídio.

Do ponto de vista psicológico contemporâneo, o banzo pode ser compreendido como uma forma extrema de depressão. Estudos em psicologia e psiquiatria mostram que a perda de laços sociais e culturais, combinada com condições de vida abusivas, pode levar a estados severos de depressão. A ausência de perspectivas de liberdade e o tratamento desumano contribuíam para um estado de desespero tão profundo que muitos escravizados perdiam a vontade de viver. Clinicamente, o banzo pode ser comparado a transtornos depressivos maiores, com sintomas como perda de apetite, insônia, apatia e pensamentos suicidas. Politicamente, o banzo evidencia a crueldade do sistema escravocrata e serve como testemunho da resistência física e espiritual dos escravizados. Embora frequentemente interpretado como uma forma de desistência, o banzo também pode ser visto como um ato de resistência silenciosa. Ao se recusar a participar do sistema que os oprimia, os escravos que sucumbiam ao banzo estavam, de certa forma, reivindicando autonomia sobre suas vidas e mortes.

O banzo, esse estado de melancolia profunda, e o sonho, tanto como forma de resistência quanto de esperança, são conceitos interligados na experiência da diáspora africana. Essa relação é complexa e multifacetada. Ambos são respostas ao mesmo conjunto de circunstâncias opressivas, mas manifestam-se de maneiras diferentes. Numa visão mais superficial, o banzo pode ser visto como um colapso da esperança, um diálogo com o desespero, enquanto o sonho pode representar a projeção de uma outra realidade. No entanto, mesmo no banzo, pode haver traços de sonho: a nostalgia e o desejo de retorno à terra natal podem ser vistos como uma forma de sonhar com uma realidade perdida ou que pode ser (re)inventada.

A imaginação tem papel central na reconfiguração das identidades negras, desafiando estereótipos e preconceitos. E assim voltamos a Zeca. Se ninguém pode imaginar o que não viveu, inventamos! Ao longo de séculos, a existência negra tem alternado entre a concretude de sociedade racistas e a projeção de universos outros, nos quais se pode existir de forma menos cruel e cristalizada. No contexto do movimento negro, os sonhos e a imaginação não são apenas individuais, mas coletivos. Eles ajudam a fortalecer a coesão comunitária, criando um senso de propósito e solidariedade. O movimento Black Lives Matter, por exemplo, utiliza a imaginação para vislumbrar um mundo sem racismo sistêmico e violência policial. Esse sonho coletivo fornece um quadro para a ação política e social, inspirando protestos, políticas e mudanças comunitárias. São essas projeções que têm impulsionado lutas concretas com resultados palpáveis e mensuráveis.

O poder dos sonhos não se limita a escritores, artistas, grandes líderes e movimentos sociais. Ele reside também em cada indivíduo que ousa imaginar um futuro diferente, que se recusa a aceitar o status quo e que luta por um mundo equânime.

Sonhos podem ser subversivos, desafiando as estruturas de poder existentes e questionando as normas sociais, especialmente quando falamos de trajetórias negras. Eles podem ser a faísca que inicia revoluções, as vozes que denunciam injustiças e a força que impulsiona a busca por um mundo mais justo e sonhado.

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A difícil — e maravilhosa — tarefa de sonhar o Brasil

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Podemos falar abertamente? A sociedade brasileira está rasgada por dentro e por fora. Temos dificuldade de vislumbrar um futuro conjunto. Não almejamos um futuro compartilhado. O coletivo deixou de ser âmbito de diálogo, de convivência, de aspirações comuns. Tornou-se um problema, um dilema, um enigma. Os outros — aqueles que não pensam como nós, que não vivem como nós, que não percebem o mundo como nós — são vistos como fonte de embate. Causam-nos irritação, indignação, desprezo.

Essa abolição do coletivo — o desmoronamento da percepção de comunidade — é muito mais grave do que a tão falada polarização ideológica ou as muitas disfuncionalidades do poder público. Ela é a origem, a causa primária da nossa crise política, do cansaço por tudo o que é público, da indiferença pelo que não é pessoal, palpável, imediato. Perdeu-se a alteridade.

O coletivo tornou-se uma abstração sobre a qual — quando muito — se pensa, se raciocina. Mas não se sonha com ele. Não se cultiva, no íntimo, um futuro possível comum. Não se imagina. Sobram ideias, slogans, lugares-comuns. Falta partilha. Falta desejo.

Não é que o afeto tenha sumido do âmbito coletivo. Nota-se a presença da raiva, do ressentimento, da inveja. Mas o carinho, a empatia, a afeição, tudo isso sumiu do espaço público. Cada vez mais, esses sentimentos estão restritos à esfera privada. A uma reduzida esfera privada: aos amigos, aos iguais. Sequer são orientados aos familiares, que, não raro, são percebidos como inimigos, como diferentes, como a parte de nós — da nossa história, da nossa identidade — que nos desperta vergonha. Uma vergonha com a qual não sabemos lidar.

Também os iguais — aqueles dos quais nos consideramos próximos —, seja por uma leve mudança de circunstâncias, seja pela descoberta de alguma característica inesperada, são facilmente transportados para o campo dos diferentes, dos rejeitados. Há uma contínua ampliação da rejeição.

Nota-se um abismo no mapa do Brasil. Somos uma sociedade desencontrada, que tem dificuldade de se reconhecer, de se entender. Ao pensar, usa-se o fígado, num processo presunçosamente intitulado de racionalidade, de objetividade, de maturidade, de realismo. Mas não há isenção, não há lógica, não há método. O que há é o despejo de um mundo interior não socializado, não dialogado, não entendido, não refletido. É uma matéria-prima bruta, que produz atrito, que gera ruído, que causa divisão. Paradoxalmente, essa brutalidade convive com a hipersuscetibilidade. Dos outros, exige-se suavidade e consideração, ao mesmo tempo em que se distribuem socos, pontapés, cusparadas.

Menos desigualdade. Mais educação. Mais saúde. Mais segurança. Mais liberdade. Menos preconceito. Sim, sabemos elencar os elementos desejáveis para uma coletividade saudável. Mas o próprio anúncio desses tópicos traz a marca da frustração, da desesperança. Temos medo dos sonhos. Medo de sermos ingênuos. Medo de pedirmos paz e parecer que estamos sendo condescendentes com retrocessos, com abusos, com injustiças. Tudo se tornou complicado, cansativo, angustiante.

A imaginação — a possibilidade de uma resposta criativa às questões da vida e do mundo — está bloqueada. Foi lacrada pelo olhar alheio e pelo nosso próprio olhar, pelas nossas inseguranças, pelas nossas incompreensões, pelos nossos afetos.

Qual é o nosso futuro? Há possibilidade de futuro?

Nada é imutável, tudo é humano

Visto sob essas luzes, o cenário brasileiro assusta. Mas — no humano, sempre existe a conjunção adversativa — esse quadro não é a única resposta, a única possibilidade. A realidade não é um monolito definitivo. Suas condições não são imutáveis. Nada é um dado inexorável. Trata-se sempre de uma construção, de uma escolha.

Talvez isto seja o mais desafiador: reconhecer que esse presente, tão marcado por embates, tensões e divisões, não é simples resultado da ação de terceiros. É fruto da nossa própria conduta, das nossas ações, das nossas omissões. Também nós somos responsáveis por esse presente problemático, desigual, violento.

Essa constatação pode nos envergonhar, nos paralisar, mas também pode ser libertadora. Admitir nossa responsabilidade pelo presente é vislumbrar que o futuro não está determinado. Ele está disponível para nós. Está por ser tecido com nossas agulhas, com nossas linhas.

Talvez alguém pense que aqui se romantiza. Somos pequenos. Somos frágeis. Somos incapazes, tantas vezes, da nossa própria vida, que nos supera, que nos engole. Se é difícil ver autonomia em nossa própria trajetória, frequentemente moldada mais pelas circunstâncias do que propriamente por escolhas, como assumir, numa espécie de passe de mágica, o protagonismo pelo futuro do coletivo?

O questionamento é pertinente e nos ajuda a ver outra camada do problema. Não estamos diante de uma mera crise da coletividade. Há uma crise da própria individualidade, da identidade pessoal. Quem nós somos? Como nos enxergamos?

Talvez isso soe teórico; concretizemo-lo, pois. Como educamos nossas crianças? Quanto tempo dedicamos a elas? Como acompanhamos os idosos? Que admiração temos por quem os acolhe e cuida deles? Quem somos para quem vive uma situação social menos privilegiada? Como nos relacionamos? Como cuidamos da nossa calçada? Como gastamos nosso tempo livre? Quais são os nossos desejos? Como cantamos? Como usamos os nossos olhos? O que lemos? Ao que assistimos?

Sociedade não é abstração. É convivência, tempo gasto, cozinha compartilhada, abraço, aperto de mão, beijo, olho no olho. É confiança, é conversa, é confidência, é estranhamento, é aprendizado, é troca. Para viver tudo isso, temos de estar inteiros, minimamente inteiros. Conscientes de quem somos, da nossa história e do nosso presente. De outra forma, o futuro será simples repetição, reprodução de velhos hábitos — ainda que estejamos vestidos com roupas diferentes.

Reimaginar o humano

Não é questão de voluntarismo. De achar que basta querer. Que basta se esforçar. Não é questão de motivação, de pensar positivo. Decide-se o jogo — melhor dito, a aventura — em outra esfera.

É preciso reimaginar o humano sem encaixotar tudo em nossas lentes, em nossas percepções, em nossas sensibilidades. O humano é diverso, plural. E talvez aqui esteja o fio possível para costurar o tecido Brasil: a diversidade, o respeito pelo outro, com suas maravilhosas idiossincrasias.

Nada disso é tarefa intelectual, que se ensina com método e argumentos. É feito com a generosidade de olhar o outro em sua integridade, sem atribuir intenções distorcidas a quem pensa de forma diferente.

Mais do que simples altruísmo, isso é humanidade. Só vendo o outro com generosidade — abdicando de medi-lo com a nossa própria régua — é que saberemos nos enxergar. Só assim poderemos captar nossas limitações e lidar em paz com elas. Só assim poderemos nos transformar.

A preocupação com o coletivo não é uma espécie de sofisticação. É item de primeira necessidade para que possamos viver como humanos. Não se pode tapar o sol com a peneira. Os seres humanos sonham: o presente não é definitivo. Somos seres temporais, abertos à mudança, à transformação. Por isso, uma sociedade dividida é também uma sociedade paralisada, a desperdiçar sua energia com pequenezes.

Os seres humanos sonham, e, se não sonhamos, – se estamos incapacitados de detectar os sonhos profundos que permeiam nosso interior –, algo não vai bem. E é preciso enfrentar o sintoma de maneira genuína.

Vivemos hoje a utopia da tecnologia. Tem-se a expectativa de que, com suas engenhosidades e múltiplas inteligências, ela nos oferecerá as soluções. Mas soluções para quê? Não sabemos sequer formular para nós mesmos as questões que verdadeiramente nos inquietam.

Essa utopia é paralisante, preguiçosa: o futuro torna-se obra dos outros. A nós caberia acompanhar as tendências, aproveitar as novidades, usufruir dos novos gadgets. Mas será que não vemos que a tecnologia, espetacular, por si só, é incapaz de tecer o humano, de costurar o coletivo? Usuário massivo das redes sociais, o Brasil contemporâneo é prova cabal dessa disfunção.

O futuro não é obra dos outros. A vida tem uma dimensão coletiva, mas é sempre também profundamente pessoal. São planos interconectados. Não basta a tendência macro. Não bastam as decisões de Estado. Não basta o que os outros fazem, sentem, dizem. A sociedade é um tecido diariamente costurado por todos – e por cada um.

Falar em sonho não é enganar-se com uma fantasia. É resgatar o que há de mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais coletivo, mais relacional. Vivendo nos conectamos. Sonhos não são meras imagens dentro da nossa cabeça. São motores: entusiasmo, impulso de vida. São frestas de futuro, que acendem o desejo de trabalhar mais, de realizar mais, de se conectar mais genuinamente com as pessoas, de contribuir mais.

Sonhos são desejo de vida, imaginação de caminhos. Ao sonhar, ao construir as condições para o sonho, abre-se a possibilidade de se tecer um novo sentido, mais genuíno, menos solitário, mais solidário. Sonhemos, pois, corajosa e suavemente.

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Tive um sonho na madrugada de 31 de março de 2022. Eu andava pela casa um tanto ansiosa, procurando minha bolsa. Quando a achei, abri a carteira e, dentro dela, não encontrei minha identidade. Acordei assustada, e logo senti o sorriso aliviado da compreensão, já que, a partir da manhã seguinte, eu não teria mais o contrato de trabalho ao qual tinha me associado nos últimos vinte anos. Senti também medo do tamanho da mudança que o sonho desenhava para meu entendimento.

Estaria, então, livre para sonhar novas formas, encontrar novas imagens, compreendê-las e, ainda, simultaneamente, me permitir não as decifrar, observá-las sem pressa, vê-las ganhar significados e ressignificados inéditos com o tempo. Na manhã seguinte, eu poderia sonhar acordada com a nova vida que desejaria construir e experimentar. Com uma nova identidade.

“De onde vem a canção?”, canta Lenine. É comum nos perguntarmos quase todas as manhãs, ou madrugadas, de onde vêm os sonhos com aquelas mais encantadoras, assustadoras e bizarras imagens, conexões e desconexões.

Carl Gustav Jung (1875-1961), considerado pela revista Time o maior pensador do século em capa de 1955, afirma que os sonhos são expressões do inconsciente. Poço inato e infinito de histórias e significados — coletivos, familiares e pessoais.

Vale aqui diferenciar o conceito de inconsciente freudiano do junguiano, um dos aspectos responsáveis pela cisão dos pensadores, depois de um período de cerca de cinco anos de trabalho em conjunto.

Se, para Freud, o inconsciente é um depositário de aspectos reprimidos da personalidade, no qual é guardado tudo aquilo que não se sustenta na consciência, para Jung, o inconsciente é a origem de tudo, até mesmo da consciência.

Não à toa, no primeiro parágrafo de sua autobiografia, Memórias, sonhos e reflexões, escrita nos últimos anos de vida em parceria com a colaboradora Aniela Jaffé e publicada após sua morte, o pensador sintetiza, de uma só vez, sua experiência e fé: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.

A análise junguiana convida, de diversas formas, o interessado ao diálogo com informações inconscientes: por meio da ampliação dos sonhos (repare: ampliação, e não interpretação), da associação das palavras, das expressões simbólicas (técnica usada pela psiquiatra brasileira Nise da Silveira em contraponto aos eletrochoques no tratamento de pacientes esquizofrênicos) e da atenção e do significado às sincronicidades.

Como num sonho recorrente, vale a pena repetir: “De onde vem a canção?”.

No prefácio brasileiro de Uma investigação sobre a imagem, de James Hillman, o escritor e psicólogo Gustavo Barcellos propõe que as imagens oníricas precisam de respostas imaginativas, e não de explicação. Ousemos aqui, então, mergulhar com palavras nesse mar sem fundo do qual os sonhos emergem.

Hillman faz uma analogia que, em mim, ecoa sem, felizmente, encontrar contorno: “(…) os cheiros não podem ser evocados. Embora eles possam evocar lembranças de coisas passadas, não podemos recordá-los intencionalmente, assim como poderíamos recordar uma sala ou uma música. Estamos sujeitos a eles, somos assaltados por eles, transportados para seu mundo”. O autor segue: “A espontaneidade sem ego do cheiro é similar àquela da imaginação”.

Para mim, esse é um bom jeito de descrever sonhos pela perspectiva junguiana, pelo faro, pelas possibilidades infinitas, abandonando qualquer ideia materialista ou redutiva causal e ainda, ao mesmo tempo, considerando que o sonho pode ser, sim, consequência de um episódio vivido na vigília. Seu entendimento, porém, não deve ser reduzido ao fato.

Se dispostos a embarcar nesse convite de diálogo com o inconsciente, sem o desejo estreito de enquadrar as imagens, a ampliação dos sonhos pode virar um exercício diário de encontro consigo mesmo, com a possibilidade de sonhar, de imaginar a vida em muitas dimensões e de responder à vida com imagens, poesia, música, ficção. Com arte.

O analista junguiano Waldemar Magaldi explica, em inúmeras aulas, textos e vídeos do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), que os sonhos podem ser ampliados a partir de três diferentes perspectivas: a compensatória, a pedagógica ou a antecipadora de tendências, de transformação (que vulgar e equivocadamente chamamos de premonitória). Esta última talvez seja a mais fascinante e amedrontadora das possibilidades.

O sonho da identidade desaparecida da carteira pode ser ampliado a partir da perspectiva dos sonhos pedagógicos. Observemos, então, as demais possibilidades.

A tônica do pensamento junguiano contempla a integração dos opostos. Dor e prazer, luz e sombra, bem e mal. Não há, na origem dessas potencialidades, diferenciação de valor. Todo oposto é complementar e precisa existir na mesma proporção, em busca do equilíbrio. Por isso, quando uma experiência é unilateralizada, seja no indivíduo ou na sociedade, há, em igual medida, o desenvolvimento de seu oposto complementar — a polarização política encontra aqui uma explicação.

No universo onírico, imagens compensatórias podem realizar aspectos impedidos de serem vividos na vigília. Ofereço mais um encontro despudorado com imagens que me assaltaram para ampliação: andava às voltas com questões complexas com um parente, que não se mostrava aberto para receber o apoio que eu estava disposta a dar, porém com o qual eu deveria, moralmente, colaborar.

Por semanas refleti sobre essas questões, afirmando que estava surpresa por não sentir raiva da situação, lidando com tudo (embora fossem assuntos chatíssimos) de forma objetiva e até leve. Eis que a seguinte cena me acorda de sobressalto no meio da noite: esfaqueio o parente pelas costas, giro a faca encravada em sua carne e ainda olho para ver se o sangue está mesmo jorrando.

Já que, felizmente, eu não fiz isso tudo na vigília, a compensação inconsciente aconteceu no sonho. Desta forma, minha psique integrou a compaixão das ações concretas ao horror da raiva inconsciente. E, ufa!, me livrou de anos de cadeia!

De olhos bem abertos, pude dar mais limites às tentativas de ajudar, me respeitando e incluindo o oposto complementar (nesse caso, a raiva) que, de uma forma ou de outra, merece se manifestar. Pude, também, aprender a respeitar o desejo do outro de não ser ajudado.

Jung inspira seus estudiosos a compartilhar a própria biografia e aspectos psíquicos pois ele mesmo foi um empirista acima de tudo. As mais de vinte mil páginas que escreveu tiveram origem, essencialmente, em sua experiência pessoal com o inconsciente. Ele descreveu tais experiências em livros lançados apenas após sua morte: os Livros negros e o Livro vermelho. Neste último, o autor revisa as anotações de sonhos e imaginações dos primeiros e acrescenta desenhos criados a partir das imagens que o invadiram diretamente do inconsciente.

Quando já havia chegado à criação da psicologia profunda, que depois foi chamada de analítica, tendo o caminho da individuação como meta a ser percorrida pelo indivíduo na realização do arquétipo do si mesmo (assunto para muitos outros ensaios), Jung passou a ter sonhos repetitivos com alquimistas. Como, para ele, os sonhos eram expressões que mereciam toda atenção e respeito, passou a comprar e traduzir manuais de alquimia. Ele então compreendeu, com o passar de anos de estudo, que o caminho da individuação era a realização, na psique e na vida, do grande objetivo alquímico: simbolicamente, transformar chumbo em outro.

Jung reafirmou, então, com os conceitos da alquimia, o que sentiu no estudo de si mesmo: ao longo da vida humana, é necessário passar por diferentes fases, assim como no processo alquímico. Todos nós, em algum momento, especialmente após a metade da vida, somos convidados a entrar num processo de transformação de si, de criação de uma “tintura-mestre”, uma sabedoria capaz de existir como essência, servir a si mesmo e ao mundo.

O processo da alquimia parte da calcinação, quando estamos, do ponto de vista emocional, cristalizados em formas de existir e de sofrer. Para sair desse estado, precisamos passar para a sublimação, acrescentando ar, ou seja, pensamento sobre o que estava cristalizado. Tal processo resulta num líquido, torna-se uma solução e pode ganhar novas formas. Para se obter ainda mais pureza, o líquido pode passar pela fermentação, quando aspectos que ainda precisam se transformar o fazem pela morte, pela putrefação. O material fermentado pode, então, ser destilado, quando mais impurezas evaporam, e depois é novamente coagulado. Com a matéria mais purificada pode-se, enfim, criar a tintura-mestre, o essencial, o ouro.

Eu ando sonhando com gestações, partos, animais selvagens que se metamorfoseiam. Ando sonhando com arrepios causados por uma respiração delicada que percorre da minha bochecha à orelha. Seriam prenúncios de novas possibilidades, depois daquele sonho em 2022?

“A vida tem que ser conquistada sempre e de novo”, disse Jung.

Milton Nascimento e Lô Borges disseram que os sonhos não envelhecem. Que basta contar compasso, contar consigo, que a chama não tem pavio.

Que os sonhos possam inspirar nossos processos de desenvolvimento pessoal, de transformação, de expansão da consciência. Que possam ser recebidos como sussurros de sabedoria das almas a cada nova manhã! 

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Para meu professor
Wagner Cafagni Borja,
com gratidão

À noite, todos os gatos são pardos. E a fera que nos visita na escuridão da madrugada é perigosa, insiste em nos rodear. O gato da insônia afia suas garras numa bandeja de prata, onde moram nossos maiores medos. A fome do felino, na escuridão, é tamanha que ele devora nosso corpo, cansado, moído. E quanto mais tentamos fugir, mais longa se torna a noite. Na madrugada, nosso desamparo mia na imensidão noturna. De dia, o bichano é manso, domável; os medos diminuem de tamanho quando o sol teima em raiar, as memórias esfriam, sem qualquer vestígio de terror.

Lembro como se fosse hoje. Celebrávamos o fim do colegial, às vésperas do vestibular, nos despedíamos daquele local que era uma segunda casa, a escola. O horizonte dos sonhos da vida adulta acenava com a promessa de que nossos desejos seriam realizados, já que estávamos crescidos. Meu professor de história (que outra matéria poderia ser, afinal?) propôs, em sala de aula, uma discussão sobre o capítulo da peste da insônia narrada em Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Meu coração despertou para a literatura com esse livro, e nunca mais adormeceu. A narrativa da enfermidade que acomete Macondo, local onde se desenrola a história dos Buendía, tem elementos essenciais para pensarmos sobre o risco de nos afastarmos da vida onírica.

O capítulo começa com a chegada da pequena Rebeca. Logo após ser adotada pela família, ela é encontrada acordada, numa madrugada, na sala, sentada numa cadeira, chupando o dedo com os olhos fluorescentes “como os de um gato na escuridão”. Ela é quem traz o bacilo da insônia ao povoado. Uma enfermidade contagiosa, que condena os doentes a permanecerem num constante estado de vigília.

Num primeiro momento, o patriarca da família Buendía, José Arcadio, diz: “se não dormirmos, melhor, assim nos rende mais a vida”. Por isso, no começo, os habitantes da cidade não se incomodam, pelo contrário, acham que a vigília os tornaria mais produtivos. Começam então a trabalhar sem cessar. A partir daí, passam a viver num constante estado desperto, numa “alucinada lucidez”. Os dias e as noites seguem numa inesgotável produção, mas logo os habitantes se entediam e passam a conversar durante a madrugada, procurando algum esgotamento. Aqueles que sentem saudades dos sonhos propõem uma brincadeira oral sem fim: a história do galo Capão. O jogo consiste em perguntar se os ouvintes haviam pedido pela história do galo Capão, e àqueles que diziam que não era questionado se queriam ouvir a história do galo Capão, e àqueles que diziam que sim, era questionado porque queriam ouvir a história do galo Capão. E assim a brincadeira segue, num ciclo infindável.

Com o passar do tempo, os dias no vilarejo tornam-se uma constante repetição, e tudo passa a ser vivido sem pausa ou pouso. Uma vez que os doentes se acostumam ao estado de vigília, estão condenados ao avanço da enfermidade: o esquecimento. Aos poucos, os nomes de objetos vão perdendo o significado, e, além da insônia, o povo começa a sofrer evasões de memória. Com o decorrer do tempo, etiquetas são colocadas nos objetos para que seus nomes sejam lembrados, assim como suas funções. E o mesmo se dá com os animais, as pessoas e as casas. É preciso colar uma etiqueta na vaca: esta é a vaca, produz leite. E no leite: este é o leite, mistura-se com açúcar e café… E assim por diante. Buscam a preservação da memória. A cartomante, que lia nas cartas o futuro, passa a ler o passado, pois, sem que os habitantes possam sonhar, não há a possibilidade de futuro. Macondo fica condenada à peste do esquecimento.

Resumir a escrita soberana do autor me parece uma heresia. Reescrevo as linhas acima com certo constrangimento. Mas a alegoria nos serve como metáfora e nos ajuda a refletir sobre a importância de sonhar para o nosso aparelho psíquico.

Sonhar e agir

Freud já dizia que nada acontece antes de ser sonhado e que são os sonhos a fonte da imaginação, a via régia do inconsciente. Uma espécie de portal que nos revela algo de nós mesmos que ignoramos. Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, o sonho é essencial para o ser humano desenvolver a habilidade de fazer planos. A capacidade de imaginar na vigília e executar as coisas tem a ver com o processo onírico, pois as mesmas regiões cerebrais são ativadas.

Na terra dos sonhos, somos livres e realizamos desejos — muitas vezes, inconfessáveis para nós mesmos. Suportamos a realidade porque sonhamos. Quantas vezes o enlutado sente alívio ao sonhar com a pessoa que perdeu?

É no livro A interpretação dos sonhos que Freud descreve o sonho como a realização de um desejo. Porém, nem todo desejo pode ser explícito, e muitas vezes ele se apresenta com certo disfarce.

A censura está baixa quando sonhamos, e temos, assim, um terreno fértil para sentimentos ocultos e fantasias. Mesmo assim, alguns são censurados por nós mesmos — e, para se revelarem, juntam uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico pessoal, somando vivências e experiências singulares e individuais, com significado único. Em resumo, certas coisas se dão em nossa mente de forma disfarçada ao adormecermos. É como se, dormindo, nossos desejos acordassem no sonho, apresentando-se de forma mascarada. Tal mecanismo é denominado condensação.

Uma amiga, após encontrar o ex-namorado, acorda assustada: havia sonhado com uma múmia que saía do sarcófago, toda empoeirada, e a perseguia. Ao acordar, levou o sonho para a análise e se deu conta: seu inconsciente revelava-lhe o impacto daquele encontro. A múmia que a perseguia era esse sentimento do passado que, pelo sonho, ela percebeu ainda estar vivo dentro dela.

Mas, para cada pessoa, os símbolos que aparecem num sonho têm um significado específico, que só pode ser decifrado pelo próprio sonhador. Mesmo que apareça de maneira torta, dá notícias de algo que, acordado, pode ser muito ameaçador. Por isso, o dicionário de sonhos não deve ser levado muito a sério. Como dito por Freud: o sonho pertence ao sonhador.

Eventos ocorridos durante o dia e que dão formas construtivas aos sonhos são chamados restos mnêmicos. É como se o inconsciente “pescasse” elementos na realidade para trabalhar durante o sonho. Logo, haveria um pensar inconsciente durante o estado de vigília que vai selecionando elementos do dia, levando materiais para a vida onírica.

Existem também os sonhos de repetições traumáticas — uma tentativa do nosso aparelho psíquico de dar conta de um trauma. A pessoa sonha o evento diversas vezes, em busca de elaborar aquilo que foi excessivo. Como se, ao dormir, tentasse acomodar algo extremamente incômodo, revivendo a cena madrugada adentro. Tal ideia é sustentada por Ferenczi — o sonho seria uma tentativa de reparação do trauma.

O psicanalista Thomas Ogden associa a capacidade de sonhar ao crescimento e ao aprendizado com as experiências. A literatura é um lugar de sonho, assim como a arte, que nos tira de um estado zumbi e nos acorda para outros mundos quando a realidade mais parece uma terra árida.

Sonhar acordado também é extremamente importante. Poder fantasiar nos possibilita uma tolerância maior à realidade. A fantasia é um dos veículos pelo qual o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. É um terreno no qual tudo pode acontecer.

O sonho captura a fluidez do tempo

Há algo precioso no sonho: podemos voltar a ser crianças, encontrar pessoas perdidas, visitar casas que há muito abandonamos. No sonho, temos a percepção da atemporalidade do inconsciente e transitamos na fluidez desse tempo.

Quando perdi minha mãe, sonhei que a colocava boiando numa cachoeira. Dava-lhe um beijo na testa, abria os braços e a entregava para a água. Ela estava de branco, como se estivesse sendo batizada. Quando acordei, entendi. Uma mãe de santo havia me dito certa vez que eu era filha de Oxossi, filha da água doce. Minha mãe agora tinha sido devolvida para a mãe natureza e estava mergulhada dentro de mim para sempre.

Nós nunca vivemos essa memória, mas ela habita em mim, como qualquer experiência que eu tenha vivido na vigília. Foi o final feliz que eu inventei para ela na noite em que foi velada. Um presente que meu inconsciente ofereceu ao meu coração órfão.

O sonho é o antídoto para a peste da insônia, mas também para a peste da saudade, pois através dele podemos reencontrar pessoas perdidas, abraçar-lhes forte e inventar mais uma memória para viver junto. O sonho talvez seja a máquina de memória que José Arcadio Buendía tanto quis fabricar em Cem anos de solidão. Tomara que, nesta noite, meu inconsciente me ofereça um passeio de mãos dadas com ela.

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Em 2009, Edwin Rist, então um jovem de 22 anos, subiu no parapeito de uma das janelas do museu de Tring, uma extensão do Museu de História Natural de Londres. Carregava consigo uma mala vazia, um cortador de vidro e uma lanterna. Ao tentar subir na janela, Rist derrubou o cortador de vidro. A noite estava escura, e ele não o encontrou novamente. Então agarrou uma pedra do chão, mesmo, e quebrou o vidro, abriu a janela — cortando, sem querer, o braço — e entrou no museu. Seguiu para a ala dos pássaros conservados. Abrindo as gavetas, roubou mais de 299 espécimes do museu. Furto completo, pulou a janela, pegou o trem e voltou para o seu apartamento em Londres.

Rist usou uma pinça para depenar os pássaros, colocando as penas em saquinhos plásticos estilo zip lock. Tirou fotografias. Entrou em um fórum especializado para amantes da pesca com mosca, ou fly fishing, um estilo de pesca que usa iscas que imitam insetos para atrair peixes. Essas iscas, ou moscas, podem conter penas de diversas espécies de pássaro, assim como outros materiais. São pequenas obras de arte, e requerem muita paciência e habilidade. Quanto mais raras as penas, mais valiosas as moscas.

As penas de Edwin chamaram a atenção dessa comunidade. Afinal, eram penas raríssimas, algumas de espécies de pássaros extintos há mais de um século. Era o sonho de qualquer “mosqueiro”. A demanda foi tão grande que Edwin decidiu que seria mais rápido e eficiente vendê-las através do eBay. Usou a sua própria conta, com o nome de usuário FlutePlayer 1989. O Tocador de Flauta. Quando foi rendido pela polícia, alguns meses depois, ele confessou que estava vendendo as penas para realizar um sonho.

Nascido em 1988 no estado de Nova Iorque, em uma família de classe média — seus pais eram jornalistas e donos de um canil de labradoodles que suplementava a renda da família —, Edwin não frequentava a escola. Sua mãe, Lynn, o educava em casa, e ele seguia livremente seus interesses. Logo cedo, desenvolveu duas paixões: a primeira, pela música, tornando-se um prodígio na flauta ainda jovem; a segunda, pela pesca, uma paixão herdada de seu pai. Não pela pesca em si, mas pela arte de criar as moscas, desde criança. Ele usava penas e materiais encontrados nos arredores da sua casa, e logo passou a ser uma figura conhecida na comunidade local de fly fishing. Edwin estudava técnicas de fly tying, ou a criação das moscas, em livros antigos, da era vitoriana. Esses livros continham instruções passo a passo, e muitas receitas pediam o uso de penas exóticas. Infelizmente, muitos dos pássaros mencionados haviam sido extintos, sacrificados pela obsessão dos vitorianos pela moda de chapéus com penas. Como não tinha acesso aos leilões privados nos quais colecionadores vendiam penas raras por centenas de dólares. Edwin usava penas substitutas, de pássaros comuns. A frustração pesava. Sem as penas raras, ele não conseguia alcançar o patamar de fly tying no qual sonhava estar.

Optou, então, por se dedicar à música. Recebeu uma bolsa para tocar flauta na Academia Real de Música, em Londres. Passou a sonhar em comprar uma flauta nova, um instrumento da melhor qualidade. Uma flauta dourada. Mas Edwin não tinha dinheiro suficiente. Uniu, então, seu conhecimento do submundo das moscas com sua ganância. Sentou-se à frente do computador e criou um documento chamado “InvasãoMuseu.doc”. E, apesar de as coisas não terem corrido exatamente de acordo com o plano na noite do furto, teve êxito. Mas o menino prodígio da flauta e do fly tying não era exatamente o gênio do crime, e, depois de alguns meses, foi pego. Graças a seu advogado, que convenceu o juiz de que Edwin era autista e não tinha capacidade de diferenciar o certo e errado, ele não foi para a cadeia.

Foi um crime bizarro — um homem que roubou centenas de pássaros mortos para comprar uma flauta dourada. Mas e daí? E daí que Edwin cometeu um crime maior ao arrancar as etiquetas dos pássaros, que continha informações como o nome da espécie, sua origem, a data em que foi preservada e por quem. Assim, os animais deixaram de ser espécimes científicas e passaram a ser apenas… penas. Toda a informação relevante sobre essas espécies raras, algumas extintas, havia se perdido. O mundo empobreceu, nosso conhecimento esvaeceu, e os pobres pássaros foram vítimas de humanos obcecados em ter, colecionar, estudar, exibir, pescar e roubar. Tudo por uma flauta dourada.

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Aprender a escolher: curadoria e o excesso de informação

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“Temos que reconhecer que, apesar de estarmos na era das Grandes Recessões, da austeridade e da estagnação, o que define a vida no Ocidente são os problemas de excesso, não da falta. Nem sempre a sensação é essa — afinal, quem não quer, ou mesmo precisa, de mais dinheiro? —, mas o fato é que, comparados a nossos antepassados, vivemos em meio à superabundância.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Sinais dos tempos: antes, usávamos a palavra “conteúdo” para nos referirmos a uma abordagem de tema mais aprofundada ou mesmo como algo positivo que alguém possuía; hoje em dia, como um aceno cínico ao estado geral em que estamos, usamos a palavra para designar tudo aquilo, não importa o quê, que as redes sociais produzem. O “conteúdo”, feito bexiga de festa, vem se esvaziando, não sem fazer questão de soltar um barulho ao mesmo tempo estridente e moribundo.

Michael Bhaskar, em 2014. Foto: Bernd Hartung/ Frankfurter Buchmesse

Incrustados no excesso de informações dos dias atuais, envoltos sem direito de escolha nessa verdadeira contenda pela nossa atenção que faz com que cada visita ao celular se assemelhe a um desembarque violento em terras ocupadas, é essencial reconhecer a importância de se fazer escolhas conscientes que dizem respeito a conteúdo. Sob a névoa da guerra, o que consumir e o que não consumir? 

Existem duas razões principais que fundamentam essa necessidade: o gerenciamento do tempo (cada vez mais valioso) e a avaliação da relevância, qualidade e validade das informações recebidas. 

Considerando a limitação do tempo que temos disponível, é fundamental direcionar nossa atenção para aquilo que nos interessa e consideramos pertinentes. Se alguém se deixa levar, lá se vão horas e horas por dia num scroll infinito de informações extremamente descartáveis e pouca, para não dizer nenhuma, retenção de qualquer elucidação que em outro contexto seria válida. Nos tempos modernos — não exatamente iguais aos de Charles Chaplin, mas talvez mais análogos do que imaginamos num primeiro momento —, a inércia das redes sociais pode ser cruel. Com uma quantidade cada vez maior de conteúdos disponíveis, é inviável absorver tudo indiscriminadamente. Para que se cultive a saúde mental e se priorize alguma praticidade, desviar dos muitos dos estilhaços — numa lista rápida: postagens que retratam uma vida irreal e tóxica, influencers de qualquer tipo, pautas pouco desenvolvidas que se resumem às manchetes, notícias inexpressivas sobre o pé dessa ou daquela celebridade —, evitar que o jogo vire e que tudo nos consuma, é um mínimo.

Aos poucos estamos aprendendo, mas, sim, é verdade: nem tudo que chega até nós é factual ou representa uma opinião válida. Curioso pensar como muitas vezes obter uma informação em algum perfil do Instagram ou em qualquer site se assemelha ao que, antes, era ler algo no jornal, apesar deste estar cada vez mais desvalorizado. A lógica, ora, é praticamente a mesma: se está ali, se chegou até mim, então deve ser verdade. Porém, a lógica pregressa era um tanto mais sensata, já que, naqueles tempos — no vendaval do mundo digital, dizer “naqueles tempos” é pensar em praticamente tudo que está a mais de dois ou três anos de distância —, havia uma responsabilidade maior com o que era ou não noticiado, muito embora o poder manipulativo proveniente disso seja tão assustador quanto o das fake news atuais que nem se preocupam em parecer reais. A disseminação de desinformação e opiniões enviesadas é uma das realidade mais aterradores dos nossos tempos.

Desde o surgimento da internet e das mídias sociais, somos constantemente bombardeados por uma quantidade inimaginável de conteúdo. Notícias, artigos, vídeos, músicas, livros e tantos outros produtos, que, pelo volume exacerbado, chegam a ser nocivos, estão disponíveis em uma escala sem precedentes. Eleições já foram decididas tomando proveito disso e quem negar que elas têm papel crucial na formação de opiniões estará sendo, no mínimo, ingênuo. Portanto, é imprescindível desenvolver habilidades de avaliação crítica e discernimento para filtrar o conteúdo que encontramos. Isso envolve questionar a fonte das informações, verificar sua credibilidade, analisar diferentes perspectivas e considerar o contexto em que a informação está inserida. Ao fazer escolhas conscientes sobre o que ler, estamos adotando uma postura crítica e responsável em relação ao conhecimento que absorvemos.

Calma lá. Essa seleção criteriosa não significa fechar-se em uma bolha informativa ou limitar-se a apenas um ponto de vista. Pelo contrário, implica em buscar diversidade de fontes e opiniões, mas de forma consciente e fundamentada. Mais do que nunca, é de suma importância expor-se a diferentes perspectivas e ter acesso a informações confiáveis e embasadas, a fim de ampliar nossa compreensão e formar opiniões com base em ponderação, mas com um pequeno adendo: direcionar para o que nos é mais relevante, tanto pelas nossas predileções quanto pela necessidade de avaliar a qualidade e a validade das informações que nos chegam. Ao adotarmos uma abordagem consciente e crítica em relação à seleção de conteúdos, podemos otimizar nosso tempo, obter conhecimentos relevantes e desenvolver uma visão mais informada e equilibrada do mundo ao nosso redor.

Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso (2020), escrito por Michael Bhaskar, é um livro que explora a importância da curadoria, como uma forma de seleção proativa, em um mundo invadido por agentes com propósitos diversos, por vezes escusos. Como podemos navegar nesse oceano de excessos e encontrar valor e significado por meio da seleção? Como dar um sentido à loucura que é o bombardeamento de informações? Como é possível a abundância ser esmagadora e causar, paradoxalmente, uma sensação de esvaziamento?

“No contexto de excesso, curadoria não é só um modismo. Ela dá sentido ao mundo.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Bhaskar é um profissional reconhecido na área da curadoria e do mundo editorial. Sua experiência prática o levou a explorar a importância da seleção como um meio de filtrar e dar significado em meio ao fluxo constante de informações disponíveis. À medida que somos inundados por uma quantidade avassaladora de informações, produtos e opções, a seleção se torna um poderoso mecanismo de autopreservação, filtragem e atribuição de valor.

Nos últimos duzentos e poucos anos, projetamos sociedade e negócios para que não parem de crescer, para que continuem somando. Mas, atualmente, os acréscimos provocam mais mal do que bem. Se muitos problemas são decorrentes de criar mais, não teríamos motivos para questionar esse pressuposto? Vivemos em um mundo fragmentado: nossas vidas se espargem por essas e aquelas redes sociais, com porções que se rompem cada vez mais e causam um danoso desmembramento de vivências, de personalidades, de visões de mundo. No fim, neste mundo estilhaçado, somos nós retalhos, frações, meros vestígios. Versões que gostaríamos de ser, mas não somos.

Ao criar um certo ideal de vida plena e satisfatória que muitas vezes parece inalcançável, uma ideia que se vê salpicada aqui e ali, a cultura e a sociedade amplificam um sentimento generalizado de perda. Perda daquilo que nunca se teve; perda daquilo que nunca se foi — fragmentos que nunca serão o todo. 

Adam Phillips, um renomado psicanalista britânico, escreveu O que você é e o que você quer ser (2012), um livro que explora a natureza humana e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Partindo da ideia de que todos nós temos uma vida não vivida, uma vida alternativa que imaginamos ter se tivéssemos feito escolhas diferentes, ele argumenta que essa vida não vivida é uma fonte de angústia e sofrimento para muitas pessoas, pois dá a sensação de que estamos perdendo algo essencial e valioso. Mas questiona se devemos realmente nos lamentar por aquilo que não vivemos e propõe uma reflexão sobre a importância de abraçar as escolhas que fizemos e encontrar significado e satisfação na vida que temos.

“Como sabemos agora mais do que nunca sobre os tipos de vida que é possível viver (…), somos sempre assombrados pelo mito de nosso potencial, do que poderíamos ter em nós mesmos para ser ou fazer. Então, quando não estamos pensando, como o personagem do poema de Randall Jarrell, que ‘As maneiras pelas quais sentimos falta de nossas vidas é a vida’, estamos sofrendo, lamentando ou nos ressentindo por não sermos nós mesmos como imaginamos que poderíamos ser. Compartilhamos nossas vidas com as pessoas que deixamos de ser.”
Adam Phillips em O que você é e o que você quer ser

Adam Phillips, em 2017. Foto: Richard Saker/The Observer

Pensando nas escolhas que temos que fazer no que diz respeito ao que lemos e o que não lemos, aos vídeos que assistimos e aos que não assistimos, temos que saber que nem todas as vidas podem ser vividas. Inevitavelmente, algum assunto do momento passará batido — o que é bom. A curadoria motivada pela sobrevivência vai além da simples escolha, envolvendo também a capacidade de dar contexto, criar conexões e despertar emoções por meio das escolhas feitas. Talvez pareça algo simples, mas, diante do muito que vemos nas redes sociais e na mania que temos de optar pela manifestação célere ao invés de um momento de reflexão, não é algo que vem naturalmente. O natural é opinar sobre tudo, ao mesmo tempo, sempre que algum assunto amplamente discutido surgir — e, sim, ele vai surgir. Mas e se não fizéssemos isso?

É inevitável, e preocupante, o tanto que é possível nos enxergar na seguinte provocação: “Temos entretenimento constante, mas somos cada vez mais distraídos.”

Pensar no papel da seleção em um mundo abarrotado de informações é também refletir sobre como uma habilidade e um processo que pode nos auxiliar, e muito, na sinuosa navegação do mundo contemporâneo do excesso. 

“A curadoria é mal interpretada porque raramente é vista em todo o seu contexto. Curadoria tornou-se um modismo porque a ser resposta para uma série de problemas que antes não existiam: os problemas decorrentes do excesso. Há duzentos anos, vivemos num mundo que promove a criatividade, que busca o crescimento acima de tudo, que aumenta a produtividade sem dar trégua e que quer sempre mais: mais gente, mais recursos, mais dados, mais tudo. A cada dia que passa, porém, fica mais claro que estamos sobrecarregados.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais do que selecionar: dar contexto e significado aos conteúdos escolhidos. Bons curadores, no contexto artístico em que estamos acostumados, são capazes de contar histórias, criar conexões e despertar emoções por meio de suas seleções, certo? Não seria ótimo poder aplicar isso à vida cotidiana?

“Por sorte, a natureza do problema sugere uma resposta: já estamos vendo uma revolução na forma como abordamos o valor. Se o valor, pecuniário ou de outro tipo, antes tinha a ver com a produção primária, agora, num mundo que deixou de ser dominado pela escassez, ele mudou. Hoje o valor está em resolver esses problemas e reduzir a complexidade. Curadoria tem a ver com construir empresas e economias em menos opções — mais apropriadas, mais personalizadas. Essa é a diferença fundamental e a grande tendência subjacente que ainda estamos começando a entender.” 
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais e mais também pode significar menos e menos. Esse, na verdade, é um paradoxo comum da vida. Se você tem muitas amizades, isso talvez signifique que você não tem amizades profundas; se você consumir 7 livros por semanas, isso talvez signifique que você não vai lembrar de nenhum deles daqui a uma semana. 

O excesso, afinal, também é o vazio cada vez maior de espaços livres. Talvez, com um pouco de seleção, o cenário abarrotado possa se inverter. 

Menos é mais, less is more, e nem sempre pingar é melhor do que secar.

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Devido à pandemia, pela primeira vez em muito tempo nos vimos forçados a desafiar um modelo de trabalho há muito não questionado. Antes de tudo acontecer como aconteceu, o trabalho remoto estava fadado a eventualidades, guardado somente para casos extremos, como algum problema de saúde ou aquelas grandes chuvas capazes de parar metrôs e trens, impossibilitando o deslocamento do funcionário ao local de trabalho. Mas depois de um ano e pouco de pura ansiedade, a vacina e as suas doses de reforço vieram para acalmar os ânimos. Ainda que num contexto para lá de ruim, uma nova possibilidade foi apresentada às pessoas: ao contrário do que se imaginava, é possível trabalhar de casa — e com eficiência (até maior, a depender das circunstâncias). Como, então, voltar 100% ao trabalho presencial? Não se volta. Pelo menos não com a mesma soberania. Os números mostram que esse modelo de trabalho, antes uma maioridade acachapante, não voltou a reinar. O modelo preferencial de hoje em dia é o híbrido, que balança entre o remoto e o presencial, adotado amplamente por empresas do mundo todo. 

Presume-se que esse seja o futuro do trabalho e que, a partir dessa primeira grande mudança, outras virão, num processo contínuo de desencadeamento. 

Mas isso, claro, gera impactos relevantes na economia, tão assentada na logística que força as pessoas a usarem o transporte público, a comerem fora de casa e a frequentarem os comércios que circundam o local de trabalho. E quando a economia é afetada para pior, independentemente do quão positiva possa ser a mudança em termos humanos, a tendência é que a resistência seja das mais fortes, vindo inclusive de políticos poderosos pressionados por lobistas de todos os tipos. A título de exemplo, em janeiro deste ano a prefeita de Washington, Muriel Bowser, que atualmente cumpre o seu terceiro mandato no cargo, fez forte apelo ao presidente Joe Biden, dizendo que o trabalho remoto estaria “matando” a capital norte-americana. E no começo de 2022, o prefeito de Nova York, Eric Adams, direcionou um forte discurso à população novaiorquina, dizendo que “vocês não podem ficar de pijamas o dia inteiro”, pois “não é isso que somos enquanto cidade”.

Em parte, faz todo o sentido do mundo que os prefeitos de duas das maiores cidades dos EUA advoguem a favor daquilo que, num primeiro momento, parece melhor para a economia. Uma economia ruim, obviamente, não serve a ninguém e leva a problemas sociais sérios. Mas, ao mesmo tempo, é justamente por serem os prefeitos de duas megacidades que as falas ácidas chegam a impressionar. Seria de se esperar fossem estar um tanto mais abertos às novidades da vida profissional, ainda mais quando elas representam, em muitos casos, aumentos na produtividade e satisfação dos funcionários. 

Dentre os muitos argumentos em prol do trabalho remoto — como a liberdade e a comodidade para trabalhar de onde a pessoa bem entender —, um que ganha destaque é a economia, que chega perto de 40 mil reais anuais. Economiza-se um bocado com descolamento (seja ele feito com transporte público, carros de aplicativos ou com o combustível do automóvel próprio), outro bocado com alimentação e até um bocadinho com lazer. E é por conta dessa redução palpável de gasto, que, muito embora tenha o poder de colocar a vida financeira de alguém nos trilhos, o trabalho remoto representa um perigo para a economia das cidades, em especial as mais caras, como Nova York ou São Paulo. 

A política vem tentando entrar em jogo para interceder a favor dos seus e desacelerar aquilo que veem como uma ameaça à economia, mas o que mais paira no ar é a dúvida: será que o processo é mesmo reversível?

Antes da pandemia de Covid-19, apenas cerca de 7% dos negócios no país tinham empregados trabalhando à distância. Hoje, porém, de acordo com estudo feito pela FGV, o home office é adotado por 33% das empresas no Brasil. O número, claro, é menor do que era nos dois anos anteriores, quando a pandemia ainda estava no auge. Em 2021, 57,5% das empresas no Brasil  estavam trabalhando de forma remota, de forma parcial ou total, incluindo as que já adotavam essa modalidade antes de 2020. Em outubro de 2022, o percentual caiu para 32,7%.

Nos EUA, até 2019 apenas 4,7% do trabalho era feito em casa. Hoje, mais de um quarto dos estadunidenses cumprem jornada nessa modalidade. Em janeiro deste ano, 27,2% dos dias trabalhados cumpridos foram de forma remota, segundo a pesquisa Working From Home Research, um relatório mensal sobre o trabalho remoto.

Fato é que cabe aos líderes pensarem em estratégias para lidarem com as transformações inevitáveis da sociedade. Ao que tudo indica, o trabalho híbrido veio para ficar e, portanto, se o impacto na economia é uma realidade, os esforços devem ser direcionados para a elaboração de mecanismos de adaptação àquilo que é tido como problema. Solucionar não é barrar, e vice-versa. Se considerarmos que cada transformação tem seus próprios resultados, seja fortalecendo ou possivelmente enfraquecendo a economia, tentar frear todas as mudanças que se anunciam talvez não seja inteligente. Não em 2023. Num mundo altamente tecnológico que muda a cada dia, não é possível preconizar os modelos ultrapassados só por que eles operam a seu favor. 

O futuro do trabalho está com a boca cheia de promessas e, cada vez mais, ele tende a se distanciar daquilo tudo que vivemos até aqui, fazendo com que os reinados durem por menos tempo e aumentando a velocidade com que modus operandis e mentalidades entram na lista do “passado” do trabalho. Um tópico que vem ganhando força nos últimos tempos é a semana de 4 dias, certo? Se nem mesmo a semana de trabalho de 5 dias está segura nessa revolução, então nada está. Os símbolos que por tanto tempo reverenciamos começam a desbotar, tal qual a produtividade acima de tudo, e o melhor é abraçar os novos momentos, tomando deles o que potencializa as virtudes de uma empresa, de uma cidade, de uma pessoa. 

O que mais vem pela frente?

Wirearchy — O termo, que brinca com a palavra hierarchy (hierarquia), sugere uma fuga dos organogramas rígidos. Trata de empresas em que as pessoas, a partir da colaboração e da conexão possibilitada pela tecnologia, assumem a responsabilidade individual e coletiva, em vez de dependerem da hierarquia. É um fluxo dinâmico, de mão dupla de poder e autoridade, com base no conhecimento, confiança, credibilidade e foco em resultados. 

Inteligência Artificial — Talvez nenhum outro tema esteja tão em voga quanto esse. O Chat GPT mal chegou e já há um sentimento de estafa em cima dele. Quem abrir o LinkedIn e, numa primeira batida de olhos, não se deparar com matérias e comentários sobre essa IA que atire a primeira pedra. É só uma questão de tempo até que a automatização faça parte de mais e mais empresas, fazendo com que o toque humano seja buscado em áreas que a inteligência artificial ainda não chega. Devemos, então, desenvolver competências e capacidades tecnológicas necessárias para o sucesso da colaboração e convivência entre os seres humanos e robôs.

9h às 18h? — O que realmente importa é a entrega, não os horários em que se bate o ponto. Parece simples, mas até há pouco isso soava como um sonho distante. Atualmente, a tendência é que as pessoas tenham cada vez mais liberdade para definir os horários e até os dias de sua jornada de trabalho. É claro que, para funcionar, esse é um modelo que passa pelo bom senso das pessoas também, que precisam ter em mente que, mesmo com toda a liberdade do mundo, nem sempre a agenda própria vai ser seguida. De vez em quando será necessário se fazer disponível, seja em momentos críticos ou quando o trabalho conjunto é imperativo, independentemente que isso fuja da rotina pré-estabelecida.

Tudo isso, semana de 4 dias inclusa, tem um impacto. Nem sempre será positivo, nem sempre será negativo. Mas será. Se nenhum desses novos capítulos representar uma recessão econômica, melhor ainda. O capitalismo, aliás, também está sendo posto à prova na medida em que, a galope, entramos na quarta revolução tecnológica. O quadro de transformações aponta uma renovação de valores que já não condiz com o arcabouço ideológico que fez o capitalismo prosperar por tanto tempo. Nada está garantido, a não ser que novos tempos batem à porta.

Vivemos um importante momento de transição e de definição. E, em termos de progresso, não há nada pior do que fechar os olhos para os fatos.

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Fotos de Tomás Biagi Carvalho

Os aromas são donos de uma fantasmagoria que sussurra segredos antigos e desperta os mais profundos desejos. Mas não pense naqueles fantasmas, pense naquela força maior que perpassa corpos para arrepiar toda e qualquer percepção. Não é à toa que entrar em uma perfumaria é estar em contato com os mistérios da história e da sexualidade humana. Desde os tempos mais remotos, os aromas têm sido aliados na busca pelo prazer e pela sedução, tecendo uma teia de sensações que envolvem os sentidos e a imaginação. Em uma manifestação quase corpórea, também há neles um inigualável poder de expressão própria, algo capaz de eriçar os pelos da nuca de qualquer um. Nessas ondas que circundam a aura, é inegável que existe uma lufada palpável de identidade e intimidade — daí a fantasmagoria.

Há milênios, os povos antigos descobriram os poderes mágicos dos aromas, utilizando-os em cerimônias religiosas, rituais de cura e, claro, encontros amorosos. Egípcios, gregos e romanos dedicavam oferendas aos deuses do perfume, acreditando que essas fragrâncias celestiais podiam atrair bênçãos divinas e despertar a paixão em corações mortais. A missão dos alquimistas e herboristas era extrair os segredos das plantas e transformá-los em elixires preciosos. Com a chegada da Idade Média, os perfumes assumiram o status de luxos extravagantes, reservados à nobreza e à alta sociedade. Na sedução aloucada das cortes, os mestres perfumistas trabalhavam para que os amantes trocassem presentes perfumados e se entregassem a jogos de amor e desejo.

Com o Renascimento, porém, o interesse pela ciência e pela filosofia despertou uma nova era, com alquimistas e herboristas se dedicando a estudar as propriedades medicinais das plantas e a arte da destilação. E, depois, no século XVIII, a perfumaria viveu uma revolução com o surgimento da indústria do perfume: Grã-Bretanha, França e Itália se tornaram os principais centros de produção e comércio de perfumes, exportando fragrâncias exóticas para todo o mundo. No século XX, tornou-se uma indústria global, com fragrâncias icônicas que marcaram épocas e definiram tendências.

Por mais que cada era tenha sua própria linguagem olfativa, que reflete os valores, as emoções e os desejos de sua época, o fator sedução parece sempre estar presente.

Eis, então, que chegamos ao século XXI e, nesta nossa era, temos algo que nem os renascentistas tinham: um oásis da perfumaria botânica chamado Aromaria. Fundada por Maria Cintra, ela honra as tradições antigas enquanto abraça a inovação e a criatividade. É a celebração da natureza, da arte e da sensualidade que faltava aos palácios de outrora. Com ingredientes cuidadosamente selecionados e técnicas ancestrais de destilação, Maria cria fragrâncias que capturam a essência da natureza em sua forma mais pura e sublime (o que, por si só, já é um grande afrodisíaco).

Em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e pela artificialidade, as expressões naturais de sensualidade e sexualidade são cada vez mais prementes. Imagine uma vida que cabe em uma respiração profunda. Ou, então, tente materializar uma vida sem o distanciamento das redes sociais, sem as barreiras da comunicação remota, sem a falsa proximidade da vida digital. Que alívio, não? Há certa liberdade em saber que, para sentir um aroma, é preciso estar perto.

E a Aromaria é isso, um convite à liberdade de se estar perto.

Na conversa a seguir, Maria Cintra, além de nos contar mais sobre sua Aromaria, nos ajuda a refletir sobre a interseção dos aromas e da sensualidade.

Como você entrou no mundo da perfumaria e o que a inspirou a começar com a Aromaria, com essa proposta mais natural?

Maria Cintra — Desde bebê, sempre tive um nariz curioso. Me encantavam os cheiros, mesmo antes de pronunciar minhas primeiras palavras. Cresci como uma criança observadora, atenta aos aromas que permeavam o mundo ao meu redor, fossem eles envolventes ou desagradáveis. Durante meu período de estudos em design de moda, percebi o excesso de objetos que nos cercam e ansiava por criar algo mais íntimo, algo que pudesse refletir nossa identidade de forma mais profunda e transformadora. Foi assim que surgiu a ideia da Aromaria, que inicialmente era uma marca de cosméticos naturais, mas foi na criação dos perfumes que encontrei minha verdadeira paixão. Foi nesse momento que a perfumaria entrou de forma definitiva na minha vida. Fomos acelerados pel’O Boticário e viramos uma empresa de perfumaria com atenção à perfumaria botânica.

Qual é a importância dos aromas em sua vida pessoal, e como isso influenciou sua jornada?

MC — Os aromas são verdadeiras portas de entrada para minhas sensações mais profundas. Cada uma das minhas memórias está impregnada de cheiros distintos — desde meu primeiro dia na escola até os pratos que mais aprecio, passando por lugares marcantes que visitei. Quando viajo, faço questão de levar comigo um perfume específico, buscando deixar uma lembrança marcante associada ao olfato. Essa espécie de biblioteca de aromas que construí ao longo dos anos se tornou uma ferramenta essencial em minha jornada como perfumista. Ela me auxilia a memorizar matérias-primas, a identificar uma essência em meio a outras e a visualizar como essas fragrâncias podem se combinar para criar o perfume que idealizei.

Sobre o processo de criação desses “perfumes vivos” da Aromaria, como selecionar os ingredientes para suas fragrâncias e quais critérios são mais importantes nesse processo? O que vem antes, a combinação perfeita ou questões de sustentabilidade?

MC: Os perfumes da Aromaria têm vida própria, pois suas moléculas se revelam e se entrelaçam ao longo do uso. Para criar um perfume, é necessário construir uma pirâmide olfativa. As notas de topo, como as cítricas e aromáticas, são as mais voláteis. As do meio persistem por mais tempo, conferindo identidade ao perfume, com nuances florais e algumas folhas. E as notas de base ancoram o perfume, prolongando sua duração, com elementos como resinas e madeiras.

Primeiro, surgem as preocupações com a sustentabilidade. Todas as matérias-primas que utilizo passam pela avaliação do IFRA [International Fragrance Association], e sempre examino minuciosamente o processo de produção delas. Nem sempre a opção por ingredientes naturais é sustentável, pois pode acarretar problemas ambientais. Na Aromaria, valorizamos tanto as comunidades envolvidas na produção quanto os biomas afetados. Com essa ampla variedade de matérias-primas, vêm as combinações. Algumas ideias podem surgir espontaneamente, enquanto outras se revelam após várias tentativas. Às vezes, um perfume nasce de um acidente, quando misturo diferentes ingredientes. Tem perfume que vem de uma saudade, de um lugar que eu visitei, de uma história que eu ouvi.

De que jeito você acredita que os aromas podem despertar emoções e memórias em uma pessoa?

MC: Os cheiros são processados pelo nosso sistema límbico, responsável pelas emoções e pelas memórias. Ao contrário dos outros sentidos, eles não passam pelo córtex cerebral, que é a parte racional do cérebro. Para se ter uma ideia da potência do olfato, conseguimos nos lembrar de 35% do que cheiramos, enquanto só lembramos de 1% do que tocamos e 5% do que vimos.

E você acredita que é possível associar os aromas à sensualidade e ao erotismo?

MC: Com certeza! Estamos falando do nosso sentido mais instintivo. Nos perfumamos como um ritual para nós que se estende ao outro. O ser humano cria seus artifícios de acasalamento, e o perfume é o mais importante deles.

Há uma relação entre os aromas e a intimidade pessoal? Seja com nós mesmos ou com as pessoas com as quais nos relacionamos.

MC: Se perfumar é como abrir a porta para o íntimo, né? Cada pele possui sua singularidade, e quando o perfume se entrelaça, cria uma nuance que é exclusivamente nossa. Reconhecemos afinidades através do aroma, percebendo se aquela pessoa é compatível conosco ou não. É por isso que temos a expressão “isso não me cheira bem”.

Certos aromas podem mesmo ter um efeito afrodisíaco nas pessoas?

MC: Sim! O cacau, por exemplo, tem uma substância chamada teobromina, que eleva um pouco a pressão arterial, é um estimulante natural. Existem aromas tão afrodisíacos que já foram proibidos, como a tuberosa, nossa angélica. Seu floral narcótico fez moças solteiras serem impedidas de caminhar pelos campos de tuberosa durante o Renascimento italiano.

Então os aromas podem ser usados para aumentar a sensualidade e a conexão em um relacionamento?

MC: Existe algo mais poderoso do que o aroma da pessoa amada? Acredito que o simples gesto de sentir o cheiro de quem amamos já fortalece nossa conexão de maneira única. Além disso, momentos como uma massagem com óleos perfumados ou banhos aromáticos também são excelentes maneiras de enriquecer essa ligação especial.

Sempre me perguntei o que atrai mais as pessoas em um perfume —aquele aroma faz com que elas se sintam elas mesmas ou as distancia de quem elas são? Como você enxerga o papel dos aromas na expressão de nossa identidade pessoal? E na nossa sexualidade também.

MC: A escolha de um perfume revela muito bem o nosso ânimo ou o que queremos ser. Os cítricos, por exemplo, são solares, falam de alegria e leveza. Já os gourmand são sensuais e opulentos. Você pode brincar com nuances de personalidade e também com as temperaturas. Em um dia ensolarado, um banho de uma colônia aromática ou cítrica; em um dia frio, algumas gotas de um amadeirado ou gourmand. Há aromas que combinam com sexo. Por que gostamos tanto de flores? As flores carregam seus órgãos sexuais. Em um perfume, colocamos alguns cheiros animalescos, até escatológicos, que lembram o mais íntimo humano. É um jogo de atração.

Um perfume pode ser uma forma de explorar, ou até expressar, fantasias eróticas?

MC: Com certeza. Onde você passa um perfume diz muito sobre onde você quer ser cheirado.

Como você vê o futuro da perfumaria botânica no contexto da crescente conscientização sobre sustentabilidade e bem-estar pessoal?

MC: Eu vejo como uma descoberta que só vai crescer. Acho que as flores de amanhã nascerão mais perfumadas, parafraseando Manoel de Barros. Essa frase me inspira para explicar a importância e a potência da perfumaria botânica como uma forma de cultivar as plantas da Terra e garantir nossa sobrevivência. É um jeito de cuidar não só de si, mas do todo.

E, no meio disso, qual é o amanhã para a Aromaria?

MC: O amanhã é crescer nossa produção respeitando os limites da natureza e valorizando nossos parceiros que fazem a extração e que cuidam das etapas finais dos nossos produtos, da feitura até a venda. Queremos mostrar o poder da perfumaria brasileira ao mundo, mostrar que o cheiro das plantas faz floresta dentro de nós.

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os eus sulfurosos de erm

por Bruno Cosentino

Dela disseram ter organizado a orgia — 

em livros como a Antologia da poesia erótica brasileira; duas coletâneas que cobrem um século e meio (de 1852 a 2022) de contos eróticos brasileiros, O corpo descoberto e O corpo desvelado; além da Seleta erótica de Mário de Andrade.

Mas também chafurdou-se nela — 

em ensaios que desnudam com faro crítico o imaginário erótico da literatura de Machado de Assis, Sade, Manuel Bandeira, Roberto Piva, Hilda Hilst, entre muitos outros; grande parte deles reunido em A parte maldita brasileira. Mas também em livros: O corpo impossível, Lições de Sade e Perversos, amantes e outros trágicos.

                    Mais: é curadora da coleção Sete chaves, da editora Carambaia, que publica alguns bons exemplos de autores brasileiros e estrangeiros que escreveram sobre amor, sexo, erotismo e afins, alguns inéditos em português. Por enquanto, foram lançados Rosa mística, da uruguaia Marosa di Giorgio, e Cinema Orly, de Luís Capucho. 

                                                                                     Nossa conversa aconteceu numa manhã de março, eu de Maastricht, na Holanda, Eliane Robert Moraes de São Paulo. Durou mais ou menos 1h30 e precisamos desligar. Muito ficou por dizer. Ela é um instantâneo desse momento, com todas suas aparições; da minha janela, os botões intumescidos das cerejeiras prestes a.


Eliane — Tá gravando?

Bruno — Eu acabei de ler, agora de manhã, sua entrevista para os Cahiers Bataille no. 6 com o dossiê sobre “Georges Bataille e a América Latina”. Está maravilhosa.

E — Você gostou?

B — Adorei. Você fala de maneira muito clara sobre questões difíceis. Porque esse tema é muito intrincado. Trata de uma parte obscura do mundo, da gente mesmo. Então, dar clareza a isso, ainda mais tendo que se confrontar com certa moralidade que está sempre querendo oprimir qualquer manifestação desse tipo…

E — Que bom, pra mim é importante te ouvir, porque é uma entrevista longa, que foi feita aos poucos, teve uma primeira leva, depois uma segunda… Tive sorte de ter como entrevistadores a Monika Markzuk, editora dos Cahiers, que é uma graça, e o Marcelo Jacques de Moraes, uma pessoa que conhece o meu trabalho, com quem tenho muita afinidade e de quem gosto muito. Fiquei muito grata.

B — Eliane, também vou fazer perguntas mais pessoais. Por exemplo, onde você nasceu, onde você cresceu, como você era quando menina, enfim, sobre a sua infância. Te pergunto isso porque todo meu interesse no erotismo, pelo menos no meu caso, remeto às experiências que tive na infância, e acho que essas coisas se conectam de alguma maneira. Lembro agora da entrevista do Bataille falando de A literatura e o mal, em que ele relaciona o mal à infância. Então eu acho que a infância e o mal intrínseco ao tema do erotismo estão ligados, daí meu interesse, daí minha pergunta, também.

E — Sim, o celeiro é a infância. Vou tentar ser breve. Primeiro, como tenho bastante idade, tem muitas camadas. Mas você está direcionando um pouquinho a pergunta, e isso é bom. Eu nasci no dia 21 de julho de 1951, em São Paulo, e muito nova fui pra Minas Gerais. Meus pais se mudaram para Poços de Caldas, cidade que já é uma pontuação na minha infância, onde vivi de 1952 até 1961. Uma cidade pequena, super agradável. A primeira expressão que me vem quando eu lembro de Poços é: águas sulfurosas. Eu nunca fui ao dicionário pra tentar entender a palavra, o som, e essa ideia de que as águas poderiam ser qualificadas para além de quentes, frias ou geladas. As águas sulfurosas significam muito para mim. Só de falar agora, já vem um montão de coisas na minha cabeça. Então, Poços me fez conviver com palavras que estão fora de uma vidinha normal: bauxita, águas sulfurosas, termas, cassino… Em Poços havia um cassino! Então, tem coisas muito próprias da cidade que me formaram. A gente morava perto de um jardim, e ali tinha um lugar chamado Fonte dos Macacos, e era lá que a gente ia se molhar com as águas sulfurosas, quentes, chamando atenção ao corpo. Essas palavras para mim são ouro. A gente morava a uma quadra das termas, e eventualmente a gente ia lá tomar um banho. Então, essa cidade para mim é pontuada pela água. Mas além das águas — eu não sei se tem alguma verdade nisso, mas era o que se dizia e o que ecoava na minha cabeça de criança —, Poços era a cratera de um vulcão, obviamente extinto. Porque Poços é uma cidade rodeada de montanhas. Isso qualifica um pouco um espaço fechado, um espaço ali único. Penso um pouco no universo do Guimarães Rosa até, aquela coisa de “A menina de lá”, de “Famigerado”, a montanha, a Serra de São Ão, o que se esconde atrás da serra, pra lá ou pra cá da montanha, em Minas, região montanhosa e misteriosa.

Em 1961, quando a família volta para São Paulo, aquilo tudo já estava impresso na minha vida. Aí já estou com dez, onze anos de idade, já saí da infância. A gente deixou Poços de Caldas porque a família estava em crise. Aí entra a figura do meu pai, e que tem tudo a ver com as coisas que eu estudo, porque meu pai era um boêmio, era um dândi baiano que de repente se casa e tem que dar conta de uma família, de um orçamento, de tudo isso, e a coisa não dá muito certo. A minha mãe era uma mulher de São Paulo, uma self made woman, uma mulher extraordinária, com enorme capacidade de trabalho, que se casa com um boêmio que, na juventude, deixa a Bahia e vem pro sul.

Ele contava que, vivendo no Rio, na sua juventude, ele ia toda noite ao Cassino da Urca, onde havia um pianista que, quando ele entrava no Cassino, ia para o piano e tocava as primeiras linhas de uma canção que eu amo de paixão até hoje, que é The man I love — “Someday he’ll come along / The man I love”. Isso é uma fantasia minha, porque ele me contou, mas eu nunca entrei no Cassino da Urca, eu só conhecia o cassino de Poços, e mesmo assim, só do lado de fora… Cassino era um lugar absolutamente glamuroso, para reis e rainhas, para gente especial, que deslocava a gente de uma familiazinha de classe média, ali naquela luta do dia a dia, de uma mãe trabalhadora, que foi tudo que você pode imaginar — gerente de loja, sacoleira, fazia tudo que podia para sustentar os filhos —, porque não era o boêmio que dava conta disso.

Então, a gente sai de Poços de Caldas porque meu pai passa noites fora, joga, bebe — o que depois se tornou um alcoolismo brabo, difícil e sofrido. E, quando chegamos em São Paulo, vamos morar com minha tia e minha avó num apartamento de dois quartos em Santa Cecília: meu pai, minha mãe e três filhos (uma irmã que é um ano mais velha e um irmão que, infelizmente, já faleceu, mais novo que eu, que também foi professor da USP, um geógrafo muito talentoso). Então tudo muda, e eu entro nessa vida já adulta, mais dura, numa cidade mais dura, a família em crise, tudo complicado. Mas meu pai, sendo essa figura do boêmio, voltado à “alma encantada das ruas”, aos bares, ele era um cara culto. Vinha de uma família de classe mais alta na Bahia, que perdeu tudo — será por isso que eu falo tanto em perda? Era o mais velho de nove filhos e tinha uma vida de moço rico lá: ele dizia que, em Salvador, quando ele era moço, ia comprar uma gravata no centro e não carregava o pacote — aquela canção, “não carrega embrulho”, aquela pose de doutor… E aí ele chega em São Paulo em meados dos anos 1940 e cai na farra até os 36 anos, quando se casa com a minha mãe, que tinha dez anos a menos.

Depois que meu pai morreu, fiquei sabendo que ele mantinha a vida boêmia, teve amantes, frequentava bordéis. Aí entra o erotismo, claro, porque isso era tudo erotizado, e meu pai foi a pessoa a partir da qual eu soube que existia sexo. Não por nenhum abuso ou assédio conosco, mas pelo que a gente fantasiava da vida dele. E também, quando minha irmã e eu nos tornamos adolescentes, houve uma sexualização meio às avessas, aquela noia dos pais de que algum tarado podia pegar a gente e fazer qualquer coisa. Aquilo exalava uma erotização muito forte que a gente não podia saber, mas que obviamente a curiosidade infantil levava a interrogar. Essa história é multifacetada, mas eu já pensei que fui trabalhar com erotismo, libertinagem e tal porque havia no ar uma pergunta sobre a figura paterna, sobre a vida do pai fora da família, a vida dele antes da gente ter nascido e a vida oculta dele depois que a gente nasceu.

Uma imagem que eu tenho do meu pai — isso eu já mocinha, enquanto vivia com a família na Avenida Angélica, aqui em São Paulo, no 7º andar de um prédio — é ele na janela do apartamento olhando para o infinito, horas e horas. Horas e horas. Isso colocava o que essa pessoa estava pensando, o que estava se passando dentro dela… Hoje vejo que ele era o tipo melancólico. Quando fui ler sobre as teorias dos temperamentos, pois sempre me interessou muito esse tema dos caracteres, dos temperamentos, quando eu fui ler sobre a melancolia — Teofrasto, Bacon, Susan Sontag —, pensei: “nossa, a descrição do meu pai: melancólico”. Tive que montar um quebra-cabeça para entender: sensual, melancólico e muito pensativo também. Isso é um fio que não termina, e acho melhor parar por aqui.


B — Quando você fala que seu pai era uma pessoa aderente à vida e de um momento para o outro tem que constituir uma família, lidar com boleto, isso é um baque, uma crise. E essa imagem dele na janela é muito bonita. Como se estivesse mirando aquilo de que é impossível se ter o tempo inteiro, que é essa gratuidade, porque existe uma vida prática que assalta a gente. Mas amei as águas sulfurosas e você não querer procurar o significado no dicionário. Você vê que é uma memória dos significantes, dos sons que guardam segredos, e por isso — porque despertam nossa imaginação — fazem promessas.


E — Termas, termal, térmico…


B — Muita memória sensual, do corpo que vai na água quente. E a palavra sulfurosa é realmente muito sugestiva, enigmática. Enfim, remete também ao fato de você trabalhar com literatura, com os significantes e seus mistérios. Adorei essa história das águas sulfurosas.


E — Essas águas se devem ao fato — bem, essa é a explicação que eu tinha — daquilo originariamente ser um vulcão. Por acaso, hoje, neste momento da vida, estou lendo muito sobre vulcões para um livro que estou escrevendo, e a lava é uma matéria que me interessa muito para falar de sexo. E em Poços tinha essa história, uma lava adormecida, que eu ligo ao meu pai e à minha infância. Mas o meu pai também era colérico em alguns momentos: como você sabe, em qualquer momento um vulcão pode entrar em erupção!


B — Eliane, por que você foi estudar Marquês de Sade? Você foi estudá-lo com tesão? O que te moveu? E eu te pergunto isso porque eu sei o que me move para a erótica, o que me move é uma pergunta que não pode ser respondida — é um absoluto, uma energia, um mistério. E aí, claro, tudo vai se misturar tanto depois. É Deus, é o sagrado, o que é insondável vai acabar dando aí. Mas continua sendo uma pergunta sem resposta, daí a importância de fazê-la e de repeti-la sob diferentes formas. Então, queria saber: por que você foi estudar Sade, o que te perturbou?


E — Puxa, essa é uma pergunta que te faz ficar rodando em volta dela, pois ela não tem centro, não tem mesmo. Quer dizer, tem essa coisa longínqua da infância, que eu contei, mas fui me interessar pela erótica, do ponto de vista intelectual, já bem mais velha. Tive uma vida errante na juventude, bem afinada com a minha geração, tentei fazer várias faculdades, nada encaixava muito, eu não achava graça, fui bem errante. Passado muito tempo, me tornei uma pessoa completamente focada, voltada para um tema, uma questão. Eu acho interessante quando as pessoas escrevem “especialista em erotismo”. Eu falo: “gente, o que será que é isso, mesmo?”.

Nos estudos, eu comecei com o Direito, depois Pedagogia, depois Publicidade, e não terminei nenhum deles até que, enfim, entrei nas Ciências Sociais — foi a graduação que completei. Depois eu fui fazer pós-graduação em Filosofia. Sempre gostei de ler, mas pra chegar na literatura foi um caminho tortuoso. Só passei a dar aula de literatura há doze, treze anos, quando entrei na USP; até então, quando eu estava na PUC, eu dei aula nos cursos de Jornalismo e de Filosofia. O erotismo e a literatura erótica aparecem pra mim no final da minha graduação nas ciências sociais; até então eu me interessava muito por antropologia. Fiz graduação um pouco mais velha, beirando os 30 anos, porque, como boa espécime da geração 68, achava que tinha que experimentar de tudo, sair de casa cedo, com mochila nas costas, essa coisa toda. Sou muito grata de ter sido uma mulher dessa geração, que se recusou em casar com um mocinho lindo, etc. e tal.

Então, aos 29 anos de idade, fui fazer uma viagem para a África, África do oeste, fui conhecer o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim, uma loucura, dois, quase três meses viajando com a minha irmã. E aquela viagem transtornou a minha paisagem mental, e aí eu falei: “eu quero estudar antropologia”, e fui fazer graduação em ciências sociais. Embora até hoje eu ame antropologia, na época comecei a me interessar pela filosofia. Foi quando conheci o Renato Janine Ribeiro, que viria a ser meu orientador no mestrado e no doutorado; por volta de 1984, ele estava defendendo o doutorado e ministrava cursos incríveis sobre As mil e uma noites, sobre Stendhal, e sobre literatura dos séculos XVIII, XIX.

Paralelamente, nesse momento, eu passei a integrar o movimento feminista aqui em São Paulo, num grupo chamado Nós Mulheres, que era muito legal. E uma das coisas que a gente fazia como atividade era ler literatura, a começar por Madame Bovary. Estava então estudando antropologia na USP, participando do feminismo, que já chamava para essas questões do sexo (a palavra gênero a gente não usava na época) e assistindo aos cursos do Renato na Filosofia. Foi nesse momento que conheci o Caio Graco Prado, da editora Brasiliense, que estava começando a coleção Primeiros Passos e me convidou pra escrever um livrinho chamado O que é pornografia.

Escrevi o livro com a Sandra Lapeiz, uma amiga querida, e com isso eu estava dando não só meus primeiros passos como também um grande passo, que iria definir minha vida intelectual. Isso porque continuo estudando a erótica literária até hoje, e até hoje eu quero saber o que é a pornografia… É o que o Henry Miller diz: “falar de obscenidade é tão difícil quanto falar de Deus, e a entrada nesse universo é também uma espécie de conversão”, ou seja, não é algo racional, você se converte. Você, Bruno, é um convertido, e isso eu entendi quando li a sua tese sobre o erotismo na obra de Vinícius de Morais.

Ora, no meu caso, foi justamente quando eu estava escrevendo O que é pornografia que bato com Sade. Não tem como estudar erotismo sem encontrar Sade no seu caminho. Eu lembro que arranjei um professor de francês que lia Sade comigo, ele morria de vergonha, e eu estava aprendendo tudo quanto é palavra obscena em francês… Aí foi aquela surpresa, aí eu me pergunto: “o que é isso?”. Quando terminei a graduação, fui procurar o Renato Janine Ribeiro e me tornei a primeira orientanda dele, estudando Sade, um autor quase desconhecido no Brasil. Isso coincidiu com um movimento internacional de interesse em Sade, quando se começou a publicar, estudar e traduzir a obra sadiana. Eu entendi que Sade era fundamental, e para mim é fundamental até hoje.

Então, você vê, minha trajetória passou pelo feminismo, pela filosofia (também por pensar a literatura pela filosofia), passou pela África, e tudo isso num momento em que tive uma filha, talvez o evento mais importante de todos. Foram vários eventos que me orientaram a um lugar… Enfim, o meu pensamento pousou num lugar absolutamente importante e turbulento, bem no meio de uma cratera de vulcão. Nessa altura, eu falei: “deixa eu conhecer então a matéria da lava”, que até hoje é a matéria que eu estudo.


B — O erotismo, do Bataille, é um dos livros da minha vida. Me fez pensar muita coisa, e uma delas — porque me acho uma pessoa muito religiosa, no sentido, digamos, secular até, ou desinstitucionalizado, porque não tenho nenhuma relação com instituições religiosas — é a relação que ele faz do sexo com o sagrado. O que disse o Henry Miller é também isso. O erotismo, o sexo, é o próprio mistério da vida, porque é também do sexo que nasce a gente. Queria saber qual foi o seu espanto com o Bataille.


E — Eu fui ler o Bataille quando comecei a trabalhar com Sade, ou seja, Bataille como intérprete de Sade. Logo, pela importância dele, pelas ideias, pelo impacto, eu li O erotismo, que teve sobre a minha pessoa um impacto imenso, e tem até hoje. Eu tenho uma relação com Bataille muito forte, às vezes eu brigo um pouco com o pensamento dele, acho que ele tem uma espécie de morbidez com a qual não me identifico — talvez eu seja uma pessoa mais solar do que ele, mas também é interessante que eu me fascine tanto por uma pessoa tão noturna. Então, tem ali algo que fica me convocando e a que eu resisto. Agora, conversando com você, eu acho que esse algo talvez seja a espiritualidade mesmo, porque esse campo é o meu recalcado, sabia? O recalcado é sempre difícil de se mexer.


B — Lendo sua entrevista no Cahiers, em algum momento você fala que existe um vínculo entre a necessidade carnal e a vida do espírito.

E — Eu acho assim: quando a gente fala da vida do espírito, da vida espiritual, eu acho que imediatamente a gente vai pensar num sentido religioso, seja ou não institucional, mas num sentido religioso ou em Deus. Mas a coisa que eu cultivo é a vida espiritual identificada com a vida intelectual, esse espaço que não é o da matéria e é muito misterioso. A matéria, para um ateu ou uma ateia como eu, é o que sustenta isso, mas isso não é matéria, entende? Então não posso admitir que só os religiosos reivindiquem a vida espiritual, eu reivindico também, eu vivo da vida espiritual. E ela é misteriosa. Quer dizer, eu acompanho até certo momento, mas eu não creio em Deus, em nenhum deus.

Eu não creio em Deus, mas eu tenho um montão de patuás, adoro, enfim, eu me identifico muito com rituais, isso é uma coisa muito batailliana também. Ontem mesmo um amigo meu escreveu dizendo que estava mal, eu já indiquei um banho de água com arruda, depois pipoca branca, e aí por diante. Inclusive, sou uma frequentadora bissexta do candomblé e adoro, porque com aquilo tudo vem a matéria, tem a comida, tem a pipoca, a água, a água sulfurosa, tem isso tudo com que eu me sinto bem; não só me sinto bem como eu sou uma pessoa que tendo a ficar transtornada com ritual. Eu já dei umas desmaiadas em ritual de candomblé e eu falo “mas será que…”. Agora, se você pedir pra eu preencher o formulário, eu vou botar que eu sou ateia, entendeu?

O Hans Bellmer, o artista plástico da geração surrealista, dizia: “o que me incomoda em Bataille é esse Deus morto”. Eu acho incrível essa frase. Quer dizer, Bataille tem esse deus, ele nomeia, ele traz o significante, e, nesse momento, eu chego junto com a transcendência, mas Deus, eu tenho dificuldade. Até, talvez, pela banalização de Deus nos dias de hoje.

B — Eu posso dizer com convicção que sou religioso, mas nunca pensei isso de forma monoteísta, em Deus, eu penso sempre a partir da imanência, do que existe e que a gente pode pegar, daí que eu gosto tanto do Bataille, adoro aquela coisa do baixo materialismo… Mas deixa eu te perguntar. Eu li recentemente A história de O, e tem uma coisa que me inquietou no livro. Até conversei com você sobre isso rapidamente quando nos encontramos no Rio. É o seguinte: existe uma espécie de servidão sexual voluntária de O, que, enquanto ela experimentava, entre as paredes do confinamento, a submissão e a humilhação, quando não estava ali, mas de volta à sua vida cotidiana, ela me passava, sobretudo em relação à outra personagem mulher, que era neófita naquele ritual, ela me passava uma sensação de soberania, uma espécie de integridade, justamente porque tinha se submetido sexualmente ao capricho daqueles homens. É como se, pelo fato dela ter vivido, de forma desassombrada, experiências sexuais radicais a que frequentemente a maioria das pessoas é privada, pois recalcam ou sublimam seus desejos, isto é, não os vivem efetivamente, é como se ela tivesse alcançado uma sublime indiferença, um bem-estar psíquico a que estou chamando de soberania. O que é perturbador para mim nesse livro é o fato dessa soberania advir justamente de uma submissão voluntária.

E — Eu acho essa questão bem perturbadora também. Sempre penso que, quando a gente está falando de sexo, não sei se isso vale pra tudo na vida, mas quando a gente está falando de sexo, o vivido e o psíquico estão absolutamente juntos, eles são inseparáveis. Enquanto experiência individual, entende? Claro que é diferente você ler um livro sobre sexo e ter a sua vida sexual. Mas a tua vivência, tua experiência do sexo, que é totalmente corporal, é sempre uma vivência psíquica também, no ato. Até porque eu acho que não existe uma vivência sexual que não compreenda uma fantasia, ou várias. A mais reles, a mais chula, a mais imediata, sempre tem algo de fantasia, de psíquico, já ali.

Eu acho que a importância da sexualidade é essa. Para os dois grandes formuladores modernos da vida sexual, que são Freud e Sade, é isso que os dois dizem. Não por acaso, eles são contemporâneos. Digo isso porque a obra do Sade também é descoberta no século XX, quando Freud está escrevendo; então, para mim, são os dois grandes formuladores ali juntos.

A situação da personagem O é uma situação extrema de despossessão. Ela é mesmo, na literatura, a personagem que chega a um limite de despossessão e de indiferença, que é a palavra que você usou. É uma ascese que passa pelo corpo. É como se ela fosse completamente despossuída também desse campo psíquico, mas, na verdade, aquilo é a fantasia dela também. Ela está o tempo inteiro vivendo a fantasia desses outros que vão, digamos assim, possuindo o seu corpo. Essa fantasia de ser violentado pelo outro, pelo corpo do outro — que demanda cuidado quando a gente fala, porque não é um elogio à violência, é um outro plano, até porque estamos aqui no domínio da arte, da literatura.

É importante a gente pensar esses casos extremos — como o da História de O, da literatura inteira de Sade, da História do olho, de Bataille, d’O caderno rosa de Lori Lamby, da Hilda Hilst — esse feixe de questões que a gente está abordando até onde dá, e esse “até onde dá” é justamente o que coincide com a coisa que te inquieta, e a mim também, que é um mistério. Aí você está na escuridão, aí é onde chega a escuridão. E aí é o que importa à Clarice Lispector: é “a escuridão na escuridão”.

O pensador iluminista da Enciclopédia de Diderot, que Sade cita, assim define o filósofo: “il marche la nuit, mais il est précédé d’un flambeau” [“ele caminha à noite, mas é precedido por uma tocha”]. Mas tem um momento em que a tocha apaga. E quando a tocha apaga, você entra no universo da Clarice Lispector, que é essa escuridão que você só pode conhecer na própria escuridão; dentro dela, não há esclarecimento, não há iluminismo possível.

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Atenção, este texto traz spoilers.

Quando li pela primeira vez História do olho, de Georges Bataille, fiquei impressionada com sua potência imagética. O livro é um convite a fabulações visuais. E, como numa sequência de fotografias ou cenas em movimento, as imagens se formaram em minha mente para nunca mais sair. Estavam lá, em sua maioria coloridas, algumas em preto e branco, borradas, granuladas. Havia de tudo. Todas fotográficas. 

Esse é um aspecto interessante a ser pensado. Afinal, eu não havia imaginado pintura ou desenho, mas fotografias. Obviamente não há resposta única para minha inclinação; a subjetividade de cada leitor oferece seus próprios recursos para fantasiar as cenas narradas. Ainda assim, há algo do dispositivo da fotografia que convém levarmos em consideração: ele pode nos oferecer uma dimensão de realidade — por mais que esta seja uma ideia questionável, bem como seria confiar na veracidade de História do olho.

A partir de algumas escolhas, conscientes e inconscientes, que compõem minhas fotografias mentais (e sem a pretensão de uma análise literária), proponho associações que relacionam as duas linguagens, literatura e fotografia. É certo, cada leitor tem seu próprio imaginário, e Bataille, através de seu livro, soube brilhantemente evocar fantasias. Inclusive as minhas, enquanto fotógrafa.

( * )

As imagens de História do olho oferecem um radicalismo para a imaginação. Aqui, não me refiro a uma dimensão fantástica no sentido de objetos e seres cujas formas são desconhecidas. Muito pelo contrário. De maneira geral, os elementos descritos no livro nos são incrivelmente familiares: leite, armário, mijo, ovos. E, para mim, esse é um trunfo. Durante a leitura, somos surpreendidos pela naturalidade da maioria de suas imagens. Lá estão elas, livres e estranhamente naturais. 

Efeito similar pode ser causado por algumas fotografias (tomadas as devidas particularidades que cada linguagem oferece), ao tirarem vantagem da qualidade de verossimilhança que carregam, ou seja, de sua capacidade de transmitir uma sensação de “verdade”. Para entender melhor onde quero chegar, façamos um breve resgate histórico: por um viés exclusivamente físico, poderíamos pensar a imagem fotográfica como uma impressão luminosa, capturada a partir de um objeto e congelada sobre um suporte. Ou seja, a luz emanada pelos elementos de uma cena é capturada pela câmera fotográfica, transformando aquele instante em uma imagem. Essa relação técnica fez parte do entendimento do que é fotografia e contribuiu para a construção de uma espécie de “verdade” que ela carrega: o registro de um instante que existiu. 

A imagem fotográfica, no entanto, é muito mais que isso. Há uma complexidade de elementos, escolhas, recursos que compõem a visualidade final e de que não trataremos neste momento. Nos limitaremos aqui a pensar na sensação mencionada, algo como “aquilo existiu, aquilo estava lá, porque estou vendo o seu registro”, que uma fotografia pode oferecer, mesmo que, na prática, sua construção não funcione exatamente assim. Inclusive no recorte de uma vida cotidiana atravessada por IA, fake news e deep fakes, a educação imagética e tecnológica se faz urgente. 

Para o mundo ficcional, no entanto, essa relação com o palpável pode funcionar lindamente. A imaginação que flerta com a realidade não poderia ser mais erótica. Parece que aconteceu. Será que aconteceu? Deve ter acontecido. Aconteceu. 

Retomo então o fio da meada: o tom de naturalidade com que os fatos (nem sempre banais) são narrados no livro é tamanho que a imaginação cede, se lambuza, sem tempo para resistir moralmente. Bataille brinca com nossa capacidade imagética, favorecendo a construção dessas “imagens fotográficas” ao oferecer elementos prosaicos em situações factíveis: “A partir dessa época, Simone adquiriu a mania de quebrar ovos com o cu” — abriria o capítulo “O armário normando”. Tenho a sensação de que, transpondo para o mundo da fotografia, o mesmo artifício seria o que faz nos entregarmos a uma imagem, flertando com o que de real aquilo poderia ter, afinal, a estamos vendo. 

“Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite.”

Colorida, tons suaves quase pastéis, ar matinal. Será o leite? Não importa, as manhãs são sensuais por si só. A atmosfera me lembra o trabalho de Rinko Kawauchi, fotógrafa japonesa cujas imagens, mesmo as noturnas, costumam oferecer brandura na cor. Porém, diferentemente da artista, que com frequência brinca com texturas, nesta “fotografia” tudo é muito definido, em foco, sem flair ou contraluz, contribuindo para a concretude daquilo que vemos: a bunda de Simone mergulhada no leite. A imagem é serena, contrapondo-se ao gesto impetuoso da personagem. Nada daquele ambiente sugere; Simone, sim. Somos surpreendidos pelo ato que se realiza diante dos nossos olhos, sem rodeios. Seu vestido claro, feito de algodão fino e mole, está suspenso em suas mãos, enrolado pouco abaixo da cintura. Em minha fabulação imagética, percebo que sempre visualizei o leite numa tigela. No entanto, não há uma no texto, poderia ser um prato. O leite transborda, vejo uma poça dele no chão. O ruído da casa cessa, acompanhando nossa falta de ar. O olhar de Simone me desafia, o clique é feito.

“Aconteceu, de repente, uma coisa louca: um ruído de água seguido do aparecimento de um fio de líquido, que começou a escorrer por baixo da porta do móvel.”

O trecho se encontra também no capítulo “O armário normando”. Quem está dentro do armário é Marcela, personagem que perturba eroticamente o narrador e Simone. Mais uma vez, percebo o quanto minha imaginação preencheu visualmente todos os espaços do texto. O móvel nunca foi descrito, ainda que eu saiba exatamente como ele é: estreito e baixo apesar de sua altura maior que a largura, duas portas ornamentadas por uma moldura em alto relevo, pés curtos unidos por um arco, fechadura de metal envelhecido. Esta também é uma “fotografia” colorida. A madeira do assoalho se aproxima do tom dourado escuro do armário. A luz é baixa e quente, unificando a cor do enquadramento do quarto. Na apatia da regularidade cenográfica, um destaque: o líquido que escorre pela porta e pinga, reluz.

Na cena descrita no livro, não vemos Marcela, mesmo que possamos enxergá-la corada, entre o prazer e a agonia. Já nos lembraria Philipe Dubois: “[…] o que uma fotografia não mostra é tão importante quanto o que ela revela”. Essa compreensão serve também para o texto, a pintura, a escultura, o jogo erótico. Não ver autoriza ver de um tudo. Aquilo que não sabemos, preenchemos. A partir da porta fechada, fantasiamos. 

“Tínhamos pulado o muro e nos encontrávamos naquele parque onde o vento forte agitava as árvores, quando vimos uma janela abrir-se e uma sombra amarrar firmemente um lençol às grades […] no meio do lençol, que se estendia ao vento com um ruído estridente, havia uma grande mancha molhada que se tornou transparente ao ser atravessada pela luz da lua.”

Não há dúvidas, esta é uma cena em preto e branco, granulada, e o lençol é uma mancha ao vento. Nela, há algo de Antoine D’Agata, fotógrafo francês cujo borrão das imagens sugere monstruosidade e prazer. O branco do lençol se destaca entre os tantos tons de cinza que compõem a imagem: as árvores ao redor, a edificação junto da janela gradeada que sustenta o lençol, o céu escuro que envelopa o quadro fotográfico. A baixa velocidade do clique faz do lençol um vulto branco, um fantasma reluzente em oposição aos demais elementos que vemos. 

Diferentemente da maioria das cenas do livro, neste caso, as características técnicas de minha fotografia mental contribuem para uma imersão no fantástico: pouca definição, ausência de cor, objetos borrados, grão. Seus elementos oferecem ao olhar uma atmosfera distante daquilo que entendemos como verossimilhança, nos afasta de uma dimensão com a realidade e nos convida a nos aproximar da pintura ou do desenho. O mistério é ampliado a partir dessas escolhas visuais. Trata-se de uma tentativa de dialogar com Bataille, que, neste trecho, também convidou a um universo incrédulo e improvável, em que é possível ver a mancha molhada de um lençol que sacode ao vento através da luz da lua.

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A música, em suas diferentes formas, é um poderoso instrumento de expressão social. Ela reflete as crenças, os valores, os costumes e os desafios de cada tempo e espaço, servindo como um espelho da sociedade em que é criada, e através dela podemos tecer diferentes leituras sobre a história, as angústias e os desejos da humanidade. A música — e a musicalidade enquanto expressão sensível — pode nos ajudar a entender como pensam, sentem e se relacionam os indivíduos, embalando amores, gozos, dores, afetos e tensões sociopolíticas.

Roda de samba na Lapa, Heitor dos Prazeres (1965).

Uma tese interessante para pensar musicalidade e linguagens cifradas é a de que a dita cultura do duplo sentido no Brasil, tão presente em nossa linguagem e expressões artísticas, tem suas raízes nos processos de escravização e na chegada das populações africanas no Brasil. Em um contexto de opressão e censura, a comunicação velada era um instrumento de resistência, permitindo aos escravizados driblar a vigilância e expressar seus sentimentos e ideias sem represálias.

O século XVIII foi marcado por uma efervescência musical, com o surgimento de novos estilos que conquistaram o público popular. A ascensão da burguesia e a crescente urbanização impulsionaram a demanda por entretenimentos mais acessíveis, que pudessem ser apreciados em ambientes domésticos ou em pequenos espaços públicos. Nesse contexto, surge a moda portuguesa. No Brasil, a moda também se desenvolveu, com características próprias que a distinguiam da versão portuguesa. Domingos Caldas Barbosa, um talento “mestiço”, educado em colégios jesuítas, foi um dos grandes nomes desse movimento.

Caldas Barbosa absorveu da cultura popular carioca um rico repertório musical, incorporando-o à sua arte. Em Portugal, ele foi aclamado por seus dotes artísticos, mas também enfrentou críticas e repulsa. As letras da modinha brasileira abordavam o amor de forma mais sensual e explícita, com insinuações e requebros que encantavam e escandalizavam ao mesmo tempo.

Dando um salto no tempo, o século XX presenciou uma revolução musical impulsionada pelo rádio. A música podia então ser apreciada por um público amplo e diverso, transcendendo fronteiras nacionais e continentais. Essa democratização moldou a experiência sonora do século XX de diversas maneiras.

Assim como nas modinhas do século XVIII, o século XX também trouxe os desejos do corpo e as genialidades da mente em forma de música. Um exemplo disso são as cançonetas, gênero musical marcado pela descontração e, muitas vezes, pelo duplo sentido. Isso se vê na cançoneta Boceta de rapé, de Mario Pinheiro, datada entre 1904 e 1906, na qual se canta:

“O que é que aparece
Raspada, seu compadre?
Ora, ora, ora
O que é que aparece raspada
A boceta de vovó
Quando aparece
Raspada a boceta de vovó
Homem, vocês inventam
Cada coisa (haha)
Vocês são danados, diabo!”

A boceta seria uma pequena caixa redonda, oval e alongada, usada para guardar diversos objetos e/ou coisas. No caso da cançoneta, a boceta guardaria rapé, extrato de tabaco em pó, muito usado para liberação das vias nasais. Porém, na linguagem popular, o termo também se refere ao órgão sexual cisgênero feminino. A brincadeira entre as “bocetas” no início do século passado revela que talvez o conservadorismo seja um fenômeno mais contemporâneo do que costumamos pensar.

Na década de 1920, o Brasil vivia uma busca incessante por uma voz artística própria. Foi nesse contexto efervescente que o teatro de revista encontrou seu “tom”, assumindo a forma brasileira que o consagraria. Ele se tornou um caldeirão cultural, onde a música, a dança, a sátira política e o humor se entrelaçavam em um espetáculo único. As vedetes, figuras emblemáticas desse gênero, brilhavam com figurinos exuberantes e carisma contagiante, enquanto o humor irreverente e as críticas sociais afiadas divertiam e provocavam o público. A música era a alma do teatro de revista. Através de sambas, marchinhas e outros ritmos brasileiros, as canções retratavam a vida cotidiana, as mazelas sociais e as alegrias do povo. Compositores talentosos como Noel Rosa e Ataulfo Alves eternizaram suas composições nesse palco.

Entre os grandes nomes da revista brasileira, Arthur Azevedo se destaca como um dos mais influentes. Em A fantasia (1896), ele define o gênero com uma receita picante:

“Pimenta sim, muita pimenta
E quatro, ou cinco, ou seis lundus,
Chalaças velhas, bolorentas,
Pernas à mostra e seios nus”

O humor irreverente e as falas de duplo sentido eram armas poderosas para driblar a censura e provocar o riso. Canções “apimentadas” e hinos picarescos completavam a festa, celebrando a alegria e a liberdade de expressão. Ou seja, o teatro de revista se apresentava como um caleidoscópio da sociedade brasileira, com seus vícios, volúpias, hipocrisias e costumes expostos à luz da sátira.

As marchinhas de carnaval também revelam espaços de debate amplo sobre erotismo e sexualidade. Ao longo do tempo, elas acompanharam mudanças nos costumes e valores da sociedade brasileira. As letras, que antes eram mais veladas e sutis, tornaram-se mais explícitas e diretas, abordando temas como o sexo casual, o uso de preservativos e a igualdade de gênero. Quem nunca ouviu que “a pipa do vovô não sobe mais”? Mesmo com muitas ressalvas e contradições, havia permissão para a ousadia no contexto do carnaval.

Nesse sentido, a musicalidade nordestina se destaca. Genival Lacerda, natural de Campina Grande, na Paraíba, é um dos maiores nomes da música de duplo sentido no Brasil. Com seu estilo caricatural, marcado por vestes espalhafatosas e a famosa dança “sensual”, ele influenciou artistas como Reginaldo Rossi e Falcão. Em 1975, Genival e João Gonçalves lançaram o forró Severina Xique-Xique, que se tornou um marco do gênero. A letra, mais explícita do que as marchinhas da época, mas ainda ambígua, tece um emaranhado de sugestões sobre a tal “butique” da protagonista.

Em suma, a música não é apenas uma forma de entretenimento ou arte; é um reflexo profundo da sociedade, uma linguagem que transcende o tempo e o espaço para expressar valores e desafios. Através dela, podemos entender não apenas como as pessoas se relacionam entre si, mas também como se criam suas mentalidades e costumes. As expressões artísticas de duplo sentido mencionadas, desde as modinhas do século XVIII até os forrós de Genival Lacerda, nos mostram que a ousadia e a sátira sempre foram formas de desafiar normas e tabus.

Samba, o dono do corpo

O Samba — assim, com “S” maiúsculo — é um estado de espírito, e é também um ser tecnológico ancestral africano que nos conecta e está para além do entendimento humano. Assim, podemos nos conectar com esse estado de espírito de diferentes formas. Uma delas é a partir dos afetos, como os eróticos ou sexuais. Essa ligação se dá de formas não óbvias. Muito longe dos estereótipos ligados à hiperssexualização de pessoas negras — aquelas que intelectualmente construíram o samba —, essa conexão tem muito mais a ver com linguagem, afeto, ritmo e inventividade.

Assim como o jongo, a capoeira e diferentes musicalidades de origem africana, o samba pode funcionar como ferramenta de comunicação. Regido por Exu no sentido de falas, escutas, aberturas e caminhos, as musicalidades negras permitem que se jogue — com as palavras, com o tempo, com a vida — ao mesmo tempo em que se canta e dança. Samba-se e tramam-se lavantes. Samba-se e tecem-se romances. Samba-se e forra-se a cama onde se deitam volúpias, desejos e paixões.

No palco do samba, o corpo é protagonista. Seja o corpo enquanto território de Exu — segundo o intelectual Muniz Sodré, falar em “dono do corpo” é outra forma de referir-se a Exu —, seja o corpo enquanto plataforma em que se sofrem opressões e ao mesmo tempo produzem-se prazeres.

Composto por Sinhô e gravado em 1928, o samba Jura ilustra bem essa possibilidade de ler e sentir o samba:

“Daí então
Dar-te eu irei
O beijo puro
Da catedral do amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para fugirmos
Das aflições da dor”

A ousadia de articular imagens ligadas à religiosidade cristã — que muitas vezes foi uma das responsáveis por processos de repressão e castração afetiva e sexual — com a narração de um ato sexual de forma bela e sutil revela a capacidade do samba de ser uma esteira — cadenciada — para os afetos. Muito mais do que uma igreja, a “catedral do amor” pode ser interpretada como uma porta para o prazer e para o gozo — feminino.

Em O espírito da intimidade, Sobonfu Somé traz reflexões importantes sobre relações, intimidade e comunidade pensadas a partir da população negra. Segundo Somé, “o povo Dagara não tem uma palavra específica para se referir ao sexo. Expressamos o conceito de sexo como uma viagem com alguém. A pessoa não quer fazer sexo com outra; ela quer ir a algum lugar. Normalmente esse lugar é desconhecido para os dois.“

Seguiremos com Sobonfu, nesta viagem. Toda viagem necessita de rituais e de ritmo para seu percurso. O samba e o sexo também. No sentido dos rituais, é necessário “preparar a canoa antes de entrar no mar”. Os rituais não são receitas de bolo. No samba e no sexo, eles são mutáveis a cada tempo, espaço e necessidade. Em ambos ocorrem trocas de energias — entre presenças no plano terreno e em outros planos, e para isso é importante preparar-se. É necessário “afinar” os instrumentos — musicais, espirituais, corporais — para seguir nessa viagem.

Assim como o samba, o sexo e o romance têm um ou vários andamentos. O partido alto, por exemplo, tem um andamento mais acelerado. Numa roda de samba ou de sexo, começar com um “vai lá, vai lá” pode atropelar o fluxo natural do processo. É importante dar tempo para que cada nota, gosto, cheiro seja sentido e saboreado. No compasso inicial dessa viagem, o clássico Deixa eu te amar, datado de 1984 e composto por Agepê, pode ajudar a embarcar:

“Quero saciar a minha sede
No desejo da paixão que me alucina
Vou me embrenhar em densa mata só porque
Existe uma cascata que tem água cristalina
Aí, então, vou te amar com sede
Na relva, na rede, onde você quiser
Quero te pegar no colo
Te deitar no solo e te fazer mulher.”

Esse mergulho sutil e intenso pode abrir caminhos para uma viagem afetiva e sexual em que o veículo é o samba. Nele, este ser supremo, há uma síncopa interativa que existe nas musicalidades africanas e que não se sabe exatamente onde está. E é o que faz arrepiar, sentir, rir e chorar. É onde mora o mistério do samba.

Em Samba, o dono do corpo, Muniz Sodré afirma:

“Ritmo é a organização do tempo do som, aliás, uma forma temporal sintética, que resulta da arte de combinar as durações (tempo capturado) segundo convenções determinadas. Enquanto maneira de pensar a duração, o ritmo musical implica uma forma de inteligibilidade do mundo, capaz de levar o indivíduo a sentir, constituindo o tempo, como se constitui a consciência.“

Dentro de uma lógica musical, o samba é um ritmo binário. Isso significa simplesmente que o tempo será dividido em dois (ou em múltiplos de dois). O ritmo binário é composto de duas batidas. O que também costuma ser binário são os movimentos de uma relação sexual. Senta-se em dois tempos. Chupa-se em dois tempos. Faz-se sexo — e, por que não, amor — no mesmo ritmo em que se faz samba. E voltamos à síncopa, que não se sabe de onde vem e nem onde está, mas que abre um terreno vasto para a expressão de diversas emoções, como alegria, tristeza, saudade, amor e desejo.

A roda de samba, a sexualidade e as tensões sociais

Se no carnaval observa-se um passaporte carimbado para o “brincar” em suas diferentes possibilidades, a roda de samba parece impor um ar mais sério. Em contrapartida, é essa mesma roda que faz girar uma série de energias. Nela gira ancestralidade e fundamento, mas também paquera e tesão, uma vez que a troca de afeto é inerente ao ser humano. E o samba pode ser palco para isso, assim como pode ser palco para que se extravasem desejos reprimidos ou mesmo condenados pela moralidade. Em 1977, Leci Brandão compôs e gravou a canção Ombro amigo:

“Você vive se escondendo
Sempre respondendo
Com certo temor
Eu sei que as pessoas lhe agridem
E até mesmo proíbem
Sua forma de amor
E você tem que ir pra boate
Pra bater um papo
Ou desabafar
E quando a saudade lhe bate
Surge um ombro amigo
Pra você chorar
Num dia sem tal covardia
Você poderá com seu amor sair
Agora ainda não é hora
De você, amigo, poder assumir
Por isso tem que vir pra boate
Pra bater um papo
Ou desabafar
E quando a saudade lhe bate
Surge um ombro amigo
Pra você chorar”

A canção fala abertamente sobre “uma forma de amor” reprimida pela sociedade. A canção Ombro amigo, que, de forma explícita, oferece apoio àqueles que enfrentam o desafio de aceitar sua homossexualidade, revela também a capacidade política do samba — e de Leci — de cantar os afetos não pautados pela heteronormatividade ainda dentro de um contexto nacional de ditadura militar.

Em 1976, Leci lançou Questão de gosto, seu primeiro álbum por uma grande gravadora. O disco incluiu a faixa As pessoas e eles, considerada uma das primeiras canções brasileiras a abordar abertamente o tema da homossexualidade. Com versos como “As pessoas não entendem / Porque eles se assumiram / Simplesmente porque eles descobriram / Uma verdade que elas proíbem”, a música desafiava o preconceito e a invisibilidade impostos à comunidade LGBTQIA+.

Ainda na esteira das práticas de afeto perseguidas ou reprimidas pela sociedade cis-heteronormativa e baseada no patriarcado e na monogamia, em 2002, Renato César e Toninho Branco compõem Duas paixões, conhecida na interpretação do grupo Bokaloka:

Recorte do jornal Lampião da Esquina. Novembro de 1978.

“Adoro a minha namorada
Que é minha amiga e eu a conheço bem
Mas desejo uma morena linda
Que já faz parte da minha vida
Eu sempre digo que a amo, meu bem
E eu nunca digo isso pra ninguém
Mas se estou com minha namorada
Eu digo também
Pra ter as duas paixões, não tem jeito
Só tendo dois corações no meu peito
Mas eu só tenho um
Pra suportar esse amor incomum”

A canção narra a história de um homem dividido entre duas mulheres, ambas com qualidades distintas. Na sabedoria popular, ficou conhecida como “hino da infidelidade”. Mas aqui, um pouco mais desapegados dos julgamentos morais — sem deixar de lado o olhar cuidadoso sobre as hierarquias de gênero geralmente impostas às mulheres —, podemos lançar um outro olhar. A música revela um dilema imposto pela monogamia, a impossibilidade de amar ou se relacionar afetivo-sexualmente com mais de uma pessoa. Os amores múltiplos geram tabus, repressões e incompreensões na sociedade mais tradicional. E, uma vez que o processo de composição parte da mola das emoções, tem sido cantado e vivido nos sambas.

Em 1989, Jorge Aragão e Jotabê compõem Logo agora:

“Agora
Justamente agora
Agora que eu penso em ir embora você me sorri
Me sorri
Passou a noite inteira
Com seu amor do lado
Fingindo um bocado
Mas, hoje em dia
Os amores são assim
Ele foi embora
Nem faz uma hora
Pensando, quem sabe
Nos beijos que você lhe deu
Tolo
Pensou que beijar sua boca
Foi consolo
Despertou o instinto da fêmea
E agora quer se deixar abater
Se sentir caçada
Dominada até desfalecer
Agora entendo o sorriso
Ele é que não entendeu
Se não fez amor com você
Faço eu
Eu também
Agora entendo o sorriso
Ele é que não entendeu
Se não fez amor com você
Faço eu”

Se a possibilidade de viver amores múltiplos e de muitas vezes vilipendiar as estruturas monogâmicas é cantada por homens, há também exemplos de relações em que as mulheres priorizam seu prazer em detrimento das estruturas sociais.

O samba é um organismo vivo dentro da sociedade e tende a caminhar junto com os movimentos desta. Assim, como há temas e formas de se relacionar que são importantes de serem cantadas e contadas, há de se pensar também que não há mais espaço para algumas outras relações — na música a na vida.

Em 1932, Noel Rosa apresentou Mulher indigesta:

“E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Mas que mulher indigesta, indigesta
Merece um tijolo na testa”

Posteriormente, em 1998, o grupo Exaltasamba lança Cartão postal:

“Como sempre distraída
Te filmei você não viu
É a coisa mais bonita
O seu corpo de perfil
Pode parecer bobagem
Um impulso infantil
Meu amor não é chantagem
Mas você me seduziu
Te proponho amor
Um trato que tal se render
Eu te dou o seu retrato
Mas quero você
Você na foto toda nua
Num banho de lua
Meu cartão postal
Meu corpo deu sinal
Deu sinal, deu sinal
O meu desejo continua
Desejando a sua boca sensual
Meu sonho real”

Sem nenhuma intenção de “cancelamento”, há de se observar que entre Noel Rosa e Exaltasamba há similaridades no sentido de violências ligadas a gênero e sexualidade. Ambas as letras acabam por expor ou reproduzir comportamentos presentes em nossa sociedade, em que a maior parte das vítimas desse tipo de violência são mulheres e pessoas LGBTQIA+. Se em Noel Rosa a violência é física e explícita, com “Exalta” a violência se atualiza, num crime conhecido como “revenge porn”, ou pornografia de vingança, que consiste na exposição de imagens íntimas ou na realização de chantagens tendo este material como barganha. No samba, e na sociedade como um todo, não pode mais haver espaço para isso. Se dizemos que o jongo é o pai do samba, quando falamos de maternidade, o samba pode ser imaginado como parido do ventre de uma mulher preta e gorda, uma imagem talvez aparentada com Tia Ciata. E esse matriarcado tem de ser honrado.

Assim, colocando um ponto e vírgula neste enredo, podemos observar que o “duplo sentido” é mais do que um mero artifício linguístico. Talvez ele não encontrasse um campo tão vasto em outros países. Aqui encontramos uma associação entre linguagem, cultura, comunicação não literal e construções sociais e políticas que propiciaram a criação epistemológica e musical de formas de expressão musicada, que “dizem sem dizer” e mesmo assim tocam onde tem de ser tocado.

Maxixe, lundu, modinha, samba revelam uma interface entre tecnologias de comunicação e levantes disruptivos no campo do prazer, criando caminhos dentro de uma perspectiva hegemônica e colonizadora de castração de desejos. Não sabemos se é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida, porém, pensando o samba como um imenso baobá, com diferentes galhos, um deles é da sexualidade. Portanto, o samba pode, sim, ser uma camada poética para falar de amor e sexo. Temos visto no samba pessoas mais dispostas a romper com o tradicional. E temos visto também, pessoas mais dispostas a amar.

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Texto de Jeanete Musatti
Fotos de Derek Fernandes

Tomar café na casa de alguém é um convite para conhecer profundamente essa pessoa. Nossa casa é a casca que nos protege do mundo. Ela é parte importante de nossa cultura particular, e reflete a maneira como enxergamos e gostaríamos de nos inserir no mundo.

Aqui, dividimos casas de pessoas que gostam de casa. Que têm suas casas vivas, cheias de objetos que contam a história de uma vida, sem um lugar perene em seus espaços.

Jeanete Musatti é artista plástica, paulistana, e nos recebeu com toda sua graça em seu sítio em Tietê, SP, em um dia de previsão de tormenta.

“A casa existe há cinquenta anos. Quando compramos o terreno, havia uma casinha de taipa, onde vivemos até a atual ficar pronta. Ao chegar, encontramos uma paineira centenária, dois pés de jabuticaba e uma plantação de café.

Depois, cultivamos um bosque de árvores e um pomar. A horta veio somente mais tarde, em um período em que uma epidemia de meningite nos fez viver com com as crianças durante cinco anos.

Entre idas e vindas, retornamos definitivamente à casa há quatro anos, durante a pandemia de covid-19. Reconheci, então, o valor de se ter uma casa no campo, que é a de habitar em um reino seguro, um universo vasto, profundo e ilimitado. Por muitas vezes, me sinto uma sonhadora de moradas, ao poder presenciar a mutação constante da natureza. Essa transformação me dá enorme prazer e é altamente inspiradora, influenciando diretamente no meu trabalho. A evolução do processo de um artista demanda precisamente isto: estar com o olhar sempre atento e constantemente disponível para aprender a viver — inclusive no caos.

O projeto da casa foi realizado pelo meu grande amigo José Pedro de Oliveira Costa, que também assina o paisagismo. Sou e serei sempre grata a ele pela dedicação colocada nesse espaço, que me permite estar tão integrada à natureza a ponto de poder observar no detalhe as cores esplênidas de cada florada,  completamente envolvida pelo barulho do silêncio.”

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Perder a cabeça

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Na milésima segunda noite,
Sherazade degolou o sultão.

— Antônio Carlos Secchin


Você me vira a cabeça
Me tira do sério

— Alcione

1.
A bíblia era meu livro preferido. Na verdade, era um dos poucos livros que tinha em casa quando criança. Folheando aquelas páginas finas, caí de amores por Judite, a mulher que me ensinou a cortar cabeças sem portar espada.

Judite decapitando Holofernes, Artemisia Gentileschi. 1614-1620. Óleo sobre tela.

2.
A ideia me veio durante uma aula sobre corpos impossíveis à luz da Acéphale, revista capitaneada por Georges Bataille, que circulou na França pré-guerra; o periódico reunia outros importantes intelectuais franceses da época, como Pierre Klossowski e André Masson.

O objeto da análise, naquela classe, era uma ilustração de Marx Ernst, que estampou os cinco volumes que circularam entre 1936 e 1939. Em formato de cruz, o desenho trazia um torso masculino com duas estrelas no lugar dos mamilos e uma caveira no lugar do pênis. Abertos os braços, a mão direita segurava um coração flamejante; a esquerda, um pequeno punhal. Os pés grandes estavam bem fincados no chão.

Embora chamasse atenção, eu não queria cuidar da ilustração, do movimento histórico ou da discussão existencial sobre o corpo deformado. No centro do meu interesse estava menos o objeto e mais o agente: quem teria decepado aquela cabeça?

Ao lembrar de outros acéfalos, busquei ver nas histórias também a figura feminina. Há o caso célebre da cabeça de São João Batista que Salomé exige em uma bandeja de prata. Há Medusa, que, por oposição, não era um corpo sem a cabeça, mas uma cabeça sem o corpo. E havia a Judite da minha infância, da minha primeira pátria.

3.
No episódio bíblico, o mundo estava em guerra — como sempre esteve. Um homem em particular, Holofernes, encarnava a figura do terror a mando de Nabucodonosor. Sob seu comando estavam cerca de 200 mil homens.

O desespero de reinos e províncias precede a aproximação desse corpo militar. Se não há adjetivos que os possam definir, os verbos do texto bíblico dão contorno às suas ações: tomar de assalto, saquear, penetrar, rapinar, arrasar, apossar-se, levar, passar a fio, queimar, cortar.

Ao contrário de cidades anteriores — que tentaram pegar em armas ou abrandar a fúria de Holofernes entregando tudo o que possuíam de mão beijada –, a Judeia se vale de certo privilégio geográfico para arriscar uma resistência passiva que consistia em estocar água e comida. A resposta do general segue linha parecida: com paciência, ele se organiza para matar o povo de sede e de fome. Matar sem golpe de espada, apenas cortando o acesso aos reservatórios.

Em desespero, um conselho formado por representantes políticos, administrativos e religiosos (bem definidos na imagem de homens e anciãos) se reúne no templo e vaticina: estarão mortos em cinco dias. Com a cidade sitiada, chegaram ao fim todos os recursos.

4.
Judite, jovem e viúva, tinha um plano que soava como um sacrifício. Sem laços familiares, marido ou filhos, ninguém choraria em cima de seu corpo se falhasse o planejado.

A ideia não era mirabolante.

Ela se comportaria como esperavam que uma mulher se comportasse: corpo cheiroso e enfeitado para festa, cabelo no lugar, pulseiras e anéis nos braços, brincos pendurados nas orelhas. Carregaria nada além de um pedaço da cozinha: bons vinhos, pães, queijos, grãos e figos. Consigo, seguiria outra mulher, não nomeada, sua criada.

Passos firmes, elas andam em direção à grande ameaça. Cruzam o cheiro, o barulho, as cantadas de 200 mil homens. Pulam por cima dos animais que os serviam. Atravessam o acampamento até a tenda do comandante — o cabeça do exército.

Diz a bíblia que, ao ver Judite, Holofernes fica preso no laço de seus olhos e nas doces palavras de seus lábios: ela lhe promete contar os segredos para conquistar a cidade ao fim de três dias.

Animado — excitado — não só com a notícia, mas com a presença daquela mulher, o general abaixa a guarda e lhe dá tenda, comida e passe livre para andar pelo acampamento com ordens explícitas de não a incomodarem.

Judite avança em seu plano. Eis a vanguarda doméstica.

5.
A partir deste ponto, testemunhamos a reversão não só da conquista, como da hierarquia.

Se, no início da história, a bíblia diz que nada era capaz de “abrandar a ferocidade do coração” de Holofernes, depois de conhecer Judite, já no fim do terceiro dia, este mesmo coração arde de paixão por ela. O general nem de longe percebe que obedece ao que está previsto na etimologia da própria palavra sedução: se + ducere, o que pode ser compreendido como “desviar alguém do caminho”.

Até agora, a palavra “conquista” estava confinada a um contexto bélico: o poder de Holofernes dizia respeito a um domínio geopolítico, que se manifestava por meio do discurso de ameaça e da prática violenta. Para Judite, o campo de batalha é outro, é o corpo; é por meio de Eros que ela atrai amorosamente o inimigo, conquista sua cabeça e, logo, a vitória real na guerra.

Anoitece. Há festa. As taças ficam mais leves quanto mais cheias de vinho. O general come do que Judite lhe dá. A sedução desativa os dispositivos de poder. São deixados a sós.

6.
A tela pode ser dividida em três diagonais.

Na diagonal inferior, vê-se o colchão duplo, de aparência macia, forrado com lençol branco, invadido por linhas de sangue (não foi na cama que tantas virgens sangraram?). O amassado do lençol se intensifica com o peso da cabeça do general em agonia e o movimento dos outros dois corpos.

As rugas da cama se duplicam no tecido azul do vestido de Judite, já na segunda diagonal. Os braços dela formam paralelas que delimitam a cena e colocam em destaque duas cabeças: a de Holofernes, embaixo, e a sua, em cima.

Os olhos do general parecem fitar o nada; a boca permanece aberta na intenção de um grito, como um bocejo eterno. O corpo tenta se defender em vão. Sobre o colchão, observamos um homem que morre pela própria espada – sua arma. Ele morre pela latência em seu falo — uma grossa lâmina.

Enquanto Judite porta um distinto tecido azul com detalhes dourados, o homem, embaixo dela, está nu, coberto apenas com lençóis a partir do peito.

O cabelo dela está preso em um coque alto, meio bagunçado. Uma mecha escapa pelo pescoço e cai sobre os ombros nus. O ombro esquerdo, mais à mostra, e a sombra que acompanha seu torso, atrás, indicam uma folga — talvez o vestido esteja semiaberto?

De mangas arregaçadas, Judite empunha com destreza a pesada arma. Não se pode ler em seu rosto resquícios de hesitação. É a representação do clímax que ela planejara dias antes. O seu gozo é vermelho cor de sangue e dá certo: o grande guerreiro já não é mais guerreiro, nem grande. A acefalia se aproxima dentro de um minuto ou dois.

Na terceira diagonal, o vestido vermelho da criada (cúmplice, companheira, amiga) funciona como uma continuação vertical do sangue. É no pescoço desta mulher que está a mão já fraca do general. A parte esquerda do rosto dessa personagem faz par com a face esquerda de Judite: metades sombrias.

Toda a cena se desenrola em um fundo escuro. É o suposto silêncio da alta madrugada.

Quando os soldados souberam que Holofernes tinha sido decapitado, ficaram desorientados. A cabeça é o domínio da razão e, ao perder o cabeça, perdem a guerra. Como recompensa, à jovem é oferecido o espólio de Holofernes: ouro, prata, tecidos, pedras caras. Judite, agora duas vezes viúva, acumula a herança de dois homens.

7.
É curioso perceber como as esferas que apontam a tradição do feminino estão presentes tanto na antiga história de Judite quanto nas pintoras que retrataram o episódio.

A tela aqui comentada é de 1620, e nela podem ser identificados elementos do barroco italiano. De autoria de Artemisia Gentileschi (1593-1653), filha de um pintor italiano tradicional, ela foi a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença, e dedicaria ao episódio outras duas versões.

Contemporânea a Artemisia, Lavínia Fontana (1552-1614) foi outra pintora de destaque que deu a Judite algumas versões. Lavinia, que pode ser situada entre o Maneirismo e o Barroco italiano, seria eleita, de forma inédita, para a Accademia di San Luca, de Roma. Reza a lenda que o marido é quem cuidava dos onze filhos para que ela seguisse carreira e sustentasse a casa. Elisabetta Sirani (1638-1665), que morreu subitamente aos 33 anos, escolhe pintar não apenas o momento da decapitação de Holofernes, dentro do quarto, mas a volta gloriosa de Judite com a cabeça em mãos, recebida por uma gente pálida e curiosa na praça da cidade.

Fazendo uma ponte entre os anos, Julia Kristeva (1941), no livro O gênio feminino, afirma que “o próximo século será feminino”. Mas talvez os séculos passados também tenham testemunhado essa genialidade a partir de elementos banais e, muitas vezes, domésticos: o corpo, a comida, a festa, a futilidade, uma amiga ao lado.

Esse conjunto, tido quase como uma “condição natural” da mulher, é a receita para cortar cabeças de forma intelectual e política, baseada no desejo, no segredo e na sedução.

É precisamente aí que cabeça e mãos se unem com finalidades levemente semelhantes: mãos para cortar cabeças, no caso de Judite; mãos para pintar o corte de cabeças, no caso de Gentileschi, Fontana e Sirani; mãos para escrever sobre pinturas que retratam cortes de cabeças, no meu caso, aqui e agora.

— Este texto é dedicado a Marília Rothier que me ensinou a ler, escrever e pesquisar.

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#48EróticaArquiteturaDesign

Arq erotica

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Alguns momentos privilegiados na arquitetura podem ser considerados eróticos. A fresta, que corrompe a continuidade do plano e anuncia uma intimidade que explode de dentro para fora, te convidando a penetrá-la com o olhar. Ou o grande salão vazio, sobre o qual se imagina todo tipo de atividade lúdica e libidinosa, tal qual o corpo deitado aguardando que o corpo ereto o fecunde, ação fálica por excelência. Ou então a mesa de pedra da cozinha, superfície lustrada desenhada pelos veios da terra, sobre a qual se estica a massa e debruçam-se os corpos quando vitimados pelo desejo que surge incontrolável no meio do tempo da cocção. A verdade é que todo e qualquer objeto e espaço podem abrigar o erótico.

Cruising Pavilion explora como o sexo está sempre latente ou silenciado na arquitetura. Foto de Louis De Belle na Bienal de Veneza.

Se duvidam, vamos fazer a prova pelo inverso. Vamos imaginar como seria uma arquitetura não erótica: uma caixa de concreto de piso a teto, com uma grande janela de vidro. Não há um sofá de couro, um tapete para aquecer os pés, um jogo de luzes para criar claros e escuros ou um quadro nas paredes para aludir à fantasia. Esse espaço anticorpóreo, indigesto, áspero, frio e tedioso não seria o compartimento ideal para o sadomasoquismo? Não seria o desconforto, agora televisionado através da janela que vira pano de vidro, um espetáculo ao acesso dos voyeurs que assistem o corpo agonizante? Não seria a janela, antes fonte de luz e vida, uma película frágil de separação que eviscera o corpo privado e o transforma em objeto de divertimento?

Daí conclui-se que o erótico, na arquitetura, não permite correlação direta entre forma e conteúdo. Um quarto recoberto de pelúcia rosa com buracos e dildos distribuídos pela parede não é, necessariamente, mais erótico que uma monótona sala de espera de dentista. Da mesma maneira, o excesso, tão associado àquilo que é voluptuoso e sexual, não caracteriza imediatamente uma arquitetura LGBTQIAP+, e muito menos o rigor plástico define um espaço másculo e racional. Essas correlações não são mais que processos históricos de fixação de valores sobre determinadas formas espaciais. O quarto de decoração estoica —cama, armário, poltrona — não é masculinista porque prescinde do excesso, mas porque a cultura definiu que o racional pertence ao âmbito do masculino e o irracional (excesso, ornamento, acumulação, emoção etc.), do feminino. E é nessa binariedade de qualidades do espaço que a arquitetura participa como dispositivo sexual. A tipificação do espaço é resultado de um processo histórico dado através da arquitetura.

Assim, poderíamos dizer que todo espaço arquitetônico é erótico. Recuperando a qualidade tátil da arquitetura da qual fala Walter Benjamin, é no ato desatento de circular pelo ambiente construído que nosso corpo o absorve. A arquitetura traz consigo sempre a dimensão corpórea do espaço. Seja o corpo abstrato, idealização clássica que constrói o lugar a partir do corpo perfeito, ou o corpo exterioridade, pura zona de contato, sistema de pele-sobre-pele, atrito por vezes violento, de existência do ser no mundo. Mas, em sendo sempre erótico, poderíamos realmente dizer que o arquiteto ou a arquiteta produz a dimensão erótica do espaço, ou esta estaria presente nas camadas profundas de seu ofício, inacessíveis a ele ou a ela mesmos?

Talvez seja na dimensão cotidiana do fazer arquitetônico, labor repetitivo, corriqueiro, estafante, que surja o mistério, a pulsão libidinal da vida. Como qualquer fazer humano, a arquitetura, nos maus dias, me é ingrata, relação tóxica. Mas, nos bons dias, eu e a arquitetura temos uma imensa tarde de lascívia, sob um eterno sol das cinco. O erótico no projetar diz respeito a dois momentos-chave que antecedem a edificação em si: a encomenda, interlocução inicial da arquitetura com o mundo, condição prévia de sua feitura, e, ato contínuo, a necessária reconexão da mente com a mão, ignição do ato criativo. A figura do gênio intempestivo do filme Vontade indômita (1949), a arrogância antissocial do designer em O homem ao lado (2009) ou mesmo o infinito vigor criativo de Ariadne no filme A origem (2010) não passam de ficções que não encontram reverberação no real. Todo gênio, por maior que seja, sempre trabalha com um universo de pessoas, equipes, indústrias, cronogramas, expectativas, etc. É impossível produzir arquitetura sozinho.

Projetar é sempre projetar para e com alguém. Ação coletiva, diplomática, entre cliente, empreiteira, loja de materiais, condomínio, cidade, etc. As determinantes materiais são o vento contra o qual ou em favor do qual se projeta. Mas nunca são suficientes para explicar a arquitetura. A criação luta a contrapelo para reimaginar o drama humano. E, em verdade, quanto mais essas disposições econômicas, sociais, culturais e políticas se transformam em fundo, e não figura, mais a intuição toma conta do processo criativo. As maiores obras são imaginadas no desconhecido, um desconhecido circunstanciado. É um caminhar no escuro, mas um escuro que é este escuro, e não aquele. Emudecer a materialidade do mundo e transformá-la na carne mesma do edifício que nos lançamos a projetar. Transformar o ato racional de análise no ato criativo de síntese, passando, ou melhor, gestando essa difícil contradição no corpo do arquiteto criador. Mais do que em qualquer outra arte, a arquitetura gera essa tensão fundante a partir da qual criador e criatura se mesclam. Ela não simplesmente reproduz suas condições de produção, mas produz ela mesma as possibilidades de uma nova existência. E, nesse processo irracional de racionalidade, nos reconectamos com o erótico da vida. Como algo que transborda o desenho e se projeta sobre nós, a arquitetura transmuta-se em desejo, imaginação e, encarnado, experiência do prazer. O que fazemos interpela o interlocutor a participar de seu próprio processo de ocupação e desfrute, completude, deciframento, constituindo uma relação dialógica de afeto, um diálogo amoroso.

Quanto à conexão entre pensamento e ação, mente e mão, cabe evocar a questão fundante da reflexividade da “mão que toca a outra mão” de que fala Merleau-Ponty. Nessa cena, torna-se quase impossível dissociar a mão que toca da mão que é tocada. Não existe mais o quiasma entre sujeito e objeto, sujeito e mundo. No caso da concepção cerebral que, via memória muscular da mão, desenha-se sobre o papel, estamos falando também de reflexividade, já que o grafite na folha só existe como fato material a partir da ação do corpo integral. O ato criativo é sempre um ato de retorno ao corpo que se dobra sobre si mesmo. O delírio é dissociação, mas o deleite é estar em completude, corpo-mundo. O desenho é então expressão desse regozijo, e não mera técnica de representação. Exprimir significa tornar pulsante essa conexão que temos desde crianças, mas que a vida nervosa na cidade capitalista faz divorciar-se do ser. Nesses raros momentos de conexão cérebro-muscular é que me deito, em riste, sol manso na pele, e gosto de ser arquiteto.

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A quem serve a invenção do pecado?

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A ideia de pecado permeia diferentes culturas e religiões ao longo da história humana. Apesar das variações nas definições e crenças específicas, a ideia central do pecado geralmente se refere a transgressões contra normas sociais, leis divinas ou princípios éticos. Discutir e – principalmente – questionar as origens e desdobramentos da ideia de pecado nas sociedades é fundamental para compreendermos aspectos da moralidade, do direito e das estruturas sociais.

Primeira missa no Brasil, Victor Meirelles. 1859-1861. Óleo sobre tela.

Em sociedades anteriores à era cristã, o conceito de pecado estava frequentemente ligado a tabus e crenças animistas. Ações que violassem a ordem considerada natural ou ofendessem os espíritos ancestrais eram vistas como pecaminosas e podiam trazer malefícios à comunidade. Com o advento das ditas “primeiras civilizações”, leis e códigos religiosos codificaram o comportamento moral, definindo quais ações eram consideradas pecaminosas e puníveis.

Analisando diferentes culturas de forma comparativa, podemos identificar alguns temas comuns relacionados ao pecado: a violação de regras ou normas sociais, como leis, costumes ou tabus, frequentemente vista como um ato pecaminoso; a noção de impureza, que consiste em ações que “contaminariam” a pureza física ou espiritual do indivíduo ou da comunidade; a ofensa, uma vez que o pecado também pode ser entendido como uma ofensa a uma divindade ou à ordem moral estabelecida; e a ideia de intenção, que estaria por trás da ação e também seria importante na determinação do pecado. Ações realizadas com má intenção são geralmente consideradas mais graves do que aquelas feitas por engano ou ignorância.

Porém, para além desses aspectos em comum, a ideia de pecado em diferentes sociedades encontra outro ponto de contato: a demonização de determinados corpos, grupos e comportamentos.

O ditado “não existe pecado do lado de baixo da linha do Equador” logo vem à mente quando discutimos essa noção. Ele apresenta um enigma que intriga e fascina. Alguns o interpretam como um reflexo da repressão sexual imposta pelas instituições religiosas, especialmente durante o período colonial. A Igreja Católica, com seus dogmas e costumes rígidos, teria sufocado a expressão natural da sexualidade, criando uma atmosfera de “ascetismo e moral dogmática”. Outros defendem a ideia de que ele celebra a liberdade e a naturalidade da sexualidade no Brasil. A miscigenação e a herança cultural indígena e africana teriam criado um ambiente mais permissivo, em que as diversas formas de expressão sexual são aceitas e incorporadas ao ethos nacional.

O dito popular não deve ser interpretado como uma verdade absoluta. O “pecado” é um conceito religioso subjetivo e varia de acordo com cada crença e cultura. No Brasil, como em qualquer outro lugar do mundo, existem diferentes níveis de religiosidade e moralidade, e, em nosso caso, deve-se adicionar uma camada densa, que foi basilar na construção da ideia de “pecado nos trópicos”: a colonização.

A ideia de pecado permeou a colonização e a escravidão de negros africanos — e posteriormente crioulos — e indígenas nas Américas, tecendo um manto de culpa e sofrimento que ainda hoje se faz sentir. Para os colonizadores europeus, imbuídos de uma visão etnocêntrica e religiosa, os povos nativos e africanos eram considerados “inferiores” e “pecadores”. Essa crença serviu como justificativa para a brutalidade da invasão e da exploração, legitimando a subjugação e a desumanização dos colonizados.

A crença na anarquia moral “abaixo do Equador” impulsionou aventureiros europeus do século XVI a cruzarem o mar em busca de um lugar livre das convenções do Velho Mundo. Guiados pela cobiça por poder, mas também pela fascinação pela transgressão, esses aventureiros desembarcaram nas Américas, onde seus desejos foram colocados em prática em forma de um expurgo colonial com vítimas muito bem definidas.

Desde o início da colonização, a narrativa do pecado original foi utilizada para justificar a dominação. Segundo essa visão, os povos nativos e africanos carregavam o fardo da culpa herdada de Adão e Eva, condenando-os à inferioridade e à servidão. Essa crença serviu para deslegitimar as culturas e a fé dos que foram colonizados, reforçando a ideia de que estes precisavam ser “salvos” pela fé cristã e pelos valores europeus.

A escravidão era vista como um castigo divino pelos pecados dos negros e indígenas. A brutalidade do sistema escravocrata, com seus castigos físicos, as humilhações e a subjugação psicológica e cultural, era justificada como uma forma de “purificação” e “redenção”. A desumanização dos escravizados se materializava a partir da coisificação desses indivíduos, uma vez que grande parte dos colonizadores os consideravam “coisas” sem alma, desprovidos de qualquer direito ou dignidade. Em Uma história do negro no Brasil, Wlamyra R. de Albuquerque e Walter Fraga Filho afirmam que:

Na ideia dos europeus, o tráfico era justificado como instrumento da missão evangelizadora dos infiéis africanos. O padre Antônio Vieira considerava o tráfico um “grande milagre” de Nossa Senhora do Rosário, pois, retirados da África pagã, os negros teriam chances de salvação da alma no Brasil católico.

O conhecimento sobre a organização social da colônia nos primeiros séculos é fragmentado. As principais fontes de informação são os relatos dos jesuítas e dos viajantes europeus. Essas narrativas, muitas vezes carregadas de preconceitos, retratam os indígenas como seres “ingênuos” e “selvagens”, necessitados da “salvação” e do “aculturamento” pelos colonizadores Assim, a Igreja Católica desempenhava um papel fundamental na perpetuação da ideia de pecado como justificativa para a colonização e a escravidão. Missionários atuavam como agentes de colonização, catequizando os povos nativos e africanos e impondo-lhes a fé cristã. A educação religiosa era utilizada para doutrinar os colonizados, inculcando-lhes as ideias de culpa e a submissão.

Ao contrário do que se possa imaginar, a demonização dos indígenas no período colonial não se baseava unicamente na crença de que eles eram adoradores do diabo. A visão predominante entre os jesuítas, como Cardim e Anchieta, era a de que os indígenas eram “pouco endemoniados” e, em sua maioria, praticavam uma “ingênua irreligiosidade”. Embora reconhecessem o uso da dita “feitiçaria” entre os indígenas, os jesuítas argumentavam que essa prática não era resultado de um pacto com o diabo, mas sim uma forma de lidar com doenças e outros problemas. Para eles, a falta de conhecimento sobre Deus tornava impossível a crença no diabo.

O que realmente inquietava os colonizadores era a aparente falta de leis e regras que regulassem a vida dos indígenas, especialmente no que diz respeito à sexualidade. A nudez, a poligamia e o “canibalismo” eram práticas que chocavam os valores europeus e reforçavam a visão do indígena como um ser “animalesco”, “selvagem” e “monstruoso”. A demonização dos indígenas era parte de um processo mais amplo de construção da alteridade, que visava justificar a dominação colonial. Ao negar aos indígenas a sua humanidade, os colonizadores se colocavam em uma posição de superioridade moral e religiosa, legitimando a conquista e a exploração dos seus territórios.

Primeira missa no Brasil, Victor Meirelles. 1859-1861. Óleo sobre tela.

O Brasil colonial foi palco de um intrincado jogo de poder entre a Coroa Portuguesa e a Igreja Católica. A Reforma Protestante, com seu desafio à hegemonia papal, impulsionou a Contrarreforma e a criação do Tribunal do Santo Ofício, conhecido como Inquisição. Essa instituição, com seus tentáculos espalhados por Portugal e seus domínios, buscava reprimir qualquer forma de heresia e dissidência religiosa.

Os primeiros cronistas europeus que chegaram ao Brasil ficaram chocados com a nudez e a aparente falta de pudor dos indígenas. Para eles, essas características eram provas da “vassalagem” que os indígenas prestavam ao diabo.

Fernão Cardim, um jesuíta que inicialmente viu inocência na nudez dos indígenas, comparou o interior das ocas a um “labirinto infernal”. O fogo, aceso dia e noite, era a única “roupa” que os indígenas usavam. Cardim ficou particularmente perturbado com a dita promiscuidade em que viviam. Cem ou duzentas pessoas viviam em uma única oca, “sem repartimento algum ou divisão”, cada casal em seu rancho, mas “todos à vista uns dos outros”. Para ele, era como se estivessem sempre em público, “fazendo o que lhes aprazia”. A liberdade dos povos indígenas era um insulto aos colonizadores.

Os jesuítas no Brasil colonial consideravam os costumes matrimoniais indígenas “falsos” e “pecaminosos”. A poligamia, a instabilidade das uniões e a considerada infidelidade eram práticas que contrariavam a moral católica. Para “civilizar” os indígenas, os jesuítas os pressionavam a se casar na forma e sob as regras da Igreja. O casamento era visto como um instrumento fundamental para aculturar os indígenas e integrá-los à sociedade colonial. Através do matrimônio, os jesuítas buscavam impor a monogamia e a indissolubilidade do casamento, controlar a sexualidade e a reprodução, transmitir valores e costumes cristãos e sedentarizar os indígenas e integrá-los à comunidade. Instituições como a família e o casamento são muito mais do que meras formações afetivas ou relacionais; são — ou podem ser — ferramentas de dominação de corpos e mentes.

No contexto da colonização, a família era vista como a pedra angular da sociedade e a principal responsável pela perpetuação da fé católica. A Igreja, através da Inquisição, intervinha na vida privada dos colonos e indígenas, ditando normas de conduta e punindo severamente qualquer transgressão. É curioso observar que essa linha argumentativa retornou às bocas e mentes no Brasil contemporâneo, em discursos inflamados pela extrema direita, que, mesmo que não tão profundamente vinculada ao ideário de pecado colonial, não abriu mão de perseguir determinadas existências que já eram alvo de repressões ao longo da história, como mulheres, pessoas LGBTQIA+, negros e indígenas.

Ao longo da história colonial brasileira, os africanos foram frequentemente retratados como seres lascivos e incontinentes, entregues aos “vícios da desonestidade”. Essa visão distorcida, presente em autores como José de Anchieta, Fernão Cardim e André João Antonil, servia para justificar a escravidão e reforçar a dominação colonial. Segundo esses autores, os africanos eram naturalmente inclinados à “fornicação”, excedendo em lascívia os “brutos mais libidinosos”. Essa caracterização, além de negar a diversidade cultural africana, ignorava as complexas relações de poder e as condições precárias de vida impostas pela escravidão.

Os jesuítas também acusavam os senhores de engenho de contribuir para a “licenciosidade” dos negros. Ao permitir o ócio, negar a educação religiosa e recusar-se a casá-los segundo a Igreja, os senhores criavam um ambiente propício ao pecado. Ao mesmo tempo em que condenavam a sexualidade dos negros, os jesuítas denunciavam a hipocrisia dos senhores que mantinham relações sexuais com escravizadas e geravam filhos “mestiços”. Essa crítica evidenciava uma face importantíssima para pensarmos a construção da ideia de pecado: a contradição entre a moral cristã pregada e a realidade da sociedade brasileira.

A ideia de “lascívia negra” se atualizou e perseguiu os passos das populações afro-brasileiras. O termo “cor do pecado” é largamente utilizado para se referir a pessoas negras, dentro da ideia de que estas seriam capazes de corromper os demais indivíduos e os arrastar para atos pecaminosos. Essa percepção aparece também em materiais artísticos, como filmes, telenovelas e canções. A música Da cor do pecado, com letra de Bororó, apresenta uma descrição sensualizada do corpo de uma mulher negra, associando-a à maldade e ao pecado. Essa visão, presente também na obra de Gilberto Freyre, reflete a concepção colonial que liga a mulher negra à sexualidade exacerbada. A letra da música destaca a cor da pele da mulher como algo pecaminoso e desejável. O corpo “moreno” é descrito como “cheiroso e gostoso“, “delgado” e “de fazer tão bem”. O beijo da mulher é “molhado” e “escandalizado”, e suas palavras “com graça” escondem a “maldade da raça”.

Ainda na interseção entre o pecado e o gênero, é importante observar que, ao longo da história, as mulheres foram frequentemente representadas como figuras pecaminosas e tentadoras, desde Eva, no Jardim do Éden, até as bruxas perseguidas na Idade Média. Essa construção social, baseada em estereótipos e misoginia, serviu para justificar a subordinação das mulheres e a violência contra elas.

A crença no pecado feminino se traduziu em diversas formas de perseguição e controle ao longo dos séculos. As mulheres foram silenciadas, excluídas da vida pública e privadas de direitos básicos. A sexualidade feminina era vista como algo perigoso e que precisava ser controlado, resultando em práticas como a castidade imposta, o casamento forçado e a punição de mulheres consideradas “adúlteras” ou “sem moral”.

Também perseguidos pela invenção da noção de pecado foram aqueles que apresentaram dissidências com relação à cisgeneridade e à heteronormatividade em suas relações e existências. Por mais que os dogmas cristãos façam parecer que práticas homoafetivas, por exemplo, são recentes, é importante reconhecer que elas não são um fenômeno novo ou singular. Registros históricos demonstram a existência de práticas e relações homossexuais em diversas sociedades antigas, como no Egito, na Grécia e em Roma. A diversidade de expressões sexuais e de gênero era vista como parte da natureza humana, e não necessariamente como algo pecaminoso ou anormal.

Com o advento do Cristianismo, a partir do século I d.C., a homossexualidade passou a ser considerada um pecado grave. Passagens bíblicas foram interpretadas como condenações à prática homossexual, dando início a um período de perseguição e repressão que se estenderia por séculos. Durante a Idade Média, a Igreja Católica Romana desempenhou um papel fundamental na demonização da homossexualidade. A Inquisição, tribunal religioso criado para punir hereges e pecadores, perseguiu e condenou milhares de pessoas por práticas homossexuais. As punições variavam de chibatadas e humilhação pública até a pena de morte. No período moderno, a partir do século XVIII, a homossexualidade passou a ser objeto de estudo científico. No entanto, a medicalização da homossexualidade a classificou como uma doença mental, reforçando o estigma e a marginalização.

Nas últimas décadas, diversos países avançaram na legislação e no reconhecimento de direitos para a comunidade LGBTQIA+ — a homossexualidade foi descriminalizada e o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em vários países. No entanto, ainda há muitos desafios a serem superados. A homofobia, a transfobia e o preconceito ainda são realidades presentes em muitas sociedades sob a égide do pecado e da moral.

Assim, ao longo do tempo, a ideia de pecado foi utilizada como um instrumento poderoso para justificar a dominação, a opressão e a violência contra diversos grupos sociais. A análise crítica dessa construção social revela como o pecado foi inventado para servir aos interesses de elites e grupos hegemônicos. É fundamental, portanto, desconstruir a ideia de pecado como algo inerente a determinados grupos ou determinadas práticas. O pecado é uma construção social, utilizada para controlar e oprimir. Respondendo à pergunta que intitula este texto, podemos ousar pensar que o pecado foi inventado para manter uma estrutura sólida e rígida de poder e desigualdade.

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Erotismo, matriarcado e axé: uma conversa com Mãe Flávia Pinto

por Priscila Carvalho

Conteúdo exclusivo da Amarello Erótica versão digital.

Pensar em erotismo é pensar em como as diferentes sociedades se relacionam com o corpo.

A estrutura social patriarcal cristã se estabelece a partir da criação de tabus, do distanciamento da humanidade de si própria e de uma relação de pertencimento à natureza. O objetivo é tornar-se santo, superior e distante das coisas terrenas.

Nesse contexto, às mulheres, sobretudo, foi atribuído o lugar de cuidado e servidão à figura masculina. Afinal, Deus é homem.

O processo de colonização que estabeleceu a hegemonia eurocristã foi bem-sucedido, porque conseguiu colonizar, além de territórios, mentes e corpos, e paulatinamente apagar outros formatos de organização social.

Minha conversa com Mãe Flávia Pinto se dá a partir de uma troca em que nos interessa pensar o erotismo sobre a perspectiva do matriarcado, do axé, das iabás.

Como as mulheres têm se relacionado com a sua própria sexualidade? O que os orixás nos ensinam sobre energia sexual? Como o patriarcado e o capitalismo nos castram?

Vamos descobrir juntas a seguir.

Conta pra gente quem é Mãe Flávia Pinto.

Mãe Flávia Pinto — Sou uma mulher preta de 48 anos, mãe de três filhos, favelada, nascida na Vila Vintém, Padre Miguel. Sou socióloga, escritora, autora de quatro livros. Sou ganhadora do Prêmio Nacional dos Direitos Humanos por ter idealizado e coordenado a primeira pesquisa de mapeamento dos terreiros, que identificou casos de intolerância religiosa no país. Sou ex-coordenadora de diversidade religiosa da Prefeitura do Rio de Janeiro, sou gestora pública, mestranda em sociologia política, especialista em políticas de gênero. E também atuo dentro do sistema prisional, sendo a única mãe de santo em todo o Brasil a oferecer assistência afrorreligiosa. Atendo duas unidades prisionais, e nem preciso dizer que a maioria das mulheres que estão no sistema carcerário são pretas. Então, estou falando pra mulheres que têm a mesma origem que eu, e levo pra elas o resgate da ancestralidade.

Em algum momento da diáspora, forçaram o desencontro com a nossa cultura, e é através de mulheres, e homens também, que a gente faz o retorno dessa consciência cívica. Eu digo “cívica” porque, pra mim, hoje, a iniciação nas religiões afrorreligiosas é um ato político. Eu fazia parte de um povo e fui trazida pra outro lugar. Por mais que a gente esteja aqui desde 1500, este não é o meu território de origem, mesmo que eu tenha ancestrais aqui. Não tem como eu voltar ao continente africano agora e pedir repatriação, porque eu não vou saber nem de que nação eu era e de que país eu sou. A única forma de voltar pra África é através do estudo dos valores civilizatórios africanos.

Considerando essas suas facetas, onde se encaixa o erotismo?

MFP — Em todas. Eu sou uma mulher livre. Em nossa cosmologia, as mulheres não eram castradas: Oyá, Oxum, Iemanjá, Nanã, Obá e outras divindades femininas não foram castradas. Depois que eu fui estudar a cosmologia africana iorubá, entendi o porquê de eu nunca me enquadrar nesse modelo da mulher recatada e do lar. Desde cedo, fui rotulada como “piranha”, e carrego esse título orgulhosamente, pois ser piranha é ser uma mulher livre. Tenho mais de 30 anos de vida sexual ativa, o que me coloca em posição de quem vivencia. E não abro mão da minha sexualidade, do meu erotismo, isso é inegociável. A cosmologia dos orixás, o Itan, não menciona a abstinência sexual. Eu acho legal você estar numa relação com afinamento energético e corporal, mas a gente precisa entender que são oito bilhões de pessoas no mundo, e nem todas se conhecem fisicamente, principalmente as mulheres que na infância foram abusadas, ou foram ameaçadas de ser, e tiveram que conviver com aquela tortura, botando a sexualidade num outro lugar. Desconstruir esses tabus é parte do meu trabalho atendendo mulheres.

Quando a gente fala de orixás femininas, principalmente na umbanda, a gente percebe uma reprodução das categorias da santa cristã, como se elas não tivessem malícia, sensualidade. Mas quando a gente vai estudar a fundo, principalmente na perspectiva iorubá, tudo isso está ali na base. Como você vê a essência das iabás?

MFP — Oxum foi a primeira iabá a ir pra guerra. Ela, filha Orunmilá, pediu pra ir. Quando chegou, viu a violência e se perguntou o que estava fazendo ali, mas aí o que Oxum fez? Começou a fazer comida, porque comida é nutrição e fortalecimento. Começou a botar feitiços na comida, e o exército dela foi ficando mais forte, desenvolvendo mais imunidade, ficando mais descansado e saudável. Depois, ela pediu pra ir embora, mas não deixaram, e ela ficou observando a guerra. Foi então que teve uma ideia. Fez uma comida cheia de feitiço e mandou que levassem na tribo rival, do outro lado do rio. Aí ela foi para o rio com seu espelho, chamado de abebé, se banhou toda de mel e começou a dançar e cantar. Enquanto fazia isso, os homens da tribo rival foram se aproximando. Ficou todo mundo embasbacado olhando Oxum. Aí sentiram o cheiro da comida, comeram e ficaram sonolentos. Nisso, se orientando pelo espelho, ela foi dando sinal pro exército dela ir avançando. A tropa dela foi e pegou os rivais sem condições de batalhar. Com esse ataque, ganharam a guerra. Isso quer dizer que o abebé, e todo o erotismo de uma mulher, não são instrumentos só de vaidade, são de poder. Sem disparar uma arma, usando o erotismo, Oxum ganhou uma guerra.

Na umbanda, as pombagiras transgridem o modelo da castração, com a sabedoria de dominar as emoções e o prazer. Das suas experiências como mulher e sacerdotisa, qual é a importância de nos aproximarmos do que elas nos ensinam sobre empoderarmos nosso gozo?

MFP — Primeiro, é importante entender que a pombagira não é um orixá. Ela não é Exu, ela vem dentro de uma energia derivada de Exu. Os espíritos que se manifestam como pombagira viveram. Foram seres humanos como eu e você. E, normalmente, eram mulheres transgressoras, mais pra frente, que não queriam casar sem amor nem ser castradas. E aí essas mulheres eram expulsas de casa e, como não tinham trabalho, só podiam viver no prostíbulo. Ao desencarnar, algumas delas, por terem acumulado conhecimento, vão ser preparadas para atuarem como entidades. Mas acho que tem muita gente mal resolvida sexualmente manifestando pombagira. Nunca precisei das pombagiras pra ser mulher. Sou mulher pra caralho sem elas.

Às vezes, a pessoa vai com a intenção de buscar, por exemplo, um parceiro ou uma parceira enquanto, para trazer um caminho de autoconhecimento e prosperidade, existem muitas outras coisas que precisam ser trabalhadas por uma pombagira.

MFP — Esse negócio de pombagira fazendo amarração, sendo que ela sofreu na mão de homem, é contraditório. Você não precisa da pombagira pra trabalhar a sexualidade, é equivocado trabalhar isso. Acho que ela vai curar pessoas com problemas e dores de violência, de violações que aconteceram a partir desse uso equivocado de como o sexo se estabelece na cultura patriarcal. Acho que ela está nesse lugar. A gente acaba subestimando e despotencializando a pombagira ao colocar ela num lugar de só ser a pessoa que vai resolver o problema sexual dos outros.

Há mulheres que vêm escrevendo sobre nossa sexualidade, sobre gozo, sobre os nossos corpos. A gente tem a Carol Rocha, a Carmen Faustino, que têm se proposto a escrever contos eróticos, como um registro escrito. O que você acha disso?

MFP — A escrita é uma ferramenta que nós usamos há muitos anos. Escrever com as palavras do colonizador é doloroso, porque inúmeras vezes a gente sente dificuldade de expressar o que está pensando, e hoje eu entendo que isso tem a ver com a linguística. A minha língua nativa não é o português, é o iorubá. Então, a minha psique ainda pensa iorubá, mas eu tenho que expressar o português. Eu falo de maneira que as mulheres faveladas me entendam, que as mulheres presas me entendam. Não abro mão da gíria, não abro mão do palavrão. Pode não ser bonito, mas foda-se, as minhas manas, que vêm do mesmo lugar que eu, vão me entender. Tanto o que eu falo quanto o que eu escrevo. Quando elas leem e dizem pra mim que entenderam e que transformou elas, pronto, pra mim fez todo sentido.

A mulher é criminalizada antes mesmo de se tornar criminosa pelo sistema patriarcal capitalista. Para compreender a sexualidade, é essencial compreender esse sistema que nos silencia. A primeira vez que eu entrei na cadeia pra falar com mulheres, eu cheguei às nove da manhã. Nesse presídio, tinha um salão, então muitas delas faziam curso de unha e cabelo. E aí as mulheres foram passando por mim com cabelo arrumado, pintadas, perfumadas, tudo feito com truque, já que lá não pode entrar nada disso. Chegaram montadas e falavam: “Oi, Mãe Flávia, prazer, bênção”. Aí eu entendi que quem estava passando por mim era Oxum, Iemanjá, Iansã, Obá, Iyami Oxorongá. Ou seja, nada reprime mais uma mulher do que não poder se arrumar. E, como a gente se arruma pra alguém ver, ali eu era o evento. Morreu uma Flávia naquele dia e nasceu uma outra mulher, porque entendi o quanto o patriarcado assassina os nossos homens e nossas mulheres. O homem se torna um monstro patriarcal e assassina a mãe do filho, e quando não assassina de tiro ou facada, assassina psicologicamente, emocionalmente. E quantas mulheres não vão parar presas se defendendo desse agressor? Então, observar que a gente tem a terceira maior população carcerária do mundo em números gerais, e a quarta população feminina, é algo que a gente tem que entender quando está falando sobre sexualidade. Quantos vieses estão atravessando a sexualidade dos corpos dessas mulheres até levar elas ao encarceramento?

Não dá para tratar o erotismo de forma isolada. Tem capitalismo, patriarcado, cárcere… Chama atenção nessa história o quanto essas mulheres privadas de liberdade buscam, da forma que podem, não abrir mão de sua vaidade, porque o sistema prisional quer descaracterizá-las.

MFP — Nossos homens reproduzem misoginia, ódio, violência. E quantas mulheres ficaram caladas porque o homem faz ela entender que ele só dá atenção sexual a ela se ela for bonita? Ela fica ali quieta pra receber o quê? Uma migalha, que é o momento do ato sexual, quando ela é tocada. Esse erotismo não é o reproduzido pela cosmologia iorubá. Não é. Então, se a mulher se coloca nesse lugar, ela não vai se encontrar com essas iabás.

Como trabalhar isso?

MFP — É se desconstruir e se reconstruir o tempo todo! E, claro, escolher referências. Vou trabalhar minha questão erótica olhando pra Madonna? Não, gata, não é olhando pra Madonna, é olhando pra mulheres felizes. No meu livro, Salve o matriarcado, eu falo: se você não sabe fazer com você, você não vai saber fazer com outra pessoa.

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Estamos em pleno 2024 e, para a surpresa de alguns e incredulidade de outros, os ventos parecem soprar a favor do barco das relações não-monogâmicas. Esqueça o clichê do amor livre hippie que costumava vir à mente quando se pensava em conceitos que gravitavam em torno de um relacionamento afetivo mais abrangente. Esteja você a bordo ou não, o não-monogamismo consensual está aqui e, ao que tudo indica, não vai recuar tão cedo.

Na verdade, esse tipo de relação é um fenômeno bastante presente em todo o mundo há algum tempo, inserido inclusive em acordos matrimoniais. Paulatinamente, o processo de mudança comportamental vem acontecendo. É como diz a escritora e psicanalista Regina Navarro Lins: “Não foi de uma hora para outra que a separação foi considerada normal. Veio vindo. Quando você olha agora, não sabe dizer o momento exato em que se separar deixou de ser uma tragédia. É a mesma coisa com as relações múltiplas.”

Ou seja, o casamento, outrora uma instituição selada em parte pelo moralismo e em parte pelas convicções, agora se vê desafiado, e talvez até encorajado, pela crescente aceitação desse novo modo de se relacionar.

Antes de qualquer coisa, é importante colocar os pingos nos is. A não-monogamia não é exclusivamente focada na diversidade de relações, mas sim no rompimento com as normas monogâmicas, o que quer dizer que há variações de relacionamentos que se encaixam nessa ideia. “Poliamor” é a possibilidade de se envolver sexualmente com mais de uma pessoa, mas é também poder ter um envolvimento afetivo com alguém de fora da relação central. Já “relacionamento aberto” trata da possibilidade de relações sexuais casuais que não envolvem amor, sendo os episódios extra-relação mais pontuais e sem envolvimento emocional. E se de um lado do espectro está a monogamia, em que há exclusividade total com o parceiro ou a parceira, no outro extremo, há a “relação livre”, em que não existem regras e nem centralidade entre as relações. 

Nomenclaturas como essas ganharam destaque sobretudo a partir de 1972, quando George e Nena O’Neill lançaram o livro Casamento Aberto, um best-seller estadunidense que contribuiu para promover uma espécie de revolução sexual naquela década. A bem da verdade, os O’Neills tinham para eles que um “casamento aberto” não passava de um relacionamento em que cada parceiro teria espaço para crescimento pessoal e desenvolvimento de amizades fora do matrimônio. A maioria dos capítulos apresenta abordagens práticas pouco controversas para revitalizar o casamento em áreas como confiança, flexibilidade de papéis, comunicação, identidade e igualdade. A intenção dos autores, curiosamente, era somente livrar o casamento de seus danosos ideais antiquados e falsamente românticos, encontrando maneiras de torná-lo mais contemporâneo e leve. Não fazia parte dos planos fomentar um grande movimento em prol do poliamor. Mas, uma vez que chega ao mundo, as repercussões de uma obra podem fugir do controle daqueles que a conceberam — e disso os O’Neills sabem bem. 

No meio de suas tentativas apaziguadoras de revisar ideias ultrapassadas, foram mais “radicais” em um capítulo — obviamente, o capítulo que mais deu o que falar. Ele propunha a ideia de que um casamento aberto poderia, sim, incluir algumas formas de sexualidade com outros parceiros. Essa sugestão, mais do que quaisquer outras presentes no livro, entraram na consciência cultural e o termo “aberto” tornou-se sinônimo de casamento sexualmente não-monogâmico. Até então, o que quer que acontecesse em casamentos e relacionamentos que driblavam a monogamia não tinha uma denominação específica. Assim, ainda que não fosse sua proposta inicial, os autores não só foram bastiões da possibilidade de casais explorarem novas formas de intimidade e conexão emocional, mas também criaram a linguagem que faltava para dar mais palpabilidade àquilo que, ainda que numa escala pequena, já existia. A partir daí, o céu virou o limite. O livro teve um impacto significativo na cultura e contribuiu demais para a discussão sobre relacionamentos que fogem da convenção.

O debate, portanto, talvez não seja novidade. O que acontece hoje é um resgate que viria a se dar mais cedo ou mais tarde. Mas a questão é que ele vem ganhando um espaço que talvez nunca antes tenha tido. Com as redes sociais e a discussão mais franca sobre muitos temas que antes eram tabus, a monogamia passa por um período de questionamentos. “Nós temos que nos sintonizar com as mudanças das mentalidades porque o amor e o sexo são construções sociais”, reflete Regina. “Alguém vai dizer assim: ‘Ué, mas sexo e amor sempre existiram’, mas a forma de você amar tem que ser aprendida. Em cada período da história o amor se apresenta de uma forma. Essas expectativas e esses ideais que regem esse amor é o amor romântico. O amor romântico é péssimo, causa sérios prejuízos, porque traz expectativas de que os dois tem que se transformar em um só, o que é um horror.”

Sons de alarme ressoam: é verdade que a monogamia já não representa o que entendemos como amor nos tempos presentes? Seria essa uma crise? 

Se tomarmos produções culturais como reflexos de um zeitgeist, sim — e isso inclui o Brasil. A não-monogamia não é mais “coisa de seriado gringo”, uma vez que o fenômeno não está mais restrito a enredos estrangeiros que soam distantes e improváveis. Cada vez mais, a ideia está se infiltrando nas produções culturais brasileiras. Lembra de A Porta ao Lado, filme de Julia Rezende com Bárbara Paz e Letícia Colin? A história, lançada em 2021, se debruça sobre a dualidade entre o amor monogâmico e o poligâmico por meio do convívio de dois casais de vizinhos muito diferentes entre si. E de Lov3, série brasileira do Amazon Prime? Na produção de Felipe Braga, três irmãos simplesmente se recusam a vivenciar o amor da maneira “quadrada” dos pais. E o poliamor ganhou espaço em séries aclamadas, como no notório Succession, em que Siobhan Roy e Tom Wambsgans, casal que vive às turras, explora possibilidades que se esquivam da monogamia — embora, claro, não seja esse um exemplo de relacionamento não-monogâmico saudável.

Se antes a monogamia tradicional era o padrão a ser representado, sendo a traição sempre uma fonte interminável de conflitos e discussões que ditavam os altos e baixos de uma narrativa, roteiristas e produtores estão agora explorando relações abertas para criar novos tipos de dramas envolventes. Isso não aconteceria se a mentalidade dos relacionamentos não estivesse, de fato, se transformando na vida real também. Ainda que se crie tendências comportamentais a partir de obras culturais, abordar tal assunto sem que isso fosse pauta na vida diária das pessoas, como algo com o qual elas podem se relacionar em algum nível, soaria como irreal e até antiquado, já que muita gente automaticamente ainda liga relações não-monogâmicas a décadas passadas. 

Ao examinarmos o quadro, não podemos ignorar a influência da realidade na arte. De acordo com pesquisas norte-americanas — uma sociedade que, em geral, é conservadora —, em 2023, 51% dos adultos com menos de trinta anos consideram o casamento aberto “aceitável”. Cerca de 20% dos americanos relatam ter experimentado alguma forma de não-monogamia. Seria inviável pensar em números assim há poucos anos. Não por um acaso, o caso Will e Jada Pinkett Smith se alojou no ideário popular, porque, além da popularidade gigantesca dos dois, também contribuiu para uma discussão que estava acontecendo, fazendo com que todas as polêmicas do casal gerassem uma multiplicidade de respostas por parte do público.

Mas por que isso? Adê Monteiro, psicóloga e sexóloga, acredita que cada um tem que “escolher o seu difícil” e que, na teoria, a não-monogamia oferece uma leveza que a monogamia muitas vezes falha em proporcionar, o que não quer dizer que seja fácil. “É difícil viver a não-monogamia também”, explica ela, “porque nós temos ainda uma estrutura de monogamia bastante forte. Essa estrutura tem, inclusive, base genética. A gente tem uma estrutura de romantismo, de patriarcado, é muita estrutura monogâmica para você, de uma hora pra outra, desconstruir isso.” O aspecto de aprisionamento conceitual é bastante relevante, já que leva em conta a hipótese de o panorama psicossocial ser, no final das contas, a maior das barreiras. E Regina Navarro Lins entra para o coro de maneira categórica: “Enquanto não se mudar aspectos como controle, possessividade, ciúme, desrespeito à individualidade do outro, o casamento não vai funcionar.”

Aqui no Brasil, vale citar a empreitada que aprovou na Câmara, em dezembro do ano passado, o projeto de lei que proíbe o poliamor. A Comissão de Previdência, Assistência Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou o projeto que proíbe o reconhecimento de uniões poliafetivas com nove votos a favor da aprovação e três contra. A comissão é a mesma que, em outubro de 2023, aprovou um projeto que proíbe o casamento civil homoafetivo. Sempre haverá aqueles que apontam o dedo para qualquer formato que não seja o binarismo heteronormativo, condenando-o como “subversivo”. Mas, de subversivo, o amor não tem nada. Sob uma perspectiva poética, talvez sim; mas, sob uma perspectiva legal, definitivamente não.

Então, depois de muito pelejar e enfrentar todo tipo de preconceito, os relacionamentos não-monogâmicos naturalmente recuperaram seu lugar ao sol. Não fizeram esforço para que isso acontecesse, somente esperaram nas sombras a sua hora chegar — e, mais do que nunca, estão entre nós. Em meio a muitas novas visões de mundo que estão surgindo, essas formas de amar voltaram com tudo. Entre muitos obstáculos superados, os não-monos estão desafiando, de uma maneira muito particular (e, por isso, forte), a ideia convencional de casamento. Mas veja bem: isso não quer dizer necessariamente que estão desafiando o casamento em si. Não significa que estejam batendo de frente com a ideia do matrimônio como a conhecemos. 

Ao invés de se postarem como verdadeiras ameaças à instituição matrimonial, têm um arcabouço argumentativo para fazer com que os relacionamentos não-monogâmicos emerjam, na realidade, como uma possível salvação de uma instituição que vem perdendo popularidade há décadas. Não é mais apenas sobre “trocar” de parceiros, sobre não deixar de explorar caminhos sexuais, sobre aproveitar os “bons anos” antes da decadência física. Talvez ela até se apoie nesses pontos em alguns casos, mas a não-monogamia presente é sobre incentivar relações mais profundas e duradouras, reinventando as leis antes impostas e oferecendo uma perspectiva mais flexível e, acima de tudo, emocionalmente mais sustentável.

Sob essa ótica, é curioso pensar como, ao chegarem a um consenso de que a monogamia não será o caminho de um relacionamento, pessoas possam chegar a um compromisso ainda mais forte entre si. Uma coisa não exclui a outra e o que quer que permita que pessoas se amem mais e melhor deve ser reconhecido e validado. Isso porque, no fim, o casamento em si não é o maior problema. O que dá uma má fama à instituição é, principalmente, todos aqueles preceitos que tomamos como naturais e incontornáveis. Regina Navarro Lins resume bem: “Eu só acredito que uma relação funcione bem quando houver respeito ao jeito do outro ser, se comportar, pensar. Quando houver liberdade de ir e vir, ter amigos em separado, programas independentes e não houver controle algum da vida do outro. A maioria dos casamentos nunca foi assim. As mulheres não podiam se separar, não trabalhavam, não tinham como se sustentar. Havia aquela ideia de casamento ‘até que a morte nos separe’. Também a morte chegava muito antes, agora a morte chega depois.” 

Difícil pensar na monogamia perdendo todo o seu viço. Isso talvez nunca ocorra, ainda que seja possível que ela se veja na defensiva em seu corner, porque suas ideias ainda correm nas veias dos corpos sociais. Mas os tempos pedem que ela se adapte o quanto antes, pelo bem de todos os envolvidos. E, ufa, quem sai ganhando é o amor. As pessoas podem optar por um relacionamento não-monogâmico por várias razões, da atração por múltiplos gêneros até um rechaço à limitação imposta pela norma cultural da monogamia. Mas, seja qual for a motivação, é uma possibilidade, e quanto mais possibilidades de amor tivermos, melhor. O que a sociedade parece nos dizer é: vamos lá, finalmente estamos preparados para o poliamor. Resta saber se estamos igualmente prontos para exercitar a sinceridade, a conversa franca, a transparência em nossos desejos e a ética nos nossos afetos.

Claro, um relacionamento aberto é feito de humanos e, sendo assim, não está isento de desafios — mas o preconceito não pode ser um deles.

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