A canção “Homens Flores”, de Luís Capucho e Marcos Sacramento, que gravei no disco Babies, é uma pequena obra-prima. Ela canta:
os mundos são mais belos
quando olhados pela janela
e as colinas estão repletas de homens fortes
e eu olho pra elas
porque elas são o mundo inteiro
e eu olho pra eles
porque eles são o mundo inteiro
e eu olho pra elas
porque elas são meu terreno
e eu olho pra eles
porque eles são meu terreno
onde eu vou plantar
onde eu vou plantar
flores homens
homens flores
flores homens
homens flores
A letra e a melodia juntas passam uma sensação de profunda leveza, um feito que (não) se explica no mistério que pode ser alcançado pela intuição do compositor quando cria uma canção — um empenho do corpo inteiro, da memória, dos desejos, no passadopresentefuturo, integração cósmica da pessoa no espaço-tempo. Tento penetrar o mistério e entender de que ele é feito; os picos de alegria, onde estão.
A primeira coisa que me vem são os homens nas colinas, uma imagem que me remete à beleza clássica da Grécia Antiga, de exibição e celebração do corpo (me lembro também de Walt Whitman, que cantou a saúde dos corpos servindo de enfermeiro aos feridos da Guerra de Secessão dos Estados Unidos).
Na sequência, já aparece uma surpresa, porque justo depois de “e as colinas estão repletas de homens fortes”, é dito “e eu olho pra elas”. Sempre fiquei sem entender direito, mas o que me vinha, antes, era que se falava de homens como o gênero humano, que inclui os homens e as mulheres. Mas quando fui ao texto, a correção gramatical (que, para a canção, não vale lá grande coisa, pois está regida mais pelas sugestões sensuais do que pelo entendimento racional) me levou às “colinas”, ao “elas” e “eles”, aos “homens fortes”; assim, os homens são mesmo homens do sexo masculino. Mas, no fundo, é a beleza que se insinua no “mal-entendido” sintático que a deixa mais bonita. Depois de homens fortes, quando seria esperado “eles”, se diz “elas”; esse estranhamento faz unir o masculino ao feminino. Reforçado pela sequência de paralelismos, “e eu olho pra elas”, “e eu olho pra eles”, tanto elas como eles passam a ser a mesma coisa, “o mundo inteiro”, “meu terreno”, tornando indistintos os gêneros.
É nesse terreno que o cantor vai plantar os homens flores. Assim como todos nascemos do ventre da mulher, eles vão nascer do ventre da mãe terra. Uma dinâmica de diferenciação (na oposição repetitiva de “elas” e “eles”) e de conciliação dos contrários, que remete à unidade primordial anterior à criação.
E, ao fim, tudo retorna à primeira imagem: ali, nas colinas, onde estão apinhados sob o sol (quem diz do sol é a melodia) os homens flores — resplandecendo.
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A palavra “misoginia” significa ódio ou aversão às mulheres, mas, seguindo a sugestão de Camille Paglia, ela adquire uma conotação mais complexa, que tem origem no medo das mulheres. Sendo assim, o sentido mais comum atribuído à palavra — o ódio às mulheres — seria, antes, uma consequência do medo. O escritor Jean Delumeau, no livro História do medo no Ocidente, dedica um longo capítulo, denominado “Os agentes de satã”, a três figuras párias da civilização ocidental: o muçulmano, o judeu e a mulher. Ele descreve o processo de diabolização da mulher pelo discurso católico oficial e pela literatura. Se o medo está na origem do ódio às mulheres, outro efeito desse medo pode ser também a adoração religiosa à mulher. Vinicius de Moraes é um exemplo desse último caso.
Percebe-se claramente, nos seus dois primeiros livros, em poemas como “A legião dos úrias”, o terror à mulher implantado pela formação católica do escritor:
(…) dizem os camponeses ouvir os uivos tétricos e distantes
dos cavaleiros úrias que pingam sangue das partes amaldiçoadas.
são os escravos da lua. vieram também de ventres brancos e puros
tiveram também olhos azuis e cachos louros sobre a fronte…
mas um dia a grande princesa os fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
em muitos ventres que eram também brancos mas que eram impuros.
e desde então nas noites claras eles aparecem
sobre cavalos lívidos que conhecem todos os caminhos
e vão pelas fazendas arrancando o sexo das meninas e das mães sozinhas
e das éguas e das vacas que dormem afastadas dos machos fortes (…)
De sua “desconversão”, na obra posterior, podemos tirar os versos mais apaixonados de veneração à mulher, que, embora de carne e osso, guarda a aura da mulher total, da santa Virgem Maria.
Se o medo está na origem, todo homem é misógino. A alteridade feminina se mostra ao homem por demais misteriosa (e ameaçadora). Uma coisa fundamental torna muito diferente a experiência de estar no mundo do homem e da mulher: a maternidade. O fato de poder gerar uma vida dentro de si faz com que a mulher esteja conectada com as forças da natureza de um modo que o homem é incapaz de estar. Mesmo para as mulheres que não são mães, o ciclo menstrual as põe em compasso com o movimento da lua. Não consigo imaginar uma experiência mais telúrica do que sentir crescer um ser humano dentro da barriga — a posição de cócoras utilizada por muitas mulheres no momento de parir faz os pés parecerem raízes fincadas no solo. O grito de dor é grito que invoca toda nossa ancestralidade de bicho.
(O grito da maior dor, a do parto, é o mesmo grito do maior prazer, o do orgasmo. O grito que dá a vida é o mesmo que emitimos quando morremos no momento do prazer extremo, que Georges Bataille chamou de “pequena morte”. Essa similaridade perturbadora também só pode (não) ser compreendida na dimensão mítica
obs.
perdi a razão
querer entrar por onde saí
que quer dizer
essa louca intenção
tudo é circular
morrer morrer morrer
morrer onde nasci
morrer entrar nascer sair
querer entrar por onde saí
morrer entrar nascer sair
querer entrar entrar
de novo sair
perdi a razão)
O mundo é concreto para as mulheres; acho que daí vem o gosto muito natural pelas coisas, pela aparência, que vai dar no clichê do consumismo. Daí também um tipo de intelectualidade muito diferente da do homem, este mais inclinado ao conceito e à abstração — me lembro da Hannah Arendt dizendo, numa entrevista, que não gostava de ser chamada de filósofa, mas de cientista política; de fato, seus textos têm uma inteligência com sabor de terra. Não à toa, a condição humana, para ela, é o estar entre seus pares, ou seja, a política. É claro, as mulheres têm seu jeito de estar com a cabeça nas nuvens, assim como os homens também têm o seu, mas estes parecem ter mais do que a cabeça, o corpo todo nas nuvens, inábeis para lidar com a beleza diária das coisas práticas, enquanto a mulher parece se relacionar com isso de forma mais espontânea e bem resolvida. E a imaginação feminina vai para outros lugares, não sei bem dizer quais; talvez para uma fantasia de totalidade, porém conectada com o chão.
Assim, o estar no mundo feminino, com sua lógica conciliatória — deveríamos sempre pensar na hipótese de que, se não fossem os homens, não haveria a guerra; uma mulher que sabe e sente e possui o poder de dar a vida não é capaz, enquanto coletivo, de criar a instituição que a extingue. A noção de progresso, calcada numa posição declarada de rivalidade contra a natureza, da criação do artifício, é necessária, masculina, antifeminina — ainda como diz a dissidente feminista (inteligente e controversa) Camille Paglia, o homem quer se separar da mãe e, por isso, sai a vagar e buscar proteção na arquitetura, na arte etc.
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O homem não deixa a mulher falar porque ela representa o perigo ao modelo masculino de civilização. Ele tem medo dela.
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Interessante notar que justamente hoje, quando muitos intelectuais estão refletindo sobre a ruína do norte racionalista — que tem seu maior e mais brutal exemplo no utilitarismo capitalista, justificativa inconteste para as maiores atrocidades humanas —, retornando ao frescor da ciência prenhe de fantasia do medievo, o que se deseja é mais irracionalidade. Em outras palavras, mais corpo, intuição, contribuições dos sentidos para as formas de convivência. O corpo é o contradiscurso — ele é do império feminino.
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Uma amiga, outro dia, no café (quando perguntei se concordava com o que Françoise Dolto dizia, que a sexualidade feminina está culturalmente menos localizada no órgão genital e que isso era resultado de uma sublimação na obra, ou seja, filhos, família etc., o que me tinha parecido um discurso anacrônico com o debate feminista atual), me disse que a própria estrutura do canal da vagina faz o prazer sexual irradiar para dentro do corpo e imantá-lo de um jeito difuso, que a maioria dos homens não entende isso e que, por esse motivo, ela (assim como outras) passou também a buscar satisfação sexual com outras mulheres. Uma outra amiga, para quem pus a mesma questão, me disse que concordava com Dolto, ainda que o lugar do prazer estivesse recolocado nos dias de hoje — o direito ao prazer sem o julgamento moral de origem, notadamente, masculina.
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Segundo o mito, o andrógino está na origem. Desafiamos os deuses, e Zeus nos separou em homem e mulher. A partir de então, não paramos mais de buscar a metade perdida. Reproduzimos para tentar nos fundir novamente.
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Meu filho de três anos me disse que queria ser menina porque queria ser igual à mamãe. Outro dia, vendo minha filha, tive o entendimento claro de que nela eu me tornei menina — de verdade, com fundamento biológico.