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Fotos de Ana Pigosso, Bruna Bento, Cris Cintra e Fernanda Pompermayer
#50FamíliaAmarello VisitaDesignMobiliário/objetos

Amarello Visita: Anália Moraes e Fernanda Pompermayer

por Gustavo Freixeda

Na Rocha, ateliê em Perdizes, São Paulo, a matéria se transfigura em formas e texturas inusitadas sob a visão criativa de Fernanda Pompermayer, que usa a cerâmica para expressar uma linguagem em que arte e ciência se entrelaçam. Nesse espaço, a irregularidade é tida como primordial, abrindo caminho para o inesperado que foge à perfeição. Alejandro Jodorowsky já dizia que muita perfeição é um erro e, se estamos acostumados com padrões de beleza cravados em pedra, muitos dos quais prezam pela simetria antiquada e por apresentações indefectíveis, nada como sermos lembrados de que, na verdade (e ainda bem), esse espectro do que é capaz de nos encantar é muito mais amplo.

Enquanto isso, no litoral norte do estado, Anália Moraes cria peças que conectam hábitos e contemplações, esculturas e objetos, abstrações e concretudes. Inspirada pelos sistemas naturais, Anália estuda com atenção os processos da natureza, traduzindo-os em esculturas que remetem a estruturas celulares e transformações biológicas. Suas obras, quase como fósseis de um outro tempo, refletem a contínua regeneração e adaptação da vida, tensionando a ideia de finitude ao mostrar como o fim se transforma em um novo começo. E, como o fim que se amalgama ao início, uma silhueta se mistura ao âmago.

Anália Moraes (esq.) e Fernanda Pompermayer (dir.)

Quando artistas assim se juntam, sendo, ao mesmo tempo, tão parecidas e também tão levadas pelo compasso do próprio diapasão, qual é o resultado?

Fernanda, nascida em Curitiba, traz na bagagem uma larga experiência como fotógrafa de moda e designer gráfica. No entanto, foi na cerâmica que encontrou a liberdade criativa que seu espírito buscava. Como espelhos dos processos geológicos da Terra, suas peças evocam os tremores da erosão e das transformações tectônicas, o que permite que a imperfeição guie seu processo. No seu ateliê, cada criação é fruto de uma abordagem experimental que rejeita a padronização em favor de um fluxo orgânico.

Utilizando a técnica japonesa Nerikomi, Fernanda mistura pigmentos diretamente na argila, criando padrões que combinam o planejamento ao caos, formando uma paz turbulenta. A ênfase na irregularidade dá ao trabalho um aspecto pessoal e quase íntimo, que, com a argila assumindo formas em constante transformação e refletindo a influência dos elementos naturais, é tão revelador quanto instigante. As cores, misturadas de forma instintiva, resultam em tons pastel que nunca se repetem, fazendo de cada peça uma obra irreproduzível.

Anália — que reconhece o valor cultural da cidade grande, mas que prefere o respiro profundo da vida à beira-mar — utiliza cerâmica, vidro e minerais para criar uma espécie de “arqueologia ficcional”, explorando a memória, o tempo e a resistência dos materiais. Seus trabalhos, assim como os de Fernanda, revelam as reações químicas e as imperfeições desses materiais, desafiando o conceito de um processo “natural” e trazendo à tona as transformações inerentes ao processo artístico.

Equilibrando-se entre o utilitário e o artístico, Anália permite que a forma de seus objetos vá além da função, seja a contemplativa ou a prática. Sua mudança recente para um ambiente mais silencioso e natural intensificou sua conexão com a natureza, oferecendo uma nova perspectiva aos seus exercícios criativos. Para um trabalho que já continha muito do mundo natural, fugir do pulsar frenético de uma megalópole foi necessário para estreitar ainda mais a sua relação com o verdadeiro ecossistema da vida.

Da parceria entre as duas artistas, nasce a cadeira Docinho, uma peça-filha que reflete a união de suas abordagens criativas. Concebida com uma base garimpada e deformada, a cadeira incorpora celulose reciclada e cerâmicas inspiradas na técnica do terrazzo, o que destaca a importância da adaptação e inovação na materialidade criada por Fernanda e Anália. A celulose usada na cadeira é proveniente do projeto Flow Sustentável, liderado por Tatiana Araújo, que transforma bitucas de cigarro em celulose reciclada e promove, assim, a circularidade da matéria e a redução do impacto ambiental.

Na Docinho, portanto, há a culminação de duas trajetórias que se conversam e se complementam. Técnicas e ideais juntam forças para abrir valas ainda mais amplas de experimentação e comunhão de tudo aquilo que habita o coração e se manifesta pelas mãos.

Fernanda Pompermayer e Anália Moraes são ótimos exemplos da rica tapeçaria da criação brasileira contemporânea. Juntas, suas obras nos desafiam a reconsiderar o valor da imperfeição e a beleza do inesperado. Ao explorar essas interseções, elas abrem novas perspectivas sobre como a arte pode dialogar com o mundo natural e científico.

A escolha dos materiais e a experimentação com diferentes técnicas influenciam o resultado final das suas peças. Como isso acontece?
Anália Moraes: Exploro as propriedades elementares dos materiais — como a cerâmica, o vidro e os minerais — para criar uma arqueologia ficcional, e as obras são um convite à reflexão sobre o que seria um processo “natural”. Através da experimentação com diferentes materiais e técnicas, busco revelar as reações químicas ocultas e as fragilidades dessas interações. A cerâmica, como material ancestral, também me permite explorar noções de memória, tempo e resistência.

Fernanda Pompermayer: Sempre há uma surpresa no resultado final. Adoro o exercício de misturar e testar os limites do material, explorando o que funciona para o meu trabalho, sem me preocupar se vai “dar certo”, já que esse conceito é relativo. Gosto de trabalhar com bastante argila, de forma gestual, sem me importar se a peça vai quebrar. Se quebrar, aproveito os cacos e crio algo novo. Misturo corantes, faço diversas queimas de esmalte, adiciono vidro, óxidos, uso resina, espuma, taças que quebrei em casa, pedra, miçanga, um pouco de tudo. Essa mistura de técnicas faz com que meu trabalho cresça e se torne único — nunca consigo repetir a mesma peça. Essa experimentação constante é o que impulsiona o trabalho. Abrir o forno é sempre uma emoção, dá um frio na barriga. Ter que me desapegar de ideias e descobrir outras ao longo do processo me fascina todas as vezes.

Já que você mencionou diferentes técnicas, como as suas vivências com escultura, fotografia e design gráfico se refletem no processo de criação das suas cerâmicas?

FP: Minha formação é em design, e desde cedo exploro a colagem como um recurso. Acho fascinante juntar pedaços e texturas diferentes, criando algo totalmente inesperado e novo. Na fotografia, meu trabalho foca muito em cor, forma e objeto. Durante uma residência artística, comecei a fotografar objetos do meu dia a dia e criei a série Esculturas Invisíveis, na qual transformo e exploro composições com coisas do cotidiano. Essa de fotografar e compor com objetos despertou em mim o desejo de migrar do 2D para o 3D. Hoje, vejo muito dessas vontades que tinha quando mais nova se transformando em esculturas, misturando um pouco dessa visão de forma/cor/objeto/colagem. Eu encaro a Rocha como esse projeto experimental onde eu aplico tantas coisas, é uma simbiose de tudo que vi, vejo e sinto.

De que forma vocês equilibram a dualidade entre o utilitário e o puramente artístico em suas criações?
AM: A estética e a funcionalidade são igualmente interessantes para mim, por isso, gosto de navegar entre a escultura e o objeto, buscando esse encontro sem limitar a forma pelo seu fim, seja ele contemplativo ou utilitário. A argila, mesmo com as técnicas mais cuidadosas, carrega a memória de cada toque, de cada imperfeição do processo. As rachaduras que surgem durante a queima não são apenas falhas, mas testemunhas da transformação. Em paralelo, nossos objetos também são testemunhas, eles se desgastam com o tempo, acumulando as marcas dos nossos gestos.

FP: Nunca vi meu trabalho como utilitário. No início, tentei colocar flores e plantas nas peças ao fotografá-las, mas isso me incomodava. Hoje, entendo que as peças se bastam por si só, e não preciso buscar uma função para elas. Foi um processo muito importante deixar de tentar me ajustar à ideia de que tudo precisa ter uma função. Vindo do design, esse pensamento utilitário sempre esteve presente, mas agora deixo o processo fluir no ateliê. Estou cada vez mais focada na minha pesquisa, definindo as séries de trabalho, e entendendo o que se repete e o que realmente faz sentido.

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Especialmente na celeridade do mundo de hoje, qual é o desafio de lidar com a paciência necessária para trabalhar com materiais que demandam tempo?

FM: Olha, é realmente um desafio para mim, sou do tipo que quer mudar todos os móveis da casa às duas da manhã. Adoro começar uma tarefa e terminar ela, é um prazer. Com a cerâmica, tenho que esperar semanas ou até meses para ver tudo 100% pronto. Esse tempo me permite refletir, observar, testar e entender como cada trabalho se encaixa na minha produção. Às vezes, fico trabalhando meses na mesma peça, explorando tudo que posso sem pressa. No começo, eu era muito ansiosa e sofria, mas agora eu aprendi a aproveitar o processo e tomar o meu tempo.

AM: Sou porosa ao que me rodeia. Ver as arquiteturas da natureza todo dia me traz a nitidez necessária para dialogar com o mundo. Me sinto parte de algo maior, o que me permite viver o tempo de uma forma não linear e menos orientada pela lógica de produção constante. Morei 10 anos em São Paulo e, apesar de achar necessário os encontros culturais que [a cidade] fornece, não há silêncio. Me mudar foi uma decisão que impactou a logística do meu trabalho, a rotina e as relações, mas preciso estar fisicamente em contato com os temas que orientam meu trabalho e que reforçam a urgência de nos pensarmos parte da natureza para aprender com ela.

O processo de transformação das bitucas em celulose, aliás, envolve uma colaboração intensa com a comunidade de Ilhabela. Qual é a importância dessa parceria local para você, Anália, tanto em termos artísticos quanto sociais?
AM: Fui motivada pelos múltiplos esforços da Tatiana Araújo, fundadora do Flow Sustentável — que atua na área de compostagem, lixo zero e reciclagem de bitucas —, também moradora do litoral norte e que forneceu o material para usarmos. Transformar as bitucas em celulose reciclada, além de ser uma tecnologia que honra a circularidade da matéria, é um ato político. Ao transformar um material descartado em um objeto de design, celebramos a reutilização criativa através de uma iniciativa que reduz o impacto ambiental.

Como os conceitos de reutilização e transformação guiaram o design e o processo de criação da cadeira Docinho?
AM: Foram conceitos que guiaram todo o processo de criação e estão presentes tanto na base da cadeira, que foi garimpada e deformada, quanto na massa de celulose reciclada e nas cerâmicas que foram usadas com inspiração na técnica do terrazzo, a partir de peças que já não tinham uso e seriam descartadas.

FM: E a transformação foi até mais ampla, pois acredito que esse processo em que eu reutilizo os pedaços que eu tinha no ateliê ganhou força depois de criar a Docinho. Ultimamente, no ateliê, tenho desenvolvido a série Esculturas Pictóricas, onde, na maioria das vezes, utilizo esses fragmentos para criar novas esculturas.

Como vocês veem a relação entre o material reciclado e a cerâmica? Há paralelos na maneira como ambos os materiais são trabalhados?

AM: Com a cerâmica, gosto de pensá-la como um local de movimento. O que é cerâmica? É uma rocha fundida, manipulada, que existe exatamente como rochas formadas a partir da lava dos vulcões. O uso da celulose reciclada é uma solução sustentável, que também representa o poder de transformação dos materiais naturais, e que pode ser manipulado e esculpido, assim como o barro.

Vocês compartilham uma linguagem artística similar. Como essa sinergia se manifestou no desenvolvimento da Docinho? De que maneira essa peça reflete a união das suas duas abordagens criativas, que vêm de diferentes disciplinas, mas se encontram em um ponto comum?

FM: Convidar a Anália para colaborar neste projeto foi essencial. Há muito tempo queríamos trabalhar juntas e, além de amiga, sou fã do trabalho dela. Acho que há uma sinergia muito forte entre nossas pesquisas e estéticas, embora cada uma expresse isso de sua própria forma. O processo de criação da cadeira Docinho começou a partir dos materiais que queríamos explorar mais. A Anália me falou sobre essa massa de celulose reciclada que descobriu no ano passado e compartilhou sua vontade de trabalhar com mobiliário e ampliar a escala do trabalho. Com a argila, temos a limitação do tamanho do forno, o que restringe um pouco a escala das peças. Na época, eu tinha vários pedaços de cerâmica no ateliê e estava pensando no que fazer com eles. Ao juntar essa massa com os pedaços de cerâmica, criamos a Docinho.

AM: Docinho é o encontro da estética, mas também da importância da matéria como ponto de partida para as criações de ambas. É uma peça que convida à reflexão sobre a materialidade em constante transformação e adaptação.

Explorando novas fronteiras no mobiliário, como foi a transição do trabalho em cerâmica para o desenvolvimento de uma peça de mobiliário como a cadeira Docinho?

FM: Não senti muito essa transição. Foi super legal trabalhar com um material que não tem necessidade de ir ao forno, mas no fim foi um grande processo de colagem. O conceito de colagem/assemblagem/upcycling está sempre presente, acho que muito do que eu faço parte da colagem. E com a Docinho não foi diferente. Eu adoro ressignificar as coisas, e essa cadeira estava na minha casa esperando o seu momento. [risos]

AM: Tivemos uma abordagem experimental e aberta para a co-autoria do material no processo, e respeitar o tempo de cada fase foi essencial para atingir uma estrutura firme e durável. Inicialmente, pensamos em resinar a peça final, mas nos apaixonamos e decidimos manter aparente a textura da fibra natural da celulose reciclada, que nos lembrou uma lã, criando um contraste interessante com a cerâmica brilhante e rígida.

Quais são os próximos passos na expansão da expressão artística de vocês?

AM: Atualmente, estou animada com um novo projeto em andamento que aprofunda o diálogo entre natureza e tecnologia e, mesmo sendo fascinada pelo universo da cerâmica, continuo buscando soluções multidisciplinares para ampliar meu trabalho… É muito rico colaborar com um cientista da computação, por exemplo, um campo tão distante dos meus conhecimentos, mas que reforça a ideia de que diálogos diversos são cruciais para permitir novas expressões artísticas, descobertas e avanços.

FM: Para mim, estudar. Nesse momento, estou querendo aprender mais sobre arte, conhecer outros trabalhos, participar de grupos de estudo e, em breve, aplicar para residências artísticas… Acho que é importante. Esse ano tenho produzido um pouco menos e me dedicado mais à pesquisa, e sinto que, com isso, o trabalho mudou bastante. Estou animada para descobrir o que vem por aí!


A cadeira Docinho faz parte do projeto Eterno Design. Saiba mais aqui

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à orla do mundo

por zênite astra

ela possuía tão pouco, e eles haviam tocado.
— preciosidade, clarice lispector

a rua era sigilo. nas primeiras horas do dia, um mundo que o sol ainda não tinha tocado me era oferecido como um manequim na vitrine. a madrugada era fresca e escura, e o resto de noite cobria as fachadas das casas, onde dormiam famílias felizes. sempre que eu saía cedo, caminhava com a firmeza de um autômato. os movimentos estacados de meus braços e pernas eram uma tentativa de esconder traços mais gentis, que àquela hora da manhã me punham vulnerável.

e assim seguia o meu rumo. antecedia no expediente as funcionárias das creches, mas não os padeiros. acompanhada pela algazarra dos pássaros, atravessava a parte residencial do bairro até que meu caminho alcançasse a grande avenida, onde iria pegar o ônibus.

era a primeira vez que faria faxina para aquela família, então a cliente me pediu que eu fosse cedo. chegando lá, a dona da casa me revistou com olhos de curiosidade e disse:

engraçado, acho que me enganei. tinha entendido que sua mãe mandaria o filho.

àquela altura, já estava me acostumando a inventar uma filha que minha mãe não tinha. que ela não tinha ainda. naquela rápida mentira, fui minha própria irmã. a dona da casa me acompanhou pelos cômodos, indicando o que queria que eu fizesse. de vez em quando, entre as explicações, ela lançava os olhos para mim. talvez quisesse garantir que eu estava entendendo, talvez estivesse tentando decodificar o meu corpo.

a faxina exigia roupas velhas e movimento desimpedido, e eu aproveitava as demandas do serviço para saborear a liberdade. shorts curtos, camisetas folgadas. se poucos meses antes meu torso respirava com dificuldade dentro de um uniforme escolar masculino, agora podia experimentar algo novo. não sabia muito como, mas entendia que precisava me construir.

eu não era mais obrigada a aguentar os meus colegas, que faziam questão de me lembrar diariamente que eu não me encaixava. aos olhos dos algozes do meu tormento diário, eu era afeminado demais para me encaixar propriamente no mundo dos rapazes, mas o acaso de ter nascido menino parecia me condenar a um dia ser homem. eu então me refugiava daquele cotidiano nos livros que lia e me perdia nas fantasias de desejar uma vida diferente para mim.

uma vez, durante o ensino médio, saí para me aventurar numa boate, dessas que nem pedem para ver o documento de identidade. lá conheci uma travesti uns anos mais velha, e a escutei com a atenção que a gata borralheira certamente deu às palavras mágicas da fada madrinha. no tempo de três cigarros, ela me ensinou quais hormônios eu deveria tomar. anticoncepcionais comuns, desses que qualquer mulher compra sem receita. ouvi encantada os relatos distantes de uma vida possível.

agora, nem terminava o segundo ano de uso e o meu corpo já apresentava sinais de mudança. a minha magreza andrógina havia se tornado mais curvilínea, para meu imenso prazer. por isso, quando ia trabalhar na casa de alguém, eu me vestia com o que me permitia o conforto, tanto no movimento quanto na expressão. mesmo que as roupas não fossem propriamente femininas, eu pensava, ao menos deixavam dúvida.

quando a dona da casa terminou de passar aquelas primeiras orientações, mais uma vez senti seu olhar em mim, de cima a baixo. por fim, elogiou meu cabelo. por instinto, para demonstrar que sabia qual era o meu lugar, logo o prendi em um rabo de cavalo. ela repetiu o elogio, como se falasse para si mesma, numa voz que me pareceu genuína. talvez eu tivesse de fato atravessado a fronteira do país mulher sem ser revistada.

naquela época, meu cabelo já chegava no meio das costas. eu vinha cultivando-o desde a adolescência, com aprovação decidida da minha mãe, que defendia a minha escolha frente aos protestos escandalizados de suas irmãs. quando passou dos ombros, ela começou a me ensinar como cuidar dele. por vezes, sentava na minha cama, penteando e trançando os fios, silenciosamente, tecendo para mim uma beleza que me confortasse.

*

habitar deixa vestígios, e minha função era apagar os resquícios da semana e fazer com que o espaço doméstico retornasse a uma espécie de encarnação ideal, como saída de um catálogo de revista.

conforme retornava para fazer faxina naquela casa, sempre aos sábados, ia me habituando a ler os sinais de como tinha sido a semana. era comum encontrar um travesseiro no sofá, com um copo de água vazio ao lado: o marido tinha dormido na sala. ao lado da poltrona da biblioteca, num móvel de apoio, uma taça de vinho com marcas de batom e um livro: a esposa tinha ido dormir tarde.

era comum que a esposa passasse a manhã fora e que o marido fizesse o mesmo durante a tarde. costumavam alternar. eram professores universitários, e aos finais de semana tinham assuntos pessoais para tratar.

ela tinha um porte altivo e me tratava com uma cortesia seca. caminhava pela casa com a certeza de que era dona do império que havia herdado de uma família com muito bom gosto. tapetes, vasos e estantes cheias de livros adornavam os cômodos e acumulavam poeira.

tinha uma poltrona velha e estampada que ficava de canto, na qual a dona da casa sentava, às vezes por uma ou duas horas. ao lado dela, ficava um aparador de madeira escura, e em sua gaveta se guardavam pequenos utensílios. em cima do aparador, um vaso em que toda semana havia flores novas.

sentada naquela poltrona, eu a via pequena. quando pegava materiais de costura, parecia que algo nela murchava. ela tinha me dito que naquela gaveta estavam pertences da mãe, já falecida. entre os materiais, havia uma tesoura de metal adornada. uma relíquia. com ela, cortava tecidos para projetos que não iam adiante. algumas vezes, a vi iniciar e interromper a costura de uma gravata.

o luto — fui entendendo —, ela guardava na mesma gaveta, junto com memórias que compartilhava comigo em migalhas nesses momentos em que se sentava para costurar. ela se abria; eu ouvia em silêncio. a impressão que me passava era de que havia ali uma esperança de que ela pudesse herdar também o esmero com que a mãe costurava cortinas, sarava febres, assava bacalhau nos domingos de páscoa.

eu ouvia mais do que falava, e respondia de maneira rápida, porque temia que algo em minha voz me entregasse. a qualquer momento os rastros que a puberdade de menino havia deixado poderiam me trair, então abrir a boca era um risco calculado. além de tentar enfraquecer a voz, eu era breve e não deixava margem para perguntas. prezava por uma comunicação sem fios soltos. sim, senhora. entendido. é pra já. o medo de levantar a voz era conveniente à minha mulheridade em construção.

com o marido, inicialmente, não quis muito papo. a princípio, eu não dava corda, mas ele era gentil, e eu não estava acostumada a receber atenção. até então, os garotos me tratavam com nojo; as garotas, com indiferença; os adultos à minha volta, com omissão. ele era boa-pinta e aparentava ser mais jovem do que era.

se, nas concretudes da vida doméstica, ele parecia ter dificuldade com a organização — os pratos que empilhava caoticamente no escorredor, a bagunça que negligenciava —, na conversa, ele era especialista. articulava histórias e explicações de forma encantadora. eu sentia que ele via em mim alguém com quem compartilhar. alguém para ensinar. em outra situação, eu poderia ser sua pupila. naquelas conversas, ele se fazia professor, e eu me forjava sua aprendiz. durante a manhã, eu inventava mais pausas no serviço do que era necessário, só para poder falar com ele. ele parecia retribuir o interesse. e se no começo ele fechava as portas do escritório, depois de um tempo passou a deixá-las abertas. se eu parava para descansar, logo ele aparecia como quem não quer nada e me oferecia um cigarro. fumávamos, e ele sorria para mim.

*

a casa era toda impressionante, mas o que mais me chamava a atenção era a cristaleira. na parede acima dela, assim como em sua superfície, ficavam pratos decorados — os da parede, pendurados; os da cristaleira, com pequenos apoios. era cada prato mais bonito que o outro, a maioria com indicação de onde tinha sido adquirido: ouro preto, salvador, recife, lisboa, santiago de compostela, barcelona, marselha, milão, nápoles.

uma vez, enquanto tirava o pó da cristaleira e passava um pano nos pratos, comentei sobre aquela decoração com a dona da casa. já fazia um tempo que trabalhava lá. disse que devia ser incrível ter conhecido tantos lugares. ela pareceu reparar em qual prato eu estava segurando e deu um passo à frente, encostando no móvel.

a itália é linda nesta época do ano, principalmente nápoles. ela fez uma pausa e explicou, como se eu não soubesse: nápoles é uma cidade muito importante da itália.

eu sei, já li uma história que se passava por lá. era o primeiro de uma série de quatro livros.

você conhece elena ferrante?

sentindo que precisava me justificar, respondi: é, quem me emprestou foi uma professora de português que eu tive.

sem muita firmeza, ela indagou se eu gostava de ler. quando respondi que estava estudando, no meu tempo livre, para prestar o vestibular e que gostaria de seguir os passos daquela professora, ela me assegurou, amistosa:

sabe, tem umas universidades que dão um bom desconto na mensalidade se você for bem na prova.

na verdade, quero fazer faculdade pública. não paguei para estudar a minha vida inteira, não é agora que vou começar.

ela passou o indicador por cima da cristaleira, traçando um curto caminho, levantou o dedo e o esfregou contra o polegar. sem olhar para mim, disse: o vestibular de uma universidade pública é bem difícil, sabia?

*

um dia o marido disse que estava tentando parar de fumar. levei um baque com o que deveria ser um simples comentário — fiquei preocupada que as nossas pausas pudessem chegar ao fim. então ele tirou do bolso pastilhas de hortelã. entendi que eram como o vício que ele queria abandonar, mas traduzido para outros mecanismos. me ofereceu.

ele era um desses homens que não deixam a conversa morrer. não parecia capaz de permitir que brotasse, numa conversa, qualquer coisa que não lhe dissesse respeito. aquela fome me fascinava. naquele dia, enquanto chupava as pastilhas, ele me mascava com os olhos.

me convidou para o seu escritório. fui. ele colocou a mão na minha cintura. deixei. quando ele me puxou para perto de si, seu corpo pareceu dobrar de tamanho. seus lábios no meu pescoço, o hálito fresco. sussurros no ouvido, dedos nos cabelos. meu pescoço fresco, seus lábios no meu ouvido, sua mão na minha nuca, meus cabelos roçando seu gesto.

eu sentei na escrivaninha e ele tirou minha camiseta num sussurro ligeiro. levou a boca até meus peitos. meus peitos agora de moça, beijados com voracidade. sua mão em fúria saiu de minha cintura e foi parar onde eu temia. interrompi o movimento. aí não. aí onde se encerrava meu corpo de mulher, não.

nos seus olhos vislumbrei que ele entendia. cedi. desenhou no meu corpo algo que eu não sabia que poderia existir ali e me chupou como se chupa uma mulher.

*

na semana seguinte, cheguei cedo como de costume, como havia feito todas as manhãs de sábado até então. quem abriu a porta foi a esposa. disfarcei minha surpresa e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. a casa parecia toda revirada, e prontamente comecei a arrumação. ela me seguia com os olhos. nenhum sinal do marido.

o que você quer, sua louca? eu me perguntava, sem que palavra alguma ousasse sair da minha boca.

ecoando aquilo que eu pensava, ela quebrou o silêncio: o que você quer?

como assim?

o que você veio fazer na minha casa?

sua voz vacilava.

ué, o que eu venho fazer toda semana.

como ela tinha descoberto?

um sorriso ameaçou surgir no canto de sua boca. ah, então quer dizer que vocês fazem isso toda semana? é rotina, então, sua vagabunda?

você endoidou, é?

dei um passo para trás.

ela deu um passo para frente.

sua puta, eu devia ter imaginado que ia dar nisso.

ela me mostrou uma embalagem de camisinhas vazia.

merda. a senhora não me ofenda. minhas costas toparam com a cristaleira.

você seduziu meu marido, seu traveco desgraçado? ela veio, bufando. seu pervertido. monstro.

encurralada, cuspi: talvez se você fosse capaz de dar o que ele precisa, ele não teria vindo atrás de mim.

ela me deu um tapa forte no rosto. revidei. ela me deu um empurrão, e meu corpo chacoalhou o móvel que estava atrás de mim. um dos pratos decorados caiu e se despedaçou. ao ver os cacos de uma de suas viagens espalhados pelo piso, ela ficou irada.

tentei me afastar, mas como uma jararaca ela saltou na minha direção, agarrando meu pescoço. até que consegui jogar o peso do corpo dela contra o chão. nos derrubamos e caímos, tombando conosco o aparador de madeira escura e tudo o que havia ali. o vaso com flores se espatifou. rolando no chão, ela tentava me agarrar e eu a empurrava para longe.

viciosa, grudou sua garra no meu cabelo. no instante que dura um fôlego oceânico, ela segurou meu rabo de cavalo para cima. durante aquele segundo, não reagi. não vi o momento em que ela pegou a tesoura. com um único golpe decidido, ela avançou as lâminas contra o elo que unia o topo da cabeça e o restante do cabelo, repetindo o gesto de dalila, mulher ambiciosa.

do chão, vi seu corpo levantar. em suas mãos triunfantes, o comprimento do meu cabelo, como a cabeça de uma besta degolada.

eu, a criatura. ela não tinha o que temer, só precisava de um monstro para conseguir viver em paz.

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”
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Minha avó paterna, quando ficou viúva, achou que um ano “guardando luto”, como mandavam os bons costumes, era tempo demais. Contrariando as fofoqueiras da cidade, encheu a mala com roupas coloridas e batom vermelho e decidiu fazer um cruzeiro. O tempo da dor era determinado por ela, e não pela norma vigente. Era uma mulher moderna para a época: deixou as cartas que enviaria da lua de mel já prontas antes do casamento, para não perder tempo precioso da viagem. Tinha pressa de curtir a vida, sabia que ela passava depressa. Diziam que, quando ia à igreja, o calor do interior era tal que ela erguia a saia na missa para se abanar, e, quando reprimida pelas minhas primas, temendo que mostrasse a calcinha, dizia: “Não quer ver estrela, não olhe para o céu”.

Minha família materna é mineira, e, desde que me entendo por gente, uma cesta com forro de crochê e um punhado de pão de queijo é o jeito mais lindo de ser cuidada por alguém. Quando me casei, decidi dar um almoço para alguns amigos. Em cima da hora, liguei para minha mãe e pedi os tais forrinhos de crochê bordados pela minha tia, pois a casa não estava completa sem eles. Lembro-me tanto dela na cozinha, seus dedos amassando a massa de pão de queijo, sujos de manteiga. Até hoje, quando mexo na massa, recordo a textura das suas mãos. O polvilho preenchia a tigela, sujando seu anel. A pressa em me agradar era tanta que nem se lembrava de tirar a joia, tingindo-a de farinha em um instante. Recordo a voz da minha mãe ecoando pela cozinha, brigando com minha tia por causa do descuido com a joia de família: “Tira o anel da mamãe! Para de mimar essa menina. Você faz tudo o que ela pede”. Outro dia, antes do café da manhã de meus filhos, fui limpar o porta-manteiga e, ao sentir a gordura em meus dedos, era como se estivesse encostando outra vez na sua mão.

Aos domingos, quando era pequena, eu podia escolher: ir à missa com minha mãe ou nadar com meu pai. A verdade é que eu tinha muita dificuldade em prestar atenção no sermão do padre e, às vezes, até fugia para brincar com uma amiga no quintal da igreja. Minha mãe cansou de brigar e acabou cedendo: a piscina vencia. Bem cedo, fazia minha mala com maiô e toalha e íamos aproveitar o dia de sol. Antes de começarmos a brincar na água, eu tinha que aguardar meu pai nadar seus dois mil metros, seu esporte diário. Ele então inventou uma técnica para me ajudar a esperar: a cada piscina que nadava, ele ia até a borda e me contava um pedaço de filme. Depois, nadava outra piscina, voltava e me oferecia mais um pedaço. Eu esperava cada capítulo como quem aguarda uma saborosa fatia de bolo esfriar antes de comer.

Foi assim que conheci a lealdade da amizade. Com Cinema Paradiso, emocionei-me com a história do menino Totó, que salva Alfredo de um incêndio que o deixa cego. Numa manhã de verão, com a história de Cidadão Kane, descobri toda a solidão que grandes fortunas podem trazer. Desde cedo, admirava a valentia de Scarlett O’Hara e o valor do trabalho com sua célebre frase: “Jamais sentirei fome novamente”. Entendi as dores dos desencontros ao conhecer a história do casal de Tarde demais para esquecer, que marcam um encontro no Empire State Building, em Nova Iorque, mas a moça é atropelada antes de atravessar a rua. Compreendi a rivalidade entre irmãos ao assistir Baby Jane. Quando chove, sinto vontade de dançar na chuva à la Gene Kelly, e tenho certeza absoluta de que Fraulein Maria foi minha babá.

São tantos os filmes que nadam de braçada no meu livro de memórias que hoje, adulta, acredito que essas lições tenham sido mais eficientes do que um sermão de missa, pois reverberam dentro de mim com muito mais intensidade do que qualquer oração. Estão em meu altar, como referências pelas quais, muitas vezes, passeio na busca de compreensão do mundo. Hoje, a piscina ainda está lá, mas meu fim de semana tem outros barulhos: crianças correndo pela casa. Às vezes, passo pela piscina olímpica, olho saudosa para a raia e relembro aquela menina sentada na borda, ansiosa pelo próximo capítulo da história. Após tantos anos, há apenas silêncio e águas paradas. A verdade é que essa memória pertence a um outro capítulo da minha história familiar, que foi definitivamente encerrado no ano passado, quando desfiz o apartamento da minha mãe, após sua partida.

Assistir nosso lar se transformar em uma fotografia é uma missão quase impossível. Encaixotar aquilo que nos fazia sentir que havíamos chegado em casa é uma experiência que esmigalha a alma. Uma moldura afetiva se desmantelou quando fechei a porta da casa onde cresci, e todos aqueles objetos tornaram-se resíduos de uma história familiar que não existe mais, da qual sou a única testemunha que sobrou. Ainda temo levar bronca da minha mãe quando vejo suas coisas fora do lugar — quadros no chão, louças embaladas em jornal. Penso que ela brigaria comigo pela desordem e, em seguida, percebo que tanto ela quanto meu pai hoje mudaram-se para a bagunça do meu coração.

Doar os DVDs de filmes clássicos, colecionados por tantos anos pelo meu pai, foi duro demais, assim como as roupas e todos aqueles objetos que um dia me aconchegaram. Antes da chegada do novo inquilino da minha antiga casa, via as caixas de papelão nos cantos e cantarolava em silêncio: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Ninguém sai imune ao tempo, e assistir à nossa sagrada família (com todos os seus sagrados defeitos) evaporar é atravessar o abismo do desamparo. Criamos filhos também para aguentar ver o mundo de onde viemos desaparecer. E, ao mesmo tempo, tentamos recriá-lo, consertá-lo a partir de nossa própria experiência. Teremos nossos erros, que certamente serão apontados pela geração sucessora com a mesma intensidade com que, um dia, apontamos os defeitos de nossos pais. Mas tentaremos acertar, assim como eles tentaram, e inevitavelmente falharemos em muitos aspectos. Porque mães e pais são feitos de material humano, e portanto, imperfeitos.

Na família, aprendemos a amar e a odiar, como disse Freud em Romances familiares. A criança, até certo momento, idealiza os pais e, posteriormente, na adolescência, ao descobrir as falhas dessas figuras parentais anteriormente idealizadas, vai em busca de novos heróis, de outros modelos de identificação. Para o autor, “Todo esforço para substituir os pais é uma expressão de saudade, de um lamento pelos dias felizes que se foram”.

Quando crescemos, contudo, somos surpreendidos pelo fato de que há algo das raízes de nossa infância que nunca nos abandona e que segue sendo replicado na rotina do dia a dia. É como um forro de crochê no qual repousa nossa alma. O filme da nossa família original continua dentro da gente, ainda que estejamos maduros, ainda que eles não mais existam. Nunca é tarde demais para esquecer quem já fomos, e nossas estruturas enquanto indivíduo se perpetuam enquanto existirmos.

Hoje sou adulta, mãe, e ocupo um lugar diferente do que já conheci. A verdade é que nossa posição familiar é dinâmica, assim como a vida. Nossos papéis vão se alternando conforme o trabalho do relógio: a filha torna-se mãe, o pai torna-se avô. E esse dinamismo das estações temporais é fundamental também para nosso crescimento e para a compreensão de que nada é estático, tudo se renova. E sempre há uma possibilidade de recomeço, de futuro.

Acompanho, na clínica psicanalítica, de forma muito próxima, essas possibilidades de renascimento e reorganização das relações. Filhas e mães que viviam em atrito e que, quando a filha vira mãe, se reaproximam; pais que conseguem se separar após a saída dos filhos de casa; e por aí vai.

Como dizia meu pai: a chance de ser feliz existe enquanto a gente está vivo. Novos capítulos, novas histórias sempre podem surgir. E é preciso criar laços para tolerar, razoavelmente, o desamparo de assistir às mudanças e ao desaparecimento da nossa família de origem.

Essa sensação familiar é passível de ser recriada pela nossa capacidade de criarmos laços. Aqui, quando me refiro a laços, não são necessariamente filhos; podem ser amigos, planos, sonhos. Qualquer projeto futuro que nos tire das perigosas garras da nostalgia de um tempo que não mais existe, que nos faz viver a vida de olho no retrovisor e nos aponte o norte de uma nova possibilidade, um novo rumo. Uma mala de vestidos coloridos para que possamos dançar novamente.

Atualmente, tenho um novo ritual dominical: cozinho para as crianças. Quando ponho a mesa para a minha família, coloco a toalha da minha avó, os talheres da minha tia, faço a receita de pesto do meu pai e não empilho pratos ao tirar a mesa, como me ensinou minha mãe: assim encontro todos nós juntos de outra forma. Embora meus domingos já não contem com a presença física desses personagens, tudo o que ganhei deles em vida é, de alguma forma, reproduzido e, silenciosamente, homenageado nessas novas reuniões dominicais, uma nova temporada do filme da minha vida. Essa é a maior herança que quero deixar para meus filhos: a crença de que reencontros no tempo e no espaço são possíveis, que nada se perde por completo se for plantado com uma conexão genuína. E conexões genuínas não precisam ser perfeitas para serem imortais; precisam ser inteiras.

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Buscando raízes, derrubando árvores

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Você recebe a caixinha pelo correio. Dentro, um copinho para a sua saliva ou um cotonete para passar por dentro da bochecha. Uma caixinha que pode satisfazer a necessidade primordial do Homo sapiens de pertencer — a uma comunidade, a um grupo, à família, a alguém. Mas também uma caixinha que pode, assim como a de Pandora, soltar uma cambada de males no seu mundo.

Nos últimos anos vivenciamos uma explosão de kits caseiros de DNA. Se pararmos para pensar, é um fato fantástico. Afinal, há poucas décadas, o sequenciamento do genoma humano era inatingível, e mesmo quando foi parcialmente decifrado, o pulo até chegar nas mãos do cidadão em casa, sentado no sofá, querendo descobrir suas raízes genéticas, é de estontear. Afinal, estamos falando de uma descoberta científica recente, que, em menos de duas décadas, pulou dos laboratórios mais sofisticados do mundo até as mãos de qualquer um com acesso à internet e com alguns reais no bolso.

Não é de espantar que esses kits caíram no gosto popular. Afinal, o ser humano é um animal social. A continuação da espécie foi garantida pelo grupo. Um ser humano sozinho não iria durar muito há trezentos mil anos. Nem Raul Seixas. Dependemos uns dos outros, e somos geneticamente predispostos a viver em família e em grupos familiares maiores. Quando olho para minhas filhas, vejo o olhar da minha mãe, o nariz do meu pai, a gargalhada do meu avô. Reconheço ali a minha tribo, o meu pertencer.

É essa vontade de encontrar a quem pertencemos que leva muitos de nós a fazer um teste de DNA caseiro. Saber, num país formado por tantos povos, de onde vieram os nossos ancestrais. Para muitos, os resultados confirmam as lendas familiares. É mesmo verdade que meus bisavós vieram da Itália, ou da Bélgica, ou do Japão, ou de Portugal, e assim por diante. Para outros grupos, que tiveram suas identidades roubadas ou apagadas, através da escravidão, na fuga de guerras, genocídios ou regimes autoritários, é uma forma de resgatar uma identidade perdida.

Para algumas pessoas, a busca é de uma história mais recente. Pessoas, por exemplo, que foram adotadas e buscam seus pais biológicos. Filhos de mães ou pais solteiros que nunca souberam a identidade da mãe ou do pai ausente. Mães forçadas a darem seus filhos para adoção por falta de recursos, por causa da religião, por vergonha da família. Filhos frutos de casos, de mães solteiras ou adolescentes. A lista é longa; as razões, complexas. Existem mil motivos para ir em busca de uma família, de querer se ver nos traços e gestos de alguém mais.

Mas uma advertência: é bom seguir com cautela. A busca pela família desconhecida pode implodir a família existente. À medida que mais e mais usuários disponibilizam seus resultados através de empresas como a 23andMe, AncestryDNA ou FamilyTreeDNA, mais aumentam as chances de que algum segredo enterrado virá à tona. Imagine descobrir que seu pai não é seu pai, que sua irmã é na verdade sua mãe, que seu irmão tem outro pai. Situações que podem ser traumatizantes e desestabilizadoras. Imagine interrogar sua mãe sobre a verdadeira identidade de seu pai e receber uma resposta arrasadora? Ou descobrir apenas após a morte dela que ela levou um segredo para o túmulo e que você nunca terá uma resposta sobre quem você realmente é, de onde você realmente veio. Para algumas pessoas, isso pode ser avassalador.

Agora tente imaginar que você fez um teste desses, e que anos depois recebe um telefonema da polícia, que lhe informa que usou o seu DNA — aquele que você submeteu lá por diversão — para prender um homem suspeito de assassinar dezenas de pessoas. Ou que um belo dia você é preso, acusado de cometer estupro e assassinato. Eles dizem que tem seu DNA na cena do crime. Um mês depois, você consegue provar que o DNA era na verdade do seu pai, que você mal conhece, mas que tem muitos dos mesmos marcadores de DNA que você. Ou imagine abrir os seus resultados do seu teste de DNA e ver que você tem não apenas um ou dois meio-irmãos, mas mais de duzentos. Duzentas pessoas que têm o seu mesmo pai, um doador de esperma. Todos em uma mesma região do país. Imagine descobrir incesto. Que seus pais eram na verdade primos, ou até irmãos. Esses são todos casos verídicos.

Há um provérbio chinês que diz: quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento. Talvez nos dias de hoje tenhamos que emendar para: se cavar muito fundo procurando suas raízes, poderá derrubar a árvore. A sua árvore genealógica.

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Já há um bom tempo, os prognósticos ambientais são alarmantes. Muito embora a mentalidade das pessoas tenha mudado em prol de medidas sustentáveis que teriam em mente não só as gerações futuras mas também as de agora, poucas mudanças significativas ocorreram de fato. Podemos atribuir isso a razões diversas, desde políticas macro até o descaso pessoal por problemas aparentemente distantes. No entanto, esses problemas agora batem à porta. Se não agirmos, a entrada será forçada e trágica. O limite temporal parece mais curto e drástico, e os próximos dez anos serão cruciais para evitar que as crises desencadeadas pelo sistema econômico global ultrapassem nossa capacidade de adaptação. 

Foto de Wim van ‘t Einde na Unsplash.

Pode parecer radical dizê-lo, mas a verdade é que nossas opções como sociedade são: 1) um futuro cheio de problemas, mas ainda reversível a longo prazo; ou 2) um futuro terminal. O que fazer, então?

O Decênio Decisivo: Propostas para uma Política de Sobrevivência, livro de Luiz Marques publicado ano passado pela editora Elefante, aborda a emergência climática e as crises cumulativas do antropoceno, propondo mudanças fundamentais nos modos de produção, consumo e exploração dos recursos naturais. Marques, historiador da Unicamp, apresenta uma análise rigorosa das causas e consequências da crise ambiental, destacando a necessidade de ações imediatas e coletivas para evitar um colapso irreversível.

“Um programa político baseado nessa exigência não é só factível, mas também o único possível se quisermos sobreviver como sociedades e, no limite, como espécie. Este é o sentido do subtítulo deste livro: propostas para uma política de sobrevivência. Estas páginas se pretendem, portanto, como um chamado à radicalidade da ação política socioambiental, com a ambição maior de suscitar ou enfatizar o senso de máxima urgência exigido por este decênio decisivo.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo: Propostas para uma Política de Sobrevivência”

No livro, o autor discute a importância de reavaliar o valor da vida humana e das outras espécies em um mundo onde a busca desenfreada por lucro ameaça a sobrevivência de todos os seres vivos. Ele destaca que a natureza está sendo destruída pelas atividades antropogênicas, especialmente pelo capitalismo globalizado. A concentração de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera, resultante do uso de combustíveis fósseis, é um dos principais catalisadores da emergência climática, com efeitos devastadores, desde o aumento da temperatura global até a perda de biodiversidade.

Um futuro que se distancia do ideal é inevitável. Não temos mais o sonho de viver futuramente como já vivemos no passado, sem ter em vista mudanças radicais que decerto acontecerão e demandarão adaptabilidade extrema. Mas ações políticas imediatas podem atenuar a piora, aumentando as possibilidades de reversão de tendências, de adaptação e, portanto, de sobrevivência. Essa palavra, aliás, é chave no pensamento que deve ser preponderante: ela, a sobrevivência, só será possível no caso de a tomarmos não mais como uma condição que é, a priori, garantida, mas como uma realidade ameaçada que só pode ser conquistada de novo em conjunto e aos pormenores. Se agirmos coletivamente, apesar dos cenários catastróficos que se apresentam com alto teor de probabilidade, um futuro melhor pode se descortinar para nós e para a vida no planeta.

“A questão não é mais sobre quais são os limites nem onde situá-los na escala da sustentabilidade. A questão é política: quem pode e deve estabelecê-los e como garantir que sejam implantados e respeitados. (…) As chamadas liberdades individuais — tais como a liberdade de não se vacinar, de não usar máscara numa pandemia, de jogar lixo pela janela do carro, de desperdiçar água, de se armar, de fazer o que quiser com o seu dinheiro etc. (…) Quanto mais as sociedades retardarem a adoção dessas políticas de sobrevivência, mais o ponteiro do equilíbrio entre liberdade individual e coerção estatal penderá para o lado não só da coerção estatal como também da coerção exercida pela natureza, isto é, por vírus, furacões, inundações, picos letais de calor, secas, incêndios etc.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo”

A crise climática do Rio Grande do Sul, que está longe de acabar, ilustra essa situação. O maior problema não foi a falta de previsão, mas a aceitação. Era preciso que se aceitasse o momento do planeta e, a partir daí, tomar as devidas atitudes. Todos os anos, o governo do Rio Grande do Sul se espanta com as chuvas intensas, assim como em Petrópolis, São Sebastião, norte de Minas Gerais, Recife e sul da Bahia. Nos últimos nove anos, as temperaturas do planeta foram as mais quentes já registradas. Ou seja, por falta de aviso não foi. É preciso sempre se preparar. Embora nem sempre seja possível prever a intensidade de um evento extremo, sabemos que se tornarão mais frequentes. Modelos climáticos preveem há décadas um aumento de chuvas extremas no sul da América do Sul, incluindo toda a bacia do Prata. A obra de Marques é uma análise abrangente das advertências de cientistas sobre a emergência ambiental e propõe ações indispensáveis para evitar o colapso da sociedade e a extinção em massa de espécies.

Foto de Ivan Bogdanov na Unsplash

A responsabilidade — que, mesmo em meio aos contextos devastadores, deve ser pensada, para que a situação não se repita — não é apenas dos governos estaduais e federal, mas também do Congresso. As tragédias são resultado da falta de adaptação e combate às mudanças climáticas, áreas onde os Executivos precisam fazer mais e onde o Legislativo tem promovido retrocessos. Ações limitadas às respostas de emergência não são suficientes. Eventos extremos, cada vez mais comuns devido às mudanças climáticas, não podem ser tratados como “imprevistos”. Por essas e outras, Marques defende uma reformulação dos aparatos estatais, que muitas vezes agem como corporações na exploração de combustíveis fósseis, e a necessidade de uma governança global para resolver problemas que transcendem fronteiras nacionais, como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. 

Na visão dele, seria interessante pensar em uma desglobalização da economia aliada a uma globalização democrática da política, para enfrentar os desafios globais com uma abordagem territorial e cooperativa. A crescente desigualdade, impulsionada pelas crises ambientais e financeiras, é criticada, e ele propõe uma renda mínima universal e um limite para a renda máxima para promover maior equidade. A sobrevivência da humanidade depende da definição de limites claros para a acumulação de riqueza e consumo, mudanças possíveis com um novo consenso social fomentado pelas universidades e outras instituições.

Como amplamente sabido, mas minimamente levado em conta, superar o capitalismo é uma medida-chave para enfrentar a crise climática. A produção industrial de carne, por exemplo, contribui para as emissões de metano, desmatamento e uso excessivo de agrotóxicos. Mas, para além das pessoas que consomem carne, vencer o lobby das agropecuárias é missão hercúlea. No cenário ideal, haveria uma mudança para sistemas de produção mais locais e sustentáveis, destacando a autossuficiência alimentar e a redução da distância entre produção e consumo como essenciais para um futuro sustentável. As democracias liberais e conferências internacionais, como as COPs, são ineficazes em implementar medidas para descarbonizar as economias e eliminar o uso de combustíveis fósseis. 

Marques propõe uma governança global democrática que supere a soberania nacional absoluta em favor de uma soberania relativa, subordinada aos interesses de sobrevivência da humanidade e das outras espécies.

“(…) a motivação para escrever este livro nasce de duas apostas otimistas. A primeira é que os anos decisivos para evitar esses cenários futuros extremos ainda estão diante de nós. A segunda aposta é que seremos capazes de agir individual e politicamente ao longo deste decênio, com a radicalidade requerida para reverter o que ainda pode ser revertido, mitigar o que ainda pode ser mitigado e aumentar significativamente nossas chances de adaptação aos impactos do aquecimento global, do empobrecimento da biodiversidade e da poluição.”

— Luiz Marques em o “O Decênio Decisivo”

Para a discussão, três conceitos são importantes: o de mitigação, o de adaptação e a redução de danos. A mitigação envolve atacar o problema, como interromper o desmatamento e substituir fontes poluentes por renováveis. A adaptação é preparar as populações para os impactos inevitáveis, como remover populações de áreas de risco e reforçar a rede de saúde para lidar com o aumento de doenças como a dengue. A redução de danos refere-se a respostas emergenciais às tragédias, como procurar sobreviventes e reconstruir casas após deslizamentos. No entanto, as ações das autoridades federais, estaduais e municipais tendem a se concentrar apenas nesta última etapa de resposta. Sem ações políticas eficazes, as tragédias se intensificarão, exigindo cada vez mais da população.

A emergência climática não é uma possibilidade futura, mas uma realidade presente. Ignorar ou minimizar esse cenário só agravará a situação, aumentando a frequência e a gravidade dos desastres. Com um pouco mais de preparo e aceitação, muitas tragédias poderiam ser evitadas.

O Decênio Decisivo propõe oito medidas concretas para a criação de uma política de sobrevivência:

1. Redução radical e emergencial das diversas desigualdades entre os membros da espécie humana — “Hoje, esses valores precipitam a ruína de nossa civilização. Só há civilização digna desse nome onde a cooperação solidária prima sobre a competição e onde a busca por benefícios individuais não suplanta a percepção da superioridade do bem comum.”

2. Diminuição do consumo humano de materiais e de energia — “Já extrapolamos vários limites de resiliência do planeta, e só estamos começando a pagar o preço disso. É preciso entender (…): não há solução tecnológica miraculosa que nos permita sobreviver, mantidos os níveis atuais de consumo de bens, de energia e de interferência antrópica no sistema Terra.”

3. Extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais — “A biosfera, a água, o solo, o ar, as paisagens e as formas magníficas do mundo não estão para os humanos como meios para o seu fim. É necessário superar a concepção utilitária da natureza (…). O planeta não é um ‘recurso’ a ser explorado ou alocado pela economia.”

4. Restauração e ampliação das reservas naturais, a serem consideradas como santuários inacessíveis aos mercados globais — “Superar o capitalismo é restaurar a possibilidade de que uma dimensão central do mundo permaneça separada da mercadoria.(…) Uma reserva natural deve ser considerada como uma sacra domus.”

5. Desmantelamento da economia global e transição para uma civilização descarbonizada — “Não se transitará para uma civilização descarbonizada enquanto as decisões sobre os investimentos estratégicos no sistema energético e no sistema alimentar forem prerrogativas dos que controlam as corporações e os Estados-corporações. A responsabilidade pelas decisões impostas pela emergência climática tem de ser assumida, global e democraticamente, pelas sociedades. E essas decisões têm de ser tomadas neste decênio, antes que as alças de retroalimentação do aquecimento as tomem por nós.”

6. Desglobalização do sistema alimentar e sua transição para uma alimentação baseada em nutrientes vegetais — “Construir um sistema alimentar baseado em nutrientes vegetais, produzidos por uma agricultura orgânica, local, variada e respeitosa dos habitats selvagens, constitui uma ruptura civilizatória tão premente e crucial quanto a transição do sistema energético para fora dos combustíveis fósseis.”

7. Revisão da soberania nacional — “A soberania nacional deve cessar onde houver ameaça ao interesse comum. O Estado-nação é uma estrutura disfuncional diante de ameaças ambientais de natureza global. (…) A soberania nacional deve ceder o passo a uma autoridade superior, formada pela aliança entre representações populares subnacionais e governança global.”

8. Acelerar a transição demográfica aumenta as chances de sucesso das rupturas enunciadas — “Retornar (…) a uma população em torno de dois bilhões, como éramos havia apenas um século, tornará muito mais fácil avançar nas sete propostas enunciadas. Isso será possível no espaço de poucas gerações se conseguirmos construir uma sociedade sem pobreza e riqueza extremas e com igualdade de gênero, o que começa, repita-se, pelo direito das mulheres a decidir livremente sobre suas funções reprodutivas.”

A questão de saber se é possível realizar essas rupturas civilizacionais no prazo de um decênio é difícil, mas não deve nos paralisar. A enormidade da tarefa, a resistência dos interesses econômicos e a fragmentação dos movimentos sociais são obstáculos reais. No entanto, enfrentar um desafio existencial não é uma questão de probabilidade, mas de necessidade. A humanidade não tem alternativa senão se insurgir contra a ameaça de sua própria extinção, e é nesta falta de alternativa que reside a força dessa insurgência. O futuro guarda energias e mudanças inesperadas. 

A história ensina múltiplas lições, muitas contraditórias, e é por isso que os pontos de inflexão podem e devem ser alcançados. Diante de uma ameaça existencial sem precedentes, a palavra final deve ser buscada nas estruturas sociais que tivermos a coragem de construir, além de nossa memória histórica e da agressividade inerente à nossa herança biológica. O Decênio Decisivo nos convoca a construir essas estruturas, a recusar a inevitabilidade da destruição e a lutar por um futuro onde a sustentabilidade e a justiça prevaleçam. 

 Nossa esperança reside na capacidade humana de transformar e de superar.

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Klaus Kinski em Fitzcarraldo. Reprodução.

E é nesse espectro de mitologia fílmica-sobrenatural que se encaixam suas memórias, Cada um por si e Deus contra todos: memórias, lançadas no Brasil pela editora Todavia. 

Não. É claro que não. Essa não é a autobiografia padrão de uma figura pública, de um artista, de alguém que transitou, e ainda transita, pelos corredores de grandes festivais de cinema. Não há muitos vislumbres do que constitui o âmago do diretor, as descrições que ele oferece nesse estágio da vida, octogenário, são ainda mais do que se vê e até do que se sente, mas nunca por que se sente. A palavra “incorrigível” talvez venha a calhar. Há muito da alquimia presente em fatos e questionamentos arrebatadores do mundo — e, para Herzog, nada é mais exuberante que isso. Os lugares e não-lugares, as perguntas respondidas com perguntas, os impulsos animais que são humanamente dignos de atenção. 

“Tenho uma profunda aversão à introspecção em excesso, à contemplação do próprio umbigo. Eu também preferiria estar morto a ir a um psicanalista, porque sou da opinião de que ali ocorre algo fundamentalmente errado. Se uma casa tem uma iluminação muito clara até o último canto, ela se torna inabitável. É o mesmo com a alma, iluminá-la até sua sombra mais escura torna as pessoas inabitáveis.”

Werner Herzog. Getty Images.

Pensando em obras memoriais de outros diretores de cinema, chega a ser difícil traçar comparação. Não há o compasso cronológico que vai de filme a filme, detalhando um ou outro aspecto da produção e salpicando curiosidades interessantes para quem ama aquele corpo de trabalho. Esqueça, por exemplo, as memórias de Sidney Lumet, o ótimo Making Movies (1995), que segue essa lógica e satisfaz ao entregar bastidores de filmes como 12 homens e uma sentença (1957) e Um dia de cão (1975). Herzog encara sua história como encara seus temas, narrando-a com lentidão e tiradas grandiloquentes, mas com a peculiaridade de fugir das perguntas essenciais que ele próprio faria caso não fosse o objeto de estudo. 

 O resultado? Algo sui generis. “À Herzog”. Por vezes indiferente e distante, por vezes mágico e sedutor — sem nunca deixar de surpreender.

Joana do Prado*, diretora, roteirista e professora de roteiro que criou e dirigiu a série Sociedades Matriarcais, fala sobre a influência de Werner Herzog: “É, sem dúvida, uma das maiores influências no meu trabalho. Além de admirar sua alta produtividade, o que mais me liga a ele são o recorte e o tom que ele dá aos seus filmes. A forma como ele conta histórias com uma curiosidade existencialista, investigando a condição humana em diferentes lugares e situações do mundo, é extremamente potente.”

Assim como em seus filmes, Herzog estabelece uma poderosa relação entre o humano e a natureza. Em Cada um por si e Deus contra todos fica claro de quais experiências vieram a vontade de tratar com essa dualidade. “Minha mãe”, escreve ele sobre a agonia materna depois de um ataque dos Aliados, “me encontrou no berço coberto por uma camada espessa de cacos de vidro, telhas e entulho. Eu saíra totalmente ileso, mas minha mãe, em seu medo, pegou a mim e a meu irmão mais velho, Tilbert, e deixou a cidade fugindo para as montanhas até Sachrang, a mais remota de todas as aldeias na Baviera.” Nesse refúgio remoto, encontrou um terreno fértil para sua imaginação juvenil. A partir daí, Herzog começou a forjar sua visão do mundo, que viria a definir seu trabalho criativo ao longo dos anos. Esses e outros relatos sobre sua infância, especialmente evocativos, falam de um tempo em que o cotidiano se mesclava com o extraordinário. O mundo ali era tão fantástico quanto inventado.

“A filmografia de Herzog é uma celebração da complexidade humana e da luta contra as forças naturais e sociais.”

Pensar nas linhas de força do cinema de Werner Herzog é imergir em um vulcão de complexidade e singularidade. Com uma carreira de meio século (e contando) que já soma mais de cinquenta filmes, Herzog intimida historiadores e críticos com suas variações de registro desde os primeiros passos na direção. Ele diz que, no começo de sua carreira, ficou claro que “por conta do meu quase total desconhecimento do cinema, eu teria que inventá-lo à minha maneira.” Por falta de conhecimento ou não, seguia seus instintos — e esses sempre pareciam acertados. O reconhecimento veio rápido, mas muito mais foi sendo alcançado com o tempo. Não demorou a passar de um cineasta respeitado a uma espécie de evento a ser contemplado, uma presença que transcende seu próprio trabalho para se tornar um fenômeno cultural por direito próprio.

“Seu olhar e o destaque que ele dá à força das imagens”, comenta Joana, “são minhas maiores inspirações em suas obras. Como ele mesmo disse há alguns anos, como diretor ele teve a pretensão de formar uma gramática, uma enciclopédia de imagens do nosso mundo. E conseguiu: ele é o único diretor que filmou em todos os continentes. Mais do que simplesmente colecionar imagens, ele dá protagonismo a elas, posicionando-as sempre em primeiro plano e no centro da narrativa, com o uso da música e de sua narração como suportes. Muitas vezes, ele retira a narração e ficamos apenas com a imagem, que adquire vida própria, um estrelato místico.” 

Junto com a postura espectral de sua voz, e em alguns casos a fantasmagoria de sua presença física, seus documentários foram os principais responsáveis por criar a mitologia herzoguiana. Os exemplos de bons filmes que contam com o próprio Herzog são muitos: Little Dieter needs to fly (1997), A caverna dos sonhos esquecidos (2010), Lições da escuridão (1992), Meu melhor amigo (1999) e tantos outros. Em um relato raro do livro — “raro” porque entendemos, a partir de uma relação causal direta, o início de uma característica marcante de sua obra —, o diretor conta que criou sua persona audiovisual ao ser forçado pelo amigo e jornalista Gerhard Konzelmann a aparecer em sua série de documentários, já que a voz em off não era permitida ali. Isto é, cada cineasta participante tinha que aparecer. 

“Esse foi um passo cujo alcance não pude reconhecer totalmente na época, mas que teve grandes consequências.”, relata Herzog. “Eu havia encontrado a minha voz, a minha voz de palco, por assim dizer.”

Certa feita, François Truffaut chamou Herzog de “o diretor vivo mais importante”. É sintomático que alguém tão influente quanto o francês tenha louvado o trabalho do alemão: grandes obras encantam pessoas planeta afora, pois têm o poder de quebrar barreiras geográficas e temporais. É como conta Joana:

“Ao desenvolver a série documental Sociedades Matriarcais, que foi ao ar no ano passado pelo GNT, inspirei-me muito em dois filmes de Herzog, Happy People: A Year in the Taiga (2010) e Visita ao Inferno (2016), tanto na plasticidade das imagens quanto na presença marcante da narrativa. Esses dois elementos guiaram a concepção do projeto, desde os roteiros até as filmagens. Durante os encontros com as matriarcas e com outros personagens dessas sociedades, refinei não apenas meu olhar para a realidade dessas culturas nas escolhas das imagens que as representam, mas também para a mensagem que gostaria de transmitir sobre elas e como fazê-lo. Assim como nas obras de Herzog, a narração permitiu minha participação como personagem, um espaço fundamental para a reflexão sobre essas sociedades sob a perspectiva de uma mulher que cresceu em uma sociedade patriarcal.”

O menino que morava no ponto mais remoto de toda a Baviera, em condição de miséria, realmente conquistou o mundo.

Nas memórias de Herzog há, sim, relatos sobre a produção de filmes icônicos e os atritos com figuras como o escritor de viagens Bruce Chatwin e o alpinista Reinhold Messner. No entanto, isso não parece ser o centro do livro. Esses relatos, claro, oferecem uma janela para espiar a mente do diretor, mas isso não é suficiente para levar um inquieto como ele a se dedicar à escrita memorial. O que de fato fez com que ele se sentasse em uma cadeira para escrever esse material advém de um desejo sedutor de tergiversar, um prazer incontornável de temperar as bordas de um prato já aquecido com a magma da própria lava.

Aliás, um pensamento que ressoa no fundo da mente de quem lê Cada um por si e Deus contra todos: memórias, quase como um subtexto proposital, é: certo… mas será que é verdade? Isso, talvez, seja um dos resultados do enigma que Herzog conjurou sobre si mesmo ao longo dos anos, mas, sobretudo, é fruto de uma escrita que ressoa como um sonho fabricado, apesar de ou talvez por conta de seu distanciamento autoimposto. 

Se isso soa familiar, é porque seus filmes carregam uma aura similar. Ou seja, ao desafiar as convenções da autobiografia tradicional, optando por uma abordagem mais poética e fragmentada, ele encolhe os ombros e se cobre com o lençol da coerência. Em sua prolífica carreira, sempre foi assim. Aqui, por se tratar de um livro de memórias do autor de O Enigma de Kaspar Hauser (1974), o esperado era o inesperado. Isso é, em sua essência mais pura, Werner Herzog, obcecado pelos misticismos que tornam o planeta um lugar tão interessante de se explorar (sendo ele próprio uma figura mítica desse caldo).

A filmografia de Herzog é uma celebração da complexidade humana e da luta contra as forças naturais e sociais. A escrita contida em suas memórias, por sua vez, é uma batalha particular, não contra a natureza (ainda que essa batalha esteja presente) e nem muito menos contra si mesmo, mas contra o tédio para com o mundo e as pessoas que o circundam. 

“Ele celebra a espontaneidade dos acontecimentos que testemunha ou que são testemunhados por terceiros”, sintetiza Joana. “Está em um constante estado de encantamento pela nossa capacidade, enquanto seres humanos, de criar interações complexas com o ambiente ao nosso redor. No documentário The Fire Within (2022), Herzog presta uma linda homenagem às imagens produzidas pelos Krafft, e faz isso de forma solene e muito poética. No curso que dou sobre roteiros de documentários na Roteiraria, uso este filme como exemplo da forma minuciosa com que Herzog constrói não apenas histórias, mas sensações. Nunca é a imagem pela imagem, mas sim a dialética que ele constrói entre o que tangencia nossa realidade e o que está além do tangível, conferindo um significado mais profundo ao que retrata e aos encontros que narra com seus personagens. Ele convida o espectador a dar um giro no olhar, a ir além da superfície e a ver e sentir o mundo junto com ele em uma nova e mais ampla perspectiva.”

Cada um por si e Deus contra todos é um passeio desafiador e saboroso pela sua filosofia pessoal e artística, à semelhança das romarias de muitos de seus personagens. E vale adiantar que, considerando tudo isso — a inquietude incontornável, a vontade de quebrar paradigmas, a obsessão em fazer com que sua história seja maior que si próprio —, o final do livro é perfeito. 

Dá para se perder nas paisagens interiores de um dos cineastas mais originais e controversos de nosso tempo, um homem cuja vida e obra continuam a desafiar e a intrigar, abrindo novos caminhos no cinema e além dele. 

Mas, se alguém se perder, esse alguém que se vire. Lembre-se: é cada um por si. Cada um por si e Herzog contra todos.

*Joana do Prado é diretora, fotógrafa e roteirista. Dirigiu três séries de TV, uma delas ganhadora do prêmio TelaViva. Em 2023, lançou a série documental ‘Sociedades Matriarcais’ no GNT/ Globoplay. Atua também como professora de roteiros na Roteiraria.

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Fotos de Derek Fernandes

Tomar café na casa de alguém é um convite para conhecer profundamente essa pessoa. Nossa casa é a casca que nos protege do mundo. Ela é parte importante de nossa cultura particular, e reflete a maneira como enxergamos e gostaríamos de nos inserir no mundo.

Aqui, dividimos casas de pessoas que gostam de casa. Que têm suas casas vivas, cheias de objetos que contam a história de uma vida, sem um lugar perene em seus espaços.

Camila Tariki é arquiteta e designer de interiores. Filha de mãe argentina e de pai neto de japonês, é mãe da Lis, do Ian, o grandão, e da Lila, a filhote. Morou em Nova Iorque por onze anos, onde estudou e trabalhou com o designer egípcio Karim Rashid. Atualmente, ela toca uma equipe de vinte e seis pessoas na Bernardes Arquitetura, escritório da qual é sócia, criando para seus clientes espaços em que as pessoas que moram naquela casa possam formar memórias e identidades.

Adorei muito a sua casa, tem a sua cara. Casa, pra mim, é assim, viva.

Acredito que casa é muito a nossa memória. Acho que é porque tem esses objetos que eu fui coletando durante a vida, e eles vão seguindo de casa em casa. Eu sou uma pessoa apegada, minha casa é o meu caracol. Já mudei muito. Em Nova Iorque, foram seis vezes em doze anos. Em São Paulo, esta é a minha quarta casa.

Me fala um pouco desta sua casa, como começou a sua história com ela?

Foi durante a pandemia. Estava todo mundo trabalhando online, e eu comecei a ir muito para a Bahia. Cheguei lá, aquele horizonte, aquela paz, e pensei “Nossa Senhora, acho que eu preciso disso na minha vida”, sabe? Em dois dias que estava lá, o meu corpo voltou pro sistema biológico normal, eu acordava às 6h, dormia às 21h30, estava com fome nas horas certas, a cabeça estava boa. Foi dessa maneira que escolhi esta casa, demos um tapa no imóvel, uma coisa muito rápida. Pintei uma sala duas vezes, porque não gostei da cor, depois pintei a sala inteira de amarelo e pensei “não estou conseguindo viver com essa parede tão colorida, com esses quadros”. Fiz uma casa feminina, com cortinas e cores claras. Como sou eu e a Liz aqui, fiz uma casa pra ela.

O que é uma casa feminina pra você?

A casa tem muito rosa, tem muito amarelo, acho que tem essa suavidade em tudo. As peças, as cores, os móveis são mais orgânicos. Criei também uma sala mais divertida, mais preto e branco.

O que você acha que essa casa te oferece, em termos de conforto e bem-estar?

Acho que ela tem passarinhos, natureza. Por mais que seja no meio de São Paulo, ela tem uma combinação de introspecção e alegria. Pra onde você olha, tem alguma bagunça. Morei em casas mais zen, essa tem mais vida.

Como você acha que seu gosto mudou com o tempo?

Tudo na vida é acumulativo. Às vezes, você está muito focado em uma coisa, depois “nossa, olha isso, que legal, deixa eu explorar”. É um olhar curioso para as coisas. Eu, por exemplo, prefiro não ver Pinterest de jeito nenhum. Tento manter meu olhar livre de tendências, mais intuitivo do que informativo. Parto muito de compreender, dentro daquela casa, o que funciona para determinada pessoa. O tempo inteiro, eu vou num lugar, eu olho, eu vejo, eu pego amostra, eu testo. Estou o tempo inteiro colocando muito a mão na massa. E viajar, eu amo viajar, a minha alma é viajante, não abro mão de viajar. Eu falo muito pra minha equipe que a gente não tá criando uma imagem, um projeto pra uma foto. A gente tem que pensar na experiência que o cliente vai ter dentro daquele espaço, como é que eu quero que as coisas pareçam, que tipo de materiais, etc.

Qual você acha que é o papel da arte numa casa?

A arte é uma coisa muito pessoal. Ao longo do tempo, fui conhecendo e me educando, com uma relação zero colecionista. Algumas coisas me tocaram, outras foram curiosidade. Quando vim pra esta casa, que montei de uma forma mais experimental, criei uma parede “dos estranhos”, como Da Silva, Leonilson, Marepe. Fui brincando com essas ligações invisíveis que eu achava entre os artistas. Mas é algo que eu amo. Hoje, inclusive, onde eu pesquiso e estudo muito, é nas artes. É exatamente dessa liberdade do pensar que eu gosto, porque, para o artista, ter um papel em branco pode ser uma coisa super assustadora. Acho esse processo muito inspirador e acabo me inspirando até pra minha vida, pro meu trabalho e pra como encaro certas questões. Uma parede toda forrada de quadros é muito divertida, e cria uma troca muito legal com a casa. A Liz é muito observadora, ela vai e fala dos quadros, eu explico quem é o artista, o porquê, do que é feito, o que gera curiosidade nela. Às vezes ela faz uns comentários super pertinentes, ela observa e depois muda de opinião. Então ela mesma já tem essa troca, que é muito bacana.

O que você acha que torna uma casa única?

Acho que o arquiteto, o designer de interiores ou o decorador cria um espaço para que as pessoas que moram naquela casa criem suas memórias, sua identidade. O que traz a personalidade da pessoa é a dinâmica de cada família, a ideia de como cada um quer viver. Não fazemos o projeto para nós, mas para quem vai ocupar e viver nesse espaço. Acredito muito nessa colaboração com os moradores, em personalizar a experiência desse viver.

O que torna uma casa brasileira?

A gente vive num país com um clima maravilhoso, que é generoso, tem a temperatura certa. Então acho que a casa brasileira é uma casa que tem essa oportunidade de estar muito mais integrada com o seu ambiente, seja natureza, seja um jardim ou uma vista. São casas mais extrovertidas, voltadas para fora. Temos a vantagem de ter, por exemplo, beirais longos para proteger do sol, de criar varandas. Podemos viver muito fora de casa. O brasileiro tem esse lado muito despojado de viver e de receber. É óbvio, cada região acaba ditando certas soluções e maneiras de vivência. Mas definiria como sendo generosidade e integração com o externo.

Vindo de uma mistura cultural rica, argentina, japonesa e norte-americana, qual é o papel da comida e da alimentação dentro da sua casa?

Eu vejo a comida muito como uma oportunidade de você estar fazendo bem pra você mesmo. Comida também é um posicionamento de como você quer impactar o meio ambiente. Eu consumo pouca carne vermelha, como mais peixe. Enfim, eu tento ser consciente não somente quanto à saúde, mas à procedência do alimento que eu estou ingerindo.

O que significa a casa pra você?

A casa é seu abrigo, seu espaço, sua referência, seu templo. A casa é o meu local de encontro, de descanso, de ver a minha história ao redor de mim. Gosto muito também de trazer gente, de receber, de estar com os amigos em casa.

Que tipo de projeto ainda não realizou?

Nossa, tantos que eu ainda nem sei. Mas espero realizar projetos cada vez mais diversos e diferentes. Estamos fazendo um museu agora. Era um grande sonho pessoal, preparar uma instituição cultural. Estamos fazendo três, o IMS, uma fundação em Portugal, um para o [Instituto] Burle Marx.

E o que significa falar pra você passar pra tomar um cafezinho com alguém?

É um momento de encontro. O café, o ritual, é o momento que simboliza a pausa no dia pra você simplesmente se conectar com alguém. Às vezes até se conectar com si mesmo. Às vezes paro em meio à correria e tomo meu cafezinho sozinha. Também é gostoso.

Objeto de carinho

Esses objetos ficam na salinha de brinquedos da Lis. Uma escultura do Véio [Cícero Alves dos Santos]; um vaso da Minco Y Turola e uma figura “a alma” (representando o bem nos festejos de Reisado), comprados na loja da Amarello e que eu amo; uma pombinha de artesanato brasileiro; um bowl do Gaetano Pesce; e um Talking Stick, da Tanzânia. As tribos utilizam esse objeto de madeira, todo feito de miçanga, durante as rodas de conversa, para indicar quem tem a vez da fala.

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O que a inteligência das plantas nos diz sobre o futuro do mundo?

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Nos anos 1960 e 1970, surgiram experimentos que alegavam que as plantas possuíam sentimentos e respondiam a estímulos musicais (e faziam até testes de polígrafo!). Embora essas alegações tenham sido desmascaradas a ponto de virarem alvo de chacota, a jornalista climática Zoë Schlanger, em seu livro recente Devoradoras de Luz — que será lançada em novembro no Brasil, pela editora Objetiva —, nos mostra que as plantas são inteligentes de maneiras complexas que desafiam nossa compreensão, muitas vezes limitada às nossas próprias noções de espécie. 

“As plantas demonstram um interesse ativo no resultado de suas vidas. Sabíamos que reagiam ao ambiente, mas não de maneiras tão complexas e inteligentes”

Schlanger descreve essa inteligência como uma “forma de agência”, o que não quer dizer que as plantas vão desenvolver aparatos tecnológicos ou responder questões matemáticas. Quer dizer, na verdade, que as plantas demonstram um “interesse ativo no resultado de suas vidas”. Ou seja, elas sentem as condições às quais estão submetidas e tentam tirar o melhor delas, prezando pela própria sobrevivência. Essa nova visão, resultado de pesquisas e de respostas analisadas a partir de uma perspectiva moderna mais aberta, desafia a percepção tradicional das plantas como seres passivos e inertes, propondo que são afinal entidades ativas e responsivas, totalmente capazes de interagir com o ambiente de maneiras sofisticadas. A palavra “sofisticada”, vale dizer, é chave para entendermos a novidade: já sabíamos que as plantas reagiam ao ambiente, mas não de maneiras tão complexas e inteligentes.

Através de uma série de exemplos fascinantes, a jornalista revela como as plantas utilizam informações do ambiente para tomar decisões críticas. Plantas de tomate, quando atacadas por lagartas, liberam um componente químico que torna suas folhas desagradáveis, forçando as invasoras a se devorarem mutuamente; plantas de milho, por sua vez, analisam a saliva das lagartas predadoras e emitem um químico que atrai vespas parasitas, que então atacam essas lagartas. O nome disso? Inteligência, com todas as letras — esses comportamentos indicam um nível surpreendente de sofisticação na forma como as plantas interagem com o ambiente que lhes circunda, utilizando sinais químicos para se comunicar e se defender. 

Tal comunicação, muitas vezes referida como “sinalização” de plantas, demonstra que as plantas possuem sistemas intrincados para detectar e responder a diversos estímulos, o que sugere uma forma de inteligência e memória.

A ideia de que as plantas possuem uma forma de memória, aliás, é particularmente intrigante. No seu livro, Schlanger explora o conceito da “memória do inverno”, que se refere ao fato de que certas plantas precisam de um período de frio durante o inverno para conseguir florescer na primavera, indicando que elas “contam” os dias frios e quentes para garantir que não floresçam prematuramente. 

A autora Zoë Schlanger.

A explicação expandida é: a maioria das árvores frutíferas precisa “memorizar” um certo número de dias frios durante o inverno para poder florescer na primavera. Não basta apenas que o clima aqueça, elas precisam desse período profundo de frio, o que indica que, de certa forma, estão contando. Elas contabilizam os dias de frio e, em seguida, os dias de calor para garantir que não vão emergir prematuramente durante um aquecimento fora de época. Embora isso ocasionalmente ocorra, resultando na perda de colheitas para muitos agricultores, há evidências de que partes da fisiologia das plantas registram essa informação. No entanto, assim como ocorre com as pessoas, ainda não se sabe exatamente onde ou como essa memória é armazenada.

Essa capacidade de registrar informações ambientais e ajustar seu comportamento subsequente é mais uma forma de adaptação evolutiva que demonstra a complexidade inegável da vida vegetal.

E o que isso nos diz sobre o futuro do mundo? 

“A inteligência das plantas nos obriga a reconsiderar nosso papel no meio ambiente”

Primeiro, a inteligência das plantas nos obriga a reconsiderar nosso papel no meio ambiente. Reconhecer que as plantas possuem formas sofisticadas de comunicação, memória e resposta ao ambiente nos leva a entender, ou começar a entender, a interconexão e a interdependência dos sistemas vivos. Quanto mais nos lembrarmos que existe um grande ecossistema e que, no final, somos apenas parte dele e não o seu centro, melhor. Em um momento em que enfrentamos desafios ambientais cada vez maiores, como as mudanças climáticas que já há tempos apresentam resultados devastadores, essa perspectiva é indispensável. As plantas, com sua capacidade de adaptação e comunicação, oferecem lições valiosas sobre resiliência e, sobretudo, cooperação. Aprender com elas é desenvolver estratégias mais eficazes e sustentáveis para preservar o meio ambiente e enfrentar os problemas globais que ameaçam nossa existência.

A memória das plantas e sua capacidade de adaptação em particular são relevantes. Não seria melhor, especialmente no contexto do aquecimento global antropomórfico, se pudéssemos responder ao mundo ao redor e não forçar o mundo para que ele responda a nós? Plantas que podem ajustar seu comportamento com base em experiências passadas podem ter uma vantagem adaptativa, influenciando estratégias de conservação e agricultura sustentável. O conhecimento sobre como elas se comunicam e se defendem incute em nosso raciocínio a possibilidade do desenvolvimento de novos métodos biológicos para proteger culturas agrícolas de pragas, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

Expandir nossa definição de inteligência e agência para incluir o reino vegetal incentiva a adotar uma visão mais holística e integrada da vida na Terra. Há outras formas de viver. Há outras formas de estar aqui e dialogar com o que mantém o planeta vivo. As plantas nos mostram que a vida é mais interconectada e interdependente do que muitas vezes percebemos. Essa percepção pode ser um catalisador para um futuro mais sustentável, em que a cooperação e a coevolução com o ambiente são reconhecidas como essenciais para a sobrevivência e o bem-estar de todos os seres vivos.

As descobertas sobre a inteligência das plantas também destacam a importância da mente aberta na investigação científica. Muitos botânicos e biólogos ainda recuam diante do estudo da inteligência das plantas devido ao dano causado por alegações não científicas no passado. No entanto, a narrativa de Schlanger ressalta que a validação rigorosa de novas teorias e a disposição para explorar o desconhecido são fundamentais para o avanço do conhecimento.

O que a inteligência das plantas mostra sobre o futuro do mundo é simples: devemos reconhecer e valorizar a complexidade e a interconexão da vida vegetal. Com suas capacidades surpreendentes, as plantas ensinam valores que, embora essenciais para o futuro, parecem estar em baixa. 

Será que, em algum momento, estaremos prontos para aprender com essa outra inteligência e — finalmente — redefinir nossa abordagem na preservação do planeta?

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A discussão sobre o tabelamento dos preços de livros no Brasil tem gerado debates acalorados, dividindo opiniões entre defensores e críticos. O Projeto de Lei 49/2015, conhecido como Lei Cortez, busca regular o preço dos livros no mercado nacional, impondo um preço fixo para os lançamentos durante os primeiros 12 meses. O projeto, que recentemente avançou no Senado, foi originalmente apresentado pela ex-senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e ressuscitado pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). Inspirado na bem-sucedida Lei Lang, em vigor na França há mais de 40 anos, tem como intenção fomentar a leitura e proteger as livrarias independentes, permitindo que estas possam competir com grandes varejistas, especialmente as plataformas de venda online. Não à toa, a gigante Amazon é o principal alvo da Lei Cortez. 

Atualmente, as grandes redes exigem descontos das editoras sobre o preço sugerido dos livros, podendo praticar um valor final mais baixo para o consumidor. Em contrapartida, as pequenas livrarias não conseguem obter os mesmos descontos e acabam cobrando preços mais altos do consumidor. Órgãos públicos federais, estaduais ou municipais, bem como feiras de livros, também podem obter descontos.

“o desconto não poderá exceder 10% do preço fixado pela editora durante 12 meses após seu lançamento”

Se a Lei Cortez for aprovada, o desconto de qualquer livro não poderá exceder 10% do preço fixado pela editora durante 12 meses após seu lançamento. A partir da segunda edição, o prazo de validade do teto do desconto será reduzido para seis meses. Após esse prazo, a política de descontos fica liberada. Órgãos públicos federais, estaduais e municipais, e feiras de livros serão excluídos da regra geral, podendo obter descontos maiores, desde que a compra seja feita diretamente com as editoras.

As principais argumentações de ambos os lados são:

Contra o Projeto de Lei

Os críticos da Lei Cortez defendem que a fixação de preços para livros prejudica tanto as editoras quanto os consumidores. Argumenta-se que o alto custo dos livros no Brasil se deve às baixas tiragens, resultadas diretamente da baixa demanda. Como efeito, os preços elevados dos livros desestimulam a compra, criando um ciclo vicioso: poucos leitores compram livros, o que mantém as tiragens baixas e, consequentemente, os preços altos.

As editoras — negócio que, como qualquer outro, precisa ser lucrativo — se beneficiariam de uma maior liberdade para ajustar os preços conforme a demanda. Descontos estratégicos, especialmente em plataformas como a Amazon, ajudam a impulsionar as vendas, tornando os livros mais acessíveis ao público e permitindo que editoras e livrarias aumentem sua receita total, mesmo com preços unitários menores.

O jornalista Elio Gaspari, em matéria que leva o título A volta da tunga dos livreiros e o subtítulo Querem tabelar para proibir os descontos, argumenta que:

“É um caso especial de tabelamento, pois enquanto o costume é tabelar uma mercadoria para impedir que se cobre a mais, nessa girafa pretende-se impedir que o comerciante cobre menos. (…) Os livreiros têm uma aura apostolar. Afinal, um livro não seria um sabonete. Ilusão. Livros, sabonetes e caminhões são mercadorias. Tanto é assim que, há muitos anos, quando era mais barato imprimir um livro na China, algumas editoras passaram a rodá-los em Xangai, trazendo os volumes para o Brasil. As duas maiores redes de livrarias nacionais quebraram, muito mais por causa de suas acrobacias financeiras do que pela concorrência. Quando as grandes redes afogavam as pequenas livrarias, ninguém falava em tabelamento.”

A principal crítica ao PL 49/2015, portanto, é que ele impediria preços mais acessíveis ao proibir descontos superiores a 10% durante o primeiro ano de lançamento do livro. A restrição é comparada a políticas de controle de preços do passado, como os infames “fiscais do Sarney”, que muitas vezes resultaram em fracassos econômicos. A preocupação é que o tabelamento levará a uma redução nas vendas, obrigando editoras a diminuir ainda mais as tiragens e, consequentemente, aumentar os preços, criando uma situação insustentável para todo o mercado e ferindo quem já está bem combalido: o leitor.

Gaspari arremata: “Reclama-se que o freguês vai a uma livraria, consulta os volumes e, ao voltar para casa, encomenda-o eletronicamente. Os comerciantes que fazem essa reclamação fazem compras online e não pensam em tabelar os sanduíches. Ademais, todas as grandes editoras têm operações de venda eletrônica. Se cobram mais caro ou forçam a venda de livros físicos em detrimento dos e-books (mais baratos), o problema é delas.”

A favor do Projeto de Lei

Por outro lado, os defensores da Lei Cortez veem nela uma forma de proteger as pequenas livrarias e editoras da concorrência predatória das Amazons da vida. Eles argumentam que as grandes redes conseguem oferecer descontos significativos devido ao seu poder de negociação, o que prejudica as pequenas livrarias que não conseguem competir com esses preços.

O objetivo da Lei Cortez, segundo seus proponentes, é garantir uma maior diversidade no mercado livreiro, permitindo que livrarias de diferentes portes coexistam. Isso criaria uma tapeçaria de opções muito mais diversificada e abrangente, fugindo do monopólio que reduz as possibilidades de todos os envolvidos. Leis similares em países como França, Espanha e Argentina têm sido citadas como exemplos de sucesso, onde a regulação de preços ajudou a diminuir o preço médio dos livros e a preservar a biodiversidade cultural representada por pequenas livrarias.

Alexandre Martins Fontes, diretor-executivo da Editora WMF Martins Fontes e da Livraria Martins Fontes Paulista, rebateu diretamente os argumentos de Gaspari:

“A ideia dessa lei é impedir que empresas gigantescas (…), sem nenhum compromisso com a cultura do nosso país, tratem o livro como isca e deem descontos abusivos.”

A preocupação central dos defensores da lei é que, sem essa regulamentação, o mercado livreiro se tornará um oligopólio dominado por poucas grandes empresas, reduzindo a diversidade de oferta e centralizando o poder de precificação. Eles acreditam que a lei ajudará a manter as livrarias físicas nas cidades, que são importantes espaços culturais e sociais.

“A lei”, escreve Martins Fontes, “limita-se apenas a livros lançados nos últimos 12 meses, que teriam um desconto máximo de 10%. Ou seja, não atinge sequer 5% do total das obras disponíveis no mercado nacional e vale por um período que dará às pequenas livrarias a chance de uma concorrência mais leal, em produtos que atraem clientes e geram um movimento fundamental para as lojas menores. Ao garantir isso, a lei permite que mais livrarias possam coexistir e que mais livros, dos mais variados temas, possam ser descobertos pelos mais variados leitores. Se ficarmos apenas nas mãos de uma empresa (digamos, a livraria Amazon), podemos até comprar livros pela metade do preço, mas serão apenas os livros que ela entender que valem a pena ser vendidos.”

Há quem concorde com Gaspari, há quem concorde com Martins Fontes — mas há quem concorde com os dois. 

“a taxação de livros no Brasil reflete uma tensão clássica entre a liberdade de mercado e a intervenção regulatória”

A discussão sobre a taxação de livros no Brasil reflete uma tensão clássica entre a liberdade de mercado e a intervenção regulatória. De um lado, há a visão de que a regulação excessiva sufoca a inovação e a flexibilidade necessárias para um mercado dinâmico. Do outro, há a preocupação com a proteção das pequenas empresas e a preservação da diversidade cultural.

Ambos os lados apresentam argumentos válidos que merecem consideração. A decisão final sobre a implementação da Lei Cortez deverá levar em conta os impactos econômicos e culturais de longo prazo, buscando um equilíbrio que favoreça tanto o acesso aos livros quanto a sustentabilidade do mercado livreiro no Brasil.

Países como Alemanha e Espanha são exemplos que deixam claro que o projeto pode, sim, ser benéfico não somente às livrarias independentes, mas também aos consumidores. No Reino Unido, no entanto, onde a lei do preço fixo vigorou de 1996 a 2018, houve aumento de cerca de 80% no preço dos livros. 

Com a lei em prática, seríamos um caso que penderia mais para o lado da Alemanha e Espanha, ou para o Reino Unido? Difícil dizer. O contexto brasileiro, afinal, é o contexto brasileiro. Sem a Lei Cortez, o cenário também não é animador, já que o número de leitores no país é baixo. Segundo o Panorama do Consumo de Livros, pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em 2023 e realizada pela Nielsen BookData, mostra que 84% dos brasileiros acima de 18 anos de idade não compraram livros nos últimos 12 meses.

Em outras palavras, que se seja contra ou a favor da Lei Cortez — não é de hoje, mas a maré parece pouco favorável à leitura

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Você já se emocionou com essa cena: diante das maiores adversidades, que variam entre vilões superpoderosos que querem dominar o mundo e questões familiares/financeiras/societárias, os protagonistas não desistem de sua missão. Se a partida está cinco a zero faltando poucos minutos para o apito final, ainda há chance de buscar o empate e até a vitória; se a arapuca parece insolucionável e a morte iminente soa como inevitável, uma fagulha de energia é tirada de alguma fonte inesgotável de força para buscar a sobrevivência. A narrativa é batida. Mas que força de vontade é essa? O que é que nos emociona tanto nessas cenas? A resposta é simples: o que nos toca nelas é a desconsideração total e completa que esses personagens demonstram diante da possibilidade de desistir. Dentre as poucas alternativas que sobram em situações adversas, desistir simplesmente não é uma delas. Isso nos emociona. Desistir, de acordo com o que nos é ensinado explícita e implicitamente, é um ato indigno; não desistir, por sua vez, é o que há de mais louvável. Heróis não desistem, se não não seriam heróicos. Bons exemplos, os tais role models, não desistem, se não não seriam exemplares. 

“Desistir é um ato indigno”

E o que isso quer dizer sobre a visão padronizada do que é a desistência? Ela invariavelmente é sinônimo de algo ruim, do fracasso retumbante. É o não-terminar algo positivo, é aquilo que as pessoas fazem quando não estão mais buscando o que as fariam felizes.

Mas, afinal, será que desistir é mesmo tão ruim?

No livro Sobre Desistir, publicado em versão brasileira pela editora Ubu, Adam Phillips escreve um sedutor manifesto a favor da complexidade da natureza humana e contra o binarismo pobre entre triunfo e fiasco, uma reflexão que se distancia do que nos é dado como verdade absoluta ao explorar as várias facetas da desistência e sua influência sobre nossa psique e jornada existencial. O psicanalista e psicoterapeuta britânico se debruça sobre concepções convencionais de sucesso e fracasso para propor uma reflexão tão inovadora quanto libertadora acerca do papel da desistência na formação da identidade e na busca pelo significado na vida.

“Será que conseguimos qualificar o sacrifício sem nos deixar ser indevidamente impressionados por ele, sem glamurizá-lo, seja como tragédia, seja como farsa? Será que conseguimos atentar para a distração do sentimento de superioridade interior gerado pelo sacrifício, sem nos sentirmos superiores por reconhecê-la? Ou melhor, podemos falar sobre desistir — requalificar a desistência — como um útil indício de nossa complexidade moral e emocional, em vez de mais uma de nossas provações prediletas?”

— Adam Phillips, em trecho de Sobre Desistir

O ponto de partida da obra é uma provocação fundamental: o que realmente significa desistir? Com texto suave, fluido e para lá de acessível, o autor recusa o academicismo afetado e consegue nos instigar a questionar nossas noções preconcebidas sobre esse ato tão malfadado, desafiando a ideia de que desistência é igual a fracasso. No lugar, vemos sobreaguar uma perspectiva nova que chega a ser um respiro de alívio: e se tomássemos a desistência como um ato de coragem e discernimento? E se ela fosse uma oportunidade de abandonar aquilo que não nos serve mais e abrir espaço para novas possibilidades de crescimento e descoberta?

“Se encaramos a desistência como uma catástrofe a ser evitada, que imagem formamos da desistência de fato? Quando não nos deixamos afetar demais pela desistência, percebemos aquilo que valorizamos. Criamos todo um mundo a partir disso.”

— Adam Phillips

Ao longo do livro, Phillips tece uma rica tapeçaria de ideias, recorrendo a uma ampla gama de referências literárias, filosóficas e psicanalíticas para enriquecer sua análise (sem parecer que está se esforçando demais para tanto). Autores que vão de Franz Kafka e William Shakespeare a Sigmund Freud, Jacques Lacan, Donald Winnicott e Friedrich Nietzsche são convocados para iluminar diferentes aspectos dessa desistência phillipiana e toda a relação com questões mais amplas, como identidade, liberdade, desejo e autenticidade. 

Desistir, ao contrário do que se prega amiúde, pode ser um ato supremo de livre-arbítrio, uma atitude que pode nos definir não como pessoas perdedoras ou ressentidas, mas como pessoas donas de nós mesmas, verdadeiras conhecedoras de nossas vontades e limites. Entregar os pontos talvez não seja o fim do mundo, mas o começo de um universo que esteja mais de acordo com a essência que nos cabe.

Uma das contribuições mais significativas do livro, portanto, é a exploração da relação entre desistência e autoconhecimento. Phillips argumenta que a desistência pode ser vista como um ato de autoconsciência e maturidade, permitindo-nos priorizar valores mais profundos e significativos em nossas vidas. Ao abandonarmos objetivos que já não nos servem mais, seja lá por qual razão, abrimos espaço para um crescimento autêntico e uma maior integridade pessoal. Essa é uma cena que deveria nos emocionar: quando abrimos mão de alguma coisa para lançá-la a outras empreitadas.

“Talvez não precisemos pensar na vida em termos de perdas e ganhos, ou lucro e prejuízo, como a ideia de desistir pode implicar, reforçando assim uma norma cultural muito apreciada. Talvez não precisemos perder a vida para encontrá-la; podemos simplesmente procurá-la por aí (encarar o luto talvez não seja o que mais queiramos fazer, nem a única coisa a ser feita, nem aquilo que somos obrigados a fazer). Talvez tenhamos subestimado nossas tentações. Pode ser que tenhamos nos distraído com uma analogia.”

— Adam Phillips

Há uma complexidade moral e existencial na desistência, o que causa inúmeras tensões entre desejo e renúncia, liberdade e responsabilidade. A decisão de desistir, como nos lembra Phillips, muitas vezes envolve um delicado equilíbrio entre nossos impulsos individuais e nossas obrigações éticas e sociais. Ao reconhecermos a importância da desistência como um aspecto fundamental do crescimento humano, podemos libertar-nos das expectativas opressivas da sociedade e abraçar uma maior autenticidade e plenitude em nossas vidas.

“Pretendo sugerir neste ensaio que existe uma parte de nós que precisa saber o que está fazendo, e outra parte que precisa não saber. E, na mesma medida, existe uma parte de nós que precisa saber o que quer e outra que precisa não saber. Há liberdades conectadas a ambos os aspectos de nós, que animam um ao outro — nossa vontade depende de sabermos e de não sabermos o que queremos.”

— Adam Phillips

Nas conclusões, como muitos capítulos finais, voltamos a memórias de infância. Será que são autênticas? E quais são suas funções? Na discussão, o autor destaca: “As memórias que temos nem sempre são passíveis de confirmação alheia nem são compartilhadas pelas pessoas que parecem fazer parte delas.” Essa observação levanta dúvidas sobre a confiabilidade das lembranças e ressalta a natureza solipsista e fugidia da infância quando rememorada.

O autor também aponta para a ideia de que as memórias de infância podem ser mais como “sonhos ou cenas simbólicas que simplesmente codificam os desejos da infância”, ao invés de representações precisas de eventos reais. Ele sugere que essas memórias são mais uma “memória do desejo, não de uma verdade histórica”, o que nos leva a questionar o que realmente estamos recordando quando pensamos em nossa infância.

“É na infância que aprendemos pela primeira vez a abrir mão das coisas. É na infância que somos introduzidos aos benefícios e ao sofrimento muito real implicados na frustração. E, sobretudo, é na infância que somos encorajados a abrir mão de nossa megalomania — nossa presunção onisciente e onipotente de que o mundo é organizado pelo que precisamos e queremos — e a reconhecer gradualmente que as pessoas de que precisamos não estão nem podem estar sob nosso controle remoto. Em outras palavras, tornou-se impossível conversar sobre o crescimento sem conversar sobre o sacrifício. A questão é sempre: o que temos de sacrificar para nos desenvolver, para seguir para o próximo estágio de nossa vida?”

— Adam Phillips

A reflexão sobre o propósito e a função da memória também é destacada, com o autor levantando a questão sobre o que as pessoas buscam ao recordar sua infância. Ele pergunta: “Falar sobre a infância é uma maneira de querer o quê? Ou de falar sobre o quê?” Essas perguntas nos convidam a considerar o significado mais profundo por trás de nossas lembranças e a refletir sobre o papel que elas desempenham em nossa identidade e compreensão de nós mesmos — e é aí que o ciclo do livro se fecha.

Sabemos o que queremos? Talvez menos do que estamos dispostos a admitir a nós mesmos. Sendo assim, como seria possível demonizar tanto o ato de deixar de correr atrás de algo? Ou, então, de buscar constantemente aquilo que supostamente nos faz viver. Ao deixar de lado algumas noções criadas a partir da infância, abrimos brechas em nossa vida e nos questionamos sobre o propósito e o significado delas. O que estamos sacrificando ao nos desenvolvermos? E como essas renúncias moldam nossa jornada rumo à idade adulta? 

“Sabemos o que queremos? Talvez menos do que estamos dispostos a admitir a nós mesmos.”

No meio dos pontos de interrogação que inundam toda e qualquer rotina, desistir não parece de todo ruim: é mais um fato da vida. Em determinadas circunstâncias, desistir é a atitude mais heroica que há.

Nossas construções são edificadas sobre bases pouco confiáveis e, muito embora sejam tudo que temos, é importante não depositar nelas todo o nosso peso — é assim que a casa cai.

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Os Millennials e a Geração Z carregam um título que ninguém gostaria de carregar: são a geração mais ansiosa da história. Antes, a expectativa que perdurava no ar era a de que, com avanços médicos e tecnológicos, cada próxima geração se sairia mais completa, mais próxima à perfeição que a anterior. Mas a ironia não deixaria que isso fosse cem por cento verdade. A sensação que predomina é que estamos diante de uma geração em que isso não condiz com a realidade, pois, apesar dos avanços em inúmeras áreas — e em algumas, por causa dos avanços —, questões maiores parecem ficar no caminho da plenitude.

Pessoas nascidas entre 1981 e 1996, no caso dos Millennials, e entre 1997 e 2010, no caso da Gen Z, cresceram em um mundo altamente digitalizado, enfrentando uma somatória de desafios. Entre os fatores que pintam esse quadro estão desde questões globais como mudanças climáticas e polarização política até problemas pessoais como instabilidade financeira e a inevitabilidade perniciosa das redes sociais.

No livro Geração Ansiosa: Um guia para se manter em atividade em um mundo instável, a psicóloga clínica, Lauren Cook, fala abertamente sobre sua experiência pessoal para oferecer uma abordagem honesta e repleta de métodos práticos de como lidar, ou tentar lidar, com a sobrecarga de informações e arapucas da atualidade. Nascida no começo dos anos 1990, ela também carrega o peso de sua geração, tentando esquematizar soluções e, por vezes, tirar algo positivo da história toda. Além de sua própria experiência com a ansiedade, se baseou em pesquisas psicológicas sólidas e vivências diversificadas de seus pacientes para escrever o livro. Cada capítulo tem um personagem-paciente central, que não existe como uma pessoa específica, mas como uma amálgama de relatos de seus pacientes e sensações comuns às temáticas tratadas naquele conjunto de páginas.

Para começo de conversa, Cook reconhece que, embora a tecnologia tenha facilitado o acesso à informação, ela também trouxe um constante bombardeio de notícias preocupantes e a pressão onipresente das redes sociais, um ambiente em que a comparação diária com os “melhores momentos” dos outros pode intensificar sentimentos de inadequação e isolamento. Por mais que se tenha a noção de que as redes não retratam as vidas verdadeiras das outras pessoas, é comum que os stories e as postagens façam com que quem quer que esteja vendo sinta que não está fazendo muito, que não está aproveitando a vida ao máximo, que sua vida profissional não foi para frente como ela sonhava, que seus dias são enfadonhos e pouco compartilháveis. A comparação por si só já é um problema. Sempre foi. Mas a comparação com algo totalmente irreal é ainda mais problemática.

Cook compara a crise de ansiedade à sensação de afogamento — assustadora, avassaladora e, sim, por vezes geradora da sensação de que a vida está por um fio. Muitos jovens hoje descrevem a experiência como se estivessem se afogando, inundando seus pulmões em um mar de inseguranças e desafios. As águas desse mar ficam violentas com os ventos fortes de uma ansiedade que é exacerbada por fatores que não eram tão predominantes ou intensos nas gerações anteriores — Baby Boomers (1946-1964); Geração X (1965-1980) —, o que explica em parte por que os níveis de ansiedade são mais elevados nas gerações Y e Z.

“Estamos cansados. Temos dúvida de que alguma coisa possa fazer diferença. O desgaste da ansiedade ao longo dos anos desenvolveu um tártaro emocional que nos deixou endurecidos. Nosso ceticismo nos deixou isolados em nossas redes sociais e telas da Netflix. Embora todos nós estejamos sofrendo coletivamente, podemos sentir como se ninguém entendesse nossa dor.”
— Lauren Cook, em Geração Ansiosa

Uma explicação popular para tanta insegurança e instabilidade profissional é a tese do “floco de neve”, de que os jovens de hoje foram demasiadamente mimados pelos pais, sendo permitidos a evitar a responsabilidade e a independência que fomentam a resiliência mental. Mas essa visão, claro, subestima esses jovens, ignorando o contexto maior em que eles estão inseridos. Há, de fato, novos desafios a serem superados, desafios que as gerações anteriores não tinham, especialmente quando se trata de preocupações com o futuro, seja por perspectivas de emprego ou por questões socioambientais. Não é sobre ser mais difícil ou menos difícil, mas o fator “tudo ao mesmo tempo no mesmo lugar”, somado à incerteza da existência de um futuro, configura um panorama novo, que demanda adaptação.

É sintomático que os Millennials tardios e a Geração Z estejam adiando muitos dos marcos da vida adulta que as gerações anteriores consideravam indispensáveis: muitos não são proprietários de imóveis, muitos não estão em relacionamentos sérios, muitos não estão se casando por escolha própria. Sem marcos que representam avanço, seus esforços para progredir acabam sendo frustrados, o que faz com que permaneçam inertes em posições fetais confortáveis, que não exigem movimento e, às vezes, se vier a calhar, nem custos financeiros. Por essas e outras, há uma demora cada vez maior para que deixem a casa dos pais. Como um todo, essas gerações têm níveis de escolaridade altos — na verdade, dos mais altos que já existiram —, mas o caminho para o sucesso está bem menos claro. 

Com a promessa de que o trabalho deve ser uma atividade apaixonada, monetizando muitas vezes um hobby ou algo que num contexto pessoal seria uma paixão, há uma enorme pressão para que a vida profissional não seja um mero ganha-pão. Ela tem que ser um prazer. Na teoria, funciona; na prática, nem tanto. O sentimento constante de insatisfação reverbera com força quando se é pressionado a ser feliz e agradecido inclusive nas oito horas diárias (se não forem mais) de labuta. Pois, se uma pessoa não se sente exatamente assim, saltitante com o que faz para viver, a cobrança começa vir dela mesma — algo como: “Naqueles últimos stories, as pessoas pareciam felizes com o trabalho. Por que não estou assim com o meu? Algo deve estar errado.” Fato é que, por mais que se trabalhe com algo que converse com suas afinidades pessoais, nada é mais natural que o desgaste aconteça e nem tudo seja rosas. 

Um efeito colateral disso é que, hoje em dia, para essas gerações, parece não haver mais espaço para atividades que exigem uma certa adaptação. Quando o trabalho é visto como uma extensão do prazer, ele rapidamente será considerado como não adequado. Afinal, estamos falando de cobrança, prazos, compromissos, estresse — e isso faz com que as pessoas troquem de trabalho rápido, sempre em busca desse ideal profissional que nem sempre existe. Há o lado positivo de estarmos mais atentos a ambientes tóxicos de trabalho e a chefes que maltratam seus funcionários. Nesse aspecto, houve um avanço inegável. Mas mesmo os aspectos positivos podem contribuir para a ansiedade, já que, depois de reconhecer um ecossistema ruim, estamos em um período de transição, o que quer dizer que os abusos morais ainda ocorrem com muita frequência e os burnouts estão longe de acabar. 

“Se você está considerando a suposição de que não está sendo uma boa amiga quando já está se virando do avesso para ajudar, ou de que tem ‘sorte’ por conseguir todo esse trabalho extra sem uma mudança de posição e uma compensação, temos que conversar. Não só você está em águas infestadas de tubarões, como temo que tenha vestido uma fantasia de foca, minha amiga. Pior ainda, se seus amigos, seu parceiro ou seu chefe fazem você acreditar que ainda não está fazendo o bastante quando está fazendo tudo o que pode, você agora está oficialmente na gaiola do tubarão, esperando que as grades sejam quebradas. Temos que encontrar uma saída.”
— Lauren Cook

Ao mesmo tempo, os Millennials e a Geração Z estão muito mais conscientes das questões de saúde mental. São mais capazes de articulá-las do que seus pais. Quando gerações mais velhas deixavam empregos, poucos acusavam questões psicológicas. As novas gerações estão mais em sintonia com suas necessidades, dizendo: “Eu tenho ansiedade,” ou, “Fui diagnosticado com depressão.” Mas o estigma persiste. Os jovens podem estar mais conscientes do que os aflige, mas relutam em falar sobre isso no trabalho. Alguns profissionais jovens estão lidando com problemas de saúde mental pela primeira vez, preocupados com a imagem, muitas vezes negligenciando suas necessidades até que se tornem insustentáveis.

Um dos pontos surpreendentes levantados por Cook em Geração Ansiosa é como a ansiedade pode ser transmitida de geração em geração. 

“Podemos ser impactados num nível biológico, microscópico. A investigação dos efeitos de traumas intergeracionais teve início quando pesquisadores começaram a estudar sobreviventes do Holocausto e notaram que, em alguns casos, os filhos de sobreviventes de campos de concentração pareciam ser mais traumatizados do que os próprios sobreviventes. A partir dos anos 1990, esses estudos foram ainda mais longe, examinando o impacto do trauma geracional sobre a expressão gênica, um campo de estudo conhecido como epigenética. Um estudo significativo constatou que crianças podem ser afetadas pela exposição a traumas parentais não apenas antes de nascerem, mas antes mesmo de serem concebidas. Tudo isso para dizer: nosso DNA pode ser literalmente modificado por causa da dor que nossas mães, pais, avós e gerações anteriores suportaram.”

O trauma e o estresse podem alterar fisicamente nossos genes, um fenômeno que tem implicações profundas sobre como entendemos e tratamos a ansiedade. O futuro, se é que existe, não parece promissor para os filhos da geração ansiosa. No entanto, a pesquisa também mostra que mudanças positivas no estilo de vida podem reverter esses efeitos, oferecendo uma visão mais esperançosa para o futuro. Haveria, então, salvação?

Seja como for, tanto os Millennials quanto a Geração Z têm sido lentos para abraçar a vida adulta com entusiasmo, juntamente com a independência que costumava ser atraente para os adolescentes. Adulting, ou “adultar”, agora se tornou um verbo, como se alguém tivesse escolha no assunto. A carteira de motorista é um exemplo — cada vez mais jovens estão renunciando dela, já que estão ou acostumados a usar Uber e transporte público ou pegar caronas com os pais. O que antes era um sinônimo de liberdade e amadurecimento, hoje é algo dispensável. Em números recordes, os jovens simplesmente não veem isso como algo que os preocupa.

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, “adultar” está longe de ser prioridade. 

Reconhecendo os desafios, há uma busca por soluções de saúde mental online, impulsionando o crescimento de uma nova indústria bilionária. Aliás, serviços de coaching, mentoria e terapia online estão se expandindo rapidamente para atender a demanda. Relatórios mostram que o mercado global de coaching online deve crescer significativamente, atingindo US$ 11,7 bilhões até 2032, enquanto o mercado de terapia online pode chegar a US$ 16,16 bilhões até 2028.

Talvez haja muitas coisas boas por vir. O difícil vai ser construir a estrutura de saúde mental necessária para que não desmoronem enquanto isso.

Para Lauren Cook, é verdade que a ansiedade é um dos grandes marcos da atualidade e das gerações que carregarão o futuro adiante. Mas, com um misto de preocupação e esperança, a autora acredita que, cedo ou tarde, o mundo oferecerá desafios impossíveis de serem enfrentados sozinhos. E aí a escolha terá que ser feita: ou a geração ansiosa afunda no mar de problemas ou ela os enfrenta de cabeça erguida. Para isso, tem que se transformar na geração unida.

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No calor de algumas das mais animadas ruas e vielas do Rio de Janeiro, entre batuques e sorrisos sinceros, desfila uma tradição tão antiga quanto as montanhas que cercam a cidade maravilhosa. Provavelmente você já ouviu falar dos bate-bolas; mas você sabe, de fato, quem são? Esses guardiões da cultura popular carioca emergem das sombras como personagens míticos, vestidos com suas indumentárias coloridas e máscaras exuberantes, para celebrar o carnaval e manter viva uma história que se entrelaça com a própria essência do espírito carioca.

Remontando às raízes do carnaval do Rio, os bate-bolas são herdeiros de uma história rica e multifacetada — e aqui, no meio de uma longa linha do tempo e de um sem-fim de máscaras, o termo “multifacetado” ganha a beleza da literalidade. Originários das camadas populares e suburbanas, eles surgiram como uma forma de expressão cultural e social, carregando consigo o peso da resistência e da identidade de uma cidade em constante transformação. Aconteça o que acontecer, os bate-bolas estarão de volta quando as épocas de folia chegarem, e, como qualquer um que já presenciou essa magia carnavalesca pode provar, capturariam a atenção de multidões, fosse esse o objetivo.

Mas, não, os bate-bolas não acontecem para multidões verem. Se elas aparecerem para vê-los, tudo bem, mas não é isso que move esses grupos. Eles estão mais interessados em dar vida às entranhas da cidade. Cada encontro é uma viagem ao coração da cultura carioca, uma celebração da diversidade e da criatividade que permeiam as ruas estreitas e os becos escondidos.

Quem são?

A pesquisadora Rafaela Pinah, além de ajudar com a direção criativa de muitas turmas de bate-bola, também estuda os grupos desde 2016. Para ela, o fator cultural e financeiro se misturam para criar um panorama social para lá de positivo: “São economias criativas nos bairros, no subúrbio”, conta. “Elas são extremamente interessantes nessa dinâmica de fator financeiro. Como é que gera e circula o dinheiro ali, nesse movimento inteiro, o ano inteiro? Hoje essas pessoas podem vislumbrar o lugar dessa potência cultural, de agentes culturais locais, trabalhando inteiramente para a cultura do governo do Estado do Rio de Janeiro, criando e trocando com as turmas, trazendo um trabalho psíquico e pedagógico também para essas crianças.”

Com barulho, fantasias trabalhadas que demandam meses de preparação e organizados em grupos que podem chegar a duzentas pessoas, os foliões conhecidos como clóvis — outro nome para os bate-bolas — fazem parte de uma tradição que existe há décadas nas ruas do subúrbio carioca.

Quando o carnaval chega, uma coisa é certa: eles estão vestidos com suas máscaras, luvas, talvez um meião, talvez algo que nem seja facilmente identificado, e sempre estão ou empunhando bexigas ou sombrinhas. A prática é antiga, com registros do início do século XX, mas isso não quer dizer que as portas estejam fechadas para a modernidade: os temas das fantasias se inspiram em personagens da cultura pop, além de a confecção dos trajes utilizar alta tecnologia nas estamparias e os hinos serem gravados em estúdios.

“Temos uma dualidade nesse lugar do contemporâneo e da tecnologia”, reflete Rafaela. “É uma roupa cara de ser feita, de ser produzida. Atualmente, há grupos de jovens com mais recursos e criatividade para criar suas vestes, enquanto outros, com menos recursos, também conseguem criar peças suntuosas usando materiais antigos. Então, você vê essa dinâmica, as turmas entrando também para as redes sociais, a fotografia, a documentação, a capa, o catálogo. O festejo também é super importante para isso!”

Em outro momento “sinal dos tempos”, hoje em dia, portais da internet cobrem alguns dos bate-bolas mais famosos, o que seria inimaginável tempos atrás, quando a imprensa (e todo mundo) não dava a mínima para as festas que ocorriam pelas regiões suburbanas da cidade.

Há até histórias que dão um aceno positivo para o novo momento, comprovando que a novidade não passa a borracha no que já foi, mas tem o poder de renová-lo e até melhorá-lo: “Vou falar de uma figura extremamente importante e emblemática neste lugar, aqui em Realengo, que é o seu Hélio, que era a pessoa que fotografava, revelava na quarta-feira de cinzas e colocava isso num painel. Hoje não, hoje a gente tem uma dinâmica muito mais rápida das fotografias e das imagens”. A instantaneidade trabalha a favor da festa proporcionada pelos bate-bolas.

De um jeito ou de outro, as pessoas dão continuidade a essa tradição. Mais do que simples performances carnavalescas, nesses festejos há um legado precioso que merece ser preservado e valorizado, marcados por tradições orais, ritmos ancestrais e histórias contadas ao som dos tambores.

Para compreender a importância e a profundidade dos bate-bolas, é necessário adentrar nos recônditos das comunidades, onde cada grupo tem sua própria história, seus próprios heróis e suas próprias lendas.

De onde vêm?

Os trajes que mesclam as cores vibrantes de sua terra têm resquícios de uma antiguidade distante. As hipóteses sugerem que suas vestimentas são uma metamorfose de fantasias europeias, um eco dos mitos celtas que atravessaram oceanos para encontrar solo brasileiro. E no nome “clóvis”, uma reverberação estrangeira ecoa a essência de um palhaço, um arquétipo universal entrelaçado à alma desses foliões. Ou seja, na essência, essa celebração contém um testemunho da alquimia cultural, da capacidade humana de transformar o estrangeiro em próprio, o desconhecido em familiar.

No início do século XX, os matadouros, como o de Santa Cruz, teceram o cenário para os primeiros passos dessa dança. Ali, onde o couro de bois e porcos era transformado em bexigas, nasceu o símbolo sagrado dos bate-bolas. E em meio à fumaça dos zepelins e à presença efêmera dos militares alemães que cruzavam os céus, ecoaram os primeiros acordes dessa celebração.

Como as águas que fluem e se mesclam nos rios que cortam nossa terra, as tradições estrangeiras encontraram aqui solo fértil para florescer de forma única. O que começou como mitos celtas e brincadeiras de rua europeias, ao se misturarem com a essência vibrante e criativa do povo brasileiro, se transmutou em algo novo, algo que é nosso, e só nosso. Nesse processo de metamorfose, os bate-bolas se tornaram um lembrete de que a identidade não é estática, mas sim fluida, moldada pelas correntes culturais que nos cercam. E, ao abraçarem essas influências estrangeiras e tecê-las em sua própria tapeçaria cultural, os bate-bolas nos convidam a refletir sobre a natureza dinâmica da identidade nacional e sobre a riqueza que advém do encontro e da fusão de diferentes culturas.

Contudo, foram relegados às sombras por décadas, alvos de olhares desconfiados e da mão pesada da repressão, mas sua resiliência nunca vacilou. Diante da adversidade, ergueram-se, desafiaram as trevas e mantiveram viva a chama da tradição que pulsa no ritmo de seus passos.

Com sua ampla vivência pessoal e acadêmica, Rafaela percebe como as coisas mudaram de panorama: “Hoje a gente vê um prefeito da cidade do Rio de Janeiro muito mais engajado com as culturas populares. E uma dessas é a cultura popular dos bate-bolas. Os bate-bolas estão em clipes da Anitta. Nomes como Poze do Rodo e movimentos de trap que surgem e que emergem das favelas e de periferias e subúrbios cariocas colocam o bate-bola em primeiro lugar. Os bate-bolas estão presentes nas instituições acadêmicas, em grupos de estudos nas faculdades, e isso é muito importante, quando a gente vê jovens negros e periféricos acessando um lugar acadêmico e falando da cultura dos bate-bolas. Vejo um caminho muito incrível, um crescente nesse lugar que é fazer a cultura dos bate-bolas. A gente muda a dinâmica de organização, muito mais comprometida, e hoje temos o poder público também, incentivando financeiramente e com espaços para que a festa aconteça”.

Para onde vão?

Os bate-bolas permanecem como uma das expressões mais vibrantes e autênticas da cultura carioca. Sua presença nas ruas, além de um espetáculo visual, é uma manifestação de identidade e resistência, uma prova viva de que, apesar das transformações e dos desafios, as tradições mais profundas e enraizadas continuam a reverberar. Por essas e outras, os bate-bolas se espalharam mais pela cidade, e a quantidade de foliões só cresceu nos últimos anos. O estigma de violência e perigo que acompanhava as fantasias deu lugar ao espírito de celebração das turmas, que apenas buscam brincar o carnaval e espalhar alegria.

O futuro parece brilhante.

“Eu imagino, no futuro, o mesmo caminho das escolas de samba no Rio de Janeiro. O sambódromo bate-bolas, o desfile, uma liga registrada no Rio de Janeiro que vai classificar e entregar prêmios e doações financeiras, a televisão e a imprensa vindo catalogar e falar da importância de popularizar o bate-bola. Tenho certeza de que será num futuro muito próximo.”

Preservar os bate-bolas, portanto, não é apenas uma questão de manter viva uma forma de entretenimento, mas sim de reconhecer e valorizar o papel fundamental que eles desempenham na construção da identidade cultural do Rio de Janeiro. É garantir que as futuras gerações possam continuar a dançar ao som dos tambores e a celebrar a riqueza e a diversidade da cultura carioca. E é também respeitar a pluralidade dessa tradição, compreendendo que ela carrega consigo uma carga histórica e afetiva que se mistura harmoniosamente com a identidade dos bate-bolas, enriquecendo ainda mais a tapeçaria cultural da cidade.

Nos labirintos das comunidades cariocas, tece-se um elo mágico entre o carnaval de rua e os imponentes desfiles das escolas de samba. Clóvis e bate-bolas merecem ser preservados.

Patrimônio imaterial (e ponto final)

Em 2012, a prefeitura do Rio de Janeiro declarou os bate-bolas patrimônio cultural carioca de natureza imaterial. O decreto levou em consideração a importância desses grupos como personagens típicos do carnaval que refletem a forma alegre e irreverente de a população suburbana festejar. A decisão foi histórica e emblemática. Ao serem declarados patrimônio, os bate-bolas alcançaram um novo patamar de reconhecimento e proteção. Não estamos mais falando de meros personagens do carnaval carioca: de 2012 em diante, viraram oficialmente tesouros culturais a serem preservados e valorizados por gerações futuras.

Os porquês de terem recebido a honraria residem na sua profunda ligação com a história e a identidade da cidade. Ao longo dos séculos, os bate-bolas têm sido testemunhas e protagonistas de inúmeras transformações e eventos que moldaram o destino do Rio de Janeiro. Desde os tempos coloniais até os dias atuais, eles estiveram presentes, fazendo jus ao ânimo do carnaval brasileiro e mantendo viva a chama da tradição.

Os bate-bolas, no fim, personificam valores como solidariedade, criatividade e resiliência, que são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Tornar-se parte integrante do legado cultural do Rio de Janeiro não significa apenas garantir a continuidade das festividades carnavalescas, mas também promover ações de salvaguarda e valorização. Um viva ao fortalecimento do vínculo entre passado, presente e futuro.

Enquanto os tambores ecoam, as máscaras ganham vida, contando histórias esquecidas e sonhos adormecidos. Cada passo é um lembrete da força do povo carioca, e as máscaras transcendem sua função primária de adorno, transformando-se em portais para um mundo mágico e memorial. À medida que o ritmo acelera, as máscaras se fundem em uma só, revelando a alma de uma cidade que pulsa com a energia da vida.

Assim, eles seguem seu caminho. Onde quer que haja batuques e risos, lá estarão os eternos bate-bolas do Rio de Janeiro. Materialmente e imaterialmente, estarão vibrando e pulando um carnaval que nunca há de acabar.

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O fim do fim da História

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1.

Berlim, 1917: em prisão militar, um búfalo deportado da Romênia como “espólio de guerra” move uma carroça com uniformes ensanguentados. Soldados estão mortos. Os uniformes, lavados e remendados, vestirão outros soldados que também morrerão na Grande Guerra. O búfalo, chicoteado pelo guarda (“ninguém tem pena de nós humanos”), olha para o nada com “olhos escuros” de um ser abusado. A prisioneira Rosa Luxemburgo vai às lágrimas. “Eram as lágrimas dele”, escreveu ela em carta a Sophie Liebknecht. Búfalo, uniformes sangrados, guardas violados e violentos eram o “panorama da guerra” aos olhos abertos, lacrimejados, de Rosa Luxemburgo.   

2.

Berlim, 2024: de manhã, abro os olhos, desbloqueio meu iPhone. Vejo imagens do cavalo Caramelo, cascos e quartelas brancas suportando o peso do costado por quase quatro dias, o dorso marrom na telha ilhada, a água densa acuando o bicho esgotado. No Caramelo, vejo mais que instinto de sobrevivência. Vejo mais que uma vítima da enchente de 24 no Rio Grande do Sul. Vejo o panorama do fim do fim da história.

3. 

Fim da História: lendas sobre Messias e Juízo Final falam em evento depois do qual a sociedade mudará essencialmente. Mesmo no mundo “desencantado” da ciência e da materialidade do presente, o tempo continuou a ser visto como portador de sentido por olhos que veem na História com H uma marcha inexorável. Como a semente que se completa na flor, a história se realizaria no seu fim em duplo sentido, finalidade e término. Sociedade sem classes, progresso técnico, paz perpétua: seja qual fosse o conteúdo, a história teria último capítulo.

4.

Berlim, 1933: agentes do destino racial prendem Hannah Arendt. Depois, refugiada em Nova York, a autora criticaria fatalismos que postulam “leis” históricas irresistíveis às quais humanos devem se adaptar. Saída do abismo dos 1940, Arendt escreveu: a história não é “processo com monopólio de universalidade e significação”. História é um monte de estórias vividas, vistas, lembradas, discutidas.

5.

Rosa Luxemburgo, presa por discutir o sistema no qual vivia, e Karl Liebknecht, único parlamentar a votar contra o orçamento de guerra, denunciaram a desmesura imperialista e ideias que convenciam trabalhadores alemães a matar trabalhadores franceses. Em 1915, trens com soldados não partiam mais sob acenos de noivas emocionadas. Igrejas viravam “estábulo de cavalos”.  Populações mendigavam. “O espetáculo acabou”, Luxemburgo disse. A sociedade burguesa, “pingando sujeira”, estava em “forma nua”, sem os vestidos da ordem, da ética, do direito etc. Dessa sociedade, Luxemburgo não esperava nada novo. Ela esperava dos trabalhadores, açoitados, que veriam na “experiência histórica” uma “professora”.

6.

Porto Alegre, 1991: sentado em frente à TV, torrada de presunto e Nescau nas mãos, assisto ao Pedro Bial, sentado também, parlamento russo às costas: “estou moído, minha cabeça e meu corpo estão exaustos, mas meus olhos não se cansam de ver a história”.

7.

Em 1919, Luxemburgo foi apunhalada, atirada no rio, não pela história, mas por milicianos Freikorps sob vista grossa da social-democracia. Kurt Tucholsky protestou contra a falta de protesto. Acusou a “velha dança” militar e celebrou a coragem da mulher assassinada (“quão rara”). A salvação, Tucholsky disse, não se encontrava nas ruas, no povo.

Uma década depois, com apoio do povo ao racismo apresentado aos gritos em cervejarias bávaras, Leon Trotsky tentou compreender como a história, após Hegel e Marx, tinha produzido o “materialismo zoológico” de Hitler, Hess e Rosenberg, o “delírio” do império que aniquilaria o tempo (“mil anos”), sem teoria econômica, apenas com “excrementos culturais” regurgitados e vomitados pela garganta de agitadores. A história seria guiada por um barbarismo não digerido.

8.

Sozinho, Walter Benjamin, antes de sair do tempo histórico em Portbou, criticou a “barbárie” no útero da sociedade que tinha gestado Verdun e bombardeiros, e não conseguia ver o lado negativo do avanço material (“desastrosa recepção da técnica”). Essa sociedade se deixava arrastar pela “tempestade” do progresso.

9.

Nas notas do iPhone, eu rascunho o panfleto A vitória do showcialismo. Diferente do previsto por materialistas dialéticos, a modernidade não resolveu suas contradições na vitória do socialismo, mas as aguçou (conectividade/solidão, ciência/fake news, globalização/neonacionalismo). Agora cada um tem um Pravda digital para chamar de seu e socializar fragmentos de vidas alienadas.

10.

Berlim, 1989: troços do Muro são arrancados, no que parecia ser o último ato. Nas ruínas do fascismo e do nazismo, a Europa tinha se dividido em dois sistemas: capitalismo versus socialismo. Chris Gueffroy, morto, ao saltar no muro, por vinte e dois tiros dos soldados da RDA, queria viajar aos Estados Unidos. Visafrei bis Hawaii – manifestantes pediam liberdade de opinião e de movimento (“até o Havaí”). Dissidentes e a história pareciam caminhar, fugir, na mesma direção, a da democracia liberal capitalista. Alemães orientais, como Žižek diria em 1998, foram de opositores “heroicos” a consumidores de “bananas e pornografia barata”. Em o Fim da história e o último homem, Francis Fukuyama afirmou que a história intelectual tinha, sim, chegado ao clímax, com a democracia consolidada como melhor sistema para oferecer liberdade, igualdade e reconhecimento. E bananas.

11.

Com o copo de Nescau na mão e o Bial na TV, eu assistia a um ato triplamente simbólico: nossos olhos olhavam a história; olhávamos a história chegando ao fim; eu, apartamento na 24 de Outubro, torrada, achocolatado, videogame, direitos fundamentais em estado liberal tropical, sentia o fim da história em mim – eu era o “último homem”, ou o último guri de apartamento.

Ainda assim, perguntado o que eu “queria ser” na minha história pessoal, eu respondia, correspondente estrangeiro. Queria ver a história. Queria viajar a cantos onde o extraordinário, fora do tempo democrático, ainda insistia em acontecer – como se no meu Brasil não existisse mais história. O meu Brasil, a minha Porto Alegre eram uma bolinha de vidro onde a vida seguiria roteiro cíclico (universidade, trabalho, família) num tempo político acabado. Um ano depois, Fukuyama classificaria o Brasil com um dos países “pós-históricos”.

12. 

Hoje, não moro em Porto Alegre. Moro em Neukölln, Berlim. Segui minha história pessoal colocando-me no proletariado estrangeiro (vestido de freelancer). Na pós-graduação como guia de turismo, trafico a turistas troços da obra de Arendt, “questões alemãs” e visões fatalistas. Na linha do U8, escuto Berlim, Bom Fim. Penso na queda do Muro de Berlim, no aumento do Muro da Mauá, não mais “vergonhoso”. Penso em Porto Alegre, na Estação de Tratamento de Águas Moinhos de Vento, penso em Muçum e no Sarandi, na minha irmã evacuada do Humaitá, na tempestade de areia em Beijing, no ciclone em Myanmar, no calor cada vez mais quente no Chile, na Europa, na Ásia. Penso nas direções contraditórias da história, estórias, sentidos confusos, pulverizados num tempo que, em vez de parar, acelerou. Entre vendavais de areia, vejo explosões: olho para Kharkiv, Crimeia, Be’eri, Rafah, e vejo os séculos XII e XIX armarem barracas militares no século XXI. Vejo estupros ideologicamente motivados e a banalidade de bombas guiadas por GPS (“errando” o alvo) e penso que história não acabou nem vai acabar.

Eu leio restos de história arruinada nas linhas de Benjamin, profeta negativo, para quem memórias viram “flashes em momento de perigo”. O momento é de perigo. A história, lida por olhos modernistas “relutantes”, não ensina, não é professora, mas recomenda ficar alerta.

13.

Cansado, fecho o Fim da história e abro Ressentimentos, em que Jean Améry pede que “feridas” históricas não cicatrizem. A secreção de injustiça, da irracionalidade vira lembrança da responsabilidade humana. “O poder moral de resistir contém o protesto, a revolta contra a realidade, que só é racional se for moral”. Crimes contra povos, culturas, ecossistemas devem ser lembrados como eventos acontecidos que não deviam ter acontecido.  

14.

O homem “agiu na natureza” (Arendt), tornando chuvas, ventos e níveis de rios agentes ingovernáveis. A história natural invadiu a história humana, potencializando o imprevisível. O domínio da natureza se realizou na natureza descontrolada, história sem rumo, sem sonho nem utopia, sem novos princípios. No fim do fim da história, fronteiras nacionais e muros mentais continuam em pé, mas linhas entre natureza e artifício seguem desmoronando. E a distância entre poesia e realidade foi abolida: Quer morrer no mar. Mas o mar secou.

15. 

“Os negócios”, Rosa Luxemburgo escreveu em 1915, “prosperam nas ruínas”.

16. 

O fim do fim da história: a história não tem fim, e o melhor sistema é o sistema no qual os olhos, ainda que cansados, estejam abertos. Estórias terminam, mas cada fim é um novo começo, parafraseando Arendt e recomendando “pensar o que fazemos”, em 1915, em 1941 (na enchente, no genocídio), em 1991, em 2024, nas hipóteses alarmantes de 2030 e 2050.

17.

Não virei correspondente internacional. Como guia, visito muros e flashes de passados reprisados de segunda a domingo. Turistas falam em “lições da história”. Uma turista disse que não se aprende com história “porque ninguém mais lê história”.  Passamos pelo Museu Histórico Alemão. The Roads Not Taken. Ou: as coisas poderiam ter sido diferentes trata de anos cruciais e de alternativas concretas que foram perdidas. Cada momento, com ou sem perigo, contém caminhos potenciais, visíveis, invisíveis. A história não é linha reta. Construir muros, fronteiras, erguer barragens, desmatar, matar porco e fazer presunto, reconstruir ou revolucionar, banalizar ou “ampliar a imaginação”, fechar ou abrir os olhos: o fim do fim da história significa que a realidade pode ser diferente, para pior ou para melhor.

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Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
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Sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

(Sonho meu, de Délcio Carvalho e Yvonne Lara da Costa)

Os sonhos, essas vivências sentidas na mente e no corpo, muitas vezes bizarras, que povoam nossas mentes durante o sono, há séculos fascinam e intrigam a humanidade. Envoltos em mistério, eles desafiam interpretações simples e abrem portas para um universo onírico de simbolismos e reflexões profundas sobre nós mesmos.

Do ponto de vista científico, os sonhos são eventos mentais que ocorrem principalmente durante a fase conhecida como REM (rapid eye movement) do sono, quando a atividade cerebral se intensifica e se assemelha à vigília. Nessa etapa, o cérebro processa informações, consolida memórias e libera emoções reprimidas, tecendo narrativas complexas que podem ser vívidas, emocionantes ou até mesmo perturbadoras.

Embora a ciência ainda busque desvendar segredos dos sonhos, algumas teorias tentam explicar sua função e seus significados. Para a psicanálise, os sonhos são a janela para o subconsciente, revelando desejos, conflitos e medos reprimidos que, por vezes, se manifestam de forma simbólica ou distorcida. Já a neurociência propõe que os sonhos sejam uma forma do cérebro se livrar de toxinas e processar informações acumuladas durante o dia, consolidando memórias e aprendizados. Os sonhos, muitas vezes vistos como meras fantasias da mente adormecida, também podem ser a força motriz por trás de grandes mudanças sociais e políticas. São eles que alimentam a esperança por um futuro melhor, inspiram a luta por justiça e igualdade e impulsionam a inovação e o progresso.

Sendo  assim, cabe traçar um paralelo entre os sonhos já citados — aqueles fenômenos que ocorrem enquanto dormimos e o sonho num sentido simbólico e político, no sentido de projeções de algo que se tem desejo de concretizar, ver, ter ou fazer.

Em O dono da dor, música lançada em 1997, composta por Nelson Rufino e conhecida na voz de Zeca Pagodinho, canta-se que:

“Ninguém pode imaginar
O que não viveu”

Esse verso, cantado a plenos pulmões em milhares de rodas de samba, abre despretensiosamente o caminho para refletirmos: como imaginar ou sonhar com aquilo que não vivemos ou que não nos foi permitido viver? Essa vida vivida e sonhada sem permissão é algo que comumente perpassa a existência e a produção intelectual e artística de pessoas negras.

A literatura negra tem sido um espaço vital para a exploração de temas profundos e complexos, incluindo os sonhos e a imaginação. Autores negros, em diversos contextos históricos e culturais, têm usado esses elementos como ferramentas para desafiar narrativas opressoras, reimaginar realidades alternativas e afirmar suas identidades. A imaginação, para muitos deles, não é apenas um exercício criativo, mas uma forma de posicionamento e sobrevivência.

Toni Morrison, por exemplo, em  Amada (Beloved), utiliza elementos do sobrenatural e do sonho para explorar traumas passados e a memória coletiva dos afro-americanos. A presença do fantasma de Amada (Beloved) simboliza não apenas a perda e o luto, mas também uma forma de retomar a agência sobre um passado doloroso. Morrison cria um espaço no qual o real e o imaginário se entrelaçam, permitindo que a história de uma comunidade seja contada de forma não linear, desafiadora e profundamente humana.

Os sonhos, na literatura negra, muitas vezes servem como projeções de esperança e desejos para um futuro outro. No romance Homem invisível (Invisible Man), de Ralph Ellison, o protagonista sonha com uma sociedade em que ele é visto e valorizado, contrastando com sua realidade de invisibilidade social. Esses sonhos não são meramente escapistas, mas funcionam como críticas contundentes às estruturas sociais existentes e como expressões de um desejo profundo por mudança e reconhecimento.

Octavia Butler, uma das mais proeminentes escritoras de ficção científica negra, utiliza a imaginação para reconfigurar identidades e explorar possibilidades alternativas para a humanidade. Em Kindred, Butler mistura elementos de viagem no tempo com uma narrativa profundamente enraizada na experiência afro-americana. Através da protagonista Dana, a autora explora como as identidades são moldadas e reconfiguradas pelo passado e pelo presente, utilizando a imaginação para criar uma narrativa que transcende as limitações temporais e espaciais.

Nas literaturas africanas, o sonho frequentemente assume uma dimensão coletiva, refletindo as aspirações de comunidades inteiras. Chinua Achebe, em O mundo se despedaça (Things Fall Apart), captura o espírito de uma sociedade à beira da mudança. Embora o romance se concentre principalmente nas realidades sociopolíticas de uma comunidade igbo, os sonhos e as visões das personagens revelam um anseio por equilíbrio entre tradição e modernidade. Esses sonhos, muitas vezes fragmentados e intercalados com realidades duras, oferecem uma visão sobre as tensões e esperanças dentro da comunidade.

Autores contemporâneos, como N. K. Jemisin, têm expandido ainda mais os limites da imaginação na literatura negra. Em sua trilogia A terra partida (Broken Earth), ela constrói um universo complexo no qual a geologia e a magia se entrelaçam, criando um mundo que é ao mesmo tempo familiar e radicalmente diferente. Através de uma narrativa que mistura elementos de fantasia e ciência, Jemisin explora temas como opressão, sobrevivência e transformação, utilizando a imaginação para questionar e desafiar as realidades do nosso próprio mundo.

Passear pelo universo dos sonhos e da imaginação na literatura negra não é apenas um testemunho da criatividade e resiliência da autoria negra, mas também uma poderosa ferramenta de proposição social, incidência e afirmação cultural. Através das obras de Morrison, Ellison, Butler, Achebe, Jemisin e muitos outros, podemos perceber e experimentar formas para reimaginar identidades, desafiar estruturas opressivas e projetar esperanças para o futuro.

Os sonhos não são apenas retrospecções ou formas de escapismo, mas também projeções de futuros possíveis e desejáveis. Para o movimento negro, a capacidade de sonhar com um futuro melhor tem sido fundamental para a motivação e mobilização. Martin Luther King Jr., em seu famoso discurso Eu tenho um sonho (I Have a Dream), encapsula a essência desse impulso. Seu sonho de uma sociedade justa e igualitária serviu como um poderoso catalisador para a luta pelos direitos civis, inspirando milhões a acreditar e trabalhar por essa visão de futuro.

Quando Dona Ivone Lara fala de “buscar quem mora longe, sonho meu” podemos fazer uma leitura óbvia sobre um amor perdido ou distante. Mas também podemos ir além e pensar esse sonho e essa busca como banzo. O banzo pode ser entendido como um fenômeno histórico e cultural que afetou profundamente a população africana escravizada no Brasil. Trata-se de um estado de melancolia profunda, nostalgia e depressão experimentado por escravos africanos, muitas vezes levando-os à morte por inanição ou ao suicídio.

Do ponto de vista psicológico contemporâneo, o banzo pode ser compreendido como uma forma extrema de depressão. Estudos em psicologia e psiquiatria mostram que a perda de laços sociais e culturais, combinada com condições de vida abusivas, pode levar a estados severos de depressão. A ausência de perspectivas de liberdade e o tratamento desumano contribuíam para um estado de desespero tão profundo que muitos escravizados perdiam a vontade de viver. Clinicamente, o banzo pode ser comparado a transtornos depressivos maiores, com sintomas como perda de apetite, insônia, apatia e pensamentos suicidas. Politicamente, o banzo evidencia a crueldade do sistema escravocrata e serve como testemunho da resistência física e espiritual dos escravizados. Embora frequentemente interpretado como uma forma de desistência, o banzo também pode ser visto como um ato de resistência silenciosa. Ao se recusar a participar do sistema que os oprimia, os escravos que sucumbiam ao banzo estavam, de certa forma, reivindicando autonomia sobre suas vidas e mortes.

O banzo, esse estado de melancolia profunda, e o sonho, tanto como forma de resistência quanto de esperança, são conceitos interligados na experiência da diáspora africana. Essa relação é complexa e multifacetada. Ambos são respostas ao mesmo conjunto de circunstâncias opressivas, mas manifestam-se de maneiras diferentes. Numa visão mais superficial, o banzo pode ser visto como um colapso da esperança, um diálogo com o desespero, enquanto o sonho pode representar a projeção de uma outra realidade. No entanto, mesmo no banzo, pode haver traços de sonho: a nostalgia e o desejo de retorno à terra natal podem ser vistos como uma forma de sonhar com uma realidade perdida ou que pode ser (re)inventada.

A imaginação tem papel central na reconfiguração das identidades negras, desafiando estereótipos e preconceitos. E assim voltamos a Zeca. Se ninguém pode imaginar o que não viveu, inventamos! Ao longo de séculos, a existência negra tem alternado entre a concretude de sociedade racistas e a projeção de universos outros, nos quais se pode existir de forma menos cruel e cristalizada. No contexto do movimento negro, os sonhos e a imaginação não são apenas individuais, mas coletivos. Eles ajudam a fortalecer a coesão comunitária, criando um senso de propósito e solidariedade. O movimento Black Lives Matter, por exemplo, utiliza a imaginação para vislumbrar um mundo sem racismo sistêmico e violência policial. Esse sonho coletivo fornece um quadro para a ação política e social, inspirando protestos, políticas e mudanças comunitárias. São essas projeções que têm impulsionado lutas concretas com resultados palpáveis e mensuráveis.

O poder dos sonhos não se limita a escritores, artistas, grandes líderes e movimentos sociais. Ele reside também em cada indivíduo que ousa imaginar um futuro diferente, que se recusa a aceitar o status quo e que luta por um mundo equânime.

Sonhos podem ser subversivos, desafiando as estruturas de poder existentes e questionando as normas sociais, especialmente quando falamos de trajetórias negras. Eles podem ser a faísca que inicia revoluções, as vozes que denunciam injustiças e a força que impulsiona a busca por um mundo mais justo e sonhado.

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Podemos falar abertamente? A sociedade brasileira está rasgada por dentro e por fora. Temos dificuldade de vislumbrar um futuro conjunto. Não almejamos um futuro compartilhado. O coletivo deixou de ser âmbito de diálogo, de convivência, de aspirações comuns. Tornou-se um problema, um dilema, um enigma. Os outros — aqueles que não pensam como nós, que não vivem como nós, que não percebem o mundo como nós — são vistos como fonte de embate. Causam-nos irritação, indignação, desprezo.

Essa abolição do coletivo — o desmoronamento da percepção de comunidade — é muito mais grave do que a tão falada polarização ideológica ou as muitas disfuncionalidades do poder público. Ela é a origem, a causa primária da nossa crise política, do cansaço por tudo o que é público, da indiferença pelo que não é pessoal, palpável, imediato. Perdeu-se a alteridade.

O coletivo tornou-se uma abstração sobre a qual — quando muito — se pensa, se raciocina. Mas não se sonha com ele. Não se cultiva, no íntimo, um futuro possível comum. Não se imagina. Sobram ideias, slogans, lugares-comuns. Falta partilha. Falta desejo.

Não é que o afeto tenha sumido do âmbito coletivo. Nota-se a presença da raiva, do ressentimento, da inveja. Mas o carinho, a empatia, a afeição, tudo isso sumiu do espaço público. Cada vez mais, esses sentimentos estão restritos à esfera privada. A uma reduzida esfera privada: aos amigos, aos iguais. Sequer são orientados aos familiares, que, não raro, são percebidos como inimigos, como diferentes, como a parte de nós — da nossa história, da nossa identidade — que nos desperta vergonha. Uma vergonha com a qual não sabemos lidar.

Também os iguais — aqueles dos quais nos consideramos próximos —, seja por uma leve mudança de circunstâncias, seja pela descoberta de alguma característica inesperada, são facilmente transportados para o campo dos diferentes, dos rejeitados. Há uma contínua ampliação da rejeição.

Nota-se um abismo no mapa do Brasil. Somos uma sociedade desencontrada, que tem dificuldade de se reconhecer, de se entender. Ao pensar, usa-se o fígado, num processo presunçosamente intitulado de racionalidade, de objetividade, de maturidade, de realismo. Mas não há isenção, não há lógica, não há método. O que há é o despejo de um mundo interior não socializado, não dialogado, não entendido, não refletido. É uma matéria-prima bruta, que produz atrito, que gera ruído, que causa divisão. Paradoxalmente, essa brutalidade convive com a hipersuscetibilidade. Dos outros, exige-se suavidade e consideração, ao mesmo tempo em que se distribuem socos, pontapés, cusparadas.

Menos desigualdade. Mais educação. Mais saúde. Mais segurança. Mais liberdade. Menos preconceito. Sim, sabemos elencar os elementos desejáveis para uma coletividade saudável. Mas o próprio anúncio desses tópicos traz a marca da frustração, da desesperança. Temos medo dos sonhos. Medo de sermos ingênuos. Medo de pedirmos paz e parecer que estamos sendo condescendentes com retrocessos, com abusos, com injustiças. Tudo se tornou complicado, cansativo, angustiante.

A imaginação — a possibilidade de uma resposta criativa às questões da vida e do mundo — está bloqueada. Foi lacrada pelo olhar alheio e pelo nosso próprio olhar, pelas nossas inseguranças, pelas nossas incompreensões, pelos nossos afetos.

Qual é o nosso futuro? Há possibilidade de futuro?

Nada é imutável, tudo é humano

Visto sob essas luzes, o cenário brasileiro assusta. Mas — no humano, sempre existe a conjunção adversativa — esse quadro não é a única resposta, a única possibilidade. A realidade não é um monolito definitivo. Suas condições não são imutáveis. Nada é um dado inexorável. Trata-se sempre de uma construção, de uma escolha.

Talvez isto seja o mais desafiador: reconhecer que esse presente, tão marcado por embates, tensões e divisões, não é simples resultado da ação de terceiros. É fruto da nossa própria conduta, das nossas ações, das nossas omissões. Também nós somos responsáveis por esse presente problemático, desigual, violento.

Essa constatação pode nos envergonhar, nos paralisar, mas também pode ser libertadora. Admitir nossa responsabilidade pelo presente é vislumbrar que o futuro não está determinado. Ele está disponível para nós. Está por ser tecido com nossas agulhas, com nossas linhas.

Talvez alguém pense que aqui se romantiza. Somos pequenos. Somos frágeis. Somos incapazes, tantas vezes, da nossa própria vida, que nos supera, que nos engole. Se é difícil ver autonomia em nossa própria trajetória, frequentemente moldada mais pelas circunstâncias do que propriamente por escolhas, como assumir, numa espécie de passe de mágica, o protagonismo pelo futuro do coletivo?

O questionamento é pertinente e nos ajuda a ver outra camada do problema. Não estamos diante de uma mera crise da coletividade. Há uma crise da própria individualidade, da identidade pessoal. Quem nós somos? Como nos enxergamos?

Talvez isso soe teórico; concretizemo-lo, pois. Como educamos nossas crianças? Quanto tempo dedicamos a elas? Como acompanhamos os idosos? Que admiração temos por quem os acolhe e cuida deles? Quem somos para quem vive uma situação social menos privilegiada? Como nos relacionamos? Como cuidamos da nossa calçada? Como gastamos nosso tempo livre? Quais são os nossos desejos? Como cantamos? Como usamos os nossos olhos? O que lemos? Ao que assistimos?

Sociedade não é abstração. É convivência, tempo gasto, cozinha compartilhada, abraço, aperto de mão, beijo, olho no olho. É confiança, é conversa, é confidência, é estranhamento, é aprendizado, é troca. Para viver tudo isso, temos de estar inteiros, minimamente inteiros. Conscientes de quem somos, da nossa história e do nosso presente. De outra forma, o futuro será simples repetição, reprodução de velhos hábitos — ainda que estejamos vestidos com roupas diferentes.

Reimaginar o humano

Não é questão de voluntarismo. De achar que basta querer. Que basta se esforçar. Não é questão de motivação, de pensar positivo. Decide-se o jogo — melhor dito, a aventura — em outra esfera.

É preciso reimaginar o humano sem encaixotar tudo em nossas lentes, em nossas percepções, em nossas sensibilidades. O humano é diverso, plural. E talvez aqui esteja o fio possível para costurar o tecido Brasil: a diversidade, o respeito pelo outro, com suas maravilhosas idiossincrasias.

Nada disso é tarefa intelectual, que se ensina com método e argumentos. É feito com a generosidade de olhar o outro em sua integridade, sem atribuir intenções distorcidas a quem pensa de forma diferente.

Mais do que simples altruísmo, isso é humanidade. Só vendo o outro com generosidade — abdicando de medi-lo com a nossa própria régua — é que saberemos nos enxergar. Só assim poderemos captar nossas limitações e lidar em paz com elas. Só assim poderemos nos transformar.

A preocupação com o coletivo não é uma espécie de sofisticação. É item de primeira necessidade para que possamos viver como humanos. Não se pode tapar o sol com a peneira. Os seres humanos sonham: o presente não é definitivo. Somos seres temporais, abertos à mudança, à transformação. Por isso, uma sociedade dividida é também uma sociedade paralisada, a desperdiçar sua energia com pequenezes.

Os seres humanos sonham, e, se não sonhamos, – se estamos incapacitados de detectar os sonhos profundos que permeiam nosso interior –, algo não vai bem. E é preciso enfrentar o sintoma de maneira genuína.

Vivemos hoje a utopia da tecnologia. Tem-se a expectativa de que, com suas engenhosidades e múltiplas inteligências, ela nos oferecerá as soluções. Mas soluções para quê? Não sabemos sequer formular para nós mesmos as questões que verdadeiramente nos inquietam.

Essa utopia é paralisante, preguiçosa: o futuro torna-se obra dos outros. A nós caberia acompanhar as tendências, aproveitar as novidades, usufruir dos novos gadgets. Mas será que não vemos que a tecnologia, espetacular, por si só, é incapaz de tecer o humano, de costurar o coletivo? Usuário massivo das redes sociais, o Brasil contemporâneo é prova cabal dessa disfunção.

O futuro não é obra dos outros. A vida tem uma dimensão coletiva, mas é sempre também profundamente pessoal. São planos interconectados. Não basta a tendência macro. Não bastam as decisões de Estado. Não basta o que os outros fazem, sentem, dizem. A sociedade é um tecido diariamente costurado por todos – e por cada um.

Falar em sonho não é enganar-se com uma fantasia. É resgatar o que há de mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais coletivo, mais relacional. Vivendo nos conectamos. Sonhos não são meras imagens dentro da nossa cabeça. São motores: entusiasmo, impulso de vida. São frestas de futuro, que acendem o desejo de trabalhar mais, de realizar mais, de se conectar mais genuinamente com as pessoas, de contribuir mais.

Sonhos são desejo de vida, imaginação de caminhos. Ao sonhar, ao construir as condições para o sonho, abre-se a possibilidade de se tecer um novo sentido, mais genuíno, menos solitário, mais solidário. Sonhemos, pois, corajosa e suavemente.

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Sonhos não envelhecem

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Tive um sonho na madrugada de 31 de março de 2022. Eu andava pela casa um tanto ansiosa, procurando minha bolsa. Quando a achei, abri a carteira e, dentro dela, não encontrei minha identidade. Acordei assustada, e logo senti o sorriso aliviado da compreensão, já que, a partir da manhã seguinte, eu não teria mais o contrato de trabalho ao qual tinha me associado nos últimos vinte anos. Senti também medo do tamanho da mudança que o sonho desenhava para meu entendimento.

Estaria, então, livre para sonhar novas formas, encontrar novas imagens, compreendê-las e, ainda, simultaneamente, me permitir não as decifrar, observá-las sem pressa, vê-las ganhar significados e ressignificados inéditos com o tempo. Na manhã seguinte, eu poderia sonhar acordada com a nova vida que desejaria construir e experimentar. Com uma nova identidade.

“De onde vem a canção?”, canta Lenine. É comum nos perguntarmos quase todas as manhãs, ou madrugadas, de onde vêm os sonhos com aquelas mais encantadoras, assustadoras e bizarras imagens, conexões e desconexões.

Carl Gustav Jung (1875-1961), considerado pela revista Time o maior pensador do século em capa de 1955, afirma que os sonhos são expressões do inconsciente. Poço inato e infinito de histórias e significados — coletivos, familiares e pessoais.

Vale aqui diferenciar o conceito de inconsciente freudiano do junguiano, um dos aspectos responsáveis pela cisão dos pensadores, depois de um período de cerca de cinco anos de trabalho em conjunto.

Se, para Freud, o inconsciente é um depositário de aspectos reprimidos da personalidade, no qual é guardado tudo aquilo que não se sustenta na consciência, para Jung, o inconsciente é a origem de tudo, até mesmo da consciência.

Não à toa, no primeiro parágrafo de sua autobiografia, Memórias, sonhos e reflexões, escrita nos últimos anos de vida em parceria com a colaboradora Aniela Jaffé e publicada após sua morte, o pensador sintetiza, de uma só vez, sua experiência e fé: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.

A análise junguiana convida, de diversas formas, o interessado ao diálogo com informações inconscientes: por meio da ampliação dos sonhos (repare: ampliação, e não interpretação), da associação das palavras, das expressões simbólicas (técnica usada pela psiquiatra brasileira Nise da Silveira em contraponto aos eletrochoques no tratamento de pacientes esquizofrênicos) e da atenção e do significado às sincronicidades.

Como num sonho recorrente, vale a pena repetir: “De onde vem a canção?”.

No prefácio brasileiro de Uma investigação sobre a imagem, de James Hillman, o escritor e psicólogo Gustavo Barcellos propõe que as imagens oníricas precisam de respostas imaginativas, e não de explicação. Ousemos aqui, então, mergulhar com palavras nesse mar sem fundo do qual os sonhos emergem.

Hillman faz uma analogia que, em mim, ecoa sem, felizmente, encontrar contorno: “(…) os cheiros não podem ser evocados. Embora eles possam evocar lembranças de coisas passadas, não podemos recordá-los intencionalmente, assim como poderíamos recordar uma sala ou uma música. Estamos sujeitos a eles, somos assaltados por eles, transportados para seu mundo”. O autor segue: “A espontaneidade sem ego do cheiro é similar àquela da imaginação”.

Para mim, esse é um bom jeito de descrever sonhos pela perspectiva junguiana, pelo faro, pelas possibilidades infinitas, abandonando qualquer ideia materialista ou redutiva causal e ainda, ao mesmo tempo, considerando que o sonho pode ser, sim, consequência de um episódio vivido na vigília. Seu entendimento, porém, não deve ser reduzido ao fato.

Se dispostos a embarcar nesse convite de diálogo com o inconsciente, sem o desejo estreito de enquadrar as imagens, a ampliação dos sonhos pode virar um exercício diário de encontro consigo mesmo, com a possibilidade de sonhar, de imaginar a vida em muitas dimensões e de responder à vida com imagens, poesia, música, ficção. Com arte.

O analista junguiano Waldemar Magaldi explica, em inúmeras aulas, textos e vídeos do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), que os sonhos podem ser ampliados a partir de três diferentes perspectivas: a compensatória, a pedagógica ou a antecipadora de tendências, de transformação (que vulgar e equivocadamente chamamos de premonitória). Esta última talvez seja a mais fascinante e amedrontadora das possibilidades.

O sonho da identidade desaparecida da carteira pode ser ampliado a partir da perspectiva dos sonhos pedagógicos. Observemos, então, as demais possibilidades.

A tônica do pensamento junguiano contempla a integração dos opostos. Dor e prazer, luz e sombra, bem e mal. Não há, na origem dessas potencialidades, diferenciação de valor. Todo oposto é complementar e precisa existir na mesma proporção, em busca do equilíbrio. Por isso, quando uma experiência é unilateralizada, seja no indivíduo ou na sociedade, há, em igual medida, o desenvolvimento de seu oposto complementar — a polarização política encontra aqui uma explicação.

No universo onírico, imagens compensatórias podem realizar aspectos impedidos de serem vividos na vigília. Ofereço mais um encontro despudorado com imagens que me assaltaram para ampliação: andava às voltas com questões complexas com um parente, que não se mostrava aberto para receber o apoio que eu estava disposta a dar, porém com o qual eu deveria, moralmente, colaborar.

Por semanas refleti sobre essas questões, afirmando que estava surpresa por não sentir raiva da situação, lidando com tudo (embora fossem assuntos chatíssimos) de forma objetiva e até leve. Eis que a seguinte cena me acorda de sobressalto no meio da noite: esfaqueio o parente pelas costas, giro a faca encravada em sua carne e ainda olho para ver se o sangue está mesmo jorrando.

Já que, felizmente, eu não fiz isso tudo na vigília, a compensação inconsciente aconteceu no sonho. Desta forma, minha psique integrou a compaixão das ações concretas ao horror da raiva inconsciente. E, ufa!, me livrou de anos de cadeia!

De olhos bem abertos, pude dar mais limites às tentativas de ajudar, me respeitando e incluindo o oposto complementar (nesse caso, a raiva) que, de uma forma ou de outra, merece se manifestar. Pude, também, aprender a respeitar o desejo do outro de não ser ajudado.

Jung inspira seus estudiosos a compartilhar a própria biografia e aspectos psíquicos pois ele mesmo foi um empirista acima de tudo. As mais de vinte mil páginas que escreveu tiveram origem, essencialmente, em sua experiência pessoal com o inconsciente. Ele descreveu tais experiências em livros lançados apenas após sua morte: os Livros negros e o Livro vermelho. Neste último, o autor revisa as anotações de sonhos e imaginações dos primeiros e acrescenta desenhos criados a partir das imagens que o invadiram diretamente do inconsciente.

Quando já havia chegado à criação da psicologia profunda, que depois foi chamada de analítica, tendo o caminho da individuação como meta a ser percorrida pelo indivíduo na realização do arquétipo do si mesmo (assunto para muitos outros ensaios), Jung passou a ter sonhos repetitivos com alquimistas. Como, para ele, os sonhos eram expressões que mereciam toda atenção e respeito, passou a comprar e traduzir manuais de alquimia. Ele então compreendeu, com o passar de anos de estudo, que o caminho da individuação era a realização, na psique e na vida, do grande objetivo alquímico: simbolicamente, transformar chumbo em outro.

Jung reafirmou, então, com os conceitos da alquimia, o que sentiu no estudo de si mesmo: ao longo da vida humana, é necessário passar por diferentes fases, assim como no processo alquímico. Todos nós, em algum momento, especialmente após a metade da vida, somos convidados a entrar num processo de transformação de si, de criação de uma “tintura-mestre”, uma sabedoria capaz de existir como essência, servir a si mesmo e ao mundo.

O processo da alquimia parte da calcinação, quando estamos, do ponto de vista emocional, cristalizados em formas de existir e de sofrer. Para sair desse estado, precisamos passar para a sublimação, acrescentando ar, ou seja, pensamento sobre o que estava cristalizado. Tal processo resulta num líquido, torna-se uma solução e pode ganhar novas formas. Para se obter ainda mais pureza, o líquido pode passar pela fermentação, quando aspectos que ainda precisam se transformar o fazem pela morte, pela putrefação. O material fermentado pode, então, ser destilado, quando mais impurezas evaporam, e depois é novamente coagulado. Com a matéria mais purificada pode-se, enfim, criar a tintura-mestre, o essencial, o ouro.

Eu ando sonhando com gestações, partos, animais selvagens que se metamorfoseiam. Ando sonhando com arrepios causados por uma respiração delicada que percorre da minha bochecha à orelha. Seriam prenúncios de novas possibilidades, depois daquele sonho em 2022?

“A vida tem que ser conquistada sempre e de novo”, disse Jung.

Milton Nascimento e Lô Borges disseram que os sonhos não envelhecem. Que basta contar compasso, contar consigo, que a chama não tem pavio.

Que os sonhos possam inspirar nossos processos de desenvolvimento pessoal, de transformação, de expansão da consciência. Que possam ser recebidos como sussurros de sabedoria das almas a cada nova manhã! 

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#49SonhoLiteratura

O gato da insônia e a saudade dos sonhos

por Helena Cunha Di Ciero

Para meu professor
Wagner Cafagni Borja,
com gratidão

À noite, todos os gatos são pardos. E a fera que nos visita na escuridão da madrugada é perigosa, insiste em nos rodear. O gato da insônia afia suas garras numa bandeja de prata, onde moram nossos maiores medos. A fome do felino, na escuridão, é tamanha que ele devora nosso corpo, cansado, moído. E quanto mais tentamos fugir, mais longa se torna a noite. Na madrugada, nosso desamparo mia na imensidão noturna. De dia, o bichano é manso, domável; os medos diminuem de tamanho quando o sol teima em raiar, as memórias esfriam, sem qualquer vestígio de terror.

Lembro como se fosse hoje. Celebrávamos o fim do colegial, às vésperas do vestibular, nos despedíamos daquele local que era uma segunda casa, a escola. O horizonte dos sonhos da vida adulta acenava com a promessa de que nossos desejos seriam realizados, já que estávamos crescidos. Meu professor de história (que outra matéria poderia ser, afinal?) propôs, em sala de aula, uma discussão sobre o capítulo da peste da insônia narrada em Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Meu coração despertou para a literatura com esse livro, e nunca mais adormeceu. A narrativa da enfermidade que acomete Macondo, local onde se desenrola a história dos Buendía, tem elementos essenciais para pensarmos sobre o risco de nos afastarmos da vida onírica.

O capítulo começa com a chegada da pequena Rebeca. Logo após ser adotada pela família, ela é encontrada acordada, numa madrugada, na sala, sentada numa cadeira, chupando o dedo com os olhos fluorescentes “como os de um gato na escuridão”. Ela é quem traz o bacilo da insônia ao povoado. Uma enfermidade contagiosa, que condena os doentes a permanecerem num constante estado de vigília.

Num primeiro momento, o patriarca da família Buendía, José Arcadio, diz: “se não dormirmos, melhor, assim nos rende mais a vida”. Por isso, no começo, os habitantes da cidade não se incomodam, pelo contrário, acham que a vigília os tornaria mais produtivos. Começam então a trabalhar sem cessar. A partir daí, passam a viver num constante estado desperto, numa “alucinada lucidez”. Os dias e as noites seguem numa inesgotável produção, mas logo os habitantes se entediam e passam a conversar durante a madrugada, procurando algum esgotamento. Aqueles que sentem saudades dos sonhos propõem uma brincadeira oral sem fim: a história do galo Capão. O jogo consiste em perguntar se os ouvintes haviam pedido pela história do galo Capão, e àqueles que diziam que não era questionado se queriam ouvir a história do galo Capão, e àqueles que diziam que sim, era questionado porque queriam ouvir a história do galo Capão. E assim a brincadeira segue, num ciclo infindável.

Com o passar do tempo, os dias no vilarejo tornam-se uma constante repetição, e tudo passa a ser vivido sem pausa ou pouso. Uma vez que os doentes se acostumam ao estado de vigília, estão condenados ao avanço da enfermidade: o esquecimento. Aos poucos, os nomes de objetos vão perdendo o significado, e, além da insônia, o povo começa a sofrer evasões de memória. Com o decorrer do tempo, etiquetas são colocadas nos objetos para que seus nomes sejam lembrados, assim como suas funções. E o mesmo se dá com os animais, as pessoas e as casas. É preciso colar uma etiqueta na vaca: esta é a vaca, produz leite. E no leite: este é o leite, mistura-se com açúcar e café… E assim por diante. Buscam a preservação da memória. A cartomante, que lia nas cartas o futuro, passa a ler o passado, pois, sem que os habitantes possam sonhar, não há a possibilidade de futuro. Macondo fica condenada à peste do esquecimento.

Resumir a escrita soberana do autor me parece uma heresia. Reescrevo as linhas acima com certo constrangimento. Mas a alegoria nos serve como metáfora e nos ajuda a refletir sobre a importância de sonhar para o nosso aparelho psíquico.

Sonhar e agir

Freud já dizia que nada acontece antes de ser sonhado e que são os sonhos a fonte da imaginação, a via régia do inconsciente. Uma espécie de portal que nos revela algo de nós mesmos que ignoramos. Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, o sonho é essencial para o ser humano desenvolver a habilidade de fazer planos. A capacidade de imaginar na vigília e executar as coisas tem a ver com o processo onírico, pois as mesmas regiões cerebrais são ativadas.

Na terra dos sonhos, somos livres e realizamos desejos — muitas vezes, inconfessáveis para nós mesmos. Suportamos a realidade porque sonhamos. Quantas vezes o enlutado sente alívio ao sonhar com a pessoa que perdeu?

É no livro A interpretação dos sonhos que Freud descreve o sonho como a realização de um desejo. Porém, nem todo desejo pode ser explícito, e muitas vezes ele se apresenta com certo disfarce.

A censura está baixa quando sonhamos, e temos, assim, um terreno fértil para sentimentos ocultos e fantasias. Mesmo assim, alguns são censurados por nós mesmos — e, para se revelarem, juntam uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico pessoal, somando vivências e experiências singulares e individuais, com significado único. Em resumo, certas coisas se dão em nossa mente de forma disfarçada ao adormecermos. É como se, dormindo, nossos desejos acordassem no sonho, apresentando-se de forma mascarada. Tal mecanismo é denominado condensação.

Uma amiga, após encontrar o ex-namorado, acorda assustada: havia sonhado com uma múmia que saía do sarcófago, toda empoeirada, e a perseguia. Ao acordar, levou o sonho para a análise e se deu conta: seu inconsciente revelava-lhe o impacto daquele encontro. A múmia que a perseguia era esse sentimento do passado que, pelo sonho, ela percebeu ainda estar vivo dentro dela.

Mas, para cada pessoa, os símbolos que aparecem num sonho têm um significado específico, que só pode ser decifrado pelo próprio sonhador. Mesmo que apareça de maneira torta, dá notícias de algo que, acordado, pode ser muito ameaçador. Por isso, o dicionário de sonhos não deve ser levado muito a sério. Como dito por Freud: o sonho pertence ao sonhador.

Eventos ocorridos durante o dia e que dão formas construtivas aos sonhos são chamados restos mnêmicos. É como se o inconsciente “pescasse” elementos na realidade para trabalhar durante o sonho. Logo, haveria um pensar inconsciente durante o estado de vigília que vai selecionando elementos do dia, levando materiais para a vida onírica.

Existem também os sonhos de repetições traumáticas — uma tentativa do nosso aparelho psíquico de dar conta de um trauma. A pessoa sonha o evento diversas vezes, em busca de elaborar aquilo que foi excessivo. Como se, ao dormir, tentasse acomodar algo extremamente incômodo, revivendo a cena madrugada adentro. Tal ideia é sustentada por Ferenczi — o sonho seria uma tentativa de reparação do trauma.

O psicanalista Thomas Ogden associa a capacidade de sonhar ao crescimento e ao aprendizado com as experiências. A literatura é um lugar de sonho, assim como a arte, que nos tira de um estado zumbi e nos acorda para outros mundos quando a realidade mais parece uma terra árida.

Sonhar acordado também é extremamente importante. Poder fantasiar nos possibilita uma tolerância maior à realidade. A fantasia é um dos veículos pelo qual o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. É um terreno no qual tudo pode acontecer.

O sonho captura a fluidez do tempo

Há algo precioso no sonho: podemos voltar a ser crianças, encontrar pessoas perdidas, visitar casas que há muito abandonamos. No sonho, temos a percepção da atemporalidade do inconsciente e transitamos na fluidez desse tempo.

Quando perdi minha mãe, sonhei que a colocava boiando numa cachoeira. Dava-lhe um beijo na testa, abria os braços e a entregava para a água. Ela estava de branco, como se estivesse sendo batizada. Quando acordei, entendi. Uma mãe de santo havia me dito certa vez que eu era filha de Oxossi, filha da água doce. Minha mãe agora tinha sido devolvida para a mãe natureza e estava mergulhada dentro de mim para sempre.

Nós nunca vivemos essa memória, mas ela habita em mim, como qualquer experiência que eu tenha vivido na vigília. Foi o final feliz que eu inventei para ela na noite em que foi velada. Um presente que meu inconsciente ofereceu ao meu coração órfão.

O sonho é o antídoto para a peste da insônia, mas também para a peste da saudade, pois através dele podemos reencontrar pessoas perdidas, abraçar-lhes forte e inventar mais uma memória para viver junto. O sonho talvez seja a máquina de memória que José Arcadio Buendía tanto quis fabricar em Cem anos de solidão. Tomara que, nesta noite, meu inconsciente me ofereça um passeio de mãos dadas com ela.

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Em 2009, Edwin Rist, então um jovem de 22 anos, subiu no parapeito de uma das janelas do museu de Tring, uma extensão do Museu de História Natural de Londres. Carregava consigo uma mala vazia, um cortador de vidro e uma lanterna. Ao tentar subir na janela, Rist derrubou o cortador de vidro. A noite estava escura, e ele não o encontrou novamente. Então agarrou uma pedra do chão, mesmo, e quebrou o vidro, abriu a janela — cortando, sem querer, o braço — e entrou no museu. Seguiu para a ala dos pássaros conservados. Abrindo as gavetas, roubou mais de 299 espécimes do museu. Furto completo, pulou a janela, pegou o trem e voltou para o seu apartamento em Londres.

Rist usou uma pinça para depenar os pássaros, colocando as penas em saquinhos plásticos estilo zip lock. Tirou fotografias. Entrou em um fórum especializado para amantes da pesca com mosca, ou fly fishing, um estilo de pesca que usa iscas que imitam insetos para atrair peixes. Essas iscas, ou moscas, podem conter penas de diversas espécies de pássaro, assim como outros materiais. São pequenas obras de arte, e requerem muita paciência e habilidade. Quanto mais raras as penas, mais valiosas as moscas.

As penas de Edwin chamaram a atenção dessa comunidade. Afinal, eram penas raríssimas, algumas de espécies de pássaros extintos há mais de um século. Era o sonho de qualquer “mosqueiro”. A demanda foi tão grande que Edwin decidiu que seria mais rápido e eficiente vendê-las através do eBay. Usou a sua própria conta, com o nome de usuário FlutePlayer 1989. O Tocador de Flauta. Quando foi rendido pela polícia, alguns meses depois, ele confessou que estava vendendo as penas para realizar um sonho.

Nascido em 1988 no estado de Nova Iorque, em uma família de classe média — seus pais eram jornalistas e donos de um canil de labradoodles que suplementava a renda da família —, Edwin não frequentava a escola. Sua mãe, Lynn, o educava em casa, e ele seguia livremente seus interesses. Logo cedo, desenvolveu duas paixões: a primeira, pela música, tornando-se um prodígio na flauta ainda jovem; a segunda, pela pesca, uma paixão herdada de seu pai. Não pela pesca em si, mas pela arte de criar as moscas, desde criança. Ele usava penas e materiais encontrados nos arredores da sua casa, e logo passou a ser uma figura conhecida na comunidade local de fly fishing. Edwin estudava técnicas de fly tying, ou a criação das moscas, em livros antigos, da era vitoriana. Esses livros continham instruções passo a passo, e muitas receitas pediam o uso de penas exóticas. Infelizmente, muitos dos pássaros mencionados haviam sido extintos, sacrificados pela obsessão dos vitorianos pela moda de chapéus com penas. Como não tinha acesso aos leilões privados nos quais colecionadores vendiam penas raras por centenas de dólares. Edwin usava penas substitutas, de pássaros comuns. A frustração pesava. Sem as penas raras, ele não conseguia alcançar o patamar de fly tying no qual sonhava estar.

Optou, então, por se dedicar à música. Recebeu uma bolsa para tocar flauta na Academia Real de Música, em Londres. Passou a sonhar em comprar uma flauta nova, um instrumento da melhor qualidade. Uma flauta dourada. Mas Edwin não tinha dinheiro suficiente. Uniu, então, seu conhecimento do submundo das moscas com sua ganância. Sentou-se à frente do computador e criou um documento chamado “InvasãoMuseu.doc”. E, apesar de as coisas não terem corrido exatamente de acordo com o plano na noite do furto, teve êxito. Mas o menino prodígio da flauta e do fly tying não era exatamente o gênio do crime, e, depois de alguns meses, foi pego. Graças a seu advogado, que convenceu o juiz de que Edwin era autista e não tinha capacidade de diferenciar o certo e errado, ele não foi para a cadeia.

Foi um crime bizarro — um homem que roubou centenas de pássaros mortos para comprar uma flauta dourada. Mas e daí? E daí que Edwin cometeu um crime maior ao arrancar as etiquetas dos pássaros, que continha informações como o nome da espécie, sua origem, a data em que foi preservada e por quem. Assim, os animais deixaram de ser espécimes científicas e passaram a ser apenas… penas. Toda a informação relevante sobre essas espécies raras, algumas extintas, havia se perdido. O mundo empobreceu, nosso conhecimento esvaeceu, e os pobres pássaros foram vítimas de humanos obcecados em ter, colecionar, estudar, exibir, pescar e roubar. Tudo por uma flauta dourada.

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“Temos que reconhecer que, apesar de estarmos na era das Grandes Recessões, da austeridade e da estagnação, o que define a vida no Ocidente são os problemas de excesso, não da falta. Nem sempre a sensação é essa — afinal, quem não quer, ou mesmo precisa, de mais dinheiro? —, mas o fato é que, comparados a nossos antepassados, vivemos em meio à superabundância.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Sinais dos tempos: antes, usávamos a palavra “conteúdo” para nos referirmos a uma abordagem de tema mais aprofundada ou mesmo como algo positivo que alguém possuía; hoje em dia, como um aceno cínico ao estado geral em que estamos, usamos a palavra para designar tudo aquilo, não importa o quê, que as redes sociais produzem. O “conteúdo”, feito bexiga de festa, vem se esvaziando, não sem fazer questão de soltar um barulho ao mesmo tempo estridente e moribundo.

Michael Bhaskar, em 2014. Foto: Bernd Hartung/ Frankfurter Buchmesse

Incrustados no excesso de informações dos dias atuais, envoltos sem direito de escolha nessa verdadeira contenda pela nossa atenção que faz com que cada visita ao celular se assemelhe a um desembarque violento em terras ocupadas, é essencial reconhecer a importância de se fazer escolhas conscientes que dizem respeito a conteúdo. Sob a névoa da guerra, o que consumir e o que não consumir? 

Existem duas razões principais que fundamentam essa necessidade: o gerenciamento do tempo (cada vez mais valioso) e a avaliação da relevância, qualidade e validade das informações recebidas. 

Considerando a limitação do tempo que temos disponível, é fundamental direcionar nossa atenção para aquilo que nos interessa e consideramos pertinentes. Se alguém se deixa levar, lá se vão horas e horas por dia num scroll infinito de informações extremamente descartáveis e pouca, para não dizer nenhuma, retenção de qualquer elucidação que em outro contexto seria válida. Nos tempos modernos — não exatamente iguais aos de Charles Chaplin, mas talvez mais análogos do que imaginamos num primeiro momento —, a inércia das redes sociais pode ser cruel. Com uma quantidade cada vez maior de conteúdos disponíveis, é inviável absorver tudo indiscriminadamente. Para que se cultive a saúde mental e se priorize alguma praticidade, desviar dos muitos dos estilhaços — numa lista rápida: postagens que retratam uma vida irreal e tóxica, influencers de qualquer tipo, pautas pouco desenvolvidas que se resumem às manchetes, notícias inexpressivas sobre o pé dessa ou daquela celebridade —, evitar que o jogo vire e que tudo nos consuma, é um mínimo.

Aos poucos estamos aprendendo, mas, sim, é verdade: nem tudo que chega até nós é factual ou representa uma opinião válida. Curioso pensar como muitas vezes obter uma informação em algum perfil do Instagram ou em qualquer site se assemelha ao que, antes, era ler algo no jornal, apesar deste estar cada vez mais desvalorizado. A lógica, ora, é praticamente a mesma: se está ali, se chegou até mim, então deve ser verdade. Porém, a lógica pregressa era um tanto mais sensata, já que, naqueles tempos — no vendaval do mundo digital, dizer “naqueles tempos” é pensar em praticamente tudo que está a mais de dois ou três anos de distância —, havia uma responsabilidade maior com o que era ou não noticiado, muito embora o poder manipulativo proveniente disso seja tão assustador quanto o das fake news atuais que nem se preocupam em parecer reais. A disseminação de desinformação e opiniões enviesadas é uma das realidade mais aterradores dos nossos tempos.

Desde o surgimento da internet e das mídias sociais, somos constantemente bombardeados por uma quantidade inimaginável de conteúdo. Notícias, artigos, vídeos, músicas, livros e tantos outros produtos, que, pelo volume exacerbado, chegam a ser nocivos, estão disponíveis em uma escala sem precedentes. Eleições já foram decididas tomando proveito disso e quem negar que elas têm papel crucial na formação de opiniões estará sendo, no mínimo, ingênuo. Portanto, é imprescindível desenvolver habilidades de avaliação crítica e discernimento para filtrar o conteúdo que encontramos. Isso envolve questionar a fonte das informações, verificar sua credibilidade, analisar diferentes perspectivas e considerar o contexto em que a informação está inserida. Ao fazer escolhas conscientes sobre o que ler, estamos adotando uma postura crítica e responsável em relação ao conhecimento que absorvemos.

Calma lá. Essa seleção criteriosa não significa fechar-se em uma bolha informativa ou limitar-se a apenas um ponto de vista. Pelo contrário, implica em buscar diversidade de fontes e opiniões, mas de forma consciente e fundamentada. Mais do que nunca, é de suma importância expor-se a diferentes perspectivas e ter acesso a informações confiáveis e embasadas, a fim de ampliar nossa compreensão e formar opiniões com base em ponderação, mas com um pequeno adendo: direcionar para o que nos é mais relevante, tanto pelas nossas predileções quanto pela necessidade de avaliar a qualidade e a validade das informações que nos chegam. Ao adotarmos uma abordagem consciente e crítica em relação à seleção de conteúdos, podemos otimizar nosso tempo, obter conhecimentos relevantes e desenvolver uma visão mais informada e equilibrada do mundo ao nosso redor.

Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso (2020), escrito por Michael Bhaskar, é um livro que explora a importância da curadoria, como uma forma de seleção proativa, em um mundo invadido por agentes com propósitos diversos, por vezes escusos. Como podemos navegar nesse oceano de excessos e encontrar valor e significado por meio da seleção? Como dar um sentido à loucura que é o bombardeamento de informações? Como é possível a abundância ser esmagadora e causar, paradoxalmente, uma sensação de esvaziamento?

“No contexto de excesso, curadoria não é só um modismo. Ela dá sentido ao mundo.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Bhaskar é um profissional reconhecido na área da curadoria e do mundo editorial. Sua experiência prática o levou a explorar a importância da seleção como um meio de filtrar e dar significado em meio ao fluxo constante de informações disponíveis. À medida que somos inundados por uma quantidade avassaladora de informações, produtos e opções, a seleção se torna um poderoso mecanismo de autopreservação, filtragem e atribuição de valor.

Nos últimos duzentos e poucos anos, projetamos sociedade e negócios para que não parem de crescer, para que continuem somando. Mas, atualmente, os acréscimos provocam mais mal do que bem. Se muitos problemas são decorrentes de criar mais, não teríamos motivos para questionar esse pressuposto? Vivemos em um mundo fragmentado: nossas vidas se espargem por essas e aquelas redes sociais, com porções que se rompem cada vez mais e causam um danoso desmembramento de vivências, de personalidades, de visões de mundo. No fim, neste mundo estilhaçado, somos nós retalhos, frações, meros vestígios. Versões que gostaríamos de ser, mas não somos.

Ao criar um certo ideal de vida plena e satisfatória que muitas vezes parece inalcançável, uma ideia que se vê salpicada aqui e ali, a cultura e a sociedade amplificam um sentimento generalizado de perda. Perda daquilo que nunca se teve; perda daquilo que nunca se foi — fragmentos que nunca serão o todo. 

Adam Phillips, um renomado psicanalista britânico, escreveu O que você é e o que você quer ser (2012), um livro que explora a natureza humana e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Partindo da ideia de que todos nós temos uma vida não vivida, uma vida alternativa que imaginamos ter se tivéssemos feito escolhas diferentes, ele argumenta que essa vida não vivida é uma fonte de angústia e sofrimento para muitas pessoas, pois dá a sensação de que estamos perdendo algo essencial e valioso. Mas questiona se devemos realmente nos lamentar por aquilo que não vivemos e propõe uma reflexão sobre a importância de abraçar as escolhas que fizemos e encontrar significado e satisfação na vida que temos.

“Como sabemos agora mais do que nunca sobre os tipos de vida que é possível viver (…), somos sempre assombrados pelo mito de nosso potencial, do que poderíamos ter em nós mesmos para ser ou fazer. Então, quando não estamos pensando, como o personagem do poema de Randall Jarrell, que ‘As maneiras pelas quais sentimos falta de nossas vidas é a vida’, estamos sofrendo, lamentando ou nos ressentindo por não sermos nós mesmos como imaginamos que poderíamos ser. Compartilhamos nossas vidas com as pessoas que deixamos de ser.”
Adam Phillips em O que você é e o que você quer ser

Adam Phillips, em 2017. Foto: Richard Saker/The Observer

Pensando nas escolhas que temos que fazer no que diz respeito ao que lemos e o que não lemos, aos vídeos que assistimos e aos que não assistimos, temos que saber que nem todas as vidas podem ser vividas. Inevitavelmente, algum assunto do momento passará batido — o que é bom. A curadoria motivada pela sobrevivência vai além da simples escolha, envolvendo também a capacidade de dar contexto, criar conexões e despertar emoções por meio das escolhas feitas. Talvez pareça algo simples, mas, diante do muito que vemos nas redes sociais e na mania que temos de optar pela manifestação célere ao invés de um momento de reflexão, não é algo que vem naturalmente. O natural é opinar sobre tudo, ao mesmo tempo, sempre que algum assunto amplamente discutido surgir — e, sim, ele vai surgir. Mas e se não fizéssemos isso?

É inevitável, e preocupante, o tanto que é possível nos enxergar na seguinte provocação: “Temos entretenimento constante, mas somos cada vez mais distraídos.”

Pensar no papel da seleção em um mundo abarrotado de informações é também refletir sobre como uma habilidade e um processo que pode nos auxiliar, e muito, na sinuosa navegação do mundo contemporâneo do excesso. 

“A curadoria é mal interpretada porque raramente é vista em todo o seu contexto. Curadoria tornou-se um modismo porque a ser resposta para uma série de problemas que antes não existiam: os problemas decorrentes do excesso. Há duzentos anos, vivemos num mundo que promove a criatividade, que busca o crescimento acima de tudo, que aumenta a produtividade sem dar trégua e que quer sempre mais: mais gente, mais recursos, mais dados, mais tudo. A cada dia que passa, porém, fica mais claro que estamos sobrecarregados.”
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais do que selecionar: dar contexto e significado aos conteúdos escolhidos. Bons curadores, no contexto artístico em que estamos acostumados, são capazes de contar histórias, criar conexões e despertar emoções por meio de suas seleções, certo? Não seria ótimo poder aplicar isso à vida cotidiana?

“Por sorte, a natureza do problema sugere uma resposta: já estamos vendo uma revolução na forma como abordamos o valor. Se o valor, pecuniário ou de outro tipo, antes tinha a ver com a produção primária, agora, num mundo que deixou de ser dominado pela escassez, ele mudou. Hoje o valor está em resolver esses problemas e reduzir a complexidade. Curadoria tem a ver com construir empresas e economias em menos opções — mais apropriadas, mais personalizadas. Essa é a diferença fundamental e a grande tendência subjacente que ainda estamos começando a entender.” 
Michael Bhaskar em Curadoria – O Poder da Seleção no Mundo do Excesso

Mais e mais também pode significar menos e menos. Esse, na verdade, é um paradoxo comum da vida. Se você tem muitas amizades, isso talvez signifique que você não tem amizades profundas; se você consumir 7 livros por semanas, isso talvez signifique que você não vai lembrar de nenhum deles daqui a uma semana. 

O excesso, afinal, também é o vazio cada vez maior de espaços livres. Talvez, com um pouco de seleção, o cenário abarrotado possa se inverter. 

Menos é mais, less is more, e nem sempre pingar é melhor do que secar.

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Devido à pandemia, pela primeira vez em muito tempo nos vimos forçados a desafiar um modelo de trabalho há muito não questionado. Antes de tudo acontecer como aconteceu, o trabalho remoto estava fadado a eventualidades, guardado somente para casos extremos, como algum problema de saúde ou aquelas grandes chuvas capazes de parar metrôs e trens, impossibilitando o deslocamento do funcionário ao local de trabalho. Mas depois de um ano e pouco de pura ansiedade, a vacina e as suas doses de reforço vieram para acalmar os ânimos. Ainda que num contexto para lá de ruim, uma nova possibilidade foi apresentada às pessoas: ao contrário do que se imaginava, é possível trabalhar de casa — e com eficiência (até maior, a depender das circunstâncias). Como, então, voltar 100% ao trabalho presencial? Não se volta. Pelo menos não com a mesma soberania. Os números mostram que esse modelo de trabalho, antes uma maioridade acachapante, não voltou a reinar. O modelo preferencial de hoje em dia é o híbrido, que balança entre o remoto e o presencial, adotado amplamente por empresas do mundo todo. 

Presume-se que esse seja o futuro do trabalho e que, a partir dessa primeira grande mudança, outras virão, num processo contínuo de desencadeamento. 

Mas isso, claro, gera impactos relevantes na economia, tão assentada na logística que força as pessoas a usarem o transporte público, a comerem fora de casa e a frequentarem os comércios que circundam o local de trabalho. E quando a economia é afetada para pior, independentemente do quão positiva possa ser a mudança em termos humanos, a tendência é que a resistência seja das mais fortes, vindo inclusive de políticos poderosos pressionados por lobistas de todos os tipos. A título de exemplo, em janeiro deste ano a prefeita de Washington, Muriel Bowser, que atualmente cumpre o seu terceiro mandato no cargo, fez forte apelo ao presidente Joe Biden, dizendo que o trabalho remoto estaria “matando” a capital norte-americana. E no começo de 2022, o prefeito de Nova York, Eric Adams, direcionou um forte discurso à população novaiorquina, dizendo que “vocês não podem ficar de pijamas o dia inteiro”, pois “não é isso que somos enquanto cidade”.

Em parte, faz todo o sentido do mundo que os prefeitos de duas das maiores cidades dos EUA advoguem a favor daquilo que, num primeiro momento, parece melhor para a economia. Uma economia ruim, obviamente, não serve a ninguém e leva a problemas sociais sérios. Mas, ao mesmo tempo, é justamente por serem os prefeitos de duas megacidades que as falas ácidas chegam a impressionar. Seria de se esperar fossem estar um tanto mais abertos às novidades da vida profissional, ainda mais quando elas representam, em muitos casos, aumentos na produtividade e satisfação dos funcionários. 

Dentre os muitos argumentos em prol do trabalho remoto — como a liberdade e a comodidade para trabalhar de onde a pessoa bem entender —, um que ganha destaque é a economia, que chega perto de 40 mil reais anuais. Economiza-se um bocado com descolamento (seja ele feito com transporte público, carros de aplicativos ou com o combustível do automóvel próprio), outro bocado com alimentação e até um bocadinho com lazer. E é por conta dessa redução palpável de gasto, que, muito embora tenha o poder de colocar a vida financeira de alguém nos trilhos, o trabalho remoto representa um perigo para a economia das cidades, em especial as mais caras, como Nova York ou São Paulo. 

A política vem tentando entrar em jogo para interceder a favor dos seus e desacelerar aquilo que veem como uma ameaça à economia, mas o que mais paira no ar é a dúvida: será que o processo é mesmo reversível?

Antes da pandemia de Covid-19, apenas cerca de 7% dos negócios no país tinham empregados trabalhando à distância. Hoje, porém, de acordo com estudo feito pela FGV, o home office é adotado por 33% das empresas no Brasil. O número, claro, é menor do que era nos dois anos anteriores, quando a pandemia ainda estava no auge. Em 2021, 57,5% das empresas no Brasil  estavam trabalhando de forma remota, de forma parcial ou total, incluindo as que já adotavam essa modalidade antes de 2020. Em outubro de 2022, o percentual caiu para 32,7%.

Nos EUA, até 2019 apenas 4,7% do trabalho era feito em casa. Hoje, mais de um quarto dos estadunidenses cumprem jornada nessa modalidade. Em janeiro deste ano, 27,2% dos dias trabalhados cumpridos foram de forma remota, segundo a pesquisa Working From Home Research, um relatório mensal sobre o trabalho remoto.

Fato é que cabe aos líderes pensarem em estratégias para lidarem com as transformações inevitáveis da sociedade. Ao que tudo indica, o trabalho híbrido veio para ficar e, portanto, se o impacto na economia é uma realidade, os esforços devem ser direcionados para a elaboração de mecanismos de adaptação àquilo que é tido como problema. Solucionar não é barrar, e vice-versa. Se considerarmos que cada transformação tem seus próprios resultados, seja fortalecendo ou possivelmente enfraquecendo a economia, tentar frear todas as mudanças que se anunciam talvez não seja inteligente. Não em 2023. Num mundo altamente tecnológico que muda a cada dia, não é possível preconizar os modelos ultrapassados só por que eles operam a seu favor. 

O futuro do trabalho está com a boca cheia de promessas e, cada vez mais, ele tende a se distanciar daquilo tudo que vivemos até aqui, fazendo com que os reinados durem por menos tempo e aumentando a velocidade com que modus operandis e mentalidades entram na lista do “passado” do trabalho. Um tópico que vem ganhando força nos últimos tempos é a semana de 4 dias, certo? Se nem mesmo a semana de trabalho de 5 dias está segura nessa revolução, então nada está. Os símbolos que por tanto tempo reverenciamos começam a desbotar, tal qual a produtividade acima de tudo, e o melhor é abraçar os novos momentos, tomando deles o que potencializa as virtudes de uma empresa, de uma cidade, de uma pessoa. 

O que mais vem pela frente?

Wirearchy — O termo, que brinca com a palavra hierarchy (hierarquia), sugere uma fuga dos organogramas rígidos. Trata de empresas em que as pessoas, a partir da colaboração e da conexão possibilitada pela tecnologia, assumem a responsabilidade individual e coletiva, em vez de dependerem da hierarquia. É um fluxo dinâmico, de mão dupla de poder e autoridade, com base no conhecimento, confiança, credibilidade e foco em resultados. 

Inteligência Artificial — Talvez nenhum outro tema esteja tão em voga quanto esse. O Chat GPT mal chegou e já há um sentimento de estafa em cima dele. Quem abrir o LinkedIn e, numa primeira batida de olhos, não se deparar com matérias e comentários sobre essa IA que atire a primeira pedra. É só uma questão de tempo até que a automatização faça parte de mais e mais empresas, fazendo com que o toque humano seja buscado em áreas que a inteligência artificial ainda não chega. Devemos, então, desenvolver competências e capacidades tecnológicas necessárias para o sucesso da colaboração e convivência entre os seres humanos e robôs.

9h às 18h? — O que realmente importa é a entrega, não os horários em que se bate o ponto. Parece simples, mas até há pouco isso soava como um sonho distante. Atualmente, a tendência é que as pessoas tenham cada vez mais liberdade para definir os horários e até os dias de sua jornada de trabalho. É claro que, para funcionar, esse é um modelo que passa pelo bom senso das pessoas também, que precisam ter em mente que, mesmo com toda a liberdade do mundo, nem sempre a agenda própria vai ser seguida. De vez em quando será necessário se fazer disponível, seja em momentos críticos ou quando o trabalho conjunto é imperativo, independentemente que isso fuja da rotina pré-estabelecida.

Tudo isso, semana de 4 dias inclusa, tem um impacto. Nem sempre será positivo, nem sempre será negativo. Mas será. Se nenhum desses novos capítulos representar uma recessão econômica, melhor ainda. O capitalismo, aliás, também está sendo posto à prova na medida em que, a galope, entramos na quarta revolução tecnológica. O quadro de transformações aponta uma renovação de valores que já não condiz com o arcabouço ideológico que fez o capitalismo prosperar por tanto tempo. Nada está garantido, a não ser que novos tempos batem à porta.

Vivemos um importante momento de transição e de definição. E, em termos de progresso, não há nada pior do que fechar os olhos para os fatos.

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O Amarello é um coletivo que acredita no poder e na capacidade de transformação individual do ser humano. Um coletivo criativo, uma ferramenta que provoca reflexão através das artes, da beleza, do design, da filosofia e da arquitetura.

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