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#50FamíliaDesignInterioresMobiliário/objetos

Um cafezinho com Cris Borges

por Tomás Biagi Carvalho

Fotos de Derek Fernandes

Tomar café na casa de alguém é um convite para conhecer profundamente essa pessoa. Nossa casa é a casca que nos protege do mundo. Ela é parte importante de nossa cultura particular, e reflete a maneira como enxergamos e gostaríamos de nos inserir no mundo.

Aqui, dividimos casas de pessoas que gostam de casa. Que têm suas casas vivas, cheias de objetos que contam a história de uma vida, sem um lugar perene em seus espaços.

Cristina Borges é arquiteta e designer de interiores. Morou na Gávea, no Rio de Janeiro, por muito tempo, até se apaixonar por Copacabana, em um apartamento de família, a ponto de nunca mais querer sair de lá. 

Cris, me conta quando e como começou a relação com este apartamento.

Este prédio foi construído pelo meu bisavô em 1928, ou seja, daqui a quatro anos ele completa cem anos. O prédio sempre foi inteiramente da minha família, até que, de uns trinta anos para cá, meu tio vendeu as duas unidades dele, meu tio-avô morreu, deixou parte para os seus sobrinhos, deu uma diluída. Hoje em dia, proprietário, da família, temos três. Como a vida inteira eu morei na Gávea, Copacabana era uma coisa distante da minha vida. Eu tinha horror a Copacabana, era uma coisa que me exasperava só de pensar. Mas sempre amei esta cobertura. Quando minha tia-avó morreu, minha mãe comprou do herdeiro dela e ficou alugando a vida toda.

Apesar de eu achar o apartamento em si muito jeitoso, não via ele como moradia. Morava numa casa feita por mim, um projeto meu em que juntei duas casas de vila em uma, fiz uma super casa. E aí, a vida mudou, eu me separei, meu marido faliu, eu fiquei ali segurando, segurando, até que chegou um ponto que não se justificava mais morar numa casa na Gávea, com dois filhos na PUC consumindo tudo que eu botava dentro de casa. Foi quando conversei com a minha mãe e peguei o apartamento, fiz as reformas necessárias e aluguei a minha casa da Gávea. Com o aluguel da casa da Gávea, fiz toda a obra primordial daqui, que era toda a parte de elétrica, de encanamento… E assim vim para cá com os dois meninos. Um depois foi embora, ficou morando com o pai e, na pandemia, voltou.

O que você acha que este apartamento te oferece, em termos de conforto e bem-estar?

Antes de mais nada, podemos falar do ponto. Eu não tenho mais carro. Eu desço e sou praticamente atropelada pelos táxis. Fora que tem Uber também, então isso foi um salto na qualidade de vida para mim, parar de dirigir nesta cidade. Em Copacabana, você dá uma volta no quarteirão e é como se desse uma volta ao mundo, tem mexicano, português, italiano, árabe, brasileiro, bistrô, a quilo e, às quintas-feiras, ainda tem a feira. Para mim, que tenho um pouquinho de TOC de arrumação de geladeira, manter a minha semivazia é uma bênção.

Isso é o ponto número um. Número dois, a vista. Número três, a arquitetura do apartamento: são três metros e trinta de pé direito. Mesmo que eu não tivesse o mezanino, já seria uma glória. Essa arquitetura me favorece muito, e eu agradeço demais por morar num lugar tão lindo. Além disso, estou há oito minutos do aeroporto. Eu tive uma loja no MAM, então eu sei que são oito minutos mesmo. E ainda tem o clube Marimbás, de que eu sou sócia, e o namorado, que mora no posto seis. Então, entre o posto dois e o posto seis, tenho tudo que posso querer ter. Sair daqui, nem pensar.

E você frequenta a praia?

Vou à praia todo santo dia.

Você mergulha?

Mergulho, dependendo do dia. Hoje está frio. Mergulho, imagine, pego sol. Sou do tipo que ainda se bronzeia.

Como você acha que a sua profissão influencia no seu gosto pessoal? E como foi a evolução desse gosto?

Completamente. Eu nasci e fui criada dentro de obra. Eu morei numa das casas mais bonitas da Gávea, do tempo dela. Meu avô era uma pessoa muito sofisticada, foi um dos dez [homens] mais elegantes, teve o primeiro carro, o primeiro pastor-alemão, era um dândi. Basta dizer que meu pai nasceu no Parque da Cidade, que era a casa dele, e depois ele vendeu pros Guinle, e os Guinle doaram para a cidade para fazerem o parque. Então, eu acho que nasci e fui criada nesse berço bacana, chique, uma coisa quase minimalista. A casa do meu avô era imensa, mas tinha dois sofás numa sala e no outro canto um recamier.

Devia ser muito moderno para a época. A gente não pensa em um lugar minimalista atrelado àquela época. A gente está falando de que década?

Minha avó nasceu em 1900, então, década de 20.

Devia ser muito arrojada a casa para a época. Imagina! Na mesma época  este prédio aqui estava sendo construído, todo neoclássico.

A casa até que não era muito estilosa por fora, não, mas por dentro… Minha avó e meu avô eram loucos por jardim, foi um francês que fez todo o paisagismo. Essa coisa do jardim eu acho que herdei deles. A coisa do belo eu acho que herdei dos dois lados, porque, pelo lado da minha mãe, a minha avó também era louca por jardim. Não tinha, naturalmente, o poder aquisitivo do outro lado, porém, quando [ela] fez a casa dela, chamou o Carlos Leão para ser o arquiteto, então a casa era toda jeitosinha — pequena, dentro de um lote no Humaitá, mas era uma casa muito bem arrumada. E a arte entra porque meus tios têm uma galeria de arte. A dona deste apartamento aqui, que era irmã da minha avó, era sócia dos meus tios numa galeria no Copacabana Palace, a Galeria de Arte Ipanema. Depois que ela saiu da sociedade, era o tio mais velho e, depois, entrou o tio mais moço, e ficaram eles dois. Eles fizeram a Galeria de Arte Ipanema, em Ipanema, que ainda existe. Hoje, eu particularmente acho que a obra que foi feita não serve para galeria, mas está lá a galeria, com um pé direito que você quase raspa a cabeça. Quando inaugurou, tinha um Lescher lá no fundo, que você via cortado pelo meio. Tudo bem, ali tinha um pé-direito para ele caber, mas o resto da galeria…

Então, isso me moldou como ser humano. Eu amo o belo, quer dizer, o belo que eu entendo como belo. Quem ama o feio, bonito lhe parece. Então eu procuro viajar, estou sempre comprando coisas, sempre trazendo coisas.

Muito provavelmente esse ambiente em que você nasceu e viveu, desde sempre, te levou à sua profissão.

Provavelmente. Mas eu acredito que existe uma aptidão também. Porque eu não fiz faculdade e não me formei arquiteta, mas, desde garota, fazia maquetes com as caixas de sapato. Sempre gostei disso. Meu quarto, quando criança, nunca foi o mesmo por mais de três meses. Este apartamento, até eu entender ele, foi 280 coisas diferentes.

Você ia acrescentando peças ou mexia 280 vezes com as mesmas coisas?

Mudou assim: quando eu me mudei, eu não tinha sofá, eu tinha uns bancos que eu mandei fazer no Fernando Mendes para a casa da Gávea, que eram quatro metros de banco, dois de dois metros, e neles eu tinha televisão, CD — a gente tinha CD na época, então eram pilhas de CD.

Precisava desse espaço.

Eram bancos de setenta centímetros por dois metros que, juntos, faziam os quatro metros. E aí eu acabei mandando eles para a Bahia, porque eu usava ali, mas era muito grande para o todo, e esse negócio eu joguei ali, porque não cabia. Eu não posso ter nada, conforme te digo, eu não posso comprar objeto de mesa, por exemplo. Quando eu tirei essas portas aqui, tinha uma prateleira em cima, onde eu tinha várias coisas que tive que levar para a Bahia, porque eu não tinha onde botar. Até a minha sereia, que eu não levei porque estou com medo de ela enferrujar toda. A sereia ficava aqui, que eram só coisas do mar, tinha um Artur Baglio, que era uma mulher embaixo d’água, esse Vasarely ficava ali também, tinha aqueles negócios de vela que eu trouxe do Egito e que, sempre que recebia alguém, acendia. Agora não tenho onde botar, foi para debaixo da escada.

Como você acha que o seu gosto se desenvolveu ao longo de todos esses anos?

Eu acho que, quanto mais você viaja, quanto mais você vê coisas que têm um foco, muita arquitetura… Sou louca por arquitetura tanto quanto sou por arte. E por jardins. Por exemplo, eu fui a Londres, passei quatro dias em Londres, um dia inteiro foi no Kew Gardens, que é lindo, uma coisa imperdível. Já fui aos jardins botânicos em Nova Iorque, em Berlim, em todo lugar que eu vou. Em Berlim, Sanssouci, o que é aquilo? Você já foi? É a coisa mais linda. Era para o filho gay do rei sei lá das quantas. Ele construiu para isolar o filho, desaparecer com ele da corte, entendeu? E é deslumbrante, na frente tem uns degraus, uns patamares. Aí eu comecei a reparar que tinha uns armários incrustados. Eram hortas no inverno, todas envidraçadas, mas incrustadas nos patamares, para dentro. Uma coisa, uma beleza. Pagode chinês. Olha…

Lá no Kew Gardens, você foi naquele pavilhão da ilustradora? Como que ela chama?

Margaret Mee. Gente, qualquer lugar naquele Kew Gardens.

Então, acho que viajar te joga numa coisa diferenciada. Tudo bem, eu nasci e fui criada na Bocaina, que é um lugar selvagem, virgem. Então eu acho que a minha vida sempre foi permeada entre o muito sofisticado e o muito rude.

É bom, porque tem a natureza completamente interligada.

A gente é raiz, meu pai era mergulhador, foi pentacampeão mundial de caça submarina, foi um dos fundadores do Marimbás. Ele era da equipe dos Marimbás, com Santarelli, Bruno Hermanny, era da turma deles, meu tio João [também]. Viajaram o mundo inteiro caçando. Então eu acho que esse lado bem raiz está no meu sangue por conta do meu pai. E por conta da minha avó também.

Avó de pai?

Avó de pai. Meu avô caçava. Ele conseguiu achar a Bocaina caçando. Comprou aquilo tudo, fez um barraco só para pernoite. E aí depois o meu pai foi evoluindo e fez a lodge, meu irmão depois pegou e fez uma pousada, que ele teve durante anos. E aí, quando ele encheu o saco da pousada, fechou, e agora é a nossa fazenda de novo.

Trabalhando com arquitetura e decoração, ou seja, fazendo casa para os outros, o que você acha que deixa uma casa única?

A personalidade do proprietário.

Às vezes, ele não consegue colocar isso na casa, você não acha?

Eu acho que se ele tem um mínimo de cultura e personalidade, consegue. Eu já fiz apartamento para clientes que eu não gostei, mas eles amaram. Então o meu compromisso não é comigo, não é a minha autoria, é fazer um lar para quem vai morar nele. Por exemplo, eu não sou uma pessoa que entra na casa de uma pessoa e manda jogar tudo fora e vamos fazer tudo [de novo]… “Móvel? Nem pensar, marcenaria, porque é onde se ganha muito dinheiro”. Eu faço a casa dos outros, não a minha. Eu já cansei de entrar em casa que você [diz] “isto aqui é uma casa do Cláudio”, “esta aqui é a casa do Eric”. Eu não quero entrar na casa dos outros. Tem uma história do Cláudio muito engraçada, que, quando ele foi fazer o apartamento do Caetano, a Paula começou, “Olha, eu queria que você visse o teto do meu vizinho aqui de baixo, que no vizinho de cima tem não sei o quê”. Ele olhou para ela e falou assim: “Faz uma coisa, Paula, chama o arquiteto dele”.

O que você acha que torna uma casa brasileira?

Linho, algodão, tem gente que põe brocado — isso é uma moda que eu acho que já passou. Casa brasileira é palha, madeira, e eu acho que ventiladores de teto, uma coisa bem tropical. Cores claras. Depende se a pessoa não gosta de quadro, não tem apreço por comprar arte, aí eu entraria com uma estampa. Talvez uma cor na parede; espelhos, se tem vista. Porque eu acho o uso do espelho extremamente perigoso, pode ficar um monstro e pode ficar lindo. Quando o espelho serve para abrir uma janela, estou dentro; esconder uma coluna, tudo bem. Agora, quando é um espelho tipo decorativo, para não refletir nada, no meu pensar, já cai na cafonice. Mas eu uso, eu gosto de espelho no ambiente, acho que favorece.

Fica uma casa muito adequada ao clima, sim. E, obviamente, falamos muito aqui no domínio da culinária. Qual você acha que é o papel da comida e da alimentação dentro de uma casa?

Eu acho que o agregador da família é a comida, sem a menor dúvida. O que junta é a mesa. E é o que talvez falte muito nos dias atuais, aquele momento de as pessoas se olharem e conversarem, contarem como é que foi o dia, como é que vai ser — se for almoço, como é que vai ser dali para frente… E eu acho que isso é um movimento que está acontecendo. Ontem, por exemplo, eu tentei desmarcar um dentista e não consegui, porque eles agora têm hora de almoço. Acho que é muito importante esse countdown, e a mesa é tudo numa casa. Eu fiz um apartamento, uma vez, que a mulher me disse: “Eu não quero sala de jantar, não, aqui a gente come de bandeja”. Eu falei: “Tudo bem, dá para fazer”. Mas que pena, porque era uma mulher com três filhos, sem marido — sei lá do marido, podia ser separada —, mas cada um comia numa hora, com uma bandeja e vendo televisão. É um desperdício monstruoso de aproximação para uma família. Para mim, a parte da cozinha… Inclusive, ter uma cozinha participativa seria melhor ainda, não ter aquela cozinha…

Ali, você vai estar vendo. Ela é participativa no sentido de as pessoas cozinharem juntas, isso eu acho muito interessante. Meus filhos, desde que ficaram em pé, eu empurrava a cadeira para o fogão e eles cozinhavam comigo. Sabem fazer tudo.

Hoje eles cozinham?

Tudo.

É fundamental isso, a gente ganha muita autonomia na vida. Não é só autonomia para saber se alimentar bem, com qualidade e ter saúde, mas acho que a cozinha ensina muita autonomia de vida para a gente.

Total. Porque você come o que você quer. Ter uma boa cozinha, os ingredientes bons… Você tem isso se a mãe tem esse conceito. Eu nunca tive pacote dentro de casa. Podendo, não tenho. Só, assim, quando era para a merenda dos meninos. Até o meu filho pedir para parar de mandar merenda, porque os colegas ficavam invejando a merenda dele, era muito chato. Fazia tudo bonitinho, um chocolatinho, um sanduichinho, um Toddynho ou uma água de coco, qualquer coisa, e mandava. Porque tinha dois recreios, um para comer e outro para brincar. E o de comer não dava tempo se a pessoa ficasse na fila, ela não conseguia chegar e comer. Então eu mandava. Aí começou a causar problema com os colegas e eu parei.

E o que você acha que a palavra “casa” significa? Quer dizer, o que significa para você?

Eu li uma definição do Hélio Oiticica uma vez, ele falava que a casa… Não lembro se era a casa ou era a casca do ovo, e nós somos o núcleo do ovo. Então, eu acho que a casa é isso, é o lugar que te protege, te abriga, te faz feliz. A minha vontade sempre é de voltar para casa. Acho que quem não tem vontade de voltar para casa está perdido no mundo. Para mim, a casa é o lugar de acolhimento, de afeto, de amor, é o lugar em que você recebe os seus amigos ou não — mas você se recebe, se recicla, se alimenta. Dependendo da casa, dependendo de quem mora na casa. Eu saí de uma casa para vir morar num apartamento que foi transformado numa casa. Eu acho que a casa é você que faz, e faz de acordo com as suas necessidades. Para mim, [a casa] é conforto e alegria, tudo o que preciso na vida é ter minha casa. Eu amo viajar, agora, voltar para casa é uma coisa quente no coração.

Qual é o papel da arte na sua casa?

Na minha casa, são as minhas paredes. Arte para mim é parede. Em casa, é isso. Eu não quero, até já tentei pintar, mas não quero, já tem coisa demais. Na minha vida, é me deixar feliz

Que projeto você acha que ainda não realizou na sua vida?

Eu não escrevi um livro. De resto, plantei todas as árvores, fiz filho, cozinho, lavo e passo roupa, bordo, faço tudo.

Vai escrever?

Acho que sim. Falta conhecer muitos pedaços do mundo e escrever um livro. Não descarto a possibilidade.

Do que seria?

Eu acho que seria um livro de receitas mais amplas.

Em que sentido?

Receitas de cozinha mas que fosse, por exemplo, a receita de um jantar. Aí eu vou fazer a foto da mesa e vou aumentar essa receita para o tipo de papo, o tipo de pessoa que vem. Eu li uma vez um livro de uma mulher de um diplomata italiano, Ornella… Esqueci o nome dela. Perdi muitos livros na mudança, perdi caixas e caixas de livros, mas também não teria onde botar. Ornella Muti, quem sabe? Não, é uma atriz, uma cantora. Ornella não sei das quantas. Ornella Del-Sol, eu acho. [Orietta Del Sole]

Eu pesquiso depois, tento achar e te falo.

O nome do livro é Nunca treze à mesa. Ela fazia a receita do jantar e escrevia sobre os convidados, o papo que rolou na mesa. Então, eu acho que seria isso, com fotos — foto da mesa posta, foto das comidas, dando as receitas. Acho que o meu grande lance é realmente a parte de casa.

Seria quase um livro de atmosfera.

É, por aí. Uma coisa que eu pudesse misturar, com um quadro que teria apego àquilo, uma coisa assim, com algumas referências para ilustrar aquela receita. Mas tendo a receita também. Podendo dar dica de onde comprar, o que fazer aqui no cantinho, enfim, coisas assim, arranjo de flor que ficaria legal com aquela louça — porque minha mãe também é artista, teve o momento louças, eu tenho louça de milho, louça de…

O que você acha que significa essa frase, “passar para tomar um cafezinho” com alguém ou na casa de alguém?

Eu acho que é marcar um encontro, o que é sempre bom entre duas pessoas que se gostam, se admiram, se respeitam. Em casa eu acho sempre melhor, porque adoro receber. Dá preguiça, mas se é uma pessoa com quem você tem intimidade, ela chega, vai junto na cozinha, abre a geladeira… Aqui em casa, a pessoa é de casa, não tem essa de fazer cerimônia. Tenho amigos mais antigos também, então tem gente que vem aqui que já vai e já entra. A única coisa que eu mando tomar cuidado é com o degrau.

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A classe vetorialista, ao contrário do que nos vem à mente quando pensamos em grupos que prevalecem sobre outros, não detém seu poder com base na posse dos meios tradicionais de produção, mas o faz a partir do controle dos vetores de informação. Isto é, todas as redes e sistemas que dão forma e sentido aos dados que governam a sociedade e influenciam o comportamento humano. Esse controle da informação define novas formas de exploração e desigualdade, tornando-se central para o funcionamento da economia global.

O entendimento tradicional da informação como algo abstrato, leve e quase etéreo é posto em cheque por Wark. A informação, como ela observa, depende de suportes materiais, infraestrutura de redes de dados, servidores, dispositivos e energia que sustentam o fluxo incessante de dados na sociedade contemporânea. Esse novo recurso, então, representaria uma reconfiguração das forças produtivas, na qual os vetores de informação e suas complexas camadas de circulação tornam-se um campo de poder que redefine as relações econômicas e sociais. Wark sugere que a informação, capturada e mercantilizada, transforma-se inevitavelmente em uma ferramenta de dominação, estendendo o controle até os aspectos mais cotidianos da vida, desde as redes sociais até os assistentes digitais que respondem aos nossos comandos de voz e monitoram rotinas pessoais.

Empresas como Google, Amazon, Facebook e Apple exemplificam essa nova ordem em que o valor está no controle dos dados e na capacidade de influenciar/prever os comportamentos humanos. O verdadeiro poder da classe vetorialista reside na “assimetria da informação”, o que quer dizer que, enquanto o público tem acesso a uma pequena fração dos dados, as corporações retêm e acumulam vastos conjuntos de informações, mantendo uma vantagem constante na criação de valor e intensificando o poder sobre a sociedade.

Como um dos resultados desse caos, Wark destaca o surgimento de uma classe subordinada, chamada por ela de “hackers”, composta por todos aqueles que produzem novas formas de informação. Esses trabalhadores criativos (programadores, artistas, escritores, acadêmicos) geram conteúdo e inovação, mas veem suas criações apropriadas — pra não dizer surrupiadas — pela classe vetorialista, que detém o controle e os direitos sobre a circulação dos produtos informacionais. A relação de exploração se intensifica, pois o valor é extraído do trabalho físico, intelectual e de todas as formas de criação que se transformam em mercadoria nas plataformas vetorialistas. Cada pedaço de informação gerada pelos hackers é apropriada e monetizada, gerando mais valor para as plataformas e deixando seus próprios criadores ao deus-dará.

Não bastasse o controle econômico e social, Wark aponta para uma camada biopolítica mais profunda. O domínio vetorialista — e isso percebemos de maneira mais clara a cada dia que passa — alonga suas unhas até chegar à esfera do corpo humano, com tecnologias que monitoram o organismo e transformam aspectos físicos em dados. Relógios inteligentes e outros gadgets capturam informações sobre nossa saúde, sono, movimento e comportamento, criando um ciclo em que cada aspecto da vida se torna um insumo para o capital vetorialista. Quando os dados capturados continuamente ajustam o comportamento humano às demandas de um sistema que faz da vida cotidiana uma matéria-prima de valor, um preocupante sistema de retroalimentação é fomentado.

Fica impossível não se questionar: onde isso vai parar, hein?

Os insights de Wark questionam as noções tradicionais de classe, valor e trabalho, já que, na era do vetorialismo, o valor econômico não se limita ao trabalho direto, ele provém da capacidade de capturar, organizar e transformar dados em capital. O controle da informação vira um meio de controle social abrangente e os vetores que movimentam os dados são os mesmos que moldam as formas de socialização e as próprias escolhas individuais. Essa transformação exige uma nova compreensão da exploração, que incorpore a captura de dados e a constante vigilância de aspectos da vida pessoal.

A resistência à ordem vetorialista demanda novas formas de organização e consciência, pois as lutas tradicionais contra a exploração capitalista não respondem aos desafios do sistema atual. É preciso desenvolver meios de coletivizar o conhecimento e desafiar o monopólio da informação. 

A informação, afinal, não deve ser vista apenas como uma ferramenta, mas como uma força de produção com poder de moldar a vida social e política. É por essas e outras que a voz de alguém como McKenzie Wark precisa ecoar, sendo ao mesmo tempo um alerta e uma inspiração para resistir.

Confira nossa conversa com a autora:

Considerando a sua proposta de que o capitalismo foi substituído por uma nova ordem, como você enxerga o papel de uma obra como O Capital Está Morto? Qual a relação da classe vetoralista com os livros?

McKenzie Wark: O capitalismo foi apenas substituído como o modo dominante de produção. Sempre há múltiplos modos de produção que se sobrepõem e se entrelaçam. Livros já foram produtos da indústria cultural, vendidos como mercadorias, e, muitas vezes, seu conteúdo era moldado pela própria forma de mercadoria. Isso ainda ocorre em parte. Mas o “livro” agora também se tornou algo que a nova indústria de “conteúdo” entrega mais como um serviço, na forma de texto digital. O que é único sobre o texto é que ele se tornou uma relação dinâmica, de mão dupla. Ao ler um texto em uma interface, a interface também lê você, extraindo dados sobre seus hábitos e desejos. Esse regime do texto é extrativo de um jeito que o mundo dos livros não era. Com todas as suas falhas—ainda prefiro escrever, e ler, livros.

Na sua visão, o que tem sido mais difícil para a sociedade contemporânea entender sobre essa nova estrutura de poder baseada em dados e informações?

MW: Isso sempre nos é vendido como uma atualização daquilo que já conhecemos. Chegou até nós com a aparência dos meios de comunicação familiares e ainda usamos os termos antigos para isso — filme, livro, televisão e por aí vai. Assim, o lado mais sutil da mudança no modo dominante de produção passa despercebido.

Em uma sociedade que recompensa cada vez mais a velocidade, a produtividade e a exploração de dados, qual é o papel do silêncio, da pausa e da reflexão na construção de uma alternativa a esse sistema?

MW: Não acho que seja tão simples quanto lentidão versus velocidade, silêncio versus cacofonia. De certa forma, a infraestrutura técnica sobre a qual toda a economia agora repousa também é, em certo sentido, lenta. É incrivelmente difícil modificá-la para qualquer direção que não seja sua destruição constante do planeta. Acho que se trata mais das táticas de velocidade, de ter acesso a diferentes velocidades e intensidades.

O processo de coletivização do conhecimento parece fundamental para desafiar a classe vetorialista, mas há muitos desafios práticos para isso. Quais seriam as primeiras etapas para criar uma resistência informacional em direção à autonomia?

MW: Como todas as formas de trabalho e produção de conhecimento podem colaborar na tarefa comum de conhecer o mundo e criar uma relação com ele, dentro dele, que seja sustentável e mantenha esse sustento? Isso é incrivelmente difícil. Nos oferecem apenas formas de coordenação pelo mercado ou autoritárias. Então, trata-se de experimentar formas de trabalho e conhecimento baseadas na camaradagem. Isso pode ocorrer dentro das instituições existentes, enquanto elas durarem, ou fora delas.

Ao explorar o controle sobre o corpo e a mente através dos dados, surgem questões éticas profundas. Como você vê o papel da ética na ciência e na tecnologia hoje, e o que deveria mudar para que a informação sirva à sociedade em vez de controlá-la?

MW: “Ética” é a disciplina que encontra justificativas para as relações existentes de dominação e exploração. Precisamos de uma política da tecnologia e, curiosamente, de uma estética, uma arte experimental dela. Temos muito pouca autonomia em relação à grande infraestrutura da economia vetorial, então é uma questão de começar pequeno, criando ilhas de consciência e autonomia.

Em vários momentos, o livro parece um experimento de linguagem e pensamento. Você vê essa subversão no que escreveu? 

MW: O mais difícil é escrever de uma maneira que seja contemporânea. Há uma influência de ideias recebidas, de uma linguagem convencional, incluindo a linguagem conceitual. Ou, ainda, há a tendência de exagerar na novidade, perder de vista a inovação incremental. Para mim, isso significa trabalhar sempre para pressionar a linguagem, para desnaturalizá-la.

Escrever sobre a perda de autonomia e o aumento do controle pode ser um processo que traz inquietação. Foi doloroso ou desconfortável para você escrever sobre a ascensão dessa classe vetorialista? 

MW: Quando escrevi Um Manifesto Hacker (2004), eu estava em um momento otimista, o que é menos evidente em O Capital Está Morto (2019). Ganhamos algumas batalhas, mas perdemos a guerra, por assim dizer. As atuais relações sociotécnicas são o resultado de uma série de lutas, não por causa de alguma “essência” da tecnologia. Está ruim porque perdemos. Não estou aqui para vender otimismo. Mas, pelo menos quando as coisas estão ruins, há menos oportunistas. A luta agora é defensiva.

Sua escrita carrega um tom de urgência e um senso de alerta. Qual é o papel da linguagem e do estilo na transmissão dessa mensagem, e como você encontrou o tom ideal para falar sobre essas mudanças de forma acessível e envolvente?

MW: Sou uma escritora. Para mim, os livros são obras de arte tanto quanto qualquer outra coisa. Escrevi todos eles da melhor forma que pude. Leva muitas versões e muitos recomeços. Mas não é apenas por minha conta. Aprendo com outras pessoas, com outros escritores, tanto do passado quanto do presente. E também conversando com pessoas que fazem coisas e sabem de assuntos fora do meu campo de referência. Estou tentando apresentar a escrita como uma espécie de trans-texto, rompendo as divisões de trabalho, de gênero, de disposições estabelecidas, como um estímulo a um tipo de trabalho coletivo e alegre de fazer a vida juntos de uma maneira diferente.

O que você diria para alguém que, ao ler seu livro, se sente profundamente desanimado com a situação? Você vislumbra algum espaço para otimismo ou imagina que precisamos de uma perspectiva mais crítica e desconstrutiva para mudar o sistema?

MW: É uma pergunta muito abstrata… Todos os nossos humores variam de dia para dia, ou até de minuto a minuto! Quem sabe o que vai acontecer no futuro? Que parte das nossas vidas hoje podemos construir juntos agora? Essa é a pergunta.

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por Revista Amarello

Conteúdo exclusivo da edição digital Família — Amarello 50

Em um verão do início da década de setenta, Masahisa Fukase (1934 – 2012), um dos maiores nomes da fotografia moderna japonesa, voltou para sua cidade natal em Bifuka, Hokkaido. Depois de ter ficado quase vinte anos em Tóquio, um período em que fez ensaios para inúmeras revistas e se tornou um nome importante da cena avant-garde do país, o retorno, além de um movimento geográfico, constituía uma travessia emocional em direção às suas raízes e à complexidade das relações familiares. Em 1971, ele iniciou uma série de retratos da própria família no estúdio fotográfico dos pais, que viria a se tornar uma das obras mais celebradas, e doloridas, de sua carreira. 

Ao longo das duas décadas seguintes, esses retratos, que começaram como uma exploração simples, quiçá até despretensiosa, das dinâmicas familiares, transformaram-se em monumentos de perdas, de fracassos e, sobretudo, da eterna capacidade da fotografia de congelar momentos e capturar tanto a vida quanto a morte — a morte enquanto em vida e a vida enquanto em morte.

Ao lado de nomes como Shomei Tomatsu, Daido Moriyama e Nobuyoshi Araki, Fukase desafiou as fronteiras tradicionais da fotografia, elevando-a de uma prática documental a uma forma de arte introspectiva, pessoal e perturbadora. Seu trabalho, caracterizado por uma fusão de melancolia e intensidade de emoções, muitas vezes explorava sua vida como matéria-prima. Em sua série mais famosa, Karasu (Corvos), de 1986, usou imagens sombrias da ave para simbolizar a devastação emocional de seu divórcio de Yoko, sua segunda esposa. Mas, com Kazoku (Família), expandiu suas narrativas sentimentais a um grupo maior, justamente aquele conjunto de pessoas com quem compartilhava sangue, numa espécie de veneração fúnebre às atribulações familiares e à inevitável erosão da vida.

O ambiente em que Kazoku foi criado não poderia ser mais simbólico. A família Fukase geria um estúdio de fotografia tradicional em Bifuka, onde, desde cedo, Masahisa foi exposto ao mundo da fotografia. O jovem, no entanto, nunca sentiu-se completamente à vontade com essa tradição, pelo menos não com a visão negocial e praticamente não-artística que o estúdio da família lhe impunha. Desde os seis anos, ele era incumbido de lavar as fotos em um pequeno quarto escuro, aquecido por um braseiro de carvão e impregnado pelo cheiro ácido de vinagre. Aquilo, para ele, tinha uma aura de opressão, uma herança familiar que ele parecia destinado a rejeitar.

Em um ensaio escrito em 1991, Fukase refletiu sobre a escolha que fez ao sair de casa para estudar na Nihon University College of Art, em Tóquio. De acordo com o próprio, ele se via dividido entre seguir a carreira de shashin-shi (fotógrafo de estúdio) ou shashin-ka (um fotógrafo-artista no sentido moderno). Embora tenha optado pela última, a conexão com suas raízes e o estúdio familiar continuava a assombrá-lo, até porque fez questão de se manter no mundo da fotografia. Assim, ao retornar em 1971, ele voltou também aos braços desses fantasmas emocionais banhados a sulfito de sódio que o acompanhavam.

Os primeiros retratos da série são, à primeira vista, convencionais. Eles mostram o núcleo familiar de Fukase: seus pais, Sukezo e Mitsue, seu irmão Toshiteru, sua irmã Kanako e seus sobrinhos. A atmosfera é quase reconfortante, à moda de retratos familiares, com os pais sorridentes e todos reunidos. No entanto, a presença de Yoko introduz uma camada perturbadora (ainda mais conhecendo, em retrospecto, o tom pesaroso da série Karasu). Em uma das imagens, ela aparece usando apenas um koshimaki — faixa de algodão tradicional usada debaixo de kimonos — com os longos cabelos cobrindo o peito nu. Essa justaposição entre a formalidade da fotografia familiar e a nudez de Yoko sugere uma tensão subjacente, uma ruptura entre tradição e modernidade, entre o que é visto e o que permanece oculto. Os corvos já grasnavam alto naquelas sonorizações imagéticas.

Essa tensão segue pulsando em variações subsequentes da mesma cena. Em outro registro, Yoko está de costas para a câmera enquanto o resto da família olha diretamente para a lente; em outro momento, é a família que se vira de costas enquanto Yoko encara a câmera. Esses jogos de perspectivas sugerem não apenas o papel da fotografia como mediadora entre o fotógrafo e o objeto fotografado, mas também a alienação crescente de Fukase em relação a Yoko e aos outros ao seu redor. A relação deles, era claro, se deteriorava. Logo após essas fotos, ela o deixaria, citando a fotografia como a barreira que os separava. “Nos dez anos de nosso casamento”, escreveu em 1973, “ele só me viu através da lente de uma câmera, nunca sem ela.”

As imagens refletem uma dor silenciosa e sutil, ladeadas por uma certa dose de teatralidade, com Fukase incorporando bailarinas e atrizes seminuas para posar ao lado de seus familiares. Essas cenas, ainda que chamativos jogos visuais, não podem ser dissociadas do processo de autodescoberta e autoanálise que permeia o trabalho. Ele costumava dizer que seu material de trabalho sempre começava “com o que está mais próximo, com as pessoas que posso alcançar e tocar.” A dor, para todos os efeitos, era próxima o suficiente para que pudesse ser tocada por ele.

Conforme os anos passaram, a série Kazoku muda de tom. A jovialidade dos primeiros retratos é aos poucos substituída por uma atmosfera turva de perda e luto. A família Fukase começa a encolher. Em um dos retratos mais pungentes, sua irmã Kanako segura um retrato de sua filha Miyako, que morreu aos cinco anos. Dois anos depois, a mesma composição é repetida, mas desta vez com Kanako segurando uma foto do pai de Fukase, que também falecera. A progressão das imagens revela a história mais antiga, inevitável e lamentável: o desaparecimento gradual da vida e o esfacelamento da estrutura familiar.

Em 1987, depois da partida de seu pai, a fotografia final da série é uma composição sombria e silenciosa, com sua mãe, Mitsue, sentada em um banco, curvada pela idade e pelo peso do luto, acompanhada apenas por seus filhos e o retrato de seu falecido marido. A imagem parece marcar o fim de uma era,  tanto para a família quanto para o estúdio, que logo fecharia as portas.

O fotógrafo, por sua vez, também estava próximo do fim de sua jornada artística. Pouco depois dessa fotografia, ele sofreu uma queda em seu bar favorito, um incidente que o deixaria em coma por mais de duas décadas, até sua morte em 2012. O ciclo de vida que ele documentou em Kazoku se fechou de forma trágica, com o próprio fotógrafo sendo aprisionado em um estado de animação suspensa, incapaz de continuar seu trabalho ou de interagir com o mundo.

O que torna a obra de Masahisa Fukase tão comovente é a capacidade de transformar momentos aparentemente comuns em meditações poéticas sobre a existência humana. A série Kazoku, exemplo categórico disso, evoluiu para um estudo complexo sobre o tempo, a memória e a inevitabilidade da morte. Cada fotografia capturava um momento de vida, mas, ao mesmo tempo, prenunciava a transitoriedade dessa mesma vida, congelando-a no tempo para sempre. Ao documentar o apagar paulatino de sua família, Fukase fez ressoar um coro angelical e trágico que sibila em alto e bom som que a fotografia não é apenas sobre o que vemos, mas sobre o que não vemos, sobre as ausências que tanto insistem em preencher nossas vidas com lástima.

Kazoku é um testemunho visual de como o tempo corrói laços, esvazia ambientes e submerge cada um de nós em uma sequência inevitável de perdas. Cada retrato parece estar impregnado da ideia de que o ato de fotografar é, em si, um lamento. Foi assim que criou uma poética da desintegração. As fotografias de Kazoku não são meras imagens, são vestígios. O sorriso congelado de sua mãe, o olhar distante de seus irmãos, as crianças que não mais crescerão — tudo isso existe dentro dos limites da moldura, mas é o que está fora dela, o que foi apagado ou nunca poderá ser recuperado, que nos envolve. 

Fukase, em seu trágico e irônico coma, se tornou uma espécie de emblema de sua obra: paralisado entre o presente de seu corpo e o futuro de sua alma, entre o fechar e o abrir de olhos, entre a vida e a morte. E, como nas páginas de um álbum de família antigo, que começa a desbotar e a desintegrar com o passar do tempo, Kazoku e o trabalho de Fukase como um todo permanecem como uma prova de que, embora possamos tentar capturar o presente com a câmera, é o eco do que foi perdido, daquilo que escapa pela borda da fotografia, que realmente define nossas vidas.


Imagens de Family/Kazoku (2019), de Masahisa Fukase, publicado por MACK

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Ilustração de Aubrey Beardsley para a obra Salomé (1893), de Oscar Wilde. Universidade de Heidelberg.
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No Tempo do Escândalo: arte, disrupção e os mitos do individualismo moderno

por Revista Amarello

No seu livro No Tempo do Escândalo, Rodrigo de Lemos analisa os anos de transição que precederam a Primeira Guerra Mundial, revelando um mundo à beira de uma transformação radical, onde o confronto entre o individualismo crescente e as tradições religiosas e comunitárias desencadeou uma ruptura profunda nas estruturas sociais. O livro, mais que um estudo histórico, é uma reflexão filosófica e cultural sobre o período entre 1870 e 1914, uma era que Lemos denomina como o “tempo do escândalo”. O que define o período são as tensões entre moralidade e decadência, a desconstrução das certezas religiosas, e a busca por novas formas de identidade que marcaram o início da modernidade. O olhar para trás do autor, então, tem como objetivo perscrutar o território ainda incerto do presente e do futuro.

Jean Cocteau, diretor de O Sangue de um Poeta, é um dos autores analisados na obra No Tempo do Escândalo.

No cenário analisado, o escândalo em si não era apenas um evento sensacionalista, mas o símbolo de uma época em que as normas sociais e morais foram desafiadas por novas sensibilidades (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência). O final do século XIX e começo do XX foi um momento de “tropeço”, quando a cultura ocidental, outrora alicerçada em valores coletivos e religiosos, começa a desmoronar sob o peso do individualismo e do secularismo. O escândalo, portanto, é tanto uma força disruptiva quanto um catalisador de mudança, trazendo à tona uma crise que atravessa as artes, a política, a religião e a psique coletiva.

Um dos eixos centrais da análise de Lemos é a transformação dos mitos literários, especialmente as figuras de Narciso e Salomé. Essas figuras, tradicionalmente ligadas à moralidade e à ordem social, são reinterpretadas no final do século XIX como símbolos da transgressão e da autonomia individual. Narciso, que nas lendas gregas e romanas era punido por sua vaidade, nas mãos de autores como Oscar Wilde e Jean Cocteau, torna-se um herói trágico, uma figura que celebra o narcisismo e a introspecção como formas de resistência contra as normas opressoras da sociedade. Em O Sangue de um Poeta, por exemplo, primeiro filme de Cocteau, Narciso mergulha em seu próprio reflexo como uma busca por autenticidade em um mundo cada vez mais fragmentado.

Da mesma forma, Salomé, cujo mito tem suas raízes no Novo Testamento, é conhecida por ter pedido a cabeça de São João Batista ao rei Herodes, após dançar para ele. Na narrativa bíblica, Salomé é uma figura manipulada por sua mãe, Herodíade, que busca vingança contra João Batista. Contudo, no final do século XIX, essa figura passou por uma ressignificação profunda nas mãos de autores como Huysmans e, olha ele de novo, Oscar Wilde. Ao invés de ser meramente um peão em um jogo de poder masculino, Salomé se transforma em um ícone de desejo e destruição, representando uma força feminina capaz de subverter as normas patriarcais. 

Ilustração de Aubrey Beardsley para a obra Salomé (1893), de Oscar Wilde. Universidade de Heidelberg.

Na peça Salomé, de Wilde, ela é retratada como uma figura enigmática e fatal, cuja sexualidade exerce um poder incontestável, despertando medo e fascínio em Herodes e outros homens ao seu redor. Sua dança dos sete véus, símbolo de sedução e mistério, torna-se uma metáfora da luta pelo controle sobre o corpo feminino e a inquietação que a liberdade sexual feminina provoca na masculinidade tradicional. Lemos interpreta essa Salomé transformada como uma antecipação das tensões feministas que emergiram no século XX, destacando como o autor irlandês usa essa personagem para explorar as complexidades do desejo feminino e o desconforto que ele gera em uma sociedade dominada por homens.

O foco nos mitos é uma escolha para mostrar como essas figuras literárias serviram de espelho para a crise cultural e moral da Europa. Ao serem ressignificados, os mitos ganham novas camadas de significado, permitindo que autores e artistas da Belle Époque confrontassem questões como o lugar do indivíduo na sociedade, o papel da sexualidade na formação da identidade e a erosão das estruturas religiosas. O mito de Narciso, por sua vez, revela a ascensão do eu moderno, uma subjetividade que se volta para dentro e se desconecta das exigências da comunidade. Essa introspecção, ao mesmo tempo, é vista como libertadora e destrutiva, já que a obsessão consigo mesmo pode levar à alienação e à fragmentação.

A arte, como de costume, foi o campo onde essas tensões encontraram sua expressão mais vívida. O final do século XIX testemunhou uma explosão de inovação artística, com movimentos como o esteticismo e o simbolismo rejeitando o realismo e abraçando o imaginário, o sonho e o escândalo. Artistas buscavam explorar os limites da moralidade e da estética, criando obras que provocavam e chocavam suas audiências. A beleza, antes vista como reflexo da ordem divina, tornou-se, para esses artistas, um campo de batalha onde se lutava por novas formas de liberdade individual. Essa nova estética era, em si mesma, um escândalo, pois rejeitava as convenções burguesas de bom gosto e moralidade, celebrando em vez disso o excessivo, o estranho e o perverso.

Esse movimento na arte foi acompanhado por uma transformação igualmente radical na filosofia e na psicologia. Sigmund Freud, um dos personagens-chave discutidos por Lemos, desempenhou um papel fundamental na desmistificação da moralidade tradicional. A psicanálise, ao explorar as profundezas do desejo e da sexualidade, desafiou as noções de normalidade que sustentavam a ordem social vitoriana. O interesse de Freud por mitos como o de Narciso reflete sua preocupação com a relação entre o eu e o inconsciente, e Lemos traça paralelos entre a emergência da psicanálise e o surgimento de uma nova concepção de indivíduo: não mais um ser moral e racional, mas um ser em conflito consigo mesmo, dividido entre pulsões inconscientes e o desejo de conformidade social.

O “tempo do escândalo” é também uma era de fraturas e ambiguidades religiosas. A secularização da Europa, iniciada no Iluminismo, atingiu um novo patamar no final do século XIX, quando figuras como Nietzsche declararam a morte de Deus e questionaram o lugar da religião na vida moderna. A santidade, antes vista como a mais alta expressão da moralidade, foi reinterpretada à luz da psicopatologia. Santo Antônio, por exemplo, é tratado em No Tempo do Escândalo como uma figura em crise, cujo fervor religioso é lido por autores como Flaubert e Huysmans não como sinal de santidade, mas como sintoma de uma mente doente. Isto é, a dessacralização da religião é um dos aspectos mais marcantes dessa era, quando a fé é gradualmente substituída pela ciência e pelo racionalismo, mas sem oferecer respostas definitivas para as angústias existenciais que surgem no vácuo deixado pela religião.

Lemos documenta essas transformações e propõe uma reflexão mais ampla sobre o que elas significam para a nossa era contemporânea. Ele sugere que vivemos em um momento semelhante àquele, onde o individualismo e a fragmentação social são temas centrais. As redes sociais, com sua promessa de conexão global, muitas vezes reforçam o isolamento e o narcisismo, enquanto as antigas certezas sobre moralidade e comunidade continuam a ser desafiadas por novas formas de subjetividade. O “escândalo” hoje, assim como no final do século XIX, serve como um reflexo das tensões que permeiam nossa sociedade. A era digital, com suas bolhas de pensamento e sua propensão ao espetáculo, ecoa os mesmos desafios enfrentados pelos artistas e intelectuais da Belle Époque, que também viam a arte e o escândalo como instrumentos de transformação.

O estudo de Lemos é, portanto, um chamado à reflexão sobre as raízes de nossa própria crise contemporânea. Ao explorar as ressonâncias entre o “tempo do escândalo” e os dilemas do presente, o autor vira nosso olhar para o passado não como algo distante e resolvido, mas como um espelho de nossas próprias incertezas. O escândalo, tanto ontem como hoje, é uma janela para os limites do que consideramos aceitável, e é nesse confronto com o inaceitável que a cultura encontra sua verdadeira força transformadora.

Confira nossa conversa com o autor:

A ressignificação de mitos clássicos e o desencantamento religioso são temas centrais do livro. Por que essas reinterpretações demoraram para acontecer nesse nível e o que elas revelam sobre as ansiedades e aspirações da sociedade do final do século XIX?

Rodrigo de Lemos: No caso dos mitos de que trata o meu livro, Narciso, Salomé e Santo Antônio, creio que, em suas encarnações europeias desde a Antiguidade até o século XX, eles mostram uma mutação ideológica muito relevante: o advento da ideia e do valor do indivíduo autônomo, que se permite conceber a si mesmo como independente da sua comunidade de origem, e por vezes mesmo superior a suas concepções, suas expectativas, suas hierarquias e também a seus preconceitos. Daí resulta uma oposição entre os pólos individual e coletivo, cujo acirramento, no fim do século XIX, constitui o que eu chamei de Tempo do Escândalo, quando essa contradição entre indivíduo e coletividade aflorou de forma especialmente sensível nos terrenos da arte e do pensamento. 

Você aborda a relação entre a secularização e o desencantamento do mundo. De que forma esse processo afeta a busca por significado em uma era dominada pela tecnologia?

RL: A relação me parece ser de mão dupla, ou mesmo contraditória: por um lado, poderíamos pensar que a tecnologia digital favoreceria o triunfo do indivíduo autônomo e da razão secular. De fato, isso parece ser um tanto assim, pois as novas formas de comunicação permitem a cada um de nós um acesso vertiginoso a discursos e a imagens oriundos de contextos culturais muito distintos, em escala planetária. Ocorre que, exatamente por causa do acesso vertiginoso, essa mesma tecnologia digital me parece também possibilitar o surgimento de comunidades de opinião, em meio digital, centradas na busca por valores tradicionais, “naturais” e “orgânicos”, os mesmos que foram fortemente contestados no período que analiso no livro. Esses retornos não são novos, e também ocorreram em outros momentos, como reação ao avanço dos valores individualizantes. Foi o caso das versões reacionárias do romantismo no início do século XIX, e também, mais tarde, das reações fascistas ao início do século XX, por exemplo.  

Mitos como Narciso e Salomé servem, de um modo, como espelhos para as tensões modernas. Qual é a relação entre esses mitos e as identidades contemporâneas que se formam em um mundo cada vez mais individualista?

RL: Primeiro, é importante ressaltar que, no meu livro, o sentido do termo “individualismo”, que busquei na obra do antropólogo Louis Dumont, não contém uma carga pejorativa. Não equivale a egoísmo ou alienação, mas a uma configuração ideológica das sociedades modernas, em que o indivíduo é concebido como fim e como fundamento de uma sociedade, e não como o meio pelo qual uma comunidade existe e se reproduz, permanecendo parte dependente dela. Narciso e Salomé são vistos, em textos muito tradicionais (nas Metamorfoses, de Ovídio, ou na Bíblia), como seres fundamentalmente faltosos quanto à moral coletiva, ora pelo seu orgulho, ora pela sua lascívia, ora pela sua crueldade, e assim por diante. Acontece que, talvez precisamente por causa dessa valoração negativa convencional, artistas e intelectuais do Tempo do Escândalo, como Freud, Oscar Wilde, Flaubert ou Strauss, puseram esses mitos em evidência nas suas obras, seja para criar conceitos centrais às suas teorias (como o narcisismo na teoria do psiquismo em Freud), seja para representar aspirações estéticas e espirituais que se quereriam muito mais nobres — porque mais raras, mais refinadas, mais “individuais” — do que aquelas que as coletividades mais tradicionais atribuíam a esses mesmos mitos, símbolos do pecado e do desvio moral. É o que acontece na poesia de um Mallarmé ou de um Valéry.

No livro, você menciona a ascensão do individualismo em contraposição a valores comunitários. Quais são as implicações éticas dessa mudança para a sociedade atual e para o futuro?

RL: Como eu disse, creio que, por meio da tecnologia, renovou-se o desejo de comunidade e de tradição, que hoje atravessa famílias políticas e ideológicas. Talvez esse novo desejo de dependência comunitária seja tão mais forte quanto mais isolados os sujeitos em dado momento histórico se sentem, e também quanto menos expectativas de futuro e imaginação política e social eles têm, em função desse mesmo sentimento de isolamento e de desolação. Em alguns desses grupos virtuais de opinião, o retorno a uma tradição, a uma origem e a uma comunidade (com suas dimensões de ilusão e de fantasia) aparece como um projeto sedutor para fazer frente à angústia do momento presente, como se o que restasse, depois do desparecimento do futuro, fosse a evasão em uma espécie de utopia do passado. Tendo a crer que estamos agora apenas começando a sentir as consequências políticas e psíquicas dessa situação.        

Quais aspectos do “tempo do escândalo” mais claramente anunciam as crises morais e políticas do século XXI?

RL: Penso que elas se refletem em duas dimensões principalmente: nas da religião e da sexualidade. Ambas são muito próximas, não só porque a religião impõe uma forma de regulação coletiva da sexualidade, mas também porque, como explico no livro, a partir dos escritos de outros pesquisadores, a reivindicação de liberdade de consciência religiosa na Europa, sobretudo a partir da Reforma, precede, e até certo ponto anuncia, a reivindicação de livre disposição do indivíduo sobre sua própria sexualidade, já no Iluminismo e mais ainda no Tempo do Escândalo. O ressurgimento de uma vontade de autoridade comunitária por meio da tecnologia digital, que eu já mencionei, pode representar uma ameaça a essas duas reivindicações de autonomia do indivíduo, tanto no “corpo” quanto no “espírito”.      

Tendo a ambivalência em relação à modernidade em mente, você a vê como algo intrínseco do ser humano ao lidar com mudanças culturais significativas?

RL: Não me parece que seja intrínseco, no sentido de que é “natural” às pessoas resistir a essas mudanças, muito menos que é o “destino” do homem arraigar-se em comunidades ditas tradicionais, como a família convencional, os papéis de gênero do passado, o pertencimento étnico-racial ou ainda a religião herdada. Tendo a ver essa ambivalência quanto aos valores modernos como um fenômeno histórico, relacionado a mudanças nas condições concretas de vida, mudanças essas que nada têm de necessário. Falamos das tecnologias digitais e de como elas favoreceram o renascimento, em uma parte da população, de sentimentos e de aspirações que se querem tradicionais. Sem essas mesmas tecnologias, me pergunto se essas aspirações teriam saído do subsolo em que haviam permanecido desde o Pós-Guerra. 

A arte contemporânea ainda tem o poder de provocar escândalo? Se sim, como isso se manifesta nas expressões artísticas atuais?

RL: Há uns quinze anos, eu provavelmente teria dito que não. Porém, hoje, em um mundo fragmentado em torno desses grupos virtuais de opinião mais e mais autorreferenciais, parece que houve também uma renovação no potencial de escândalo da arte. Basta lembrar os casos do Queermuseu, de Porto Alegre, ou da performance La Bête, de Wagner Schwartz. Ambas datam do fim dos anos 2010, precisamente quando, no Brasil, consolida-se uma opinião populista reacionária sobre família, sexualidade, política e religião. Por outro lado, é interessante notar que também algumas correntes da opinião progressista recorrem à linguagem do choque e do escândalo moral quando confrontadas com as provocações do populismo reacionário, mais, é verdade,  nos campos da política ou da comunicação digital do que no da arte contemporânea. Estaríamos, então, em um processo de retroalimentação dos escândalos, em que um grupo busca atenção pública, e ganhos políticos, por meio da escandalização do grupo opositor? O nosso seria então o Tempo dos Escândalos… 

Quais autores ou pensadores contemporâneos você considera que continuam o legado das questões morais e filosóficas levantadas no “tempo do escândalo”?

RL: Parece-me que estamos assistindo a uma difusão e a uma democratização da lógica do Escândalo, em todos os espectros intelectual e político. Nesse caso, eu diria que cabe a alguém que pretende pensar o presente (ao “pensador contemporâneo”) operar fora dessa lógica e privilegiar uma certa fineza de espírito, a atenção às nuances, a precisão na linguagem e a razoabilidade, por mais que essas coisas não tragam aprovação automática por uma comunidade de opinião digital. 

Leia textos de Rodrigo de Lemos para a Amarello.

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Dopamina: estamos presos em um ciclo de excessos?

por Revista Amarello

“Os números crescentes, a grande variedade e o imenso potencial de estímulos altamente compensatórios são atordoantes. O smartphone é a agulha hipodérmica dos tempos modernos, fornecendo incessantemente dopamina digital para uma geração plugada. Se você ainda não descobriu sua droga preferida, ela logo estará em um site perto de você.”
— Dra. Anna Lembke

Neurotransmissor que atua no sistema nervoso central, a dopamina se tornou o centro das atenções na celeuma atual sobre os vícios da sociedade moderna. O conceito de que nosso desejo por um rápido “pico de dopamina” é a razão pela qual não resistimos e nos permitimos consumir um sem-fim de ultraprocessados ou passar horas nas redes sociais tem gerado um certo pânico — e há quem diga que ele é desproporcional. Devia mesmo a dopamina estar sob os holofotes dessa discussão?

O que não se nega é: antes, não há muito tempo, vivíamos um balanço maior entre o estímulo e o não-estímulo, entre o prazer e a espera pelo prazer. A transição de um mundo que temia pela escassez para um de abundância esmagadora de fato nos expõe com facilidade a comportamentos compulsivos.

No best-seller Nação Dopamina, lançado nos EUA em 2021 e que chegou ao Brasil no ano seguinte, a psiquiatra Anna Lembke, de Stanford, explora como o excesso de estímulos prazerosos nos afeta, especialmente em um mundo de gratificação instantânea. Em uma narrativa que mescla suas experiências pessoais e relatos de pacientes, o livro reflete sobre o delicado equilíbrio entre prazer e vício. Esses pacientes, que ganham vida nas páginas, acabam sendo personagens com quem os leitores, ao menos em algum nível, se identificam. É o caso de Jacob, que construiu uma máquina de masturbação para lidar com seu vício em sexo, ou de Delilah, uma adolescente que só conseguia começar o dia após fumar maconha.

“Talvez você sinta repulsa pela máquina de masturbação de Jacob. Talvez você a considere uma espécie de perversão extrema, além da experiência cotidiana, com pouca ou nenhuma relevância para você e a sua vida. Mas se fizermos isso, você e eu, perderemos a oportunidade de apreciar algo crucial sobre a maneira como vivemos agora. De certa maneira, estamos todos envolvidos em nossas próprias máquinas masturbatórias.”

— Dra. Anna Lembke

Essas histórias, embora pareçam extremas e distantes da nossa realidade, ilustram de forma clara um fenômeno que afeta muitos de nós: a dificuldade em lidar com o desconforto, qualquer que seja, sem buscar alívio imediato.

“A deficiência de serotonina está frequentemente ligada à ansiedade e depressão, enquanto a falta de dopamina pode afetar nossa motivação.”

Compreender o papel da dopamina em nossos cérebros é fundamental para entender o vício e não confundi-la com a serotonina, outro neurotransmissor, igualmente importante. Enquanto a serotonina tem um impacto direto na regulação do humor, promovendo uma sensação de bem-estar e influenciando o sono, apetite, desejo sexual e memória, a dopamina nos impulsiona a buscar aquilo que acreditamos nos trazer prazer, alimentando expectativa e motivação. A deficiência de serotonina está frequentemente ligada à ansiedade e depressão, enquanto a falta de dopamina pode afetar nossa motivação. Quando alcançamos o que desejamos, os níveis de dopamina caem, nos lançando em um ciclo de busca contínua.

Esse mecanismo de recompensa, que, não custa lembrar, foi crucial para a sobrevivência e evolução da espécie humana, hoje pode se tornar prejudicial, à medida que vivemos cercados de estímulos digitais e de consumo fácil. Sendo tudo tão acessível, muitas vezes a um toque do celular, a toda hora vamos lançar mão disso ou daquilo.

Contudo, especialistas em dopamina afirmam que muitas dessas preocupações são exageradas. Desmistificar os maiores equívocos sobre esse neurotransmissor é livrá-lo do estigma de vilão — e esse é um passo essencial para entender como lidar com a avalanche de estímulos que enfrentamos diariamente.

A dopamina, por si só, não é uma força boa ou má. As primeiras pesquisas, realizadas com roedores e, mais tarde, com humanos, sugeriram que o sistema de dopamina se ativava ao receber recompensas. Isso levou à crença de que a dopamina estava diretamente ligada a qualquer experiência de bem-estar, como comida, sexo e interações sociais. No entanto, estudos mais recentes, realizados especialmente a partir dos anos 1990, revelaram que a dopamina está mais relacionada à antecipação de recompensas do que ao prazer propriamente dito.

Foto de Nikolett Emmert | Unsplash.

“A constante busca por gratificação altera o funcionamento cerebral, prejudicando nossa capacidade de planejar, resolver problemas e lidar com frustrações.”

No cerne dessa questão está o fenômeno da homeostase cerebral, que nos lembra do bom e velho “para cada alto, há um baixo”. Isso explica por que uma pequena dose de prazer pode, com o tempo, exigir estímulos cada vez mais intensos para gerar a mesma satisfação. No mundo digital, onde o acesso é praticamente ilimitado e imediato, o risco de dependência se torna ainda maior. Além de impactar os circuitos de recompensa, a constante busca por gratificação altera o funcionamento cerebral, prejudicando nossa capacidade de planejar, resolver problemas e lidar com frustrações. Como resultado, vivemos mais no cérebro límbico (focado nas emoções) do que no córtex pré-frontal (responsável pelo raciocínio).

E se, para quebrar esse ciclo de excessos, tentássemos algo simples, como a abstinência temporária? Desconectar-se dos prazeres excessivos por um período pode reiniciar o cérebro e restaurar o equilíbrio. Estamos realmente presos ou é possível sair desse ciclo com um mínimo de força de vontade?

Na teoria, parece fácil; mas, como diz o ditado, na prática a teoria é outra. Desconectar-se, infelizmente, é um luxo que poucos têm hoje em dia. Uma reflexão trivial desmonta o sonho de distanciamento dos dispositivos e do bombardeio digital: como trabalhar sem estar conectado? Até mesmo trabalhos manuais frequentemente exigem uma presença digital, nem que seja para facilitar o contato entre contratante e contratado. Existem meios de limitar esse acesso, mas o afastamento nunca será completo. Questões político-sociais, tão enraizadas na realidade que molda nossos passos, dificilmente serão descartadas de um dia para o outro — e ainda assim querem jogar tudo nas costas da dopamina?

Não podemos ignorar que atividades altamente estimulantes podem, sim, sequestrar nosso sistema de dopamina, tornando recompensas menores menos satisfatórias. Esse ponto de vista é sustentado por algumas evidências, já que o uso prolongado de drogas que liberam grandes quantidades de dopamina — como cocaína e anfetaminas — pode levar o cérebro a reduzir a sensibilidade dos receptores desse neurotransmissor, resultando em tolerância.

“O desconforto é necessário. Isso pode parecer exagero, mas, em uma era de abundância, aprender a suportar pequenas dores e frustrações é o que nos torna mais resilientes e preparados para enfrentar os desafios da vida.”

Embora atividades como videogames e pornografia possam se tornar comportamentos compulsivos, pesquisadores como a Dra. Anna Lembke levantam a hipótese de que essas práticas poderiam, em tese, causar efeitos semelhantes aos da tolerância observada em substâncias viciantes, mesmo que ainda faltem evidências concretas para tal afirmação.

A verdade é que o vício é um fenômeno multifacetado e a dopamina não deve ser vista apenas como uma inimiga. Ela é, de fato, uma amiga em nosso aprendizado e motivação. A verdadeira questão não é como evitar a dopamina, mas como utilizá-la de forma equilibrada e saudável em nossas vidas. 

Mas Lembke lembra: o desconforto é necessário. Isso pode parecer exagero, mas, em uma era de abundância, aprender a suportar pequenas dores e frustrações é o que nos torna mais resilientes e preparados para enfrentar os desafios da vida. Em vez de buscar uma constante felicidade, devemos aceitar que a vida é feita de altos e baixos, e que encontrar paz nesse movimento é o verdadeiro caminho para uma vida equilibrada.

“Talvez, como Sócrates, você tenha notado uma melhora de humor depois de um período doente, ou sentido uma euforia de corredor, depois de se exercitar, ou tido inexplicável prazer num filme de terror. Assim como a dor é o preço que pagamos pelo prazer, o prazer também é nossa recompensa pela dor.”

— Dra. Anna Lembke

Nação Dopamina nos ajuda a refletir não apenas sobre como lidamos com a tecnologia e o consumo, mas sobre como podemos redescobrir o valor das pequenas vitórias e do prazer conquistado com esforço.

Dopamina, temos um problema? Talvez não. Os excessos da modernidade não são oriundos tão somente da dopamina. De maneira nada consoladora, está mais para: atualidade, temos um problemão.

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Arte e diáspora: Renée Green e os passados que insistem em acontecer

por Revista Amarello

Renée Green é uma artista visual, escritora, cineasta e professora norte-americana, cuja prática multidisciplinar abrange escultura, arquitetura, fotografia, vídeo e experiências sonoras, frequentemente culminando em instalações complexas e envolventes. Seu trabalho é profundamente ancorado em pesquisas de antropologia cultural e história social, explorando temas como a figura de Sarah Baartman — mulher sul-africana conhecida como “Vênus Hotentote”, exibida como atração de circo no século XIX —, a história da escravidão, o modernismo arquitetônico e a cultura hip hop.

Space Poem #10 (Anos/Depois), 2024.

Green investiga a relação entre arte e história, utilizando colaborações e arquivos como ferramentas de reflexão e criação. Um bom exemplo disso é seu trabalho lançado em 2014, Other Planes of There: Selected Writings, uma coletânea de textos escritos entre 1981 e 2010, que parte da prática arquivística como ferramenta artística. Além de numerosas exposições individuais e coletivas em museus de renome ao redor do mundo, Green é também uma escritora prolífica, com contribuições regulares em publicações influentes como a October, de Massachusetts, nos Estados Unidos, e Texte zur Kunst, da Alemanha.

A exposição Aproxime-se: Perceptos, realizada no espaço cultural auroras, em São Paulo, é a epítome de tudo que a define como artista e ativista — uma síntese assombrosa, tanto pela excelência com que é realizada quanto pelas questões profundas e inquietantes que expõe.

 “Trazer a exposição de uma artista internacional como Renée Green para o auroras”, reflete Ricardo Kugelmas, fundador do espaço, “tem um impacto significativo, tanto para o público quanto para o debate sobre questões ligadas à diáspora africana e fluxos culturais dela decorrentes. Renée Green, com sua trajetória de mais de três décadas, tem uma abordagem profundamente reflexiva e crítica sobre a circulação de pessoas, culturas e narrativas. Sua obra oferece um espaço para pensar essas complexas intersecções de maneira que não é panfletária, mas altamente poética e visualmente rica. Essa exposição não só expande as conversas sobre diversidade racial na arte contemporânea, mas também desafia o público a considerar como essas questões estão presentes nas dinâmicas sociais e culturais brasileiras.”

Estreia de Green no Brasil, a exposição tem as temáticas de colonialismo, diáspora e migração muito presentes, exploradas através de múltiplos meios artísticos, como instalações, vídeos, pinturas e esculturas. Um dos destaques de Aproxime-se: Perceptos, aliás, é a obra Commemorative Toile (Brasil), em que a artista estampa poltronas modernistas com imagens que retratam cenas de resistência escravagista, incluindo episódios da Revolução Haitiana. 

Detalhe de Comemmorative Toile (Brazil). Foto de Free Agent Media.

Essas poltronas, mais que simples objetos decorativos, funcionam como veículos de memória, refletindo a complexidade da história colonial. Ver algo assim estampado em uma peça de mobiliário é perturbador, pois naturaliza violências históricas e, de certa forma, as eleva ao nível canônico, quase religioso. Ter essas imagens duras em objetos que usamos no cotidiano é um lembrete aterrorizante de como essas brutalidades podem se infiltrar nas nossas vidas, tornando-se parte do tecido da realidade.

Obra Commemorative Toile (Brazil). Foto de Ding Musa.

“A poética na obra de Renée Green”, corrobora Ricardo, esmiuçando a produção da artista, “está profundamente ligada ao conceito de ‘relações’, que serve como fio condutor em sua produção multimídia. Renée entrelaça sua história pessoal e seus interesses com correntes culturais e intelectuais mais amplas, criando uma interconexão rica entre poesia, literatura, filosofia, história, música e arquitetura. Sua abordagem ressalta como, ao longo dos tempos, símbolos são criados e circulam, moldando e sendo moldados pelas experiências humanas.”

E pensar nessas questões a partir de diferentes mídias, para muito além do mobiliário, torna tudo ainda mais complexo. “Esse interesse pelas diferentes linguagens e etimologias reflete um entendimento profundo das dinâmicas de poder e resistência que permeiam as narrativas da diáspora africana. Green utiliza essa poética não apenas como uma estética, mas como um meio de explorar a intersecção de identidades, culturas e histórias. Uma das partes mais interessantes do trabalho de Renée é o fato dela intencionalmente provocar a auto reflexão e uma livre interpretação pelo público, vide o título da mostra: ‘Aproxime-se: Perceptos.’”

A carreira de Green, marcada pela abordagem interdisciplinar, também lança mão da poesia. Os “Space Poems” da exposição, cartazes fixados de maneira aparentemente desconexa, convidam as pessoas a criar novas narrativas conforme são lidos e relidos com inúmeras possibilidades de sequências. Renée, que também é professora no MIT, apresenta uma visão que desafia fronteiras entre tempo e espaço, sugerindo até uma alteração na ordem do tempo, questionando e reinterpretando narrativas históricas de migração e exílio. Ao longo da exposição, como apontou Ricardo Kugelmas, essas obras não impõem significados específicos, mas incentivam o público a explorar suas percepções pessoais, ecoando o conceito filosófico de perceptos, como teorizado por Gilles Deleuze. 

Série Space Poem #11 (The Equator Has Moved), 2024.

O conceito, desenvolvido junto com Félix Guattari, está relacionado à filosofia da arte e à maneira como a percepção é tratada nas obras artísticas, especialmente na literatura e nas artes visuais. Segundo Deleuze, o percepto não é apenas a percepção direta de algo, mas sim uma realidade sensível capturada pela arte e que existe além de uma simples percepção individual ou subjetiva. Diferente do conceito de percepção, que está ligada a um sujeito que percebe, o percepto está ligado à própria obra de arte que gera um bloco de sensações autônomo. Ou seja, o artista tem a capacidade de capturar e criar perceptos, que se tornam independentes do observador, sobrevivendo ao tempo, como blocos de afetos e sensações. Nesse sentido, o percepto é uma espécie de condensação de experiência sensível que a arte materializa, permitindo que os espectadores entrem em contato com um conjunto de sensações que existem por si mesmas, sem precisar ser reduzidas a uma interpretação pessoal.

Assim, o percepto está intrinsecamente relacionado à ideia de que a arte não representa o mundo, mas cria novos modos de sentir e experimentar a realidade — e isso, claro, respira com força em um espaço como o auroras.

Série Space Poem #11 (The Equator Has Moved), 2024

“No início deste ano, Green passou duas semanas hospedada no auroras com o objetivo de refletir sobre o que apresentar em sua primeira exposição no Brasil. A arquitetura modernista do espaço a remeteu à exposição que fez na Schindler House (Los Angeles) em 2015, o que a levou a incluir trabalhos diretamente relacionados ao arquiteto austríaco Rudolf Schindler (1887-1953), pioneiro da arquitetura modernista que imigrou para os EUA por causa da guerra. Green traça essas relações entre os dois espaços e seus deslocamentos, explorando não apenas a estética, mas também a filosofia que atravessa sua arquitetura, favorecendo um diálogo orgânico entre ambos. Mas acredito que sua relação pessoal com o Brasil através do irmão Derrick Green, vocalista da banda Sepultura desde 1998, seja a mais importante influência na seleção de trabalhos.”

A própria presença da exposição em terras brasileiras suscita um sem-fim de interpretações. A relação de Renée com o país é única e bastante enraizada. Come Closer, um curta-metragem feito em 2008, aborda suas conexões com o mundo lusófono e sua experiência de vida em Portugal. Quando se adentra o auroras, os visitantes são imediatamente envolvidos por esse trabalho, que estabelece o tom da exposição, servindo como uma meditação sobre a distância e a conexão, e tecendo uma rede afetiva entre cidades como Lisboa, São Francisco e locais do Brasil. Com uma narração em português, a obra destaca a complexidade das relações entrelaçadas entre os povos e a história, refletindo a relação contínua de Green com o mundo lusófono. A artista examina os vestígios do colonialismo, promovendo diálogos entre o passado e o presente, oferecendo uma rica exploração de temas que envolvem a arquitetura e a diáspora. E essa relação com o mundo lusófono segue. No hall de entrada, Relações: Megahertz, Megastar, Brother, Brasil (2009) apresenta banners suspensos que traçam os fluxos da diáspora africana e suas influências na música e cultura popular brasileira. Este conjunto é acompanhado por um elemento escultórico, que apresenta um vídeo em um iPod, onde Green tenta “se aproximar” de seu irmão. A obra não só explora distâncias físicas, mas também as conexões emocionais e culturais que transcendem fronteiras.

No coração da mostra está o filme Begin Again, Begin Again (2015), que reflete sobre a vida e a morte ao longo de um intervalo de 128 anos, evocando o trabalho do arquiteto R.M. Schindler, como apontou Ricardo. A narrativa, marcada por afirmações numeradas, é interrompida por uma consciência que divaga sobre a estranheza da sobrevivência. No jardim do auroras, uma voz oculta sussurra sobre jardins desaparecidos, criando um ambiente contemplativo que ressoa com os temas de perda, memória e a busca por conexão. Tudo parece se complementar com uma harmonia que sussurra realidades intrincadas com suavidade e clareza.

“Apesar de incluir trabalhos das últimas três décadas, a exposição foi inteiramente pensada pela artista levando em consideração as especificidades da casa, e oferece ao público a oportunidade singular de navegar pela obra da artista de forma contextualizada. Você vai ver obras que falam de modernismo em uma casa modernista, ouvir uma obra sonora sobre o desaparecimento de jardins em um jardim tropical e ler um space poem que envolve os escritos de Borges dentro de uma biblioteca. Em última instância, o trabalho de Renée é sobre questões humanas, e ver essa exposição dentro de uma casa oferece uma perspectiva distinta, mais meditativa.”

Com esta exposição, além de apresentar sua obra a um público novo, Renée Green também estabelece um diálogo profundo com o contexto brasileiro, explorando questões de identidade, memória e as complexidades da diáspora. E, sendo o hóspede de um corpo de um trabalho assim, o auroras se torna um espaço de reflexão e descoberta, onde a visão da artista provoca uma reconsideração do passado e suas repercussões no presente e no futuro. 

“Desde a sua fundação em 2016, o espaço trouxe diversas artistas internacionais que jamais haviam mostrado no Brasil, como Cecily Brown, Amy Sillman, Tom Burr, Sarah Crowner e Terry Winters”, conta Ricardo pensando justamente no que já foi e no que está por vir. “Para os próximos dois anos, estamos planejando a primeira mostra no Brasil da alemã Charline von Heyl e dos estadunidenses Jacqueline Humphries e Richard Aldrich, além de uma exposição do músico Arto Lindsay”, conclui, antecipando o que está por vir.


Aproxime-se: Perceptos
Sábado, das 11h às 18h, até 30 Novembro
— Avenida São Valério, 426, Morumbi. Gratuito

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Temos o rosto velado, somos como uma personagem aos olhos dos outros. De quem poderemos saber profundamente, senão sobre nós próprios?

Lázaro, na Bíblia, é uma figura a cuja história temos pouco acesso, mas sabemos que é amigo de Jesus. Ele também que foi ressuscitado por Cristo, por lhe fazer muita falta. O que é curioso é que ele tenha ressuscitado antes de Jesus, Deus na terra, conforme a Bíblia. E que Cristo não tenha sido o único a reviver. A minha interpretação é que, ao ressuscitar Lázaro, essa metáfora pode simbolizar que também o ser humano tem direito à oportunidade de ter uma outra vida.

Intitularmos de amigos mais pessoas do que podemos contar nos dedos das nossas mãos é realmente estranho. Nossas confidentes, nossos conselheiros, o espelhamento de nós nos outros, elegê-los implica que haja a coincidência da troca entre duas pessoas, sejam elas muito parecidas ou extremamente distintas. Encontra-se na reciprocidade o conhecimento do outro. É também por isso que Lázaro ressuscita, talvez. Falamos de nutrir um amor.

Este é um estado de graça, mesmo que não seja definitivo, que podemos ter ou não ter em várias fases na vida. Na sua essência, é como os anjos, sem rosto e de corpo informe, como as entrelinhas das palavras inauditas, de valor incompreensível e igualmente indizível. Isto é o que me move como humano, o último lugar. Não é um troféu. Não tem verbo nem forma. Uma arte que não precisa de discurso.

É raso quando imagens dependem de palavras.

É fútil não entendermos no gesto dos outros o seu sentir.

Como furar uma ligação por uma falha de comunicação. Para evitar isso é necessária a disponibilidade de duas partes.

Em que se resolve e como, este texto?

Na palavra “escuta”.

Escutar para existir amor; escutar os outros e sermos amigos; a família enquanto pessoa que nos escuta.

A família é esse lugar confortável, de cores quentes, com uma aragem de voz quente; uma imagem de um padre que se senta num banco junto a uma lareira comunitária e sente que toda a cidade fria é aquecida ali, comovendo-se. Talvez tenha escutado a voz de Deus.

***

Na primeira vinda a São Paulo, encontrei uma mulher curiosa, a meu ver. Interessam-me pessoas que fogem de um padrão por não corresponderem a uma “categorização”. Ela também já viveu várias vidas. Estudou arquitetura e acabou sendo artista. É uma pessoa invulgar.

A Manuela, conhecida como Manu Costa Lima no contexto do seu trabalho artístico, tem algo que muita gente não encontrou ou nunca sentiu: fé. A diferença é que ela incorpora isso no seu trabalho. Posso falar de fé, mesmo ela sendo uma coisa pessoal, para poder escrever sobre o que a Manu transporta nesse acreditar.

A fé é uma escuta, também. O trabalho que a artista realiza, o ato de fazer, não se vê, como a fé, pois ela é uma intermediária que dá à luz as imagens. Fazendo, contudo, escolhas, sim. Num processo de omitir e revelar, encontro o que há de mais honesto no seu trabalho. E o painel Lázaro torna visível o que desconhecemos. Foi preciso ver para acreditar. As palavras que deixa da Bíblia são a segunda oportunidade de vida e leitura, numa imagem que, a priori, é modernista, mas com essas informações deixa de ser. Esses sacrários, as colagens lacradas, os selos de espírito, encontramo-nos com eles (onde?) senão na intimidade de escutarmos o seu silêncio.

Manu Costa Lima não é uma artista “utilitária”, pois isso sequer existe. Ela faz objetos sem querer ser a protagonista nessas esculturas, querendo manter a sua fé viva, como algo prioritário. Obrigado, Manu, pela partilha dos seus ícones, sem representatividade. O observador, se lhes tiver acesso, que faça a sua leitura. Mesmo que seja como se estivesse a ler a Bíblia pela primeira vez, numa segunda vida.

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Folhinhas de calendários sempre me encantaram. Tanto como objeto, por sua pequena escala, que cabe na palma da mão, seu grampo metálico que reúne todas aquelas folhas de papel-jornal e seu caráter corriqueiro e popular, mas também por sua carga simbólica, pela maneira que nos permite realizar fisicamente a passagem do tempo no ato de destacar do todo, dia a dia, mais uma página.

Parti desse objeto porque desejava fazer um trabalho que falasse do tempo, mas, ao me deparar com seu conteúdo — eram folhinhas do Sagrado Coração de Jesus —, acabei enveredando por outro caminho. Feitas pela Ordem Franciscana, as folhinhas traziam, em cada página equivalente ao dia do ano, uma citação bíblica, uma frase de um santo, um escritor ou uma personalidade que marcou a história. Além disso, elas informavam a fase lunar, o início de cada estação e as hortaliças para se plantar ou colher, traziam anedotas, indicações de leitura, orações.

Esse apanhado de informações corriqueiras ao lado de coisas sagradas resume muito do que tenho produzido recentemente. Religiosa que sou, me sensibiliza muito a manifestação divina no ordinário. Busco, com muitos de meus trabalhos, apenas revelar ou enfatizar essa presença invisível.

Manuela Costa Lima, capa da Amarello Família #50

As Folhinhas remetem aos ícones bizantinos. Com planos de cor recubro frases ou informações que me chamam a atenção. O dourado envolve o restante, como a luz divina nos ícones. Deixo, por vezes, apenas uma ou poucas palavras que dão pista do que está ali velado. A composição entre algumas dessas peças cria uma espécie de poema visual, em que forma e cor são pretextos para que, silenciosamente, adentremos essa dimensão sagrada no cotidiano.

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Amor, arte e identidade: o levante afetivo de Samira e Z

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Por onde começa uma narrativa que questiona e subverte a ideia de família? 

No caso dos artistas Samira Elagoz e Z Walsh, a relação que mais tarde viraria narrativa se iniciou com uma improvável e instigante baforada de anos setenta. Como as pessoas que trocam fotos de gatos dizendo indiretamente “este sou eu”, as primeiras linhas dessa história aconteceram pela troca de fotos de ídolos como Led Zeppelin, Jimmy Page e Robert Plant, que, de alguma forma, refletiam suas personalidades e estéticas. Nessa conversa despretensiosa, foi dada a partida para uma conexão que transcenderia a barreira digital, levando Z a atravessar o oceano para encontrar Sam, indo dos Estados Unidos até Berlim.

 O que começou como uma troca de imagens logo se transformou em trocas de olhares, palavras e toques, e virou uma série de momentos registrados por lentes. Assim nasceu You can’t get what you want but you can get me, curta-metragem sobre o desenvolvimento intenso de uma relação, que inclui a afetuosidade de um para com o outro durante uma mastectomia (retirada da glândula mamária feminina com o objetivo de transformação em um tórax anatomicamente masculino) e sua subsequente recuperação.

 Ou seja, além de cúmplices de vida, são cúmplices de criação. Ambos têm carreiras marcadas pela investigação profunda de dinâmicas de gênero e olhares queer, cada um utilizando seus métodos para contar histórias de desconhecidos, Samira com câmeras de vídeo e Z com câmeras fotográficas. Mas o que torna You can’t get what you want but you can get me particularmente especial é a inversão de papéis envolta em simbiose na qual criadores, sem deixar de lado a vocação de criadores, viram os personagens de uma história compartilhada. O resultado é tão singelo quanto grandiloquente.

 O filme, que ganhou repercussão em festivais de todo o mundo, é um slideshow com fotos menos e mais íntimas, uma coleção de vivências que têm início naquelas primeiras mensagens que já denotavam uma revolução. É uma obra que transita entre o hiperpessoal e o universal, acompanhando o caminhar embrionário de um relacionamento até seu crescimento total e completo, com uma sensibilidade e leveza raras, especialmente em narrativas envolvendo pessoas trans. A escolha por um formato simples, quase cotidiano, reflete o estilo de ambos. Samira, dos documentários, e Z, das fotografias, criam aqui um híbrido visual que une suas potências artísticas e pessoais. A vida imita a arte e vice-versa.

Pelas entrevistas concedidas a posteriori, fica claro que a intenção inicial não era criar qualquer tipo de projeto artístico, mas sim documentar algo especial para ambos. Z menciona que foi quase instintivo capturar cada momento vivido com Samira, dada a intensidade e a novidade do relacionamento. A proposta, porém, mesmo que não de maneira intencional no início, reflete um desejo maior de se apropriar das narrativas trans, frequentemente contadas de fora para dentro e quase sempre com um tom de tragédia ou trauma. Isto é, a narrativa apresentada no curta-metragem também aborda uma questão mais ampla dentro da arte trans: a necessidade de transcender as histórias de sofrimento e superação para incluir narrativas que refletem os pormenores, tão prendados de amor e beleza.

No auge de sua aparente banalidade, You can’t get what you want é um ato contra os estereótipos e a invisibilidade que ainda cercam a comunidade trans. Sentados, em momentos rotineiros, incitam um levante, acreditando piamente que a próxima etapa da arte trans é explorar os espaços intermediários em que a vida como ela é fica sob holofotes e o horror e a glória, que podem até se fazer presentes, não dominam.

Samira e Z não veem necessidade em se justificar e muito menos de educar sobre o que significa ser uma pessoa trans. É uma abordagem T4T (trans for trans ou trans para trans) cujo foco está na conexão e na intimidade, não nas explicações sobre identidade de gênero. O título, que, tendo em vista o apreço da dupla por roqueiros boca-de-sino, ecoa o You can’t always get what you want dos Rolling Stones, deixa claro: você não vai ter o que quer, ou o que acha que quer, você vai ter o que existe aqui e agora. É como se os artistas se vissem como uma forma de arte em si, um processo criativo contínuo e mutável. A ideia de que ser trans é ser um artista, como proposto por McKenzie Wark, ressoa profundamente. Criar-se, moldar-se, especialmente em uma relação que desafia as normas e cria novos paradigmas, é arte por si só.

O filme, que sublinha o apoio mútuo durante a transição, reflete um conceito expandido de família, que vai além da biologia e se fundamenta no reconhecimento e na aceitação plena do outro. A relação de Z e Sam pode ser vista como um novo, possível e revolucionário microcosmo afetivo, pronto para desafiar a normatividade heterossexual.

Pense de novo, Tolstói. Eis uma família feliz à sua maneira.

O filme You can’t get what you want but you can get me é um retrato sutil de intimidade e transição, desafiando as narrativas predominantes sobre experiências trans. O que foi necessário levar em consideração para capturar as camadas do relacionamento de vocês sem cair no didatismo? Foi tudo orquestrado de um jeito que funcionasse ou aconteceu de maneira natural (e, portanto, sem explicações excessivas)?
Sam:
Tanto eu quanto Z, separadamente, construímos nossas carreiras entrando na casa de estranhos com nossas câmeras, Z fotografando e eu filmando. Todo o meu trabalho é sobre conhecer pessoas desconhecidas e criar algo com elas. Mas, com Z, foi diferente. Pela primeira vez, conheci uma pessoa que me interessava sem ter a intenção de filmá-la. Só que aí, desde o primeiro encontro, Z começou a tirar fotos de mim e, de forma natural, seguimos nos documentando e capturando nosso processo de nos apaixonar. Nunca planejamos criar uma obra juntos, apenas começamos a nos filmar. Só meses depois percebemos que isso poderia virar um projeto. O amor veio primeiro, o trabalho veio depois.

Z: Queríamos ir além das narrativas trans estereotipadas que costumam aparecer por aí — histórias voltadas para educar o público cis, que são ou trágicas ou impossivelmente fofas e para cima. No lugar disso, queríamos mostrar algo no meio disso tudo: uma história sobre pessoas trans vivendo vidas comuns e cheias de amor.

Sam: Alguém chamou nosso filme de: “uma história T4T que não pede desculpas a ninguém e que não se preocupa em se explicar para o olhar cisheteronormativo”. Era exatamente isso que queríamos fazer, um trabalho que focasse menos nas nossas identidades de gênero e mais na conexão que temos um com o outro.

 A troca de imagens do Led Zeppelin se tornou um catalisador inesperado para o seu relacionamento e colaboração criativa, especialmente em uma era que não pensa duas vezes antes de rejeitar heróis do passado. De que maneira a importância estética e cultural desses ícones ressoa com seus temas?

Z: Sinto que as pessoas trans não têm a mesma liberdade criativa na expressão de gênero que nossos colegas cis, o que parece contraditório, já que a transgeneridade é baseada quase inteiramente na autocriação. Não é que eu queira ser reconhecido apenas como “um homem”. Sempre achei que os homens mais atraentes são os que têm cabelo longo e usam roupas justas, que não têm medo de um pouco de maquiagem. Então, naturalmente, é esse o tipo de homem que eu quero ser. Não quero ser qualquer um. Quero ser um rockstar dos anos 70. Encontrar Sam foi uma virada de jogo para mim, porque ele não só aceitou minha expressão de gênero, mas a compreendeu de uma maneira que só ele poderia. Nunca conheci ninguém que se expressasse de forma tão semelhante a mim, e foi muito natural explorarmos isso criativamente também.

Sam: Sempre digo que o fanatismo é a 6ª língua do amor. No início do nosso relacionamento, nos unimos pela música, e acho que me apaixonei por Z quando percebi que ele também era um fanboy. No passado, interagi com muitos fanboys, mas eles raramente se importavam com o que eu gostava. Com Z, foi diferente, sua empolgação em compartilhar cultura parecia hiper-romântica. Trocávamos fotos de estrelas do rock como Jimmy Page e Robert Plant da mesma forma que as pessoas enviam fotos de gatos e dizem, “somos nós”. Enquanto a gente passava por nossas transições, enfrentávamos preconceito por causa do nosso cabelo longo e características mais femininas. Foi sintomático criar uma conexão a partir de estrelas do rock que tinham cabelo longo e abraçavam traços femininos sem que ninguém questionasse sua masculinidade.

O filme de vocês tem foco no cotidiano, no mais pessoal, afastando-se das grandes narrativas de sofrimento. Qual é o papel dessa abordagem na reconfiguração da narrativa trans dentro do panorama cultural mais amplo?

Z: Ao longo da história e da cultura pop moderna, os homens trans apaixonados são quase invisíveis. Histórias sobre masculinidade trans muitas vezes são contadas a partir da perspectiva de outras identidades ou, então, em relação a essas outras identidades, num segundo plano. A identidade masculina trans raramente é mostrada como algo que possa se erguer sobre os próprios pés, e não costumamos ser protagonistas. Nossa urgência é criar um espaço onde o amor T4T seja algo natural. Com nosso trabalho, enfatizamos a possibilidade do amor trans como algo profundo, significativo e não centrado em trauma ou tragédia.

Sam: Acho que há algo muito inocente no slideshow. Ele conta uma história de amor quase adolescente, enquanto também mostra a intensidade dos relacionamentos trans. Nos conhecemos e nos apaixonamos como qualquer outro casal, mas temos que enfrentar acontecimentos profundos e transformadores juntos.

 Ao misturar as linhas da vida e da arte, o relacionamento vira um meio criativo. Quais desafios surgem na interação entre suas vidas pessoais e seus papéis como artistas, especialmente em um projeto tão ligado à experiência compartilhada de vocês?

Sam: Em qualquer situação em que a intimidade real é retratada publicamente, seja em uma obra de arte ou em um reality show, você se expõe a ser julgado pelas partes mais privadas da sua vida. Pessoalmente, acredito que há algo de nobre em jogar para o mundo sua vida, suas questões, inseguranças e epifanias, confiando que sua experiência é humana, compartilhada e valiosa.

Se você é um artista de um grupo minoritário ou oprimido, está sempre sendo avaliado pelo que representa e se sua representação é considerada adequada. Qualquer consideração sobre suas virtudes para dirigir, escrever ou editar é totalmente secundária — isso quando ela ocorre. O julgamento é sempre pessoal, voltado para sua aparência ou comportamento, e não sobre como você realiza seu trabalho. Homens brancos cis, por outro lado, receberam essa sensação de neutralidade e, com ela, têm a liberdade de representar outros e contar histórias que apenas observaram. Artistas marginalizados são mantidos a um nível mais elevado de pureza e têm mais a perder se não corresponderem ao que se espera.

Z: Para mim, o desafio de trabalhar junto com o parceiro é bem parecido com os desafios de trabalhar sozinho, só, talvez, um pouco mais intenso, já que há dois corações envolvidos. É o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, o diálogo interno negativo, a vulnerabilidade inevitável de transformar em realidade as [suas] visões mais profundas. Claro que os riscos parecem grandes quando você compartilha partes do seu relacionamento mais importante em nome da arte, mas acho que foi exatamente por conta desses riscos que aprendi tanto com esse projeto. É uma honra ter seu parceiro como a pessoa que segura um espelho para você ao longo do processo criativo. Você começa a perceber que a forma como lida com sua criatividade respinga para o resto da sua vida e para todos os seus relacionamentos, independentemente de quão próximo você permita que as pessoas que você ama se envolvam no seu trabalho. Essa percepção me fez ser mais intencional na maneira como me relaciono comigo mesmo e com os outros enquanto crio.

 É surpreendente como a ideia de uma pessoa trans ter uma família ainda pode ser vista como algo inesperado, mesmo que isso não devesse causar surpresa alguma. Que mudanças vocês julgam necessárias para tornar o conceito de família mais inclusivo e representativo de identidades e relações diversas?
Z:
Família significa algo diferente para cada um de nós, essa é a beleza da coisa. Eu me sinto muito grato por ter membros da minha família biológica que me apoiam, e tem sido um prazer conhecer a família do Sam também. Mas algo que gerações de pessoas queer sempre entenderam é o conceito de família escolhida. Poder trazer o Sam para perto da minha comunidade queer/trans de irmãos, irmãs e amigos é tão importante para mim quanto apresentá-lo à minha mãe e irmão! E as únicas pessoas com quem me preocupo que entendam esse tipo de família são aquelas que realmente precisam dela.

Sam: No nosso trabalho, algo que achamos importante foi o fato de que nunca tivemos que admitir nada para nossas famílias, nem nos preocupamos em abordar nossas identidades nesse contexto. Elas simplesmente estavam lá, participando das nossas vidas e do nosso projeto. Essa abordagem reflete a normalização de estruturas familiares diversas, fazendo com que o foco esteja nos relacionamentos e nas experiências, não na necessidade de validar ou explicar nossas identidades. Para tornar o conceito de família mais inclusivo e representativo de identidades diversas, é essencial normalizar essas experiências, retratando-as como uma parte natural da vida e abandonando a ideia de que são exceções ou anomalias.

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É no coração de uma floresta finlandesa, erguido, não por acaso, entre o verde intenso e o farfalhar suave de um conglomerado de árvores, que está o Sanatório de Paimio. Concebido por Alvar e Aino Aalto e inaugurado em 1932, esse projeto arquitetônico que transcende o tempo e as convenções é um símbolo indelével do potencial da arquitetura deimpulsionar cura e bem-estar. Numa época em que a tuberculose ainda ceifava muitas vidas ao redor do mundo, quando a luta contra a doença apenas começava a se articular de maneira eficaz, os Aalto vislumbraram um espaço onde a luz, o ar e o design se uniriam feito sinfonia para aliviar o sofrimento de pessoas enfermas.

Na década de 1920, a recém-independente Finlândia via na construção de hospitais, sanatórios e outras instituições públicas uma oportunidade de criar sua identidade nacional e incitar o orgulho patriótico, antes inviabilizado pelo grão-ducado Russo. O país buscava afirmar-se por meio de empreendimentos públicos ambiciosos, e o Sanatório de Paimio tornou-se um exemplo emblemático dessa estratégia, combinando funcionalidade com inovação estética. O processo que culminou na criação do sanatório teve início em 1929, quando o casal Aalto venceu o concurso público para projetar a obra, marcando um ponto de convergência entre a arquitetura moderna e a afirmação cultural finlandesa.

Desde o início, a inovação se fez presente, a começar por uma decisão aparentemente simples     , mas inegavelmente revolucionária: o edifício em si seria como uma extensão do tratamento médico. Para os Aalto, um sanatório não deveria ser somente um lugar de confinamento; na verdade, ele tinha tudo para ser uma ferramenta terapêutica ativa, projetada para maximizar os efeitos dos métodos conhecidos, na época, para tratar a tuberculose, como o repouso, o contato com a luz solar e a inspiração de ar fresco. Esses elementos, por mais triviais e pouco hospitalares que possam parecer, formavam o cerne da mentalidade que deu à luz uma das obras mais significativas do movimento modernista na arquitetura.

A cerca de três quilômetros da pequena cidade de Paimio e a quase trinta de Turku, as imensas árvores e os sons tranquilos da floresta criavam um ambiente de serenidade e isolamento, ideal para a recuperação dos pacientes, que muitas vezes passavam anos em tratamento. Estar perto de uma vegetação tão densa proporcionava uma transição suave e necessária do mundo exterior para um espaço inteiramente dedicado à cura e à introspecção. 

A estrutura principal do sanatório consistia em várias alas interligadas, cada uma dedicada a funções específicas, mas todas com o objetivo comum de promover a saúde por meio de um ambiente cuidadosamente planejado. A ala dos quartos, com seus sete andares, foi projetada para maximizar a exposição à luz solar. Cada quarto, voltado para o sul-sudoeste, captava o máximo de luz natural ao longo do dia. As amplas janelas, que se estendiam do chão ao teto, inundavam os espaços com luz e eram quase como pinturas barrocas, emoldurando o exterior com suas largas vistas panorâmicas da paisagem ao redor e estabelecendo uma conexão constante entre os pacientes e a natureza.

 Dentro dos quartos, os tetos escuros criavam uma atmosfera tranquilizante, enquanto as paredes em tons suaves refletiam a luz de maneira gentil para evitar brilhos mais intensos que poderiam incomodar a vista. As luminárias, com um propósito similar, foram posicionadas de maneira      a minimizar o desconforto visual, reconhecendo que a percepção sensorial poderia influenciar o estado emocional e físico dos pacientes. Até mesmo as pias foram projetadas com um ângulo específico para reduzir o ruído da água corrente, demonstrando uma atenção quase obsessiva aos detalhes que poderiam impactar o bem-estar.

 Áreas como a sala de jantar, a biblioteca e espaços de recreação foram concebidas para facilitar interações sociais saudáveis e criar um senso de comunidade e apoio mútuo. Terraços amplos e acessíveis permitiam que os pacientes desfrutassem do ar fresco e da luz solar em diferentes momentos do dia, o que promovia a mobilidade e o contato com o ambiente externo, mesmo durante os longos invernos finlandeses. Para os dias mais frios, sacos de dormir forrados de pele eram disponibilizados, tudo para garantir que o clima adverso não se tornasse um impedimento para a terapia ao ar livre.

 A colaboração entre Alvar e Aino Aalto foi além da arquitetura estrutural, estendendo-se ao design de interiores e de peças de mobiliário. Juntos, criaram ícones do design moderno, como a célebre Cadeira Paimio. Inspirada no assento Wassily de Marcel Breuer, a versão dos Aalto utilizava madeira laminada curvada, explorando as possibilidades do material para criar formas orgânicas e confortáveis que auxiliavam na respiração dos pacientes.

Tudo ali combinava uma rigorosa análise científica com uma sensibilidade artística e humanista profunda. O casal criador abraçou os avanços da produção industrial e os princípios do funcionalismo, apertando-os forte com ambos os braços, mas sem nunca perder de vista o elemento humano, que sempre foi o motivador central de todas as suas decisões. Alvar Aalto, sempre atento às inovações tecnológicas, introduziu o primeiro elevador panorâmico da Finlândia em Paimio, uma inovação que, além de funcional, servia também para proporcionar aos pacientes uma visão privilegiada da paisagem ao redor. Esse cuidado com os detalhes se estendia à disposição dos blocos de edificações, pensados para minimizar a propagação da doença e garantir a máxima privacidade e conforto aos doentes.

O sanatório e seu conjunto de peculiaridades foram idealizados como uma resposta a uma crise de saúde e como um espaço que reconhecia e valorizava a dignidade e a experiência individual de cada paciente.

A integração harmoniosa entre forma e função, natureza e tecnologia, individualidade e comunidade que os Aalto alcançaram há quase um século continua a oferecer um modelo aspiracional para o futuro da arquitetura e do design. O Sanatório de Paimio permanece como um dos maiores representantes da arquitetura que cura, caracterizada pela capacidade humana de criar espaços que nutrem o corpo e a alma através da luz, do ar e da beleza intencionalmente cultivada.

Ao longo dos anos, o sanatório passou por diversas transformações, adaptando-se a novas funções e necessidades. A descoberta de antibióticos contra a tuberculose reduziu drasticamente a necessidade de sanatórios, levando-o a se reinventar como hospital geral e, posteriormente, como centro de apoio para crianças com transtorno mental e deficiência. Apesar dessas mudanças, a essência do design dos Aalto permanece intacta, graças à preservação e ao reconhecimento do valor histórico e cultural do edifício.

Hoje, quase cem anos após sua construção, o sanatório faz parte do Hospital Universitário de Turku e há um movimento crescente para que o edifício seja reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, um reconhecimento que celebraria a convergência entre arte, ciência e humanismo que ele representa. Se um dos objetivos iniciais era forjar uma identidade finlandesa, essa missão foi plenamente alcançada, pois a Finlândia continua a se orgulhar do que foi, é e ainda será realizado ali.

Quando aspectos físicos, emocionais e sociais são considerados, surgem espaços que, além de atender às necessidades funcionais, também enriquecem a experiência humana de maneiras profundas e significativas. Mais do que isso, ao priorizar o ser humano, a arquitetura atinge sua máxima funcionalidade. No coração de cada estrutura bem-sucedida deve pulsar precisamente isso: um coração, junto com uma compreensão profunda das pessoas para as quais ela foi criada. Essa abordagem, muitas vezes subestimada, talvez seja a mais eficiente de todas.

O Sanatório Paimio permanece como um marco e uma voz poderosa na chamada healing architecture, mostrando que é possível transformar o mundo, construindo novos espaços e projetando possibilidades de cura.

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No fundo do vale, entre a Serra da Mantiqueira, Bocaina e Itatiaia, chegamos em um portal para um pedacinho de Brasil profundo, onde o tempo parece andar mais devagar, ditado pelo compasso sem pressa da cultura caipira.

 

Visitamos a região para garimpar um turismo de experiência autêntico, fora do óbvio, perfeito para escapadinhas de final de semana e feriados. Com divisas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, esse pedacinho do Brasil fala a língua das culturas dos três estados.

Essas terras, que hoje atravessamos de carro, com pressa, sobre a via expressa da estrada asfaltada, foi um dia uma rota pujante de mulas, viajantes e comerciantes da época do Ciclo do Ouro, que escoava de Minas Gerais por esse mesmo vale em direção ao Rio de Janeiro. Foi cruzando essas primeiras trilhas de chão de terra que nosso país cresceu e se desenvolveu pelo Vale Histórico. O trajeto era utilizado tanto na época do Brasil colonial quanto no Brasil republicano. Os primeiros tropeiros comerciantes abasteciam com mantimentos as vilas e faziam o papel de “mídia” para que a informação pudesse circular na Corte Imperial, no Rio de Janeiro. Não coincidentemente, a distância entre cada uma das cidades é de aproximadamente 25 km, a distância média que uma mula conseguia percorrer em um dia de viagem. Cada entreposto acabava formando um rancho, um local de “hospedaria e restaurante”, e a partir deles foram se desenvolvendo essas vilas, hoje as pequenas cidades do Vale Histórico: Bananal, Arapeí, São José do Barreiro, Areias, Queluz, Silveiras, Lavrinhas e Cruzeiro.


Resolvemos, então, montar nas nossas mulas de aço e quatro rodas para fazer uma mídia atualizada, percorrendo parte dessa rota em uma releitura do que se chamaria hoje de “turismo tropeiro”.Nada melhor, para começar a contar esta história, do que uma boa cachaça no Rancho, centro de gastronomia e cultura caipira em São José do Barreiro, em frente à pracinha mais charmosa da cidade.
A experiência gastronômica oferecida no local remonta à comida típica dos tropeiros, que mistura pratos indígenas como o iça (farofa com formiga tanajura frita) com pastel de angu e fubá moído no moinho de pedra, além de diversos tipos de cachaça. O espaço conta ainda com um armazém com uma curadoria de produtos locais que transcende épocas, como carne de lata, café moído na hora, produtos a granel e cestos de taboa (levados nas mulas). Nos finais de semana e feriados, o local conta com a presença dos melhores violeiros da região.

“Tropeirando” mais adiante, chegamos à cidade de Areias, que abriga a nascente do Rio Paraíba e que conta com algumas atrações inesperadas, como o Hotel Sant’Anna, autointitulado o mais antigo em atividade ininterrupta no Brasil desde 1806. Nele, hospedaram-se D. Pedro II e a princesa Isabel, que fundou, na época, um conservatório de música frequentado pela alta sociedade da região, em uma era em que o Brasil econômico era o café, e o café era o Vale do Paraíba.

Vizinho do Sant’Anna, em um casarão antigo, conhecemos o antigo hotel e pensão Marques, por onde passaram Monteiro Lobato e Euclides da Cunha. Aliás, reza a lenda de que foi em Areias que Monteiro Lobato, na época trabalhando como promotor público na cidade, conheceu uma areiense chamada Anastácia, que trabalhou na sua casa e posteriormente o inspirou na criação da célebre personagem do Sítio do Picapau Amarelo, clássico da literatura brasileira.

Assim como tia Anastácia, a simpatia dos areienses é notória em todo lugar. Comece o dia com um café da manhã no Angelito, que une artesanato local com um cafézinho coado na hora e muito papo. A Casa de Cultura da cidade abre as portas da antiga cadeia e mostra orgulhosamente retalhos únicos da história: um exemplar de jornal original com a publicação da Lei Áurea e muitos trechos revolucionistas de 1932, uma vez que a revolução foi também sediada na cidade.

Entre uma cidade e outra do vale, as verdejantes fazendas guardam memórias quase intocadas da era de ouro do café. Algumas são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como a Fazenda Pau d’Alho, que é uma das poucas no Brasil com preservação integral e original de quase todas as instalações, sendo possível encontrar nela taipa de pilão e embasamento de pedra.

Outros espaços transformados em hospedagem são a Fazenda do Conde D’Eu, que pertenceu ao próprio marido da Princesa Isabel, e a histórica Fazenda São Francisco, com mais de 200 anos de existência. Esta recebe hóspedes nos seis quartos da casa-sede preservada, com direito a passeio a cavalo e visita a cachoeiras. A propósito, aos adeptos das aventuras equestres, existem outras fazendas que também abrem as porteiras, com hora agendada. Para quem quer experienciar um dia típico de produção de uma fazenda leiteira, desde a apresentação de cada vaca (por nome) até a produção na queijaria, é só falar com o Roberto, proprietário gente fina da Fazenda Barão da Bocaina.

Chegando em em Queluz, outro passeio super autêntico é a Fazenda Restauração. Se você quer fazer história junto, não deixe de visitar o Roberto. A restauração está rolando enquanto você lê essa matéria. Esse advogado com alma de artista é um baita narrador da história do café e profundo entusiasta de todas as raridades que encontrou e restaurou desde quando comprou a propriedade.

Encabeçando a revitalização do turismo rural local, a joia da coroa sem dúvida é a Fazenda Santa Vitória, fascinante propriedade de quatro mil hectares no coração do Vale. Essa fazenda leiteira foi crescendo aos poucos e expandindo seus sonhos neste verdadeiro “eixo rural”, que tem hoje múltiplos projetos em andamento. A queijaria, com rótulos premiados, é um deles.

Com um pouco mais de tempo, a hospedagem na fazenda é parada obrigatória de puro “deleite”. Atualmente, são duas as vilas de hospedagem: a Vila Prosperidade, sede principal, mais familiar, e a Vila da Cascata, que é um pouco mais afastada e imersiva na natureza. Tudo com um luxo sustentável e integrado ao ambiente local de um modo que dá gosto. De um centro para o outro, um pouco de trânsito de vacas garante uma experiência rural totalmente genuína.

Ainda faz parte da imersão um pouco de arte para o coração: o recém-inaugurado Respiro, encabeçado pela artista plástica Beatriz Monteiro, é um circuito de obras de arte e residência artística rural dentro da fazenda. Outra novidade são as trilhas recém-mapeadas dentro da reserva ambiental da fazenda, que começam no início de junho com programação guiada.

Novos planos de mais duas vilas de hospedagem e plantio de uvas para enoturismo estão para acontecer na região. Para não perder, seguimos de olho para as próximas novidades e em tudo que ainda florescerá no Vale Histórico.

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Filha de pai jamaicano e mãe brasileira, Nabiyah Be é atriz, cantora e dançarina. Multiartista por essência, a jovem baiana, entusiasta do bairro do Rio Vermelho, em Salvador, nos conta sobre o impacto que a relação precoce com a fama teve em sua vida e carreira, a experiência em Nova Iorque e a preparação para o lançamento do seu primeiro álbum musical.

Você tem raízes no Brasil e na Jamaica. O seu pai, Jimmy Cliff, é uma grande figura da música, muito conhecido, mas ele certamente não te fez sozinho. A sua mãe, chamada Sônia, deve ser uma mulher intensamente interessante.

Exato, ela se chama Sônia Gomes. É psicóloga, professora e especialista em trauma.

Como foi a sua infância nesse contexto?

Eu nasci na Bahia e sinto que tive uma infância peculiar, no sentido da exposição à cultura e religião. Meus pais se conheceram numa cerimônia de ayahuasca, fui batizada muçulmana e cresci em Salvador. Devido ao trabalho do meu pai, viajei muito na infância, o que fez minha mãe me criar, de certa forma, sozinha, longe da família. A família por parte dela, contando [com os] nossos amigos como rede de apoio, estavam espalhados, na verdade, pelo país. Uma parte deles em Salvador, outra em São Paulo, e ainda uma parte no Recife. A família por parte de pai ficava espalhada pelo mundo, muitos na Jamaica, irmãos que cresceram no Canadá, alguns em Londres. Então, as viagens, desde muito nova, eram para visitar a família. Comecei a trabalhar com meu pai desde cedo, e dos 7 aos 11 anos eu já cantava e acompanhava ele nos shows. Nos meses em que estava com meu pai, percebia que essa itinerância não era algo comum na vida das outras crianças. Apesar de estar muito exposta a uma ideologia e maneira de viver muito afrocêntrica, por influência do meu pai e da parte da família jamaicana, na qual muitos são rastafári, a escola que meus pais escolheram, para que eu pudesse ter essa vida internacional, foi uma escola americana e bilíngue. Então, [uma escola] extremamente elitista, branca e, de certa forma, católica também. E a gente estava ali, eu com uma família bebedora de ayahuasca, muçulmana — depois, minha mãe se tornou devota de um guru na Índia —, toda essa confluência entre as vias de matriz africana e o mundo branco. Ao mesmo tempo, foi essa escola que me permitiu, posteriormente, viver em Nova Iorque por tanto tempo e transitar por diferentes culturas.

Na prática, você vive o seu exercício artístico desde muito cedo. Mas eu gostaria de saber quando você se entendeu como artista, com os seus próprios desejos e fabulações de criação? Tem um marcador, ou isso foi tão orgânico que você não consegue fazer uma divisão?

Eu separo em dois momentos. A performance em si sempre esteve muito presente. A minha primeira experiência de palco foi com dança. Aos 5 anos, participei de uma companhia de dança contemporânea. Eu saía do meio da plateia, saía correndo, entrava no palco, e começava a dançar com a companhia. Então, o palco para mim sempre foi um lugar sagrado e seguro, onde eu me reconheço como alma e em serviço. Só que, adentrando o psicológico de pessoas que são filhas de pessoas famosas, existe uma crença ali de que, para receber amor, eu preciso performar. Então, aos poucos fui reconhecendo que, apesar de ter muito amor por performar, eu tinha ali um lugar de obrigação. Foi quando senti que precisava pegar um instrumento, compor, fazer algo que não precisasse da presença de uma outra pessoa para validar o que eu estava fazendo. Eu sempre digo que o teatro, que a atuação salvou a minha vida, porque, quando criança, eu performava e dançava em turnês e, nesse processo de estar constantemente desinibida, vivi situações muito intensas na frente de muita gente. Aos 11 anos, comecei a murchar e o teatro serviu, quase como por emergência, num nível educacional, para regular o meu sistema nervoso e a minha vida emocional. Sempre digo que a atuação salvou a minha vida por me ajudar a ter esse lugar de segurança ao acessar minhas vulnerabilidades.

Faz sentido pensar no teatro como um caminho que foi dando instrumentos para você lidar com a sua urgência artística, digamos assim.

Sim, quando falo que houve dois momentos, é porque eu tinha muita noção de que, quando cantava ou dançava, era algo meio que “oh” na cabeça das pessoas. Eu tinha consciência desse meu poder quando criança. Mas eu não sabia o que fazer com ele, não sabia o que falar. Eu sabia apenas que, quando performava, acontecia uma atenção prazerosa na minha psiquê. Aí vem o segundo momento, quando [eu era] adolescente e fazia parte de uma companhia de teatro.  Lembro que estava de carro, passando pelo Rio Vermelho, em Salvador, quando me veio uma consciência de morte, ligada à ideia de que eu precisava fazer alguma coisa somente para mim, alguma coisa que não significasse a necessidade da presença do meu corpo. Senti, ali, que precisava compor, precisava criar algo que pudesse existir sem o meu corpo. Foi então que me debrucei a me envolver com composição e, bem depois, com produção.

No período em Salvador, você chegou a ter experiência com a cena do teatro?

Sim, comecei aos 15 anos e fiquei até ir embora. Fiz teatro de guerrilha, escrevendo, produzindo tudo, colocava a escola em editais, preparava nossas turnês locais. E foi muito importante para mim, porque eu era a única adolescente no meio de um pessoal da faculdade. Então, eu super me achava a intelectual, e realmente foi um grande aprendizado.

Aí você sai de Salvador com 18 anos e segue para os Estados Unidos?

Com 18 anos, fui para Nova Iorque sozinha, fazer faculdade. No primeiro ano, já comecei a trabalhar no circuito de teatro. Fiz muita Broadway, musicais, peças, atuei muito dentro do círculo de música brasileira e — pouco, é verdade — com as minhas próprias músicas. Sempre digo que Nova Iorque me fez a artista que eu sou, porque é um lugar de muita reverência e devoção para a arte e as escolhas artísticas de cada um. É uma cultura em que se diz, “ok, vamos estudar, vamos melhorar”. Em alguns níveis, pode não ser saudável, mas há essa cultura do aprimoramento que me fez crescer muito.

Você teve uma jornada que também se destaca na parte audiovisual. Entre filmes e séries, você elenca algum trabalho que foi muito engrandecedor internamente?

O Daisy Jones and the Six, sem dúvida. Tanto por ter sido a minha primeira experiência com uma personagem relativamente grande, de importância na narrativa, quanto pelo fato de ter sido um projeto de longo prazo, com muito tempo de pré-produção, de produção, enfim. Foi uma grande escola, porque pude contribuir com ideias de como adaptar a personagem do livro para as telas. Isso foi muito importante.

Você está em vias de lançar o seu primeiro álbum solo. Como você vê hoje os encontros e as parcerias que você encontrou até aqui? Como você as sente?

Eu percebo que quanto mais clareza tenho sobre o que quero transmitir para o mundo, ou o sentimento que quero acessar, mais fácil se torna reconhecer os meus parceiros. Com isso em mente, fica mais simples conhecer as pessoas e enxergar as suas qualidades. Foi assim com o Lucas [Carvalho] e o Marcelo [Delamare]. Desde o início, pensei, “o que e como eu posso aprender com vocês?”. Em termos de produção, musicalmente também. Eu iniciei a produção desse disco aprendendo a produzir. Aprendi a mexer um pouco, a fazer a engenharia de som e ir direcionando o que eu quero. Tive muita consciência e humildade nesse processo, por isso considero que fiz aprendendo, mesmo. Com muita confiança e um tanto de medo, mas sempre bancando o que eu sei e o que tenho clareza que desejo.

É muito importante o que você diz, de bancar o que se sabe. Você é híbrida, sai de um lugar, vai para outro e aprende no percurso. A Bahia, sem dúvida, te deu régua e compasso para confiar no seu axé. E quanto às referências culturais, o que está explícito no teu trabalho?

Sinto que a minha vivência internacional é muito explícita nesse trabalho. É um álbum híbrido, tanto de línguas como de gêneros. Cada vez mais têm me interessado artistas que vêm fazendo isso, propondo essas transições, misturando gêneros. Nós, enquanto sociedade, somos obcecados por termos uma identidade. Sempre nos definimos como isso ou aquilo. Eu acho que, de certa forma, existe isso nesse álbum. Todas as canções foram compostas, em grande parte, comigo no violão, usando as minhas progressões de acordes, que são muito brasileiras, algumas trazidas também do R&B. Consigo olhar para isso e pensar que é a minha raiz.

Você lançou Everybody, Poço azul e Hero, três músicas de forma separada. Queria saber sobre a sua experiência de realizar lançamentos independentes para apresentar o trabalho que está chegando.

Fiz esse disco em coprodução, em grande parte, com Marcelo Delamare e Lucas Carvalho, que coproduziu três faixas. A Everybody me deixa muito feliz, porque foi uma das primeiras experiências [que tive] de reconhecer uma produção minha e sentir que eu estou realmente conseguindo produzir. Eu cheguei com uma pré-produção muito pronta para eles, e, até na hora de gravar, eu tinha muita clareza. Da mesma forma, Poço azul foi uma consequência muito bonita do encontro desse trio, resultando em algo mágico. A Hero era uma música que estava bem encaminhada e o Marcelo a engrandeceu com o seu talento de arranjador e diretor musical.

E na parte da produção audiovisual?

No audiovisual, iniciei a ideia do roteiro, tanto de Everybody como de Poço azul, no período em que eu estava morando na casa da Leandra [Leal], e ela estava muito próxima das minhas questões internas, do que estava movendo os meus questionamentos. Então, foi superinteressante entender, através do meu corpo, da minha imaginação, como eu queria contar a história e entregar isso para as pessoas construírem em cima. Tanto a Leandra Leal, em Poço azul, como o Edvaldo Raw, em Everybody, me deram essas alegrias criativas. Você conseguir acessar algo sozinho e, ao mesmo tempo, também em colaboração é muito enriquecedor.

Os filmes têm uma escolha estética linda e envolvente. Além de você ser muito cativante. É interessante observar a artista se apresentando.

Que massa, fico feliz. Como comentei, a minha essência é a performance, então, esse é um lugar em que eu me reconheço e me sinto muito à vontade.

Prestes a fazer esse lançamento — que já está acontecendo de alguma forma, como falamos —, você mergulha no seu íntimo e o que encontra hoje, agora?

É muito interessante, porque, na minha crença, a gente recebe muita ajuda espiritual quando está criando, quando está preparando algo autoral. É um verdadeiro trabalho de cocriação com o divino fazer algo do zero. E muito da ajuda que eu sinto que recebi nesse processo, de composição e produção, foi do meu eu do futuro. Um trabalho artístico segue mudando à medida que o trabalho vai tomando forma, seja em show ou outros projetos visuais. Com isso, vou poder compreender melhor a força da mensagem desse álbum. Sinto que é algo conectado com o futuro, que ainda está por vir. Acho que tudo que tenho trazido enquanto autora carrega uma força de buscar viver com o coração aberto, custe o que custar.

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Quando pensamos em família, geralmente nos vem à mente o modelo branco-ocidental heteronormativo. “Pai, mãe e filhos”. Além disso, costumamos lembrar também de dogmas que inserem a família num lugar sacro e imaculado. Mas o que será que a filosofia, em especial as sabedorias de origem africana e afrobrasileira, tem a nos ensinar sobre esta instituição-conceito tão central em nossa sociedade? Para saber mais, conversamos com o professor e pesquisador Renato Noguera, autor do livro Por que amamos.

Dentro de uma perspectiva filosófica, o que é ou o que são as famílias?

Noguera – Uma forma de pensar a família, em termos filosóficos, é como um ecossistema afetivo, como um ambiente onde há um tipo de circuito afetivo do qual as pessoas se alimentam, se retroalimentam e podem aumentar sua potência. Podem ser mais ou menos funcionais. Então, em famílias mais organizadas, que são afetivamente mais equilibradas, as crianças, as pessoas adultas, todas as pessoas tendem a crescer mais, desenvolver seus potenciais e serem mais colaborativas, mais proativas e mais funcionais. E famílias disfuncionais são ecossistemas mais desorganizados, ecossistemas que não são autorregulados. Então, por uma teoria filosófica dos afetos, as famílias são ecossistemas afetivos. 

Em seu livro, Por que amamos, você traz algumas perspectivas filosóficas, pautando o que a filosofia e os mitos têm a dizer sobre o amor. Você acha que tem algo que os mitos, a filosofia, os itãs podem nos dizer sobre as famílias?  

Noguera – Tem algo interessante, porque em algumas culturas, por exemplo, na cultura cristã, o amor tem um papel muito importante, um papel de centralidade. A gente vê isso em Coríntios, em várias passagens: o amor tudo suporta, em tudo crê.

Muniz Sodré destaca uma coisa importante. Ele fala, por exemplo, que a alegria tem um papel central na cultura iorubá, que a alegria é uma coisa que a gente incorpora, uma coisa que tem relação com o núcleo familiar. Então, depende muito de como a gente define amor nesse contexto.

Agora, o amor, em muitas tradições culturais africanas, não é [percebido] da mesma forma que é percebido na tradição judaica ou na tradição cristã. Especificamente, tem essa diferença… Agora, para a gente pensar sobre família, há diferentes formatos. Há famílias que são policonjugais, famílias que não estão no padrão da tradição monogâmica, judaica-cristã, famílias que são mais extensas, famílias que não têm só o caráter nuclear — do pai, da mãe e das crianças, geralmente —, então, são mais amplas.

É importante que a família seja um espaço, um território de segurança psicológica. Acho que isso é o mais importante. Como a gente tem na família um lugar em que as pessoas estão confortáveis para poder dizer o que elas estão sentindo, para poder expressar suas emoções, para poder trazer as suas angústias, para poder ter suporte e apoio. Então, família é um território de proteção e de alimentação espiritual também.

Uma forma de pensar é a família como um lugar onde a gente se alimenta, onde tem apoio e fica mais seguro psicologicamente para poder tomar suas decisões. Um lugar fundamental para que as nossas decisões sejam apoiadas e as pessoas possam não decidir pela gente. Mas são pessoas que gostam e que cultivam admiração [umas pelas outras]. Não tem uma fórmula de como as famílias são, mas eu acredito, eu sugiro nas minhas leituras filosóficas, que o ideal é que a família seja um território onde as pessoas tenham mútua admiração, porque tem uma linha muito tênue entre a admiração e a inveja.

A inveja é aquilo que as pessoas supõem que é muito interessante no outro, e que eu gostaria de ter, e que eu não admiro porque eu sinto que sou merecedor e aquela pessoa tem algo que eu gostaria de ter. De alguma forma, ela disputa comigo aquele lugar que eu gostaria que fosse meu. Já na admiração, independente do que eu queira, do que eu deseje, eu vibro positivamente com o que as pessoas estão fazendo. Então, uma família é interessante quando ela é um manancial de circulação de admiração.

As pessoas se admiram, porque isso faz com que tenham amor. Então, o amor passa pela admiração. Em poucas palavras, uma lição filosófica que aparece em mitos de algumas tradições culturais, nos itãs, é que a admiração contribui, ela faz parceria com o amor. Isso faz com que as pessoas sejam mais seguras, que elas possam ser mais potentes na vida. 

No artigo Por que meninos não podem brincar de boneca?, você discute que a cultura ocidental é uma receita líquida e certeira para produção de masculinidades tóxicas. Como você observa o papel das masculinidades na construção familiar? 

Noguera – O que muitas pesquisas, muitos estudos apontam — e tem algumas evidências também nesse sentido — é que a gente vai aprendendo, com a brincadeira, a nutrir, a ter mais ferramentas, mais repertório para algumas coisas. Então, quando os meninos são capazes de brincar com boneca, os meninos são mais convidados para atividades de cuidado.

O que acontece com os meninos é que a masculinidade vem a ser  construída para que o homem não seja um cuidador, para que o homem seja cuidado por alguém, preferencialmente uma mulher, e para que esse homem seja sempre provedor. Tanto que os homens são mais julgados nesse aspecto cultural por aquilo que eles fazem, que eles representam, e não por aquilo que eles aparentam ser. Então, os homens, nos relacionamentos heteroafetivos, são menos cobrados em relação à aparência e estão sempre focados em performar produção. Uma forma, talvez, de enfrentar essa masculinidade mais intoxicante passa pela possibilidade de inserirmos os homens em atividades de cuidado. Os números mostram isso: os homens estão mais envolvidos em ataques violentos, em situações de violência urbana, nos casos de atentar contra a própria vida e a vida dos outros. Isso não é gratuito, tem uma cultura masculina que leva a esse cenário. Em poucas palavras, é importante que os meninos sejam criados com brincadeiras e brinquedos que possam estimular que eles sejam pessoas que cuidam, de si e dos outros. 

Quais formatos de família você tem observado nas suas pesquisas? Você observa diferenças em formatos possíveis de família, comparando Ocidente e África? 

Noguera – Cada vez mais encontramos formatos diferentes de família. Acho que uma forma, talvez, de conceitualizar a família, pensando o mundo contemporâneo, é como uma organização social, um grupo de pessoas que tem algum laço afetivo, não só laços consanguíneos. Em algum momento, a ideia de consanguinidade, a ideia de linhagem, atravessava a noção de família profundamente. Então, eram os laços biológicos marcados por uma conjugalidade. Logo, o conceito mais tradicional de família tinha a ver com cônjuges, com o casal — e esse casal, geralmente, era um casal cishetero —, e, a partir dos filhos, dos descendentes, se constituía uma família.

Em algumas culturas, o conceito de família é mais ampliado. Se a gente pensar nas villages, em contextos africanos, nas aldeias indígenas, [eles] se chamam de parentes, se entendem como parentes, não que você não tenha ali conjugalidades, pessoas com laços biológicos, laço consanguíneo, mas não é só isso que define o que é família. Então, cada contexto cultural vai ter uma perspectiva de família mais ou menos ampliada.

O conceito tradicional está sendo discutido. A cisheteronormatividade já tem sido rechaçada, os movimentos sociais contra o patriarcado, que são vários deles, movimentos feministas, movimento de população LGBTQN+, já romperam com isso. Família não é só um casal hétero com seus filhos, isso já está dado. Tem formatos com pessoas que convivem e que se entendem como família. Hoje, são pessoas que convivem, que habitam o mesmo espaço, que têm uma identificação afetiva, e, a partir dessa identificação, elas têm apoio mútuo, é uma rede. Família tem a ver com uma rede de afeto e de apoio, cada vez mais isso. Tem a ver com interdependência.

Podemos dizer também que são pessoas interdependentes que querem o bem-estar dos membros daquela comunidade. Em poucas palavras: família é uma comunidade que se reúne, que vive na mesma casa ou não, que não precisa ter laços consanguíneos, mas tem laços afetivos de apoio e suporte mútuo. Os formatos são evidentemente variados, pessoas casadas, pessoas não-casadas, pessoas solteiras que moram juntas, pessoas que têm um grau de parentesco, com avô, com neto, bisneto, tio, sobrinho, variado, primos, irmãos que moram juntos, irmão ou filho de um, sobrinho. Então, há muitas formas de se compor essa família. 

Parafraseando um pouco seu livro, por que você acha que a gente ama? Por que amamos? E por que nos reunimos em família? 

Noguera – Por que amamos? Porque o amor é um afeto de organização, é o afeto mais organizador que a gente tem. Então, nós somos seres que têm afetos primários, secundários, terciários.

Afetos primários, das emoções. Secundários, dos sentimentos. E afetos terciários, os nossos pensamentos. O amor é um afeto que, quando se liga com outro afeto, e ele está no controle, ele nos organiza. Não que uma pessoa deixe de ter raiva quando ela ama, ou deixe de ter ciúme, mas se o ciúme é que está dirigindo o carro, o que vai acontecer? Ele vai evitar acidente, ele vai ter mais cuidado numa pista molhada, ele não vai beber antes de dirigir, para não passar pelo bafômetro? Mas se for a raiva dirigindo, o ciúme, a possessividade, esses afetos podem fazer esses tipos de coisas. Então, as pessoas que amam podem tomar decisões ruins, porque o amor pode não estar na gestão daquele corpo.

E a gente se reúne em família porque um dos piores sentimentos é o abandono, é a rejeição. Essa rejeição pode ser simbólica, pode ser efetiva, material, de estar fora de um grupo. Tanto que tem alguns indícios que vão apontar, para estudos de antropologia biológica, que a gente se tornou ser humano a partir do momento em que uma pessoa quebrava o fêmur — isso, falando lá no paleolítico —, e essa pessoa era cuidada por outras pessoas, porque se ela quebrasse o fêmur e ficasse sozinha, ela morreria.

Há séculos a família significa proteção. Sem família, sem grupo, a gente fica largado, porque é um grupo que vê o seu lado, não só a tua melhor edição. A nossa melhor edição está no mundo lá fora. Nas relações mais íntimas, a gente aparece sem maquiagem, aparece sem edição. E aí, só esse amor familiar é que pode fazer a pessoa brigar com a outra e, mesmo depois de uma briga, ela ainda acolher e dar carinho. Porque [você] não vai romper com uma pessoa somente porque ela fez algo errado naquele dia. Se quebrar o prato, não vai ser motivo para não ser mais querida e amada. Por isso, também, que a gente tem que ter um cuidado afetivo importante.

Por exemplo, a criança sente raiva, grita, esperneia. É importante que os pais saiba lidar com isso, senão a recusa da raiva da criança pela família gera na criança a ideia de que ela só pode ser validada se não demonstrar o que sente, só demonstrando bons sentimentos. Isso não é real e não é o mundo real. No mundo real, vamos demonstrar coisas boas e coisas ruins, vai ter discordância.

Nesse contexto, a família serve para exercitarmos nossa humanidade desde cedo, trazendo ali nossas verdades. É nesse espaço que podemos nos permitir agir sem o receio de não sermos benquistos, onde podemos relaxar da casca social, da aparência montada. A família serve — ou deveria servir — para isso, para ficarmos à vontade.


Renato Noguera é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro) e coordenador do Grupo de Pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Infâncias (Afrosin), tem se dedicado a investigar os afetos num diálogo entre antropologia, história, filosofia, neurociência e psicanálise. Autor dos livros “Porque amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor”  e “O que é o luto: como os mitos e as filosofias entendem a morte e a dor da perda”.

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Álbum de família, de Nelson Rodrigues, encenada pelo Grupo Galpão. Fotografia de Guto Muniz.

No Brasil, múltiplos são os exemplos de peças teatrais cuja trama esteve pautada na mecânica subjetiva e nos processos de interação de um núcleo familiar. Dos casos mais emblemáticos — tanto por sua importância para a engenharia teatral, como porque operam como testemunhos históricos de seu tempo —, é possível mencionar O juiz de paz na roça (1838), de Martins Pena;  O defeito de família (1870), de França Júnior; Moral quotidiana (1922), de Mário de Andrade; Nossa vida em família (1972), de Oduvaldo Vianna Filho; De braços abertos (1984) e Querida mamãe (1994), de Maria Adelaide Amaral; e, mais recentemente, Luís Antônio-Gabriela (2011), de Nelson Baskerville, e a Trilogia das pessoas (2014, 2016 e 2017), de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. Tais obras, apesar de sua heterogeneidade estética e de época, expõem, criticam e denunciam um sem fim de querelas, violências e/ou perversões intrafamiliares, compondo um contínuo de produções textuais que, decerto, possui em seu cume epistêmico a obra Álbum de família”, escrita por Nelson Rodrigues em 1945.

 

Álbum de família: uma autópsia teatral da parentela

Álbum de família inaugura uma sorte de linguagem teatral a que o próprio Nelson Rodrigues definira como “teatro desagradável” — de que fazem parte, também, as suas peças Anjo negro (1946) e Senhora dos afogados (1947) —, assim classificadas pelo autor em entrevista à Revista Dyonisios, em 1949, por serem obras “pestilentas, fétidas, capazes por si só de produzir o tifo e a malária na plateia”. Tendo saído à luz cerca de dois anos após a consagração de Nelson por Vestido de noiva (1943), Álbum de família foi retida pela censura do governo de Eurico Gaspar Dutra, tendo permanecido embargada até o ano de 1967 — quando, finalmente, pôde ser encenada no Teatro Jovem do Rio de Janeiro. Dentre as principais razões para a proibição da montagem, destaca-se a multiplicidade de incestos, atos obscenos e cenas familiares asquerosas que compõem o enredo da peça — atributos que constituíam, para as entidades de controle do período, justificativa mais do que plausível para salvaguardar o espectador da influência de comportamentos considerados depravados e indecorosos pelos censores.

Com uma dramaturgia proposta em planos — característica já presente em Vestido de noiva, que veio a tornar-se um dos principais símbolos da identidade estética do teatro rodrigueano —, a narrativa de Álbum de família alterna-se entre cenas compostas por registros fotográficos de um livro familiar, que são comentadas por um speaker que desempenha uma espécie de voz ou opinião pública, e cenas que retratam o cotidiano dessa mesma família, que difere por completo da conduta de aparente harmonia e retidão posada para as fotografias. Daí, então, a audiência se depara com personagens como Jonas, o patriarca, que se envolve sexualmente com meninas menores de idade arranjadas por sua cunhada Rute, que nutre por ele uma enferma devoção; D. Senhorinha, esposa de Jonas, que teve um caso com o filho caçula do casal, Nonô — o que teria condicionado o enlouquecimento do rapaz; Guilherme, o filho mais velho, que frequenta um seminário, mas é apaixonado por sua irmã Glória — que, por sua vez, tem desejos eróticos pelo pai, ao mesmo tempo que mantém uma relação com Teresa, sua colega de convento; e Edmundo, que mora no exterior com sua esposa, a quem abandona por almejar viver um romance com D. Senhorinha, sua mãe.

 Desta barafunda de disparadores incestuosos, o raconto de Álbum de família constitui-se de traições, assassinatos, suicídios, estupros, dentre outras ocorrências repulsivas que, como recurso de provocação ao paradoxo, são constantemente intercaladas com a dissimulação imagética proposta pela fotografia — uma vez que a disposição inerte dos corpos ajeitados para o retrato promove uma suspensão temporária da brutalidade e da hediondez, escamoteando uma nefasta ciranda doméstica ao mesmo tempo em que forja um panorama dissimulado de respeito, paz e concórdia. Com isso, Rodrigues destapa alguns dos tantos crimes e as agruras que, lamentavelmente, permeiam as mais diversas configurações da instituição familiar: para o dramaturgo, o âmbito privado — em que se verifica a imensa maioria das dinâmicas de parentela — pode ocultar tantas atrocidades quanto as que transcorrem na sociedade “da porta para fora” de lares e moradas.

 

A desagradável contemporaneidade

Em Álbum de família, Nelson Rodrigues não apenas contesta a rotunda inadequação da organização familiar enquanto arcabouço social, como também alerta para o fato de que, como uma grande e incontestável escusa, muitos são os infortúnios e as monstruosidades obliterados em nome da preservação e da perpetuação da família como redoma nuclear inabalável, intransponível e incorruptível. Para Nelson, era urgente levar aos palcos esse recado de espanto, com o intuito de chacoalhar, moralmente, o público — que seguramente possuiria em sua rede de parentesco ou se identificaria com figuras tais como Jonas, D. Senhorinha, Rute, Glória, Nonô, Guilherme e Edmundo. Possivelmente por isso, então, é que a peça tenha permanecido vinte e um anos interceptada pela censura, “encarcerada, enjaulada como uma cachorra hidrófoba”, de acordo com Rodrigues em depoimento ao periódico O Jornal, em 1967: porque questionava e promulgava a erradicação de valores, normas e comportamentos que, apesar de execráveis e gravíssimos, asseguravam a manutenção de uma ordem conveniente para o domínio exercido pelos órgãos de poder daquele de então.

Quase oitenta anos após seu advento, a peça de Nelson Rodrigues ainda impressiona e escandaliza por sua absoluta atualidade. Sobretudo porque, se bem a implantação de certas medidas e procedimentos legislativos matiza e difere esta contemporaneidade da do texto rodrigueano — cito, por exemplo, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990; a sanção da Lei Maria da Penha, em 2006; ou o reconhecimento da união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar pelo STF a partir de 2011 —, também é verdade que o Brasil em que o dramaturgo se baseou para compor a peça de 1945 ainda perdura incólume, e inegavelmente fortalecido, nos mais profusos rincões de nossa geografia. Afinal, apesar da conquista de mudanças, tais como as citadas — inquestionavelmente, vale dizê-lo, por meio da luta de grupos progressistas —, são ainda aterradoras as estatísticas de abuso infantil, considerando-se que cerca de 70% dos casos registrados anualmente ocorrem na residência da vítima e são praticados por familiares; de estupros maritais e feminicídios; de entraves e preconceitos para a adoção homoparental; dentre tantos outros calamitosos acontecimentos que aproximam o tempo histórico de Nelson Rodrigues da perturbadora atualidade em que se vive.

Tanto por sua magistralidade dramatúrgica como por sua essencialidade temática, Álbum de família continua a ser uma peça irrestrita e desagradavelmente contemporânea. Trata-se de uma obra trágica, contundente, por meio da qual dotou-se o teatro brasileiro de um texto amolado para desvelar o abjeto, escancarar o abominoso e firmar-se enquanto mensagem constrangedora, urgente e fundamental. Porque é mesmo bem verdade, como escreveu Friedrich Nietzsche, que a arte existe para que a realidade não nos destrua. Em se tratando desta peça de Nelson Rodrigues, tem-se não apenas um excelente material teatral, como também um excepcional produto político — cujo incômodo e repugnância causados, de sua irrupção em 1945 ao ano em que se escreve este ensaio, confirmam a irrefutável falência dos modos convencionais de projeção, constituição e operação do arranjo institucional familiar.

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Quantas histórias cabem em uma semente?

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No coração das paisagens rurais do Brasil, reside um conhecimento ancestral que transpõe o simples cultivo de plantas alimentares. É algo além da agricultura; é uma relação profunda entre seres humanos e não humanos, um vínculo tecido ao longo de gerações por aqueles que entendem que uma semente é mais do que um grão inerte. São histórias vivas, carregadas de memória, esperança e sobrevivência.

Ao começar nossa jornada de pesquisa e catalogação de sementes nativas pelos biomas do Brasil, ficamos impressionados com a reverência que os agricultores tradicionais têm por suas sementes. Para os guardiões e colecionadores que conhecemos, cada semente tem uma personalidade própria, uma história particular que ilustra os saberes da sua comunidade e que merece ser contada.

Tecnologias ancestrais

O melhor jeito de começar a contar esta história é partir da sabedoria ancestral dos povos tradicionais presentes em todos os lugares em que estivemos, um saber que acompanha, há gerações, comunidades, aldeias e famílias de norte a sul do país. Da Amazônia ao Pampa existe a visão do planeta como um macro-organismo, onde humanos e não humanos coexistem em pé de igualdade, promovendo um ciclo virtuoso de vida através da terra.

A partir da observação e do estudo dos processos naturais das florestas tropicais em que vivem, ou até mesmo por conhecimentos que vêm através de experiências oníricas — como é o caso da combinação entre chacrona (Psychotria viridis) e jagube (Banisteriopsis caapi) para a criação da ayahuasca —, notou-se que povos e comunidades em todo o país têm suas próprias tecnologias ao se relacionarem com a terra, e nessa relação de igualdade percebem-se espécies vegetais que coexistem harmoniosamente, formando consórcios equilibrados. Assim, plantas como banana, mandioca, bacaba, milho, açaí, castanheiras e cacau são cultivadas juntas, replicando a complexidade e a resiliência das florestas naturais.

Essa cosmovisão permitiu o desenvolvimento de biomas ricos em biodiversidade, como a Amazônia, bioma moldado pela intervenção humana ao longo de milênios. A terra preta indigena — solo fértil criado por práticas agrícolas ancestrais — demonstra como os povos tradicionais desse território transformaram não só as terras pobres em ambientes férteis e abundantes, mas também trouxeram uma interessante relação com a vida presente em cada semente plantada.

 

A história de um povo está nas espécies que ele cultiva

Numa visita a um assentamento do Movimento Sem Terra (MST), um dos agricultores nos ofereceu alguns exemplares do gergelim da sua coleção, conhecido cientificamente como Sesamum indicum. À primeira vista, essas sementes pequenas, uniformes, desbotadas e despretensiosas, não se destacavam dentro dos critérios estéticos e pictóricos estabelecidos para o nosso projeto. No entanto, ao notar as palavras que esse agricultor escolhia para se referir aos seus pequenos gergelins brancos, percebemos que a história por trás dessas sementes revelava algo muito maior.

Ao falar sobre elas, o agricultor o fazia com uma reverência impressionante, manipulando-as com o cuidado e o respeito que se dedica a algo que se ama muito. Ele descrevia simultaneamente etapas do ciclo de crescimento do gergelim, seus gostos e suas preferências climáticas, traços da sua personalidade — quase como se falasse de um familiar. Essa intimidade e reverência no seu discurso nos fez entender que tínhamos que ter um olhar além da estética ou da fotografia: não estávamos ali ouvindo sobre uma simples variante do Sesamum indicum, estávamos conhecendo pessoalmente o Gergelim do Mariano. Nesse momento, percebemos com clareza o propósito do projeto: tão importante quanto capturar a beleza das sementes em detalhes, registrar a história das sementes-familiares, é honrar a importância dessas espécies na vida das pessoas que as cultivaram.

Nesses dois anos de jornada pelo Brasil, encontramos outras espécies que, embora comuns, carregam um peso cultural e ecológico imensurável. A bananeira, Musa paradisiaca, por exemplo, é fundamental na criação de florestas produtivas. Essa espécie se desenvolve num ciclo matrilinear, em que três gerações de bananeiras nascem do mesmo bulbo e coexistem para garantir a produção de frutos saudáveis. Avó, mãe e filha crescem juntas, de modo que a avó, após gerar um cacho de bananas, tem seus frutos coletados e é podada rente ao chão. Sua matéria orgânica é devolvida ao solo, oferecendo nutrientes e umidade para as outras espécies. Depois dessa poda, a sucessão continua, e a próxima bananeira a gerar frutos se torna avó, e a pequena bananeira filha tem espaço e luz para brotar e se desenvolver. Essa estrutura cíclica, que lembra a organização de uma família, é crucial para o sucesso das espécies cultivadas nas agroflorestas, nas quais cada planta desempenha um papel essencial na manutenção do equilíbrio do ciclo ecológico.

Outro exemplo é a mandioca, com variação popular “mãedioca”, uma planta robusta e resistente, capaz de romper solos compactados e criar condições favoráveis para o crescimento de outras espécies vegetais mais sensíveis. A mandioca é a verdadeira mãe da terra. Valente, quando plantada junto de outros vegetais, ela oferece sombra e nutrição às delicadas espécies frutíferas que levarão anos para atingir a maturidade. Além disso, ela é a base alimentar de várias comunidades ao redor mundo e um símbolo de resiliência dos povos do Sul Global.

Essa relação de respeito e reciprocidade com a terra também é evidente no cultivo tradicional em conjunto do milho, do feijão e da abóbora — essa é a cultura MILPA ou a cultura das “três irmãs”, uma tecnologia presente no saber de plantio de todas as Américas. Quando plantadas juntas, essas espécies criam um ecossistema de suporte mútuo que garante a fertilidade do solo e a produção sustentável de alimentos. O milho desponta para o céu em busca do sol, fornecendo estrutura para o feijão enramar e encontrar a luz. O feijão garante maior fertilidade do solo, pois aumenta a fixação de nitrogênio. Já a abóbora, de perfil mais rasteiro, protege a terra do sol pleno com suas folhas largas, impedindo a perda de umidade. Nessa dinâmica de mútuo suporte, as irmãs vão de mãos dadas sendo conduzidas até a maturidade, no momento da colheita simultânea. Essas espécies são a base alimentar de comunidades inteiras e constituem um papel fundamental na cultura e na culinária brasileira.

Hoje, em tempos em que o avanço do agronegócio e a devastação ambiental ameaçam toda essa riqueza, genéticas ancestrais presente em famílias há gerações estão sob ameaça de extinção pelo cruzamento acidental com milhos transgênicos que dominam as lavouras de norte a sul do país.

O vento, além de carregar consigo pesticidas aterrorizantes, semeia os poros das sementes GMO que fecundam as delicadas espécies crioulas, que, com isso, infelizmente se perderam para sempre. Essa perda das características originais dos milhos ancestrais tem impactos imensuráveis, que vão além da espiga. Quando essas culturas de milho se perdem, as manifestações culturais dos seus povos de origem se perdem junto. O apagamento histórico dos nossos povos originários começa antes de tudo com o esquecimento da sua cultura alimentar.

Dessa maneira, o convívio com esses guardiões de sementes nos ensinou que preservar a biodiversidade da terra vai muito além da simples conservação de espécies. Trata-se de proteger histórias, culturas e modos de vida que estão intrinsecamente ligados a ela. Cada semente que é plantada carrega consigo o legado de uma comunidade, a ancestralidade de um povo e a formação de uma família e nos ensina que a real relação entre os humanos e a natureza deveria estar fundamentada na compreensão do cuidado e na contemplação de tudo o que é vivo.

O Seeds Collective é uma iniciativa de pesquisa e fotografia de sementes ancestrais brasileiras, tendo como objetivo não só fotocatalogar sementes, mas também homenagear povos originários, comunidades quilombolas, assentadas, indígenas, ribeirinhas e caiçaras em todos os biomas do Brasil. Até setembro de 2024, o projeto coletou mais de trezentas espécies de sementes únicas. Ao lado de guardiões de sementes, ele documentou tradições orais sobre cultivo e manejo, propriedades espirituais e medicinais, e histórias especiais associadas a cada uma delas. Essa pesquisa está compilada no livro-catálogo Seeds and Tales, publicado este ano pelo coletivo.

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Água de barrela: mais cedo ou mais tarde a justiça se fará

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“No fundo, ela achava que o que se queria mesmo
era que tudo fosse mergulhado nessa água que branqueia:
as roupas, as vidas, as pessoas…
Todos mergulhados na água de barrela.”

Água de barrela, de Eliana Alves Cruz, é uma obra que transcende a forma de uma narrativa tradicional, mergulhando nas profundezas da história e da memória para revelar as experiências de vidas negras através de gerações. O livro é uma saga familiar que conecta passado e presente, explorando as consequências da escravidão e as formas como os descendentes de africanos escravizados lutam para preservar sua identidade em meio à opressão e à diáspora.

A narrativa começa com a celebração do aniversário de uma das personagens, que, após viver um século marcado por inúmeras lutas, perdas, alegrias, tristezas e, acima de tudo, resiliência, chega a este marco dos 100 anos. Damiana, figura central da história, exausta das batalhas incessantes e contínuas que enfrentou em busca de liberdade, encontra-se cercada por sua família e relembra os tempos em que trabalhava como lavadeira.

O título, Água de barrela, remete à prática ancestral de lavar roupas com uma mistura de água e cinzas, uma metáfora poderosa para o processo de limpeza e purificação das memórias que a obra realiza. O uso deste termo, carregado de significados históricos e culturais, estabelece desde o início o tom do livro: uma busca por lavar as manchas do passado, ao mesmo tempo em que se preserva a memória viva dos que vieram antes de nós.

“A esposa de Gowon, Ewà Oluwa, ao contrário, caiu num choro estridente e num desespero contagiante. Foi imediatamente esbofeteada. Ewà Oluwa honrava o nome que tinha, que significava “beleza de Deus”. Ela e Gowon tinham se casado há pouco mais de dois meses numa festa alegre, cheia de vida e com muitas danças e promessas. Ela era de Ketu e a união foi parte de um arranjo feito por seu pai com a família dela, em suas andanças comerciais. Decidiram juntar a família e as forças trocando armamentos, víveres e artefatos para resistir aos constantes conflitos e períodos de escassez.”

As inúmeras mulheres negras retratadas no romance Água de barrela, de Eliana Alves Cruz — obra que conquistou o Prêmio Literário Oliveira Silveira da Fundação Palmares em 2015 —, encontraram nos trabalhos de lavar, passar, enxaguar e quarar as roupas de patroas e sinhás brancas uma forma de sustento ao longo de quase trezentos anos de história, desde o período colonial do Brasil até o início do século XX.

Os primeiros a chegar são Akin Shangokunle, que mais tarde é batizado como Firmino, e sua cunhada Ewà Oluwa, grávida de seu irmão Gowon. Eles vêm da região do reino de Oió e sobrevivem aos horrores da travessia no navio negreiro. Ao chegarem ao Brasil, são comprados pela família Tosta, cujos destinos se entrelaçariam profundamente com os de Akin e Ewà. Apesar dos imensos sofrimentos, Ewà consegue dar à luz uma menina chamada Anolina, que daria continuidade à história, à memória e às lutas dos que vieram da África.

Eliana Alves Cruz demonstra uma habilidade singular em tecer as histórias de seus personagens com um profundo respeito pela tradição oral, uma característica central da literatura negra. A narrativa é conduzida por vozes que ressoam através do tempo, combinando histórias de diferentes membros da família, desde a captura de africanos na costa de Angola até a vida no Brasil contemporâneo. O livro explora não apenas o trauma da escravidão, mas também a resistência, a resiliência e a força que sustentaram gerações de mulheres e homens negros.

A autora utiliza uma estrutura narrativa que alterna entre diferentes períodos históricos e pontos de vista, o que confere à obra uma complexidade e uma profundidade raras. Através dessa técnica, consegue capturar a continuidade e a ruptura nas experiências de seus personagens, mostrando como as cicatrizes da escravidão continuam a influenciar as vidas de seus descendentes. Este movimento temporal não é apenas uma escolha estilística, mas uma forma de resistir à linearidade da história colonial, que muitas vezes tenta silenciar ou simplificar as experiências negras. Cada figura carrega consigo as marcas de sua história pessoal e coletiva, o que é evidenciado pela maneira como a autora explora as dinâmicas familiares, os relacionamentos interpessoais e as interações com o mundo exterior. A partir dessas interações, Cruz expõe as nuances das identidades negras, abordando temas como pertencimento, alienação, resistência cultural e espiritualidade.

Um dos aspectos mais notáveis do livro é a forma como retrata a espiritualidade negra. A religiosidade não é apresentada apenas como um consolo diante do sofrimento, mas como uma força ativa de resistência e afirmação identitária. O sincretismo religioso, presente nas práticas espirituais de muitos personagens, é uma resposta direta à opressão colonial, e Cruz trata esse tema com um respeito e uma sensibilidade que são raros na literatura brasileira. A espiritualidade é apresentada como uma fonte de poder, uma ligação direta com os ancestrais e um meio de preservar e transmitir a cultura negra.

A partir de uma linguagem lírica e evocativa, que captura a beleza e a dor das experiências descritas, a obra faz uso de metáforas e simbolismos com maestria, criando imagens poderosas que permanecem em nós muito tempo após a leitura. A prosa poética da autora não apenas narra a história, mas também a vivifica.

Além disso, a obra também nos convida à reflexão crítica sobre o legado da escravidão no Brasil contemporâneo. A autora não permite que o leitor se distancie da realidade apresentada; ao contrário, ela o confronta com as continuidades da opressão racial, que se manifestam de formas sutis e explícitas. Encontramos, então, uma denúncia da persistência do racismo estrutural e um chamado à ação para a transformação social. Além disso, o livro também caminha no sentido de uma possível reparação histórica. Ao evocar a voz de figuras históricas que foram silenciadas pela história oficial, Eliana Alves Cruz reescreve a narrativa do passado, colocando os negros como protagonistas de sua própria história. Esse gesto de reescrita histórica é um ato de resistência, uma forma de reivindicar a humanidade e a dignidade de um povo que foi brutalmente desumanizado.

“— Pois eu vou lavar as privadas desses brancos, vou lavar louça, roupa, passar, engomar… Mas ninguém depois de mim vai fazer isso outra vez na minha família, está ouvindo bem? Ninguém!”

A interseccionalidade é outro aspecto crucial da obra. Cruz explora como as diferentes formas de opressão — racial, de gênero, de classe — se entrelaçam na vida de seus personagens. As mulheres negras, em particular, ocupam um lugar central na narrativa, sendo retratadas não apenas como vítimas, mas como agentes de mudança, que desafiam as estruturas de poder e lutam por sua autonomia. A autora aborda com sensibilidade as questões de gênero, mostrando como as mulheres negras enfrentam a dupla opressão do racismo e do sexismo, e como elas constroem redes de solidariedade e resistência.

Ao longo de gerações de mulheres que foram lavadeiras, empregadas domésticas, amas de leite e vendedoras de comidas típicas como doces e pamonhas, essas personagens negras mostram que, desde o período da escravidão até os dias atuais, elas desempenharam um papel crucial como força de trabalho. Muito antes de as mulheres brancas lutarem pelo direito de trabalhar fora de casa, as mulheres negras, anteriormente escravizadas e depois libertas, já contribuíam economicamente para manter o status quo dos senhores brancos e, mais tarde, para garantir o sustento de suas próprias famílias. Através da criação de redes de solidariedade, movidas por um sentimento de irmandade, essas mulheres negras abriram caminho para um futuro mais digno, livre e menos explorado para seus descendentes.

Além de destacar o papel crucial desempenhado pelas mulheres negras, o romance também questiona a celebração da liberdade proclamada pela Princesa Isabel. Como observa Damiana, o que a sociedade brasileira buscava, e ainda parece buscar, é o completo esquecimento do passado negro e escravocrata, além do genocídio da população negra e a destruição das tradições e culturas africanas.

Ao se olhar no espelho, depois de tantas gerações marcadas pelo racismo, sexismo, segregação e opressão, Damiana reflete se realmente há algo a ser celebrado. Ela questiona se o tão exaltado 13 de maio trouxe algum impacto real na vida dessas pessoas que continuam aprisionadas. Para as personagens do romance, desde Firmino e Helena até Damiana e suas filhas, netos e bisnetos, o legado da escravidão ainda é uma realidade, presente na falta de oportunidades, na miséria e na humilhação. Enquanto o passado parece estar sempre presente para as personagens negras, as personagens brancas se agarram ferozmente ao poder que mantiveram durante séculos, sustentadas pelo trabalho de negros e negras.

“A terra, o trabalho, as pessoas tudo pode ser igual, Martinha, mas os lugares de cada um, ah, esses é que nunca mais serão os mesmos!”

No campo acadêmico, “Água de barrela” pode ser visto como uma contribuição importante para os estudos de literatura negra, estudos de gênero e história social. A obra dialoga com a tradição literária afro-brasileira, ao mesmo tempo em que introduz novas perspectivas e questionamentos. A forma como a autora lida com memória, história e identidade oferece material rico para análise crítica, especialmente no que diz respeito às representações da negritude e à desconstrução das narrativas coloniais. Através de sua narrativa, somos desafiados a confrontar as verdades incômodas da história brasileira e a reconhecer as vozes que foram silenciadas por tanto tempo. O livro é leitura essencial para aqueles que desejam compreender a profundidade e a complexidade da experiência negra no Brasil.

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Meus tios se beijam no rosto e sempre achei isso a coisa mais linda do mundo. Sou fruto de uma família completamente negra, em que, por parte de pai, tenho quatro tios: Alberto Carlos, Carlos Alberto, José Carlos e Carlos José. Além de minhas tias Célia Regina e Regina Célia. Para além da comicidade dos nomes invertidos, algo sempre me chamou atenção em meus tios: o hábito de se beijarem no rosto e demonstrarem carinho entre si fisicamente em público.

Ora, numa sociedade machista, assistir cinco homens — contando com meu pai — expressarem seu amor de forma pública é algo não tão comum. Ouvimos muito que “homem não chora”, que “homem de verdade” não dá beijo, apenas aperta a mão, entre outros jargões carregados de preconceito. Porém, mesmo sem me desgarrar completamente da possibilidade de reproduzir machismo em algumas esferas, observei que, para meus tios, havia uma outra forma de se relacionar e de construir afeto dentro de uma família negra.

Esta construção afetiva desafia paradigmas impostos e dialoga com processos de afeto, proposições relacionais e irmandade — sanguínea ou não — que permeiam a história de famílias negras no Brasil.

Considerada o primeiro grupo de socialização, a família é profundamente influenciada pela dimensão política e também é vista como um espaço para o exercício da cidadania. É dentro dela que se inicia a compreensão dos direitos e deveres, o que envolve o desenvolvimento de práticas como a tolerância, a divisão de responsabilidades, a busca coletiva por estratégias de sobrevivência, a construção de laços de solidariedade e a assimilação de valores culturais, entre outros.

Aqui, a família é entendida a partir da perspectiva da historiografia moderna, ou seja, como uma instituição social fundamental, que evolui tanto no tempo quanto no espaço. Dessa forma, rejeita-se a ideia de um único modelo de organização familiar. Mesmo que as duas famílias aqui consideradas sejam compostas por pai, mãe e filhos, essa estrutura não foi o resultado de uma escolha deliberada.

A trajetória de socialização de uma pessoa abrange os diversos contextos nos quais ela está inserida: família, escola, grupos de iguais, vizinhança e a sociedade em geral. A história sociocultural brasileira influenciou os modos de vida e a formação das famílias negras, gerando muitas descontinuidades, como sobrecarga, perdas, mortes e traumas. Nos últimos tempos, tem ocorrido um resgate historiográfico que examina a evolução da família negra, desde o período da escravidão até os dias atuais, com o objetivo de, por meio dessa perspectiva histórica, entender as consonâncias e continuidades desse grupo.

No entanto, como ocorre com várias categorias sociais, há um processo de hegemonização do conceito de família. Quando nos referimos a essa instituição de maneira geral, tomamos como modelo a família nuclear euro-americana, que é privilegiada em detrimento de outras formas de organização familiar. Assim, pensaremos o conceito de família desde outras perspectivas, em especial aquelas que emergem do continente africano e atravessam as práticas culturais e sociais de povos negros.

A herança africana, sem dúvida, foi uma parte integral da experiência vivida pelos cativos em sua condição de escravizados. Transportados de suas terras de origem e compartilhando o mesmo navio negreiro que os levava ao novo destino, começavam ali — ou até mesmo antes — a se formar os traços culturais que uniriam grupos previamente “dispersos” e estabeleceriam as bases das comunidades africana e afro-brasileira.

Seja mantendo seus costumes culturais ou recriando em solo brasileiro os elementos que lhes permitiam se identificar como africanos, não há dúvidas de que a vivência dos cativos africanos, junto com seu legado cultural, exerceu uma profunda influência nas comunidades escravas. Isso se manifestou tanto nas áreas rurais quanto urbanas, no nordeste e no sudeste do Brasil. Os traços da herança africana, constantemente revitalizados pelo tráfico de escravos, estavam presentes diariamente entre os cativos. Essa influência se expressava por meio do casamento, das práticas de nomeação e apadrinhamento de seus filhos, na religiosidade, nas resistências contra a opressão dos senhores e em muitas outras ações que buscavam conquistar algum grau de autonomia, mesmo que limitado, dentro do sistema escravista.

As “raízes” africanas não eram definidas por um lugar geográfico específico, mas sim pelos laços de parentesco, pelos ancestrais e por uma memória genealógica compartilhada, pois “os africanos carregam seus ancestrais consigo quando mudam de lugar, independentemente de onde eles estejam enterrados”.

A “família escrava” — para usar um termo de época — teve um papel fundamental na vida cotidiana dos cativos, oferecendo-lhes a chance de preservar e redefinir suas raízes africanas. A família também serviu como uma instituição poderosa que lhes proporcionava ganhos sociais, econômicos e políticos, além de criar espaços de sociabilidade e solidariedade. Aqui, referimo-nos a famílias escravas que iam além dos “núcleos primários”; ou seja, famílias intergeracionais e ampliadas, fundamentadas tanto no parentesco consanguíneo quanto nos laços rituais, estendendo-se muito além dos limites de qualquer unidade familiar ou laços de sangue. Essas famílias podiam atravessar os limites legais da escravidão, envolvendo relações entre cativos e pessoas livres ou libertas.

A historiografia recente tem feito progressos notáveis na discussão sobre as vivências dos africanos e seus descendentes nas Américas. Desde os anos 1970 e 1980, as pesquisas sobre a família negra durante o período da escravidão, especialmente no sudeste escravista, têm atraído a atenção dos estudiosos.

Entre os diversos mecanismos, o casamento se destacava como um capital social que ajudava na integração ao novo ambiente. Esse ato proporcionava um senso de pertencimento, especialmente quando realizado segundo os ritos católicos, pois criava laços na sociedade.

A Igreja Católica não apenas dominava a vida religiosa, mas também estabelecia normas sociais e morais de conduta. A rotina das pessoas era pautada por eventos religiosos, como procissões, missas e vigílias, e celebrações da vida, como batismos e casamentos, assim como da morte, através dos rituais fúnebres. Ao menos uma vez na vida, todos recorriam à Igreja para participar de um dos sacramentos: batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordenação e matrimônio. Os párocos eram responsáveis por realizar e registrar esses rituais em livros específicos, que eram mantidos nas igrejas. Devido ao padroado régio, os documentos gerados pelos sacerdotes possuíam tanto valor religioso quanto civil.

Os sacramentos, considerados na época como o caminho para a salvação da alma, também funcionavam como uma forma de reconhecimento social. Para os negros livres, que eram frequentemente percebidos como escravos pela sociedade, um registro de batismo, por exemplo, era essencial para comprovar sua condição legal em caso de questionamento. Da mesma forma, a inscrição de um casamento garantia ao cônjuge sobrevivente o direito de herdar e administrar os bens da família. O sacramento do matrimônio criava um vínculo permanente e indissolúvel entre homem e mulher, fundamental para a formação de uma família.

De acordo com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, o casamento tinha três objetivos principais: o primeiro era a procriação, destinada a honrar e servir a Deus; o segundo, a fidelidade mútua que marido e mulher deveriam manter entre si; e o terceiro, a indissolubilidade do vínculo conjugal, simbolizando a união entre Cristo e a Igreja Católica. Além desses propósitos, o casamento também era visto como um “remédio para a concupiscência”, conforme aconselhado por São Paulo àqueles que não conseguiam conter seus desejos.

Contudo, para os africanos libertos, o casamento assumia outras dimensões. Conforme apontado por Maria Inês C. de Oliveira, a união conjugal significava um acordo de apoio mútuo, visando à melhoria das condições de vida de ambos os parceiros. Tanto homens quanto mulheres eram responsáveis pelo patrimônio e pela manutenção do casal, desde que houvesse trocas de benefícios e garantias. A mulher poderia assumir a gestão da casa e dos afazeres domésticos na ausência de escravos, enquanto o homem desempenhava o papel de provedor, oferecendo à companheira o suporte masculino necessário em uma sociedade patriarcal. Além disso, uma característica notável entre os ex-escravos era a tendência de se unirem a pessoas de condição social semelhante, aumentando as chances de seus descendentes se afastarem do cativeiro. Em suma, para os africanos em liberdade, o casamento tinha propósitos concretos e específicos para sua realidade social.

Distante do ideal burguês de romantismo e das normas impostas pela Igreja, o que realmente importava para esses casais era a camaradagem, a confiança mútua, os projetos comuns, o apoio recíproco e a garantia da legalização da transmissão de bens.

Além das trocas de benefícios materiais, o casamento realizado na Igreja também conferia status. Para os africanos, frequentemente marginalizados socialmente, formalizar a união pelo rito católico era uma maneira de acessar os espaços privilegiados dos nascidos livres.

Os esforços dos libertos para arcar com as taxas elevadas cobradas pela Igreja refletem sua busca por respeitabilidade no mundo dos brancos. Essa busca pode ser evidenciada pela escolha das testemunhas do matrimônio. As testemunhas escolhidas conferiam credibilidade à união, especialmente quando eram pessoas de boas condições financeiras e já casadas, o que aumentava a legitimidade dos noivos. No entanto, em uma sociedade onde a cor da pele determinava o status social, ter pessoas brancas como testemunhas de cerimônias importantes, como o matrimônio, já era um sinal da ascensão social do liberto.

Analisar as relações conjugais e a estrutura familiar entre africanos e crioulos, sejam eles escravizados ou libertos, também exige considerar as estratégias empregadas por eles para conquistar a liberdade.

A família e os laços de parentesco, assim como outras formas de interação social, foram fundamentais no processo de obtenção da alforria. Amantes se libertavam mutuamente; mães juntavam recursos para libertar seus filhos; pais resgatavam seus filhos, fossem eles legítimos ou não; irmãos trabalhavam para assegurar a liberdade uns dos outros; filhos manumitiam seus pais; padrinhos e madrinhas negociavam o valor para libertar seus afilhados. Além disso, companheiros de cativeiro e parentes da mesma origem étnica se apoiavam mutuamente na aquisição de suas cartas de liberdade.

Tornar-se forro e formalizar a criação de uma família foi um aspecto central na vida dos africanos e crioulos. Isso não apenas representava um avanço em direção à autonomia, mas também possibilitava o rompimento com as redes de controle dos senhores, principalmente quando toda a família — filhos e outros parentes ainda escravizados — conseguia a liberdade.

De certa maneira, a alforria era mais acessível para aqueles que estavam legalmente casados, em união estável, ou tinham algum grau de parentesco. Entretanto, embora os laços familiares ou de parentesco facilitassem as negociações para a alforria, isso não eliminava as possíveis divergências e tensões entre os indivíduos, especialmente após conquistarem a liberdade.

Na diáspora, instituições como o parentesco — seja por afinidade (como cunhados, sogros, genros/noras) ou espiritual (padrinhos e afilhados, compadres/comadres) — não apenas permitiram que os africanos reorganizassem suas famílias durante as experiências da escravidão e da liberdade, mas também os transformaram de meros aglomerados de pessoas em membros de comunidades específicas, como irmandades, espaços de trabalho e vizinhanças, onde teceram redes de solidariedade.

As relações de compadrio e apadrinhamento, como já discutimos, iam além dos limites da Igreja. Esses vínculos reforçavam laços familiares existentes, solidificavam relações sociais entre indivíduos de status semelhante e estabeleciam conexões entre pessoas de diferentes grupos sociais. Por essa razão, ao selar tais relações, as pessoas geralmente escolhiam indivíduos da mesma posição social ou de status superior, como observa Stuart Schwartz na obra Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial:

“[…] no ato ritual do batismo e no parentesco religiosamente sancionado do compadrio, que acompanha esse sacramento, temos uma oportunidade de ver a definição mais ampla de parentesco no contexto dessa sociedade católica escravocrata e de testemunhar as estratégias de escravos e senhores dentro das fronteiras culturais determinadas por esse relacionamento espiritual.”

O batismo cristão tornou-se uma instituição poderosa e valorizada por todas as camadas da sociedade brasileira, incluindo os cativos. Esses indivíduos buscavam esse sacramento e, através dele, construíam redes de solidariedade e reciprocidade, que se materializavam por meio do compadrio (parentesco espiritual). Além do significado católico, os laços que os cativos estabeleciam com seus padrinhos iam além do espaço religioso e se manifestavam em toda a sociedade.

Esses vínculos também possuíam uma dimensão social fora da estrutura da Igreja. Podiam ser usados para fortalecer laços familiares já existentes, solidificar relações com pessoas de status social semelhante ou criar conexões entre indivíduos de diferentes classes sociais. Iniciado na Igreja e estendido ao convívio social, “o compadrio representava, acima de tudo, a formação de uma aliança que unia, à beira da pia batismal, os pais de uma criança e seus padrinhos”.

Pais frequentemente selecionavam como padrinhos e madrinhas de seus filhos pessoas respeitadas na comunidade ou em outros círculos da cidade, uma vez que essas alianças familiares criavam redes sociais valiosas para todos os envolvidos, onde se cultivavam relações de clientelismo, que incluíam concessões de favores de cima para baixo, bem como promessas recíprocas de serviços, obediência, deferência e lealdade.

O livro A Cor do Amor, da socióloga americana Elizabeth Hordge-Freeman, explora caminhos que nos ajudam a refletir sobre famílias negras em contexto moderno e/ou contemporâneo, uma vez que a autora examina a dimensão emocional das relações raciais, com foco em como o processo de racialização se manifesta através da linguagem e das interações familiares. Ao contrário do mito de que o amor supera tudo, Hordge-Freeman argumenta que o afeto pode ser distribuído de forma desigual, dependendo das características raciais dos indivíduos.

A partir dessa premissa, o livro destaca que as análises dos processos de socialização racial não podem ignorar as dinâmicas afetivas, especialmente no contexto familiar. Como a autora afirma, “o lar é onde o sofrimento está”, mas também é um espaço onde a dominação racial pode ser desafiada e desfeita. Sem recorrer a simplificações, a obra explora as formas criativas e contraditórias pelas quais as famílias afro-brasileiras negociam as hierarquias raciais e se envolvem nos processos de socialização racial: seja resistindo a elas, seja reproduzindo ideologias raciais ou seja, em alguns casos, fazendo ambos simultaneamente.

Ao refletir sobre o papel das mulheres nas famílias negras, a autora observa que um dos efeitos mais nocivos das hierarquias raciais e de gênero é que o trabalho emocional realizado pelas mulheres inclui tanto a vigilância de seus próprios corpos quanto a responsabilidade de transmitir as normas e rituais raciais. Essas práticas são consideradas necessárias para que os membros da família aprendam a lidar com as opressões racistas. A autora, assim, sublinha que:

“Elas [as mães] se encontram dilaceradas pelas barganhas raciais generificadas que devem atacar enquanto lutam para preparar seus filhos para um mundo exterior que os trata como sub-humanos, enquanto também tentam preservar e até mesmo apreciar a humanidade deles. No centro desse trabalho está a evidência de que as trocas afetivas, a linguagem e as práticas concretas de socialização racial devem ser contextualizadas como respostas a uma sociedade absurda e perversa na qual simplesmente existir enquanto negro é considerado ofensa.”

Ainda numa perspectiva interseccional entre raça e gênero, alguns autores apontam que a fragmentação da família africana foi uma das consequências da escravidão. A participação da mulher negra no ciclo reprodutivo da família branca dificultou, para os escravos, a formação de um espaço próprio para a reprodução. Dessa forma, as relações entre os escravizados eram instáveis e temporárias, muitas vezes acontecendo sem o consentimento dos próprios envolvidos. Os interesses dos senhores prevaleciam, já que eles estavam mais focados em garantir a reprodução de sua força de trabalho. A legislação escravista priorizava a unidade “mãe-filhos”, preocupando-se mais com a separação dos filhos da mãe do que do pai, além de desconsiderar a separação entre os cônjuges. Esta fragmentação deixa consequências até os dias de hoje, sem impedir que famílias negras se reorganizem e reinventem diante das opressões de raça e de gênero.

Em Socialização e relações raciais, Irene Maria Barbosa investigou a socialização em famílias negras na cidade de Campinas e observou que os pais fornecem aos filhos “elementos ambíguos no processo de socialização”. Em outras palavras, não há uma orientação clara por parte dos pais sobre como enfrentar as questões raciais, e, ao mesmo tempo, as situações de racismo que os filhos enfrentam os levam a questionar a educação que receberam.

Para a autora, no processo de socialização, é essencial reconhecer que “todos os indivíduos que participam da vida social são influenciados, em maior ou menor grau, pelas forças socializadoras, o que os torna mais ou menos alinhados aos padrões da sociedade em que vivem”. Barbosa ressalta esse ponto para destacar que a socialização é uma das funções mais importantes da família em geral, e da família negra em particular.

A partir desta breve reflexão sobre a socialização e a construção de afeto nas famílias negras no Brasil, podemos perceber como essas dinâmicas desafiam os modelos hegemônicos de família e revelam a complexidade das relações dentro do contexto racial e histórico. As experiências vividas por essas famílias, como a dos meus tios que expressam seu afeto publicamente, ilustram a resistência às normatividades impostas por uma sociedade racista e machista. Mesmo com as marcas deixadas pela escravidão — como a fragmentação das famílias africanas —, os laços de solidariedade, carinho e resistência continuam a se reinventar, formando um contraponto poderoso às forças que tentam suprimir as identidades e tradições negras. Dessa forma, as famílias negras no Brasil não apenas sobrevivem às opressões, mas também criam novos espaços de afeto, cidadania e identidade, que continuam a influenciar profundamente a sociedade como um todo.

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Um paradoxo contemporâneo: há grupos políticos que pregam a diminuição do Estado, mas almejam que ele atue em defesa da família. Como é possível reduzir o tamanho do Estado e, ao mesmo tempo, ampliar sua atuação sobre esse âmbito tão íntimo e pessoal? Querem o Estado mínimo ou o Estado máximo, que define e controla o que é a família?

Presente no mundo inteiro, a paradoxal pretensão é uma disputa pelo conceito de família — e também pelo conceito de Estado. É papel do Estado democrático de direito definir um conceito específico de família? É seu papel promover determinada configuração familiar?

Muitas são as questões envolvidas. Para compreendê-las, talvez seja oportuno dar um passo atrás, refletindo antes sobre a trajetória histórica do Estado. Em outras épocas, o poder público assumiu o papel de definir o bem e a virtude. Era assim que funcionava o Estado confessional. Com o advento do pluralismo — no Ocidente, o marco histórico dessa mudança é a Reforma protestante —, o Estado viu-se obrigado a reduzir, para evitar guerra civil, seus objetivos. Em vez de um específico ethos de bem e de virtude — já não compartilhado por todos os cidadãos —, o Estado passou a ter como missão “apenas” promover um ethos de paz e de liberdade. Nascia o Estado laico. Nesse regime, por definição isento, cada um é livre para construir sua vida e buscar a felicidade do seu jeito, segundo a sua visão de mundo e as suas opções vitais.

Não cabe, assim, ao Estado impor uma compreensão específica da vida e do mundo, seja ela religiosa, ateia ou agnóstica, conservadora ou progressista, espiritualista ou materialista. O Estado deve ser instrumento para promover um espaço de liberdade e de pluralismo, não para impor determinados valores.

O Estado contemporâneo, também chamado de Estado democrático de direito, é, portanto, incompatível com a promoção de um modelo específico de família, por mais largos que sejam os limites desse conceito. Tal impedimento tem uma razão muito firme: não é papel do Estado guiar as pessoas para um determinado caminho a ser trilhado na vida; não é papel do Estado dar forma à sociedade.

 

Por que tanto se fala em família na política atual?

Estando a política atual tão disfuncional, falar em família é um modo de obter atenção, de despertar medo, de gerar engajamento. A tática é também paradoxal. Acusa-se a posição política oposta exatamente daquilo que se pretende fazer: usar o aparato estatal para estabelecer específicas compreensões de mundo — no caso, de família — a todos. Frente a tal fenômeno, o Judiciário deve estar atento para proteger a Constituição, evitando que maiorias políticas abusem do Estado para impor sua visão de mundo. O regime democrático tem meios para não ser refém de ondas autoritárias.

A questão, no entanto, não se esgota na frente jurídica. O fenômeno social e político não desaparece com uma decisão do Judiciário, por melhor que ela seja. Nesse sentido, mais do que desqualificar quem se vê despertado pela bandeira política que instrumentaliza a família, é preciso compreender o fenômeno. De outra forma, a atuação democrática será sempre mera reação defensiva, presa às coordenadas de quem não compreende e não respeita a liberdade própria da democracia.

Para o bem ou para o mal, a família é decisiva na vida de cada pessoa. Mexe com várias camadas da existência de cada um. Talvez possa ser catártico apontar o dedo para a família tradicional, acusando-a de ser mecanismo de reprodução do patriarcado, do capitalismo, do colonialismo, mas as palavras, por mais fortes que sejam, são insuficientes para desconstruir a relevância da família na vida social.

Ao longo de todo o espectro político-ideológico, observa-se um mesmo equívoco: tratar a família como mera regulação jurídica do casamento. Seja enquanto presença, seja enquanto ausência, ela interfere em toda a nossa vida. Em ambos os casos, ela molda o nosso passado, afeta o nosso presente, dialoga diretamente com o nosso futuro. Quando a política fala em família, ativa-se em nós todo um universo interior. Sentimo-nos acolhidos, julgados, atacados, abraçados ou ultrajados. Família é um enorme fator de mobilização, porque ela, queiramos ou não, nos afeta intimamente: nossas memórias, nossas angústias, nossas aspirações, nossas frustrações; nosso lugar de conforto e nosso lugar de temor.

Num cenário em que a política parece desinteressante e distante, falar em família é um eficiente mecanismo de engajamento, de gerar percepção de proximidade e relevância. A dinâmica de mobilização ocorre instantaneamente. Não é preciso grandes explicações. Não são necessários discursos complicados. Ao cutucar a intimidade com vara curta, tem-se a plateia imediatamente mobilizada.

Sempre que se tenta usar o Estado para impor a todos compreensões de mundo não generalizáveis, a presença da família na política é inconstitucional. Mas não só isso. Muitas vezes, ela é manipuladora, ao desviar a atenção do que realmente importa na vida pública, dissimulando, por exemplo, a ausência de propostas. Políticos que nunca manifestaram preocupação com a educação ou com o fortalecimento de laços humanos, num passe de mágica, estão falando em família. É a instrumentalização das convicções alheias para obter votos.

 

Família e política são sempre inconciliáveis?

Alguém talvez possa pensar: o melhor seria a política abandonar toda e qualquer referência à família, tendo como único foco as pessoas. Afinal, são as pessoas que têm direitos, não as famílias. Além disso, num mundo plural e diverso, é cada vez mais difícil estabelecer um conceito comum. Falar em família na política só criaria mais problemas.

Cuidado. O Estado não deve ser cego às realidades sociais, especialmente quando ele precisa dessas realidades sociais para cumprir seu dever de proteger direitos e de promover a autonomia pessoal. Exemplo concreto: não é possível atender bem as crianças e os adolescentes sem compreender as dinâmicas familiares contemporâneas e sem desenvolver políticas públicas adequadas para elas. Não é uma questão ideológica, tampouco de pretender uma uniformização social. É conhecer a realidade social para que o poder público possa atuar com eficácia.

As políticas públicas não se realizam no papel. Realizam-se na vida real. Por isso, mais do que um conceito disputado, a família deve ser uma realidade observada. Não é uma guerra cultural para ver quem consegue impor aos outros sua concepção de família. A tarefa é, antes, procurar entender como são as famílias brasileiras. Só assim o poder público poderá cumprir seu dever constitucional de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Sim. Existem razões públicas para a promoção de políticas públicas em favor da família — enquanto realidade social, não como conceito. Nem tudo é inconstitucionalidade, nem tudo é manipulação. Celebrado como um dos programas sociais de maior eficácia no mundo inteiro, o Bolsa Família é exemplo de política pública que, justamente por reconhecer a família, foi capaz de alcançar quem mais precisava.

Destaco um aspecto. O Estado não é — não deve ser — alheio às relações familiares ou às preocupações dos cidadãos com suas respectivas famílias. Ele não diz: isto é um assunto privado, vire-se sozinho. Ele não deslegitima o cuidado de tantos pais e, especialmente, de tantas mães com o presente e o futuro de seus filhos. Ele não desatende os cidadãos em suas aspirações sobre a família, deixando-os à mercê dos manipuladores populistas.

A questão é o modo como o Estado democrático de direito faz isso e com quais objetivos. O Estado laico não age por razões morais ou religiosas, mas por razões públicas, cuja compreensão não se baseia em determinada percepção de mundo, mas é generalizável a todos os cidadãos. A conclusão é: o Estado tem o dever de ser, ao mesmo tempo, isento e efetivo em suas políticas públicas para a família. Sempre que há omissão, abre-se espaço para bandeiras não democráticas.

Ser efetivo nas políticas públicas para a família requer conhecer a realidade sociológica brasileira, o que inclui reconhecer que o ambiente familiar é também lugar de abuso e violência. Muitos crimes sexuais contra mulheres, crianças e adolescentes são praticados dentro de casa. Uma vez mais, vê-se a distância entre discurso ideológico e efetividade na proteção de direitos. Não basta uma retórica sobre a família, é preciso entender as causas e atuar na prevenção e responsabilização desses crimes.

Família tem tudo a ver com política — e com política democrática. O desafio é que ainda estamos engatinhando na compreensão dessa relação. Sem distinção entre moral e direito — que é, ao mesmo tempo, respeito às convicções pessoais e respeito aos direitos dos outros —, não há espaço de liberdade para que cada pessoa possa escrever sua própria história, seja familiar ou não.

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Na Rocha, ateliê em Perdizes, São Paulo, a matéria se transfigura em formas e texturas inusitadas sob a visão criativa de Fernanda Pompermayer, que usa a cerâmica para expressar uma linguagem em que arte e ciência se entrelaçam. Nesse espaço, a irregularidade é tida como primordial, abrindo caminho para o inesperado que foge à perfeição. Alejandro Jodorowsky já dizia que muita perfeição é um erro e, se estamos acostumados com padrões de beleza cravados em pedra, muitos dos quais prezam pela simetria antiquada e por apresentações indefectíveis, nada como sermos lembrados de que, na verdade (e ainda bem), esse espectro do que é capaz de nos encantar é muito mais amplo.

Enquanto isso, no litoral norte do estado, Anália Moraes cria peças que conectam hábitos e contemplações, esculturas e objetos, abstrações e concretudes. Inspirada pelos sistemas naturais, Anália estuda com atenção os processos da natureza, traduzindo-os em esculturas que remetem a estruturas celulares e transformações biológicas. Suas obras, quase como fósseis de um outro tempo, refletem a contínua regeneração e adaptação da vida, tensionando a ideia de finitude ao mostrar como o fim se transforma em um novo começo. E, como o fim que se amalgama ao início, uma silhueta se mistura ao âmago.

Anália Moraes (esq.) e Fernanda Pompermayer (dir.)

Quando artistas assim se juntam, sendo, ao mesmo tempo, tão parecidas e também tão levadas pelo compasso do próprio diapasão, qual é o resultado?

Fernanda, nascida em Curitiba, traz na bagagem uma larga experiência como fotógrafa de moda e designer gráfica. No entanto, foi na cerâmica que encontrou a liberdade criativa que seu espírito buscava. Como espelhos dos processos geológicos da Terra, suas peças evocam os tremores da erosão e das transformações tectônicas, o que permite que a imperfeição guie seu processo. No seu ateliê, cada criação é fruto de uma abordagem experimental que rejeita a padronização em favor de um fluxo orgânico.

Utilizando a técnica japonesa Nerikomi, Fernanda mistura pigmentos diretamente na argila, criando padrões que combinam o planejamento ao caos, formando uma paz turbulenta. A ênfase na irregularidade dá ao trabalho um aspecto pessoal e quase íntimo, que, com a argila assumindo formas em constante transformação e refletindo a influência dos elementos naturais, é tão revelador quanto instigante. As cores, misturadas de forma instintiva, resultam em tons pastel que nunca se repetem, fazendo de cada peça uma obra irreproduzível.

Anália — que reconhece o valor cultural da cidade grande, mas que prefere o respiro profundo da vida à beira-mar — utiliza cerâmica, vidro e minerais para criar uma espécie de “arqueologia ficcional”, explorando a memória, o tempo e a resistência dos materiais. Seus trabalhos, assim como os de Fernanda, revelam as reações químicas e as imperfeições desses materiais, desafiando o conceito de um processo “natural” e trazendo à tona as transformações inerentes ao processo artístico.

Equilibrando-se entre o utilitário e o artístico, Anália permite que a forma de seus objetos vá além da função, seja a contemplativa ou a prática. Sua mudança recente para um ambiente mais silencioso e natural intensificou sua conexão com a natureza, oferecendo uma nova perspectiva aos seus exercícios criativos. Para um trabalho que já continha muito do mundo natural, fugir do pulsar frenético de uma megalópole foi necessário para estreitar ainda mais a sua relação com o verdadeiro ecossistema da vida.

Da parceria entre as duas artistas, nasce a cadeira Docinho, uma peça-filha que reflete a união de suas abordagens criativas. Concebida com uma base garimpada e deformada, a cadeira incorpora celulose reciclada e cerâmicas inspiradas na técnica do terrazzo, o que destaca a importância da adaptação e inovação na materialidade criada por Fernanda e Anália. A celulose usada na cadeira é proveniente do projeto Flow Sustentável, liderado por Tatiana Araújo, que transforma bitucas de cigarro em celulose reciclada e promove, assim, a circularidade da matéria e a redução do impacto ambiental.

Na Docinho, portanto, há a culminação de duas trajetórias que se conversam e se complementam. Técnicas e ideais juntam forças para abrir valas ainda mais amplas de experimentação e comunhão de tudo aquilo que habita o coração e se manifesta pelas mãos.

Fernanda Pompermayer e Anália Moraes são ótimos exemplos da rica tapeçaria da criação brasileira contemporânea. Juntas, suas obras nos desafiam a reconsiderar o valor da imperfeição e a beleza do inesperado. Ao explorar essas interseções, elas abrem novas perspectivas sobre como a arte pode dialogar com o mundo natural e científico.

A escolha dos materiais e a experimentação com diferentes técnicas influenciam o resultado final das suas peças. Como isso acontece?
Anália Moraes: Exploro as propriedades elementares dos materiais — como a cerâmica, o vidro e os minerais — para criar uma arqueologia ficcional, e as obras são um convite à reflexão sobre o que seria um processo “natural”. Através da experimentação com diferentes materiais e técnicas, busco revelar as reações químicas ocultas e as fragilidades dessas interações. A cerâmica, como material ancestral, também me permite explorar noções de memória, tempo e resistência.

Fernanda Pompermayer: Sempre há uma surpresa no resultado final. Adoro o exercício de misturar e testar os limites do material, explorando o que funciona para o meu trabalho, sem me preocupar se vai “dar certo”, já que esse conceito é relativo. Gosto de trabalhar com bastante argila, de forma gestual, sem me importar se a peça vai quebrar. Se quebrar, aproveito os cacos e crio algo novo. Misturo corantes, faço diversas queimas de esmalte, adiciono vidro, óxidos, uso resina, espuma, taças que quebrei em casa, pedra, miçanga, um pouco de tudo. Essa mistura de técnicas faz com que meu trabalho cresça e se torne único — nunca consigo repetir a mesma peça. Essa experimentação constante é o que impulsiona o trabalho. Abrir o forno é sempre uma emoção, dá um frio na barriga. Ter que me desapegar de ideias e descobrir outras ao longo do processo me fascina todas as vezes.

Já que você mencionou diferentes técnicas, como as suas vivências com escultura, fotografia e design gráfico se refletem no processo de criação das suas cerâmicas?

FP: Minha formação é em design, e desde cedo exploro a colagem como um recurso. Acho fascinante juntar pedaços e texturas diferentes, criando algo totalmente inesperado e novo. Na fotografia, meu trabalho foca muito em cor, forma e objeto. Durante uma residência artística, comecei a fotografar objetos do meu dia a dia e criei a série Esculturas Invisíveis, na qual transformo e exploro composições com coisas do cotidiano. Essa de fotografar e compor com objetos despertou em mim o desejo de migrar do 2D para o 3D. Hoje, vejo muito dessas vontades que tinha quando mais nova se transformando em esculturas, misturando um pouco dessa visão de forma/cor/objeto/colagem. Eu encaro a Rocha como esse projeto experimental onde eu aplico tantas coisas, é uma simbiose de tudo que vi, vejo e sinto.

De que forma vocês equilibram a dualidade entre o utilitário e o puramente artístico em suas criações?
AM: A estética e a funcionalidade são igualmente interessantes para mim, por isso, gosto de navegar entre a escultura e o objeto, buscando esse encontro sem limitar a forma pelo seu fim, seja ele contemplativo ou utilitário. A argila, mesmo com as técnicas mais cuidadosas, carrega a memória de cada toque, de cada imperfeição do processo. As rachaduras que surgem durante a queima não são apenas falhas, mas testemunhas da transformação. Em paralelo, nossos objetos também são testemunhas, eles se desgastam com o tempo, acumulando as marcas dos nossos gestos.

FP: Nunca vi meu trabalho como utilitário. No início, tentei colocar flores e plantas nas peças ao fotografá-las, mas isso me incomodava. Hoje, entendo que as peças se bastam por si só, e não preciso buscar uma função para elas. Foi um processo muito importante deixar de tentar me ajustar à ideia de que tudo precisa ter uma função. Vindo do design, esse pensamento utilitário sempre esteve presente, mas agora deixo o processo fluir no ateliê. Estou cada vez mais focada na minha pesquisa, definindo as séries de trabalho, e entendendo o que se repete e o que realmente faz sentido.

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Especialmente na celeridade do mundo de hoje, qual é o desafio de lidar com a paciência necessária para trabalhar com materiais que demandam tempo?

FM: Olha, é realmente um desafio para mim, sou do tipo que quer mudar todos os móveis da casa às duas da manhã. Adoro começar uma tarefa e terminar ela, é um prazer. Com a cerâmica, tenho que esperar semanas ou até meses para ver tudo 100% pronto. Esse tempo me permite refletir, observar, testar e entender como cada trabalho se encaixa na minha produção. Às vezes, fico trabalhando meses na mesma peça, explorando tudo que posso sem pressa. No começo, eu era muito ansiosa e sofria, mas agora eu aprendi a aproveitar o processo e tomar o meu tempo.

AM: Sou porosa ao que me rodeia. Ver as arquiteturas da natureza todo dia me traz a nitidez necessária para dialogar com o mundo. Me sinto parte de algo maior, o que me permite viver o tempo de uma forma não linear e menos orientada pela lógica de produção constante. Morei 10 anos em São Paulo e, apesar de achar necessário os encontros culturais que [a cidade] fornece, não há silêncio. Me mudar foi uma decisão que impactou a logística do meu trabalho, a rotina e as relações, mas preciso estar fisicamente em contato com os temas que orientam meu trabalho e que reforçam a urgência de nos pensarmos parte da natureza para aprender com ela.

O processo de transformação das bitucas em celulose, aliás, envolve uma colaboração intensa com a comunidade de Ilhabela. Qual é a importância dessa parceria local para você, Anália, tanto em termos artísticos quanto sociais?
AM: Fui motivada pelos múltiplos esforços da Tatiana Araújo, fundadora do Flow Sustentável — que atua na área de compostagem, lixo zero e reciclagem de bitucas —, também moradora do litoral norte e que forneceu o material para usarmos. Transformar as bitucas em celulose reciclada, além de ser uma tecnologia que honra a circularidade da matéria, é um ato político. Ao transformar um material descartado em um objeto de design, celebramos a reutilização criativa através de uma iniciativa que reduz o impacto ambiental.

Como os conceitos de reutilização e transformação guiaram o design e o processo de criação da cadeira Docinho?
AM: Foram conceitos que guiaram todo o processo de criação e estão presentes tanto na base da cadeira, que foi garimpada e deformada, quanto na massa de celulose reciclada e nas cerâmicas que foram usadas com inspiração na técnica do terrazzo, a partir de peças que já não tinham uso e seriam descartadas.

FM: E a transformação foi até mais ampla, pois acredito que esse processo em que eu reutilizo os pedaços que eu tinha no ateliê ganhou força depois de criar a Docinho. Ultimamente, no ateliê, tenho desenvolvido a série Esculturas Pictóricas, onde, na maioria das vezes, utilizo esses fragmentos para criar novas esculturas.

Como vocês veem a relação entre o material reciclado e a cerâmica? Há paralelos na maneira como ambos os materiais são trabalhados?

AM: Com a cerâmica, gosto de pensá-la como um local de movimento. O que é cerâmica? É uma rocha fundida, manipulada, que existe exatamente como rochas formadas a partir da lava dos vulcões. O uso da celulose reciclada é uma solução sustentável, que também representa o poder de transformação dos materiais naturais, e que pode ser manipulado e esculpido, assim como o barro.

Vocês compartilham uma linguagem artística similar. Como essa sinergia se manifestou no desenvolvimento da Docinho? De que maneira essa peça reflete a união das suas duas abordagens criativas, que vêm de diferentes disciplinas, mas se encontram em um ponto comum?

FM: Convidar a Anália para colaborar neste projeto foi essencial. Há muito tempo queríamos trabalhar juntas e, além de amiga, sou fã do trabalho dela. Acho que há uma sinergia muito forte entre nossas pesquisas e estéticas, embora cada uma expresse isso de sua própria forma. O processo de criação da cadeira Docinho começou a partir dos materiais que queríamos explorar mais. A Anália me falou sobre essa massa de celulose reciclada que descobriu no ano passado e compartilhou sua vontade de trabalhar com mobiliário e ampliar a escala do trabalho. Com a argila, temos a limitação do tamanho do forno, o que restringe um pouco a escala das peças. Na época, eu tinha vários pedaços de cerâmica no ateliê e estava pensando no que fazer com eles. Ao juntar essa massa com os pedaços de cerâmica, criamos a Docinho.

AM: Docinho é o encontro da estética, mas também da importância da matéria como ponto de partida para as criações de ambas. É uma peça que convida à reflexão sobre a materialidade em constante transformação e adaptação.

Explorando novas fronteiras no mobiliário, como foi a transição do trabalho em cerâmica para o desenvolvimento de uma peça de mobiliário como a cadeira Docinho?

FM: Não senti muito essa transição. Foi super legal trabalhar com um material que não tem necessidade de ir ao forno, mas no fim foi um grande processo de colagem. O conceito de colagem/assemblagem/upcycling está sempre presente, acho que muito do que eu faço parte da colagem. E com a Docinho não foi diferente. Eu adoro ressignificar as coisas, e essa cadeira estava na minha casa esperando o seu momento. [risos]

AM: Tivemos uma abordagem experimental e aberta para a co-autoria do material no processo, e respeitar o tempo de cada fase foi essencial para atingir uma estrutura firme e durável. Inicialmente, pensamos em resinar a peça final, mas nos apaixonamos e decidimos manter aparente a textura da fibra natural da celulose reciclada, que nos lembrou uma lã, criando um contraste interessante com a cerâmica brilhante e rígida.

Quais são os próximos passos na expansão da expressão artística de vocês?

AM: Atualmente, estou animada com um novo projeto em andamento que aprofunda o diálogo entre natureza e tecnologia e, mesmo sendo fascinada pelo universo da cerâmica, continuo buscando soluções multidisciplinares para ampliar meu trabalho… É muito rico colaborar com um cientista da computação, por exemplo, um campo tão distante dos meus conhecimentos, mas que reforça a ideia de que diálogos diversos são cruciais para permitir novas expressões artísticas, descobertas e avanços.

FM: Para mim, estudar. Nesse momento, estou querendo aprender mais sobre arte, conhecer outros trabalhos, participar de grupos de estudo e, em breve, aplicar para residências artísticas… Acho que é importante. Esse ano tenho produzido um pouco menos e me dedicado mais à pesquisa, e sinto que, com isso, o trabalho mudou bastante. Estou animada para descobrir o que vem por aí!


A cadeira Docinho faz parte do projeto Eterno Design. Saiba mais aqui

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por zênite astra

ela possuía tão pouco, e eles haviam tocado.
— preciosidade, clarice lispector

a rua era sigilo. nas primeiras horas do dia, um mundo que o sol ainda não tinha tocado me era oferecido como um manequim na vitrine. a madrugada era fresca e escura, e o resto de noite cobria as fachadas das casas, onde dormiam famílias felizes. sempre que eu saía cedo, caminhava com a firmeza de um autômato. os movimentos estacados de meus braços e pernas eram uma tentativa de esconder traços mais gentis, que àquela hora da manhã me punham vulnerável.

e assim seguia o meu rumo. antecedia no expediente as funcionárias das creches, mas não os padeiros. acompanhada pela algazarra dos pássaros, atravessava a parte residencial do bairro até que meu caminho alcançasse a grande avenida, onde iria pegar o ônibus.

era a primeira vez que faria faxina para aquela família, então a cliente me pediu que eu fosse cedo. chegando lá, a dona da casa me revistou com olhos de curiosidade e disse:

engraçado, acho que me enganei. tinha entendido que sua mãe mandaria o filho.

àquela altura, já estava me acostumando a inventar uma filha que minha mãe não tinha. que ela não tinha ainda. naquela rápida mentira, fui minha própria irmã. a dona da casa me acompanhou pelos cômodos, indicando o que queria que eu fizesse. de vez em quando, entre as explicações, ela lançava os olhos para mim. talvez quisesse garantir que eu estava entendendo, talvez estivesse tentando decodificar o meu corpo.

a faxina exigia roupas velhas e movimento desimpedido, e eu aproveitava as demandas do serviço para saborear a liberdade. shorts curtos, camisetas folgadas. se poucos meses antes meu torso respirava com dificuldade dentro de um uniforme escolar masculino, agora podia experimentar algo novo. não sabia muito como, mas entendia que precisava me construir.

eu não era mais obrigada a aguentar os meus colegas, que faziam questão de me lembrar diariamente que eu não me encaixava. aos olhos dos algozes do meu tormento diário, eu era afeminado demais para me encaixar propriamente no mundo dos rapazes, mas o acaso de ter nascido menino parecia me condenar a um dia ser homem. eu então me refugiava daquele cotidiano nos livros que lia e me perdia nas fantasias de desejar uma vida diferente para mim.

uma vez, durante o ensino médio, saí para me aventurar numa boate, dessas que nem pedem para ver o documento de identidade. lá conheci uma travesti uns anos mais velha, e a escutei com a atenção que a gata borralheira certamente deu às palavras mágicas da fada madrinha. no tempo de três cigarros, ela me ensinou quais hormônios eu deveria tomar. anticoncepcionais comuns, desses que qualquer mulher compra sem receita. ouvi encantada os relatos distantes de uma vida possível.

agora, nem terminava o segundo ano de uso e o meu corpo já apresentava sinais de mudança. a minha magreza andrógina havia se tornado mais curvilínea, para meu imenso prazer. por isso, quando ia trabalhar na casa de alguém, eu me vestia com o que me permitia o conforto, tanto no movimento quanto na expressão. mesmo que as roupas não fossem propriamente femininas, eu pensava, ao menos deixavam dúvida.

quando a dona da casa terminou de passar aquelas primeiras orientações, mais uma vez senti seu olhar em mim, de cima a baixo. por fim, elogiou meu cabelo. por instinto, para demonstrar que sabia qual era o meu lugar, logo o prendi em um rabo de cavalo. ela repetiu o elogio, como se falasse para si mesma, numa voz que me pareceu genuína. talvez eu tivesse de fato atravessado a fronteira do país mulher sem ser revistada.

naquela época, meu cabelo já chegava no meio das costas. eu vinha cultivando-o desde a adolescência, com aprovação decidida da minha mãe, que defendia a minha escolha frente aos protestos escandalizados de suas irmãs. quando passou dos ombros, ela começou a me ensinar como cuidar dele. por vezes, sentava na minha cama, penteando e trançando os fios, silenciosamente, tecendo para mim uma beleza que me confortasse.

*

habitar deixa vestígios, e minha função era apagar os resquícios da semana e fazer com que o espaço doméstico retornasse a uma espécie de encarnação ideal, como saída de um catálogo de revista.

conforme retornava para fazer faxina naquela casa, sempre aos sábados, ia me habituando a ler os sinais de como tinha sido a semana. era comum encontrar um travesseiro no sofá, com um copo de água vazio ao lado: o marido tinha dormido na sala. ao lado da poltrona da biblioteca, num móvel de apoio, uma taça de vinho com marcas de batom e um livro: a esposa tinha ido dormir tarde.

era comum que a esposa passasse a manhã fora e que o marido fizesse o mesmo durante a tarde. costumavam alternar. eram professores universitários, e aos finais de semana tinham assuntos pessoais para tratar.

ela tinha um porte altivo e me tratava com uma cortesia seca. caminhava pela casa com a certeza de que era dona do império que havia herdado de uma família com muito bom gosto. tapetes, vasos e estantes cheias de livros adornavam os cômodos e acumulavam poeira.

tinha uma poltrona velha e estampada que ficava de canto, na qual a dona da casa sentava, às vezes por uma ou duas horas. ao lado dela, ficava um aparador de madeira escura, e em sua gaveta se guardavam pequenos utensílios. em cima do aparador, um vaso em que toda semana havia flores novas.

sentada naquela poltrona, eu a via pequena. quando pegava materiais de costura, parecia que algo nela murchava. ela tinha me dito que naquela gaveta estavam pertences da mãe, já falecida. entre os materiais, havia uma tesoura de metal adornada. uma relíquia. com ela, cortava tecidos para projetos que não iam adiante. algumas vezes, a vi iniciar e interromper a costura de uma gravata.

o luto — fui entendendo —, ela guardava na mesma gaveta, junto com memórias que compartilhava comigo em migalhas nesses momentos em que se sentava para costurar. ela se abria; eu ouvia em silêncio. a impressão que me passava era de que havia ali uma esperança de que ela pudesse herdar também o esmero com que a mãe costurava cortinas, sarava febres, assava bacalhau nos domingos de páscoa.

eu ouvia mais do que falava, e respondia de maneira rápida, porque temia que algo em minha voz me entregasse. a qualquer momento os rastros que a puberdade de menino havia deixado poderiam me trair, então abrir a boca era um risco calculado. além de tentar enfraquecer a voz, eu era breve e não deixava margem para perguntas. prezava por uma comunicação sem fios soltos. sim, senhora. entendido. é pra já. o medo de levantar a voz era conveniente à minha mulheridade em construção.

com o marido, inicialmente, não quis muito papo. a princípio, eu não dava corda, mas ele era gentil, e eu não estava acostumada a receber atenção. até então, os garotos me tratavam com nojo; as garotas, com indiferença; os adultos à minha volta, com omissão. ele era boa-pinta e aparentava ser mais jovem do que era.

se, nas concretudes da vida doméstica, ele parecia ter dificuldade com a organização — os pratos que empilhava caoticamente no escorredor, a bagunça que negligenciava —, na conversa, ele era especialista. articulava histórias e explicações de forma encantadora. eu sentia que ele via em mim alguém com quem compartilhar. alguém para ensinar. em outra situação, eu poderia ser sua pupila. naquelas conversas, ele se fazia professor, e eu me forjava sua aprendiz. durante a manhã, eu inventava mais pausas no serviço do que era necessário, só para poder falar com ele. ele parecia retribuir o interesse. e se no começo ele fechava as portas do escritório, depois de um tempo passou a deixá-las abertas. se eu parava para descansar, logo ele aparecia como quem não quer nada e me oferecia um cigarro. fumávamos, e ele sorria para mim.

*

a casa era toda impressionante, mas o que mais me chamava a atenção era a cristaleira. na parede acima dela, assim como em sua superfície, ficavam pratos decorados — os da parede, pendurados; os da cristaleira, com pequenos apoios. era cada prato mais bonito que o outro, a maioria com indicação de onde tinha sido adquirido: ouro preto, salvador, recife, lisboa, santiago de compostela, barcelona, marselha, milão, nápoles.

uma vez, enquanto tirava o pó da cristaleira e passava um pano nos pratos, comentei sobre aquela decoração com a dona da casa. já fazia um tempo que trabalhava lá. disse que devia ser incrível ter conhecido tantos lugares. ela pareceu reparar em qual prato eu estava segurando e deu um passo à frente, encostando no móvel.

a itália é linda nesta época do ano, principalmente nápoles. ela fez uma pausa e explicou, como se eu não soubesse: nápoles é uma cidade muito importante da itália.

eu sei, já li uma história que se passava por lá. era o primeiro de uma série de quatro livros.

você conhece elena ferrante?

sentindo que precisava me justificar, respondi: é, quem me emprestou foi uma professora de português que eu tive.

sem muita firmeza, ela indagou se eu gostava de ler. quando respondi que estava estudando, no meu tempo livre, para prestar o vestibular e que gostaria de seguir os passos daquela professora, ela me assegurou, amistosa:

sabe, tem umas universidades que dão um bom desconto na mensalidade se você for bem na prova.

na verdade, quero fazer faculdade pública. não paguei para estudar a minha vida inteira, não é agora que vou começar.

ela passou o indicador por cima da cristaleira, traçando um curto caminho, levantou o dedo e o esfregou contra o polegar. sem olhar para mim, disse: o vestibular de uma universidade pública é bem difícil, sabia?

*

um dia o marido disse que estava tentando parar de fumar. levei um baque com o que deveria ser um simples comentário — fiquei preocupada que as nossas pausas pudessem chegar ao fim. então ele tirou do bolso pastilhas de hortelã. entendi que eram como o vício que ele queria abandonar, mas traduzido para outros mecanismos. me ofereceu.

ele era um desses homens que não deixam a conversa morrer. não parecia capaz de permitir que brotasse, numa conversa, qualquer coisa que não lhe dissesse respeito. aquela fome me fascinava. naquele dia, enquanto chupava as pastilhas, ele me mascava com os olhos.

me convidou para o seu escritório. fui. ele colocou a mão na minha cintura. deixei. quando ele me puxou para perto de si, seu corpo pareceu dobrar de tamanho. seus lábios no meu pescoço, o hálito fresco. sussurros no ouvido, dedos nos cabelos. meu pescoço fresco, seus lábios no meu ouvido, sua mão na minha nuca, meus cabelos roçando seu gesto.

eu sentei na escrivaninha e ele tirou minha camiseta num sussurro ligeiro. levou a boca até meus peitos. meus peitos agora de moça, beijados com voracidade. sua mão em fúria saiu de minha cintura e foi parar onde eu temia. interrompi o movimento. aí não. aí onde se encerrava meu corpo de mulher, não.

nos seus olhos vislumbrei que ele entendia. cedi. desenhou no meu corpo algo que eu não sabia que poderia existir ali e me chupou como se chupa uma mulher.

*

na semana seguinte, cheguei cedo como de costume, como havia feito todas as manhãs de sábado até então. quem abriu a porta foi a esposa. disfarcei minha surpresa e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. a casa parecia toda revirada, e prontamente comecei a arrumação. ela me seguia com os olhos. nenhum sinal do marido.

o que você quer, sua louca? eu me perguntava, sem que palavra alguma ousasse sair da minha boca.

ecoando aquilo que eu pensava, ela quebrou o silêncio: o que você quer?

como assim?

o que você veio fazer na minha casa?

sua voz vacilava.

ué, o que eu venho fazer toda semana.

como ela tinha descoberto?

um sorriso ameaçou surgir no canto de sua boca. ah, então quer dizer que vocês fazem isso toda semana? é rotina, então, sua vagabunda?

você endoidou, é?

dei um passo para trás.

ela deu um passo para frente.

sua puta, eu devia ter imaginado que ia dar nisso.

ela me mostrou uma embalagem de camisinhas vazia.

merda. a senhora não me ofenda. minhas costas toparam com a cristaleira.

você seduziu meu marido, seu traveco desgraçado? ela veio, bufando. seu pervertido. monstro.

encurralada, cuspi: talvez se você fosse capaz de dar o que ele precisa, ele não teria vindo atrás de mim.

ela me deu um tapa forte no rosto. revidei. ela me deu um empurrão, e meu corpo chacoalhou o móvel que estava atrás de mim. um dos pratos decorados caiu e se despedaçou. ao ver os cacos de uma de suas viagens espalhados pelo piso, ela ficou irada.

tentei me afastar, mas como uma jararaca ela saltou na minha direção, agarrando meu pescoço. até que consegui jogar o peso do corpo dela contra o chão. nos derrubamos e caímos, tombando conosco o aparador de madeira escura e tudo o que havia ali. o vaso com flores se espatifou. rolando no chão, ela tentava me agarrar e eu a empurrava para longe.

viciosa, grudou sua garra no meu cabelo. no instante que dura um fôlego oceânico, ela segurou meu rabo de cavalo para cima. durante aquele segundo, não reagi. não vi o momento em que ela pegou a tesoura. com um único golpe decidido, ela avançou as lâminas contra o elo que unia o topo da cabeça e o restante do cabelo, repetindo o gesto de dalila, mulher ambiciosa.

do chão, vi seu corpo levantar. em suas mãos triunfantes, o comprimento do meu cabelo, como a cabeça de uma besta degolada.

eu, a criatura. ela não tinha o que temer, só precisava de um monstro para conseguir viver em paz.

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