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•IGYH•, de Gui Mohallem. Todos os direitos reservados ao autor.
ArteFotografia

Transforma o acolhimento em imagem: entrevista com Gui Mohallem

por Revista Amarello

Você ouviu “Welcome Home” pela primeira vez nesse santuário em 2009 e, anos depois, transformou essa experiência em um dos trabalhos mais importantes da sua trajetória. O que aquela frase significava para você naquele momento e o que ela passou a significar depois de quinze anos de convivência com esse lugar e com as pessoas que o habitam?

Gui Mohallem: Eu me lembro exatamente da primeira pessoa que me disse isso, e confesso que levei alguns anos pra entender e introjetar. Fazer o meu primeiro livro foi parte desse processo. Welcome home é uma frase de acolhimento radical, que se fala pra todo mundo que chega no Santuário pela primeira vez. É uma tecnologia comunitária para a criação de um espaço seguro. Hoje, faço questão de ser a pessoa que diz pra cada pessoa novata, Welcome Home. Você está aqui no seu espaço. Você está em segurança agora. 

Em muitos contextos, a ideia de “lar” está associada à família, à origem ou ao lugar onde nascemos. Para muitas pessoas LGBT+, no entanto, a construção desse lar passa por outros caminhos. O que esse projeto te ensinou sobre as formas que o pertencimento pode assumir?

GM: Muitas LGBTs cresceram sem qualquer pertencimento, seja na escola, seja na prática religiosa, seja no seio da família. Encontrar um espaço de acolhimento radical te dá a dimensão do tamanho do buraco que as LGBT tem que conviver. Ao mesmo tempo, viver isso, mesmo que num ambiente de exceção, muda alguma coisa dentro da gente. Faz imaginar outras formas de existir, de se relacionar, de construir comunidade. E isso acaba ajudando a enfrentar o mundo de fora..

Você acredita que a necessidade de encontrar abrigo, literal e metaforicamente, continua sendo uma experiência central para pessoas LGBT+ ou ela assumiu novas formas ao longo dos últimos anos?

GM: Abrigo ainda é uma questão fundamental para LGBT+. Mesmo com os direitos conquistados e os avanços na última década no Brasil em questões de visibilidade e representatividade, LGBT+ continuam sendo expulsas de suas casa ainda jovens, enfrentam mais desemprego, estão super representadas em populações de alta vulnerabilidade como as pessoas em situação de rua. 

Ao mesmo tempo, hoje também existem novas formas de pertencimento. Quando vemos pessoas como nós ocupando espaços de poder, de criação e de imaginação coletiva, entendemos que não estamos à margem da sociedade. Estamos ajudando a construí-la.

Existe algo que você aprendeu sobre si mesmo ao acompanhar essa comunidade por tanto tempo? Algo que talvez não tivesse descoberto se o projeto tivesse durado apenas alguns meses ou alguns anos?

GM: Cada visita ao Santuário traz lições muito profundas. A gente fala que a montanha te dá sempre o que você precisa, raramente o que você quer. A idéia de entender a relação com o outro como uma relação entre sujeito-sujeito, em oposição a relação sujeito-objeto é uma das mudanças de paradigma mais potentes que eu já vivi. Essa ideia eu já tinha lido no livro Radically Gay, do Harry Hay, um dos fundadores dessa comunidade, antes da minha primeira ida. Mas viver ela no corpo e no gesto leva prática e leva tempo, porque é contra tudo que a gente aprende aqui do lado de fora. 

Quinze anos separam Welcome Home de IGYH. Quando você voltou a fotografar esse universo, sentiu que estava reencontrando algo familiar ou percebeu que estava diante de um lugar completamente diferente daquele que havia conhecido? O que mudou mais nesse intervalo: as pessoas retratadas, o contexto político e social ao redor delas ou a maneira como você olha para elas?

GM: Acho que as três coisas. Entendo que voltar é um verbo impossível, porque a gente se transforma no tempo, então a gente nunca é a mesma pessoa quando vai de novo para um lugar conhecido. Pensa que isso acontece com as outras pessoas e também com o próprio espaço. Então cada ida pro santuário é uma nova ida, uma ida de novo. Nunca uma volta. Quando eu retomei as idas pro Santuário depois de uma longa pausa, encontrei uma comunidade atravessada pelos novos contextos político, do aumento das vulnerabilidades pós-covid e tensões raciais afloradas por George Floyd e agora o genocídio em Gaza. E esses novos contextos afetam diretamente o convívio e a vida material daquela comunidade. Do lado de cá,  eu também não era mais a mesma pessoa que tinha fotografado Welcome Home.

Você frequenta esse santuário há mais de quinze anos. Em algum momento deixou de se sentir um observador para se tornar parte da história que estava registrando? Existe uma responsabilidade diferente quando se fotografa uma comunidade da qual você também compartilha experiências e afetos?

GM: Eu acho que essa é a maior diferença entre o Welcome Home a o •IGYH•. Na abertura do arouche, no dia 6, a gente teve a honra de uma pesosa que me ajudou a montar minha primeira barraca em 2009 e que acompanha as reflexões desse trabalho há quase 20 anos. Ele disse que “em welcome home ele me via como uma criança olhando por uma janela de uma casa, querendo entrar, e que em •IGYH•, eu já estou dentro. 

O trabalho parece lidar muito com a ideia de presença. Não apenas estar em um lugar, mas ser visto, reconhecido e acolhido. Você acredita que existe algo na fotografia capaz de produzir esse reconhecimento?

GM: Absolutamente. Muita gente me fala disso depois de se ver retratada. A fotografia tem essa capacidade de devolver uma imagem de nós mesmas que às vezes o mundo insiste em negar. Tanto em Welcome Home quanto em •IGYH• isso acontece muito. Mesmo antes de qualquer intervenção física, pessoas trans são reconhecidas pelo público da forma como se reconhecem. E existe algo muito bonito nisso. Ser visto como você é.

Pela primeira vez essas imagens ocupam o espaço público brasileiro, e não uma galeria. O que muda quando o trabalho encontra pessoas que não escolheram visitá-lo, mas simplesmente cruzam com ele no caminho de casa ou do trabalho?

GM: Tem um gesto que é dessacralizar o trabalho de arte, trazer ele pro espaço do cotidiano que me interessa demais. Quem se sente do direito de entrar numa galeria? Será que as pessoas que frequentam o Largo do Arouche se sentiriam confortáveis num cubo branco? O único lugar que este trabalho já foi exposto foi no próprio Santuário, ano passado. Levei 24 imagens impressas em tecido, do mesmo tamanho dessas que estão no Arouche, e pendurei entre as árvores da floresta, bem perto de onde a galera circula mais. E foi muito lindo ver como as pessoas reagiam ao trabalho, ao mesmo tempo que mantinham suas atividades normalmente. Do mesmo modo, mesmo estando ocupando a alameda toda, elas convivem com as atividades de quem usa o espaço. Outro dia, a galera tava jogando vôlei embaixo das fotos. Eu pirei. 

O Largo do Arouche também é um território marcado por encontros, afetos, disputas e pertencimentos LGBT+. O que te interessou nessa conversa entre um santuário queer norte-americano e um espaço tão simbólico para a comunidade em São Paulo?

GM: A Arouche é um espaço que eu frequento bastante, meu bar preferido fica ali, o Trabuco. É um espaço histórico de resistência e ocupação LGBT. Um espaço que sofre inúmeras pressões por gentrificação e de expulsão das nossas de lá. Essa exposição é uma oferenda pra esse espaço, imagens de descanso em um ambiente de tanta luta, mas também onde a vida se reafirma a cada pessoa que insiste em ocupar e se expressar como se identifica. Quando imaginava essa exposição aqui, eu só pensava no Arouche. 

Em um momento em que discursos de exclusão e pertencimento voltam a ocupar o centro dos debates públicos em diferentes partes do mundo, o que essa exposição tem a dizer sobre a importância de construir comunidades?

GM: Costumo pensar comunidade menos como pertencimento e mais como infraestrutura. Quem segura sua mão quando você cai? Quem te dá abrigo? Quem celebra sua existência? Quem te ajuda a continuar? Essas imagens falam de pessoas que construíram esse tipo de infraestrutura umas para as outras.

O texto de Marcos Visnadi sugere a existência de um “santuário maior, transcontinental”. Você acredita que existe uma espécie de geografia afetiva queer, formada por lugares que, mesmo distantes entre si, compartilham valores, códigos e formas de acolhimento?

GM: Sim. Acho que existe uma geografia queer que nem sempre aparece nos mapas. Ela é feita de bares, praças, centros comunitários, pistas de dança, casas de amigas, ocupações, esquinas e florestas. Lugares muito diferentes entre si, mas atravessados por formas parecidas de acolhimento, cuidado e reconhecimento. Quando visito os trabalhos do filósofo Dénètem Touam Bona, fico pensando que talvez esses lugares funcionem como os territórios que ele descreve em A Arte da Fuga. Comunidades que não compartilham necessariamente a mesma origem, a mesma classe, ou a mesma história, mas que constroem um “nós” a partir da experiência comum de ter precisado inventar formas de existir apesar do mundo.

O Santuário e o Arouche são exemplos disso. À primeira vista eles não poderiam ser mais diferentes: um está escondido numa floresta do sul dos Estados Unidos e o outro no centro de São Paulo. Mas os dois existem porque pessoas LGBT+ decidiram ocupar um território e transformá-lo em espaço de vida, de cultura, de cuidado e de liberdade.

Talvez seja isso que Marcos chama de um santuário transcontinental. Não uma geografia física, mas uma rede de lugares onde a gente aprende que não está só. Lugares onde, por alguns instantes, é possível respirar mais fundo e baixar a guarda.

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•IGYH•, de Gui Mohallem. Todos os direitos reservados ao autor.
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Em •IGYH•, o artista visual Gui Mohallem retoma uma pesquisa de quinze anos para investigar pertencimento, comunidade e as formas de cuidado que surgem quando as estruturas convencionais falham. Existe uma pergunta que atravessa essa trajetória e não é sobre fotografia, embora a fotografia seja a ferramenta que Gui escolheu para persegui-la, e nem uma pergunta exclusivamente sobre identidade, mesmo que identidade seja um tema recorrente em sua obra. É uma questão mais ampla, talvez mais antiga: como as pessoas constroem pertencimento quando os lugares que deveriam acolhê-las deixam de cumprir essa função?

Ao longo dos anos, essa investigação assumiu diferentes formas. Apareceu em trabalhos sobre migração, memória e deslocamento entre Brasil e Líbano. Surgiu em pesquisas sobre identidade e comunidade. E reaparece agora em •IGYH• (I’m Glad You’re Here), exposição que reúne fotografias produzidas entre 2023 e 2025 em um santuário queer localizado no sul dos Estados Unidos, comunidade que Mohallem frequenta desde 2009 e que já havia servido de base para Welcome Home, livro publicado em 2012.

À primeira vista, •IGYH• pode parecer uma continuação natural daquele projeto, mas algo mudou. Claro, as pessoas retratadas e o contexto ao redor delas passaram por transformações, mas o que se alterou também foi a posição de quem fotografa. Entre Welcome Home e •IGYH• existe um intervalo de quinze anos, tempo suficiente para modificar comunidades e formas de olhar. É convenção dizer que a fotografia captura um instante, mas o novo trabalho de Mohallem parece interessado justamente no contrário, naquilo que só pode ser compreendido através da duração.

As imagens carregam o peso do tempo compartilhado. Não há a sensação de que estamos diante de uma comunidade descoberta recentemente ou observada à distância. É o resultado de uma convivência prolongada, construída ao longo de sucessivos retornos a um mesmo lugar, um retorno que, paradoxalmente, nunca é uma volta. Ninguém, afinal, regressa sendo a mesma pessoa. Nem quem chega, nem quem recebe. E essa percepção atravessa toda a exposição. 

O santuário retratado por Mohallem não é um refúgio idealizado, isolado das tensões do mundo exterior, é uma comunidade atravessada pelas transformações políticas, sociais e culturais das últimas décadas. As mudanças provocadas pela pandemia, os debates raciais intensificados nos Estados Unidos, a crescente polarização política e as novas formas de vulnerabilidade que marcaram os últimos anos também deixaram suas marcas naquele espaço. Ninguém passou incólume e o santuário não foi exceção.

Não há imagens de confronto, slogans e discursos, claro, mas existe uma dimensão política profunda naquilo que Mohallem escolhe mostrar. Em uma época em que grande parte da representação LGBT+ ainda é construída em torno da violência, do conflito ou da necessidade permanente de resistência, as fotografias de •IGYH•observam momentos de convivência, descanso, afeto e presença. Isto é, pessoas cozinhando, caminhando, conversando, compartilhando tempo umas com as outras.

Para grupos historicamente empurrados para as margens da vida social, a possibilidade de existir sem estar constantemente se defendendo nunca foi algo banal. Há uma resistência muito potente que ressoa das imagens de Mohallem porque elas registram situações que costumam passar despercebidas. Não o momento da luta, mas aquilo que a luta tenta proteger. Não a disputa por um lugar no mundo, mas a experiência de finalmente habitá-lo.

A exposição desloca a ideia de pertencimento para longe dos discursos mais comuns. Pertencer não aparece como um sentimento individual ou uma conquista íntima. Pertencer surge como resultado de uma construção coletiva.

Ao longo dos anos, palavras como comunidade e acolhimento foram incorporadas ao vocabulário institucional, publicitário e corporativo. Muitas vezes, foram instrumentalizadas e perderam parte de sua densidade no processo. O trabalho de Mohallem devolve concretude a esses conceitos. Suas imagens parecem perguntar o que acontece quando a comunidade deixa de ser uma abstração e passa a funcionar como uma estrutura real de sustentação da vida.

Quem oferece abrigo quando as instituições falham? Quem segura sua mão quando você cai? Quem ajuda a continuar quando o mundo parece hostil demais?

Em diferentes partes do mundo, discussões sobre pertencimento, exclusão e convivência voltaram a ocupar o centro do debate público. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de isolamento, fragmentação e enfraquecimento dos vínculos coletivos. •IGYH• funciona quase como um exercício de imaginação social, porque mostra exemplos concretos de pessoas construindo formas de cuidado umas para as outras.

Isso fica ainda mais interessante quando a exposição deixa os espaços tradicionais da arte e ocupa o Largo do Arouche. A escolha não parece motivada apenas por uma questão de visibilidade. Existe uma afinidade mais profunda entre as imagens e o território que as recebe. O Arouche ocupa um lugar singular na história LGBT+ de São Paulo. Ao longo das décadas, a praça se tornou espaço de encontro, circulação, desejo e cultura. 

Ao aproximar o santuário norte-americano desse espaço paulistano, Mohallem não propõe uma equivalência. O que surge é uma conversa entre experiências distintas que compartilham questões semelhantes. Em ambos os casos, o que está em jogo não é apenas a ocupação física de um território, mas a construção de formas de convivência capazes de sustentar vidas.

Em um momento histórico marcado pela fragilização dos vínculos coletivos e pela sensação crescente de isolamento, as fotografias de Gui Mohallem lembram que pertencimento nunca é um acontecimento individual. Existe sempre alguém que prepara o espaço, oferece abrigo, compartilha uma história, faz uma pergunta ou abre caminho para a chegada de outra pessoa.

As imagens de •IGYH• são um estudo sobre a delicada arquitetura que permite a alguém sentir-se seguro. Sobre os gestos invisíveis que sustentam uma comunidade. E sobre uma verdade simples que atravessa toda a exposição: todo abrigo é uma construção coletiva.

•IGYH•
Exibição: 6 a 29 de junho de 2026
Local: Largo do Arouche, São Paulo

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Entre os corpos sarados na praia, o futebol e o Carnaval, o Brasil existe na imaginação global em forma de uma fantasia reduzida, traduzida, simplificada. O Brasil que circula no mundo não é um lugar, mas sim uma coleção de imagens.  

Esse é o Brasil-cartão-postal, aquele que provoca sorrisos quando alguém descobre de onde você é. Brasil! Calor, água de coco, caipirinha. Um passo de samba, como se o brasileiro fosse, por definição, alguém que vive em estado permanente de música. É um país de sol constante, de corpos bronzeados, de alegria espontânea. Um lugar em que as pessoas seriam naturalmente abertas, calorosas e sensuais. 

Existe um imaginário tátil sobre o Brasil. É um país em que não se pensa, se dança. Que não se explica, se sente. O samba, a pele, o suor, o biquíni minúsculo, o futebol jogado descalço, a cerveja gelada na mão. O brasileiro como alguém permanentemente disponível para o encontro, para a festa, para o prazer. À primeira vista, parece um elogio. E talvez seja, afinal, essas coisas são, sim, parte do calor humano que nós esbanjamos de forma invejável. Mas é também uma forma de redução. 

Essa sensualidade atribuída ao Brasil não é apenas sobre alegria ou liberdade corporal. Ela carrega uma longa história de exotização, do país tropical como espaço onde as regras seriam mais frouxas, onde os corpos seriam mais acessíveis, onde o desejo estaria sempre à flor da pele. Um lugar menos racional, menos contido, menos “civilizado” e, portanto, mais consumível. 

Esse enquadramento tem gênero, tem cor, tem classe. A mulher brasileira, em particular, atravessa fronteiras já precedida por uma narrativa de beleza natural, disponibilidade afetiva, sexualidade aberta. Essa é uma imagem construída por décadas de turismo, publicidade, telenovela exportada e fantasia colonial. Não é raro que o elogio venha acompanhado de uma expectativa de performance, de comportamento, de proximidade física, que diz menos sobre a pessoa concreta e mais sobre o personagem que o estrangeiro espera encontrar. 

Se o Brasil-cartão-postal é corpo e movimento, o Brasil-manchete é seu oposto. É medo, desprezo e pena. É o Brasil da pobreza, da extrema desigualdade, da violência urbana, da floresta em chamas, da corrupção, das crises políticas e da instabilidade.  

Entre essas duas versões do Brasil, a que seduz e a que assusta, há pouco espaço para o Brasil cotidiano, da realidade. O Brasil que produz, escreve, pesquisa, filma, compõe, pensa cidades, discute clima. O Brasil gigante em indústria, agropecuária e inovação. O Brasil que não cabe nem no samba, nem na sirene. 

Talvez por isso a experiência mais estranha de um brasileiro no exterior seja perceber que seu país é frequentemente infantilizado. Somos o povo da alegria, da improvisação, do “jeitinho”, da emoção que transborda. Qualidades que, vistas de longe, podem soar como uma forma de menoridade permanente, como se fôssemos incapazes de gravidade. Talvez o ponto mais revelador seja este: o mundo precisa que o Brasil seja síntese. Nós fomos formados no excesso. Ser brasileiro fora do Brasil é viver como prova da nossa complexidade. É ampliar e elaborar o cartão-postal e a manchete, explicar que o país do corpo é também um país de pensamento. Que a alegria não exclui a densidade. Que a dança não impede o cálculo. Que o calor humano não é ausência de reflexão, mas sim outra forma de inteligência social. 

Entre o cartão-postal e a manchete, existe um país inteiro, sofisticado, contraditório e profundamente contemporâneo. E talvez a nossa tarefa, quando atravessamos fronteiras, seja justamente essa: devolver complexidade a um lugar que o mundo insiste em imaginar em duas dimensões. 

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Num país em que crescem escolas bilíngues como jardins planejados para florescer no exterior, ensinamos desde cedo as crianças que o futuro mora longe. Bandeiras estrangeiras nas paredes, universidades internacionais como promessa de felicidade, currículos desenhados feito barcos para atravessar oceanos. Sonha-se em outra língua. Planeja-se a vida em outro hemisfério. 

As festas de Halloween crescem ano a ano, e há uma surpreendente onda de brasileiros esquiadores. Nosso tão aguardado verão está competindo com as montanhas de neve. No ano passado, fui convidada para um jantar de Thanksgiving aqui mesmo, no Alto de Pinheiros. Enquanto isso, o Cristo Redentor assiste a esse êxodo de braços abertos sobre o Corcovado, como quem pergunta, em silêncio: para onde vocês estão indo? Desistiram de ser adultos no Brasil? 

Há uma geração que cresce acreditando que será feliz apenas quando partir. Idealiza corredores de universidades distantes, invernos nevados e sotaques diferentes. E quando finalmente chega lá, descobre algo que não estava no script: a sensação de sermos estrangeiros nesse espaço. É entre o fascínio e o desenraizamento que a identidade nacional começa a pulsar com força. Ser brasileiro, então, deixa de ser detalhe, e passamos a nos orgulhar de quem somos. 

Quando morei fora, uma das minhas maiores diversões era esperar o dia da feijoada no consulado brasileiro. Havia algo de solene e, ao mesmo tempo, cômico: adultos formados, falando várias línguas, contando os dias para comer feijão preto no restaurante de uma representação diplomática. No dia marcado, todos apareciam, e formávamos uma longa fila até chegar nossa vez. Ríamos à toa, falávamos alto e sentíamos saudades de casa. E isso nos unia. Era o “ano do Brasil na França”; ouvíamos Lenine, Chico César, Marisa Monte, Caetano, Gil e Chico em nossos iPods. Morríamos de saudade de brigadeiro e de goiabada com queijo, pedíamos aos amigos que trouxessem na mala paçoquinha Amor e sonhávamos com uma caipirinha refrescante no lugar do vinho tinto. No fim das noitadas, claro, cantávamos Evidências. 

Talvez, no Brasil, muitos daqueles rostos jamais se cruzassem, mas, em um país estrangeiro, bastava uma coisa: éramos feitos de samba, suor e cerveja. Muitos daqueles rostos nunca mais vi, mas, naquele momento, éramos uma família. 

No livro Bonequinha de luxo, de Truman Capote, Holly Golightly circula entre figuras excêntricas, personagens improváveis, homens misteriosos. Pessoas que talvez jamais se encontrassem por afinidade profunda, mas que compartilhavam algo invisível e poderoso: a mesma nacionalidade. No meio do cosmopolitismo, é aquilo que une. O país vira ponto de reconhecimento. Moldura comum, identidade e valores compartilhados. 

Vive-se numa fronteira invisível. Admira-se o mundo, aprende-se sua língua, incorpora-se sua lógica. Mas há sempre um pequeno deslocamento. Um nome que denuncia nossa origem. Um sotaque que escapa. Uma memória que não cabe completamente naquela geografia. E então torna-se essencial ter alguém por perto que testemunhe e compartilhe suas saudades de casa. Sempre achei isso fascinante: a velocidade com a qual, fora de nosso país, criamos intimidade. 

Morar fora tem uma dureza que não aparece nas promessas das escolas bilíngues. Existe reconhecimento, admiração pela competência, curiosidade pelo exotismo, elogios ao “calor humano”. Mas há também o limite sutil: você não é daqui. Você é interessante, mas não pertence a este lugar por inteiro. E isso nenhuma escola ensina. 

Somos o sal do mar batendo em Ipanema ao entardecer. O azul impossível de Fernando de Noronha e a imensidão de areias ondulantes dos Lençóis Maranhenses. Somos os igarapés profundos da Amazônia, floresta respirando como um organismo antigo. Cachoeira da Fumaça, Morro do Pai Inácio, pedras de Ouro Preto, cocada e coqueiro. Somos o caminhar na Avenida Paulista aberta em um domingo, a feira de rua com pastel e caldo de cana, o arroz com feijão e couve. Amor, para a gente, é pão de queijo ainda quente, bolo de fubá, pão na chapa, goiabada com queijo, doce de figo com requeijão, biscoito Globo, moqueca, cuca, pirão, tucunaré, aipim frito, tutu de feijão, picolé de groselha do Rochinha. Junho, para nós, é desenhado com bandeirinhas coloridas que anunciam o fim do semestre; e fevereiro é cor, purpurina, confete, serpentina e samba no pé. No Ano-Novo, nos vestimos de branco e colocamos até calcinha nova, como se estivéssemos nos produzindo para um novo amor. 

Brasileiro ouve Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Gomes, Alceu Valença, Gal e Bethânia. Nossa língua é também melodia, e a Bossa Nova chega como brisa. Nossas palavras abrigam poesia em Mario Quintana, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Adélia Prado, Conceição Evaristo. 

É entrar no MASP e se perder na Pinacoteca. Tarsila do Amaral, Volpi, Portinari, Lygia Clark e Beatriz Milhazes são a prova de que também somos vanguarda, ruptura e invenção. No exterior, brasileiros se reconhecem como quem encontra um espelho. Pela memória da mesma infância ensolarada, mesmo que vivida em cidades diferentes. Pela comida. Pela música. Pela piada que só funciona em português. Talvez o maior paradoxo seja este: passamos a vida idealizando o mundo lá fora e, quando finalmente o habitamos, descobrimos que aquilo que nos ancora é justamente o que aprendemos a subestimar. Não precisamos disfarçar as evidências de onde viemos, pois há nelas algo muito rico. 

Aprender outras línguas é ponte. Conhecer outras culturas, expansão. O problema não é partir; é ensinar que só há grandeza fora daqui. Achar que o que somos vale menos, é menos sofisticado. Que geração estamos formando? Uma que cultua deuses estrangeiros ou uma que atravessa fronteiras com os pés firmes na própria identidade? 

Talvez o verdadeiro bilinguismo que nos falte não seja apenas o do inglês impecável, mas o da consciência: a capacidade de olhar para fora sem deixar de olhar para dentro. Porque, no fim, nenhuma universidade estrangeira concede aquilo com que já nascemos: essa mistura de cores, sons, sabores, dores e histórias que chamamos de Brasil. E ser brasileiro, com todas as suas contradições e grandezas, não é limitação; pelo contrário, é um tremendo orgulho. 

Finalizo este texto ouvindo um bloco de carnaval, num domingo de fevereiro, na torcida pelo Oscar de Wagner Moura quando ele tiver sido publicado. Um bom samba é uma forma de oração, e a tristeza tem sempre uma esperança de um dia o país não ser triste, não. 

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Demarcar a luta: a construção da imagem-ação no ativismo indígena

por Daniel Farias (Daathowa Fulni-ô)

No cotidiano do ativismo indígena, convencionou-se o uso da expressão “demarcar telas” como um modo de convocação para a produção imagética, audiovisual e textual em uma perspectiva indígena, articulada pela pluralidade das culturas, assim como pelas experiências partilhadas entre os povos indígenas no Brasil. A expressão, com um sentido mais imediato ligado a essa presença material e simbólica nas variadas telas que marcam nossa experiência cotidiana, adquire uma amplitude de demarcação da luta, ocupação e construção do nosso ambiente tecnocomunicativo contemporâneo. 

Como jornalista, pesquisador e ativista indígena, me interessei por essa expressão desde que iniciei as pesquisas para a minha tese de doutorado, intitulada Fluxos ativistas e territórios, realizada na Universidade Federal da Bahia e defendida em 2025. Esse interesse por aprofundar essa compreensão foi motivado pelas minhas experiências em edições do Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena do Brasil, em que a afirmação “demarcar telas”, conectada ao imperativo “demarcar territórios” como agenda central do movimento indígena, tornou-se cada vez mais frequente entre comunicadores e ativistas que fazem a cobertura do evento, ampliando-se para o cotidiano de produções comunicacionais e artísticas indígenas. 

Em uma discussão transmitida no Canal Brasil, Ailton Krenak sintetizou alguns dos múltiplos sentidos da expressão “demarcar telas”: 

“Quando a gente fala em demarcar tela, é exatamente um diálogo com o audiovisual. A tela é a arte, é o cinema, é o horizonte das artes plásticas no sentido mais amplo. Tem havido uma presença significativa em Bienal, em mostras interessantes, elas já conseguem circular fora do Brasil. Assim como o audiovisual, que tem sido apreciado de maneira curiosa, interessada, pelos festivais e mostras internacionais de cinema. (…) A gente tem realizadores dos povos originários que já estão na estrada nos últimos dez, quinze anos, como representantes de uma narrativa onde o audiovisual ganha novos contornos. Nós não estamos simplesmente replicando o universo do cinema, nós não estamos fazendo uma réplica disso, nós estamos inovando na linguagem”. 

A expressão articula uma percepção coletiva e partilhada na comunicação e no ativismo indígena de que a luta pelo território exige uma disputa cultural, social e política constituída no presente e que coloque em relevo o respeito aos territórios ancestrais e às culturas indígenas. Ao mesmo tempo, isso quer dizer que uma imagem redutora e racista reiterada historicamente no país, que atrela os povos indígenas ao passado e concebe as culturas de maneira fossilizada, deve ser combatida, mostrando que a cultura e a comunicação indígena não são apenas vivas, mas também indissociáveis do território. 

Na área da comunicação, o pesquisador de cinema André Brasil destaca que, na produção audiovisual indígena, frequentemente as formas de vida e de imagem estão entrelaçadas. De maneira mais ampla, ele chama a atenção de que a “(…) relação entre formas de vida e imagem — em suas continuidades e descontinuidades — está no centro da produção contemporânea, seja na mídia ou no cinema”. 

Partindo desse importante reconhecimento, é preciso aprofundar, na discussão sobre a comunicação em perspectiva indígena, a própria concepção de diferença entre vida e imagem, mesmo que entendida de maneira interconectada. Esse movimento reflexivo é necessário, em um primeiro plano, porque a construção da imagem dos povos indígenas pelos europeus configurou e reiterou relações de poder na história brasileira. Em uma segunda dimensão, ela é uma precondição para o movimento fundamental de rearticular a premissa eurocêntrica de separação entre vida e imagem, que é baseada em uma naturalização das culturas colonizadoras. 

A proposta de demarcação das telas, enquanto prática ativista, mobiliza precisamente a dimensão do território indissociável da vida, evidenciando-se como forma cultural e comunicativa, na qual a tela é imagem e, simultaneamente, ação. A relação entre imagem e vida, nesse sentido, não se refere a uma relação de externalidade, cujo referente material de representação estaria restrito ao âmbito material do espaço. O

território, para os povos indígenas, é pertencimento. Não é externo à vida, tampouco se reduz a posse, soberania, recurso, patrimônio material. 

A demarcação da tela é, desse modo, uma forma de “manejo do mundo”, nos termos do antropólogo Gersem Baniwa, inclusive em relação às lógicas instrumentais e deterministas tecnológicas da comunicação como inovação. Conforme explica Baniwa, a ideia de manejo do mundo se contrapõe “à concepção do homem globalizado quando concebe a educação como necessidade instrumental para domínio, exploração, manipulação, subjugação e destruição da natureza, do mundo e da vida”, ressaltando o fato de que “as principais forças representativas e reativas da natureza não sofrem controle e domínio da ciência e tecnologias atuais, a exemplo dos raios, trovões, tempestades, furacões, secas, enchentes etc.”. 

Como forma cultural e comunicativa, demarcar telas materializa uma imagem-ação que afirma que o território e a vida são indissociáveis, mas também a comunicação, central no “manejo do mundo”. Essa leitura confronta e, ao mesmo tempo, possibilita superar perspectivas universalistas que, em uma pretensão de neutralidade explicativa para o domínio, reiteram visões baseadas na separação entre cultura e natureza. 

Essa concepção do território se relaciona à compreensão dos povos indígenas sobre o ideal da própria vida. Para Gersem Baniwa, defender a vida não deve se confundir com “viver mais” ou “viver melhor”, nem em um sentido de acumulação, nem enquanto expectativa individual, pois não deve existir hierarquia no âmbito da vida. Essa maneira de perceber a existência “significa de forma simplificada viver em harmonia com os familiares, os membros da comunidade e com a natureza, o que só é possível com a prática das virtudes de solidariedade, reciprocidade e partilha de tudo o que por mérito se possa alcançar”. 

Demarcar telas estabelece que os termos das articulações de imagens, audiovisuais e textos na constituição do ativismo indígena envolvem dimensões de engajamento e de linguagem que não são aquelas dominantes nas perspectivas utilitaristas, instrumentais

e capitalistas. As formas comunicativas, articuladas pela demarcação das telas, não são externas à vida, mas constituidoras da luta indígena, o que exige rearticular o modo como a comunicação contemporânea ainda é compreendida, a partir de pressupostos etnocêntricos e de universalidade. 

Enquanto imagem-ação, demarcar telas é uma forma cultural, comunicativa e política. Articula desde ações políticas convencionadas às oficinas e aos eventos artísticos, conectando festivais de cinema, protestos de rua, transmissões ao vivo, encontros do movimento indígena e discussões públicas, além de postagens, compartilhamentos, comentários, cards e diversos outros formatos que permeiam os usos de plataformas de redes sociais. Permite evidenciar que a comunicação e o território estão, de maneira constitutiva, conectados, nas perspectivas indígenas, o que exige repensar os sentidos de ambos, geralmente apartados. Demarcar território, agenda central do movimento indígena desde a sua formação, atualmente implica demarcar telas, pois é necessário disputar afetos, afirmar culturas e amplificar lutas. Demarcar as telas, portanto, significa demarcar a luta. 

Referências 

BRASIL, André. Performance: entre o vivido e o imaginado. In: PICADO, B.; MENDONÇA, C. M.; CARDOSO, J. (org.). Experiência estética e performance. Salvador: EDUFBA, 2014. 

FARIAS, Daniel Oliveira de. Fluxos ativistas e territórios: afetos e repertórios na configuração comunicacional de ativismos políticos no Brasil. 2025. Tese (Doutorado) — Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025. 

BANIWA, Gersem. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: Mec/Secad, 2006. 

BANIWA, Gersem. Desafios no caminho da descolonização indígena. Novos Olhares Sociais, v. 2, n. 1, p. 41-50, maio 2019. Disponível em: https://www3.ufrb.edu.br/ojs/index.php/novosolharessociais/article/view/463/21.

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Existem poucos sons que me trazem mais paz do que o barulho das minhas pegadas sobre a neve recém-caída. É um som que quebra o silêncio da paisagem. Silêncio porque o ar preso entre os flocos de neve atenua a vibração do som e diminui o ruído ambiente. Esse silêncio, interrompido apenas pelo croc-croc dos meus passos, veio a fazer parte do meu ser. 

Moro em um país silencioso. A Suécia fica no extremo norte do mundo, o mais distante possível, em temperatura, cultura e paisagem, do Brasil. Foi aqui que aprendi o significado do silêncio. Não apenas na paisagem, mas também nos espaços que a vida nos proporciona. Os suecos são silenciosos. Isso não quer dizer que falam pouco, necessariamente, mas que, quando falam, usam a voz baixa. Escutam em silêncio e fazem uma pequena pausa antes de responder à fala do outro. Apreciam o silêncio em espaços públicos, no ônibus, no metrô, nos parques. A natureza gélida e austera é também silenciosa. 

É difícil explicar essa profunda vivência do silêncio para quem nunca morou aqui. De passagem, como turistas, não paramos muito para refletir, para absorver silêncios. Estamos procurando aventuras, experiências. São museus, restaurantes, vivências exóticas — como passeios de trenó e renas —, a aurora borealis. Vemos e experimentamos tudo numa confusão de novas impressões. Não há tempo de notar os espaços entre as experiências, mas, vivendo aqui, esses espaços são a minha realidade. E assim aprendi o que é o silêncio, algo que aprecio hoje como restaurativo, calmante e necessário para o meu bem-estar. 

Junto desse aprendizado me vem sempre uma onda de saudades do Brasil. Lá, brasileira no Brasil, nativa, local, pertencente, nunca me dei conta do barulho brasileiro. E não digo apenas do nosso povo, que é, sim, barulhento. Falamos alto, rimos, cantamos. Mostramos nosso interesse no que uma pessoa está falando com microinterrupções. Ãha, é mesmo, nossa, amiga, nem me fala. Nos interrompemos para demonstrar participação, engajamento na conversa. Nossa fala é, assim como nossa natureza, exuberante, viva, envolvente. O nosso ambiente também é barulhento. Quando fecho os olhos, me vem à memória a verdadeira sinfonia que formava a trilha sonora dos meus dias sem que eu a percebesse. Os sabiás, os bem-te-vis. O som do vento soprando nos galhos das árvores, os agapantos e as bromélias no jardim. O canto ensurdecedor das cigarras ao entardecer. O zumbido elétrico no ar instantes antes de cair um temporal daqueles, com raios de estourar os tímpanos. Isso sem falar da sonografia urbana. O caminhão de gás tocando Für Elise. O amolador de facas passando de bicicleta. Os feirantes anunciando suas frutas e verduras. Buzinas de trânsito, motoboys acelerando, carros com caixas de som fazendo campanha política. Música bombando de algum lugar na vizinhança, alguém gritando Ô dona Marina, como vai a senhora? E a netinha?. O Brasil é uma cacofonia.  

Sempre que digo que moro na Suécia, logo vem a pergunta: E o frio? Mas o frio é óbvio. É esperado. Compramos mais roupas e aprendemos a importância das camadas. Os truques da adaptação: coloca uma bolsa de água quente dentro do casaco antes de sair de manhã. Toma banho frio para o corpo se acostumar. Já ouvi — e fiz — de tudo. 

O que o imigrante nunca espera são as diferenças sutis, aquelas das quais não falamos. Não estamos preparados para navegar nas diferenças de som, o tom de voz, a pausa na fala. Para entender que num país assim, tão escuro, eles preferem a luz de velas no inverno. Mais escuro ainda!, penso eu, horrorizada. Depois de anos, vim a entender que é uma forma de criar um ambiente aconchegante. Um regresso quase a um útero materno, quentinho e escuro, quieto e de muita paz, para sobreviver ao inverno rigoroso. São as regras sociais invisíveis que te pegam. 

Saia, faça amigos, se apresente! Sim, claro, mas sem entender os passos da dança. Rimos de um gringo tentando sambar, mas a vida de imigrante é assim — chegamos com o gingado errado, tentando acertar os passos numa dança desconhecida.  

Isso não quer dizer que é ruim. Pode ser, de fato, muito bom, como tem sido para mim. Porém, não deixa de ser difícil. Traz à tona muitas questões de identidade que nunca antes tive de confrontar, especialmente após ser mãe. Sou casada com um sueco, minhas filhas são nascidas aqui. Elas se identificam, com o português meio atrapalhado, como “metade suecas, metade brasileiras”. Mas o que isso quer dizer? Me pergunto muito qual identidade quero passar para elas. Me esforço. Elas fazem aulas e lemos livros em português, aprendemos lendas brasileiras, assistimos Castelo Rá-Tim-Bum e Galinha Pintadinha. Toco música brasileira, comemos arroz com feijão, as festinhas de aniversário delas têm brigadeiro e beijinho e pão de queijo. Mesmo assim, sofro com a sensação de que elas estão perdendo algo, alguma coisa indefinível que é “ser brasileiro”. 

Talvez seja por elas perderem a oportunidade de criar memórias que me foram fundamentais na infância. Coisas brasileiríssimas. O correio pomba na festa junina. A malhação do Judas que fazíamos na chácara, na Páscoa. Passar a tarde colhendo pinhão das araucárias para comer à noite. Polenta frita e bacalhau à Brás, barreado e carne de onça. Pirogue de batata na feirinha polonesa. Correr na praia caçando tatuíra para fritar na farofa. Coisas da minha primeira infância no Paraná. Depois de nos mudarmos para São Paulo, eu ainda criança, as memórias se tornaram outras. Feijoada, pastel de feira com suco de cana. Pizza de catupiry e sushi na Liberdade. Aquele potinho de sal grosso com pimenta atrás da porta para espantar o mau-olhado. Ir à feira de antiguidades no Masp. Sanduíche de mortadela no mercadão. Comprar flores com a minha mãe na feira da CEAGESP. Comida de boteco.  

Daí vieram as temporadas de verão passadas na Bahia. Deitada na rede, ouvindo o som do mar, vendo os macacos pularem entre os galhos das árvores. Acarajé, bobó, moqueca, vatapá, beiju, cocada, jaca, coco fresco, mangaba, maracujá, atemoia. O bicho-preguiça que apareceu no jardim. O teiú correndo debaixo do deck. Os morcegos dando rasadas nas nossas cabeças. Caminhadas na praia em noites de lua cheia, maravilhada com a fauna. Polvo, caranguejo, siri, ouriço, pepino-do-mar, caramujo com concha em espiral. Peixinhos diversos. Sapos, lagartixas, cobra-cipó. Noites assistindo capoeira na praça ou dançando forró em chão de terra batida. Uma visita ao terreiro de candomblé, onde senti medo do caboclo. Réveillon após réveillon fazendo oferendas a Iemanjá. Visitas à aldeia dos índios Pataxós para comprar colares feitos com semente de sibipiruna e artesanatos em palha.  

Como comprimir todas essas experiências, este Brasil tão enorme e diverso, e entregá-lo às minhas filhas? Olha filha, esse é o Brasil. Jamais conseguirei capturar todas essas brasileirices, essa essência, e reconheço que o meu Brasil é diferente do seu Brasil; cada um de nós tem um Brasil diferente.  

Talvez porque o Brasil nunca tenha sido uma coisa só. Talvez porque ele não seja um retrato, mas um movimento. Aquilo que eu chamo de infância, um retalho de sons, sabores e experiências vindas de tantos lugares, é também a infância de um país que foi sendo inventado à medida que gente de todo canto chegava e deixava um pedaço de si. 

O que para mim é memória afetiva, para o Brasil é história. 

Antes de ser a minha feijoada de sábado, o gnocchi da nonna, a apfelkuchen, o quibe cru e a coalhada, houve navios. Houve malas de papelão, nomes trocados na entrada dos portos, línguas que se misturavam, confusas. Houve quem chegasse por escolha e quem chegasse à força. Houve quem encontrasse abrigo e quem encontrasse preconceito e apagamento. 

Crescemos ouvindo que somos um povo só, mas a verdade é que fomos feitos de muitas chegadas. 

O Brasil é gigante. A imensidão do território nacional e a diversidade do nosso povo tornam nosso país único. Não é apenas um país miscigenado, é um país atravessado por ondas sucessivas de deslocamento. Italianos, espanhóis, portugueses, alemães, suíços, ucranianos, poloneses, japoneses, libaneses, sírios. Povos que trouxeram suas crenças, seus temperos, suas músicas, seus modos de trabalhar a terra, de celebrar, de enterrar seus mortos. 

Cada sobrenome estrangeiro que hoje parece brasileiro foi, um dia, um corpo deslocado tentando aprender os passos de uma dança nova — como eu na neve, com o gingado errado. 

Se olharmos de perto, as ondas de imigração no Brasil não parecem uma sequência neutra de chegadas, mas um projeto, às vezes explícito, da construção de certo país. A partir do século 19, especialmente depois de 1850, quando o tráfico escravagista atlântico foi proibido, o Estado e as elites agrárias passaram a incentivar a entrada de europeus no país. Precisavam abastecer o trabalho livre nas lavouras, sobretudo de café, e, ao mesmo tempo, desejavam “corrigir” aquilo que chamavam de herança escravocrata — um eufemismo para o desejo de embranquecer a população. A legislação diz isso sem muita vergonha. O Decreto nº 528, de 1890, declarava inteiramente livre a entrada de imigrantes, mas fazia a ressalva de que indígenas da Ásia ou da África só poderiam entrar mediante autorização do Congresso e determinava que agentes diplomáticos obstassem a vinda desses grupos. A ideia de “clarear o Brasil” circulava como bom senso entre setores da elite. No começo do século 20, ela ganha verniz científico e vitrine internacional. No Congresso Universal de Raças, em Londres (1911), João Baptista de Lacerda apresentou a tese de um Brasil que, pela miscigenação orientada e pela imigração europeia, se tornaria branco. Apresentou o país como “laboratório racial”, observado e julgado por olhares europeus.  

E, no entanto, quando a gente desce do plano das ideias para o chão da vida, a história é menos harmonia tropical e mais assimetria imposta. O mesmo Estado que subvencionava passagens, prometia terra, organizava colônias e moldava núcleos europeus no Sul e no Sudeste também criou mecanismos para regular quem podia entrar e, depois, para restringir a imigração. Nos anos 1930, vieram a Lei dos 2/3 (reserva de postos de trabalho para brasileiros) e a política de cotas/restrições do período Vargas, que buscavam controlar e selecionar a imigração em nome de emprego, ordem e integração nacional. Ou seja, as portas nunca estiveram abertas do mesmo jeito para todo mundo. O Brasil escolhia, filtrava, hierarquizava. E, por baixo dessa engenharia, existia a camada mais antiga e brutal de deslocamento: o sequestro e a deportação forçada de milhões de africanos escravizados, além do processo contínuo de violência, expropriação e morte de povos indígenas. A imigração “livre” se construiu sobre uma fundação de poucas liberdades para muitos. 

É aqui que um dado contemporâneo ilumina o passado com uma clareza incômoda. Um estudo genômico recente do DNA brasileiro, com participação do Instituto de Biociências da USP, mostra uma forte assimetria sexual na formação da nossa população. As linhagens paternas, o cromossomo Y, são predominantemente europeias, enquanto as linhagens maternas, o DNA mitocondrial, herdado das mães, carregam com muito mais força ancestralidade africana e indígena. Isso não é uma curiosidade biológica, é um registro histórico no corpo. Ele sugere que a miscigenação celebrada como marca identitária frequentemente ocorreu sob relações de poder desiguais. Em outras palavras, homens europeus em posição dominante, mulheres indígenas e africanas vulnerabilizadas por escravidão, coerção e violência sexual. O discurso bonito da mistura, aquela ideia de que “somos todos um só”, convive com um silêncio antigo sobre quem teve escolha e quem teve o próprio corpo convertido em território de conquista. A história da imigração no Brasil é, ao mesmo tempo, a história de chegadas e de exclusões, de promessas de futuro e de um passado que insiste em aparecer, até mesmo quando a gente tenta chamar de destino aquilo que, muitas vezes, foi imposição. 

Sei que agora traço meu rumo longe da minha terra natal, mas, assim como todos os imigrantes que trouxeram um pedaço de suas terras para o Brasil, carrego o Brasil comigo aqui na Suécia, orgulhosa de ser essa confluência de existências, de sons e silêncios, complexa e brutal, mas também bela em toda a sua diversidade. 

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No limiar entre a antecipação de uma imagem que ainda não existe e o gesto de transformá-la em fotografia, Lucas Cordeiro constrói um corpo de trabalho em que esse ato se define menos em capturar o mundo e mais em escutá-lo. Ressoa em suas obras uma espécie de espera ativa, como quem permanece diante de um muro, de um corpo, de um objeto, até que algo perpasse o seu olhar e se anuncie.

Nascido em Itapetinga, no interior da Bahia, Cordeiro cresceu entre quintais de terra que viravam composições improvisadas com o que havia à mão, como folhas e pedras. Antes de entender a fotografia como linguagem, ela já o ajudava a organizar o mundo em arranjos, fazendo-o ouvir os arredores e entender que a complexidade da vida e do tempo não cabe numa composição, mas seus elementos, esparsos ou não, sim. O tempo não se segura, nem mesmo numa foto, mas, para o bem e para o mal, a sua passagem cabe em tudo que existe. Cordeiro faz que seja para o bem. A chegada de uma câmera digital, portanto, marcou uma expansão de como a vida podia ser percebida. O que antes era efêmero ganhou superfície, duração, uma segunda vida luminosa.

Talvez por isso suas imagens carreguem uma tensão entre o que está e o que se torna. Não há pressa em definir. Tudo está suspenso em um campo de forças em que humanos, plantas, animais, objetos e entidades coexistem sem hierarquia evidente.

“Minhas fotografias nascem do encontro”, explica. “Com pessoas próximas, familiares, amigos, irmãos de santo, mas também com coisas do mundo. Uma pedra, um encantado, um animal, um artefato, um tipo de patuá. São encontros que carregam matéria, história e presença. O encontro é uma potência fundamental da vida. Desde a própria formação da vida existe encontro, seja entre dois gametas que originam um corpo, seja no choque entre dois corpos no mundo. A imagem começa nesse lugar. Antes do clique, já está em curso, como um campo que se ativa no encontro. Vejo o encontro como um potencializador da memória.”

Quando há alguém diante da lente, dá quase para ouvir o diálogo travado entre câmera e pessoa retratada. Mas há na intimidade dessas imagens um esfumaçamento. Um gesto que não se explica, um olhar que parece carregado de outras histórias além daquela que vemos.

Revelar um segredo nem sempre tem efeito. É bem mais interessante admitir que ele existe e parar por aí. “O mistério, isso é o que me move”, diz ele, categórico. “Preservar aquilo que escapa, o que não se deixa ver totalmente, porque é aí que a imagem continua viva.”

Encontros improváveis entre matérias e estados distintos são a gênese de muitas dessas imagens. O que corta e o que acolhe, o que ameaça e o que repousa, o que é duro e o que é vivo. É comum haver um encontro entre as superfícies, como metais, vidros e folhas, e os corpos que as atravessam ou habitam, como se cada elemento carregasse uma energia própria, às vezes em conflito, às vezes em conciliação. “Me interessa criar imagens no limite entre o que aparece e o que se esconde. Pensar a imagem como um campo onde algo pode se revelar, mas nunca completamente, onde certas partes se intensificam enquanto outras recuam.”

Os elementos que aparecem — bacias de alumínio, animais, objetos cotidianos, símbolos espirituais — não parecem escolhidos apenas pelo que são, mas pelo que evocam. Memórias, temperaturas, ritmos, tudo isso e mais um pouco. “Acho que esse jogo entre mostrar e não mostrar revela uma faceta importante da natureza humana, porque a gente nunca se apresenta inteiro, sempre existe um deslocamento, uma camada que escapa.”

E a luz, muitas vezes, vai além do iluminar para, com paciência, ativar. “Gosto muito de negociar entre corpo e luz. Vindo de Itapetinga, onde a luz é muito visceral e o sol guia a vida na cidade, cresci em contato com uma incidência intensa, direta, muitas vezes escaldante. É uma luz que não suaviza, ela impõe. E, de certa forma, nos obriga a redesenhar modos de vida entre o calor e a sombra.” 

A imagem deixa de ser arquivo e passa a ser campo, um lugar onde diferentes camadas de experiência coexistem, se tensionam e, por vezes, encontram uma forma provisória de equilíbrio.

Cordeiro conta que as imagens no seu trabalho “se conectam a experiências do passado, mas não como lembrança. São situações que permanecem no corpo e continuam se manifestando no presente.”

A memória presente ali não é nostálgica, é uma matéria em circulação. “Essas situações pertencem a uma memória coletiva, que atravessa os corpos e se manifesta de maneiras diferentes. Por isso, trabalho sempre com pessoas com quem tenho vínculo, porque a imagem não é uma captura, é um encontro. Ao mesmo tempo, acredito que já chegamos ao mundo com certas armaduras de uma memória ancestral que se inscreve no corpo como um código. O que a gente vive ao longo da vida não cria essas estruturas do zero, mas as ativa, as transforma e as reorganiza.”

É assim que o tempo também se reconfigura. Como ele descreve, quando trabalha o tempo dentro da imagem, ele não vê “como uma linha entre passado e presente, mas como uma sobreposição: o que vem antes, o que se vive agora e o que continua agindo. A imagem, para mim, é esse lugar onde essas camadas coexistem e seguem em movimento.”

Mesmo quando tocado por questões profundas, como identidade, ancestralidade e apagamento histórico, o artista não vai pelas vias do confronto direto. Em vez de denunciar frontalmente as imagens distorcidas construídas sobre corpos negros, ele prefere enfraquecê-las por saturação de outras narrativas. A mensagem ressoa: combater as forças antigas para dissolvê-las. Apostar na beleza como afirmação: um corte de cabelo, um fio de conta, um corpo em posição improvável. Tudo pode ser linguagem. Tudo pode ser cura.

Se há direção em suas imagens, ela não é rígida. O gesto de quem fotografa e de quem é fotografado é um movimento mútuo: “Existe uma história prévia entre mim e o retratado”, explica. “A gente está compondo essa imagem juntos, a partir do que eu sei dele e do que ele sabe de mim. Nesse processo, fica mais claro entender o que queremos dali, quais signos podem potencializar a imagem e quais podem ativar memórias mais fortes naquele instante. O clique não é o começo, é um desfecho. Ele faz parte de uma orquestra que já está em movimento. Para mim, a fotografia acontece antes, durante e depois do clique.”

Entre tradição e contemporaneidade, seu trabalho prefere o trânsito. Objetos, gestos e símbolos carregando ecos de uma herança ancestral, enquanto a composição e o enquadramento os lançam em um tempo que é agora e também outro.

O que Lucas Cordeiro propõe é olharmos mais uma vez, fugindo da explicação fácil e fazendo surgir um novo sentimento, uma vivência que faz ecoar um zumbido insistente no ouvido. Ali há uma imagem pedindo para nascer.

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A política brasileira do abraço: entre potência média e soft power

por Juan David Almeyda Sarmiento

O Brasil é herdeiro de uma tradição, no que se refere à política internacional, marcada por um elemento fundamental para sua sustentação política, econômica, cultural, tecnológica e social: a multilateralidade. Presente talvez desde antes da independência, o Brasil possui o que Gelson Fonseca Jr., embaixador do Brasil junto à ONU entre 1999 e 2003, chamou de vocação multilateral.  

Essa vocação não é apenas um elemento acessório na forma de pensar a política externa brasileira, mas também a espinha dorsal do que constitui sua posição como potência média. Falarei sobre isso um pouco mais adiante, assim como sobre a capacidade que o país tem de gerar influência e sustentar um controle e uma dominação em um território que, embora não tenha guerras, requer uma política externa estratégica para poder mediar as relações com os dez países que lhe fazem fronteira.  

Essa direção multilateral do Brasil é fundamental para compreender seu crescimento e a visão que tem de si mesmo em relação aos demais países do Sul e do Norte Global. Isso se explica por meio do conceito de potência média, que pode ser extraído da concepção de império médio desenvolvida pelo pensador Giovanni Botero em sua obra Della Ragion di Stato [A razão de Estado], de 1589, da qual a política externa brasileira parece beber ao pensar sua postura internacional. De forma breve, diz Botero em seu livro: “Coisa certa é que são mais fáceis de sustentar os [impérios] médios, porque os pequenos, por sua fraqueza, estão sujeitos à força dos grandes, que os desfazem (…) Os estados grandes colocam ciúmes e suspeita nos vizinhos”. Assim, então, a potência que surge desse ponto médio reside na posição privilegiada de poder se favorecer tanto de ser pequeno quanto de ser grande, sem com isso cair em suas desvantagens. A multilateralidade brasileira funciona como uma ferramenta dessa potência média que caracteriza o Brasil, uma vez que a manutenção de bons laços relacionais com os demais países do mundo lhe permite construir-se dentro de uma política internacional centrada tanto em seus próprios interesses quanto nos interesses do resto do planeta.  

Multilateralidade à brasileira 

A multilateralidade brasileira é, então, uma ferramenta que responde a essa qualidade de potência média que identifica o Brasil; no entanto, não é sua única função. Como assinala o próprio Fonseca, ela serve também para alimentar outros elementos da identidade nacional, como sua condição em constante crescimento, a riqueza em biodiversidade, seu pacifismo, entre outros. A dupla face do multilateralismo possibilita ao Brasil posicionar-se como um país atento tanto aos seus próprios interesses quanto aos de sua região e do resto do mundo. A identidade nacional, aos olhos do resto do globo, se associa ao diálogo, à legitimidade institucional e à confiança; isso se dá assim porque a multilateralidade promovida pelo país se centra nas instituições como base para a construção de acordos, tratados, políticas, etc.  

Esse respeito às instituições se evidencia na constante relação positiva e produtiva que o Brasil mantém com organismos como a ONU, a OEA, o Mercosul, a CEPAL, entre muitas outras — embora, para além desses organismos, a vocação do país para a multilateralidade possa ser rastreada nas conferências interamericanas do século XIX. Encontrar um ponto de origem é complicado devido à constante participação brasileira nas problemáticas do planeta e, mais ainda, de sua região.  

No entanto, a participação se torna mais ativa e evidente com o surgimento da Ordem Mundial Liberal posterior à Segunda Guerra Mundial, a qual promoveu uma visão do mundo estruturada sob o império da lei — de natureza liberal — em uma ordenação global em que as relações econômicas e políticas — também liberais — entre países se dão para promover cooperação internacional que ajude a superar os desafios do planeta. Isso reflete outra face da identidade brasileira, a saber, a de participar institucionalmente e proteger o direito internacional entre países para promover um ambiente de paz entre vizinhos, de modo que estes se animem a participar da mesma visão. Reflete também o modo como o próprio Brasil não se vê, como o denomina Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores do país, como um monster country. Isso se dá na medida em que o Brasil não tem uma história intervencionista, do mesmo modo que carece de uma plataforma e influência ideológica e de uma hegemonia econômica total, pelo que convida e incita ao cooperativismo na região e no mundo. Como potência média, sem uma projeção imperialista de conquista, o Brasil não colocou seu interesse internacional nos mecanismos duros de poder (hard power), mas buscou formas de sustentar uma simbiose mutualística entre todos os países do mundo para estar sempre coberto frente à consecução de seus próprios objetivos nacionais, assim como da sustentação do mundo; um poder brando (soft power) melhor adaptado à sua condição de potência média, uma vez que lhe permite crescer passando despercebido sem cair nos grandes problemas que acometem as grandes potências, mas mantendo influência sobre as pequenas sem consumi-las.  

É preciso entender aqui a distinção entre poder duro e poder brando no que se refere às relações internacionais. O primeiro diz respeito à maneira em que um Estado gera ingerência nos outros utilizando a coerção como mecanismo principal – exemplos disto podem ser intervenções militares ou pressão econômica (como sanções ou bloqueios). Por outro lado, o poder brando usa a atração para cooptar os valores políticos dos outros, moldando as preferências e prioridades sem recorrer à força ou constrangimento — sendo aqui a política exterior um exemplo, já que implica uma influência sem violência. Assim, enquanto o poder duro obriga para modificar a posição dos outros, o brando seduz para gerar influência.     

A tétrade da história da multilateralidade brasileira 

Agora, numa delimitação superficialmente canônica, a partir de estudos de acadêmicos da área, como Rubens Ricupero, Shiguenoli Miyamoto e o próprio Gelson Fonseca Jr., pode     -se afirmar que há quatro etapas da multilateralidade brasileira, ao menos no que diz respeito àquela que surge no marco da Ordem Mundial Liberal, já que, antes disso, é um pouco mais difuso. São elas: i) o alinhamento ocidental (1947-1960); ii) a política externa independente (1960-1964); iii) a vontade de potência produto dos governos militares da ditadura (1964-1985); e iv) a política externa da democracia (1985-atualidade). Cada uma dessas etapas possui suas próprias qualidades e variáveis na hora de serem analisadas de perto. Embora pareça reducionista sustentar apenas quatro etapas, deve-se lembrar que existe uma multiplicidade de fenômenos em cada momento da história política do Brasil, o que permitem identificar, em cada ano, facetas distintas que podem ser deixadas de lado, mas que requerem outros espaços para serem aprofundadas.  

A primeira delas se dá no marco da Guerra Fria e implicou a participação do país com o bloco ocidental e os interesses dos Estados Unidos, ainda que isso tenha terminado com o surgimento do Movimento dos Não Alinhados e a demarcação do Terceiro Mundo. Aqui se buscou uma singularidade diplomática: o Brasil sempre foi um participante nas Assembleias e um defensor da institucionalidade dos organismos internacionais e do direito internacional. 

A segunda, por sua vez, rompeu com o alinhamento ocidental para começar a traçar alianças com países comunistas e socialistas, assim como para melhorar a relação com outros continentes, como o africano. Aqui, a participação do país em organismos como a ONU permitiu a luta social em temas como o apartheid, o desarmamento nuclear e a configuração de um amplo comércio internacional.  

A terceira, por sua vez, pode ser dividida em duas devido à sua complexidade nacional e, ao mesmo tempo, internacional. Uma parte inclinou-se diretamente a retornar ao alinhamento com os Estados Unidos (1964-1968), e a segunda (1968-1985) implicou tomar em consideração que cada governo buscou um caminho próprio. No entanto, algo atravessa cada governo durante essa etapa: a necessidade de sustentação do poder pela força no país, ou seja, a ditadura buscou o exercício constante do poder duro, e a visão multilateral não é vista com bons olhos nesse contexto. 

Finalmente, de 1985 até a atualidade, ocorre a abertura democrática, que devolveu ao país um interesse por retomar a multilateralidade como mecanismo de fortalecimento nacional. O soft power, ao qual se pode associar a multilateralidade, permitiu ao Brasil recuperar-se e crescer após a ditadura, ao mesmo tempo em que o reposicionou como participante ativo das problemáticas do mundo. É verdade que existem governos, nesta etapa, com maior, menor ou nulo interesse pela cooperação internacional entre países de forma multilateral, mas a identidade nacional brasileira se associa, em grande medida, ao que chamo de política do abraço, a qual se funda numa hospitalidade relacional que é produto de uma complexidade nos primórdios da própria história do Brasil. O BRICS é um exemplo dessa política mencionada, em que a potência média do país permite uma articulação estratégica para resolver problemas nacionais a partir de uma multilateralidade orientada a resolver problemas internacionais, facilitando intercâmbios culturais, econômicos, etc. 

A modo de conclusão 

Hannah Arendt menciona, em A condição humana, que “O único fator material indispensável para a geração do poder é o viver unido do povo (…) E quem quer que, por quaisquer razões, se isole e não participe desse estar unido, sofre a perda de poder e fica impotente, por maior que seja sua força e muito válidas suas razões”. Sob essa premissa parece alinhar-se a multilateralidade brasileira: busca a união e a preservação do poder que esse laço gera tanto em nível nacional quanto internacional. Como potência média, o Brasil afasta-se dos rótulos para buscar essa política do abraço na qual pode produzir espaços de ação política em distintos campos e regiões, sempre propendendo a uma construção mútua em que crescem todos os atores envolvidos, num processo nem de intervencionismo, nem de colonização imperialista, mas sim com o respeito institucional e jurídico que requerem as relações internacionais multilaterais. Os problemas surgem, como sempre, e podem persistir; a crise do desmatamento da Amazônia é um deles — para dar um exemplo —, mas nem por isso desaparece o esforço por uma região unida que garanta a permanência da paz e o crescimento contínuo de todos os que fazem parte do planeta. 

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Apesar do recente destaque internacional, o cinema brasileiro tem políticas incertas para o setor e dificuldade para consolidar público dentro do próprio país.

O cinema brasileiro vive um momento paradoxal. Ele colhe os louros de uma visibilidade nunca antes tão presente e celebrada fora do seu país, com os recentes sucessos internacionais Ainda estou aqui, que levou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, e O agente secreto, que concorreu na mesma categoria para a edição de 2026. Ao mesmo tempo, os sucessos, para a análise de alguns cineastas, são lampejos isolados de um ecossistema audiovisual estruturalmente ainda frágil. Por trás das estatuetas emplacadas em diversas premiações e dos aplausos ininterruptos por dezenas de minutos em festivais internacionais, ainda existe uma realidade marcada por limitações de financiamento e pela engrenagem do mercado, que com frequência impõe suas próprias regras de visibilidade. Essa lógica pode privilegiar formatos considerados comercializáveis, mas tensiona a busca pela diversidade estética, até mesmo para acessos a editais e políticas de fomento. 

O trunfo que carrega atualmente o cinema nacional não surgiu como uma sorte ou de maneira espontânea. Para o cineasta e jornalista Glauber Paiva Filho, o cenário é fruto de uma variável de fatores antecedentes que envolvem o potencial de criação de artistas e realizadores cinematográficos aliado ao desenvolvimento das políticas públicas. Ao favoreceram a capacitação e distribuição dos fomentos destinados à produção, esses fatores contribuíram para a geração de diversidade de produção, fazendo com que o Brasil ocupasse esse espaço internacional — mais ainda por conta da articulação da classe cinematográfica, como os conselhos de cinema, os fóruns e as associações. “Hoje a gente está colhendo um fruto dessas décadas de investimento”, resume Paiva Filho.  

Esse cenário começou a se consolidar após a chamada retomada do cinema brasileiro, quando novas políticas culturais ampliaram o alcance da produção para além do eixo Rio-São Paulo. Para Paiva Filho, a criação de instituições e mecanismos de incentivo como a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a Secretaria do Audiovisual e a Lei do Audiovisual abriu espaço para uma descentralização que passou a incluir outras regiões do país.  

O movimento permitiu que diferentes identidades culturais se refletissem nas telas — o que, para o cineasta, é o que mais pode destacar o país no cenário global. “O Brasil é um país diverso”, começa. “Somos semelhantes pelas nossas diversidades, diferenças regionais e, ao mesmo tempo, essas diferenças de gênero, raça e cultura são lugares de fala”. Para ele, é assim: não existe um cinema unificado por uma única estética. 

O próprio percurso do cineasta ilustra essa transformação. No início dos anos 2000, ele participou de articulações entre realizadores do Ceará que buscavam inserir a produção local no mercado nacional. Em diálogo com nomes como Halder Gomes e Karim Aïnouz, discutia-se como criar estratégias de circulação e negócios para filmes nordestinos. Foi nesse contexto que surgiu o longa Bezerra de Menezes: o diário de um espírito. Inicialmente concebido como documentário de baixo orçamento, o projeto recebeu investimento adicional para chegar às salas de cinema. O filme ajudou a testar uma produção nordestina, de baixo custo e com temática religiosa, alcançando o circuito comercial em todo o país. 

No entanto, explica, o campo do cinema está ligado às estruturas de mercado que também têm seus aspectos culturais e acompanham mudanças tecnológicas e econômicas. “É uma arte que, ao mesmo tempo, conecta com o campo da cultura e com esse universo artístico, mas está diretamente ligado às estruturas de mercado”, reconhece. [Text Wrapping Break] 

Essa lógica, porém, pode ser considerada capitalista e influenciar a rentabilidade e a conquista de recursos de financiamento para o próprio fundo setorial, enxerga Filho. “Nós sabemos que, no mercado, dentro dessa estrutura, a tendência é homogeneizar tudo. É tudo virar produto. E é necessário que o cinema tensione isso, essa homogeneização, porque essa estrutura é marcada, também, por um modelo institucional ancestral. Ela é competitiva, não é solidária. É heteronormativa branca”. 

Sublinha, na mesma linha, o cineasta brasileiro Halder Gomes: “Estamos tendo uma grande dificuldade de conseguir nos posicionarmos no mercado e fazermos as pessoas saberem da existência do filme por conta de todas essas bolhas que existem”. Tanto para Gomes quanto para Filho, o maior desafio do processo de produção está na fase de distribuição, com falta de campanhas que consigam alcançar o maior número de pessoas para estas saberem da existência dos filmes em cartaz. 

Quando se fala em políticas públicas audiovisuais, Gomes se vê como exemplo. É diretor de Cine Holliúdy, filme de comédia brasileiro de 2012, e da versão em longa-metragem do premiado curta Cine Holiúdy: o artista contra o caba do mal. Lançado em Fortaleza, o curta foi visto em 80 festivais de 20 países e ganhou 42 prêmios. Quando nasceu como curta-metragem, o Ministério da Cultura, à época comandado por Gilberto Gil, lançou editais — anteriormente mais restritos à região Sudeste — descentralizados e abertos para todas as regiões. “Tive oportunidade em uma época em que era muito mais difícil filmar, porque era filmado em película. Era muito mais complexo ganhar um edital”, conta Gomes. “O edital deu essa possibilidade de fazer um filme que, mais na frente, viraria um fenômeno de bilheteria, um fenômeno cultural, e que nasceu dessa semente de um investimento público”. 

O mesmo para o longa: “Era um roteiro que o mercado dizia que era regional, que não tinha espaço nenhum, que era inviável. E uma política pública que descentralize e dá essa possibilidade da avaliação se é olhar cultural, e não uma tentativa de enxergar o comercial, foi que tornou possível o Cine Holliúdy ser um projeto que nasce com essa identidade da alma cearense, mas extremamente universal. E que, a partir dele, você acessa o mercado”. 

Nesse cenário, há um paradoxo para o cineasta e roteirista brasileiro Araripe Jr. Ao mesmo tempo em que produções recentes ganham destaque internacional, o setor ainda enfrenta dificuldades para consolidar público dentro do próprio país. Para ele, estamos com a faca e o queijo na mão. No entanto, o reconhecimento externo esconde problemas estruturais: “Esta repercussão residual que chega até nós por uma questão até ufanista precisa nos alertar para a grande lacuna de comunicação e marketing do nosso produto com o público interno”, diz. Ele aponta para o baixo retorno de bilheteria nos cinemas na proporção do que é produzido. 

Para o crítico, o problema não está na qualidade ou na diversidade da produção nacional, mas na forma como ela chega ao público. Ele defende que o cinema brasileiro deveria ser tratado como um instrumento estratégico de projeção cultural do país. “O cinema deveria estar sempre debaixo do braço do presidente Lula quando ele fosse a qualquer país”, afirma, referindo-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em sua visão, obras audiovisuais poderiam acompanhar missões diplomáticas e eventos internacionais como uma vitrine da cultura nacional. “O cinema é e deve ser nosso principal cartão de visita onde a gente for”, diz. 

Um dos pontos mais críticos, segundo o pesquisador, é a ausência de campanhas consistentes de divulgação. Embora o setor conte com recursos significativos por meio da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), parte desse dinheiro acaba retornando ao Tesouro sem ser utilizada. O retorno do investimento ao FSA se dá sobre a Receita Líquida do Produtor e outras receitas de licenciamento. “Todo ano sobra dinheiro da Ancine, que é devolvido ao Tesouro Nacional, pois não se consegue executar o tanto de dinheiro que o fundo setorial arrecada. Mas se você ligar a televisão ou então navegar em qualquer rede, em nenhum momento do dia você vê uma campanha institucional pelo cinema brasileiro”. 

Halder Gomes lembra da importância de se pensar no que é tributado em cada etapa do filme a partir da sua distribuição, desde a venda do ingresso até a pipoca: “Tudo gera uma uma produção em cadeia que é tributada, e que obviamente volta para os cofres públicos”. É nessa relação, reforça, que o valor investido tem o seu retorno. “Quando você fala da dimensão da publicidade, do alcance que é isso tudo na projeção da imagem do país, aí entra na zona do incalculável”. 

Para Araripe, é importante investir em campanhas permanentes que fortaleçam o chamado star system nacional. Segundo ele, diretores e artistas com trajetória consolidada atraem público com mais facilidade, e campanhas institucionais poderiam ajudar a fortalecer esse reconhecimento.  

O crítico também aponta exemplos internacionais para defender políticas de proteção ao audiovisual nacional. Países como França e Coreia do Sul adotam cotas de exibição e incentivos à produção local, garantindo espaço para filmes nacionais nas salas de cinema e nas plataformas digitais. Na França, por exemplo, há uma reserva de mercado estabelecida, e cerca de 40% do mercado interno é ocupado por produções locais. Já Singapura, com uma política avançada de cinema, baseia-se na proteção do seu espaço interno, com incentivo à formação de público. Para Araripe, essas estratégias estão diretamente relacionadas à soberania cultural. 

Os cineastas defendem que quanto mais uma produção tiver a sua propriedade de origem, mais ela tem potencial de resultado, e o que mais a diversifica no eixo audiovisual são as diferenças culturais. Paiva Filho, além de tratar as diferenças como lugares de fala que não seguem uma única estética, complementa que as diversidades podem, de fato, conquistar financiamentos que sejam robustos e competitivos no mercado local e internacional. “Nós somos nove estados com nove sotaques particulares. Acredito que é uma das diversidades mais ricas de tudo que existe na cultura mundial, e isso oferece boas histórias a serem contadas. Estamos vendo os resultados disso”, completa Halder Gomes. 

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Uma conversa de Lourenço Gimenes com Ellie Stathaki

A arquitetura brasileira carrega um paradoxo que é ser, numa só, uma grande potência e uma grande limitação. Estamos falando, claro, do legado do modernismo. Ao longo do século 20, Niemeyer e tantos outros projetaram o país para o mundo com uma linguagem própria cheia de ambição. Essa herança, no entanto, também se tornou uma espécie de lente, às vezes estreita, por meio da qual se define o que é ou não reconhecido como “arquitetura brasileira”.

Nas últimas décadas, uma produção mais diversa, que ora dialoga com o modernismo, ora o reinventa, vem aparecendo com força. A arquitetura do país parece habitar um campo de forças permanente, em que tradição e experimentação disputam espaço. O arquiteto Lourenço Gimenes e a diretora de arquitetura e meio ambiente da Wallpaper*, Ellie Stathaki, refletem sobre continuidades e rupturas, e tentam entender como o Brasil, com sua escala continental e diversidade incontornável, segue redesenhando a si mesmo através da arquitetura.

Lourenço Gimenes: Ellie, antes de começar a conversa de fato, é importante já colocar na mesa: o modernismo brasileiro é, ao mesmo tempo, nosso maior cartão de visitas e a nossa sombra mais persistente. Nomes reconhecidos no mundo inteiro, como Lina Bo Bardi, Roberto Burle Marx e os ganhadores do Pritzker Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha — mas também figuras fundamentais das diversas vertentes da arquitetura brasileira do século 20, como Vilanova Artigas, Affonso Reidy, os irmãos Roberto e Rino Levi, Oswaldo Bratke e Lelé, entre tantos outros — nos deram uma linguagem, uma ambição e certa autoconfiança. E, quase sem querer, esse legado acabou se tornando uma espécie de filtro, tanto aqui quanto fora, que por vezes determina o que “pertence” e o que simplesmente não entra na conta.

A ideia aqui é falar sem cerimônia: refletir, mais do que tentar decifrar qualquer coisa de forma definitiva, e explorar — a partir do seu olhar estrangeiro, atento e generoso — como esse legado ainda opera hoje. E o que a arquitetura brasileira das últimas décadas fez quando decidiu abraçar, tensionar, remixar ou simplesmente ignorar suas raízes modernas.

Olhando de dentro, e com todos os vieses que isso implica, talvez a arquitetura brasileira viva numa tensão constante entre “identidade” e “diversidade”. Como você lê esse atrito? Ele aparece, de alguma forma, na cobertura internacional?

Ellie Stathaki: Sim, entendo o que você quer dizer. O modernismo no Brasil — e, em certa medida, em várias partes do mundo — foi um movimento extremamente poderoso, com uma linguagem visual muito marcante. Por isso, desde que surgiu, acabou dominando tanto o debate quanto o campo criativo. Não sei se essa tensão entre “identidade” e “diversidade” aparece de forma tão explícita globalmente, mas concordo que a arquitetura brasileira costuma ser associada a certo “visual” que, para muita gente, parece representar melhor o país, e esse visual carrega claramente a herança modernista.

Ao mesmo tempo, já me deparei com escritórios muito interessantes que trabalham a arquitetura no Brasil por outros caminhos. Há práticas que dialogam com o modernismo em espírito, pela experimentação, pela abertura, por certo compromisso social, mas cuja estética não é imediatamente reconhecível como parte desse universo. Penso, por exemplo, no Apartamento Paraíso, de Julia Peres, Victoria Braga e Elky Santos, ou em trabalhos do Estúdio Flume, como o Centro de Referência das Quebradeiras de Coco Babaçu. Talvez seja esse espírito mais amplo do modernismo que aparece nesses casos, e talvez seja justamente essa dimensão que valha a pena preservar.

Ao mesmo tempo, o Brasil é um país tão grande, cultural e geograficamente diverso, que parece natural que sua arquitetura também seja.

LG: Acho que você tem razão: escala geográfica costuma trazer diversidade. E, sim, conseguimos apontar alguns nomes aqui e ali que produzem uma arquitetura menos comprometida diretamente com o modernismo. Ainda assim, como ele surgiu justamente no momento de grande expansão populacional para além do eixo Rio-São Paulo, faz sentido que tenha se consolidado como a linguagem que acompanhou essa ocupação do território, quase como a expressão arquitetônica de construir e moldar novos espaços. Nesse sentido, é um legado difícil de contornar. E nem se trata de evitar esse legado, mas de encarar o desafio de ir além dele.

ES: Acho importante lembrar também que essa necessidade de evolução foi um desafio do próprio modernismo em várias partes do mundo, praticamente desde o início. Era um movimento internacional, mas que precisava se adaptar a diferentes territórios e climas. Essas expressões regionais também são um legado rico e valem ser discutidas, exploradas e, por que não, levadas ainda mais adiante. Qual seria, por exemplo, o próximo passo dessa trajetória?

LG: Analisando historicamente, logo depois da inauguração de Brasília, o país entrou em mais de duas décadas de ditadura militar, o que acabou nos deixando um pouco desalinhados em relação às críticas ao modernismo que surgiam na Europa e nos Estados Unidos. Depois disso, prevaleceu mais uma lógica de retomada do que de ruptura. Pensar no próximo passo é difícil. Espero que a gente consiga honrar a arquitetura que nos formou, mas também assumir mais riscos, não por oposição, mas escapando de certas fórmulas, materiais e soluções já dadas.

ES: Não posso falar por todo mundo, mas talvez, para algumas pessoas, a imagem da arquitetura brasileira ainda esteja mais associada ao século 20 do que a períodos anteriores, justamente por causa do impacto do modernismo — além de todas as questões sociais, econômicas e políticas envolvidas. Ainda assim, gosto de pensar que hoje existe uma abertura maior para buscar alternativas às narrativas dominantes — em arquitetura e em outros campos. Vejo um interesse crescente por saberes locais, técnicas tradicionais e indígenas, e uma disposição para redescobrir elementos que sempre estiveram ali, mas foram menos explorados.

Também há questões globais, como as mudanças climáticas, que tendem a gerar respostas muito específicas para cada contexto, como deve ser. Tenho curiosidade de ver como o Brasil vai responder a isso. Acho que falar mais sobre a diversidade do patrimônio e das paisagens brasileiras, em todos os sentidos, ajuda a abrir esse campo de discussão. Ao mesmo tempo, pensar de forma lateral, ou até romper com o que se espera, também pode ser um motor potente, consciente ou não. Você percebe algo assim na arquitetura brasileira?

LG: Embora o mainstream, aquilo que circula mais, que é publicado e exportado, ainda esteja concentrado em um grupo relativamente pequeno, muitas vezes herdeiro direto ou indireto do modernismo, há exemplos fortes surgindo hoje que lidam com questões de identidade, tanto indígena quanto afro-brasileira, além de um olhar atento para materiais locais e climas específicos.

Ainda assim, essa arquitetura mais solta parece enfrentar uma crise de visibilidade. A arquitetura brasileira também é um campo bastante dominado por homens brancos, com pouco espaço para mulheres e menos ainda para pessoas negras em um país majoritariamente negro. Isso se reflete na pouca atenção da mídia e na posição ainda periférica em certos círculos acadêmicos. São barreiras que começam, aos poucos, a se desgastar. E, à medida que isso acontece, outras camadas da arquitetura brasileira vão se revelando, ainda que sempre tenham estado ali.

Mudando um pouco o foco: o que mais te intriga no Brasil hoje? A casa, esse objeto tão bem fotografado; a cidade, com seus conflitos; ou o ambiente, com sua urgência? E o que você sente que ainda é pouco representado na narrativa internacional?

ES: Acho que tudo isso é igualmente importante. Estamos todos juntos nisso, e na arquitetura também. Claro que há forças maiores que influenciam planejamento, financiamento e políticas públicas, mas acredito que até a menor casa pode fazer uma grande diferença. O modernismo, afinal, começou com muitas casas, inclusive habitação social.

Sou fascinada por casas pelo poder que têm e pelas vidas que expressam. E vale dizer: projetos residenciais são, de longe, o que mais recebo. Sem dúvida existem projetos públicos importantes pelo país, e eu adoraria ver mais deles. Na Wallpaper*, publicamos recentemente uma matéria sobre o renascimento de um projeto de Lina Bo Bardi em Salvador, na Bahia, onde a instituição Pivô trabalha com comunidades locais e artistas para reativar o edifício e seu entorno. Ainda é um plano em estágio inicial, mas a ideia me encanta. Se houver mais iniciativas assim pelo país, quero muito conhecer.

LG: O Brasil costuma olhar muito para os Estados Unidos e a Europa. Temos pouca troca com nossos vizinhos latino-americanos de língua espanhola, o que é curioso, e isso também aparece no diálogo arquitetônico. Você, por outro lado, tem um olhar mais transversal sobre a arquitetura global. Quando olha para o Brasil dentro da América Latina, como enxerga nossa produção em comparação com os pares? Mais tímida ou mais ousada? Mais presa ou mais livre? E, talvez mais importante, você vê pontos de convergência? Afinidades, preocupações comuns?

ES: Acho muito difícil rotular um país assim, então vou escapar um pouco da pergunta! Cada país tem seus próprios desafios — políticos, sociais, geográficos, climáticos. Vejo uma produção muito potente no Brasil, e gostamos muito de publicar isso. Há países da América Latina que acabam sendo mais difíceis de acompanhar, seja por falta de presença local ou de acesso a informações mais rápidas. Mas há muito dinamismo em toda a região, e faz parte do meu trabalho criar conexões com esses contextos. Temos uma relação longa com arquitetos e designers brasileiros, muito por conta do legado modernista, que sempre teve bastante espaço na Wallpaper*. Isso rendeu trocas muito ricas ao longo dos anos, inclusive com pessoas como você.

Isso não significa que eu não queira conhecer mais de outros países também. Há arquitetura incrível e gente criativa em todo lugar. E quanto mais a gente aprende e troca, mais oportunidades surgem, e mais interessante o futuro se torna.

LG: Tive uma ideia meio maluca agora: quem sabe a gente não organiza umas viagens de campo? Leva as famílias junto e tenta entender melhor a arquitetura latino-americana na prática. Topa?

ES: Eu ia amar!

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#55Imagem BrasilArteCulturaSociedade

A Diasporadical Triology como contraimagem do Brasil “pra inglês ver”

por Rafael de Queiroz

Still do filme Diasporadical Trilogia.

A imagem que o Brasil projeta para o mundo — e a forma como nós, brasileiros, processamos nossa própria identidade — costuma passar por filtros que ora nos exotizam, ora nos reduzem a um subproduto tardio do Ocidente. No entanto, quando paramos para observar o território nacional pelas lentes de Samuel Bazawule, o artista ganês conhecido mundialmente como Blitz the Ambassador, essa perspectiva sofre uma inversão radical e necessária. Para Blitz, o Brasil não é um “outro” geográfico, uma nota de rodapé na história da colonização ou um destino turístico de cores vibrantes e melancolia profunda; ele é, fundamentalmente, uma extensão viva, pulsante e ininterrupta do continente africano. Como autor e pesquisador que se debruça sobre as fissuras da comunicação e as potências da imagem, entendo que a obra de Blitz nos convida a uma tarefa urgente: enxergar a afrodiáspora não como um território de perda ou trauma, mas como uma continuidade política e espiritual em que o legado pan-africanista se materializa em estética, som e movimento. 

A narrativa central da Diasporadical Trilogia (2016) não é apenas um acompanhamento visual para um álbum de rap; é uma tese em movimento conduzida por uma figura feminina arquetípica, uma mulher negra que habita um estado de onipresença existencial. Ela vive em três espaços geográficos distintos — Acra, Brooklyn e Salvador — de forma simultânea. Mais do que transitar entre fronteiras, essa personagem transita por diferentes temporalidades, personificando o conceito de tempo espiralar. Como formulado por Leda Maria Martins, a temporalidade espiralar rompe com a flecha linear ocidental para propor um movimento em que o passado habita o presente e o futuro em um ciclo de recorrências. Não se trata de uma viagem no tempo linear, mas de uma coexistência na qual as camadas da história se tocam. 

O ponto de partida dessa espiral é o primeiro ato, Juju Girl, situado em Acra. É crucial destacar que a narrativa em Gana não se perde em um passado ancestral abstrato, mas se ancora em um momento político definidor: o ano de 1957, marco da independência do país. Blitz utiliza de forma magistral o arquivo sonoro do discurso histórico de Kwame Nkrumah, o primeiro presidente da Gana independente e um pan-africanista convicto. Nkrumah proclamou que a independência de Gana seria insignificante, a menos que estivesse ligada à libertação total do continente africano. Ao inserir a voz de Nkrumah, Blitz conecta a diáspora a um projeto político moderno de soberania negra. A mulher que caminha por Acra em 1957 carrega consigo o projeto de um futuro livre que se desdobra para além das fronteiras do continente, estabelecendo que a liberdade de um é a liberdade de todos os que compõem o corpo africano global. 

Ao mergulhar na trajetória de Blitz the Ambassador, percebo um artista que opera como um mestre de cerimônias de uma rádio global, sintonizando o highlife ganês com a urgência do hip-hop nova-iorquino. Minha análise busca compreender como essa trilogia se ergue sobre o que chamo de encruzilhadas epistemológicas, utilizando o conceito de stereomodernism, desenvolvido por Tsitsi Ella Jaji. Esse conceito explica como os povos negros utilizaram as tecnologias de reprodução sonora — do rádio de pilha ao disco de vinil — para criar circuitos de solidariedade transnacional que ignoravam as censuras e as barreiras coloniais. A batida do rap de Blitz funciona como essa rádio global, fazendo vibrar simultaneamente as frequências de três continentes, provando que a tecnologia, quando apropriada pela estética negra, torna-se um instrumento de reconexão ancestral. A rádio não apenas toca música; ela transmite o pulso de uma civilização que se comunica através do Atlântico. 

Essa conexão é potencializada pela teoria de Exu, conforme explorada por Luiz Rufino. Vejo a trilogia como um movimento de trânsito livre, em que a comunicação é o axé para abrir caminhos e conectar as pontas da história. Exu, nesta análise, é a própria epistemologia do movimento: o senhor das passagens e das encruzilhadas que permite que a protagonista transite entre Acra, Brooklyn e Salvador sem perder o eixo identitário. É Exu quem permite o “drible” na narrativa linear e impõe a circularidade que organiza a obra. Na lógica da encruzilhada, o encontro entre Gana e Brasil não é um acidente geográfico, mas um alinhamento espiritual e político. 

Após o despertar político em 1957, a narrativa nos transporta para o concreto do Brooklyn no segundo ato, Shine. Aqui, a busca pela sobrevivência urbana na metrópole ocidental é mediada por uma proteção que a personagem carrega dentro de si. O “brilho” (shine) que Blitz evoca não tem relação com o glamour efêmero da indústria cultural; ele é a luz espiritual e a consciência necessárias para não se perder na névoa da diáspora. A estética do vídeo dialoga com a história do rap clássico, mas a subverte ao inserir elementos rituais e simbólicos que remetem diretamente ao ato anterior em Gana. A mulher que caminha pelo Brooklyn carrega os mesmos amuletos e o mesmo olhar de quem sabe que o território onde pisa é apenas uma fresta em uma história muito maior, conectada diretamente à libertação anunciada por Nkrumah. O Brooklyn, aqui, é uma extensão da luta de Acra, e a resistência se traduz no brilho do olhar de quem se recusa a ser apagado. 

Mas é no encerramento da trilogia, com o curta Running, filmado integralmente em Salvador, que a temática “imagem do Brasil: como nos vemos e como somos vistos” atinge seu ápice. Blitz não veio à Bahia para buscar o “folclore” ou a imagem pacificada de um paraíso tropical. Ele veio para documentar a sobrevivência da África em solo brasileiro como um fato político e estético. A análise descritiva revela uma mulher idosa em uma corrida desesperada pelas ruas de Salvador, cercada por sombras e figuras que simbolizam a repressão histórica, o braço armado do Estado e o racismo estrutural. A “corrida” aqui é a fuga histórica da escravidão que se atualiza na violência cotidiana da metrópole. É a corrida pela vida que atravessa séculos de opressão. 

Entretanto, o desfecho proposto por Blitz é uma poderosa afirmação de poder. A salvação da personagem surge através da intervenção dos Ibejis, os gêmeos sagrados que, na cosmogonia iorubá, detêm o poder de reverter o destino através da alegria, da duplicidade e do novo que nasce. No momento em que os Ibejis aparecem, a temporalidade espiralar se fecha: o Brasil se revela como o refúgio onde a África se preservou através da ação, do drible e da fé. O mar da Bahia deixa de ser o símbolo da separação traumática para se tornar o espelho do mar de Gana. As águas que transportaram a dor do tráfico agora transportam a cura pelo reconhecimento estético. Salvador surge como a capital da resistência afrodiaspórica. 

Ao analisarmos o Brasil através da câmera de um artista africano moderno, somos forçados a nos reconhecer como uma peça fundamental de uma cartografia negra indomável. Blitz the Ambassador nos oferece uma lição de soberania visual: não somos náufragos de uma história de dor, mas herdeiros de uma tecnologia de resistência. A afrodiáspora é solo africano em solo brasileiro — um território onde a imagem que projetamos para o mundo deve ser a de uma identidade negra em movimento e contínua, espiritual e de luta. Essa visão invalida a percepção externa que nos vê como “derivados”; ela nos coloca como protagonistas de uma civilização global que pulsa aqui com a mesma intensidade que pulsa acolá. 

Minha intenção, ao mergulhar nessa obra, é mostrar que Blitz faz muito mais do que música: ele produz um conhecimento visual que nos provoca a repensar a crítica de mídia e o papel das imagens na construção da nossa realidade. A narrativa sobre o negro não pode ser contada apenas de fora para dentro, ela deve emergir da própria raiz. Quando Blitz filma no Brasil, ele dialoga com o saber acumulado do candomblé, das comunidades negras e de toda a nossa tradição de resistência. Ele afirma que Gana e Brasil são vizinhos de porta, separados apenas por uma massa de água que Exu e a tecnologia espiralar sabem atravessar com maestria. 

A Diasporadical Trilogia permanece como um exemplo dessa nova forma de ver e ser visto, um mapa essencial para navegarmos em um mundo que tenta nos desorientar, mas que não conta com a bússola certeira da nossa ancestralidade política e espiritual. Ver o Brasil como continuidade da África é, em última instância, um ato de soberania e de amor político que nos permite, finalmente, olhar no espelho da história e enxergar a nossa própria face projetada no infinito do tempo espiralar. É o reconhecimento de que somos parte de um projeto de liberdade que começou desde a primeira luta anticolonial, reafirmando que a diáspora radical é o nosso território de ideias mais potente. 

Essa jornada visual nos ensina que a imagem que temos de nós mesmos deve ser mediada por esse reencontro. Se nos vemos como parte dessa espiral, deixamos de ser vítimas de uma história alheia para nos tornarmos os arquitetos de uma imagem de Brasil que é, simultaneamente, profundamente brasileira e visceralmente africana. A conexão estabelecida por Blitz the Ambassador é o lembrete de que o Atlântico é um caminho de volta e de que cada movimento de corpos negros, cada ato sonoro advindos destes corpos e cada discurso de liberdade ressoa em ambas as margens, mantendo viva a chama de uma civilização que tem aldeias e quilombos como projeto de futuro a ser atingido. 

*** 

Este texto é uma livre adaptação do artigo científico Mo pèé ìba méta làá b’ okán: “Eu invoco vezes três são como uma”: o sistema Exu-estéreo para ouvir e ver a Diasporadical Trilogia de Blitz The Ambassador, de minha autoria, publicado na Revista ArteFilosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). 

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Este texto pretende ser um convite a pensar como vemos o Brasil e como ele é visto de fora, pelos estrangeiros. Com este pequeno passeio, deseja-se despertar, sobretudo, carinho pelo nosso país — carinho que leve ao cuidado, ao pertencimento, à abertura. Nesse itinerário, talvez vejamos alguns ângulos nossos não tão bonitos, mas que também isso seja carinho, atenção, proximidade. Com calma, tudo poderá ter, a seu tempo, a oportunidade de se alinhar. 

Grande é o Brasil 

O tamanho do Brasil é uma de suas notas definidoras. Desde pequenos, na escola, somos ensinados que o nosso é um dos maiores países do mundo. Ao contrário de tantos outros, que se fragmentaram, se desentenderam, brigaram, continuamos unidos. Continuamos grandes territorialmente. Duas características muito presentes em nossa compreensão do Brasil, portanto: grande e unido. Na terra e na língua. 

Somos diferentes dos outros países, mas não nos achamos esquisitos. Diferentes de um jeito bom, pensamos. Somos únicos. Somos grandes e unidos: pacíficos, calorosos, alegres, criativos. E temos uma natureza incrível. Poucos países (também nos ensinaram isso desde pequenos) têm uma flora e uma fauna tão abundantes como aqui. 

Nossa natureza encanta, assim como nossa arte. Temos orgulho dela. Temos orgulho da nossa cultura, especialmente da nossa música — mas não só dela. Sabemos que o mundo gosta do Brasil, e esta é outra nota definidora da nossa autocompreensão: o mundo gosta da gente, aprecia a nossa terra, a nossa cultura, as nossas praias, as nossas florestas, o nosso jeito de ser e de viver. Somos benquistos. Somos populares. 

Convivemos, desde pequenos, com a exposição a altas doses de ufanismo, mas sempre do nosso jeito: nada nos foi dito explicitamente. Nada foi reconhecido abertamente, e, se isso ocorresse, teria nos constrangido um pouco. Somos grandes e unidos, mas disfarçamos. Não saímos dizendo por aí. Essa mensagem habita o fundo do coração, molda, configura, acalenta, mas sem ser dita, sem ser admitida, sem ser nomeada. 

Adoramos não dizer as coisas claramente. Somos o país do subtexto. O texto explícito, a mensagem oficial, a regra escrita — nada disso vale muito, nada disso importa muito. Vou sim. Combinado. Fechado. Nada disso tem um sentido literal. É antes um gesto afetivo, um aconchego, que se esgota no presente. Ele cumpre sua função no momento em que é dito, em que é ouvido. Depois não sabemos. Nossa resposta não foi um compromisso, foi essencialmente uma gentileza, uma ideia, muito nossa, de gentileza. Não desagradamos. Somos — estamos convencidos disso — gentis. 

Somos o país do presente. Não pensamos no passado. O passado é uma realidade que não está no nosso imaginário nem no nosso afeto. Somos práticos. Pensamos no hoje. Não somos reflexivos, dramáticos, angustiados; vivemos o hoje. Somos desprendidos do passado. E, sob essa lente, somos leves. Não temos bagagem a carregar, a processar, a ressignificar. Não temos contas a acertar. 

Sem passado e com os dois pés no presente. Somos, há de se reconhecer, um pouco adolescentes. Queremos o hoje. Nossa expectativa de futuro é leve, passageira. Não queremos nada que comprometa o presente. 

Sendo adolescentes, somos também volúveis. Alternamos nosso acervo de ufanismo com doses de inferioridade, de estranhamento, de fastio, de desesperança. O Brasil é também o país da corrupção, da violência, da desigualdade, dos privilégios, da hipocrisia e da história oficial. 

O Brasil, não temos nenhuma dúvida disso — nenhum estrangeiro precisa nos dizer isto —, é superlativo também nos seus problemas. Além de não os resolver, conseguimos, muitas vezes, piorá-los. A cada estação surgem novos problemas, e os antigos permanecem, bem plantados e bem regados. 

Sofremos com essa situação. Gera-nos mal estar. Dói-nos viajar para outros países e sentir a carência de tantas coisas no Brasil. De serviço público, de senso de comunidade, de responsabilidade cívica, de uma construção de país de longo prazo. Gostaríamos que tudo isso fosse realidade também na nossa terra, na nossa cidade, no nosso bairro. Mas não o é. E torna-se fácil pensar, nessas horas, em se mudar para Portugal, para a Itália. Ou para Miami. Nessa hora, pensamos no futuro, nas não em um futuro coletivo. Pensamos no futuro familiar, no refúgio seguro para os nossos filhos. Almejamos uma residência onde as questões básicas da vida em sociedade — segurança, saúde, educação — já foram resolvidas por outros, antes de nós. Nós somos especialistas em presente. 

Fácil e difícil 

Narrar como os estrangeiros, os outros países, nos veem não é simples. É assim, de fato, como eles nos veem? Ou estamos projetando nossas impressões pessoais no olhar deles, numa validação da nossa própria compreensão? Aqui não há certeza epistemológica. De toda forma, mesmo com os riscos envolvidos, vale a pena percorrer o caminho. Podemos ver outras sombras e outras luzes. 

Começo por uma hipótese. Os estrangeiros que têm pai ou mãe brasileira têm um grande carinho, uma grande admiração pelo país. Não é “apenas” que a parte brasileira tenha infundido um grande amor pelo Brasil, o que é significativo, é que os filhos de brasileiros veem o Brasil como um outro mundo possível. Outra natureza, outra temperatura, outras relações, outros afetos. Não é apenas um outro país, o país da minha mãe, do meu pai. É um país diferente. 

E, seja qual for a relação prévia com o Brasil, o que os estrangeiros veem de diferente aqui?  

Aos olhos — e ao coração — dos estrangeiros, o Brasil é acolhedor. Com enorme rapidez, estabelecem-se relações sociais. Sentem-se queridos, próximos, envoltos de imediato numa rede de amigos e conhecidos, de eventos. Aquilo que talvez seja o mais difícil em suas culturas de origem, o quebrar a barreira da intimidade, aqui não parece sequer existir. 

O dia a dia dos brasileiros encanta. O abraço, o banho, a alegria, o tempo em outra cadência. Há mais temperatura na relação com os outros, na relação com o corpo, na relação com a natureza. E os estrangeiros logo sentem esta realidade tão presente — e tantas vezes invisível para nós: somos filhos da África e filhos dos indígenas. Eles veem, plasmado no nosso presente, o nosso passado. Um legado muito próprio de humanidade, de cultura. 

Mas não é só encantamento. Depois, os estrangeiros sentem, muitas vezes, o fio da frustração. Há convites, abraços, o apresentar os amigos dos amigos, mas habitualmente é uma intimidade rasa. Vive-se intensamente o presente, mas não se reflete sobre ele. Não se dialoga sobre ele. Não se compartilha o mundo que é visto a partir de dentro. 

O calor do afeto é também sentido na cultura. O Brasil é vibrante, culturalmente diverso, criativo. Experimentam-se os múltiplos sincretismos: o religioso, o cultural, o afetivo. Nesta terra, misturam-se os elementos, as ideias, os corpos, as famílias, as relações, os andares. 

Os estrangeiros veem e sentem a natureza exuberante, a biodiversidade, a desigualdade social. Veem tudo isso e admiram-se. Pelo positivo e pelo negativo. Admiram-se especialmente que nós próprios não vejamos, não valorizemos nossas exuberâncias e nossas desigualdades. Acostumamo-nos com elas — e, para nós, elas se tornaram invisíveis. Os estrangeiros notam nossos apagamentos. No bom e no ruim. Nossa falta de memória. 

É fácil gostar do Brasil, mas ele tem suas complexidades. Suas dinâmicas e tramas escapam dos cânones racionais. O afeto e a violência. Sua democracia e suas instabilidades. Seu Estado forte e, ao mesmo tempo, desigual, incompleto, fraco. 

Nas relações com os outros países, o Brasil cultiva paradoxos. Há proximidade, mas há distância. Há acolhimento, mas há indiferença, desconhecimento, alheamento. Isso é notório em sua relação com Portugal; é assustadoramente notório com seus vizinhos. Por suas dimensões e qualificações, o Brasil é inegavelmente uma liderança na América Latina, mas sustenta e reproduz, diariamente, o seu isolamento na região. A América Latina são os outros. 

Eis, então, a pergunta: tem o Brasil uma identidade definida no exterior? Sim, inclino-me a dizer. Ninguém fica indiferente quando se diz que é brasileiro. Mas também penso no “não”: cada vez que o mundo nos conhece mais, vê nossas pluralidades e encruzilhadas. E já não se vê tão facilmente o Brasil. As antigas nitidezes esfumam-se. 

Talvez 

Talvez o primeiro passo para uma compreensão mais madura sobre o Brasil esteja em não pretender encaixá-lo numa expectativa, numa ideia. Nosso país não é como ele deveria ser. No Brasil, talvez haja uma maior distância entre o ser e o dever ser em muitos sentidos, em muitos aspectos, no ruim e no bom. Nesse hiato, vislumbram-se espaços de liberdade. 

Por que somos assim?, nos perguntamos. Nessa reflexão, podemos talvez incluir outra questão: para que somos assim? Isto é, com o que podemos contribuir sendo dessa maneira? 

Mais do que dar respostas fechadas, talvez o horizonte mais luminoso esteja em integrar, na nossa busca pelo Brasil, a dimensão temporal. Seu passado, seu presente, o nosso futuro. 

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Ritual de iniciação

por Trudruá Dorrico

Desfiando algodão e fazendo rede, de Carmézia Emiliano, artista de etnia macuxi. Reprodução

Eu me chamo Trudruá Dorrico, sou indígena makuxi, povo que ancestralmente ocupa a terra que hoje se divide entre os países Brasil, Guiana e Venezuela.  

O povo makuxi possui o tronco linguístico Karib. O nome de nossa língua é o mesmo do povo. Temos costumes como o de dançar a parixara, comer damorida, vestir saia de palha. E viver o presente e todas as suas tecnologias: estudar, aprender outras línguas, fazer intercâmbio, dialogar com outros mundos, viajar.  

Cena 1: meus pais  

Eu estou morando em Paris.  

Mas, antes de contar essa história, vou fazer um brevíssimo relato de migração.  

Meus pais, em decorrência do garimpo, mudaram-se da Guiana para o Brasil, e de Roraima para Rondônia, onde eu nasci, em Guajará-Mirim, na década de 1990. Cresci num distrito chamado Abunã, uma comunidade ribeirinha instalada às margens do rio Madeira. Pode-se dizer que era bem dentro da Amazônia.  

Sou filha de mãe macuxi da Guiana e pai quéchua do Peru. A geopolítica sempre atravessou, portanto, minha vida. Minha mãe é falante da língua macuxi, inglês e português; meu pai, quéchua, espanhol e português. No tempo deste texto, eles se divorciaram há muitos anos. Apesar disso, foi suficiente para, até os nove anos, eu estar cercada de línguas e culturas diversas. Essa pluralidade nunca foi, para mim, uma barreira; pelo contrário, foi um jeito de aprender a viver com culturas e línguas diversas.  

Com a separação dos meus pais, minha mãe nos levou, eu e meus irmãos, para Roraima, Boa Vista, com as tias, e para Bonfim com meu avô e minha tia-avó. Bonfim faz fronteira com Lethem, Guiana. Esse é um Brasil que muitos brasileiros de outras regiões nunca nem ouviram falar. Em Abunã, se cruzássemos o rio, chegávamos ao território boliviano. Muitos soldados de lá inclusive desciam para o nosso distrito para comprar pão e mantimentos. Antes não tinha ponte, hoje tem, mas também era uma balsa fluvial que a gente pegava para atravessar o rio Tacutu, chegar ao Lethem e fazer compras, pois Lethem é um centro comercial a céu aberto, é região de livre comércio. Guajará-Mirim, onde nasci, também tinha fronteira internacional: com Guayaramerín, na Bolívia.  

Estou mostrando todas as fronteiras que fazem parte da minha história para exprimir que eu sempre vivi entre fronteiras geopolíticas. Hoje, viver na França me lembra de todos esses lugares em que cresci e passei a maior parte de minha vida. Contudo, viver em outro continente me faz pensar em algumas coisas.  

Cena 2: eu  

A primeira vez que vim a Paris foi no ano de 2023. Vim fazer uma residência artística de três meses no Cité Internationale des Arts a convite do Theatro Municipal de São Paulo. Aqui escrevi o livro Tempo de retomada, que, mais tarde, em 2025, seria tema do Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Quando cheguei aqui, não sabia falar uma palavra em francês, e achava que a língua francesa se chamava françois.  

Não saber a língua francesa me colocou num lugar de criança novamente, e eu acho que voltar ao estado de ser criança é muito bom. Tipo quando a gente anda num bairro pela primeira vez e se perde, ou quando algo te faz lembrar da sensação que você sentiu nos seus primeiros anos de vida, como ter feito capoeira me lembrou que eu brincava de rodar até cair de tontura. Enfim, me senti nesse estado, de tudo novo, tudo escrito numa outra língua, acordando com outra arquitetura, com muitas nacionalidades indo e vindo na cidade mais visitada do mundo.  

Me perguntei: o que eu, indígena, faço aqui, nesta cidade de arte que não me entende? Ao mesmo tempo que consegui curar a fadiga mental decorrente do doutorado e da pandemia, comecei a me desesperar e pôr em cheque minha capacidade intelectual de aprender outros códigos neste país. Estudar é sempre minha direção, eu acredito na minha intuição pesquisadora, então fui estudar a língua no ano seguinte para poder me fazer compreender.  

E aí outras questões se impuseram a mim, como anunciar minha nacionalidade. Porque eu não sou só brasileira, eu sou macuxi-brasileira. Eu nunca tinha comprado uma blusa do Brasil e ainda não tenho uma bandeira, apesar de querer comprar, nunca tinha tido vontade de gritar que amo o meu país, que samba e carnaval nem são as festas mais populares de nossa região. Eu gostaria de gritar, ser patriota, mas como posso amar um país que só agora está começando um relacionamento com os povos indígenas?  

24 de fevereiro de 2026. Abro o Instagram e vejo uma enxurrada de postagens sobre a vitória da mobilização indígena — cito aqui a da parenta Alessandra Munduruku, mas tem muitas outras — contra o Decreto nº 12.600/2025, que abria caminhos para a privatização dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira, cuja maior interessada é a empresa Cargill, que, por sinal, é francesa e multinacional do agronegócio. A minha apreensão é sobre a velocidade com que se faz um decreto, sobre como o preço para desabilitá-lo custa a vida dos meus parentes. São evidentes a alegria e os sinais da permanente luta e vigilância contra a ameaça dos rios. A vitória é do rio e dos parentes que se mobilizaram por 32 dias frente à ameaça iminente da empresa privada e da conivência do Estado brasileiro. 

O ano de 2025 foi marcado pelo pacto cultural Brasil e França, com atividades culturais brasileiras na França e francesas no Brasil. Esse intercâmbio cultural teve forte repercussão aqui. Em ruas, restaurantes e academias, vi várias pessoas com a blusa do Brasil. As atividades que fui ver nas margens do Sena tinham um público considerável de brasileiros e gente de outras nacionalidades.  

O que, no entanto, mais aqueceu meu coração foi a parte da pesquisa. Estudantes indígenas oriundos do Programa Guatá, voltado exclusivamente para mestrandos e doutorandos indígenas das universidades Unicamp, UnB, UFMG, UFSCAR, UEA e UFRR. Eu participei, a convite de estudantes e professores envolvidos no programa, de seminários e conferências, e foi muito bom ver a demarcação da produção de conhecimento. Cada estudante indígena acaba exibindo um Brasil que a França não conhece. 

Cena 3: permanência 

Todas as vezes que eu falo que sou brasileira, percebo uma simpatia, mesmo que ela não tenha sido apresentada de primeira. É muito difícil julgar um país a partir de experiências singulares, e eu só posso falar a partir das minhas poucas vivências dos trânsitos Brasil-França que fiz de 2023 a 2026.  

Falando como macuxi, eu queria não ter esse ressentimento com o Brasil. Talvez eu fosse mais corajosa, mais sorridente, mais leve a qualquer manifestação cultural, e não reticente. Quando, Brasil, você vai nos amar de verdade?  

Culturalmente falando, Caramelo, cinema, Amazônia, Havaianas, brigadeiro, mousse de maracujá têm me confortado nesse continente do lado de cá. E o fato de o Brasil estar na moda.  

Aprender a língua francesa é uma ferramenta para apresentar um outro Brasil aos franceses, o Brasil Macuxi.  

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por Thiago Thiago de Melo

Nos idos de 2016, fiz um show no Brooklyn, em Nova Iorque, apresentando músicas do meu primeiro álbum solo, Amazonia underground (Blacksalt Records, 2017), para um público heterogêneo de brasileiros, americanos, latinos, europeus e asiáticos. No fim dele, fui abordado por um casal de japoneses que estava ali depois de terem buscado na internet por programas culturais que tivessem como tema a natureza e o meio ambiente. Disse-me o casal que gostou muito do som, mas que lamentava não entender as letras, que julgavam, com razão, ser elemento importante das minhas canções. Minha resposta imediata foi dizer que não se preocupassem, pois, ironicamente, no Brasil, as minhas letras também não eram totalmente compreendidas pelo público que ia aos meus shows, sobretudo na região Sudeste — em cidades grandes do Norte, como Manaus, Macapá e Belém, e de pequeno e médio porte, como Parintins, Borba e Barreirinha, por outro lado, havia menos “ruído” na comunicação. Eles ficaram espantados com isso e, desde então, reflito constantemente sobre essa questão. Afinal, se escrevo e canto em português, a compreensão deveria ser razoável, não?  

Desde pequenino fazendo a travessia entre o Rio de Janeiro e o rio Amazonas, cedo percebi que palavras como pirarucu, tucandeira, pirarara, curuminzada, inajá, cunhatã, urucum, igapó, tuxaua e tipiti, entre uma infinidade de outras (muitas das quais presentes no meu cancioneiro), eram tão naturalmente identificadas no repertório vocabular de caboclos, quilombolas, ribeirinhos e indígenas do Amazonas quanto estranhas aos habitantes das grandes cidades brasileiras das regiões Sul e Sudeste. Que língua vasta e complexa o português! Como é rica a contribuição das línguas indígenas para o português falado no Brasil! O pensamento indígena provoca uma reflexão aguda sobre quem somos, os brasileiros, como se isso implicasse um desconhecimento, uma alienação, um descolamento da realidade: o brasileiro tem dificuldade em se reconhecer indígena (embora, no exterior, seja muitas vezes identificado como tal, até de modo pejorativo). Não sabemos as palavras porque não sabemos as histórias, porque não vivemos as culturas, sobreviventes de um projeto de apagamento. A ficha cai em algum momento: as elites e as classes médias urbanas, formadas em universidades e orgulhosas de falarem inglês, são praticamente analfabetas dos muitos brasis que fazem o Brasil. 

Será que o casal de japoneses no Brooklyn imaginava um Brasil consciente de sua rica natureza e biodiversidade, e por isso se espantou? Será que o feitio que fazia do nosso país era indígena? Não saberei, apenas especulo. O certo é que essa situação me chamou a atenção para a imagem que projetamos sobre nós mesmos no exterior e também aqui dentro de nosso país. Sendo um compositor e cantador brasileiro, a relação entre cantar e contar é, para mim, um gesto político, forma pela qual posso, através da arte, (in)formar o público sobre as possibilidades de nossas línguas nos (re)ligarem aos muitos territórios que compõem o território nacional.  

A relação entre a língua portuguesa e o território brasileiro remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento literário sobre nosso país. Em 1500, mal acabaram os marinheiros lusitanos de bradar “terra à vista”, o capitão da frota logo tratou de dar nome ao que estava diante dos olhos: ali, o Monte Pascoal; essa, a Terra de Vera Cruz. Interessante notar que os primeiros habitantes daqui foram identificados pelo escrivão português como “pardos”, “avermelhados”. As línguas têm esse poder de nomear, de fazer existir. A imagem do que depois seria chamado de Brasil foi, tão logo aqui chegaram os estrangeiros, sendo construída por esse olhar “de fora”, marcado por alteridade radical. Não deixo de imaginar a dita “primeira missa”, proferida por frei Henrique e relatada por Pero Vaz como momento de prazer e devoção por parte de todos os presentes diante da bandeira de Cristo e da leitura do Evangelho. Se essa carta pudesse ser reescrita, se o enunciador fosse indígena, o que diria desse primeiro contato com os europeus? Sabemos apenas a perspectiva alienígena, dos que vieram de fora. Há, nesse ponto, uma violência simbólica, uma imposição ideológica, típicas do eurocentrismo e seu projeto colonizador mercantilista, como se essa visão parcial daquele instante representasse a totalidade de um momento tão complexo. 

Hoje em dia, num cenário global multifacetado e polifônico, com todas as vozes falando ao mesmo tempo — claro que umas mais alto do que outras, muitas vezes silenciadas —, temos a chance de olhar para essas situações de modo crítico, tensionando a relação entre o modo como somos vistos no exterior e a forma como projetamos nosso retrato para nós mesmos. Nesse sentido, um paralelo interessante é o que encontramos no relato do paraense Daniel Munduruku, um dos mais prolíficos escritores indígenas contemporâneos, quando ele narra, em seu livro Histórias de índio, que até ingressar na escola, em uma cidade grande, recém-saído de sua aldeia, ele nunca tinha sido chamado de índio nem nunca tinha ouvido essa palavra. São momentos assim que nos fazem constatar o descompasso, muitas vezes violento, entre como nos vemos e como somos identificados pelos outros. 

O modernismo brasileiro, cujo marco é a Semana de Arte Moderna de 1922, caracteriza-se pela busca de uma identidade nacional através de postura antropofágica, remetendo ao canibalismo de vários povos indígenas. Nesse processo deglutidor, seriam incorporadas desde as vanguardas europeias até as tradições populares e folclóricas do Brasil, dando forma a uma arte e a uma cultura brasileira autêntica. As inspirações indígenas dos modernistas não abriram espaço, contudo, para a presença de artistas dos povos originários nas publicações e exposições da época. Artistas indígenas da contemporaneidade são os que melhor têm exposto essa contradição: Denilson Baniwa, artista plástico amazonense com muitas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior, por exemplo, é o autor da obra Re-antropofagia, trabalho que confronta a apropriação do mito de Makunaimã feita por Mário de Andrade em sua obra seminal. Ao retomar essa figura, Baniwa propõe um movimento de “re-antropofagia” das cosmogonias indígenas, desestabilizando os preconceitos e as narrativas folclóricas construídas pela elite modernista do Brasil. O “re” do título, segundo Baniwa, significa “revolta”, “revisão”, “reviravolta”, “reconhecimento”. 

Tais movimentos dentro da arte brasileira são interessantíssimos para nossa imagem como país, pois indicam uma mudança fundamental: se, para os modernistas, os indígenas deveriam ser recuperados em algum lugar de nosso passado, para artistas como Denilson Baniwa e Jaider Esbell (outro exemplo luminoso nesse sentido, os indígenas estão vivos — apesar do projeto colonizador e seu propósito de apagamento —, produzindo arte, pensamento, resistindo ou simplesmente vivendo no presente, contribuindo, assim, para a construção do mundo em que vivemos. 

Torço para que saibamos melhor sobre as línguas, as culturas e os povos indígenas; para que a imagem que os brasileiros fazem do Brasil seja cada vez mais orgulhosamente indígena. Temos que conhecer para nos aproximar, criar vínculos e reconhecer raízes. Nesse sentido, cantar tem sido para mim um modo de voltar a ser árvore, bicho, floresta. É o que eu respondo quando me perguntam, provocativamente, se minha intenção é que ninguém entenda minhas letras quando escrevo, por exemplo: 

Tempo virou 
Vento varreu a capoeira 
Na capivara caipora 
Se enfeitou 
Perto da pirambeira 
A tucandeira 
Curumim, leso, se encantou 
Por feiticeira
(A voz dos ancestrais, canção de Thiago Thiago de Mello e Diogo Sili).

É o contrário, eu digo: quero que um grande número de pessoas entenda. Ou se sensibilize, se identifique. Fará um bem enorme para a saúde geral do mundo o reconhecimento dos brasileiros e dos estrangeiros de que o Brasil é, sobretudo e antes de mais nada, um país indígena. Segundo o escritor Alberto Mussa, ao falar sobre nossa ancestralidade, “há 15 mil anos somos brasileiros e não sabemos nada do Brasil”. Já está, portanto, mais do que na hora. Como salienta a poeta e pesquisadora macuxi Trudruá Dorrico, “é tempo de retomada”.  

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Sempre gostei da piada de que meu avô Dalvo era “gerente de programação da Rede Globo”. O contraste entre a figura daquele homem — que saiu da Bahia ainda jovem para ganhar a vida como pedreiro em São Paulo — em nada combinava com a ideia engravatada de um “gerente”, ainda mais da Globo.  

Meu avô também era alcoolista. Mas, em algum momento da vida, recebeu uma intimação do médico: ou parava de beber, ou morria. Ele parou de beber. Entre os novos hábitos adquiridos para substituir o álcool estavam as telenovelas. Foi daí que nasceu a piada do “gerente de programação da Rede Globo”. Meu avô sentava no sofá da sala por volta das 17 horas, quando começava Malhação, e só saía quando acabava a novela das 21 horas. Não recebia salário nem tinha vínculo formal com a emissora, mas era capaz de opinar sobre todas as tramas de todos os núcleos de todas as novelas em exibição. Mais do que isso: ele conversava com os personagens, elevando a outro nível o clássico hábito do brasileiro de desejar “boa noite” ao William Bonner. E ele não era o único.  

No Brasil, desde os anos 1950, as telenovelas construíram intimidade com o público, ao entrarem em seus lares e se entrelaçarem com suas vidas. No livro Que rei sou eu?: política e novela no Brasil, o pesquisador Bruno Fillipo pontua que existem dois eixos originários da teledramaturgia: o estadunidense e o cubano, ambos ligados ao desenvolvimento das radionovelas. Enquanto, nos EUA, as soap operas trazem histórias sem começo, meio e fim, que podem durar décadas — a exemplo de Days of Our Lives, exibida entre 1965 a 2013 —, as novelas latino-americanas estruturadas na matriz cubana têm um desenvolvimento linear da trama. “No Brasil, a dramaturgia de rádio e ​​TV articulou-se à influência histórica dos folhetins, romances que eram publicados em capítulos nos jornais e nas revistas desde o século 19”, escreveu Fillipo.  

A autora Rosane Svartman, no livro A telenovela e o futuro da televisão brasileira, lembra ainda que, “enquanto as telenovelas mexicanas se tornaram mais melodramáticas, por exemplo, as brasileiras se tornaram mais naturalistas, investindo em filmar em locações reais e fazendo uso de linguagem coloquial”. 

As singularidades não param por aí. “Ao contrário do teatro e do cinema, a novela é uma obra cuja trama vai sendo escrita aos poucos pelo autor, o que lhe permite realizá-la de forma contínua à apresentação ao público, tornando-a suscetível à pressão dos índices de medição de audiência, do espectador e da opinião pública”, escreveu Fillipo.  

Logo, ao contrário do que eu poderia supor ao ver meu avô falando com a ​​TV, não se tratava de uma conversa com a parede, mas de um diálogo simbólico verdadeiro, comum nos mais variados lares brasileiros. Isso porque as histórias respondem aos anseios do público, e o público absorve as mensagens das histórias. Mais do que alucinação, o diálogo entre o espectador e a história é uma das bases do gênero. Isso faz com que, ao longo de mais de 70 anos de história, as telenovelas se tornem dispositivos de memória que funcionam como verdadeiras máquinas do tempo, nos permitindo enxergar diferentes retratos do Brasil.  

A novela Roda de gogo (1986), de Lauro César Muniz, é um exemplo eloquente. Primeira trama exibida após o fim da ditadura militar na Globo, ela ainda carrega ecos do período de chumbo, o que a torna particularmente rica. Ainda assim, foi uma cena aparentemente simples que me provocou um curioso deslocamento temporal. Nela, um personagem sugere “tomar uma saideira” no bar. Militante recém-chegada do exílio, a personagem de Eva Wilma estranha o termo; o personagem de Tarcísio Meira então explica que se trata da última rodada de bebida antes de ir embora. Parece óbvio, mas, até então, nunca havia me ocorrido que uma expressão tão comum pudesse ter sido historicamente construída. 

A expressão provavelmente só foi incorporada à novela porque já circulava nas ruas. Ao mesmo tempo, o fato de precisar ser explicada em cena sugere que a dramaturgia também ajudou a popularizar seu significado. Isso nos leva à inevitável questão circular que acomete todos aqueles que se debruçam sobre o tema: são as novelas que refletem a sociedade ou é a sociedade que reflete as novelas? Além do mais, se isso acontece com expressões, poderia também acontecer com a própria imagem que temos do Brasil?  

É inegável que as novelas podem funcionar como superfícies lisas nas quais podemos nos enxergar. Nesse sentido, cada autor parece criar um país à sua imagem e semelhança. As Helenas de Manoel Carlos evocam um Brasil solar e sofisticado, herdeiro da bossa nova, onde personagens elegantes tomam drinques no Leblon; já os folhetins de Walcyr Carrasco mergulham na agitação frenética de São Paulo e em suas tensões urbanas. O Brasil imaginado por Benedito Ruy Barbosa — em novelas como Pantanal (1990), O rei do gado (1996) e Terra nostra (1999) —, por sua vez, é rural, atravessado por disputas de terra, tradição e pertencimento. Em obras como Roque Santeiro (1986) e Saramandaia (1976), Dias Gomes apresenta um país alegórico e profundamente político, onde o absurdo convive com a crítica social. Enquanto isso, Glória Perez expande esse imaginário ao incorporar outras culturas às tramas brasileiras, como em Caminho das Índias (2009), cujas cenas, em 2026, viralizaram na própria Índia. 

Mas nem sempre o reflexo é tão límpido. Em 2024, antes mesmo de sua estreia, a novela No rancho fundo sofreu duras críticas na internet ao apresentar um Nordeste estereotipado. Nas imagens em tom sépia, os personagens apareciam esfarrapados, com uma paleta terrosa, que fez muitos espectadores questionarem a “estética da pobreza”. Para a pesquisadora Thaysa Gabrielle, o pobre imaginado pelos roteiristas e figurinistas da trama é, como dizem em Pernambuco, “malamanhado”: “Num país com ranço escravista e elitista, o pobre não tem direito nem às imagens produzidas sobre si. O que chega até nós em filmes, novelas e séries parte de uma fonte onde aos pobres não resta nem a dignidade de representação”.  

Em muitos casos, porém, o espelho se inverte, e as novelas passam a refletir demandas da própria sociedade, ajudando a criar imagens que compõem um novo imaginário. O documentário Orgulho além da tela, que analisa a presença LGBTQIAPN+ nas novelas, evidencia como essas mudanças se desenrolam. Se o primeiro personagem gay da televisão brasileira — interpretado por Ary Fontoura em Assim na terra como no céu (1970) — era restrito ao alívio cômico e impedido de demonstrar afeto, hoje a televisão aberta exibe personagens lésbicas que trocam carícias e protagonizam cenas de sexo em Três Graças (2025). 

No livro A negação do Brasil, o pesquisador e documentarista Joel Zito Araújo reflete sobre outra questão, a racial. Ele explica que o horário das 18 horas é onde, historicamente, mais se concentram personagens negros, uma vez que essa é a faixa horária reservadas às novelas de época, muitas vezes com tramas coloniais. Durante anos, portanto, nas novelas históricas, aos negros eram reservados somente os papéis de pessoas escravizadas. No entanto, obras como Lado a lado (2012) e, mais recentemente, A nobreza do amor (2026) — na qual, de forma inédita, personagens negros surgem adornados em ouro como parte de uma realeza africana — ajudam a romper com esse padrão. Para o pesquisador Victor de Rosa, obras assim nos dão a “possibilidade de criar personagens negros dignos e revelar brechas de nossa história para um grande público”. 

Essas novas imagens também ajudam a redesenhar a forma como algumas doenças são compreendidas. Isso se revela, por exemplo, ao observar o caso de Vale tudo (1988), novela de Gilberto Braga, que ganhou uma releitura assinada por Manuela Dias em 2025. Através da personagem Heleninha Roitman, a trama mostra que a compreensão sobre o alcoolismo passa por uma série de fatores. Ao nos apresentar a mesma personagem, no mesmo enredo, com 37 anos de diferença, as duas versões da novela oferecem uma janela única com vista tanto para o passado quanto para o presente, mostrando como a construção e a desconstrução de estigmas podem levar décadas para se estabelecerem.  

O que essas representações revelam é que não existe uma imagem única ou fixa de Brasil. Ao longo das décadas, a teledramaturgia ajudou a consolidar estereótipos, cristalizou imaginários e, muitas vezes, limitou quem podia ocupar o centro das narrativas. Mas, justamente por trabalhar no campo das emoções, ela também deslocou essas imagens e abriu espaço para outras possibilidades de país.  

“Não adianta fazer discurso, porque discurso tem contestação”, afirmou Glória Perez no documentário Orgulho além da tela. “A grande arma de quem faz novela é que você chega nas pessoas pela porta da emoção. E as pessoas não têm defesa quando se emocionam.” Mais do que refletir o país, as novelas participam ativamente da maneira como o Brasil aprende a se enxergar, a se desejar e a se imaginar. 

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Groove, suingue, balanço… Requebra o quadril, balança a trança, agarra a cintura, exibe a tattoo, beija na boca. A expansão do corpo que dança é amor e é vingança. Os bailes funk do Rio de Janeiro são, há pelo menos três décadas, uma das expressões mais libertárias, um dos poucos gestos que afrontam, de forma corajosa e libertina, a luta de classes perversa e feroz que se infiltrou na sociedade brasileira desde a chegada dos navios repletos de africanos escravizados ao litoral brasileiro. 

Baile do Boqueirão. Rio de Janeiro, 2007. © Vincent Rosenblatt
Baile da Arvore Seca, Complexo do Lins. Rio de Janeiro, 2010. © Vincent Rosenblatt

Mas isso tudo só foi possível saber porque Vincent Rosenblatt, fotógrafo brasileiro acidentalmente nascido na França, nos deu a ver flashes da espontaneidade genuína, da pulsão de vida, da rebeldia e da alegria, como se estivéssemos alucinadamente colocados no meio de um salão pendurado no morro, mas sem pedir socorro. 

Rosenblatt, antes de mirar suas lentes para essa explosão de vida e consciência política que transpira nos bailes funk, criou a oficina de fotografia Olhares do morro, entre 2002 e 2008, na comunidade de Santa Marta. Foram muitos os jovens e adolescentes que aprenderam o ofício da fotografia e passaram a representar seus territórios, criando uma visão livre dos vícios e preconceitos da representação comumente observada nos veículos de comunicação. 

Samyra Santos, Yolo Love Party. Rio de Janeiro, 2023. © Vincent Rosenblatt

Olhares do morro ajudou a criar consciência e autoestima. Foi dessa forma que “o francês”, como Rosenblatt é chamado nos bailes e morros, foi adquirindo legitimidade para acessar e representar as quebradas, os lares, os encontros, as festas. Nesse ponto, o fotógrafo torna-se também um exemplo muito bem delineado de como o “lugar de fala” é algo que pode, de fato, ser conquistado. Nesse mundo de radicalismos, em que cada vez mais somos levados a pensar como algoritmos, sem nuances e meios-tons, a atitude de Rosenblatt, que assume o papel de um antropólogo errante, é a prova cabal de que convivência, cumplicidade, parceria e afeto podem unir opostos, conciliar conflitos e, por fim, bailarem juntos no chão quente da pista. 

Funkear é preciso! E é mais que preciso funkear a contrapelo do moralismo e dos preconceitos que cercam toda e qualquer manifestação cultural e social que envolve pessoas racializadas e menos privilegiadas política e economicamente. 

É mais que preciso funkear para afirmar existências dentro de uma política de Estado historicamente construída para marginalizar e excluir a maior parcela da sociedade brasileira. Flash: segundo o Atlas da Violência no Brasil de 2023, 96 pessoas negras são assassinadas diariamente neste país, e 76% das vítimas de homicídio são negras. 

Baile do Boqueirão. Rio de Janeiro 2006. © Vincent Rosenblatt
Baile do Morro da Gamba, Complexo do Lins. Rio de Janeiro 2009. © Vincent Rosenblatt

Groove… A madrugada avança, o corpo dança, “o francês” faz de sua câmera um instrumento de captação de delírios, sonhos ultracoloridos, desejos explícitos, expansão dos sentidos: odores, sabores, o toque na pele suada, arrepios, respirações ofegantes, visões extasiantes. A sensualidade extrema é também um manancial político. Corpos aviltados pela falta de oportunidades na educação, na saúde, no trabalho, na vida encontram, nos bailes funk, a possibilidade de atravessarem um portal onde podem ser e estar no mundo em plenitude. O funk, dessa forma, é uma insurreição social, estética e territorial que emerge das periferias e desafia estruturas de poder, moralidade e representação. É isso que MC Smith proclama, desde o Morro do Alemão, na letra de seu hit Vida bandida: 

Nossa vida é bandida
E o nosso jogo é bruto
Hoje somos festa,
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Caveirão não me assusta!
Nós não foge do conflito
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No sangue de Jesus Cristo 

Baile do Fazenda F.C,. São João do Meriti 2011. © Vincent Rosenblatt

Colocando fotografias nas trincheiras para que a festa não se torne luto, Rosenblatt nos leva a espiar esse mundo que resiste entre sons sincopados e letras furiosas por um caleidoscópio mágico. Suas fotografias têm o poder de romper a superfície e nos arremessar para dentro, por entre as fissuras, na espessura das cenas. Sua lente chega perto, muito perto, dos corpos, dança junto, colada, pertencendo a esse universo. Fotografia de mão dupla que dá ao outro a possibilidade de se autorrepresentar. 

Flash: uma deusa ébano, de cabelos louros, infinitos e encaracolados, carrega um sol em raios fúlgidos no colo — onde amor e mágoas coexistem — e, sobre ele, a deusa ordena: fogo nos racistas! A fotografia de Rosenblatt é esse fogo que faz o racismo arder em chamas. 

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Desde 2008, Vincent Rosenblatt acompanha festas de aparelhagem do interior do Pará. Quando chegou à cena, já fotografava bailes funk no Rio havia alguns anos, e percebeu uma aproximação entre aqueles universos. “As festas em Belém”, conta, “me pareciam uma tecnologia social parecida, onde territórios e pessoas marginalizadas retomavam sua centralidade, criavam rituais coletivos e geravam o que há de mais contemporâneo no Brasil.” 

Lançamento do Crocodilo Prime, Via Show, Belém do Pará, 2017. Foto © Vincent Rosenblatt.

Nas festas de tecnobrega, estruturas de aço e LED assumem formas de águias, crocodilos e touros futuristas para dominar a experiência, como se o som ganhasse corpo diante do público. “Cada uma tem seu repertório, sua lenda contemporânea, sua reencarnação numa nova versão ainda mais moderna a cada dois ou três anos.”. Nas mãos de artesãos como João do Som, essas máquinas ganham personalidade e presença cênica próprias. 

Lançamento do Superpop Ultra Live em Icoaracy, novembro de 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 As fotografias do francês buscam capturar o caráter ritualístico das festas. Elevado sobre a aparelhagem, o DJ conduz fogos, lasers e luzes estroboscópicas enquanto a máquina pulsa como um semideus evocado pela música. 

A Fénix do Marajo, Belém do Para, 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 “Fico horas e noites adentro numa entrega hipnótica, tentando captar a vida própria dessas máquinas sobrenaturais”, explica o fotógrafo. “Chamo a série de Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase o show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase do show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Aparelhagem Tupinambá Saudade. Belém do Pará, 2016. Foto © Vincent Rosenblatt.
Crocodilo no Rio de Janeiro. Festival Paredao. Foto © Vincent Rosenblatt.

Quando as imagens se sobrepõem, os clarões distorcem a percepção e a multidão entra em um estado compartilhado de fascínio. “A fotografia tenta captar essas epifanias”, diz Rosenblatt. “Gosto de imaginar que uma cosmogonia ancestral encontrou outra forma de se manifestar ali, graças a esse dispositivo profano.” 

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por Ludimilla Carvalho Wanderlei

Quais imagens povoam o imaginário brasileiro a respeito de nós mesmos? Que referenciais moldaram nossas representações, em uma perspectiva histórica e cultural? De onde partem os olhares lançados sobre nossos modos de ser, estar e sentir, e que construíram e constroem a nossa imagem através de pinturas, gravuras, fotografias e filmes, catalogados, exibidos e valorizados pela institucionalidade do mundo da arte e pelo senso comum? 

Pintores e gravuristas estrangeiros forjaram as primeiras visões de populações originárias, fauna e flora locais desde o processo de invasão dos territórios americanos. Nesse sentido, autores latino-americanos como o filósofo Enrique Dussel, o semiólogo Walter Mignolo e o sociólogo Aníbal Quijano deram contribuições valiosas para entendermos o projeto colonial no contexto da modernidade europeia como uma agenda de dominação político-econômica que inclui uma contraparte simbólica essencial, sem a qual esse projeto não seria possível nem teria sido consolidado. Para além do poder e do dinheiro, é preciso que o dominado se sinta vencido, pouco disposto à resistência, também quando suas elaborações, vindas do espírito e da mente, seus modos de se relacionar e suas cosmovisão são rebaixados, ridicularizados e invisibilizados a tal ponto que acabem destruídos ou perseguidos.  

Quijano, inclusive, explica que a colonialidade — termo que se refere ao lugar de subalternidade forçada decorrente do colonialismo, mas não restrito ao seu marco temporal, e, por isso mesmo, ainda em operação nas relações entre Norte e Sul Global — vai criando identidades coloniais, como “o índio”, “o negro”, “a mulata”. São designações classificatórias totalmente estranhas ao mundo de significados dos indivíduos aos quais são aplicadas e que fazem sentido apenas em um contexto de inferiorização intelectual, social e cultural planejada pelos brancos europeus.  

Trabalhos de Albert Eckhout, pintor holandês do século 17, são exemplares de representações estereotipadas, integradas a um plano de conquista sofisticado, com ecos de disciplinas como biologia, filosofia, antropologia e estética. As identidades coloniais encontradas nas pinturas de Eckhout incluem mulheres trajadas ao estilo do vestuário greco-romano clássico, em um esforço de europeização flagrante, ou mulheres (negras) com os peitos de fora, acompanhadas de crianças nuas, todo mundo sem nome, sem origem. A figura feminina aparece vinculada aos papéis sociais de mãe, escravizada ou vendedora ambulante, e o olhar do pintor sugere que seus corpos estão disponíveis à domesticação e à exploração, tanto quanto a paisagem natural que emoldura as cenas. O artista pintou também uma mulher indígena que carrega uma mão e uma perna humanas, sugerindo o canibalismo como prática de grupos bárbaros e sem alma. Essas imagens são facilmente encontradas na internet, mas certamente muitos de nós as conhecem dos livros de história do Brasil ou de história da arte (europeia).  

O processo se aprofunda no Brasil oitocentista, nas obras de artistas como Johann Moritz Rugendas (alemão) e Jean-Baptiste Debret (francês). Nos seus trabalhos, não são raras as cenas de violência e humilhação contra negros e negras, além da exploração de contrastes entre senhores e escravizados. De um lado, a vida material precária e o trabalho forçado; de outro, a liberdade, a fartura. O recorte de classe, o racismo e a sexualização dos corpos subalternos são, assim, ensinados sistematicamente na vasta iconografia sobre o Brasil, em uma pedagogia garantidora do status quo estrangeiro. 

A fotografia, filha do progresso e da racionalidade e gestada na barriga da objetividade, elevou essas questões a um nível de complexidade que ainda não havia sido experimentado. Para a artista e pesquisadora Ariella Azoulay, a fotografia, embora separada por séculos da época dos “descobrimentos”, já que foi “inventada” em 1839, deve ser inserida no amplo conjunto de tecnologias coloniais, pois ela serve ao exercício dos direitos de dizer quem é sujeito e quem é objeto (do olhar, inclusive), o que é novo e moderno (determinando também o que é ultrapassado e insignificante), quais lugares, epistemes e sensibilidades podem existir e quais devem ser destruídos. Ariella diz que a fotografia não pode ser separada da temporalidade colonial pelo argumento da sua viabilidade técnica porque, de fato, ela vai corroborar, registrar, documentar esses direitos imperiais que já estavam sendo exercidos pelos europeus desde fins do século 15 sobre as populações e os territórios colonizados. A modernidade, como lembra Mignolo, não é somente um processo estrutural, mas é também uma retórica disseminada através de diferentes e complexos mecanismos.  

A produção fotográfica é um dos instrumentos mais eficazes para a consolidação das formas de ver. Ao longo do século 19, nomes como Augusto Stahl, Marc Ferrez e Christiano Júnior contribuíram para a criação de um vasto conjunto de imagens de pessoas indígenas e negras (escravizadas ou não). Há fotos produzidas na esfera da pseudocientificidade das missões de estudiosos-viajantes que catalogavam os “tipos” nativos para sustentar teorias eugenistas e evolucionistas. Elas mostram pessoas (novamente) despidas, sem identidade, futuro e passado. Há também aquelas tomadas em estúdio, com os fotografados usando roupas e acessórios que reforçam uma visão exótica, pitoresca e desumanizada, corroborando o homem europeu (assim, no masculino e no singular) como modelo civilizatório válido. Facilmente essas fotografias transitavam do universo da ciência ao do mercado de lembrancinhas, pois eram vendidas ao público europeu como carte-de-visite (formato de retratos pequenos e baratos). O espectador final se alimentava de paisagens e personagens não europeus (o que também aconteceu com os filmes de viagem do primeiro cinema), espelhando uma ideia de propriedade sobre espaços e pessoas.  

Na seara da construção de discursos vindos de fora sobre os daqui, as imagens desempenham um papel fundamental, mantendo-se como alvo de intensos debates e escrutínios, e participando de gestos de apropriação e releitura encabeçados por artistas de destaque na cena contemporânea. Em certa atitude antropofágica, que engole, mastiga e cospe esses referenciais à revelia de seus criadores originais, eles realizam, na prática, aquilo que o pesquisador e professor carioca Fernando Gonçalves chamou de fazer das imagens formas-pensamento que suscitam reflexões, revisam percepções e imaginam outras realidades, além de olhar para a história colocando-a em perspectiva.  

Revisitar o passado com os olhos do presente, mas não quaisquer olhos. São olhares situados em um lócus de enunciação inseparável dos processos de apagamento, controle e racialização, e, por isso mesmo, capazes de operar respostas sensíveis e críticas, estabelecendo o compromisso ético e político de elaborar um conhecimento contra-hegemônico através do gesto estético. Aliás, essa leitura que considera a inseparabilidade de estética e política é o que nos permite reconhecer o diferencial de tantas obras atuais, que, ao contrário da perspectiva kantiana dominante na conceituação da experiência estética, não admite o corpo de uma subjetividade criadora como um corpo não político, capaz de se isentar dos marcadores de gênero, raça, sexualidade ou classe no momento de se expressar.  

Ressignificação de arquivos, fabulações críticas (proposta de Saidiya Hartman como estratégia de visibilidade e sobrevivência da população negra) e encenações de mundos possíveis por sujeitos ativos na (re)construção de histórias que fogem ao discurso eurocentrado são algumas das táticas presentes em muitos trabalhos de arte atualmente. A paraense Nay Jinknss, na série fotográfica Do mar ao Rio (2022), se baseia em retratos de Felipe Fidanza (português) e Alberto Henschel (alemão) para criar visões que deslocam a perspectiva exótica e racista original. Rosana Paulino, de São Paulo, retrabalha arquivos fotográficos oitocentistas, mesclando-os a ilustrações e gravuras que recebem várias intervenções, revelando a estreita ligação entre fotografia, eurocentrismo e racismo científico. Gê Viana, de origem maranhense, através das colagens digitais, em Atualizações traumáticas de Debret (2020), projeta situações e ambientes de felicidade, acolhimento, partilha, dignidade e resistência para personagens negros e indígenas ausentes nas obras do francês.  

Rosângela Rennó, André Parente, Eustáquio Neves, Davi de Jesus do Nascimento, Denilson Baniwa, Ayrson Heráclito, Mitsy Queiroz, Edu Monteiro, entre tantos outros nomes da arte contemporânea, têm se voltado às imagens como instrumento de crítica, ultrapassando um viés contemplativo dominante. A partir de recursos, mídias e estratégias de enunciação variadas, têm ocupado papel de destaque para repensar os pressupostos que informam as imagens sobre nós, ao mesmo tempo em que devolvem ao mundo perspectivas alternativas, possibilidades de existência para a negociação constante de discursos atravessados por relações de poder também no campo da arte.  

As perguntas que lancei na abertura deste texto parecem figurar como provocações que estão por trás das inquietações desses artistas contemporâneos brasileiros, mas também de outros territórios onde se desenvolve um pensamento fronteiriço (como dizem Joaze Bernardino Costa e Ramón Grosfoguel), marcado pela relação estabelecida a partir do binômio modernidade/colonialidade. Suas trajetórias estão pontuadas de esforços para revisitar criticamente essa história única contada pelas imagens e gravada em nossa memória cultural.

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A trajetória de Lívia Mattos foge aos caminhos mais previsíveis da música brasileira. Sanfoneira, compositora e instrumentista, ela construiu seu trabalho a partir do cruzamento entre música, circo e formação em sociologia — três campos que atravessam sua maneira de pensar som, repertório e cena. Essa combinação aparece tanto em suas pesquisas quanto em projetos performáticos, como A sanfonástica Mulher Lona, além de orientar sua investigação acadêmica sobre música no circo. 

Paralelamente a essa dimensão de pesquisa e experimentação cênica, Lívia desenvolveu uma trajetória consistente como musicista. Durante anos, integrou a banda de Chico César, circulando por diferentes contextos musicais dentro e fora do Brasil, até consolidar uma carreira autoral — que, na verdade, já vinha de bem antes. 

Na música, seus três discos — Vinha da ida (2017), Apneia (2022) e Verve (2025) — formam uma trilogia marcada pela experimentação sonora. Os trabalhos alternam canção e música instrumental, exploram formações distintas e imprevisíveis, compassos que fogem à regra e uma poesia que dialoga com referências da cultura popular e com pesquisas realizadas em viagens e residências artísticas pelo mundo. Em 2020, Lívia ganhou o Festival da Canção – Ano Aldir Blanc com a música Apneia, além do Prêmio Funarte RespirArte e do Prêmio Jorge Portugal, da Bahia. 

Nesta entrevista, tento revisitar com Lívia seu percurso de vida, música e arte, além de falar sobre como Verve sintetiza muitas dessas investigações. 

Pérola Mathias — Você lançou seu terceiro disco em agosto de 2025, sendo que o primeiro saiu em 2017 e o segundo em 2022, então são quase dez anos. Mas você já tinha uma carreira solo por ter projetos que vão além da música, especificamente da composição. Fala um pouco dessa sua trajetória e da virada para a questão autoral. 
 
Lívia Mattos — Na verdade, até eu começar a gravar o Vinha da ida, em 2016, foram oito anos de maturação. O primeiro show autoral que eu fiz foi no Sesc Pompeia, naquele projeto maravilhoso que retornou agora, o Prata da Casa. Era a Patrícia Palumbo a curadora. Dei uma sorte, porque nessa época eu tinha ido gravar um Vozes do Brasil com ela, acompanhando o Chico César, tocando triângulo, estava chegando em São Paulo. Nesse dia, eu dei uma demo para a Patrícia. 

Mas, antes disso, em Salvador, minha primeira banda foi uma banda autoral que se chamava Feira Moderna, que era só forró. Depois eu entrei numa banda de forró de mulheres, em que eu fiquei três anos. E eu comecei a compor desde que comecei a tocar. Então essa coisa da composição sempre veio na verve do início da minha relação com o instrumento. E eu compunha coisas fora do forró. 

No circo, no Picolino, eu já atuava como artista dentro da companhia. Considero que minha carreira profissional começou nos meus 18 anos, no dia do meu aniversário, 27 de setembro, que foi o meu primeiro espetáculo com a companhia. Essa coisa que falam que autodidata é quem aprende sozinho, eu acho que é quem aprende com muita gente. Eu fui aprendendo com muita gente, nas bandas que eu toquei, no circo, nos forrós, no baile da vida, até eu começar a tomar aula mesmo, que foi já em São Paulo.  

Em 2008, eu saí dessa banda de forró, acabei um namoro e teve um acidente no circo. Foi um negócio bem pesado. E eu estava cursando Sociologia. Era um ritmo maluco em Salvador, estudando Hegel, Marx, trapézio, sanfona. E aí eu falei: cara, preciso olhar minha vida de fora para decidir o que eu vou fazer, porque eu sou muito perfeccionista para ficar fazendo circo e música, que são duas coisas que exigem diariamente do meu tempo, do meu corpo. E a sociologia, essa outra parte, sempre foi uma formação de vida.  

Aí vim pra São Paulo pra passar um mês e fiquei dois anos, porque, no primeiro mês, as coisas foram acontecendo. No primeiro dia, eu conheci Chico César, que é um cara muito importante na minha carreira. Encontrei o Oswaldinho do Acordeon e ele falou: o que é que você precisa? E eu não estava pedindo nada pra ele. Aí ele: você tem gravação do seu trabalho? Eu falei que não. Ele falou: você compõe? Eu falei: eu componho. Aí ele falou: então vamos gravar uma demo. 

O Oswaldinho foi o meu primeiro padrinho, me levou pro estúdio sem me cobrar nada, com os músicos dele, gravou comigo as minhas músicas.  

Então foi aí: no dia em que eu fui tocar esse Vozes do Brasil com o Chico César, eu levei a demo e dei pra Patrícia. Dali a poucos meses, ela me chamou pra fazer o Prata da Casa. E aí eu fiquei na dúvida: o que eu faço com mais segurança é o forró, mas o que eu quero fazer, na verdade, é chegar no Sudeste e conseguir ter um lugar de liberdade com o instrumento, que eu penso muito além do forró. E o embrião, então, do Vinha da ida começou fonograficamente aí.  

Depois eu voltei pra Salvador, em 2010, pra terminar a faculdade. Até então, eu tinha muita crise entre o circo e a música. Quando decidi que era o circo, só aparecia trabalho com música. Quando eu decidi que era música, só aparecia trabalho com circo. E foi indo nesse fluxo, até que, quando eu voltei para a sociologia, eu juntei as paixões.  

Acho que essa parte da história você não conhecia, né? De como foi chegar no primeiro disco, que é um disco de canção, um disco mais fácil. Esse agora, o Verve, eu acho que ele chega no equilíbrio entre os dois, porque o Apneia é pra poucas pessoas. 
 
O Vinha da ida tem muito da sua história, né? Da sua história não só na música, mas pessoal, e é muito solar mesmo. O Apneia já dá uma quebra, mas também tem a ver não só com a pesquisa musical, tem aquele momento tenso que a gente vivia, em 2022, de eleição, e acho que fala um pouco dessa falta de ar em geral, da pandemia. Já o Verve tem uma força solar, mas eu acho que ele traz uma felicidade que não é leve como o Vinha da ida. 
 
Eu concordo, ele é profundo na alegria, né? Eu brinco que Apneia é um disco mais denso, mas, quando a alegria aparecia ali, em músicas como Galego, é como a samambaia que rompe o cimento no meio da rua. Porque o Apneia foi um disco totalmente sem concessão. Foi o disco, dos três, mais fácil de definir o repertório, porque era só o que cabia dentro daquele sentimento. Os outros dois são mais abertos. 

Aí o Verve é como se fosse o equilíbrio de temperatura, mesmo, das duas coisas. Ele tem uma densidade, inclusive musical, na elaboração, na sonoridade, na experimentação, na temperatura. E esse híbrido entre instrumental e canção é uma escolha super difícil de fazer, porque você não ganha prêmio de nada, os programadores não sabem onde te encaixam. De escolha mercadológica, é a pior possível. 

Agora eu posso fazer um disco só de instrumental, só de canção, de novo, ou um disco de forró, ou um disco infantil da sanfonástica, eu posso fazer milhões de coisas, porque eu construí uma fonografia que me representa em muitos lugares. Por isso que eu chamo de trilogia. E eu acho que eu vou continuar ela, na real.  

Como é que você chegou nesse léxico, nessa palavra, “verve”, como conceito e título? Dá para entender, obviamente, mas eu queria ouvir de você. E porque, quando eu estava preparando a entrevista, lembrei disso: nosso professor de política [na Universidade Federal da Bahia], Paulo Fábio, sempre falava da verve política, quase como a ciência como vocação. 
 
Eu não lembrava dessa palavra dentro do contexto acadêmico. Eu lembrava mais no sentido poético. Já usava no meu léxico também, que tem a ver com isso, essa função criativa, de vocação também, do fazer para o que veio. Tem a ver com tesão, né? Estou aqui pra fazer com todo gosto, inteirona nisso. E aí não foi uma palavra que chegou no início, não foi um projeto que foi escrito com esse nome. 

O que fazia sentido, para mim, era esse desenvolvimento de linguagem, estética, sonora, com trio de sanfona, tuba e bateria, num lugar que é quase que essa construção de uma ilha, de você entrar e imergir.  

A sanfona é um som que satura, diferente de um violão, um piano, que você pode ouvir duas, três horas. A sanfona, ela é um médiozão que cansa. Eu sou sanfoneira, sei que cansa. Então, eu queria provocar outras paisagens, outras funções. 
 
Não só esse, né? Porque eu acho que você nunca teve uma formação, digamos, convencional de banda.  
 
Eu sou a inquieta da sonoridade. Como a sanfona é um instrumento muito emblemático, estereotipado dentro de determinados gêneros, de músicas de fronteira, ele é sempre estigmatizado. A minha busca é por propor uma outra leitura dele, mesmo. E é isso que me faz criar um tipo de composição meio diferente. Por isso que minhas músicas têm muito compasso diferente também, para quebrar ritmicamente o 2×4, o 4×4, que é o brazuca tradicional. 
 
E tem uma coisa interessante também: você é uma pessoa da música que sempre está em lugares diferentes da música. Você faz muitas residências, o que não é uma coisa tão comum pra músico de canção, de música popular. E suas residências também nunca são, sei lá, Inglaterra, Paris, você vai pra Costa do Marfim, por exemplo. Tem uma que você fez, que eu não consigo lembrar o nome, há muitos anos, que era um monte de gente do mundo todo. 
 
A One Beat. Essa foi uma alavanca pra mim, no sentido criativo. Eram 25 músicos de 17 países diferentes. Foi no ano do Vinha da ida e foi uma crise, porque era no mês que estava previsto o lançamento do disco. E eu falei: como é que eu vou passar cinco semanas fora? Esperei tanto pra lançar meu primeiro disco, imagina, e eu não vou estar aqui no lançamento do meu primeiro disco pra fazer ele acontecer, com a Natura Musical?  

Eu mandei uma mensagem pra minha amiga, falei: ó, fui selecionada, mas não vou, porque eu estou lançando meu disco. Ela falou: não, você vai, vai mudar a sua vida. Aí eu comecei a descobrir outros músicos que estão há muito tempo escrevendo essa parada que nunca tinham sido selecionados. Fui conversar com o Chico César e saí assim: disco eu vou lançar vários, esse é o primeiro, agora essa residência, quando é que eu vou fazer de novo uma parada dessa?  

E eu comecei a compor diferente, porque eu vi muitas formas diferentes de música numa imersão que me atiçou muito, eu fiquei muito instigada por aqueles músicos da Indonésia, de Taiwan, do Quênia, da Jordânia, do Quirguistão, do Cazaquistão, da Bielorrússia… Eu fiquei louca com aquilo. É muito doido, o mundo é muito grande. 
 
E aí vai aparecendo nos discos… No Apneia tem a faixa Tuk tuk, que eu achei que era para a Índia, mas é para o Egito e tem tudo a ver com a história da música da Bahia. Tem as participações também, no Apneia, que eu acho que você termina com um coco. E no Verve termina com frevo, né? Gente, pra onde ela vai no próximo? Qual vai ser a última música do próximo? 
 
Que é um frevo baiano, né? Um frevo bem de guitarra baiana, né? Você enxerga ali a guitarra de Armandinho, né?  

Exatamente. Armandinho, que está no disco anterior.  

A gente achou um timbre na sanfona que ficava igual a guitarra baiana.  

Mas e as outras participações de Verve? Fala um pouco dessas referências de uma maneira geral. 

Eu sou de uma cidade portuária, litorânea, que é do suor, do salitre, que é uma cidade molhada, salobra, né? Salgada do mar, do suor, da festa, e muito aberta à chegada, desde a colorização, aberta no bom e no mau sentido, nesses trânsitos.  

Então, eu comecei a minha carreira artística num circo que tem uma linguagem antropofágica, uma linguagem tropicalista. O que me fez entrar num circo foi um espetáculo que era em cima da obra de Glauber Rocha, que tinha todas as linguagens, cinema, teatro, poesia, dança, circo, tudo. Uma banda de oito músicos que tocava de Villa-Lobos a música de cultura popular de feiras e rock ‘n’ roll. Minha construção de artista começou no Circo Picolino, e o circo em si é gregário. Por isso que o meu trabalho também tem tanta preocupação visual, na parte estética, porque eu venho desse lugar que penso em tudo mesmo. 

Uma coisa que eu gosto de fazer em todos os álbuns, por exemplo, é botar a cor de cada música. Para eu poder definir que cor vai ser a capa, como vai ser a iluminação do show, com que cenário, eu boto a cor. Às vezes, é mais de uma cor ali naquela música e tal. A construção da identidade visual vem junto com a composição, vem junto com as gravações do disco. 

A sanfona proporciona essa autonomia de você poder viajar muito. Viajei muito sozinha até conseguir, como hoje, viajar com o meu grupo. E, tocando com o Chico César, fui fazendo minha pesquisa de circo. Eu ia tocar com o Chico, sei lá, no interior do Piauí, ficava mais três dias para procurar um circo, entrevistar a galera. 

Caucaia, que está nesse disco Verve, veio daí. Eu estava sem sanfona, fui entrevistar a galera do circo lá do lado de Fortaleza, e tava toda inspirada. Veio a música toda na cabeça e eu tava sem sanfona, porque eu não fui de sanfoneira, fui entrevistar, estava felizona que não estava carregando peso, aí fiquei tristona porque estava sem o meu instrumento pra criar, gravei no celular. Só quando cheguei em São Paulo de novo que fui terminar. Como a música veio da voz, fez todo o sentido chamar uma cantora para participar. E a Varijashree Venugopal é indiana, ela usa o sargam, que é esse modo de você cantar as notas, né? É uma tradição milenar. O forró é um jovenzinho, uma jovem criança, perto do sargam indiano. Já a Senny Camara, senegalesa, traz a cora, que é um instrumento muito masculino, como a sanfona também é masculina. Ela está em Ndoukahakro, música que eu fiz na Costa do Marfim. O Verve tem esses encontros, que vêm desses lugares.  

Para você, como é equilibrar o risco, a experimentação e ainda, de alguma forma, ter essa base cancional que você traz? 
 
Acho que é porque tudo me representa. Eu tenho essas duas vertentes que acho que estão nos três discos. Tirando o instrumental, que só está nos dois últimos, mas eu toco como instrumentista também no primeiro, então também tem o lugar da instrumentista, da cancionista. 

Eu acho que até pro show dá um descanso, porque você vem de uma coisa instrumental, aí você canta, aí você não cansa da voz, não cansa do instrumental, eu acho que dá uma dinâmica. 

Eu gosto muito de começar pelo estranhamento. Eu gosto quando a pessoa chega no meu show, por exemplo, e vai esperando uma sanfoneira nordestina. Ou quando eu estou fora do Brasil: sanfoneira brasileira, vai tocar forró, ou aquele ritmo lá do Brasil que parece com salsa… Tem várias leituras assim. Eu não tenho essa coisa da vanguarda, da burguesa que não quer comunicar. Eu sou do circo, eu gosto de agradar. Eu gosto de comunicar, mas eu gosto de propor, também. 

A coisa que eu mais gosto não é tocar fora do Brasil, é tocar no interior, chegar com esse som e fazer num lugar em que a galera não tem tanto acesso a coisas diferentes. Você vê como a galera compra. É aquela história do Gil, né? O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe.  

Quando eu fiz esse show do Prata da Casa, foi a primeira vez que eu toquei num lugar em que eu não via o público, porque a luz vinha forte, e no circo, no forró, nos contextos de Salvador, você enxerga todo mundo. Eu subi no palco e fiquei perdidaça, porque eu aprendi a ser artista no olho no olho. Como é que faz pra enxergar as pessoas? 
 
É verdade, o circo depende muito da reação, né? 
 
Muito, muito. É a escuta performática, né? É pensar o verbo como verbo ativo, e não passivo. 
 
 

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Com fotos de Derek Fernandes

Estar com a Carol, assim como assistir Downton Abbey, te faz uma pessoa melhor. De postura ereta e bons modos, ela é uma pessoa fina por natureza. Conheci ela recentemente pelo Rapha, nosso amigo em comum, mas tivemos uma conexão muito rápida, com mil afinidades. Já nos encontramos na Amarello e falamos das nossas avós e seus papéis em nossas vidas. Almoçamos no Jaber, no Centro, e depois compramos uma capivara para a Luca, falamos do Francis Mallmann e do tanto que amamos a maneira com que ele faz o trabalho dele.

Ela não sabe, mas a D’Arouche, loja que teve com o David Polak, faz parte da minha vida. Ela ficava no meu caminho de volta do trabalho, quando ia da Líbero Badaró para a rua da Consolação, e todo dia eu parava em frente e ficava admirando, fascinado por aquele mundo gótico-déco e exuberante, cheio de personalidade.

Em um sábado frio de chuva em São Paulo, a cidade cheia de eventos, eu e o Derek nos encontramos em frente ao seu prédio para bater esse papo delicioso, do tipo que está cada vez mais difícil de ter por aí.

Carol, a gente já conversou tanto que eu acho que nem vai ter o que falar na entrevista.

Ah, você tem tudo guardado nessa sua cabecinha?

Não, eu não tenho mais cabeça. Ontem fiquei me sentindo tão burro em uma reunião… O pessoal era tão inteligente. Um era filósofo, a outra, jornalista. E, assim, até sei as coisas, mas não consigo falar, não lembro os nomes…

Você toma magnésio?

Tomo nada.

Você tem que tomar, tá? Eu tomo muito magnésio pra minha cabeça. Porque senão…

Mas você sente diferença?

Gosto de acreditar que está funcionando, né? Senão vou acreditar no quê?

Carol, o que você mais ama sobre casa?

Bom, eu amo casa, né? É um ninho do amor. É o melhor lugar do mundo. Eu amo cuidar da casa. Eu, na verdade, acredito que fui criada para ser uma excelente dona de casa da década de 50, mas infelizmente o negócio não rolou dessa forma. Eu adoro ficar em casa, fazer coisas na casa, mas eu não sou muito habilidosa…

Em qual sentido?

No sentido de que, se eu quero mudar a mesa, foda-se, arrasto a mesa e acabo com o taco. Mas tenho a sorte de que o César é. Você não tem ideia! Ele ama fazer tudo perfeitamente. Ele coloca o saquinho embaixo de onde vai furar a parede, mede meticulosamente com a régua para fazer o furo, tira a sujeirinha e em seguida passa o pano úmido no chão.

Aí junta com a Mariluza, que trabalha aqui em casa, que ama engomar roupa. Outro dia eu ganhei da mãe de uma amiga que faleceu uma sacola cheia de bordadinhos, tipo jogo americano, rendinha, toalhinha, colcha, crochê, só que tudo guardado há um milhão de anos. A Mari lavou e engomou, passou, ficou incrível. Então eu, o César, a Mari e a Joana, que costura, somos super complementares em casa.

É uma função constante, né?

É o meu maior hobby. Eu amo. Pro meu gosto, a casa tá muito boa. Não sei se pro gosto dos outros está, mas pro meu tá…

É tão gostosa uma casa vazia assim. Uma configuração muito original.

Mas isso é uma evolução da minha parte, porque eu já tive tudo isso e muito mais dentro de um lugar até menor. Agora eu tô numa fase mais madura.

A gente vai aprendendo. Quem é ligado em casa vai evoluindo, não mora a vida toda da mesma forma.

Eu sempre falo que eu não quero ser aquela mulher de cabelo preto com biombo chinês. Então eu tento mudar dentro do que eu tenho e também faço muitos rolos, trocas, vendo uma coisa e compro outras. Com o Raphael Nasrallah, já brigamos, nos acertamos, já tivemos todo tipo de intercorrência nos nossos business.

Você faz troca com ele?

Faço direto, mas às vezes não dá bom, porque ele fica muito chateado se não é do jeito que ele quer. Mas eu amo, porque, quando vou na loja dele, quero tudo.

Sabe o que eu tenho com a loja dele? Uma surpresa de acabar comprando peças que eu nunca imaginei que fosse ter e conviver com elas. Ele conhece e sabe de muita coisa.

Porque é uma coisa de surpresa na vida. Eu adoro ir lá e mexer na minha cabeça. Aí ele vem com o xaveco do Habibi, e você fica ainda mais apaixonada com a historinha que ele conta. Quando eu ganho alguma coisa, eu mando foto e ele me dá o parecer dele. Eu nem preciso pesquisar o que ganhei, ele já é minha enciclopédia.

Que legal que você ganha tanta coisa.

Por que você acha que isso acontece? Eu tenho muita sorte. Acho que é uma mensagem que eu mando, porque aprecio tanto quando ganho e dou tanto valor.

Começou com a minha avó, aí meu pai também, a mamãe também… Bom, a mamãe era o oposto, eu chegava na casa dela e falava assim: nossa, que linda! E ela falava: vai, toma!

Meu pai não. Meu pai é um drama. Ele dá também, mas é tudo dele. Ele vem aqui em casa e fala: Carolina, já te falei, essa espanhola não é assim, é assado. É como se tudo fosse um empréstimo.

Esse seu gosto por casa vem dele?

Acho que vem da minha avó, da mãe dele. Ela tinha muito bom gosto. Também tinha uma tia-avó que tinha muita coisa boa, que não tinha tanto bom gosto quanto a mãe do meu pai, mas tinha muita coisa.

Olha, eu não tenho quase nada que comprei aqui. Eu não preciso comprar nada.

Muito curioso.

Eu sou um prazer de dar presente. Mas lógico que tem os presentes que eu, principalmente com meu pai, dou uma forçada de barra.

Como começou sua história com esta casa aqui?

Quando eu vim dos Estados Unidos, eu tinha um apartamento no Largo do Arouche que meu pai reformou pra mim. Perfeito, tudo do jeito que eu queria, até o número de tomadas.

Daí teve a história da D’Arouche, e, quando vim morar no Brasil, tive a Luca, e não tinha mais condições de ter um bebê lá no Arouche. Aí eu aluguei um apartamento aqui na Praça Buenos Aires, e o César, meu marido, morava no Centro. Foram oito anos dessa vida, eu morando com a Luca e ele morando na casa dele. Aí eu passava o final de semana na casa dele, ele passava na minha.

Que delícia!

Foi muito bom, mas, depois de oito anos, resolvemos morar juntos. Para mim, o único jeito que a gente poderia morar juntos, que poderia dar certo, seria morar numa casa com espaço, e aí eu encontrei a casa dos meus sonhos no Pacaembu, numa rua sem saída.

Mudamos e fomos arrumando a casa nos finais de semana, cozinhando, foi tudo muito maravilhoso, até o dia que fomos assaltados e a Luca falou que nunca mais entraria na casa, porque foi bem violento o negócio.

Começamos a procurar apartamento. Em uma semana não achamos nada, até entrar neste. Quando eu olhei, falei: é aqui.

Tiramos tudo da casa e mudamos pra cá muito rápido. Eu acabei guardando muitas coisas, que depois fui trazendo e arrumando aos poucos. Nem pintamos esse apartamento, e só agora o César está fazendo pequenos retoques e tal, mas coube tudo super bem, porque, quando entrei, já pensei no que cabe onde, sabe? Aqui eu vou pôr isso, aqui eu vou pôr aquilo, e as coisas vão se conectando e se formando ao redor.

E o imóvel nos ensina muito também, né?

Sim. A gente tinha uma estante enorme de livros na casa que não coube aqui, e eu achei ótimo, porque, eventualmente, não tem o espaço ou não tem o ambiente, e de repente você força uma coisa que talvez o imóvel não saiba receber.

Fui descobrindo e usando as coisas de outro jeito. Posso trocar o tecido do sofá, sentir a vibe que você está. Eu não queria um monte de coisa quando eu mudei, porque eu não sabia o quão temporário ia ser, mas agora eu acho que eu vou ficar aqui. Eu tô bem, e, no fim, descobrimos que dava super certo morar num apartamento os dois juntos.

Você acha que você transpôs a casa dos sonhos pra cá, de alguma forma?

Acho que, na verdade, eu desfiz o mito da casa dos sonhos, porque esse apartamento aqui sou eu, e talvez aquilo não era, era o que eu gostaria que fosse. Aqui funciona pra mim, é a minha cara, é onde sou feliz.

E o que você acha que a arquitetura desse apartamento te oferece, em termos de bem-estar?

Eu amo o pé-direito de prédio dos anos 50. Pra mim também não dá pra ter outro piso se não for de taco. Tem sido muito bom ficar fazendo a casa com tempo. E amo que cada um tenha o seu quarto. Eu não durmo no mesmo quarto que o César, e adoro isso.

Então, assim, a verdade é que funciona muito bem para mim, porque eu acho que fui criada para ser de apartamento. Morei em Nova York, 15 anos em apartamento, né? Morei em casa duas vezes, por pouco tempo, sempre com a minha família. Eu sou uma pessoa muito, muito, muito urbana. Fui criada assim e sempre vivi assim.

Eu amo os armários, não mexi em nada, nada, nada. Não quero ficar entulhada, sabe? Eu não quero um armário lotado. Então isso, pra mim, tá bom, esse espaço.

Você já foi muito entulhada?

Já fui muito. Casa, armário, tudo. É um jeito de pensar, um jeito de estar no mundo.

Tem uma outra coisa nesse apartamento que eu amo, que é que tem várias portas. As pessoas podem usar a cozinha e ir para o quarto delas e aqui não tem interação, sabe? É muito bem dividido esse apartamento, eu gosto muito disso. Falta um lavabo, mas tudo bem.

Como você acha que a moda impacta o jeito de morar?

Eu acho que sim. Roupa é muito importante pra mim e, realmente, se você pensar em casa e fases da vida, o meu jeito de me vestir conversa com a minha casa. Percebo muito isso.

Quando você vai na casa de uma pessoa e a casa não tem muito a ver com ela, você acha que a pessoa é meio fake, uma pessoa feita de referências de fora, que não são dela. Quem tem a casa e o look bons é um pacote premiado, né? Aí é pedir demais.

Para mim, é o seu jeito de estar no mundo. Como você viaja e o que te desperta interesse, os lugares que mexem com você e a maneira que você vai para esses lugares. Os livros que lê, como se relaciona com os amigos e com a família, como se relaciona com o seu dia a dia, a comida que come. Acho que tudo é uma coisa só.

Eu também acho. Eu gostaria muito, inclusive, de fazer um trabalho de interiores. Porque os produtos relacionados à casa são uma parte enorme de mim. Eu amo mais casa do que roupa, mas a vida me levou a trabalhar com roupa.

A grande verdade é que eu acredito que é uma visão. A minha especialidade é um olhar, e eu consigo olhar com o seu olhar. Tanto para roupa quanto para casa. Para todas as minhas amigas eu dou palpite na decoração, todas mandam foto do lookinho, e elas não saem vestidas de Carol.

E o que significa pra você tomar um cafezinho na casa de alguém?

Como sou uma pessoa que não gosta de festa, de ter várias pessoas numa mesa lotada falando muito, tomar um cafezinho com alguém é muito a minha cara, porque eu gosto de encontros one-on-one.

Eu pratico fervorosamente com as minhas amigas toda semana, encontrando para um café, para um chá ou para um bolinho. São momentos só meus e dessa pessoa, que te convida ou é convidada para a sua casa, cercada das nossas coisas, dentro do seu conforto, trocando e conversando. Para mim, é perfeito.

OBJETO DE CARINHO

Para Carolina, é muito difícil escolher um objeto só, porque ela ama muito todas as suas coisas, mas ao mesmo tempo não é apegada. Os objetos da sua casa quebram, as coisas vão, são de fases.

Tem épocas em que ela está muito apaixonada por um vaso, tem épocas em que está muito apaixonada por um pedaço de pano, mas o objeto do momento é a biscoiteira de prata que nos serviu um biscoito melhor do que o outro.

Essa foi sua última aquisição — presente, herança ou furto da casa do seu pai.

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